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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Novidade Marcador

Encontro em Itália
de Liliana Lavado
Encontro em Itália é a história de dois amigos de Infância.
Henrique e Sara que pouco têm em comum, para além de uma paixão por livros e uma amizade que ambos já deram como perdida. Depois de vários anos de silêncio, ele é um estudante finalista de Literatura Inglesa que olha com receio os dias fora das paredes seguras da Universidade e ela uma aspirante a escritora que se esvanece no tumulto de um grupo de amigos problemático. Mas tudo isto vai mudar.
Durante uma viagem a Itália, que tem tudo para ser perfeita, vão encontrar um livro misterioso, um gato com um estranho sentido de humor e uma inesperada aventura que os volta a juntar no mesmo caminho. 
Henrique e Sara podem ter encontrado um no outro o pretexto que tanto procuravam para adiar decisões e contornar o futuro, mas, em troca recebem também o que não pediram e aprendem que o futuro é inevitável.

Novidade Porto Editora

Infância Roubada
de Josephine Cox
Edward Carter é um homem cruel e violento, habituado a instilar o medo em todos aqueles com quem se cruza e a dirigir com pulso de ferro as vidas da sua mulher e do seu filho. Peggy é uma mulher meiga e tímida. Com o passar dos anos, aprendeu a não contrariar o marido. Sabe que enfrentá-lo só piorará a situação, a ponto de fazê-lo perder a cabeça e cometer uma loucura contra ela ou contra o filho de ambos. Para proteger o filho, não resta outra opção a Peggy senão a de subjugar-se ao homem perigoso 
que tornou as suas vidas um verdadeiro pesadelo.
Introvertido e sem amigos, Adam é um menino receoso: não por si, mas pela mãe. Temendo que tudo o que faça desperte a ira do pai, Adam não vive como a criança que é.
Phil é um homem de natureza bondosa e de princípios. Conduz o autocarro escolar e é o único amigo de Adam. Num final de tarde, após o regresso da escola, Phil e Adam deparam-se com uma tragédia chocante, que forjará uma amizade indestrutível, nascida da mais profunda dor. Uma história de perda, mas também de grande companheirismo e da longa e solitária viagem de um rapaz na redescoberta do sentido de família.

Novidade Vogais



Novidade Nascente Editora



Novidade Planeta

Este Homem - O Amante
de Jodie Malpas 
O Amante é o primeiro livro da trilogia Este Homem, que narra a história do aristocrata Jesse Ward e de Ava O’Shea, uma jovem designer de interiores. 
Quando Ava é contratada para um trabalho no Manor, nunca pensou ir encontrar Jesse, um homem confiante, lindo de morrer e em busca de prazer sem limites. 
Ava tenta resistir, mas não consegue controlar o desejo irresistível que Jesse lhe desperta. Ela tem consciência que poderá vir a sofrer e, embora o instinto lhe diga para sair desta situação enquanto é tempo, ele não está disposto a deixá-la ir. 
Jesse está determinado a tê-la.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

A Escolha do Jorge: "Tempo de Vida"



A edição de "Tempo de Vida" do madrileno Marcos Giralt Torrente coincidiu precisamente com a participação do escritor na Noite da Literatura Europeia que teve lugar no passado sábado em Lisboa.

Quem teve oportunidade de ouvir excertos de "Tempo de Vida" tanto em castelhano como em português no decorrer desse evento que no caso específico deste autor aconteceu no Pavilhão Chinês, certamente terá ficado estarrecido com as passagens verdadeiramente suculentas e não menos repletas de tristeza e dor que vêm na sequência da perda do seu pai.

O que leva um escritor escrever sobre si e a sua família? O que deve incluir nos relatos e o que deve excluir? Que critérios utiliza para diferenciar aquilo que é essencial do acessório? De que modo uma história que poderia ser ficção para o leitor entra no registo literário? Será a atitude do leitor diferente quando está perante um livro de cariz autobiográfico?

Logo no início do livro, Marcos Giralt Torrente responde a algumas destas questões dado que nas suas várias obras publicadas, de uma forma ou de outra, acaba por se vingar do seu pai (literariamente falando) em virtude de ao longo da sua vida ter tido um relacionamento tanto difícil como complexo
e nesse sentido, a escrita constitui em certa medida uma forma de ajustar contas com o progenitor, exercendo igualmente um papel terapêutico.

De qualquer modo, em "Tempo de Vida" Marcos Giralt Torrente apresenta-nos um romance autobiográfico centrando a narrativa nesse relacionamento complexo pai-filho sem a necessidade de recorrer a personagens ficcionais e a enredos inventados. Aqui, os personagens são de carne e osso em que foram definidas as doses certas de pormenores sem que haja a necessidade de entrar em questões demasiado íntimas e despropositadas, mas criando um ambiente o suficientemente intimista não só para se expor à vontade, envolvendo de igual modo o leitor ao longo da narrativa.

"Tempo de Vida" tem o epicentro no acompanhamento que Marcos Giralt Torrente faz ao seu pai a partir do momento em que lhe é diagnosticada uma doença do foro oncológico. De exame em exame, seguido de uma operação e sessões de quimioterapia, Marcos Giralt Torrente vai refletindo sobre a
necessidade de apaziguar divergências ao nível de relacionamento quando se apercebe gradualmente
que, na verdade, entre pai e filho são mais as semelhanças que os une do que propriamente as diferenças. É neste "Tempo de Vida" que pai e filho não só sentem em pleno a verdadeira relação e cumplicidade tentando recuperar anos a fio de tensão e encontros comedidos e calculados, mas é também nesta fase da doença do pai do autor que o pai estando mais vulnerável, o filho assume o papel de protetor como se fosse pai de seu pai, algo que acontece naturalmente.

