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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Experiências na Cozinha: Biscoitos Divertidos

Patas de Gato de Chocolate


Bem sei que nesta altura andam todos cheios de doces mas quero-vos mostrar umas bolachichas que fiz para juntar a uns pequenos cabazes de Natal que continham sal aromatizado com limão e ervas, açúcar aromatizado com laranja e vinho doce (aperitivo).

São muito simples de fazer. Adaptei-as à bimby (ingredientes todos juntos, 20 seg, vel 6) mas o livro trás a versão normal.

Ingredientes:

180 gr de margarina à temperatura ambiente
100 gr açúcar em pó
1ovo
300 gr de farinha
1colh. de café de fermento
20 gr de cacau amargo em pó
150 gr de chocolate preto derretido (p/ molhar metade dos biscoitos depois de cozidos. Não usei)

Fazer bolinhas e espalmar com um garfo. Forno pré-aquecido a 180* durante 10m.
Deixar arrefecer sobre uma grelha.




segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

"A Casa com o Alpendre de Vidro Cego" de Herbjorg Wassmo

Quando peguei nesta leitura já tinha ideia do que ia encontrar. Preparada completamente nunca se está, sobretudo quando temos como pano de fundo os abusos, a violência e a discriminação.

Este é o primeiro livro de uma trilogia que quero acabar de ler mal saia em Portugal. Conta-nos um pouco da vida de Tora, resultado de uma paixão entre uma mulher noroeguesa e um soldado alemão, quando da ocupação da Noroega pela Alemanha, na Segunda Guerra. Tora é uma "filha da vergonha" e sem saber bem quem foi o pai sente o ódio, o rancor da população em geral. Para além disso, suporta estoicamente as investidas de um padrasto alcoólico, agressivo e constantemente desempregado e uma mãe ausente, permanentemente a trabalhar para ganhar o sustento da família. É nos sonhos que se refugia e é numa fuga para um lugar bem longe da sua aldeia natal que focaliza a sua atenção e sentidos.

A escrita desta autora é muito forte, bela, rude e delicada, ao mesmo tempo. É pelos olhos desta menina que palavras como "perigo" e "ele" surgem a cada passo na narrativa, insinuando comportamentos da parte do padrasto que não acreditamos serem reais. E voltamos atrás e relemos. Será possível? É! As insinuações do que está para acontecer surgem de mansinho, com palavras serenas até que o horror se instala de facto.

Com personagens psicologicamente fortes e densamente construídos, esta obra, prima pela diversidade de situações que poderiam ter sido reais e que nos revelam, um pouco, da história da Noruega.

Um livro nada fácil de se ler pois é preciso ler um pouco nas entrelinhas mas muito bom. Mesmo! Recomendo!

Terminado em 28 de Dezembro de 2013

Estrelas: 5*

Sinopse


A Casa com Alpendre de Vidro Cego conta, com a simplicidade característica da melhor literatura nórdica, a vida de Tora, uma menina nascida da relação de uma norueguesa com um soldado alemão durante a Ocupação, numa aldeia do Norte da Noruega.
Tora carrega o estigma da desonra que a torna alvo do escárnio dos vizinhos, mas é no lar que terá de enfrentar as investidas do perigo, sofrendo com a ausência da mãe, Ingrid, que tem de sustentar a família, e com os abusos do padrasto, Henrik, um homem violento. Apesar deste ambiente de pobreza e de miséria moral, Tora tem as ilusões próprias de uma menina da sua idade e desenvolve armas para lutar contra as adversidades.
A Casa com Alpendre de Vidro Cego é o primeiro título da trilogia de Tora que nos deixará, a todos, na expectativa de saber como será a vida da menina-coragem.


domingo, 29 de dezembro de 2013

Ao Domingo com... Paulo Bugalho

Aquilo que afinal o avô de Pedro não disse sobre Robinson Crusoe

O que Ulisses procura é a ilha de Crusoe. O regresso faz-se em direcção ao conhecido, à vida média, ao sítio de onde espantámos os monstros. Em lado oposto, sem direito a luta nem trirremes, Crusoe, o moderno, constrói pedaço a pedaço a terra onde não lhe é dado regressar. A viagem dele é ficar no sítio e transformá-lo. Repôr de memória a infância perdida, mesmo que servido apenas por selvagens. Não há mulher paciente para Robinson, nem filho que parta em buscas, mas a viagem não muda. Os heróis regressam todos, sempre, à mesma casa.


Teria dito o avô de Pedro aos visitantes, se o autor tivesse insistido. Pedro, o investigador indeciso, teria recuperado o fio (de Ariadne, diria o avô) até encontrar a origem familiar do mito. Paulo, aspirante a romancista, anotaria o verbo para explorações futuras. Lídia, a última amnésica do Império, teria sido a única a sorrir para fora, para o velho, mesmo sem ter prestado atenção nenhuma à prédica. Formam juntos um triângulo amoroso, diz-se no verso de "A cabeça de Séneca". Mas talvez não seja assim.

Paulo Bugalho

sábado, 28 de dezembro de 2013

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A Escolha do Jorge: "O Eléctrico 16"

O Eléctrico 16 é o mais recente romance de Filomena Marona Beja que confiou à Divina Comédia Editores a sua publicação.

