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sexta-feira, 18 de março de 2016

Novidade Esfera dos Livros

Doce Veneno
Cláudia Cunha
O consumo de açúcar pode tornar-se um vício semelhante ao alcoolismo ou à toxicodependência. Não provoca apenas aumento de peso; é também responsável pela diabetes, pelo crescimento de células cancerígenas, por doenças cardíacas, insónias, problemas de pele, etc. Muito se tem discutido sobre os malefícios do açúcar e, quando falamos de açúcar, não nos referimos apenas àquele que colocamos no café ou nos bolos, mas também ao que se encontra em alimentos processados, como uma lasanha comprada no supermercado, ou num simples e aparentemente inofensivo iogurte que damos aos nossos filhos. Ao longo deste plano de desintoxicação, a nutricionista Cláudia Cunha acompanha o leitor diariamente, apresentando-lhe receitas sem açúcar e compostas por hidratos de carbono de qualidade, proteína e gordura. Neste livro irá encontrar os melhores conselhos para evitar cair em tentação, e tudo o que precisa de saber para se livrar do açúcar de uma vez por todas e ter uma alimentação equilibrada e saudável.

Novidades TopSeller



Novidades Clube do Autor

quinta-feira, 17 de março de 2016

"O Brilho Azul das Estrelas" de Laura Pritchett

Um livro especial este sobretudo porque nos conta uma história especial. Ben dá-se conta que a sua memória foge cada vez mais dele a cada dia que passa. Os papeis, onde anota coisas para não esquecer, aumentam de dia para dia. Até que escreve o seu nome, com quem casou, o nome das suas filhas e dos seus netos. Alzheimer, dizem. O diagnóstico chega para o leitor através de uma nota sua. Essa onde ele escreve o nome de quem ama. Um pequeno choque acompanha-a: à frente do nome de uma filha, os dizeres, "filha morta".

A história de Ben é mais do que uma história triste. Mais do que uma história de luta contra o impossível é uma história de amor pela família, pela terra e pelos animais. Ben quer deixar a sua vida enquanto ainda é ele, mas a doença caminha e devora-o a passos largos. Antes de partir Ben tem uma missão que quer concluir e que deixará a sua família mais descansada. Se está certo o que vai fazer?

Muito bem escrito, este livro permite ao leitor penetrar no âmago de Ben e conhecer a sua luta diária e constante. Com capítulos onde a história nos conta, intercaladamente, a vida de Ben e a de Renny, sua esposa, vamos conhecendo todo o passado que os uniu mas também o que os fez separar. As maiores alegrias e a tristeza mais profunda que poderiam sentir: a morte de uma das filhas.

Sem avançar na história, para que a surpresa não diminua quando forem ler o livro, posso-vos garantir que adorei o final. O fim parece óbvio logo que as intenções de Ben nos são dadas a conhecer. No entanto, a reviravolta que a autora confere nas últimas páginas acalma o leitor, sossega-o de todas as angústias que ele viveu ao acompanhar o interior da mente de Ben.
Comovente, lindíssimo. Recomendo.

Terminado em 13 de Março de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

A demanda de um homem para corrigir o passado.
Ben e a sua mulher vivem num rancho próximo das Montanhas Rochosas, no Colorado. Ben é ainda um homem ativo e pleno de vida, quando lhe é diagnosticada a doença de Alzheimer. Ao perceber o avanço desta, começa a sentir que é um fardo para a mulher e que não lhe resta muito tempo de consciência.
A juntar a isto, o passado trágico da família regressa com toda a violência após a libertação de Ray, o marido da sua falecida filha Rachel, que estava preso a cumprir pena pelo seu homicídio. Motivado pelo desejo de vingança, Ben decide corrigir o que está mal e levar avante um último gesto de amor e justiça pela sua família.
Com uma sinceridade arrebatadora, O Brilho Azul das Estrelas oferece-nos uma história notável de dedicação e coragem, provando-nos que o amor sobrevive ao adeus.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Passatempo Presença: "O Livro de Aron"



Hoje trago-vos um presente especial! Com a simpática colaboração da Editorial Presença, O Tempo Entre os Meus Livros tem para oferecer aos seus seguidores um exemplar do livro de Jim Shepard, O Livro de Aron.

O passatempo decorre até ao dia 27 de Março.

Para mais informações sobre o livro vejam Editorial Presença aqui!

Boa sorte! E não se esqueçam de responder às questões colocadas!


terça-feira, 15 de março de 2016

"A Vida É Fácil, Não Te Preocupes" de Agnès Martin-Lugand

Foi com tristeza que deixei para trás Diane, Edward, Declan, Félix e tantos outros personagens desta história!

Sendo este livro a continuação de As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café, publicado já em 2014 (a minha opinião aqui!), tive receio de não apanhar a história toda, pois não confio muito na minha memória, preferindo ler sequelas com pouco tempo de distãncia. Lembrava-me da história somente nos seus contornos gerais mas facilmente penetrei na vida de Diane e relembrei o livro anterior.

A escrita de Agnès é absorvente. A leitura faz-se a voar e tive realmente pena que esta obra não tivesse o dobro das páginas. É de tal forma viciante que adoramos todos os personagens e não conseguimos tomar partido por nenhum. Indecisa, esperei impacientemente que a autora tomasse partido por mim e decidisse o final.

E que esplêndido final para a continuação de As Pessoas Felizes...! Um livro que fala-nos da perda, do luto difícil de fazer depois da morte de alguém que Diane amava muito e de alguém que amava mais que a própria vida, o seu marido e a filha.

Sei que se pode ler este livro independentemente do anterior mas aconselho, sem dúvida alguma, primeiro a leitura do As Pessoas Felizes... Faz todo o sentido, é como se fossem um só. E depois, vão lê-los num ápice, garanto-vos!

Devo confessar-vos que fiquei com uma pontinha de inveja pelo espaço bar-livraria concebido pela personagem principal. Mas leiam, leiam e vejam se não vão sentir o mesmo...

Terminado a 11 de Março de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

É em Pessoas felizes lêem e bebem café, o seu refúgio, que Diane conhece Olivier. É simpático, atencioso e, sobretudo, compreende e aceita a sua recusa em ser mãe de novo. No entanto, um acontecimento inesperado muda tudo: as certezas de Diane, as suas escolhas, pelas quais tanto lutou, vão entrar em colapso, uma após a outra. Será que tem a coragem necessária para aceitar um outro caminho?

segunda-feira, 14 de março de 2016

"Escrava do Estado Islâmico" de Jinan com T. Oberlé

Uma história verídica que, nos tempos modernos e na nossa sociedade, mais parece saída de um filme de terror. Não nos parece possível que casos semelhantes a este descrito neste livro ainda aconteçem. Porém, infelizmente, o horror surge diariamente. Daí achar que um dos valores dos media é precisamente dar a conhecer ao mundo, no mais curto espaço de tempo, a verdade.

A história de Jinan não é ficção. Pertencente a uma minoria iraquiana iazidi, foi feita prisioneira e vendida a dois combatentes do Estado Islâmico (muçulmanos sunitas do Daesh). Ela e suas companheiras de infortúnio passaram a ser escravas sexuais de dois homens sem sentimentos que as espancaram, obrigaram a converterem-se, violaram.Foram 3 meses de terror até conseguirem fugir.

Para a nossa cultura, aquilo que Jinan vivenciou é algo tão incrível que parece irreal. Irreal parece também o medo sentido por estas mulheres de que as suas famílias não as aceitem de volta. A desonra sentida por terem sido violadas faz com que sejam duplamente vítimas. Vitimas dos carrascos que as violaram e vítimas da sociedade que as recebe como se elas fossem culpadas.

Daí a importância desta leitura. É um grito pela liberdade que Jinan liberta ao escrever esta obra. Para que todos saibam o que se passou, para que todos saibam o que se passa ainda.

Recomendo.

