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quarta-feira, 18 de março de 2020

Experiências na Cozinha: "As Delícias da Ella Para os Amigos"

Em tempos de uma guerra em que temos pela frente um inimigo invisível há que reforçar o sistema imunitário. Há muitas forma de o fazer mas os legumes de folha escura estão de entre os mais considerados. São muito ricos em cálcio e possuem muita fibra que ajuda ao bom funcionamento do intestino para que não se acumulem toxinas e é um dos pilares do nosso sistema imunitário. Há quem defenda até que o intestino é o nosso segundo cérebro.

Por nos lembrarmos disso, a Palmira e eu, trazemo-vos  uma receita de Verduras Salteadas com Tamari (molho de soja sem glúten). Fácil e saboroso.  Acompanhamos com arroz jntegral. Vejam:






Palmira e Cris

terça-feira, 17 de março de 2020

"As Aves Não Têm Céu" de Ricardo Fonseca Mota

Há livros que não nos pertencem, que não são para nós. E não há problema algum com isso. Li este livro conjuntamente com duas amigas livrólicas. Estabelecemos metas diárias e vamos comentando num grupo criado para esse efeito. Às vezes gosto de ler assim: incentiva a leitura e os comentários servem para melhor percebermos o que estamos a ler. Aqui foi necessário. Uma amiga gostou muito, a outra estava como eu, um pouco às aranhas.

A escrita é algo poética mas a história achei difícil de se perceber no seu todo. Mesmo no final, creio ter ficado com a ideia correta do enredo mas fiquei aberta a outras e diferentes opiniões. Talvez possam existir outros entendimentos e gostava de conversar sobre isso.

Um dos temas tratados é a dor da perda. Um pai sente-se responsável pela morta da sua filha num acidente de carro. Não dorme. Vagueia pela vida sem ter um sentido para ela. Depois existem outros personagens que estão com ele relacionados.

Mas no final do livro, um twist

Terminado em: 9/10 Março de 2020

Estrelas: 4*

Sinopse
Um homem vagueia pelas noites insones, revisitando o passado e a culpa que lhe vai consumindo os dias. A mulher trocou-o por outro e levou consigo a sua única filha, ainda pequena. Na semana de férias em que finalmente pode estar com ela, sofrem um acidente de viação que resulta na morte da filha.

A culpa e o passado cruzam-se neste romance feito de gente que vive no escuro, como o taxista que várias vezes apanha este pai e o transporta pela cidade silenciosa, e os dois companheiros com quem desde a morte da filha partilha o espaço.

Vencedor do Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís 2015, Ricardo Fonseca Mota regressa à ficção com As aves não têm céu, um romance lírico que vem dar voz às sombras que se escondem nos recantos mais obscuros da alma humana.

Cris

segunda-feira, 16 de março de 2020

A Convidada escolhe: “A Mulher que correu atrás do Vento”