O romance desenrola-se no período entre 1943 e 2012, mais especificamente desde o fim da 2ª Guerra Mundial até às eleições legislativas realizadas em Portugal, em 2012.
Parca em palavras e muitas vezes contida, a escritora não deixa nada por dizer, quer através dos personagens, quer pelo narrador que interage intercaladamente com os personagens à medida que se desenrola a história. Tal como a carreira percorrida pelo elétrico 16, num percurso ribeirinho, partindo de Xabregas até Belém sendo um dos percursos mais longos dos transportes de Lisboa.
Numa espiral sucessiva de passado-presente-passado-presente, somos confrontados com os anseios e receios da população portuguesa tanto de há 50-60 anos atrás, como nos nossos dias, os avanços tecnológicos que tiveram lugar, assim como as expetativas e a esperança face ao futuro que, à semelhança da candidatura do General Humberto Delgado, em 1958, foram defraudadas pelo regime de Salazar. Atualmente também questionamos quais são as expetativas do povo após o ato eleitoral de 2012 na medida em que se tem assistido a um continuado agravamento das condições de vida dos portugueses. A ideia de desconfiança de um sistema democrático que tanto se desejou após quase meio século de ditadura traz cada vez mais a real noção das perdas que entretanto tiveram o seu impacto incluindo em coisas tão simples do dia-a-dia como a supressão de certas carreiras como a do elétrico 16 que dá título ao livro.
A novidade das bilhas de gás, a generalização da eletricidade, as torradeiras, os autocarros que timidamente circulavam em Lisboa, a inauguração do metropolitano, os automóveis, a televisão, os computadores, o iPod, o Facebook, a banda larga, o plasma e até as máquinas de café tão em voga que basta colocar a pastilha e ligar a água são alguns dos vários exemplos de desenvolvimento tecnológico que Portugal tem vindo gradualmente a acompanhar desde os anos 40 do século passado tornando-se, deste modo, um país desenvolvido como os outros países do mundo ocidental.
Do ponto de vista social, também os amores contidos, mas que se desejam, o amor que se quer correspondido, a virgindade que se oferece ao homem que se deseja, o receio de cair em desgraça, os falsos moralismos, os corpos que se entregam ante o olhar indiscreto das vizinhas invejosas que mantêm as janelas entreabertas, o boato que se espalha na proporção da inveja, o olhar cabisbaixo e envergonhado aquando da compra do preservativo, o aparecimento da pílula revolucionária, a gravidez (in)desejada, a parteira que faz desmanchos no Poço do Bispo. Parteira para quem precisa, pecadora aos olhos dos outros. A coragem de assumir uma gravidez sem necessidade de casamento. Outra grande coragem. A mesma facilidade com que se realiza um casamento, também se põe termo a ele com o divórcio, pais que não sabem o que fazer dos filhos, filhos que são o retrato mais fiel dos pais, cada vez mais inconscientes e inconsequentes, prisioneiros das tecnologias e da realidade virtual encarando a vida de forma simples e prática com a resolução à distância de um click.
A liberdade que se ganhou com o 25 de abril de 1974 e que pôs termo à longa ditadura é em si mesma dotada de condicionalismos e contrariedades, nem sempre utilizada da melhor forma e que no entender da personagem principal “a liberdade é uma luta” (p. 251).
O Eléctrico 16 mostra-nos, deste modo, um Portugal repleto de desafios por concretizar perante ganhos e perdas que não tem sabido gerir bem após a «Revolução dos Cravos». O Eléctrico 16 coloca constantemente o passado e o presente do país em confronto encontrando muitos pontos em comum, nomeadamente ao nível político e económico, em que os portugueses pouco ou nada esperam dos sucessivos governos, sendo confrontados com uma espiral de desemprego cada vez mais preocupante, assim como o agravamento das condições de vida que traz consigo a perda de direitos constitucionalmente estipulados.
Da mesma forma que milhares de portugueses se mobilizaram por iniciativa própria, em Santa Apolónia, em 1958, esperando o General Humberto Delgado, também hoje em dia, os cidadãos têm organizado algumas manifestações arrastando multidões para as ruas na tentativa de lhes ser devolvida a esperança num país com um futuro melhor.
A grande questão de fundo de O Eléctrico 16 é precisamente «Para onde caminhamos?»
Filomena Marona Beja presenteou-nos com uma obra que nos obriga a pensar para além do prazer da leitura que nos proporciona tendo em consideração o seu estilo muito próprio, muito contido, mas com sentido aguçado e oportuno.
Filomena Marona Beja desvenda algumas das histórias por trás do seu novo romance O Eléctrico 16:
Excertos:
“Iam apanhar o elétrico a Xabregas. Carreira-16, para Belém.