Numa escrita intensa e envolvente, Marcos Giralt Torrente agarra-nos desde a primeira página e sem ser lamechas estabelece o meio-termo entre o modo de se expor a si e a outros elementos da sua família mais próxima e o misto de sentimentos que vão desfilando ao longo da obra. Em suma, o autor em "Tempo de Vida" faz-nos recordar que todos nós, homens e mulheres, para além de sermos ossos e sangue, somos igualmente muito frágeis repletos de sentimentos e que nem sempre sabemos qual a melhor forma de lidarmos uns com os outros mesmo aqueles com quem lidamos durante toda a vida, mesmo quando um pai aquilo que tenta fazer é ser o melhor pai do mundo e um filho que mesmo já homem tenta na medida do possível sentir-se sempre filho de modo a perdurar essa relação
ancestral e duradoura.

Em jeito de conclusão, os leitores ficarão inebriados com esta ficção-realidade apresentada em "Tempo de Vida" sendo levados a refletir sobre o relacionamento que mantêm com as pessoas mais próximas de si, assim como o facto de que esta é a vida e o tempo que têm para serem felizes valorizando aquilo que pode ser considerado um milagre, o milagre da vida com o nascimento de uma criança que nos permite acreditar num amanhã melhor e mais feliz.

Excertos:

"Claro que não são as únicas [parecenças] que partilhávamos. À parte as que usei na ficção e o físico cada vez mais parecido, temos mais. Adquiridas e herdadas. Ambos melancólicos, ambos coléricos, ambos tímidos, ambos inseguros, ambos sentimentais, ambos cépticos, ambos pessimistas, ambos solitários, ambos avessos aos adventícios, aos impostores; ambos sóbrios, ambos um pouco exibicionistas, ambos estóicos, ambos sonhadores, ambos carinhosos, ambos masculinos, ambos
heterossexuais, ambos secretamente femininos, ambos vulneráveis, ambos compassivos, ambos obsessivos, ambos divididos, ambos calados, ambos amordaçados, desconcertados pela consciência excessiva das nossas limitações." (p. 109)

"A única coisa que queria era ter mais dele, a única coisa que queria era estar mais com ele.
Porque gostava dele, porque precisava dele, porque desde muito pequeno me recordo de fazer minhas as suas opiniões, porque, se sei viajar, se sei cozinhar, se sei pendurar um quadro, se sei consertar um candeeiro, se sei entrar num antiquário ou numa loja de móveis e distinguir o que é bom do que é falso, se sei que o mundo é redondo e que a natureza (a natureza, isso também lhe devo) não fez melhores umas línguas que outras, uns países que outros, umas religiões que outras, se sei o mal que é não nos elevarmos acima da nossa condição, devo-o em parte a ele." (p. 112)

"(…) Quando, passada meia gora, a minha mulher e eu entrámos no quarto, desta vez com um
objetivo prático, que era mudá-lo de posição, o meu pai já não existia. É a principal coisa que recordo. A sensação de ele ter partido. Naturalmente houve choros, comentários desconexos, busca apressada de um espelho, muitos nervos e por fim, quando já assumíamos a situação, abracei-me a ele e comecei a falar como se ainda pudesse ouvir-me. No entanto, em todo este tempo, assim que entrei no quarto não deixei de ter presente, de sentir dolorosamente, porque se tratava de uma ausência física, que o meu pai já não estava ali. O corpo jacente na cama a que me abraçava já não era o meu pai. O meu pai tinha desaparecido, tinha ido para nenhures, para o lugar onde a memória se rende e desaparece. É o único momento da minha vida em que o meu esperançoso agnosticismo se deixou vencer pela aspereza do ateísmo." (p. 148)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

"Sou um Clandestino" de Susanna Tamaro

Quem não ouviu falar (ou leu) Susanna Tamaro? "Vai onde te leva o coração" é um livro que nao se esquece, mesmo que o tenhamos lido já há muito tempo. Talvez por isso e pela recordação que me deixou, ache que este livro ficou aquém das minhas expectativas. Não que não se leia muito bem, não é por isso.

Mas ao saber que este foi o seu primeiro romance, consigo dar-lhe um valor acrescido, sem dúvida! Foi o começo de uma escrita com características muito próprias, marcada por temas sobre as nossas escolhas, os nossos traumas, as decisões que tomamos e suas consequências, o nosso "eu" face aos outros.

O personagem principal, o narrador, um jovem que não chegamos a conhecer o nome, faz uma viagem. Parte de Roma de autocarro até Illmitz, na Áustria. Busca as suas raízes mas busca-se a si próprio, sobretudo. O seu passado, a sua infância, a morte da mãe e da irmã, os seus amigos de infância, os seus pesadelos, a sua namorada, os seus "eus" interiores, tudo lhe vem ao pensamento e sobre tudo faz uma análise. Uma retrospecção à sua vida, às suas angústias. À sua solidão.