A Mulher que correu atrás do Vento”, João Tordo, 2019

Um romance longo, talvez até demasiado longo, constituído por partes datadas, distantes no tempo, mas que se encaixam e formam um puzzle de muitas peças. Tal como os puzzles, tem zonas mais difíceis de completar, outras mais fáceis, peças enganadoras, personagens sobreponíveis e às vezes, quando pensamos que já estamos a chegar ao fim e temos o puzzle resolvido, há um volte face e percebemos que afinal aquele desfecho do puzzle estava errado. O que é romance? O que é fantasia? O que é realidade? O título do livro e a epígrafe, retirada do Eclesiastes «Vi tudo o que se faz debaixo do Sol e achei que tudo é ilusão e correr atrás do vento» são a chave deste romance que tem o vento lá dentro.
No longo posfácio, Beatriz, a narradora, dirige-se a quem a está a ler, como que se explica e escreve a certa altura (p. 428) “Qual é o interesse de uma narrativa? Sobretudo de uma narrativa como esta, que já vai longa e confusa, dividida em múltiplas perspectivas, escrita em vários tons, repleta de vozes diferentes e, por vezes, contraditórias? … Chego à conclusão de que esta narrativa – como todas as narrativas – não trata do que é, mas do que poderia ter sido; não do que foi, mas do que deveria ser.” E à pergunta de Luciano sobre o que ela anda a traduzir/escrever, ela reflecte: “Como podia eu explicar-lhe isto, se não com a enorme perda de tempo de que falava Luciano, esta compulsão inútil de que padecem os escritores, aqueles que escrevem mesmo que ninguém os leia, os que escrevem porque, se não o fizerem, continuarão a correr infinitamente atrás do vento? O tempo perdido de que falava Luciano é a coisa mais importante que existe.” (p.431) Quando no último dia de trabalho no escritório de advogados, Luciano quis saber o que Beatriz ia fazer do resto da sua vida, ela respondeu-lhe: “Vou escrever um livro. Ele riu-se com a sua boca de parvo e perguntou-me sobre o que era. E eu respondi que aquela pergunta era a mais ridícula de todos os tempos, porque os livros não eram sobre nada, nunca ninguém escreveu um livro sobre coisa nenhuma. Os livros eram sobre si mesmos, disse eu, sobre o próprio acto de os escrevermos.” (p. 435). Mas, mais à frente, a narradora dirige-se-nos a nós, leitores/as: “Então chega o momento em que eu explico a razão deste livro, que não é sobre o que foi, mas sobre o que poderia ter sido.” (p. 436)
A Mulher que correu atrás do vento” é um livro sobre a culpa, o remorso, o abandono, a solidão. Um livro que quer resgatar a memória de alguém que ninguém recorda, de alguém que passou pela vida sem ser amado e que partiu cedo de mais. Uma sem-abrigo a quem as instituições não têm a obrigação de dar cama, quando atingem a maioridade. Uma sem abrigo a quem as instituições dão um banho, uma refeição e uma muda de roupa lavada. Lia. Lia poderia ter sido uma mulher com casa, afecto e dignidade.
Beatriz lutava desde o seu tempo de estudante universitária com a tradução de “Ulisses” de James Joyce, ao mesmo tempo que se divide entre gostar e odiar “A História do Silêncio”, um bestseller na época. Carrega a sua bagagem livresca e literária, não se poupando a referências a personagens que se colam às personalidades das personagens do livro, como por exemplo Lisbeth Lorenz ou Graça Boyard, a Violet Venable de Subitamente no Verão Passado de Tennessee Williams. “A Gaivota” de Tcheckov, a obra de Munch ou de Kafka, os escritores malditos Rimbaud, Baudelaire ou Bukowski, “Crime e Castigo” e os clássicos russos, “Um Eléctrico Chamado Desejo” de Tennessee Williams, ou mesmo o filme “Filhos de um Deus Menor”, entre muitos outros, surgem ao longo das páginas do romance e obrigam-nos a que os revisitemos ou conheçamos, para uma melhor compreensão das inúmeras personagens deste extenso romance de João Tordo.
Termino com mais uma citação que considero pertinente e ajustada ao romance: “As coisas começam num lugar distante no tempo e na geografia e, depois, parecem repetir-se infindavelmente, tal qual um relógio cujos ponteiros atravessam a mesma hora todos os dias. Assim é a vida humana: a repetição dos mesmos erros, dos mesmos atalhos, das mesmas esperanças.”


Mouriscas, 24 de Fevereiro de 2020
Almerinda Bento


domingo, 15 de março de 2020

Ao Domingo com... Isabel Tallysha-Soares


Escrever sobre o real
Isabel Tallysha-Soares
(Autora de Eu, do Nada; Da Gaveta e O Homem Manso)

Creio que nenhuma ficção consegue ser mais interessante do que a realidade. O real é tão polivalente, tão inesperado e tão surpreendente que a ficção mais não é do que uma dissimulação da realidade. É por isso que quando me perguntam sobre os meus livros digo que escrevo pseudo-ficção e é, se calhar e também, por isso, que resolvi ter um canal para abraçar a realidade e a encapsular de digital, o House of Tallysha.

Escrevi o meu primeiro romance, Eu, do Nada (Coolbooks, Porto Editora) depois de o jornalista Pedro Rolo Duarte me ter desafiado a escrever o relato romanceado da minha família materna. Nos anos ’90, o Miguel Esteves Cardoso escreveu uma crónica deliciosa sobre nomes estranhos de terras portuguesas. Uma delas era um tal de “Nada” (com um outro nome igualmente nada na vida real) que era a quinta dos meus antepassados e foi sobre o porquê de esse lugar se chamar “nada” que surge o Eu, do Nada. A Porto Editora pegou no livro e publicou-o através da chancela Coolbooks. Depois eu traduzi-o e agora uma editora britânica vai lançá-lo com o título I, from Nothing. Foi a realidade que fez este livro aparecer e a realidade leva-o, agora, a saltar as fronteiras da língua em que nasceu.