Em Lisboa acabara de se estrear o metropolitano. Os autocarros, contudo, eram ainda poucos, não chegando a cumprir trinta percursos por toda a Cidade. E nenhum subia à Madre de Deus.
Andava-se de carro-elétrico.
Antes das sete e meia, o bilhete tinha o dobro do comprimento. «Bilhete operário». Custava dez tostões e valia para o regresso. À tarde, depois das cinco.
Por causa do bilhete operário, o Gordo tinha sido preso.
- Injustiça!… Discriminação! – clamara. No Café do Poço do Bispo.
Porquê?!… Porque se haveria de admitir aquele sistema de bilhetes, obrigando os trabalhadores a sair de casa de madrugada? Sim! E só rente à noite se lhes dava direito a regressar.
Entre dentes, mestre Garção avisou:
- Cuidado! Cala-te…
Reparasse em quem acabava de entrar.
O Gordo não quis saber. Repetiu: aquilo era discriminação.
- Os chuis e os guitas andam à borla, sempre que lhes apetece!
Devia era haver um passe social. A ele teria direito quem realmente trabalhasse. Seria válido para todos os transportes, e a qualquer hora.
- … Passe social!
A Pide levara o Gordo nessa noite.
Horas seguidas de perguntas. Em pé e sem o deixarem dormir. Até cair no chão.
«Hipoglicemia», dissera alguém. Talvez um médico.
Acabariam por o soltar, recomendando que não voltasse ao «social». Fosse por causa dos transportes, fosse por outra coisa qualquer.
- Verdade, Avó?!… Isso aconteceu, no teu tempo?
Acontecera.
Nesse tempo, a Carreira-16 era das mais movimentadas.
De segunda a sábado, os carros saíam de Xabregas já apinhados. Sobretudo homens de boné e lancheira a caminho dos estaleiros, das fábricas. Cais do Sodré, Rocha, Alcântara.
Gente pobre. Mal tinha ido à escola. Andara ao trapo. E só levara vacinas quando fora chamada para a tropa.
De resto, tirando a tuberculose, pouco importavam as suas doenças.
A gravidez das mulheres também não. Pariam, sem nunca terem ido ao médico. Sem haver quem as levasse para a maternidade, evitando-lhes a morte. A delas, e a das crianças.
Proletários.
Tão pobres que não pagavam impostos. E nunca o fisco descobriria algo que lhes penhorasse.” (pp. 32-34)
“E acabavam de aparecer as bilhas de GAZCIDLA. Treze quilos e seiscentos gramas de gás butano metidas à força em botijas de aço.
UMA CHAMA VIVA, ONDE QUER QUE VIVA!
Quanto ao GAZCIDLA, a Mãe resistia-lhe.
Deitou contas aos preços da lenha, do carvão e do petróleo. A tal chama viva ficaria mais barata? Ou seria mais dispendiosa? Valeria a pena mudar?
- O que achas, Orlando?
- Por que não?
Considerou que não alcançara resposta. E continuou renitente.
Nisto, a «Campanha dos Santos Populares»!
Durante esse mês de Junho, oferta dos custos do contrato comprando-se esquentador e fogão de três bicos com forno.
Passava tudo dos dois contos e oitocentos. Mas pagavam-se em vinte e quatro prestações.
A Mãe rendeu-se.
Chegou o fogão. Esmalte branco, muito prático a acender e fácil de limpar.
Depois, as bilhas do gás. E com as duas primeiras, viera um brinde. Uma botija-miniatura em plástico prateado. No bojo, uma ranhura para meter as moedas que se poupariam com o GAZCIDLA. E o fundo móvel, para que se tirassem quando fossem precisas.
A Fernanda extasiada:
-Ai menina, um mealheiro… e eu queria tanto um!
- Gostas?… Fica com ele.” (p. 62)
“ Mesmo que as grandes causas estejam proibidas…
Não se apaziguava o povo. E mesmo a medo, continuava a falar-se de Liberdade. A reclamar Justiça.
Contudo, o medo também se vencia.
- … isso há de vir ao de cima, nas eleições que estão aí à porta!
E pela primeira vez, na voz de Joel, um nome:
- Humberto Delgado.
(…)
- O povo vai querê-lo para Presidente!
Fora Joel quem o dissera, no elétrico da carreira 16. O que levava os operários a caminho do trabalho.
Ia haver eleições. Estavam marcadas para junho do ano seguinte.
- … e não pense a canalha da situação que são favas contadas.
Um povo tem o seu amor próprio. Por vezes esmorece e adia a esperança. Bastará, porém, alguém dar um sinal, e reanimará.
- Mas para dar o sinal, e reanimar o povo, é preciso coragem, e inteligência.
- O Delgado é muito inteligente e tem muita coragem!
Chegara a vez do José Emílio falar do General.
- Um homem sem medo!… Se avançar, terá muita gente a apoiá-lo!
Descrevia-lhe o génio, sem aludir ao conhecimento nem à proximidade. Mas com tanto entusiasmo, que o próprio Joel fez um aviso: «Moderação!»
- Zé, resta saber o que é que estes gajos cozinham, daqui até lá.
- Ora…” (pp. 51-52, 109)
“Nada do que José Emílio contava viera nos jornais daquela época. Manhãs e tardes de maio de 1958.
Muito menos passara na televisão. Telejornal a preto e branco, à hora do jantar.
Ao certo, ninguém sabia quem dera a ordem. Apenas que chegara a meio da noite: qualquer alusão ao regresso a Lisboa de Humberto Delgado seria silenciada.
E assim, todas as notícias da campanha do General iam sendo cortadas. Apagadas as imagens. E também as gravações das perguntas que lhe tinham sido feitas. Do que respondera.