Terminado em 9 de Março de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

Jinan, uma jovem iazidi de dezoito anos, foi raptada com a família pelo Estado Islâmico em agosto de 2014, pelo simples facto de pertencer à minoria religiosa curda residente no norte de Iraque. Separada da família, durante dois meses viverá um inferno junto de outras cinco mulheres cativas, maltratadas e reduzidas à escravidão sexual, até que consegue fugir.
Em dezembro do mesmo ano, encontra-se por acaso com Thierry Oberlé, um conhecido jornalista do Figaro, especialista em matéria de terrorismo, no campo de refugiados onde vive agora, e conta-lhe a sua história. Ambos se juntam então para escrever este livro, quebrando o silêncio para denunciar as atrocidades contra as mulheres por parte do Estado Islâmico em países como o Iraque, a Síria e a Arábia Saudita, o que constitui um testemunho excecional.

domingo, 13 de março de 2016

Ao Domingo com... Thomas Bogg

Saudações a todos os leitores. Sou o Thomas Bogg, tenho 24 anos, e este mês publiquei o meu primeiro livro. Chama-se O Título e tem edição da Chiado Editora.
Comecei a escrever com regularidade aos 17 anos. Foi por esta altura que algumas coisas se pronunciaram em mim e que hoje continuam em voz ativa. Coisas que, penso eu, me definem agora. Em conjunto com a paixão desenvolvida pela escrita, tomei conhecimento da área da filosofia no ensino secundário que frequentava neste tempo, e com renovada seriedade comecei a pensar o que queria fazer com a minha vida adiante a maturidade incoada. Apercebi-me ambicioso: queria publicar livros, investir-me no campo introspetivo e inquisidor da filosofia e queria, sem hiperbolizações, provocar um efeito sobre o mundo que ressonasse com uma certa inelutabilidade.
É verdade que, aos 17-18 anos, a ambição e o sentido de possibilidade falam mais alto do que qualquer voz mitigante ou disciplinada por conceções que mais tarde serão chamadas
“realistas”. Embora o meu projeto – que, realmente, ainda não se encontra definido na sua essência – tenha sofrido abalos e sido sujeito a reconfigurações nos últimos anos, e que eu tenho vindo a conhecer muito mais acerca dos meus condicionantes psicológicos desde que comecei a focar os meus interesses e a circunscrever a viagem do meu sonho, permaneço ainda assim fortemente nesta ambição, querendo, através do pensamento, da escrita e do diálogo, repensar as coisas do mundo e o mundo em si próprio.
O Título é o primeiro episódio público desta aventura que espero, pelo menos, perdurar a minha vida e poder partilhar e desenvolver com pessoas que ou se identificam com os meus interesses, ou tenham coisas a dizer sobre as coisas que eu digo. Não sei exatamente para onde isto irá mas pretendo encontrar amigos dentro e fora da literatura e da filosofia ao longo do percurso. Para mim, a conversa que um escritor pode ir tendo com outros escritores é tão fundamental como aquela conversa que, individualmente, qualquer autor é capaz de centrar com o mundo através das suas palavras. Com a presença da minha primeira obra espero dar início a estes diálogos.
Acrescento os meus agradecimentos a O tempo entre os meus livros por me ter recebido aqui.

Thomas Bogg

sábado, 12 de março de 2016

Na minha caixa de correio

  
  

 



Não resisti e comprei o último de Ken Follett, Uma Terra Chamada Liberdade.
O último livro de Joana Roque foi oferta da Esfera dos Livros. Já ando a ver que receita fazer para vos mostrar...
A Vida é Fåcil, Não te Preocupes, foi oferta da Suma de Letras. Já está lido. Adorei!
Oferta da editora Saída de Emergência, chegou Mulheres. Rápido de ler, um olhar sobre o preconceito sobre as mulheres.
Da editora Quinta Essencia, vieram Turbulência e A última a Saber.
Da Planeta Manuscríto, chegou O Pai, um livro que desejo muito ler...
Comprado com desconto de 50%, Já Não se Escrevem Cartas de Amor de Mário Zambujal, um autor cuja leitura me diverte muito pois possui como ninguém um humor acutilante e constroi personagens muito típicas e sui generis.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Novidade Clube do Autor

Índias
de João Morgado
Podemos julgar um homem a mais de 500 anos de distância? Podemos analisar o seu trajecto histórico à luz dos valores actuais? Sim e não.
É verdade que muitos dos valores humanistas para que hoje remetemos, já estavam presentes na sociedade do século XVI. Matar, torturar, saquear, eram obviamente condenáveis à luz da própria cristandade. Tanto assim, que o próprio Vasco da Gama acabou por ser moralmente condenado por uma certa nobreza atreita a códigos de conduta, e pelas ordens religiosas defensoras de valores mais humanistas, de uma visão mais lúcida da fé. O iluminismo estava a abrir caminhos por então. Gama foi afastado uma vez, mas voltou ao Índico ainda com mais raiva. Foi afastado uma segunda vez, mas ainda assim voltou a ser chamado para regressar às Índias. O que podemos inferir daqui?
Antes de mais, que el-rei de Portugal partilhava com Gama a mesma ambição de conquista e poder, desvalorizando as questões éticas ou cavaleirescas. Eram ambos pragmáticos, com objectivos bem delineados, e capazes de tudo para serem bem-sucedidos. Gama queria reconhecimento social e riqueza, D. Manuel I ambicionava ser imperador. É isto desprezível?
Talvez o seja no plano da desmedida ambição pessoal. Mas o sucesso destes dois homens era também a grandeza do reino. Não era essa a sua missão?
Podemos questionar se os meios justificam os fins. Após a segunda viagem de Vasco da Gama, podemos dizer que Portugal não foi negociar especiarias, foi tomá-las pela força. Tinha a melhor frota marítima, conhecimentos navais invejáveis, um poder de fogo inigualável. Jogou todo o seu poderio no mar Índico para combater os mouros que dominavam o mercado, para subjugar os indianos que eram senhores de infindáveis riquezas. Na verdade foi uma invasão de territórios, uma usurpação de direitos, um abuso de poder. Mas estes sim, são valores a que olhamos à luz dos nossos dias. Naqueles tempos era outro o entendimento, os reinos guerreavam-se, as fronteiras eram instáveis, os pactos dependiam das boas vontades dos monarcas e das relações de forças entre os seus exércitos. Alexandre, O Grande, não tinha conquistado um dos maiores impérios do mundo antigo? O império de Roma não tinha anexados povos do mar Mediterrâneo, na África e na Ásia? Os árabes não tinha já invadido territórios africanos e chegado à Península Ibérica? O que impedia Portugal de ambicionar um lugar na história mundial, o seu quinhão de glória, de poder e riqueza?
Portugal não foi condenado, quanto muito foi invejado. Pelo que não tardou a que outros reinos enveredassem pelo mesmo caminho. Quando franceses, ingleses, holandeses ganharam poder nos mares, também eles conquistaram os seus territórios, ganharam as colónias que mantiveram até tempos recentes. E no contexto da época, nenhum destes impérios foi conseguido sem guerras, o mesmo é dizer, sem mortes, injustiças, misérias humanas. Guerras por certo bem mais sangrentas que as protagonizadas pelos exércitos portugueses. É neste contexto histórico que devemos enquadrar D. Manuel I e Vasco da Gama como seu peão de armas.  

Novidade Bizâncio

Aïcha - A Bem-Amada de Maomé
(As Mulheres do Islão - 3º volume)
de Marek Halter
«Chamo-me Aïcha bint Abi Bakr. Há cerca de sessenta anos que me chamam Aïcha, Mãe dos Crentes. Sei que Allah, o Clemente e Misericordioso, não tardará a julgar a minha vida. Quis que ela fosse longa, bela e terrível. Quis que a minha memória fosse incomparável, a fim de a pôr ao serviço da Sua vontade e do Seu Enviado»
«Aïcha» encerra a trilogia «As Mulheres do Islão».
Este último volume mostra o aparecimento de um Islão conquistador, que afastou as mulheres, apesar da oposição de Muhammad e que conduziu à divisão entre sunitas e xiitas, que ainda hoje ensanguenta o mundo árabe e o Ocidente.

