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sábado, 12 de janeiro de 2019

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Os restandes foram ganhos nos passatempos do JN.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

A Escolha do Jorge: “Cartas a Milena”


“Sim, a tortura, para mim, é extremamente importante, eu não me ocupo com mais nada senão com ser torturado e torturar.” 
(p. 206)

Amar Kafka… Sim, creio que depois de ter lido algumas das obras de Kafka, e de ter mergulhado nestas cartas, é o pensamento que me vem à mente. Um amor literário, por palavras, ideias tendo por base sentimentos e vivências do autor, parece-me ser esse o pensamento a transmitir.

Contextualizando, esta obra corresponde à compilação das cartas de Franz Kafka (1883-1924) enviadas a Milena Jasenská (1896-1944), a sua tradutora do alemão para a língua checa, que residia em Viena, ao longo de 1920, numa primeira fase, quando o escritor se encontrava a recuperar num sanatório em Merano, na Itália, e mais tarde, em Praga.

É notório o tom mais formal nas primeiras cartas na forma como Kafka se dirige a Milena, iniciando as mesmas com “Cara senhora Milena”, mas percebendo a abertura e as dificuldades económicas e até problemas conjugais da sua interlocutora, Kafka rapidamente percebeu haver espaço para o coração de ambos ainda que se tratasse de uma relação condenada à nascença por várias razões. Neste sentido, durante praticamente um ano desenvolveu-se uma relação amorosa, epistolar, platónica em certa medida, entre Kafka e Milena, entrando ambos numa roda viva de cartas e telegramas a circular, chegando Kafka a escrever duas e três cartas por dia, tal era a inquietação do autor à data.

Todos conhecemos o universo de Kafka a partir das obras de Kafka, mas lendo estas cartas, num tom mais intimista, percebemos as ideias que mais caracterizam a sua escrita, como o medo, a sujidade, o sofrimento, a tortura, a inquietação, a burocracia trazida pela modernidade, não esquecendo a culpa, a culpa de existir.

Kafka afirma “Sim, a tortura, para mim, é extremamente importante, eu não me ocupo com mais nada senão com ser torturado e torturar.” (p. 206) Ao longo destas cartas, compreendemos que é o próprio Kafka quem transforma a sua vida num inferno. Kafka é um herdeiro exemplar da cultura judaica e lemos inúmeras vezes a sua fragilidade física, mas também a sua incapacidade de compreender o mundo. Kafka quase pede perdão por existir e, como tal, é-lhe imputada uma expiação, mas carece de força para tal. Há uma passagem em que de certa forma podemos comparar Kafka a Atlas que carrega o peso do mundo e também a Jesus que expia os pecados da humanidade. “(…) Não posso trazer o mundo aos ombros, aos ombros mal suporto o meu sobretudo.” (p. 208)

Esta ideia em torturar e ser torturado ‘ad eternum’ acompanha, de um modo geral, estas cartas. Um dos exemplos, talvez o mais marcante, é a dificuldade em marcar a visita de Kafka a Milena, em Viena, durante quatro dias. Chega a ser cómico tanto quanto desesperante determinar o dia, o transporte, a ligação, o horário, o encontro, e quando aparentemente combinado, eis que surge a indecisão em relação à partida para Viena. O medo que rói e mina por dentro a consciência que se vê culpada e que reflecte uma culpa milenar está sempre presente nas palavras de Kafka.

Se por um lado ficamos a conhecer o lado mais doce e terno de Kafka, e também sedutor, percebemos também da sua necessidade de amar e ser amado urgente e incessantemente, não esquecendo o facto de Kafka ter rompido dois noivados com outras duas jovens antes de ter conhecido Milena. Kafka surpreende-nos com uma declaração de amor a Milena ao ponto de a mesma ter sido sublinhada pelo próprio, como forma de enfatizar as palavras e sentimentos. E sim, como leitores, talvez não esperássemos conhecer este lado mais terno de Kafka, o que lhe confere uma dimensão mais humana em contraponto com a natureza das suas obras. “(…) E eu amo-te, ó de compreensão lenta, como o mar ama um seixo minúsculo que tem no fundo, é exactamente assim que o meu amar-te te inunda (…).” (p. 149) “Já dantes, antes de dizeres que às vezes, ao escrever, pensas em mim, eu sentia que os teus artigos tinham relação comigo, quer dizer, apertava-os contra mim, agora que o disseste expressamente, sinto-me quase mais receoso nesse aspecto e quando, por exemplo, ouço falar, no artigo, de uma lebre na neve, quase me vejo a mim próprio a correr.” (p. 166)