Terminado em 9 de Junho de 2014

Estrelas: 4*

Sinopse

O protagonista deste livro é um jovem de vinte e cinco anos que decide empreender uma viagem a Illmitz, uma pequena cidade numa região remota da Áustria onde a sua família vivera antes de se mudar para Itália. É uma viagem em busca das suas raízes - mas sobretudo em busca de um sentido para a sua inquietação, para a sua fragilidade. Com ele viajam também os seus fantasmas: Agnese, a irmã que morreu ainda criança; Andrea, o amigo de infância; a mãe, falecida também prematuramente. E há ainda Cecilia, a namorada. Dotada de uma sensualidade exuberante e de uma vitalidade instintiva, Cecilia é tudo aquilo que o protagonista não é. E é com essa imagem tão diferente de si próprio que ele vai ter de se reconciliar…

terça-feira, 10 de junho de 2014

A Convidada Escolhe: A Sétima Porta

Uma vez mais, Richard Zimler voltou a cativar-me com a sua mestria a contar histórias. Mais uma vez me surpreendeu com um livro onde há factos históricos, mistério, suspense, romance, ficção, e onde se revela a sua enorme sensibilidade.
A história é-nos revelada por Sophie, uma jovem Alemã católica, que vive com os seus pais e irmão num bairro de Berlim onde a sã convivência entre católicos e judeus é uma realidade que em breve será destruída.
Correm os anos 30 e a tomada do poder pelo partido nazi vai destruir a normalidade existente nas vidas dos berlinenses. A perseguição dos judeus e das pessoas com problemas físicos ou cognitivos vai passar a dominar as vidas de todos.

O medo e a necessidade de protecção da família levam muitas pessoas á mudança das suas convicções políticas. Nos conflitos políticos e nas guerras a história constatou e continua constatar este facto. Neste livro o pai de Sophie, vai passar de comunista convicto a militante do partido nazi, e Sophie terá que lidar com a dolorosa "perda" do pai que sempre conheceu para passar a conviver com alguém que não entende. Passará a ter de guardar segredo das suas actividades, mesmo as simples festas e encontros com os seus amigos de sempre, que agora se tornaram indesejáveis e mesmo perigosos aos olhos da sua família e da sociedade que rapidamente se altera.

O afastamento afectivo do pai, vai explicar, na minha opinião, a relação amorosa que Sophie vai desenvolver com um homem muito mais velho, ao mesmo tempo que mantém o seu namorado de infância numa dualidade de sentimentos dramática.

Para mim foi uma surpresa que o autor tenha criado uma rapariga tão livre nos seus relacionamentos e atitudes tendo em conta a época em que a história decorre.

É por intermédio de Isaías Zarco, (futuro marido e pai do filho de Sophie), parente afastado de Berequias Zarco, que este livro nos leva de volta ao misticismo do Último Cabalista de Lisboa.
Embora noutra época, é retomada a perseguição aos judeus mas agora noutro palco, na Alemanha de Hitler.

As fogueiras da inquisição agora substituídas pelos programas de esterilização e pelas câmaras de gás dos nazis que se afadigaram a exterminar os que eram considerados "inadequados" para os padrões da raça ariana pura, como por exemplo os doentes mentais, os deficientes, os portadores de algum atraso cognitivo, (mesmo que fossem cristãos como o irmão de Sophie) e, claro, os judeus.
Gostei muito.

Marília Leonardo Gonçalves

segunda-feira, 9 de junho de 2014

"Estranho Lugar para Amar" de Luísa Castel-Branco

Que sensação boa senti quando acabei este livro! E é estranho porque ele nos conta um caso verídico não muito feliz e consequência de um ódio muito forte e de desamores muito grandes...

Pegando num facto que realmente aconteceu neste nosso Portugal, em 1957, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, numa pequena aldeia de nome Colmeal, a autora transforma a história dando-lhe um carácter mágico que me encantou. Os seus habitantes foram expulsos de suas casas e obrigados a abandonar o lugar onde viviam há muitos anos. O lugar é deixado ao abandono e ainda hoje as suas ruínas são prova disso. Que motivo instigou os proprietários a fazê-lo? 

Luísa Castel-Branco transformou esta história numa história de amor onde o ódio ficou lá bem no lugar que merece: lá no fundindo. Ficou relegado e o que sobressai é, sobretudo, o amor entre seres especiais e a vontade férrea em ultrapassar as dificuldades. Saber contar um facto, que envergonha o Homem, de uma forma mágica e com uma imaginação sem limites é o segredo desta obra.

A escrita de Luísa não era estranha para mim, mas o meu livro preferido foi sempre o seu primeiro, Alma e os Mistérios da Vida. Creio que este está ao mesmo nível, a magia das suas palavras soube transformar uma história de contornos terríveis numa outra especial, verdadeiramente especial.

Recomendo! Um mundo encantado tão sabiamente misturado no mundo real, onde os homens não param de nos surpreender com esse lado mau que não abandonam nunca.