(…)


Texto da responsabilidade de Jorge Navarro

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natal 2013



O tempo entre os meus livros deseja-vos um óptimo Natal recheado de muito carinho junto daqueles que mais amam e cheio de prendinhas (livritos, sobretudo)!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Experiências na Cozinha: "Receitas Que Fazem Sonhar"

Já tinha este livro há algum tempo cá em casa e umas sobras de peixe no forno foram o motivo para experimentar um prato dos muitos que me estavam a abrir o apetite deste livro tão singular!

Este livro lembra-me a rubrica que há neste blogue intitulada Escritores na Cozinha, já que a Quinta Essência juntou, e bem, algumas receitas que algumas escritoras desta editora costumam fazer no seu dia a dia: Trisha Ashley, Barbara Breton, Melissa Hill, Michelle Holman, Chryl Holt, Elizabeth Hoyt, Michelle Jackson, Eloisa James, Nicole Jordan, Cathy Kelly, Anna MacPartlin, Teresa Medeiros, Patricia Scanlan, Sherry Thomas e Menna Van Praag. Uma ideia muito gira, que partilho com vocês.

Com algumas adaptações fiz a receita de Anna MacPartlin. Tarde de Peixe, tipo sheperds pie, que entre nós é nada mais nada menos que um empadão. Como manda a receita fiz puré (na bimby, claro!) e reservei. Com restos de peixe cozido, cenoura ralada, alho francês cortado finamente, pimento vermelho cortadinho, ervas e queijo (de soja porque o meu filhote mais pequeno é alérgico) fiz o recheio da tarte/empadão.

Eis as fotos que tirei antes de chamar os miúdos para jantar... Não sobrou nada, para variar!
Acompanhámos com uma salada de alface e tomate.





segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

"Um Céu Demasiado Azul" de Francisco José Viegas


Edição/reimpressão:2013

Páginas:320

Editor:Porto Editora

ISBN:978-972-0-04525-6

Coleção:MARCA D'ÁGUA

Idioma:Português


Até agora não tinha lido nada de Francisco José Viegas. Estava curiosa porque sei que tem publicado muitos livros. Cá na estante mora O Colecionador de Erva, a sua última obra, que ainda não li.

A acção anda à volta de um corpo encontrado na bagageira de um carro. Se esperam um mero policial, com um desenvolvimento assaz rápido então este não é o livro certo para lerem neste momento. A escrita de Francisco Viegas é feita de pormenores, com descrições do que rodeia os personagens e dos seus sentimentos. Devagar, vamos percebendo o contexto que envolve este crime porque os possíveis culpados do assassinato não surgem de imediato no nosso espírito nem sequer no de Jaime Ramos, o inspector encarregue do caso, e de Filipe Castanheira, seu amigo e polícia também.

E tal como os dias que se desenrolam lentamente, é também lentamente que viajamos pelos Açores, por Cuba e pelo México. Um culpado que não aparece, amores que se tornam em desamores, coincidências que se dão e que ajudam a solucionar o mistério de uma forma soft sem grandes momentos de agonia para o leitor.

Fiquei curiosa o suficiente para pegar n'O Colecionador de Erva e para conhecer melhor o personagem criado por este autor e que, creio, estar presente noutras obras suas, o Inspector Jaime.

Terminado em 23 de Dezembro de 2013

Estrelas: 4*

Sinopse


Em Um Céu Demasiado Azul, Jaime Ramos, o protagonista dos livros de Francisco José Viegas, investiga a morte de João Alves Lopes, ex-militante de um partido de esquerda em Portugal que envereda por uma carreira bem-sucedida no mundo da publicidade, e cujo corpo é encontrado no seu próprio carro. A investigação, realizada com a colaboração de Filipe Castanheira, aponta para Amélia Lobo Correia, umastripper que vai de cidade em cidade, uma estudante de filosofia que não conseguiu concluir o curso.

A investigação (que arrasta Jaime Ramos até Cuba e ao México) mergulha no passado e reconstitui uma história de amores não correspondidos, traições, solidão, vontades interrompidas e sonhos desfeitos. Porém, por detrás deste crime e desta mulher, cruzam-se os destinos que arrastam consigo a memória de paixões nunca resolvidas nem consumadas, num Portugal medíocre, novo-rico e hipócrita. É uma história de coincidências e de azar, que leva Ramos e Castanheira a procurar não o autor de um homicídio, mas os sinais do desaparecimento, do abandono, da mentira, da vingança e da solidão.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Ao Domingo com... Valério Romão

Escrever para libertar dos dedos o compêndio de angústias, escrever num ribombar de fúria sobre o teclado, até à febre, não deixar entre as palavras senão o silêncio, deus, o inominável, talvez uma décima sinfonia, o próximo livro, lavar das mãos o fogo mergulhando-as em água fria como espadas por calibrar, estar atento às promessas, às conversas, ao registo telegráfico pelo qual se veiculam os sentidos guardados do sol atrás do reposteiro dos olhos, escrever para não obedecer, para não estar certo, para desalinhar dos desalinhados,
para falhar cada vez melhor, na voz gutural do pai de godot, escrever como estando disponível para o principado da quimioterapia, inverter os sentido de tudo até tudo ter sentido e ser capaz de traduzir a experiência da vida numa experiência viva, estar desperto para o irrisório, para a banalidade, para o homem das multidões, ser ao mesmo tempo clássico e pós-moderno sem partir a marrafa ao meio, reproduzir-se nos clássicos viralmente até morrer nas suas mortes, não ter respeito por nada nem por ninguém e fingir, fingir muito até à confabulação, até o desaparecer do corpo e da vida, ate ser apenas uma história entre muitas e, finalmente, fazer parte da narrativa que traduz o mundo.

