“Levantado do Chão”,
José Saramago, 1980
Este foi dos primeiros livros que li de
José Saramago, há bastantes anos e numa altura em que não
costumava fazer pequenos textos sobre as minhas leituras. Agora, que
estou em vésperas de participar no Roteiro “Levantado do Chão”
promovido pela Fundação José Saramago senti necessidade de reler
esta obra que, na altura, me provocou uma grande emoção, não só
pela forma como o Alentejo é retratado, mas também pelas
semelhanças da família Mau-Tempo com a família do meu marido.
Lê-se este livro e é impossível
ficar-se indiferente à mestria no manejo da língua, à riqueza
vocabular e à análise social e das classes, com o foco no Alentejo
ao longo do século passado. Na contracapa da edição (13ª) que
tenho, pode ler-se “Um
escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi de
poder dizer deste livro, quando o terminasse: «Isto é o Alentejo»”.
A família Mau-Tempo é a protagonista
maior. Várias gerações desde Domingos e Sara da Conceição até
Maria Adelaide, sem esquecer o avô João Mau-Tempo que viveu a
tortura da estátua e o isolamento em Caxias. Todos de olho azul. Da
monarquia passou-se à República mas sem mudanças para a vida do
povo, até que chegou o 25 de Abril e a Reforma Agrária. A paisagem
é o Alentejo, a ceifa das searas, o tirar a cortiça, o trabalho nos
arrozais, ou na vinha. Os homens e as mulheres que só dispõem da
sua força de trabalho, sujeitos ao poder assente em 3 pilares: o
latifúndio (Lamberto, Norberto…) a igreja (o padre Agamedes) e a
guarda (sargento Armamento, inspector Paveia…). A luta contra as
máquinas, pelos trinta e três escudos, por trabalho, pela jornada
das oito horas e quarenta escudos de salário. A luta pela dignidade,
contra a fome e prepotência. O povo, as formigas, a canzoada, quando
não é tratada como carneirada. E também os milhanos que do céu
tudo observam e que, como as formigas, são as testemunhas de tudo o
que acontece no latifúndio.
Luta é resistência e sendo este “um
livro sobre o Alentejo”, a
epígrafe de “Levantado do Chão” dedica-o “À
memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos,
assassinados.” Germano
Santos Vidigal “o homem que
caiu e foi levantado irá morrer sem dizer uma palavra que seja.”(p.
169)… “Que pálido está
este homem, nem parece o mesmo, a cara inchada, os lábios
rebentados, e os olhos, coitados dos olhos, nem se vêem entre os
papos, tão diferente de quando chegou…” (p.
173) “Está morto José
Adelino dos Santos, apanhou com uma bala na cabeça e primeiro nem
acreditou, sacudiu a cabeça como se lhe tivesse mordido um bicho,
mas depois compreendeu, Ah malandros que me mataram , e caiu de
costas, desamparado, não tinha ali a mulher que o ajudasse, fez-lhe
o sangue uma almofada vermelha, muito obrigada.” (p.
314).
A narrativa é densa, o narrador escreve,
divaga, reflecte, antecipa acontecimentos futuros, dialoga com o
leitor, não poupa nas palavras, ironiza. Como escreve na pág. 310
“São exageros no narrador”.
“Todos os dias têm a sua
história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o
descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não
falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se
pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que
pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais.” (p.
59). “Não foi a conversa por
diante, nem já interessava, porquanto pôde o narrador dizer quanto
queria, é o seu privilégio…” (p.
279). E vai-nos contando o que se passa lá fora e que vai chegando
ao Alentejo: a República, a guerra, o atentado a Salazar, a
emigração para a França, o general Delgado e a fraude eleitoral, a
fuga de Peniche, o Santa Maria, a índia e o fim do império, a
guerra colonial, o assalto ao quartel de Beja e finalmente o 25 de
Abril e o primeiro 1º de Maio. Para o povo o trabalho quando o
havia, duríssimo e mal pago, a resistência, organização e luta.
No terreno, os capatazes e a guarda asseguram que o poder do
latifúndio e da ditadura não são beliscados. “O
feitor é o chicote que mete na ordem a canzoada. É um cão
escolhido entre os cães para morder os cães.” … “uma espécie
de mula humana, uma aberração, um judas, o que traiu os seus
semelhantes a troco de mais poder e de algum pão de sobra.”
(p.72).
A escrita de Saramago não esquece o mau
viver das mulheres, o come e cala, “De
mulheres nem vale a pena falar, tão constante é o seu fado de
parideiras e animais de carga.”
(p.125), mas os tempos mudam e elas também querem lutar ao lado dos
seus companheiros “Gracinda
Mau-Tempo também quis vir, já não há quem segure as mulheres,
isto pensam os mais velhos e antigos, mas não dizem nada…”
(p.310).
Muito mais e melhor se poderá dizer e
escrever sobre este romance extraordinário, uma verdadeira lição
de história, de resistência duríssima contra um poder ditatorial
em que o Latifúndio, a Igreja e o Governo estavam de braço dado,
mas contra o qual o povo lutou para se levantar do chão.
8 de Outubro de 2023 ( 25 anos depois do
dia em que foi anunciado o prémio Nobel da Literatura de 1998
atribuído a José Saramago)
Almerinda Bento