Novidade Presença

O Livro de Aron
Jim Shepard
Pela mão do pequeno Aron, somos levados a conhecer a Polónia de 1939, onde ele e a família vivem. Pouco tempo depois, enquanto judeus, são conduzidos ao gueto de Varsóvia, onde a crueldade, a fome e a doença destroem as vidas de quem aí foi aprisionado. Porém, Aron e um grupo de amigos conseguem ajudar as famílias, esgueirando-se do gueto para fazer contrabando. Num relato comovente e intenso, Jim Shepard mostra-nos, através da voz de uma criança, como é possível manter a dignidade humana nas condições mais adversas. 

Para obter mais informações sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.

Convite Vogais


A Escolha do Jorge: Vozes de Chernobyl

Há livros que nos fazem refletir sobre os limites do leitor no que respeita à angústia, à perturbação e até à náusea que provocam face a histórias tão dramáticas, tão pejadas de dor e de terror. Nos livros de ficção, o leitor enquanto sujeito tem a capacidade de se distanciar do objeto por muito doloroso que seja o seu conteúdo, porque compreende que o livro enquanto objeto constitui uma fonte de prazer e de distração e que as histórias nele contidas não passam de ficção independentemente de poderem ou não basear-se em acontecimentos históricos.
Já no caso das obras de não-ficção, o retorno do sujeito a si próprio no decurso da apropriação da obra enquanto objeto, pode constituir algo de angustiante e perturbador. Embora o sujeito (leitor), regra geral, não tenha experiência de cenários traumáticos, não deixa de ficar perturbado com o desfilar de "vozes" que contam a sua experiência, quer se trate de um dado episódio que teve lugar durante a 2ª Guerra Mundial, especificamente com a perseguição e morte aos judeus (Holocausto), os Gulags estalinistas ou o desastre nuclear de Chernobyl (1986), episódios negros da História do século XX que direta e/ou indirectamente vitimaram milhões de pessoas.
Mas para além do número de mortes como consequência dos episódios acima indicados, o desastre nuclear de Chernobyl teve (tem ainda) um efeito devastador, a longo prazo, na população, animais e na natureza em geral, havendo ainda, à semelhança de Hiroxima e Nagásaqui, uma forte incidência de radioatividade na terra, na água e no ar entrando no corpo humano, instalando-se, desenvolvendo inúmeros casos de cancros, problemas ao nível psiquiátrico, além de problemas relacionados com o sistema nervoso central, não esquecendo as malformações genéticas que ainda hoje ocorrem, independentemente de ter sido lançada a bomba atómica ou de ter rebentado o reator nuclear.
"Vozes de Chernobyl" é o primeiro de cinco livros da bielorrussa Svetlana Alexievich (Prémio Nobel de Literatura de 2015) que integra a chamada "Vozes da Utopia" da qual faz parte "O Fim do Homem Soviético" publicado em Portugal no ano passado.
O estilo de escrita de Svetlana Alexievich é difícil de categorizar na medida em que há um coro de vozes que desfilam ao longo das suas obras. Vozes que têm algo a dizer. Vozes que nunca se fizeram ouvir. Um pedido de socorro. Um ato de liberdade. Mais do que um ensaio, o estilo de Svetlana Alexievich baseia-se em coser de forma habilidosa todo um conjunto de histórias de pessoas que não cabem nos livros comuns. Há um fio condutor, uma sequência lógica na apresentação das histórias reais, de pessoas de carne e osso, levando o leitor imaginar um palco onde estas personagens vão entrando à vez e contando o que lhes vai na alma.
É neste sentido que refiro a ideia inicial do texto sobre se existem limites para o leitor no que respeita à dor, à angústia e à perturbação no decurso da leitura. A leitura de "Vozes de Chernobyl" faz-se acompanhar de uma constante sensação de náusea, uma sensação estranha de peso numa parte recôndita do nosso ser, além de serem várias as vezes em que os olhos ficam aguados perante tantas palavras de dor, mas também de amor e de morte.
26 de abril de 1986; passavam 23 minutos da uma hora da manhã quando rebentou o quarto reator da Central Nuclear de Chernobyl, ardendo durante dez dias consecutivos, tornando-se assim no maior desastre tecnológico do século XX.
A URSS sob os desígnios de Gorbatchev manteve silêncio o mais possível sobre o desastre face ao exterior e quando o fez manteve sempre uma posição de pouca relevância dando a entender que não passava de um simples incêndio então extinto. Mas também internamente, a decisão política foi de faltar à verdade às populações num raio considerável de Chernobyl como forma de evitar o pânico. A própria população quando se começa a aperceber de que a explosão do reator era mais grave do que que as notícias explicavam, também não estava sensibilizada para as consequências nefastas da radioatividade dado que médicos, cientistas e outros especialistas técnicos estavam expressamente proibidos de explicar às populações como agir perante a calamidade em curso. A evacuação de aldeias inteiras só ocorreu mais tarde por decisão política na sequência das inúmeras pressões internas e externas.
As "vozes" que desfilam ao longo da obra não só relatam as suas experiências ou as dos seus familiares, mas vão também tecendo considerações sobre a mentalidade de toda uma população que integrava a URSS e que agia em consonância com um quadro de valores vigente durante mais de 60 anos. Se por um lado houve a necessidade de recrutar bombeiros e militares para gerirem os efeitos diretos do incêndio no decurso da explosão do reator, também é preciso não esquecer os inúmeros voluntários que se ofereceram para ajudar na causa. Uns e outros sentiam a consciência de dever, havia a ideia de um "nós" que faz parte de um todo, havia o "homem soviético" que era o reflexo de toda uma mentalidade transmitida de geração em geração no intuito de levar avante o socialismo soviético.
Estimam-se em mais de 600 000 homens que colaboraram na tarefa ignominiosa e sem meios especializados e de protecção face à excessiva radioatividade. Estes homens conhecidos como liquidadores receberam do Partido/Estado um diploma, uma medalha e algum dinheiro que variava consoante a exposição à radiação. Em suma, o Partido/Estado premiou estes homens com doenças graves e com a morte. Eram os novos heróis cuja coragem era posta ao serviço da URSS para o proveito de todos! Porém, tornaram-se "objetos radioativos" cujo corpo se transformava em algo indescritível ao longo de duas semanas culminando com a morte.
O primeiro e último relatos de "Vozes de Chernobyl" são contados no feminino. São esposas de liquidadores que deram a vida por uma causa maior, assim o consideravam. A URSS encarregou-se de os tornar heróis de Estado antes de morrerem, antes da eternidade… Voltando a estes dois relatos, são os mais extensos da obra e neles pesam duas palavras "amor" e "morte". Compreendemos que mesmo após a morte dos maridos, mantém-se a ideia, mais, o sentimento de "amor infinito", na medida em que estas mulheres revestiram-se de uma força interior de tal forma imensa que abalam as estruturas emocionais do leitor. Como é possível aguentar tanto sofrimento com o sofrimento de quem se ama? Lições de vida perante doses de sofrimento inimagináveis ante um ser humano que se transforma em dias num ser mutante, radioativo, algo a lembrar "A Metamorfose" de Kafka, porém, real, e isso marca toda a diferença.
Mais, é bastante interessante nos dois relatos a ideia de amor infinito associado à intimidade do seio familiar. Certos aspetos e situações específicas do foro familiar passados entre quatro paredes denota o papel importante das mulheres na relação familiar, com o marido e com os filhos. Mas no aspeto da relação afetiva e sexual é bastante interessante que perante uma ditadura de cariz militar, os afetos ganhem tamanha preponderância com um papel extremamente ativo por parte das mulheres.
São várias as "vozes" que associam a explosão de Chernobyl à "explosão" do comunismo e, consequentemente, da própria URSS. Um depoimento interessante é aquele que compara o socialismo soviético a "uma mistura de prisão e jardim de infância". A explosão de Chernobyl contribuiu para que as pessoas das áreas afectadas passassem a encarar a realidade e o mundo de forma diferente. O objetivo perante tal desastre (ou desgraça) era sobreviver e se antes de Chernobyl havia um "nós" como referência e possibilidade na consolidação do socialismo soviético, no depois de Chernobyl, gradualmente, no seio de cada localidade, cada habitante eleva a sua voz de forma determinada dizendo "eu não quero morrer". Chernobyl tornou-se gradualmente na voz da consciência de cada habitante em que este tornou-se "egoísta" por querer viver fora da prisão do socialismo. Esta passagem do "nós" ao "eu" constituiu a tomada de consciência da liberdade de cada habitante determinado em (sobre)viver a Chernobyl e, em última instância ao socialismo soviético. Assim, compreendemos que Chernobyl devolveu à população a consciência e liberdade da sua situação, da sua fatalidade, constituindo em certa medida como a "machadada" final no comunismo e na URSS.
Uma das "vozes" diz "somos todos chernobylianos" (p. 260) ao passo que outra refere "Acredito na História. No julgamento da História… Chernobyl não acabou, só começou…" (p. 294)