Valério Romão

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A Escolha do Jorge: "Última Paragem, Massamá"

Mais rapidamente reconhecemos Pedro Vieira da blogosfera e de vários programas da televisão do que propriamente do meio literário português, no entanto, em 2011, a edição do seu primeiro romance “Última Paragem, Massamá”, em 2011, valeu-lhe o Prémio Revelação do PEN Clube Português.


Conhecendo relativamente bem toda a área suburbana de Lisboa, Pedro Vieira apresenta-nos um romance sólido e bastante consistente que agarra o leitor desde as primeiras páginas só conseguindo parar no final da história que, na verdade, já todos sabemos de antemão o que vai aconteceratendendo ao desenlace final e fatal que é apresentado assim que iniciamos a leitura.

Ainda que a história culmine numa tragédia, o livro retrata-nos um conjunto de pequenas tragédias que se vão adensando à medida que a narrativa avança trazendo o autor para este campo toda uma realidade do dia-a-dia que é comum a milhares de portugueses que se deslocam na sua labuta diária em movimentos pendulares casa-trabalho-casa de comboio do concelho de Sintra para Lisboa

Pequenas histórias que aparentemente nada têm de importante ou interessante e nas quais acabamos por nos rever igualmente nessas mesmas pessoas, revendo-nos igualmente nas suas angústias, desafios e dilemas do quotidiano.

“Última Paragem, Massamá” tem o seu epicentro no complexo triângulopseudo-amoroso Vanessa ama Lucas que se apaixona por João e que acabam por se transformar em laços profundamente solidários fruto da desgraça que bateu à porta dos dois primeiros personagens.

Pedro Vieira apresenta-nos uma história contemporânea despida de aspetos menos inverosímeis levando o leitor a encarar o livro como algo que poderia estar a acontecer consigo ou com os seus familiares e amigos, histórias aparentemente banais, mas que adquirem uma tonalidade mais intensa mediante o caráter trágico a elas associadas.

Para quem acompanha o Pedro Vieira nos vários programas de televisão certamente está habituado ao seu sentido de humor peculiar que não é esquecido neste romance de estreia sem, no entanto, cair em excessos ou mesmo no ridículo, bem pelo contrário. O autor apresenta-nos uma história pejada de humanidade e solidariedade numa sociedade que aparentemente se desvia dessas virtudes perante situações mais angustiantes que as pessoas vivem sem muitas vezes transparecerem aos outros, mesmo às pessoas mais próximas.

Última Paragem, Massamá” é, pois uma surpresa agradável no âmbito da literatura portuguesa dos últimos anos constituindo mesmo uma lufada de ar fresco na forma como a história é narrada.

Excertos:

“Por ora sabemos que Lucas está doente, por culpa própria, Vanessa foi a primeira a apontar-lho. Um dia destes, uma página destas, falar-se-á de João, terceiro vértice deste triângulo, Vanessa não lhe guarda rancor, nem sequer algo que lhe amachuque a disposição.
(…)
Dobrar os joelhos, mexer a língua, coisas que se tiram de letra, se viemos nus ao mundo que mal tem de reforçar a ideia, mostrar o que temos de frágil é que é pior, e encontrar quem nos apare os golpes, isso sim éeuromilhões de orelha, rabo, volta à praça e saída em ombros. Lucas haveria de segurá-la pelos colarinhos da auto-estima. E de pô-la nos eixos da confiança, da casa-trabalho-casa, da necessidade de consolo possível de satisfazer. Depois trataria de partir tudo, baralhar e voltar a dar, irritantemente, sem sair do mesmo sítio. entra João. Mais a doença. Daí sairá Vanessa. Faltam dois minutos e picos, 127 segundos, pouca-terra, pouca-terra, é só o que ela pede. Ou pelo menos que lhe seja leve. Já se veem as pupilas do senhor maquinista, a espiral acaba de começar.” (pp.13-14)

Texto da responsabilidade de Jorge Navarro

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

"Os Livros do Final da Tua Vida" de Will Schwalbe


É-me dificil falar deste livro. O que me vem, de repente, à cabeça, é que é um livro memorável. Intenso e tão profundo que me fez tanto sorrir como ficar embargada, com uma lágrima no olho. E verdadeiro também.

Uma homenagem que o autor faz à sua mãe, falecida com um cancro pancreático. Durante dois anos, aproximadamente, Mary Ann lutou contra o cancro, vivendo o mais intensamente que lhe foi possível, com projectos humanitários (ajuda aos refugiados) no topo da lista das suas prioridades. Sabendo que não teria cura, submeteu-se a vários tratamentos na esperança que os seus dias fossem prolongados sempre com o intuito de finalizar os projectos que tinha em mãos e de preparar os seus familiares para o fim que se avizinhava.