É ainda no sanatório, em Merano, na fase inicial desta relação epistolar, quando Kafka ainda se dirigia a Milena na terceira pessoa, que o próprio se refere ao medo como uma característica comum a ambos. O medo funcionou como o elemento catalisador desta relação face à necessidade de encontrar alguém semelhante e que tão bem compreendia o outro. “Somos tão tímidos e ansiosos que quase todas as cartas são diferentes, quase todas se assustam com a anterior e, mais ainda, com a carta de resposta. A Milena não é assim por natureza, é fácil de ver, e eu, talvez mesmo eu não o seja por natureza, mas já quase se transformou em natureza, só passa com o desespero e, no máximo, também com a ira e, não esqueçamos: com o medo.” (p. 45) Nesse mesmo dia, a 10 de Junho de 1920, numa segunda carta dirigida a Milena, Kafka dirige-se-lhe na segunda pessoa, passando a ser regra doravante.

Sensivelmente a partir desta data, Kafka entra numa roda viva de ansiedade em registo quase desesperante com o envio de cartas a Milena. Percebemos da sua inquietação no que respeita ao envio e receção das cartas e telegramas ao longo de vários meses devido às múltiplas referências sobre o serviço de correios. Esta ansiedade é uma das características sobejamente conhecida das obras do autor, mas que, também, na vida privada, se torna superlativa, a ver pelo seguinte excerto: “Estive todo o dia ocupado com as tuas cartas, em sofrimento, em amor, em cuidados e num medo completamente indefinido, cuja indefinição consiste sobretudo em ser desmedidamente superior às minhas forças.” (p. 168)

Este medo, sofrimento, esta incapacidade de compreender o mundo, de certa forma a alienação com que Kafka se vê a braços reflectem a corrente expressionista que, a partir da pintura, também veio a ter eco na literatura, como é visível nas obras do autor. As suas obras fazem, contudo, a fusão entre o expressionismo e o surrealismo, corrente que surge nos anos 20, mas que, atendendo à natureza das obras de Kafka, podemos afirmar que o autor se inscreve como um dos precursores desse movimento.

O medo, o medo, sempre o medo e novamente o medo é a palavra-chave destas cartas dirigidas a Milena. À medida que Kafka se torna obsessivo nesta relação epistolar com Milena, ficamos com a sensação que, em certos momentos, o autor sente a necessidade de aludir ao peso da herança judaica e tudo aquilo que ela representa na contemporaneidade e na forma como os judeus são vistos perante os outros. Neste sentido, à medida que Kafka ganha consciência do amor que nutre por Milena, aumenta também a ideia da sujidade, uma sujidade ancestral, e à medida que esse amor se desenvolve, mais difícil se concretizará a ideia de salvação, daí que a perda seja iminente, inevitável. “Sou sujo, Milena, infinitamente sujo, por isso faço uma tal gritaria sobre o asseio. Ninguém canta de maneira mais pura do que os que estão no mais fundo dos infernos; o que julgamos ser o canto dos anjos é o canto deles.” (p. 167) “O que é terrível é tu fazeres-me tomar muito mais consciência da minha sujidade e – sobretudo – isso tornar-me a salvação tanto mais difícil, não tanto mais impossível (é impossível de qualquer maneira, mas aqui o impossível intensifica-se).” (p. 195)