Excertos:
"Começamos a perguntar-nos… Se não me engano… Provavelmente, passados três ou quatro anos… Quando adoeceu um, depois outro… Alguém morreu… Enlouqueceu… Suicidou-se… Então é que começámos a pensar… Compreenderemos alguma coisa, acho eu, daqui a vinte ou trinta anos." (p. 103)

"Voltámos para casa. Tirei tudo, despi toda a roupa que usava lá e atirei-a para a conduta de lixo. Quanto ao barrete, dei-o ao meu filho pequeno. Ele pedira-mo muito. Andava de barrete sem nunca o tirar. Dois anos depois foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral… (p. 104)

"Um amigo estava a morrer… Aumentou de volume, inchou… Como um barril… E o vizinho… Operador de guindaste, também esteve lá. Ficou preto como carvão, secou até ficar do tamanho de uma criança. Não percebo como será a minha morte… Se eu a pedisse, pediria uma morte comum. Não chernobyliana." (pp. 114-115)

"Tenho o conhecimento humano em grande conta. E tudo o que o Homem criou. O conhecimento… O conhecimento em si não pode ser criminoso. Hoje os cientistas também são vítimas de Chernobyl. Quero viver depois de Chernobyl, e não morrer depois de Chernobyl. Quero perceber a que me posso agarrar na minha fé. O que é que me dá força?" (p. 158)

"«Herói… Heróis… Quem são eles hoje? Para mim, é o médico que, apesar das ordens de cima, diz a verdade às pessoas. Um jornalista, um cientista. Mas como disse o editor na reunião: "Lembrem-se! Não temos nem médicos, nem professores, nem cientistas, nem jornalistas, hoje temos todos a mesma profissão: o homem soviético.»" (p. 162)

"Eu sou pelo progresso! Pela ciência! Já nenhum de nós desiste da lâmpada elétrica… Começou a negócio do medo… Vendem o medo chernobyliano, porque não temos mais nada para vender no mercado mundial. É um novo produto: vendemos o nosso sofrimento." (p. 189)

"Chernobyl é uma catástrofe da mentalidade russa. (…) Não foi um reator que explodiu, mas todo um sistema de valores." (p. 237)

"Entre os trabalhadores da central nuclear de Chernobyl, havia muita gente das aldeias. Durante o dia estão no reator, e à tarde, nos seus próprios quintais ou nos quintais dos pais numa aldeia vizinha, onde se plantam batatas com a ajuda de uma pá e se espalha estrume com uma forquilha… A apanha também é feita à mão… A consciência destes trabalhadores da central existia em duas realidades diferentes, em duas épocas, a da pedra e a nuclear. Em duas épocas. O homem balançava constantemente, como um pêndulo. Imagine um caminho de ferro construído por excelentes engenheiros ferroviários, vai um comboio a toda a velocidade, mas no lugar dos maquinistas estão os cocheiros do passado. Os cocheiros. É o destino da Rússia: viajar em duas culturas. É o átomo e a pá." (p. 238)

"O nosso povo está programado para qualquer desgraça. Sempre à espera de uma desgraça. E a felicidade? A felicidade é uma coisa provisória, casual. (…) Não temos nada além do sofrimento. Não temos outra história, não temos outra cultura." (p. 271)

"Os nossos homens é que são homens! Verdadeiros homens russos! Valentes! Combatem o reator! Não temem pela vida! Sobem ao telhado derretido com as mãos desprotegidas ou só com umas luvas de lona (…). (…) Mas a ausência do medo por si mesmo também é uma espécie de barbaridade. Dizemos sempre nós e não eu: «vamos demonstrar o heroísmo soviético», «vamos mostrar o caráter soviético». A todo o mundo! Mas isto sou eu! Eu não quero morrer… Eu tenho medo…" (p. 298)​

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 9 de março de 2016

"A Mulher da Lama" de Joyce Carol Oates

A sinopse deste livro agarrou-me de imediato! Uma criança é abandonada no leito de um rio, cheio de lama. Adoptada mais tarde por um casal cuja filha tinha falecido, nunca se consegue libertar das suas raízes. Como se o passado tivesse como objetivo massacrá-la cada vez mais com lembranças às quais tenta fugir. Consegue, durante perto de quarenta anos, esquecer o que a marcou na sua sofrida infância tendo inclusivé muito sucesso profissionalmente, chegando até a presidente de uma universidade, mas um dia há em que todos acontecimentos que a marcaram vêm à tona.

A história não podia espicaçar mais a minha curiosidade! No entanto tive algumas dificuldades com a escrita da autora. Primeiro estranhei-a, depois entranhei-a. A escrita de Joyce Oates é densa mas surpreendentemente simples. Leva o leitor por caminhos que depois se vêm a revelar falsos ou não verdadeiros, o que faz com que se estranhe logo de início, mas depois fica-se alertado para futuras situações idênticas. Ao ler essas partes, o leitor é surpreendido pela sua crueza, crueldade mas, advertido como está, duvida sempre se se trata da imaginação da "Mulher da Lama", a protagonista desta história, ou de acontecimentos reais vividos por ela.

Pequenas partes da história são reveladas com muita subtileza, devendo o leitor estar atento aos pormenores. É uma história prende de imediato embora se estranhe a escrita da autora, que saltita entre espaços temporais diferentes, sendo que, a parte da sua infância e adolescência foi a que mais me agarrou. Leitura algo perturbadora e inigmática que vai captando o nosso interesse com o avançar das páginas.

Não pude deixar de pensar o quanto a infãncia marca a vida futura, mesmo quando se esconde acontecimentos menos felizes, traumáticos, em caixas bem compartimentadas e fechadas no fundo de nós próprios. De como eles vêm ao de cima!

Gostei e penso que algumas pontas soltas ficariam esclarecidas com uma releitura.