Terminado em 8 de Junho de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Estranho lugar para amar é um romance inspirado numa história verdadeira que nos transporta para um mundo de mistérios e dessa coisa estranha, o amor, carregada de futuro.
No concelho de Figueira de Castelo Rodrigo ficava a aldeia do Colmeal, um povoado com 14 famílias de origens antigas. O fado da aldeia ficou ditado no início da década de 40 com a chegada de uma nova proprietária. As disputas entre a enigmática fidalga e os camponeses desencadeiam o processo de expulsão violenta de todos os habitantes, processo que consta até hoje como uma das páginas mais negras do período da ditadura portuguesa.
Mas esta história é também sobre o Sítio que ficava para lá do monte, para lá do bosque, para lá de todos os caminhos… Entre o mistério da aldeia e os segredos do Sítio, o amor e o ódio determinam o destino de vidas e de lugares.

domingo, 8 de junho de 2014

Ao Domingo com... Fernando Évora

Como a criança que fica deprimida ao saber que um dia o Universo se findará, também eu sinto uma enorme frustração quando penso em todos os livros que gostaria de ler e na falta de tempo de uma vida para o fazer. Nesses momentos cresce em mim uma sensação de terrível injustiça, como se sempre fintado pelo tempo, e dá-me ganas de acreditar na reencarnação como hipótese para resolver o problema (e, já agora, acreditar também num mundo celestial que sobreviva ao Universo que um dia se findará).


Ora se já a leitura dos clássicos, e dos grandes escritores que escaparam a essa eminente categoria, seria tarefa hercúlea, então a leitura dos novos autores portugueses complica imenso a coisa. Falo deste país onde se escutam tantos lamentos, bem fundamentados, de que não se lê e em que, paradoxalmente, são editados livros às molhadas. Nunca foi tão fácil editar um livro, basta que se reúna algum dinheiro e se compre a uma tipografia mascarada de editora uma centena, ou pouco mais, de exemplares. Não haverá, em muitos casos, promoção, noutros sequer distribuição. Isto levou a que muitos homens e mulheres, felizes por a sua escrita ter sido gabada desde a escola primária, se apeitassem a escrever um livro, até porque escrever um livro ainda é (sublinho o ainda) um ato que confere dignidade e maturidade a quem o faz, espécie de parte mais complicada da trilogia lugar-comum da árvore e do filho. É o vulgar livro do “fulano que escreve bem”, entendendo-se aqui que o escrever bem é dominar as regras de ortografia, sintaxe e, muito provavelmente, usar vocabulário erudito e desconhecido do
rústico, bem como uma adjetivação profusa e desusada. Se tiver um toque de sublimidade lírica ajudará à consideração de que o autor “é pessoa dotada de grande sensibilidade”. E estas características marcam grande parte do que se tem publicado no país (e nem só pelas tipografias travestidas de editoras, parece-me que há muito escritor consagrado na nossa praça a alinhar por esta via). Todavia existirão, neste mar de livros dos ilustres desconhecidos, os de qualidade; os de boa literatura, na minha mais do que discutível opinião de leitor. Só alguns críticos oficiais é que poderão dormir tranquilos a pensar que os bons livros são os editados pelas grandes editoras dos grandes grupos económicos e o resto não presta. Haverá, certamente, bons livros publicados sob a chancela de editores menores, daqueles que publicam tudo desde que lhe paguem (no fundo, os que ganham o dinheiro que os seus autores conseguem juntar em outras atividades, e não com a atividade do autor). 

Do passado sabemos que Luís de Camões teve dificuldade em publicar os seus Lusíadas, que Pessoa não foi devidamente reconhecido. Abundam esses exemplos em todo o mundo, talvez um pouco mais em Portugal. Desconhecemos, obviamente, se outros grandes escritores nunca publicaram por ignorância e estupidez dos “editores” do seu tempo. Hoje pode-se estar a passar o mesmo, mas ao contrário: há tantos livros publicados que boas obras podem ficar para sempre ignoradas. São tantas-tantas, que mesmo que neste país houvesse uma crítica selecionadora das melhores edições se correria o risco de perdermos algumas. Ainda assim, convém dizê-lo, será melhor esta situação de se desconhecer uma obra por excesso de livros do que estes nunca chegarem a ser impressos.

E é aqui, neste ponto, que entra a suposta crítica e os blogues literários, que podem ter uma ação reguladora, palavra tão querida, nos tempos que correm, dos “editores” de economia. Ora a crítica, em minha opinião, não existe ou alinha sistematicamente pelo status quo. Pelo status quo das editoras e das cunhas, do academismo decadente mascarado muitas vezes de falsas irreverências, eternizando elites pseudo-intelectuais que vão ruminado no país e sabendo nós (quer dizer, sabendo eu, ou defendendo eu) que é precisamente a falta de elites dinâmicas que tem afundado a nossa cultura e todo o país. Essa suposta crítica tem transformado a literatura no que não é, ou não deveria ser: uma coisa chata e aborrecida que não serve para nada. O que tem salvo isto são os blogues. Digo-o não por estar a escrever para um blogue mas porque o creio. Se bem que muitos e diferentes entre si, os blogues, e as comunidades de leitores, é justo dizê-lo, têm conseguido, de alguma forma, divulgar muita da nova literatura. Fazem-no despretensiosamente, e ainda bem. Nem todos, mas a maioria, também o faz longe dos interesses económicos das grandes editoras.  

É claro que a distinção do que é boa e má literatura é discutível e tem feito correr rios de palavras. Tal como o papel dos escritores. Esses eram os temas que pensava abordar quando me pus a escrevinhar este texto, e são prévios às considerações que fiz. Porém a palavra-puxa-palavra levou-me a outro sítio, que é vizinho próximo destes, e acabei por pôr a carroça à frente dos bois, (ah, como é bom escrever para pôr carroças à frente de bois) e essa discussão terá de ficar para outro dia, que hoje é domingo, dia da ansiedadezinha do término do fim-de-semana e pouco dado a grandes especulações, e a conversa já vai longa. 