Esta consciência de impossibilidade em concretizar o amor para lá da relação epistolar vai gerar o ressentimento e, com ele, o fim desta relação que, na verdade, nunca existiu. Este amor em tormentas que despertou todos os medos e fantasmas de Kafka conduziu também à inevitabilidade da perda. No início de Outubro de 1920, Kafka tem um laivo de consciência pondo fim a toda esta situação para bem de ambos, tornando-se parca a correspondência entre os dois a partir de então. O medo em concretizar o amor é substituído pelo amor face ao indeterminado. “Milena, porque é que falas na tua carta do futuro em comum, que nunca vai existir, ou é por isso que falas dele? Já quando uma vez à noite, em Viena, falámos por alto disso, tive a sensação de que estávamos à procura de alguém que conhecíamos muito bem e de quem sentíamos muito a falta e a quem, portanto, chamávamos com os nomes mais belos, mas não veio a resposta; como é que ele podia responder, se não estava ali, nem em nenhum sítio ao nosso alcance.” (p. 197)

À medida que as cartas vão sendo redigidas, somos levados a crer na inevitabilidade do fim da relação epistolar entre Kafka e Milena dado que, várias vezes, Kafka apela a Milena para que não lhe volte a escrever. Por vezes o apelo é sério, mas também acaba por se tornar contraditório, ora não se tratasse de Kafka que, não estando bem com a situação, também não iria ficar melhor pondo cobro à relação, tornando-se assim numa situação caricata, cómica, mas tortuosa, para si, para Milena, mas também para o leitor. Creio que é este misto de inquietação e loucura, mas também imprevisibilidade que está na origem daquilo que comummente se passou a designar por kakfiano. “Ontem, aconselhei-te a não me escreveres todos os dias, continua a ser essa a minha opinião hoje, e seria muito bom para nós ambos e aconselho-to hoje outra vez e ainda com mais insistência – mas, por favor, Milena, não faças como eu digo e escreve-me todos os dias, pode ser só uma carta muito curta, mais curta do que as cartas de hoje, só duas linhas, só uma, só uma palavra, mas a falta desta palavra provocar-me-ia sofrimentos atrozes.” (pp. 104-105)

São muitos os elogios que Milena Jesenská (Pollak, nome de casada) tece a Frank (nome como habitualmente se dirigia a Franz Kafka) nas cinco cartas dirigidas a Max Brod, aqui também compiladas, entre Julho de 1920 e Julho de 1924. Durante os meses em que durou aquela relação epistolar, num jogo de gato e rato, a ver pelas cartas de Kafka, Milena fez um retrato fiel do seu correspondente, o que nos permite construir a ideia de um Kafka de carne e osso para lá do Kafka escritor, ainda que o primeiro seja o motor do segundo. “É absolutamente incapaz de mentir, tal como é incapaz de se embebedar. Não tem o mínimo refúgio, não tem abrigo. Por isso está exposto a tudo aquilo de que nós estamos protegidos. É como uma pessoa nua no meio de gente vestida. (…) Os livros dele são espantosos. Ele próprio é muito mais espantoso.” (p. 233) O que eu acho é que todos nós, o mundo inteiro e todos os seres humanos, estamos doentes e ele é o único são, que compreende as coisas correctamente e as sente correctamente, é o único ser puro.” (p. 236)

No obituário de Kafka, publicado no ‘Národní Listy’ a 6 de Junho de 1924, dois dias após o falecimento do escritor, Milena Pollak escreve: "Era tímido, ansioso, doce e bom, mas os livros que escreveu são cruéis e dolorosos. Via o mundo cheio de demónios invisíveis, que fazem o ser humano desprotegido em pedaços e o destroem. Era demasiado lúcido, demasiado sábio, para poder viver, demasiado fraco para lutar, fraco como são as pessoas nobres e belas, que são incapazes de travar combate com o seu receio da incompreensão, da falta de bondade, da mentira intelectual, já que conhecem antecipadamente a sua impotência e envergonham o vencedor ao sucumbir. Ele conhecia as pessoas, como apenas alguém com grande sensibilidade nervosa pode conhecer, alguém que está só e reconhece o outro de modo quase profético por um único brilho momentâneo do olhar. Conhecia o mundo de uma forma incomum e profunda, ele próprio era um mundo incomum e profundo. Escreveu os livros mais significativos da literatura alemã recente (…). (…) Todos os seus livros descrevem o horror de uma incompreensão misteriosa, de uma culpa inocente entre os seres humanos. Ele era um artista e um homem com uma consciência de tal forma sensível que conseguia ouvir mesmo lá onde outros, surdos, se julgavam em segurança.” (pp. 240-241)

Milena Jesenská foi presa pela Gestapo, em 1939, tendo sido deportada para o campo de concentração de Ravensbrück onde viria a morrer em 1944.