Terminado em 6 de Março de 2016

Estrelas: 4*+

Sinopse

Uma criança é abandonada pela mãe no leito lamacento do Black Snake River. Contra todas as expectativas, «a menina da lama» sobrevive e é adotada por um casal de classe média que tentará esconder para sempre essa terrível história. Mas o presente vai tornar-se surpreendentemente vulnerável aos agentes do passado.
Meredith «M. R.» Neukirchen será a primeira mulher a presidir a uma universidade da Ivy League. Emersa numa carreira absorvente, num amor secreto por um homem que não define os seus sentimentos, e preocupada com o ambiente político dos Estados Unidos em vésperas da Guerra do Iraque, M. R. depara-se subitamente com inúmeros desafios. Para além de ver a sua carreira em jogo, as duras marcas do passado e o confronto com «a menina da lama» ameaçam fazer ruir todas as suas convicções.
Um romance emocionante que explora o elevado preço do sucesso na vida de uma mulher a braços com os seus demónios pessoais e profissionais.

terça-feira, 8 de março de 2016

A Convidada Escolhe: Recomeçar

"Recomeçar" de Maria Duenãs não é só uma história de perdas e de recomeços, são, na verdade, várias histórias de vida que se entrecruzam e se distribuem por várias décadas, tanto em Espanha como nos EUA, estando bem presentes a queda da monarquia em Espanha, a guerra civil e a segunda guerra mundial. Contudo, são três as personagens principais que nos vão sendo reveladas pela narradora espanhola Blanca. Ela própria, 45 anos, mãe de dois filhos, professora universitária, 25 anos dedicados a construir um casamento durante o qual foram prioridades a carreira do marido e a criação dos filhos, ficando a sua carreira relegada para segundo plano, o que acontece ainda a muitas mulheres. Quando finalmente tinha um currículo invejável e a vida parecia estável, viu-se preterida por uma jovem mulher «…como é frágil aquilo que se pensa permanente», pensou e resolveu fugir. Aceitou uma bolsa para um lugar de investigadora visitante, numa universidade em Santa Cecília na Califórnia. O objetivo consistia na classificação do legado de um antigo membro do corpo docente falecido há décadas atrás, Andrés Fontana, que se encontrava amontoado numa cave em condições caóticas. A tarefa que a princípio lhe pareceu desinteressante, transformou-se num desafio aliciante depois de ver a fotografia do professor numa sala de reuniões que lhe transmitiu a ideia de que todos aqueles escritos tinham algo de humano e uma alma por trás. Andrés Fontana era natural de uma pequena aldeia muito pobre de Espanha. O seu pai era mineiro e foi graças à vontade da patroa de sua mãe que estudou em Madrid e mais tarde, devido ao seu bom aproveitamento, que lhe surgiu a oportunidade de uma bolsa nos EUA. A guerra civil que transformou totalmente o seu país tirou-lhe a vontade de voltar à pátria. Dedicou-se ao ensino da língua e literatura espanholas. Começou a gostar da Califórnia e da sua história, interessou-se em particular pelo percurso dos frades franciscanos que começaram a sua exploração e colonização e pelas missões que fundaram, o que consistia uma verdadeira herança de Espanha. No espólio de Fontana havia imensas referências a este assunto.
A história de Daniel Carter surge então. Aluno e amigo de Fontana, agora figura proeminente dos meios universitários Californianos, visitou Espanha pela primeira vez a conselho deste, para fazer investigações para uma tese. Ao leitor é então apresentada a Espanha que encontrou, «lenta, atrasada e assombrosamente pitoresca perante o olhar de um estudante norte-americano». São abissais as diferenças não só de costumes mas também económicas entre uma Espanha saída de duas guerras e uns EU no apogeu e opulência do fim da 2ª guerra mundial. Os detalhes da sua vivência, incluindo o seu casamento com uma espanhola são muito interessantes.
Blanca começa a conviver com Carter, que se encontra temporariamente em Santa Cecília, e este mostra um grande interesse no seu trabalho. É nos últimos capítulos que Blanca descobre que o interesse de Carter se deve a ser ele o verdadeiro responsável pela atribuição da sua bolsa. O seu objetivo era descobrir nos escritos de Fontana algum documento que provasse a existência de uma Missão espanhola em Santa Cecília, mais propriamente num extenso espaço arborizado, com grande pinhal a perder de vista, local sereno, inspirador de paz, reconfortante, ligado às famílias, às crianças e aos piqueniques. Este parque aprazível estava prestes a transformar-se num grande centro comercial. Uma plataforma de cidadãos tentava encontrar uma base legal que travasse a eliminação daquele belo local de que Fontana tanto gostava, o que no entender de Carter só seria conseguido se se provasse que era um lugar histórico. O livro tem finais felizes. O tal documento é encontrado quase no último dia da estada de Blanca na Califórnia, o processo do Centro Comercial é embargado e Blanca acaba por perdoar Carter pelo caminho enviesado que utilizara para a contratar e por tudo o que lhe escondera. Ele irá ter com ela a Espanha.
Gostei muito deste livro que é, sem dúvida, muito mais do que descrevi. Apesar da narrativa ter imensos saltos no tempo e na vida das personagens, das quais mostra bem os seus sentimentos e emoções é muito bem construído o que torna a leitura agradável e entusiasmante.

Maria Fernanda Pinto

segunda-feira, 7 de março de 2016

"Chorei de Véspera" de Isabel Néry

Hå livros que nos tocam por variadíssimos motivos. São um conjunto de factores que fazem dele uma experiência positiva para quem lê mas, acredito, possa ser dolorosa para quem escreve. São linhas sofridas porque a escrita torna-se uma recordação dos momentos de dor, mas também, reconheço, uma catarse para o escritor.

Mexeu muito comigo o facto deste livro ser uma experiência pessoal da autora, que ninguém quer de todo experienciar, mas que queremos conhecer e que vivenciamos através da sua escrita. Uma ida às urgências, um diagnóstico mal feito, o voltar para casa, as dores continuadas e intensas, uma nova ida ao hospital, a morte ali tão perto. Os exames invasivos. Agulhas e agulhas. Que sentir? O que esperar? Como conviver de perto com um futuro que não sabemos futuro? Como recomeçar?

Uma experiência de vida depois de estar próxima da morte. Quase. Considerações sobre o que se sente, como se sente alguém que fica suspenso da vida cá de fora esperando diagnósticos e tratamentos.

Como subtítulo lemos "Ensaio sobre a morte, por amor à vida". Se é um ensaio, lê-se como um romance, se é um romance, vive-se como nosso. De rápida leitura, faz-nos pensar. Muito.

No final, quase a terminar, a explicação do título. Com todo o sentido lá bem colocado. Muito bom!

Não posso deixar de dar os parabéns à editora pela qualidade gráfica deste livro. Capa dura, papel amarelo, letra de bom tamanho.

Recomendo!

Terminado em 28 de Fevereiro de 2016

Estrelas: 5*

«Esta é a minha história. Nasci no dia 20 de abril de 1971, às 17 horas e dez minutos, e devia ter morrido no dia 10 de abril de 2009, às doze e trinta. Mas não morri. E preciso de vos contar porquê.» Começa assim o livro que nos conta a experiência de morte de alguém que esteve lá e voltou para contar, depois de um derrame cerebral. O azar trouxe-lhe uma médica negligente, com risco de vida multiplicado, e dor desnecessária. A sorte trouxe-lhe o regresso à vida. Mas, o que podemos fazer da vida quando um dia nos morremos e no outro voltamos? Tornar-nos mais sábios - e felizes - é talvez a única resposta possível. E sabedoria é coisa que vem com abundância à aproximação da morte.
Misto de ensaio e reportagem, escrito em ritmo de romance, este é um livro insurgente. Sem medo de fronteiras estilísticas, todas as formas lhe assentam, porque todas obedecem ao registo intimista, sem com isso esquecer os que melhor pensaram e descreveram a experiência de morte ao longo dos séculos. Tolstói, Sartre, Montaigne, Dostoiévski, Séneca, Foucault, Santo Agostinho, Miguel Real ou José Cardoso Pires são alguns dos que contribuíram para a reflexão que aqui se publica.
Com isso, passaram também a fazer parte de uma história real que nos obriga a refletir sobre o sistema de saúde, sobre a morte, mas mais ainda sobre a vida. Afinal, somos todos vivos provisórios. Mas a morte assim, tão juntinha a nós, também pode tornar-se a melhor amiga da vida.

domingo, 6 de março de 2016

Ao Domingo com... Luísa de Souza

Eu sou a Luísa de Souza, socióloga e especialista de marketing. Recentemente a crise portuguesa colocou-me um dos maiores desafios da minha vida, o desemprego aos quarenta anos. Num período em que me debatia com a mesma situação que afetava tanto portugueses optei por me reinventar, mantendo-me sempre ativa, entrando no grupo de empresários BNI Visão, sendo finalista de um Prémio FAZ com a ideia “Super-M”, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian e efetuando um Curso de Formação Avançada para Mulheres Empreendedoras (FAME), realizado pelo IFDEP. Como tantas vezes sucede, é nos períodos mais conturbados da vida que se descobrem gostos e talentos e para mim foi uma surpresa a descoberta do talento para o Cake Design e o tempo que passei a ter para desenvolver o meu gosto pela escrita, culminando neste “Luar da Serra”. Estou há dois anos a trabalhar aqui na CMVM e vivo com o meu marido e os meus dois filhos em Palmela, repartindo os meus tempos livres entre a serra da Arrábida e a serra de Montemuro.