Todavia que não fiquem confusões sobre o que penso a esse respeito: os escritores não podem ser o silêncio dos bons, não podem ser exímios técnicos sem conteúdo; porque a literatura é a arte que mais apela à reflexão e ao descobrimento – interior e exterior – do seu consumidor, o escritor não é aquele que apenas escreve bem. Se o for, isso será transformar a literatura num caldinho bem confecionado, mas insonso, que não faz bem nem mal (e é isso que o poder quer, assim escusa-se a fazer fogueiras de livros, o que dá sempre mau aspeto e é pouco moderno). O escritor é o que dá trabalho ao leitor; a “boa” literatura a que embaraça, inquieta, emociona.  

Fernando Évora

sábado, 7 de junho de 2014

Na minha caixa de correio

  
  

  
 

  


  

  

  


COMO FAÇO PARA PARAR AS HORAS?
Esta semana foi assim...
Comprados:
- No Continente, com 40% de desconto, Ken Follett, O Terceiro Gémeo.
- Na Feira do Livro: Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, Tudo Arrasado, Tudo Queimado, O Amante Japonês, Pena Capital, Morrem mais de mágoa, Conflitos, Os Flamingos Perdidos de Bombaim, Crime de Luxo, O Estrangulador de Cater Street, Morte em Palco, Morte na Aldeia, As Meninas. Tudo em Livros do Dia, Hora H e Promoções Leve 4, Pague 3.
Comprados fora da Feira, Dois Hoteis em Lisboa, A Imperatriz Viúva, Angola, As ricas Donas,
Emprestados, Os Aquårios de Pyongyang e O Chamador
Ofertas:
- Da Editora Guerra e Paz, As Pessoas Felizes Lêem e Bebem Café
- Editorial Presença, Sou um Clandestino e A Cor do Coração
- Da Suma De Letras,  Amores Secretos
- Dos passatempos do JN, Enquanto Houver Estrelas do Céu, Os Anjos Não Têm Asas
- De um amigo, os Mistérios de Madrid



sexta-feira, 6 de junho de 2014

Novidades Presença

Sou um Clandestino
de Susanna Tamaro
O protagonista deste livro é um jovem de vinte e cinco anos que decide empreender uma viagem a Illmitz, uma pequena cidade numa região remota da Áustria onde a sua família vivera antes de se mudar para Itália. É uma viagem em busca das suas raízes – mas sobretudo em busca de um sentido para a sua inquietação, para a sua fragilidade. 
Com ele viajam também os seus fantasmas: Agnese, a irmã que morreu ainda criança; Andrea, o amigo de infância; a mãe, falecida também prematuramente. E há ainda Cecilia, a namorada. Dotada de uma sensualidade exuberante e de uma vitalidade instintiva, Cecilia é tudo aquilo que o protagonista não é. E é com essa imagem tão diferente de si próprio que ele vai ter de se reconciliar…

A Cor do Coração
de Barbara Mutch
Este romance de estreia de Barbara Mutch tem vindo a conquistar os meios literários internacionais, pela peculiar delicadeza e a sensibilidade que a sua escrita revela. A história inicia-se nas terras do Karoo, na África do Sul, onde uma jovem irlandesa chega para desposar o noivo que não vê há cinco anos e aí constituir família. O livro revela-nos as pouco ortodoxas ligações que se vão tecendo entre os diferentes personagens. 
Com o rebentar da Segunda Guerra Mundial tudo muda dolorosamente naquela casa, até que uma guerra se instala no próprio país — o apartheid—, dilacerando ainda mais as já fragilizadas relações. A Cor do Coração é, acima de tudo, um romance inteligente e desafiador, que retrata o drama e o sofrimento de duas mulheres capazes de se elevarem acima da crueldade e do preconceito em nome dos valores mais genuinamente humanos.

Novidade Marcador

Suaves Portugueses
- A Vidinha com um Sorriso -
de Pedro Marques Lopes
Um registo pouco conhecido de Pedro Marques Lopes. Neste livro podemos encontrar uma visão apurada do eu, do nós, do país, do pai de família, do adepto da liberdade de expressão, do entusiasta de futebol e de golf, do homem assumidamente apaixonado pela comida, pela vida, pela música, pelos livros, pela família. Temas variados como o Natal, a emigração, as reuniões de condóminos, a dúvida permanente ou os orgasmos são tratados com o mesmo à vontade e mestria.
Escrito num estilo narrativo fluido e carismático, salpicado de um humor sarcástico e por vezes doloroso, porque essa é também a função da crónica e do cronista. 

Novidades Planeta

As Luzes de Setembro
de Carlos Ruiz Zafón
Um misterioso fabricante de brinquedos que vive em reclusão numa gigantesca mansão povoada de seres mecânicos e sombras do passado...
Um enigma em torno de estranhas luzes que brilham entre a neblina que rodeia a ilhota do farol. Um ser de pesadelo que se oculta nas profundezas do bosque...
Estes e outros elementos tecem a trama do mistério que unirá Irene e Ismael para sempre durante um mágico Verão em Baía Azul. Um enigma que os levará a viver a mais emocionante das aventuras num labiríntico mundo povoado de luzes.
Um livro fascinante de intriga, fantasia, mistério e amor com uma tensão e um suspense que aumenta à medida que avançamos na história. E sempre envoltos numa atmosfera ameaçadora.