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A Convidada Escolhe: "Gaspar, Belchior & Baltasar"



Gaspar, Belchior & Baltasar
Michel Tournier
1980
Um livro para ser desvendado em Dia de Reis. Uma revelação. Quem não sabe os nomes dos três Reis Magos? Que prendas levavam? E quais as motivações iniciais? Queriam mesmo homenagear o menino nascido em Belém? E se afinal houvesse outro rei de que não reza a história, porque não chegou a tempo de adorar o menino que, entretanto já tinha partido?
O primeiro narrador é Gaspar, o rei negro de Méroe. Logo no início, o seu astrólogo revela-lhe a chegada de um cometa. Numa ida ao mercado de Baaluk para comprar camelos, compra também dois escravos fenícios, louros, um rapaz e uma rapariga. A verdade é que Gaspar se apaixona por Biltine a rapariga fenícia, mas descobre-se que ao contrário do que diziam Biltine e o outro fenício não eram irmãos, mas sim amantes. O rei ficou desnorteado e o astrólogo sugeriu-lhe que partisse em viagem, que seguisse o cometa e assim esquecesse aquela paixão não correspondida.
No caminho, encontrou Baltasar o rei de Nippur. Baltasar era um esteta. Amante da arte e coleccionador. Era já velho, mas gostava do luxo, do prazer e da alegria. A sua viagem tinha como objectivo adquirir arte. Os tesouros que coleccionara tinham sido destruídos pelo fanatismo do clero que se opunha às imagens, tal como cinquenta anos antes, quando era criança e tinha a paixão de caçar borboletas, lhe tinham destruído a sua mais bela borboleta: a Cavaleiro-Baltasar. A ideia de seguir o cometa, que para os astrólogos era sinal de desgraças, era para Baltasar um bom augúrio. Seguiria a cavalo aquela “borboleta de fogo” e levava mirra que era usada pelos embalsamadores egípcios. Estava a dois dias de chegar a Hébron quando encontrou a caravana de camelos do rei Gaspar.
Por fim, Belchior, o príncipe de Palmira. “Sou rei, mas sou pobre. Estou só, se exceptuar um velho que nunca me abandonou.” O velho é Baktiar, o seu antigo preceptor. Belchior, filho do rei Theodeme teve de fugir de Palmira para evitar a morte certa por parte do tio que usurpou o trono que devia ser dele. Belchior apenas traz consigo uma moeda de ouro com a efígie do pai. De resto, ele e Baktiar não passam de dois vagabundos deslocando-se a pé. Vão encontrar os outros dois reis – Gaspar e Baltasar – em Jerusalém, que aguardam ser recebidos por Herodes. Baktiar vai interceder junto a Gaspar e Baltasar para que Belchior os possa acompanhar e se faça passar por um pajem da sua comitiva.
Herodes é um rei cruel e sangrento, há 37 anos no poder. Está velho, doente e só. Todo o seu reinado foi marcado por discórdia, traições e luta pelo poder por parte da família e da corte e Herodes chega aos 74 anos com um grave problema de sucessão. Herodes recebe os três reis e conta-lhes a história de outro rei Nabunassar III sem sucessor cuja barba foi sendo arrancada pelo a pelo por um pássaro branco para construir o ninho. Para Herodes, o cometa não é senão o tal pássaro branco que o rei Nabunassar perseguiu. Há que seguir esse cometa até Belém onde parece que nasceu o salvador do povo judeu. Herodes nomeia Gaspar, Baltasar e Belchior plenipotenciários do reino da Judeia e pede-lhes que depois de encontrarem esse reizinho dos judeus regressem à corte para lhe contarem o que viram.
Caminharam na direcção da estrela eriçada de agulhas no ar gelado. Avançaram com um passo sideral e cada um deles possuía um segredo e uma maneira de andar. Havia o que se deixava embalar pelo furta-passo do seu camelo e que via no céu negro tão-somente o rosto e os cabelos da mulher que amava. Havia o que inscrevera na areia o traço diagonal do trote da sua égua e que via tão-somente no horizonte o borboletear de um grande insecto cintilante. Havia o que andava a pé porque perdera tudo e sonhava com o impossível reino celeste. E os três tinham ainda os ouvidos cheios de uma história pejada de gritos e de horrores que lhes fora contada pelo grande rei Herodes, e que era a história deste, a história de um reino feliz e próspero, bendito pela arraia-miúda de camponeses e artesãos. E os três tentavam imaginar, cada um à sua maneira, o reizinho dos Judeus para o qual Herodes os remetera na companhia do seu pássaro branco.”