O mesmo germinar da realidade sucedeu ao meu segundo livro, Da Gaveta, também publicado pela Coolbooks, como têm sido todos os meus livros em Portugal. Neste caso, o registo veste-se de autobiográfico. Trata-se de uma viagem de auto-descoberta e o romance tem a particularidade de as personagens e os locais não terem nomes. O leitor fará a sua interpretação e, através das paisagens e dos exotismos descritos fará também a sua viagem. Posso dizer que a gaveta que dá nome ao livro existe mesmo e que foi essa gaveta uma das inspiradoras para o romance que começa com a frase enigmática “A Mãe vivia numa gaveta.”

Já no que toca ao meu mais recente livro O Homem Manso, é também baseado em factos e pessoas reais. Aqui, a personagem principal é ficcionada sobre alguém com existência verídica e tão superlativa que todos os episódios cómicos descritos no livro são apenas e só verdadeiros. Não foi precisa imaginação literária para os inventar. O título do livro, por seu lado, é um paradoxo. O homem manso é sobre coragem, é sobre como a mansidão de carácter leva alguém a actos heróicos de profundo amor ao próximo. É também um livro de resgate histórico sobre coisas, pessoas e factos alheios ao conhecimento público e que devem vir a lume para não ficar esquecidos. Foi essa espécie de salvação da memória que também tentei neste livro.

Em suma, o real é apaixonante e tão inspiracional que até parece ficção. Convido-vos, pois, a conhecerem melhor o real que se esconde sob ficção nas páginas dos meus livros.

Um beijinho a todos e um agradecimento especial a “O Tempo Entre os Meus Livros” (que me lembra dos meus blogues, a que não dou atenção por falta de tempo, essa matadora de coisas de gente). Vemo-nos por aí, quem sabe se entre páginas?

Isabel Tallysha-Soares

sábado, 14 de março de 2020

Na Minha Caixa de Correio

  

  

  

Comprados os 2 livros sobre Reiki.
Os restantes foram ofertas das editoras respectivas.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Para os Mais Pequeninos: "O Avô Tem Uma Borracha na Cabeça"


Este deve ter sido o livro infantil mais tocante que li. Talvez porque também eu, à semelhança do autor, senti proximo de mim o terror que é a demência, ou mais concretamente o Alzhaimer, num familiar mais próximo.

Foi com uma grande sensibilidade que Rui Zink tocou neste tema que atinge maioritariamente os mais idosos, os "avós"... As ilustrações, também elas, são muito cuidadas, revelando uma delicadeza que surpreende.

Pouco mais há a referir. Precisam de lê-lo para verem a que me refiro. O título está maravilhosamente atribuído: porque é que o avô tem uma borracha na cabeça e o que podemos fazer para minimizar isso, já que a cura não é possível?

Finamente elaborado, o livro explica a demência aos mais pequeninos. E bem!

Recomendo vivamente.


 




Cris

quinta-feira, 12 de março de 2020

"Uma Família Quase Normal" de Mattias Edvardsson

Um thriller bem estruturado com cabeça, tronco e membros que nos deixa presos aos pormenores para tentarmos descortinar o que está escondido. Dividido em três partes, são descritas as opiniões e modos de pensar dos três protagonistas principais: o pai, a filha e a mãe, repectivamenfe, Stella, Adam e Ulrika. Constituem uma família normal. Ou quase.

Um assassínio, as desconfianças que recaem sobre Stella e a vida desta família entra numa espiral de segredos, revelações e supostas pistas (verdadeiras? falsas?) que levam o leitor a desconfiar se  Stella seria capaz de tal acto.

De leitura que se faz rápida, este é um livro cativante. O leitor é impelido a pensar, constantemente, e uma pergunta paira no ar: E se fosse connosco? O que faríamos se a nossa família estivesse em perigo? Até onde iríamos para a proteger? A resposta, não creio, que divergisse muito de uns para outros... e isso deixa o leitor inquieto. Não vos parece?

O assassinado, apresentado ao leitor sob os pontos de vista dos elementos da família e amigos,  é um homem de carácter dúbio, egocêntrico e controlador. Stella, suspeita principal de ter cometido o crime, também possui um carácter insatisfeito, irascível e é dada a crises de violência.  Quem é o verdadeiro culpado? E mais: merece castigo?

Um livro que recomendo!

Terminado em 4 de Março de 2020

Estrelas: 5*

Sinopse
A perturbadora acusação de assassinato que põe à prova uma família quase normal. Neste emocionante thriller, o magistral contador de histórias Mattias Edvardsson arquitecta uma teia na qual todos se envolvem e nada é o que parece. A história de um crime e a destruição de uma família é contada através de uma estrutura incomum de três partes que mantém o leitor a questionar tudo e todos. Tudo é virado do avesso à medida que a perspectiva muda, uma nova voz assume o controlo e novas sombras são lançadas na luz.