Na Cama das Rainhas
de Juliette Benzoni
Por detrás da vida faustosa que nos chega através dos livros de história, a verdade é que as rainhas, quase sempre tiverem uma vida conjugal infeliz. Desde casos de violência física a humilhações em 
frente à corte. 
O que estas mulheres fizeram para sobreviver aos dias sombrios foi tentar encontrar o amor, sabendo que a sua vida poderia estar em risco. 
De Messalina a Maria Luísa, passando por Isabel da Baviera, Maria Antonieta e Josefina, o destino galante das rainhas que marcaram a História. 
Rainhas ou imperatrizes, o casamento foi-lhes quase sempre imposto por razões de Estado e foi na paixão, na excentricidade ou na libertinagem que tentaram viver as suas aventuras pessoais. 
Messalina tornou-se, assim a imperatriz dos lupanares de Roma, enquanto Isabel de Inglaterra ou Margarida de Navarra foram pródigas nos seus favores.
A maior parte das vezes estas rainhas foram desmascaradas e o crime dos seus cúmplices lavados com sangue. 
Sob o domínio de Bonaparte, o amor dos hussardos estava em voga e as primeiras-damas de França tinham aventuras amorosas com cavaleiros irresistíveis. Contudo serão, talvez, os últimos reflexos do amor galante aqueles que iluminaram a atracção de Maria Antonieta por Fersen e de Hortênsia por Flahaut.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Escolha do Jorge: "Os cães e os Lobos"

A leitura recente de "O Senhor das Almas" de Irène Némirovsky (1903-1942) serviu de catapulta para a descoberta de um dos nomes de peso não só da literatura ucraniana, mas também de um dos nomes de relevo da literatura contemporânea.
Se já tinha ficado impressionado com a obra acima indicada pela forma exemplar de nos agarrar desde a primeira página fazendo-nos mergulhar de corpo e alma na narrativa graças à sua intensidade, em "Os Cães e os Lobos" Irène Némirovsky não só repete a proeza, como a reforça graças a aspetos de ordem pessoal que foram de algum modo transpostos para a obra.
Irène Némirovsky reflete em certa medida o destino dos judeus que sendo desprezados por todos os lugares por onde passam, acabam por se fixar nas cidades onde são tolerados, formando os então conhecidos guetos, como o Gueto de Kiev, na Ucrânia, de onde é originária a escritora, assim como Ada, a personagem principal de "Os Cães e os Lobos".
A organização destes bairros (guetos) é de tal modo complexa e simultaneamente controversa que entre os próprios judeus verifica-se sentimentos de uma total repulsa entre judeus ricos e pobres. Se por um lado, os judeus ricos vivem na parte mais alta do gueto procurando não se misturar com os judeus pobres e mesmo miseráveis em muitos casos, por outro lado, precisam destes não só no que respeita à exploração dos grandes pelos mais pequenos, mas também porque a falsa humildade e modéstia dos pobres apenas encobre uma inveja profunda relativamente àqueles que têm dinheiro, daí que apesar de a parte mais baixa da cidade ser ocupada pelos mais pobres, também mais religiosos, muitas das vezes, utilizam essa mesma religiosidade como forma de subir na escada social da sua raça.
Ada ainda em criança acaba por partir com a tia e os primos para Paris às expensas do seu pai na tentativa de almejarem uma vida melhor numa França que tentava recompor-se no primeiro após-guerra. Longe da sua terra natal e à semelhança de tantos outros judeus, tentaram integrar-se o melhor que podiam na França civilizada com todos os costumes tão diferentes do seu país natal como forma até de esquecerem nalgumas situações e circunstâncias da raça à qual estão ligados por herança genética e cultural.
Sem entrar em grandes pormenores da narrativa, Ada acaba por reencontrar em Paris, o jovem Harry por quem se apaixonou ainda em Kiev quando eram crianças, muito embora a clara diferença entre classes sociais tenha obrigado Ada a conformar-se com a ideia dessa impossibilidade, passando a viver um sonho durante uma boa parte da sua vida. Foi esse sonho de amor, algo idílico que a fez suportar todas as dificuldades na sua nova vida em Paris ao ponto de Ada preferir em certa medida a vivência do sonho que nunca perdeu face à concretização do amor que sentiu e que acabará por perder. "Vivi sem te ver, quase sem te conhecer, e tu já eras tão meu como agora. Eu, que estou sempre a temer a desgraça, não tenho medo de te perder. Tu podes esquecer-me, abandonar-me, deixar-me, mas serás sempre meu e só meu. Eu inventei-te, meu amor. És muito mais do que o meu amante; és a minha criação. É por isso que me pertences, mesmo que não queiras." (p. 154)
Em Paris, Ada vai-se dedicando à pintura nas horas livres, acabando por se tornar conhecida nos meios mainstream ao ponto de lhe dizerem em jeito de elogio que "O que faz é tão autêntico, tão ingénuo, tão bárbaro!..." (p. 111), adjetivos que de alguma forma também podem ser aplicados à escrita da própria Irène Némirovsky à qual ficamos completamente rendidos. E viciados também.
Em jeito de conclusão, tudo é uma questão de dinheiro em "Os Cães e os Lobos". O dinheiro faz toda a diferença entre os judeus, aqueles que o têm em abundância e os outros que desejam ser como aqueles e que tentam tudo por tudo, amealhando aqui e ali, transformando o pouco em fortuna, embora nem sempre conseguindo. Mas é esse mesmo dinheiro o motor de desavenças e génese de ódios estimados capaz de fazer com que muitos percam a cabeça amaldiçoando tudo e todos, porém, esquecendo que afinal também é esse o dinheiro que acaba por transformar os outros em verdadeiros
escravos de um mundo que também de pouco serve. Cães e lobos, cada um à sua vez, digladiando-se
entre si, na tentativa de saírem vencedores de um destino que no fim de contas o que lhes reserva é precisamente o contrário.