Mas este livro é muito mais do que um tributo de um filho à sua mãe. É um espalhar de como os livros e a leitura podem unir as pessoas, aproximá-las ainda mais em torno de uma conversa sobre eles, mas também, as pessoas, as crenças, os desejos, as vontades. O AMOR.

Mãe e filho formam um "clube de leitura" enquanto esperam pelas consultas no hospital, pelas sessões de quimioterapia. Falar sobre livros ajuda-os a falar na morte, na vida, no amor pelos livros e no amor que sentem um pelo outro. Partilham a paixão pelos livros, sugerem leituras e falam sobre eles. Mary Ann nao é muito efusiva nas suas manifestações de dor. O seu amor pela família, pelos amigos, por todos os que precisam de carinho monopolizam a sua atenção. Dedica-lhes o seu tempo, o seu último tempo de vida.

Com um vício algo estranho para mim, Mary Ann começava sempre um livro pelo fim, espreitando o seu final! Como a vida fez com ela: deu-lhe a conhecer, antecipadamente, o seu final próximo. O tempo que lhe restou aproveitou-o ao máximo. Um exemplo!

Aviso: peguem numa folha e num lápis. De certeza que quando acabarem esta leitura ela estará preenchida com livros que não vão querer deixar de lado...

Adorei!

Terminado em 18 de Dezembro de 2013

Estrelas: 6*

Sinopse


Forçados por uma trágica circunstância, Will Schwalbe e a mãe ficam longas horas em salas de espera de hospitais. Para passar o tempo, decidem falar dos livros que estão a ler. Através das suas leituras, percebemos o quanto os livros são reconfortantes, surpreendentes e maravilhosos.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Experiências na Cozinha: "Cantinho do Avillez"


Com este livro ficamos a conhecer um pouco do Cantinho do Avillez, um restaurante que prima pela qualidade dos pratos que apresenta.

Quando vi a receita de alheira com broa ficaram-me logo os olhos poisados nela: fácil e rápida como gosto. Servi como entrada, um petisco que agradou a todos.

O modo de preparação é simples. Cozi duas alheiras durante 3 m. Tirei-lhes a pele e coloquei-as no fundo de um tabuleiro. Piquei na bimby metade de uma broa pequena juntamente com alguns coentros frescos, durante alguns minutos na velocidade 7 a 9. Depois foi só colocar por cima das alheiras e levar ao forno para que a broa ficasse tostada. Uma delícia!

A próxima receita vai ser algo doce... "Ambrósio, está a apetecer-me algo..."

Aqui ficam as fotos:





domingo, 15 de dezembro de 2013

Ao Domingo com... Isa Pontes

Escrever………..Escrever…………..Escrever……… Uma fome estranha, feita de ansiedades desconhecidas…
Muito pequena, escrevia em papeis que guardavam e andam por aí, amarelados.  Minha mãe até dizia que para me calar, quando bebé, me sentava num bacio e me dava um livro e eu… blá…blá…blá ….
É a minha grande paixão. Pela casa andam soltos papeis e imensos livros onde me encontro e me formo como mulher. 

Quem sou?

Isa Pontes – pseudónimo. Fui para Angola aos 9 anos; vivi,vivi,vivi muito naquela terra amada que fez de mim “ Milionária”. Voltei para terras lusas em 1975, viúva, com cinco filhos. Tinha 34 anos. Hoje, passados  séculos e mares de batalhas, tormentos e grandes vitórias, continuo agarrada aos livros e à escrita. Existem publicações várias, tanto em prosa como em poesia, por vários jornais e livros de poesia colectiva. Alguns prémios, tanto em prosa, como em poesia. O meu primeiro livro foi publicado este ano, em Junho; é uma autobiografia; o título “Milionária”. Preparo a edição de um novo livro, para o próximo mês de Junho que será de crónicas.

E para a Cris, em forma de apresentação, deixo-lhe uma carta ( o próximo livro, além de crónicas, terá várias cartas escritas por Raquel – que sou eu escrevendo para pessoas imaginárias.

Foi a querida Teresa Carvalho que me apresentou no seu Blogue. De mim para si um grande abraço na esperança de que esta amizade literária me faça feliz e me enriqueça ainda mais.