Cris

quarta-feira, 11 de março de 2020

Experiências na Cozinha: "É Vegan, é Fácil"

Não são precisos mais de 10 minutos para fazer a receita destas barritas que vos trazemos hoje, "Barras de pequeno-almoço de tâmaras, aveia e cajus". Já tinhamos os ingredientes em casa mas alterámos alguns, como é já nosso hábito!

Em vez das tâmaras utilizámos pasta de tâmaras e em vez das amêndoas, usámos cajus.

De resto é só juntar num processador os ingredientes, colocar numa folha de papel vegetal e calcar. Colocar no frio durante umas horas. 

Podem embrulhá-las e papel vegetal para poderem levar com vocês para um snack a meio da manhã ou da tarde.

Mas atenção! Elas são perigosas!!! É difícil comer só uma...








Palmira e Cris

terça-feira, 10 de março de 2020

"Águas de Tempestade" de Danielle Steel

Não é o primeiro livro que leio de Danielle Steel e embora não seja um tipo de leitura que faça frequentemente, aceitei o convite do Círculo de Leitores...  É  um livro com uma escrita fluida e que se lê bem. Creio que é destinado a um leitor que goste de romances cujo final se encaixa na perfeição. Eu prefiro aqueles que nos deixam a pensar e onde as portas ficam, se não abertas de par em par, pelo menos não totalmente fechadas.

Contudo, o tema que serviu como pano de fundo - um furacão em N.Y. - é bastante verosímil e foi tratado de uma forma que me agradou bastante. A partir daí a acção entra numa espiral de acontecimentos que prende a nossa atenção. Todas as personagens são atingidas, de uma forma ou de outra, pelo furação que se abate sobre N.Y. e do qual os habitantes não esperam  que se manifeste em grande força, como muitos outros que são anunciados mas que nos últimos minutos se desviam e não caem sobre a cidade.

O enredo vai centrar-se nalgumas histórias que giram à volta deste acontecimento e cujas vidas ficam irremediavelmente marcadas por ele. Mas nem tudo é mau e a vida recompõe-se depois da tempestade.

Estou curiosa com as opiniões que surgirão no clube de leitura que o Círculo de Leitores vai promover nesta sexta feira, dia 13, no Palácio Baldaya, em Benfica, às 19h. Podem-se inscrever através do email comunicacao@circuloleitores.pt.

Apareçam, mesmo que não o tenham lido! 

Terminado em 9 de Março de 2020

Estrelas: 4* +

Sinopse
À medida que o furacão Ofélia se abate sobre Nova Iorque, milhões de pessoas são apanhadas pelas terríveis inundações que a tempestade desencadeia. Ellen Wharton, uma designer de interiores de sucesso, apanha um avião de Londres para Nova Iorque, decidida a visitar a mãe; Charles Williams, britânico e banqueiro de investimento, está ansioso por ver as filhas, que vivem com a sua ex-mulher em Nova Iorque; Juliette Dubois, médica do serviço de urgência, luta para salvar vidas; e Peter Holbrook e Ben Weiss, estudantes universitários curiosos com o desastre natural que se aproxima, recusam-se a abandonar o edifício onde vivem. Seis pessoas, seis destinos que se vão cruzar num dia marcado por uma catástrofe de proporções épicas que revelará quem são os verdadeiros heróis.

Cris

segunda-feira, 9 de março de 2020

A Escolha do Jorge: "O Tradutor Cleptomaníaco"


O Tradutor Cleptomaníaco
Dezső Kosztolányi 
(Editora 34)

“Um departamento de psiquiatria é igual em todo o mundo, como um parlamento. Parece que a natureza, com a equação das doenças psiquiátricas, quer demonstrar o mesmo em todos os pontos cardeais.” (p. 78)

Tradutor, jornalista, poeta e romancista, Dezső Kosztolányi (1885-1936) é um dos nomes incontornáveis da literatura húngara do século XX. Em Portugal conhecemos o escritor através do romance “Cotovia” (Dom Quixote, 2006), além de contos dispersos integrados nas antologias de contos húngaros publicados na década de 40.

Dezső Kosztolányi deu um contributo enorme no que concerne ao romance tradicional, graças à linguagem refrescante que introduz, recorrendo a situações do quotidiano que constituem o pano de fundo das suas narrativas, podendo os leitores reverem-se nas histórias.