Excertos:

"- Cale-se! – gritou Harry com rispidez. – Aqui, não estamos num gueto da Ucrânia!
- Pois foi de lá que tu saíste, como eu, como ela! Se soubesses como te odeio! Tu que nos olhas por cima do ombro, que nos desprezas, que não queres ter nada a ver com a ralé judia! Mas espera um pouco! Espera, e voltarão a confundir-te com essa ralé! Vais voltar a misturar-te com ela, tu, que saíste de lá, que julgavas teres escapado! Odeio-te há muito tempo e pelas mesmas razões que levam Ada a amar-te! Porque eras rico! Porque usavas roupas boas! Porque eras feliz! Mas espera um pouco, e vamos ver qual dos dois vai ser mais feliz, vai ter mais dinheiro: tu, rico, mimado desde a infância, ou eu, um pobre judeu morto de fome! Talvez um dia vás perceber o que perdeste, Ada! Milhões! Eu poderia ter-te dado milhões, se tivesses tido paciência de esperar!
- Cala-te de vez, meu porco aventureiro! – gritou Harry. – Não compreendes que é indigno falar de dinheiro neste momento, misturar o dinheiro com isto?
- Ah, como eu odeio os teus ademanes de europeu! Aquilo a que tu chamas sucesso, vitória, amor, ódio, eu chamo dinheiro. É outro nome para a mesma coisa. Era assim que falavam os nossos pais, os teus e os meus. É a nossa língua! Sabes perfeitamente por que razão Ada te ama. Porque no dia em que, para nossa desgraça, entrámos pela primeira vez em tua casa, trazias um colarinho e uns punhos limpinhos, enquanto eu estava cheio de sangue e de pó. E essa diferença era só do dinheiro! Não se trata de tu seres de outra raça, de outro sangue… Se assim fosse, eu teria dito: «Bem, meu rapaz, tu és lixo, e ele é um príncipe. Vai-te embora!» Mas tu não és nenhum príncipe! Olha para ti! Tens o meu nariz adunco e o meu cabelo encaracolado, és fraco e enfermiço, tens fome, apesar de tudo, e não estás saciado como os outros… Poderia estar no teu lugar e tu estar no meu. Ada! Porque é que o preferes? Olha bem! Olha melhor para nós! Ele e eu, nós somos feitos da mesma massa! Somos
irmãos!" (p. 138)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Passatempo "A Cor do Coração"

Ē com muito gosto que anunciamos mais um passatempo aqui n'O Tempo Entre os Meus Livros!

A Editorial Presença tem para oferecer, a todos os seguidores do blogue, um exemplar de "A Cor do Coração" de Barbara Mutch.

Para isso basta responder acertadamente às questões seguintes e obedecer às regras.

O passatempo termina dia 15 de Junho.

Para mais informações, consulte o site da Editorial Presença aqui!

Boa sorte!

"Morte com Vista para o Mar" de Pedro Garcia Rosado

Tendo já lido críticas bastante positivas sobre Pedro Garcia Rosado comecei finalmente a ler um dos dois livros que cá tinha na estante. Gostei e fiquei curiosa sobre este autor que já tem uma vasta obra no género policial.

Se bem que o final não me tenha surpreendido de sobremaneira, visto que o autor nos vai dando dicas sobre o que é mais provável acontecer, o certo é que, estando o cenário e os ambientes tão bem construídos, fiquei presa à história e aos personagens. A ligação mais forte deu-se, sobretudo, com Gabriel Ponte, o ex-inspector da polícia que insvestiga o caso juntamente com a sua ex-mulher, Patrícia Ponte. Solitário, humano, de uma inteligência perspicaz e com um passado misterioso cria-se, de imediato, uma forte empatia e intimidade com esse personagem de passado que se antevê doloroso.

O ambiente é-nos familiar. O crime, violento, dá-se na zona das Caldas da Rainha e Pedro Rosado sabe, sem cansar, descrever maravilhosamente a zona em redor e as paisagens.

O tema é actual, infelizmente. A corrupção das autarquias, o tráfico de influências, o valor e o poder do dinheiro ditam muitas vezes os actos humanos, levando os indivíduos a acções extremas de loucura. Em foco, também, o poder dos média. Até que ponto pode um blogue instigar os ânimos e levar alguém a extremos?

As frases incisivas, os capítulos pequenos levam o leitor a uma leitura muito rápida, criando o desejo de iniciar o segundo livro brevemente e saber mais da vida deste investigador. É o que farei, de certeza!

Terminado em 30 de Maio de 2014.