Regressados de Belém, de adorarem o menino Jesus, aquela visão de uma criança duma família humilde, aquecida por um burro e um boi, foi para os três reis uma revelação. Os motivos que os tinham conduzido até Belém – o amor, a arte e a política – tinham ficado ofuscados por aquela lição de amor, de respeito pelos outros, de humildade e grandeza. “Mas então tudo se tornava confuso nos seus espíritos, porque esse Herdeiro do Reino misturava atributos incompatíveis, a grandeza e a pequenez, o poder e a inocência, a plenitude e a pobreza. Era preciso caminhar. Ir ver. Abrir os olhos e o coração às verdades desconhecidas, apurar os ouvidos às palavras extraordinárias. Caminhavam, pressentindo com um terno júbilo que talvez uma nova era se estivesse a abrir sob os seus passos.”
É no regresso de Belém e de partida para os seus destinos que encontram Taor, príncipe de Mangalore. Muito jovem, despreocupado, os seus interesses não vão além da arte da pastelaria. O objectivo que o tinha levado a preparar uma caravana de cinco elefantes apetrechada com os melhores doces era encontrar o Divino Doceiro que lhe desse a receita de uma iguaria que tinha provado à base de açúcar e pistácio.
Quando chegou a Belém, Taor já não encontrou o Menino Jesus e os pais que tinham partido para Nazaré. O recenseamento já tinha terminado e Belém estava calma. Enquanto Taor dava um grande banquete com todas as guloseimas que os seus elefantes transportavam às crianças com mais de dois anos no jardim dos cedros, em Belém os exércitos de Herodes massacram todas as crianças recém-nascidas e até aos dois anos de idade. Este acontecimento trágico é o ponto de viragem na vida de Taor, até então tão alheado do mundo real e só virado para os prazeres da doçaria. Decide seguir sozinho e libertar a sua comitiva para poderem regressar a casa. “Metemo-nos numa viagem que prometia ser agradável, prevista, limitada, sobretudo pela frivolidade do seu objectivo. Esta viagem foi assim alguma vez? Tenho dúvidas. Em todo o caso, terminou numa certa noite em Belém, quando as crianças se regalavam e os seus irmãos morriam. A partir daí, foi outra viagem que principiou, a minha viagem pessoal, que não sei onde me levará nem se a cumprirei sozinho ou com um companheiro. Cabe-vos decidir. Não vos despeço nem vos retenho. Sois livres!»
Chega ao Mar Morto e a Sodoma. Apenas o seu tesoureiro guarda-livros o acompanha. Depara-se com o caso de um homem casado e com filhos que foi a julgamento por motivo de uma dívida e que se arrisca a ser condenado à morte. Em face disso, Taor oferece-se para pagar a dívida em falta, mas como o dinheiro que ainda possuia já era muito pouco, fica como prisioneiro a trabalhar nas salinas. Serão 33 anos de trabalho e sacrifício extremos. Entretanto, começa-se a falar de um pregador a quem chamam de Nazareno e que faz milagres, alguns relacionados com alimentos que distribui às multidões que o seguem. Terminada a pena, Taor é libertado e busca o tal Nazareno. Primeiro Lázaro e depois José de Arimateia falam-lhe que Jesus e os amigos estão a celebrar a festa pascal.
Mas mais uma vez, Taor chega tarde. Jesus e os doze apóstolos já tinham abandonado a sala do jantar. Cheio de cansaço e de fome, Taor bebeu algum do vinho deixado nas taças semi-vazias e comeu restos de pão ázimo deixado sobre a mesa. Desfalece, mas é amparado e levado por dois anjos.
A espiritualidade perpassa este livro maravilhoso de Michel Tournier, em que é recriado o tema dos Reis Magos. Gaspar, Belchior e Baltasar seguiram o cometa, movidos pelo amor, pelo poder e pela arte e ofereceram o que tinham – incenso, ouro e mirra – a uma criança humilde a que chamavam salvador do povo. Taor, um jovem frívolo e impreparado, ganha o papel da personagem que melhor sintetizou o espírito do menino nascido em Belém, sem nunca ter conseguido vê-lo nem chegado perto dele. Buscava o segredo de uma iguaria rara e confrontou-se com o massacre de crianças. O seu sacrifício extremo foi para salvar a vida de um homem que nem conhecia. O tema da viagem, do confronto com a realidade, da Epifania, aqui protagonizado por alguém que conseguiu ir mais fundo na procura daquilo que realmente interessa e importa e que se pode resumir ao amor desinteressado pelos outros.
Não é meu hábito resumir o que leio. Mas desta vez, não consegui deixar de o fazer. Um livro muito interessante que é uma original recriação das figuras dos Reis Magos. Não três, mas quatro!