Escrever sempre foi uma das minhas paixões e algo que venho fazendo desde os meus 15 anos de idade.
A primeira história que escrevi nessa altura foi um conto infantil para oferecer à minha afilhada que se chama a “Ilha dos ursos cabeludos”. Depois fui escrevendo algumas short-stories, blogs e nos últimos anos dediquei-me ao meu primeiro romance de ficção, o “Luar da Serra”.
Ter a oportunidade de publicar o meu romance e dar a conhecer um pouco da minha alma ao mundo é um sonho tornado realidade e se com aquilo que escrevo puder colocar um sorriso na cara de alguém e ajudar alguém que esteja a passar por algum periodo de desanimo a ver na minha história um exemplo positivo, a minha missão terá sido mais que cumprida.
O Luar da Serra saiu para as livrarias em fevereiro de 2016 e tenho até já algumas apresentações planeadas. Mais do que ir apresentar a história da Laura e dos desafios que tem de enfrentar quando a sua vida dá uma volta de 360 graus, irei falar do meu próprio percurso, nem sempre fácil, e tentarei que quem me oiça se reveja na necessidade de se lutar contra as adversidades e nunca desistir de tentar alcançar o seu sonho.

Sinopse do livro Luar da Serra:
Assim que Laura entra na pequena aldeia de Vila Boa de Cima, perdida no cimo da serra de Montemuro, trazendo no seu carro o pouco que possui e tudo o quanto ama, sente a brisa da esperança encher-lhe a alma e sabe que desde que tenha os seus filhos ao seu lado nada mais importa.
Para Sofia, o primeiro vislumbre desta nova realidade para onde é arrastada pela sua mãe é tudo o que não quer e sabe que se certificará que a estadia neste fim do mundo seja o mais curta possível.

O vento da mudança tinha acabado de empurrar ambas para bem longe da vida segura e confortável a que estavam habituadas, em direção a um tornado de emoções e de descoberta delas mesmas.


Onde me podem ir seguindo?
www.luisadesouza.com
https://www.facebook.com/autoraluisadesouza/
BOOK Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=MxjhGfb8ttc

Luíza de Souza

sábado, 5 de março de 2016

Na minha caixa de correio

 

Chegaram esta semana:
Oferta da Topseller, O Brilho Azul das Estrelas.
De editora Guerra e Paz, Adeus África!
O meu obrigada a ambas!

sexta-feira, 4 de março de 2016

Reedição em eBook de "Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador"

“Dom Dinis - a quem chamaram O Lavrador” 
de Cristina Torrão
disponível em eBook

Foi no passado dia 24 de Fevereiro editado em eBook o livro “Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador”, da autoria de Cristina Torrão. O livro digital, que poderá ser adquirido na Leyaonline bem como nas livrarias online associadas, é uma reedição revista e melhorada da versão em papel, editada em 2010 pela Editora Ésquilo. O texto foi devidamente trabalhado, de forma a dar mais realce ao enredo do que aos factos históricos, que podem tornar fastidiosa a leitura de um romance histórico.

Sobre o livro:
Dom Dinis, o Lavrador ou o Poeta?
Há ainda quem lhe chame o Trovador. E, no entanto, para fazermos justiça ao sexto rei de Portugal, teríamos de ir mais longe. Podíamos chamar-lhe o Legislador, o Reformador, ou até o Defensor, tanto ele fez pela defesa e delimitação das fronteiras do reino, apesar de não ter sido um rei propriamente guerreiro.
Dom Dinis não foi, porém, apenas o homem público. Dele se diz que, não se furtando a amores adúlteros, muito fez sofrer a rainha com quem esteve casado durante cerca de quarenta e quatro anos, uma rainha que foi canonizada. E, apesar de ter ficado na história como um rei justo e culto, debateu-se numa guerra civil contra o seu próprio filho e herdeiro, uma guerra que massacrou o reino português e amargurou os últimos cinco anos de vida do monarca, talvez até lhe tenha acelerado a morte.

«Quantas contendas são provocadas e quantas mágoas se guardam por palavras silenciadas? Palavras que se adivinham, mas que não são ditas? Não se duvida do amor de um pai por um filho e, no entanto, se não for continuamente expresso, seja por falas, seja por atos, deixará o filho eternamente insatisfeito, desconfiando desse afeto. Qualquer pessoa, desde o mais baixo serviçal, ao mais alto dos soberanos, há mister da aprovação e do apoio expresso de seus orientadores. É um erro abrigarmo-nos sob a capa das evidências. Amar não é apenas um conceito, é prová-lo, todos os dias, a todas as horas. Quer se trate de um pai, de uma mãe, seja de quem for: quem não pratica o amor, não o recebe de volta. Quanto desprezo, quanto abandono e, muitas vezes, quanto sarcasmo aguentaram aqueles de quem se diz não serem bons filhos?»
(palavras da rainha Santa Isabel, neste romance)

Novidade TopSeller

O Brilho azul das estrelas
de Laura Pritchett
Ben e a sua mulher vivem num rancho próximo das Montanhas Rochosas, no Colorado. Ben é ainda um homem ativo e pleno de vida, quando lhe é diagnosticada Alzheimer. Com o avanço da doença, começa a sentir que é um fardo para a mulher e que não lhe resta muito tempo de consciência.
Além do aparecimento da doença, surge a terrível notícia da libertação do genro, preso pelo homicídio da filha Rachel. 
Motivado pelo desejo de vingança, Ben decide corrigir o passado e levar avante um último gesto de amor e justiça pela sua família.

Novidade Esfera do Caos

O passo do Rei
de Miguel Quintas Martins
Uma aldeia misteriosa. Uma cidade indefesa. Um país à beira da destruição. Uma morte desencadeia indícios de crime organizado. Será o "Observador" capaz de resolver um caso que remonta aos princípios do século XV? O que têm em comum Catarina de Médici, Nostradamus e um candidato a Primeiro-ministro de Portugal?

Novidade Bertrand

Tim
de Colleen McCullough
Mary Horton tem quarenta e três anos e vive num subúrbio tranquilo, de classe média, na costa australiana. É uma mulher solteira, muito rígida e distante, que conseguiu construir uma vida a pulso, mas o seu conceito de «vida» não inclui relações pessoais. Sem um namorado nem amigos, Mary não quer deixar ninguém entrar na sua vida solitária.
Tim Melville é um trabalhador manual de vinte e cinco anos, com o rosto e o corpo de um deus grego, mas a cabeça de uma criança. Num mundo cruel e inflexível, apesar da sua família maravilhosa, Tim acaba muitas vezes por se deixar levar pelos que se dizem seus amigos e se aproveitam dele.
Tim conhece Mary por acaso numa manhã de verão, e aquilo que começa por ser um dia de trabalho para ele transforma-se numa relação que vai mudar a vida dos dois.

Novidade Esfera dos Livros

Família e amigos à mesa
de Joana Roque
Ingredientes acessíveis, tempo controlado e mínimo desperdício. São três aspectos que Joana Roque valoriza muito na sua cozinha.
Neste seu novo livro, a autora bestseller de Feito em Casa e O Que Faço Hoje para Jantar?, partilha mais de 120 receitas, simples, criativas para as refeições do dia a dia, em família ou entre amigos.
Há receitas para todos os gostos, desde as preparadas com a ajuda dos mais pequenos, às dos dias especiais, dos jantares familiares durante a semana,  para receber os amigos e também receitas mais leves para compensar os excessos do fim de semana.