Maioritariamente de cariz urbano, as histórias de Dezső Kosztolányi reflectem o dia-a-dia de Budapeste, num período entre guerras, tendo os jardins, cafés, quartos de escritores, salões de conferências e outros locais de convívio, os espaços onde a sociedade deambula e procura ser feliz.

Dezső Kosztolányi acompanhou o desenvolvimento das teorias psicanalistas procurando estudar a complexidade do ser humano, um dos traços mais presentes na obra do autor, subvertendo muitas vezes a realidade, percebendo quais são os obstáculos da humanidade no trilho da felicidade, tentando demonstrar que o caminho a seguir e o sentido da vivência do ser humano reside nas coisas mais simples.

Irónico, mordaz, algumas vezes corrosivo, sarcástico e muitas vezes divertido, Dezső Kosztolányi presenteia-nos com histórias que resistem à passagem do tempo. Graças à sua simplicidade articulada com as preocupações da existência humana, o escritor húngaro mostra ao leitor que a alegria e a felicidade encontram-se nas pequenas coisas, nos gestos simples.

“Kornél Esti” (1933) é a penúltima obra de Dezső Kosztolányi, cuja edição brasileira recebeu o título de “O Tradutor Cleptomaníaco e outras histórias de Kornél Esti” (Editora 34, 1996). Este volume de contos apresenta Kornél Esti como personagem transversal nos treze contos à semelhança da sua última obra “O Olho do Mar” (1936). Kornél Esti apresenta-se como uma espécie de alter ego de Dezső Kosztolányi, em que numas histórias é narrador, noutras é o personagem principal, mas em todas elas, ajudam o leitor a compreender a vida cosmopolita de Budapeste durante os anos 20 do século passado.

Dezső Kosztolányi explora nalguns pontos a linha da literatura fantástica, como por exemplo, no conto inicial, “O Tradutor Cleptomaníaco”, em que o personagem principal rouba os personagens da obra que traduz. A relação da ciência com a literatura é desenvolvida no conto mais extenso, em “O presidente” que nos relata a história de um indivíduo que adormece sempre no início dos discursos das conferências, acordando momentos antes de os mesmos terminarem. Constituindo um objecto de estudo, Dezső Kosztolányi tece fortes críticas aos políticos e à sociedade em geral, aludindo às questões relacionadas com os casos psiquiátricos versus conceito de normalidade, aproveitando o momento para criticar todos aqueles que têm a pretensão de virem a ser escritores quando, na verdade, aquilo que de melhor fazem é provocar sonolência nos leitores, seguindo em linha com o conteúdo da narrativa.

“O fim do mundo” é outra das melhores histórias presentes neste volume em que um dos personagens, seduzido e angustiado pelo fim do mundo nos seus sonhos, vê-se incapaz de compreender o sentido da vida até decidir começar a vivê-la. “(…) Só aquele que está totalmente preparado para a morte é que pode viver, e nós tolos, morremos, porque só nos preparamos para a vida, e queremos viver a todo o custo. A ordem que você vê ao seu redor, na verdade, é desordem, e a desordem é a verdadeira ordem. E o fim do mundo, no fundo, é o começo do mundo.” (p. 124)
Do mesmo modo que Dezső Kosztolányi projectou em Kornél Esti o seu alter ego, dando-lhe liberdade de pensar e agir, contar histórias, as suas histórias, interagir com os demais personagens, discutindo até um com o outro, Dezső Kosztolányi teve de pôr cobro a algo que se tornava insustentável no decurso dos episódios.

Neste sentido, após este conjunto de histórias extraordinárias em que o absurdo se cruza com o inesperado, Dezső Kosztolányi  vaticina algo, não necessariamente insólito, em “A Derradeira Conferência” acontecendo algo de inesperado a Kórnel Esti ou nem tanto assim…, mostrando uma vez mais a sua mestria enquanto contista.