17 de Dezembro de 2018
Almerinda Bento

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

"A Casa na Praia" de Daphne du Maurier

Fa-bu-lo-so! É o meu veredicto final sobre esta obra de uma autora que praticamente desconhecia pois nada tinha lido dela. Tenho o Rebecca mas nāo me recordo de o ter lido.

Nāo foi fácil ler com ritmo continuado as primeiras páginas deste livro talvez porque a premissa nāo fosse para mim algo fácil de aceitar... Nāo sou grande fā de ficçāo científica (que mais lhe poderia chamar?). Sem querer fazer spoiler, pois é informaçāo que consta na sinopse, digo-vos que o enredo central deste livro baseia-se nalgumas viagens no tempo que Dick, o personagem principal, faz ao experimentar uma droga que Magnus, o seu amigo cientista, lhe dá a provar... Dick recua no tempo seiscentos anos, viajando para a primeira metade do séc. XIV, precisamente para o mesmo local onde se encontra, na Cornualha, com as diferenças físicas inerentes à época. No início, e precisamente porque nāo sou dada e estas histórias, achei a premissa estranha, diferente do que leio habitualmente é certo, mas acreditei que nāo me iria convencer. Adoro quando uma história me parece verídica mesmo quando o nāo é. O nome da autora fez com que insistisse. Opçāo que se viria a confirmar ser a certa.

Abro agora um parêntesis em relaçāo à sinopse. Se pegarem no livro nāo leiam mais do que aqui refiro, sendo que o último parágrafo da sinopse nāo deveria existir. Há informaçāo que é desnecessária e avança com dados que, acredito, esmorecem o factor surpresa quando lidos!

Mas voltando ao enredo e à escrita, sobretudo à escrita... Ela é realmente fabulosa de tāo simples que é e, ao mesmo tempo, tāo envolvente. Eu, que nāo morro de amores por este tipo de "viagens" fiquei fascinada e enredada nas duas histórias que decorrem nos dois momentos temporais diferentes! Fiquei deveras presa a Dick e ao seu alter ego, Roger, que teria vivido noutra época.

Pouco tenho a acrescentar. Refiro apenas e para terminar que o final achei estrondoso. A dúvida com que se nos depara a nossa mente após o último parágrafo é perfeita para um final. Adorei! Super recomendo! Fui agradavelmente surpreendida porque as minhas espectativas, ao ler a sinopse, eram baixinhas mesmo.

Comecei esta leitura o ano passado. Teria sido um excelente livro para acabar o ano mas foi certamente um óptimo começo de leituras para 2019! 