Convite para lançamento da Antologia Mar-à-Tona... Em Poesia


Convite Saída de Emergência

Encontro com Carol Rossetti - Catarina Furtado 
e apresentação do livro Mulheres


No Dia Internacional da Mulher, a Associação Corações com Coroa vai promover, juntamente com a Biblioteca de Belém e a editora Saída de Emergência, um encontro com a autora/ilustradora brasileira Carol Rossetti, que estará em Portugal a apresentar o seu livro “Mulheres”.
Este encontro terá lugar no dia 8 de Março pelas 18h30 nas instalações da Biblioteca de Belém, uma instituição que acolhe o espólio feminista Ana de Castro Osório.

Novidade Alfaguara

Carta à mulher do meu futuro
De Petér Gardós


Em Julho de 1945, depois de sobreviver ao campo de concentração de Bergen-Belsen, Miklós, um jovem húngaro de vinte e cinco anos, é enviado para um campo de refugiados na Suécia. Pele e osso, desdentado, doente, o médico dá-lhe poucos meses de vida. Mas morrer depois de sobreviver a uma guerra não está nos planos de Miklós.
Ele não se sente sozinho. Sabe que que há 117 mulheres da sua terra a viver em campos de refugiados na Suécia. Ignorando a sentença de morte da febre que o atormenta todas as manhãs, envia uma carta a cada uma delas. Alguma haverá de sucumbir à sua veia poética e sedutora caligrafia.
A centenas de quilómetros, Lili responde. Assim começa uma história de amor redentora e inesquecível entre dois sobreviventes que eram também sonhadores. Baseada na história real dos pais do autor e narrada a partir das cartas trocadas entre os dois, o romance de Péter Gárdos relembra-nos que o amor é uma força de vida, capaz de vencer a própria morte. 

quinta-feira, 3 de março de 2016

A Escolha do Jorge: A Contadora de Filmes

O primeiro contacto que tive com a obra do chileno Hernán Rivera Letelier (n. 1950) foi com "A Arte da Ressurreição", obra que recebeu o Prémio Alfaguara Romance em 2010. Trata-se de um daqueles livros que dificilmente esquecemos, não só pelos seus personagens singulares como o Cristo de Elqui e María Magalena (qualquer semelhança com os Evangelhos nada mais é do que a mais pura coincidência), as histórias mais caricatas, algumas até surreais, conquistando o leitor a partir das primeiras páginas do livro.
Hernán Rivera Letelier imprime nessa obra o cariz de realismo mágico deixando o leitor encantado pelos personagens, sem, contudo, deixar de caracterizar a região das pampas, região rica em minas de salitre, incutindo à narrativa a dimensão socioeconómica e até cultural daquela região do Chile.
À semelhança de "A Arte da Ressurreição", "A Contadora de Filmes" (2009) é uma novela passada na mesma região chilena, embora sem a dimensão do realismo mágico, mas encantando de igual forma o leitor para uma obra pejada de emoções e sentimentos registando de igual modo as vivências das gentes daquelas paragens muito distantes dos grandes centros urbanos.
Imaginemos então pequenas comunidades que se fixam junto às minas de salitre, construindo casinhotos com péssimas condições, insalubres, dada a pobreza generalizada da população mineira. Comunidades com uma baixa escolaridade, frequentes casos de alcoolismo, gravidez na adolescência muitas vezes fruto de violação por parte de indivíduos muito mais velhos, ausência de atividades culturais que promovam a integridade e formação das pessoas enquanto cidadãos, tudo fatores que contribuem para um desnorte destas pequenas comunidades.
Assim, no caso específico de "A Contadora de Filmes" apresenta uma comunidade em que o cinema é a única forma de distração dos habitantes e mesmo assim, nem todos têm a disponibilidade económica para adquirirem os bilhetes de acesso.
Esta pequena novela tem o seu epicentro na família de María Margarita, a filha mais nova de cinco irmãos que vivem com o pai inválido na sequência de um acidente na mina. Como não há dinheiro para toda a família ir ao cinema, após um concurso familiar, Maria Margarita ficou incumbida de ir ao cinema e depois contar todos os pormenores do filme aos irmãos e ao pai. Perante uma tão grande recetividade, María Margarita começou a investir cada vez mais na forma como representa o papel de contadora de filmes ao ponto de a sua fama se espalhar rapidamente pela pampa.
Na sequência deste talento descoberto, o pai de María Margarita decidiu abrir as portas da sua casa à população faminta de histórias, no fundo, de algum entretenimento e até como alternativa ao cinema cuja entrada não conseguia suportar.
Numa pequena comunidade em que a luta diária é a luta pela sobrevivência, María Margarita veio a trazer um novo alento aos vizinhos e amigos, trazendo-lhes o prazer e a alegria de uma certa ilusão criada no decurso de uma história contada a partir de um filme. Aos poucos, a adolescente María Margarita tornou-se numa verdadeira "super star" da região pampina investindo numa malinha de acessórios para utilizar mediante o filme que contava.
O sucesso foi tanto que María Margarita começou a fazer visitas ao domicílio como forma de entreter aqueles que se encontravam inválidos ou que por uma ou outra razão não se deslocavam a casa da jovem. Num ápice, María Margarita passou a ser conhecida como "Hada Delcine contadora de filmes".
"Havia quem fosse ver o filme ao cinema e a seguir ia lá a casa ouvi-lo contar. Depois saíam a dizer que o filme que eu tinha contado era melhor do que aquele que tinham visto." (p. 41)
E assim vão passando os anos em que María Margarita se afirmou como a vedeta da sua localidade até que algo inesperado começa a abalar o estrelato. A chegada da televisão à região pampina fez com que ao fim de aproximadamente um ano, cada casa tivesse o seu aparelho deleitando-se com a novidade, cada um em sua casa, esquecendo-se aos poucos da contadora de filmes.
Como se não bastasse, muitas das minas de salitre são encerradas por decisão governamental levando a que as pequenas comunidades procurem emprego noutras regiões do país. Assim, María Margarita perde o seu lugar de estrela dando lugar a um fantasma daquelas paragens.
Se por um lado "A Contadora de Filmes" nos permite uma viagem enternecedora através de uma jovem que nos leva a sonhar, por outro lado, também nos evidencia de como na vida tudo pode ser volátil e que de uma situação à outra tudo pode acontecer em três tempos como se de alguma forma o mundo desmoronasse aos nossos pés.
O autor Hernán Rivera Letelier é um excelente contista capaz de conduzir o leitor pelas ruas da alegria, do sorriso, mas também da tristeza e das lágrimas se for preciso. É difícil ler qualquer uma destas duas obras sem ficar-se enternecido pelos seus personagens, mas também não deixa de se sentir de certa forma magoado com a pobreza excessiva apresentada na região que o autor tão bem conhece, apontando o dedo às discrepâncias abusivas entre ricos e pobres ao ponto de os ricos serem excessivamente ricos e os pobres serem miseráveis.

Excerto:
"Entretanto, no acampamento, as pessoas começaram a falar de mim. «É a menina que conta filmes», alcançava ouvir às vezes, enquanto fazia bicha para o pão na mercearia. Ou quando passava pela rua do comércio à saída da escola. Mas a minha popularidade firmou-se definitivamente na tarde em que, ao voltar do cinema, descobri que havia mais gente do que era normal à minha espera lá em casa.
Além dos amigos dos meus irmãos – que já tinham passado de olhar pela janela a entrar e sentar-se no
chão -, o meu pai tinha convidado dois antigos companheiros de trabalho, que vieram ouvir-me acompanhados de esposas e filhos. Os meus irmãos tiveram de ceder o banco e de se sentar no chão com os amigos.
Enquanto tomava a minha caneca de chá e me preparava para contar o filme, de pé contra a parede branca, o meu pai não parava de repetir aos seus convidados que, embora o filme fosse a preto-e-branco, e a meio ecrã, esta menininha, compadres, até parece que o conta em ‘technicolor’ e ‘cinemascope’.
«Já vão ver pelos vossos próprios olhos.»
Contar o filme com mais público pareceu-me fascinante. Sentia-me uma verdadeira artista. Acho que dessa vez fiz uma das minhas melhores narrações. O filme era uma comédia musical, com a atuação da Marisol, a menina prodígio de Espanha. As visitas ficaram embasbacadas. E não só pela minha maneira de contar e representar, também pela interpretação das canções.
No fim, os aplausos soaram-me como música aos ouvidos.
A partir desse dia, começou a falar-se abertamente do meu talento especial de contadora de filmes, e a cada noite eram mais os amigos do meu pai que se faziam convidados para irem lá a casa ouvir-me.
Ver-me e ouvir-me." (pp. 39-40)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 2 de março de 2016