Luísa – Isa Pontes
                                                       



                                                                                                   JINGUNAS

Daniel

Olha, hoje o dia teve contornos invulgares, mágicos. Por isso corro a contar-te o que aconteceu.
As jingunas voltaram outra vez, hoje ao fim do dia, quando as rôlas deixaram de se lamentar e todos os outros pássaros regressaram aos ninhos; muitos entre a palmeira gigante do jardim e outros dentro da romanzeira frondoza e fresca. Já ontem, à mesma hora me tinham visitado.  Andam loucas as jingunas, de imensas asas transparentes, e muitas vêm bater-me no rosto ou pousar-me nos braços. Tem chovido muito e a terra barrenta parece pápa e é assim que elas aparecem.
E também é assim que eu atravesso todo este continente em direção ao norte, para Malanje. Depois de horas de trovoada e chuva intensa eu via formar-se na minha rua - a velhinha Rua Serpa Pinto, já no comecinho da Maxinde -, rasgos de terra vermelha, como se fossem veias de um corpo misteriosamente presente e envolvente... África... Tu sabes...
Passadas horas, as jingunas chegavam e voavam... voavam... tontas, à volta dos candeeiros da rua. Então, a criançada negra saltava de mãos abertas e comiam-nas ali, assim mesmo, por entre gritos de gozo, como se apanhassem um maná caido do Céu.
Não adivinhava, não podia, que todo aquele encantamento, toda aquela magia, acontecendo num pedaço da minha rua, haveria de servir, tantos anos depois, como alimento, também, da minha alma solitária aqui ao sul, numa África que já não conheço, que foi desventrada de todos os seus mistérios e que de jingunas já não entende nada...
Vê lá tu o poder dos pequeninos insetos! Foram eles que vieram animar o meu dia carregado de  desânimo, angústia e saudade, iluminando a minha mente, buscando lá bem no tempo os dias férteis  de uma África que foi minha e que me fez assim numa mulher que, estranhamente se alimenta de jingunas.
Um beijo 
RAQUEL
África do Sul, 9.2.2012                                               

Isa Pontes



sábado, 14 de dezembro de 2013

Na minha caixa de correio

  

 

Resultado do Passatempo: "O Rei do Monte Brasil"

E o vencedor deste passatempo, que teve 219 participações, foi:



- Cristina Torrão de Macedo de Cavaleiros



Muitos parabéns! Boa leitura!



O livro será enviado para a semana que vem, cia CTT.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Convites Matéria-Prima Edições




Convites Alfarroba



Novidades Civilização

Inferno
de Max Hastings

Inferno reflete os 35 anos de pesquisa de Max Hastings sobre a Segunda Guerra Mundial e descreve a trajetória dos acontecimentos, concentrando-se sobretudo na experiência humana, que foi radicalmente diferente de campanha para campanha e de continente para continente. 
O autor destaca a frente russa, onde morreram mais de noventa por cento dos soldados alemães que pereceram nesta guerra. Argumenta que, embora o exército de Hitler combatesse muitas vezes de forma brilhante, os Nazis conduziam o esforço de guerra com “espantosa incompetência”. 
Sugere que a marinha britânica e americana prestaram os mais notáveis serviços de combate dos seus países, mas que o contributo da indústria americana foi muito mais importante para a vitória dos Aliados do que o próprio exército americano. 
Algumas das explicações e comentários de Hastings vão surpreender os estudiosos deste conflito, havendo descrições vívidas de tragédias e triunfos de uma série de pessoas comuns, militares e civis. “O cliché é absolutamente verdade”, afirma o autor. “Entre 1939 e 1945 o mundo viu seres humanos mergulharem na mais profunda vilania, e outros alcançarem o auge da coragem e da nobreza.” Esta é a “história do homem comum”, uma tentativa de responder à pergunta: “Como foi a Segunda Guerra Mundial?”, e também uma visão global do conflito.

TransAtlântico 
de Colum McCann
1919. Emily Ehrlich vê dois aviadores, Alcock e Brown, erguerem-se do massacre da Primeira Guerra Mundial para pilotar o primeiro voo transatlântico sem paragens, desde a Terra Nova até ao Oeste da Irlanda. Entre as cartas levadas no avião, está uma que só será aberta quase cem anos mais tarde. 
1998. O Senador George Mitchell atravessa repetidamente o oceano em busca da promessa de paz na Irlanda. Quantas mães e avós enlutados terá ele ainda de conhecer até ser alcançado um acordo? 
1845. Frederick Douglas, um escravo negro americano, desembarca na Irlanda para promover ideias de democracia e liberdade, e depara-se com uma onda de fome. Nas suas viagens, inspira uma jovem criada a ir para Nova Iorque ao encontro de um mundo livre, mas nem sempre o país cumpre a sua promessa. Dos violentos campos de batalha da guerra civil aos lagos gelados do Missouri, é a sua filha mais nova, Emily, quem acaba por encontrar o caminho de regresso à Irlanda. 

Podemos passar do mundo novo para o velho mundo? Como é que o passado molda o futuro? Transatlantic, de Colum McCann, autor premiado com o National Book Award, é um feito de coragem literária. Complexo, poético e profundamente emotivo, entrelaça histórias pessoais de modo a explorar a ténue linha que separa a realidade da ficção e o emaranhado de ligações que compõem as nossas vidas. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

A Escolha do Jorge: "O Exílio do Último Liberal"


“Naquele ano de 1832 erguiam-se forcas em Portugal e fábricas em Inglaterra”. (p. 9)


É este o mote de abertura do romance histórico “O Exílio do Último Liberal” de Sérgio Luís de Carvalho que nos traz uma história emocionante que tem como pano de fundo a guerra civil que opôs absolutistas apoiantes de D. Miguel a liberais que apoiavam D. Pedro IV.

É neste contexto que Salvador, um estudante de Medicina da Universidade de Coimbra se vê envolvido no grupo dos divodignos que em Condeixa prepararam uma cilada aos lentes da universidade que se dirigiam a Lisboa ao beija-mão de D. Miguel, após o seu regresso de Viena, confirmando, dessa forma, o apoio dado ao rei absolutista. Reconhecidos como criminosos, estes jovens foram alvo de encarniçada perseguição por parte do rei, embora o herói desta obra, Salvador, tenha conseguido fugir para Londres. Ainda que esta parte específica da história seja ficção, o certo é que um dos elementos dos divodignos nunca chegou a ser apanhado, o que torna a história bastante interessante.