Terminado em 4 de Janeiro de 2018

Estrelas: 6*

Sinopse
Dick Young vive na Cornualha, em casa do seu amigo Magnus Lane, um cientista que faz investigação química na Universidade de Londres. Dick sente-se intrigado quando Magnus lhe pede que sirva de cobaia de uma nova droga que este descobriu, mas aceita participar na experiência. A droga fá-lo viajar no tempo, transportando-o para o século XIV, no local exato onde vive: Kilmarth.

A cada viagem proporcionada pela misteriosa droga, Dick vai-se envolvendo mais profundamente nos assuntos de pessoas que morreram há seiscentos anos, enredadas numa teia de amor, ciúme e intrigas. Progressivamente, vai perdendo o controlo da sua vida o do seu próprio tempo. Quando surge a chocante notícia de que Magnus fora assassinado quando se dirigia a Kilmarth, apenas Dick se apercebe da causa aparentemente inexplicável da morte do amigo. Mas tendo Magnus desaparecido, o que acontecerá à experiência em curso? E a Dick?

Um romance clássico notável, de um dos maiores nomes da literatura britânica.

Cris

sábado, 5 de janeiro de 2019

Na minha caixa de correio

  


Entre Irmās e A Casa comprados na promoçāo da Wook.
Juste um Chou Fleur comprado aquando da minha recente visita a Paris (fotos no meu instangram)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

"A Casa das Meninas Indesejadas" de Joanna Goodman

Tinha ouvido dizer muito bem deste livro. As espectativas eram, por essa razāo, elevadas. Gostei muito. Nāo o suficiente para dar 6*. Talvez porque quisesse um final um pouco diferente daquele que previ.

A história faz referência a factos que suspeitei serem verídicos e que por isso fui investigar. Podem ver na Wikipédia o que li sobre o assunto. Basta colocarem no motor de busca "Crianças Duplessis". O Quebeque, uma das províncias do Canadá, teve a dada altura (1940/1960) como primeiro ministro, Maurisse Duplessis, que direccionou o país para acontecimentos verdadeiramente horríveis. Falo de crianças orfās, entregues a orfanatos e que se viram, de um dia para o outro, rotuladas de doentes mentais pois esses orfanatos foram transformados em hospitais psiquiátricos, já que em termos monetários era mais rentável que assim fosse. Muitas crianças foram sujeitas a experiências médicas horríveis, violadas e maltratadas fisicamente e moralmente, obrigadas a trabalhar, passando fome e vivendo na miséria. A morte, para muitas delas, foi a única recompensa.

Todos os acontecimentos narrados no livro e que dizem respeito a Elodie, "filha do pecado" e que foi colocada num desses orfanatos, foram narrados de uma forma crua, fria, impessoal. Tal como ela própria foi tratada. Este tipo de narrador ou narraçāo pode ter, no leitor, um impacto diferente do pretendido. Pode fazê-lo emocionar-se ou pode, pelo contrário, fazer com que ele as leia sem que as palavras atinjam o seu coraçāo. 

Achei que o final acabou depressa demais. Creio que necessitaria de mais emoçāo na escrita, um pouco mais de detalhes, sobretudo da vida de Elodie. Nāo desvendo mais nada porque nāo o consigo fazer sem denunciar como termina esta obra. Nāo pensem que isto que acabo de dizer significa que nāo gostei desta leitura. Pelo contrário. Sinto que com mais alguns pormenores ela se transformaria num livro a que atribuiria 6*. E tive pena, porque achei que era livro para tal...

Leitura que se faz num ápice, livro que merece ser lido. 

Terminado em 28 Dezembro de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse 
Aos 16 anos, Maggie Hughes faz algo imperdoável aos olhos da família: apaixona-se e engravida. O nome do rapaz é Gabriel e a relação de ambos é proibida. A bebé vai chamar-se Elodie e não conhecerá o amor dos pais. Em vez disso, é enviada para um orfanato miserável, onde cresce sem saber o que é ter um lar e uma família.

E quando uma lei atribui mais dinheiro aos hospitais psiquiátricos do que aos orfanatos, a situação de Elodie piora dramaticamente. Juntamente com milhares de outros órfãos, é declarada atrasada mental. O orfanato transforma-se num hospital onde as crianças são submetidas a tratamentos para doenças que não têm, as janelas estão cobertas por grades e as aulas são substituídas por trabalho pesado.