A Convidada Escolhe: "A Cozinha Açafrão"

Neste livro viaja-se entre o Irão e Londres. O Irão rural antes da revolução dos aiatolahs de 1979 e quarenta anos depois, onde as cidades cresceram e se transformaram, mas onde as aldeias inacessíveis permaneceram esquecidas e isoladas; e Londres, capital frenética e acolhedora, estrangeira e refúgio para muitos imigrantes. O facto de a autora ser filha de mãe iraniana e de pai inglês foi certamente determinante na escolha do tema, dos ambientes e das personagens que a leitura deste belo romance nos proporciona.
Certamente podemos considerar que o grande tema deste romance tem a ver com a liberdade. A liberdade de escolher, a liberdade de romper com as tradições, a liberdade de renunciar a uma vida estável e segura para escolher a liberdade de se reconciliar consigo própria, a liberdade de ser feliz. "Para cada liberdade que escolhemos, temos de desistir de outra" disse um dia Maryam a Sara, perplexa pelas escolhas da mãe.
Dificilmente se consegue identificar uma personagem principal, apesar de Maryam ser o centro da narrativa. Mas Sara, Ali, Edward, Saeed, Fatima, o doutor Ahalavi ou o pai de Maryam estão sempre lá e são todos eles que compõem e enformam a história e o percurso da jovem Maryam que, quando menina, à pergunta recorrente de Fatima a cozinheira "Quando é que cresces, Maryam?" sempre respondia "Quando isso significar que posso ser livre". Fatima, adiando a dura realidade duma sociedade opressora para as raparigas e mulheres, ajudava-a a esconder o seu crescimento de muitas maneiras, enfaixando-lhe o peito em crescimento ou escondendo os panos da menstruação.
A condição feminina, a opressão das mulheres na sociedade iraniana é um aspecto recorrente que a autora nos desvenda através do temperamento insubmisso de Maryam. Filha do meio do primeiro casamento do pai, ela recorda que quando tentava lembrar-se da mãe não conseguia recordar-se de alguma vez a ter visto feliz e quanto ao pai "talvez ele preferisse que eu fosse um rapaz. Às vezes eu também." Numa sociedade em que era incorrecto e considerado inconveniente uma mulher encarar um homem nos olhos, as mulheres eram expulsas só pela suspeita da desonra; ter-se um namorado era motivo para castigo. Desde pequena que era frequente sentir-se como que apanhada numa armadilha, por ser mulher e sentir-se excluída, mormente quando fazia perguntas a que ninguém respondia. Cedo se apercebeu que a política era para os homens e que aquele era um território a que ela não podia aceder, mesmo que desejasse. Por outro lado, o facto de pertencer a uma família de uma classe social alta não lhe permitia conviver nem ter um relacionamento próximo com empregados, devido a normas sociais altamente restritivas e classistas. Sendo insubmissa, como podia aceitar um casamento arranjado pelo pai com um homem mais velho e que nem sequer conhecia, como acontecera a Mairy sua irmã mais velha que, ao nascer, foi colocada sobre o joelho de Reza,um parente mais velho, como sua futura esposa?
Ao longo do romance, o contar histórias tradicionais é um verdadeiro bálsamo, uma bênção, ou o aprender poemas são aspectos que dão uma nota muito poética à narrativa e isso não está desligado da história de Maryam, confundindo-se com ela. Por exemplo, a história da montanha de Gossemarbart, a mulher de pedra à entrada da aldeia de Mazareh é a história da violência reiterada, da violência que se desculpa, que se pensa que não vai ter consequências, mas que um dia conduz à morte. Mazareh é a história de uma mulher-pedra que foi sacrificada pelos pais; a história de uma rapariga que é vítima porque não foi educada para resistir à violência.
Mas passados quarenta anos, se há coisas que mudaram, os costumes, as tradições, os preconceitos permanecem. Aquilo que obrigou Maryam a partir para um exílio forçado não foi apagado e passados tantos anos ela sente nas atitudes dos outros os preconceitos que persistem, como quando a família de Maryam recusa aceitar a presença de Ali debaixo do seu tecto. O regresso à terra natal, embora seja a urgência do reencontro com a infância e a necessidade de pacificação com uma partida dolorosa, não foi o regresso ao paraíso perdido. "Então o mundo não muda. Os costumes resistem aqui como em qualquer outro sítio". Foi pelo menos a possibilidade de se reconciliar com a filha, fazendo a catarse do drama vivido e nunca verbalizado, a violência extrema a que o pai a sujeitou para testar a sua virgindade.
Um livro que dificilmente se esquece. Doloroso e também corajoso.


Almerinda Bento

terça-feira, 1 de março de 2016

"Amor entre Guerras" de Sofia Ferros

Lê-se tão bem este livro! Uma leitura que se apanha à primeira, muito rapidamente, e com a qual existe um envolvimento quase instantâneo. Os personagens são cativantes, a pesquisa dos dados históricos que transparece no livro está bem enquadrada na história e o enredo contagia.

Com um periodo alargado, que vai desde antes da Primeira Guerra até ao começo da Segunda, intercala com mestria situações ficcionadas com factos históricos. Com isso desperta no leitor um interesse pela História de França, Inglaterra, Portugal e Moçambique dessa época.

Deixo aqui um recado à Sofia, com a qual troquei alguns e-mails aquando da sua participação na rúbrica Ao Domingo com... (podem lê-la aqui!): tem absolutamente de continuar a história! Fiquei literalmente a olhar para o ponto de interrogação com que finaliza a sua última frase e só pensava, "Não acredito!, não acredito que isto acaba assim! Agarre na caneta pf (ou no teclado, tanto faz!) e responda à questão colocada e continue a história noutro livro... Ficaram tantas coisas por contar e que o leitor quer saber! Teria pegado imediatamente nessa leitura, se já existisse continuação, porque fiquei verdadeiramente apaixonada pelos personagens. Gostava de saber como enfrentaram eles a II Guerra, depois de terem sofrido horrores com a Primeira...

Terminado em 27 de Fevereiro de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

Quando a Alemanha declara guerra a Portugal em 1916, Miguel Vieira, um jovem médico do Porto, voluntaria-se para integrar o Corpo Expedicionário Português e parte para a frente de combate, na Flandres. Encontra-se nas trincheiras aquando do ataque devastador dos alemães às tropas portuguesas, naquela que ficará conhecida como a Batalha de La Lys. Como responsável pelo Posto de Socorro Avançado, é chamado a tomar decisões dramáticas, uma das quais envolve o seu melhor amigo. Será, de resto, por causa dele que, num castelo transformado em hospital de guerra, conhece e se apaixona por Alexandrine Roussel, uma francesa de espírito indomável que tem a ambição de se tornar médica e trava uma luta sem tréguas pela emancipação das mulheres e pela liberdade.
Terminado o conflito, Miguel e Alexandrine casam-se e vivem, em Paris, um ambiente de euforia e contestação. Mas eis que chega o momento de o médico aceitar um desafio profissional na exótica Lourenço Marques, onde a família se estabelecerá durante longos anos. À passagem por Lisboa, Alexandrine sofrerá, porém, um acidente que mudará as suas vidas para sempre.
Amor entre Guerras, que se baseia na história dos bisavós maternos da autora, é um romance fascinante sobre uma família entre 1916 e as vésperas da Segunda Guerra Mundial, oferecendo-se ainda como relato das convulsões que o mundo atravessou na época e como testemunho da vida quotidiana em Moçambique.