Excerto:
"No meu transtorno, enfiei as mãos no bolso. Encontrei aquele livro que Zwetschke embrulhara, e o abri. Era o Messias de Klopstock, aquela poesia épica em hexâmetros, que – segundo a opinião unânime de gerações – é o livro mais chato do mundo, tão chato que ninguém ainda o leu, nem aqueles que o enaltecem, nem aqueles que o achincalham. Dizem que o próprio Klopstock não conseguiu lê-lo, apenas o escreveu. Abri-o, e comecei a folheá-lo meditativo. Que trecho deveria ler? Tanto fazia. Como sabia que o que o falecido mais prezava na vida era o sossego, e o seu desejo, como o de todos nós, deveria ser o de dormir tranquilamente no caixão, devagar, monotonamente comecei a ler o primeiro canto. O efeito foi espantoso. Uma flor da trepadeira fechou o seu cálice assombrada, como se a noite já tivesse descido. Um besouro caiu de costas na poeira e assim ficou, como que hipnotizado. Uma borboleta, que em círculos sobrevoava o túmulo, caiu do ar sobre a lápide e dormiu de asas fechadas. Senti que os hexâmetros penetravam pelo granito da tumba, até os restos mortais do falecido e que seu sono mortal – o sono eterno – ficava mais profundo com eles.” (p. 81)

Texto da autoria de Jorge Navarro

sábado, 7 de março de 2020

Na Minha Caixa de Correio

  

  

  

  

"As Provadoras de Hitler" foi oferta de uma amiga livrólica.
Os restantes foram ofertas das editoras parceiras.
Uma semana em cheio.

quarta-feira, 4 de março de 2020

"A Rede de Alice" de Kate Quinn

Este é um romance que se lê num ápice, uma trama que decorre em duas épocas temporais diferentes. A primeira passada em 1915, durante a I Guerra e a segunda, em 1947, já após o términus da II Guerra. O fio condutor da narrativa destas duas histórias é Eve, que em 1915 é uma jovem espia, infiltrada como empregada num restaurante, propriedade de um francês colaboracionista, e muito frequentado pela elite alemã.

Em 1947 Eve tem apenas 54 anos mas é descrita como alguém que física e psicologicamente é um destroço da rapariga que foi. É Charlie, uma jovem americana de 19 anos, que vai revolucionar a sua vida de desânimo e álcool. Charlie, a narradora desta segunda parte, está metida em sarilhos mas está fortemente determinada em encontrar o rasto de sua prima francesa que não vê desde o início da guerra.
Que vai unir estas duas mulheres tão diferentes uma da outra e com experiências de vida tão díspares? Que laços as vão unir?

Com uma escrita fluída e atrativa, as páginas desta obra correm entre os nossos dedos e ficamos presas nesta trama intensa e forte. A passagem de uma época a outra é feita sem diminuir a intensidade e sem que o leitor saiba mais que os próprios personagens, mantendo assim, o interesse e a atenção.
Romance, drama, histórias ficcionadas, mas verosímeis, mescladas com factos reais, onde a coragem e a cobardia dos Homens são expostas, revelando situações em que eles se tornam dignos de mérito ou de vergonha.

Sempre ritmado com acontecimentos que nos levam a interrogações constantes e entrelaçando muito bem as duas épocas retratadas, este livro é uma aposta segura para quem quer passar bons momentos de leitura. Recomendo.

Terminado: 28 de Fevereiro de 2020

Estrelas: 5*

Sinopse
Duas mulheres invulgares numa jornada épica de coragem e libertação em tempos de guerra.
Trinta anos depois, atormentada pela traição que acabaria por ditar o fim da Rede de Alice, Eve passa os dias embriagada e isolada do mundo na sua decadente casa, em Londres. Até ao dia em que uma jovem americana lhe bate à porta e a recorda de um nome que Eve tudo tem feito para esquecer.
1947
No caótico pós-Segunda Guerra Mundial, a jovem americana Charlie St. Clair está grávida, solteira e a um passo de ser expulsa do seio da sua conservadora família. Mas Charlie está mais preocupada com o que terá acontecido à sua querida prima Rose, desaparecida em França durante a ocupação nazi. Por isso, quando os pais a mandam para a Europa para resolver o seu «Pequeno Problema», Charlie troca todas as voltas do previamente combinado e desembarca em Londres, determinada a descobrir a prima que adora como a uma irmã.
1915
Um ano depois do início da Primeira Guerra Mundial, Eve Gardiner deseja com todas as suas forças lutar contra os alemães, o que, inesperadamente, acabará por acontecer quando é recrutada para servir os interesses Aliados como espia. Enviada para uma zona ocupada de França, é treinada pela fascinante Lili, nome de código Alice, a rainha das espias, que lidera uma vasta rede de agentes secretas a operar mesmo debaixo do nariz do inimigo.

Cris

terça-feira, 3 de março de 2020

Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Fevereiro

Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Fevereiro.

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org de todos os comentários efetuados no mês passado, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Alexandra Guimarães

Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 15, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:

 

Cris