Maggie, entretanto, faz os possíveis por ter uma vida normal. Mas não consegue esquecer a bebé que foi forçada a abandonar. Após um encontro inesperado com Gabriel, que faz ressurgir memórias avassaladoras do passado, ela decide enfrentar a sua perda. E começa então uma busca desenfreada pela sua menina e pela vida que lhes foi negada…

Joanna Goodman baseou-se em factos reais e na história da sua família para escrever A Casa das Meninas Indesejadas. Um romance que relata um momento negro da História e que é universal na abordagem aos laços indestrutíveis que unem mães e filhas. 

Cris

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A Escolha do Jorge: Literatura traduzida – as escolhas de 2018

1. 
“Rua Katalin”
Magda Szabó
(Cavalo de Ferro)



Breves notas alusivas a “Rua Katalin” de Magda Szabó:

2. 
“A Língua Resgatada”
“O Archote no Ouvido”
“O Jogo de Olhares”
Elias Canetti
(Cavalo de Ferro)

  

3.
“A Marcha de Radetzky”
Joseph Roth
(Nova Vega)



Restantes títulos por ordem alfabética:
“A Mente Aprisionada” (ensaio)
Czeslaw Milosz
(Cavalo de Ferro)


“A Noite do Professor Anderson”
Dag Solstad
(Cavalo de Ferro)


“A Praia” (teatro)
Peter Asmussen
(Tinta da China)


“As Pequenas Histórias” (contos)
Vários Autores
(Cavalo de Ferro)


 “Bom Dia, Tristeza”
Françoise Sagan
(A Casa dos Ceifeiros)


“Cinzas”
Grazia Deledda
(Sibila Publicações)


“Minha Ántonia”
Willa Cather
(Relógio d’Água)


“O Dia de Amanhã”
Ignacio Martínez de Pisón
(Teodolito)


“O Mar”
John Banville
(Sextante)


“O Tango de Satanás”
László Krasznahorkai
(Antígona)


“Os Peixes Não Têm Pés”
Jón Kalman Stefánsson
(Cavalo de Ferro)


“Raposa”
Dubravka Ugrešic
(Cavalo de Ferro)


“Sessenta Contos”
Dino Buzzati
(Cavalo de Ferro)


“Tudo o que eu tenho trago comigo”
Herta Müller
(Dom Quixote)


“Uma Manhã Perdida”
Gabriela Adameșteanu
(Dom Quixote)



quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

As Minhas Escolhas para 2019

Foi muito fácil, para mim, juntar alguns dos livros que moram já há algum tempo nas minhas estantes e vāo ficando esquecidos porque as novidades nāo param de chegar. Infelizmente, no ritmo acerelados dos dias, eles acabam por adormecer soterrados pelos livros "novos". Sāo livros que quero muito ler. Muitos há, ainda, que ficam à espera de uma oportunidade... 

O ano passado propus-me ler estes,



mas a coisa ficou pelo caminho. Só li "A Trégua" e "Perdoa-me".

Este ano escolhi treze. O Bibliotecas Cheias de Fantasmas de Jacques Bonnet, Quetzal é pequenino, leve e por isso fácil de transportar. É um livro que fala de livros, dos "problemas" do leitor compulsivo e das maravilhas que um livro nos pode trazer. Como nāo inclui-lo na lista dos doze escolhidos?

Os restantes sāo estes:



Para o projecto de ler livros sobre o Holocausto em Janeiro (vejam o canal da Dora, Books and Movies) escolhi estes que se seguem. Nāo sei se os lerei todos neste mês porque considero o tema pesado demais para se fazer uma leitura seguida de quatro livros... Veremos como corre!



Depois fui buscar estes quatro. Sabia exactamente o que queria. Já estāo há demasiado tempo por ler. Mea culpa, mea culpa! Deste ano nāo passam!



E estes últimos foram escolhidos de dedo indicador em punho, numa passgem pelas estantes da Quetzal, Bertrand e Alfaguara.



Espero no final de 2019 poder dizer-vos que este projecto chegou ao fim com a passagem destes livros todos para as estantes dos "lidos". Wish me luck! 


Cris