Estala a guerra civil em Portugal e Salvador adia o seu regresso ao país natal por ser alvo de perseguição por parte das autoridades portuguesas, acabando por viver à margem da sociedade londrina até porque vivia na clandestinidade. Ainda assim e porque precisava de sobreviver, Salvador acaba por envolver-se em aventuras sem precedentes tornando-se um ressurrecionista ou dito por outras palavras, um ladrão de cadáveres de pessoas pobres cujos corpos eram entregues no Hospital São Tomás, em Londres, tornando-se um assistente de um médico anatomista que pretende desvendar os mistérios do corpo humano estando desta forma ao serviço da ciência.

É neste limbo entre o progresso que se assiste na Inglaterra e a guerra e a destruição que se vive em Portugal que Salvador vive momentos que são verdadeiras aventuras, como também situações de medo e de incerteza face ao seu futuro, interrogações que também coloca relativamente ao seu país.
Numa perspetiva profundamente humanista, Sérgio Luís de Carvalho uma vez mais agarra o leitor logo nas primeiras páginas envolvendo-o na narrativa como se fosse igualmente um personagem da obra, não esquecendo o facto de se tratar de uma obra extremamente visual e dinâmica.

Para os amantes de romances históricos, “O Segredo do Último Liberal” irá marcá-lo de uma forma indelével através da escrita emotiva e envolvente deste escritor. Para quem já leu outros títulos de Sérgio Luís de Carvalho vai certamente apaixonar-se por mais este livro!


Excertos:

“Naquele dia, Salvador mudava o penso a um carpinteiro que deixara que uma plaina lhe fizesse um lenho tão fundo na mão esquerda que só por milagre o polegar ficara inteiro, ainda que meio pendente e apenas unido à palma por uns farripos de nervo, pele e osso. Acabara por ter sorte, que sempre que era a mão esquerda e até se poderia voltar a trabalhar, pois coisa comum era virem parar ao Hospital de São Tomás operários, serventes e aprendizes sem um pé ou sem um olho ou sem um braço e que nunca mais seriam ninguém na vida por já não terem serventia para o meu ofício. O mais certo era acabarem a esmolar ou a fazer parte de um bando ou a terem de ir para um asilo, onde se amanhariam como pudessem para terem uma malga de sopa e uma cama ao fim do dia. Mas o progresso, já se sabe, é assim mesmo: sempre em frente e quem ficar para trás não é digno destes dias gloriosos em que Deus escolhe quem será bem-sucedido e quem fracassará, de acordo com as leis da predestinação e dos negócios.” (p. 217)


“Desesperados, os moços divodignos, reunidos no dia seguinte no número 13 da Rua do Loureiro, exaltavam-se e pranteavam ao ver os seus ideais tão reprimidos. As portadas fechadas das janelas ocultavam o seu desespero; as vozes baixas em que discutiam testemunhavam o seu temor. Salvador olhava os companheiros de fresca data e assustava-se ao constatar que todos eles tinham nos rostos aquela estranha mistura de excitação e medo que nunca nada de bom pode augurar. E quando souberam que daí a uns dias a própria universidade iria enviar a Lisboa uma delegação para participar no beija-mão a D. Miguel, mais ainda se irritaram os seus espíritos e se exaltaram os seus corpos. Teriam d e fazer alguma coisa para impedir tal intento, disseram. Fosse o que fosse, embora mal soubessem o quê… A altas horas da noite, decidiram por fim fazer uma emboscada à delegação que a dissuadisse de seguir para Lisboa e que servisse de prova aos absolutistas que, em Portugal, havia ainda gente livre a resistir e a opor-se ao regresso da velha ordem.” (pp. 281-282)
Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Escritores na Cozinha com... Paula de Sousa Lima

Feijoada de atum

Ingredientes
- cebola
- cogumelos (laminados)
- tomate (aos cubos)
- feijão (cozido ou de lata)
- atum (de lata)

Preparação
Refoga-se a cebola, incorpora-se os cogumelos e depois o tomate. Tempera-se com sal, piri-piri e cravinho. Acrescenta-se o feijão e o atum. Não leva mais de 5 a 10 minutos em lume brando.
Acompanha-se com arroz branco.


Mas Deus não dá licença que partamos

Sinopse
A Ilha é um espaço de clausura, e os seus habitantes metáforas da humanidade. Entre o fantástico e o mais cru realismo se vão tecendo vidas que são símbolos da diversidade da vida. O tempo da guerra e da ditadura restringe existências que já de si são restritas, inscrevendo-se num tempo circular que está prestes a consumar-se.
Não é possível escapar ao fado, este que a Viúva do Dono da Ilha não reconhece quando chega o jovem que desposará. O menino nasce com os olhos vazios, marca do castigo. Há outros sinais, que ninguém percebe antes de chegar o tempo determinado. Mas os desígnios trágicos são incontornáveis, o reconhecimento chegará, eles hão-de pagar pelo pecado que não tiveram culpa de cometer.
A Ilha é do mar, o seu destino é recuperá-lo.

Paula de Sousa Lima