Estrelas: 4*+

Sinopse

Nas traseiras de uma moradia isolada nas Caldas da Rainha, um professor de Direito reformado aparece morto à machadada na casa onde vivia sozinho. Patrícia, inspetora-coordenadora da PJ, pede ajuda ao seu ex-marido Gabriel Ponte, antigo inspector da Polícia Judiciária, que assim regressa ao mundo da investigação criminal.
Meses antes, o professor tinha contactado Patrícia, sua antiga aluna e amante, para denunciar a existência de um esquema de corrupção e de lavagem de dinheiro em torno do projeto de um empreendimento turístico gigantesco nas falésias da costa atlântica.
As primeiras provas apontam para que este homicídio seja resultado de um affair com uma mulher casada, mas poderá o professor ter sido assassinado por saber demais?

terça-feira, 3 de junho de 2014

A Convidada Escolhe: Os Anos

"Os Anos", de Virginia Woolf, considerado por alguns a sua obra mais bela, não é um livro fácil dado o seu acelerado ritmo. Os capítulos sucedem-se com intervalos de décadas. Os que são jovens agora depressa deixam de o ser. Por outro lado as descrições dos cenários são feitas de uma forma tão poética que se tornam aliciantes e não se dá conta do tamanho da obra. É uma verdadeira saga familiar que acompanha várias gerações e simultaneamente usos e costumes da sociedade inglesa, abrangendo a época anterior à guerra (14-18) e prolongando-se no pós guerra, fazendo um retrato muito detalhado da vida em Londres desses tempos. O início da narrativa coincide com os últimos dias de vida da mãe dos principais personagens, ainda muito jovens, retratando o carácter de cada um deles. É uma reflexão sobre a mudança, o envelhecimento e as relações entre gerações realçando ainda os comportamentos e gostos de jovens e menos jovens nas várias épocas. Tem personagens snobs e não snobs, ricas e menos ricas, nobres e não nobres, ou seja os vários membros da família Pargiter desde 1880 até meados da década de 30 do século XX. Mas não é só sobre o mundo exterior que Virgínia Woolf se debruça, ela entra no interior das personagens e apresenta-nos com intensidade o seu lado mais complexo e menos visível.

À semelhança do início do livro, o fim é marcado também por um grande acontecimento. A família está novamente reunida, acrescida dos elementos mais jovens que personificam a consciência crítica da sociedade e do modo de viver narrados no livro e consequentemente da vida de seus pais e tios, mas defrontando-se eles próprios, ainda, com alguns problemas existenciais. Dos vários diálogos e monólogos transparece um confronto de gerações inevitável. A não compreensão dos mais novos pela conformidade dos mais velhos na sua ilusória felicidade, não tendo eles, mesmo assim, encontrado um verdadeiro sentido para as suas vidas.

É um romance belo e lírico que me foi cativando de capítulo em capítulo à medida que avançava na sua leitura, principalmente nesta segunda leitura passados que foram alguns anos da primeira. Interessaram-me muito as relações dos que já tinham sido novos no início do romance, com os seus agora jovens parentes e foi com muito interesse que apreciei as suas conversas e trocas de pontos de vista, com as inevitáveis diferenças de gostos e maneiras de pensar. Os tempos foram sofrendo na realidade grandes transformações e o impacto nas personagens foi como não podia deixar de ser muito marcante. Virgínia Woolf com a sua enorme sensibilidade e mestria construiu uma obra a não perder .

Maria Fernanda Pinto

segunda-feira, 2 de junho de 2014

"Sou Autista" de Josef Schovanec

Fiquei de imediato interessada nesta leitura mal li o título deste livro. Saber que foi escrito por alguém que tem o Síndrome de Asperger, fez-me preterir as outras (tantas!) leituras que tenho pendentes em favor desta.

Confesso que esperava saber mais sobre alguns aspectos da vida do autor de uma forma mais romanceada. Gosto de saber mais sobre um assunto sem me dar conta dessa aprendizagem mas, e porque ele faz, de quando em quando, uma abordagem sobre os problemas e dificuldades que ele sentiu, isso é rapidamente colmatado.

Já tenho reflectido sobre a importância de um diagnóstico rápido e certeiro e a vida de Josef é um exemplo que como as coisas não devem acontecer... Sofrendo de um autismo especial, o Sindrome de Asperger, só muito tarde é que essa doença lhe foi diagnosticada. Esteve praticamente metade da sua vida (nasceu em 1981) sem disso ter conhecimento. Pior, foi tratado como esquisofrénico, com medicamentos fortíssimos que o deixavam amorfo e catatónico.

Possuindo uma motricidade muito pouco apurada e poucas competências sociais é com dificuldade que arranja amigos. Passa uma infância solitária e é frequentemente alvo de gozo e bulling por parte dos seus colegas. Os livros são a sua praia e o conhecimento uma fonte inesgotável de prazer.

Foi com muito prazer, também, que li este livro verificando que Josef consegue ultrapassar situações que para alguns são simples mas que para ele são uma fonte de angústia, paralizantes até.

Um livro muito bem escrito, deixando transparecer o quanto a mente do escritor é espectacular!

Terminado em 29 de Maio de 2014

Estrelas: 4*+

Sinopse

«Vivo com o autismo», escreve o autor, sublinhando aquilo que considera mais como uma qualidade do que como uma deficiência.
Viajante apaixonado pelas civilizações antigas, conferencista e investigador universitário, Josef Schovanec domina uma dezena de línguas e possui um doutoramento em filosofia – e, no entanto, foi por pouco que, sem diagnóstico estabelecido, conseguiu evitar o internamento psiquiátrico.
Josef recusa os atributos que lhe dão: os de um autista «genial», com capacidades intelectuais extraordinárias. Em vez disso, evoca, com humor e sensibilidade, os «pequenos» problemas que constituem o dia a dia de um autista Asperger. Desde as longas preparações necessárias para apanhar o metro ou comparecer a um encontro até à angústia que o invade quando o telefone começa a tocar, passando pelo pânico perante o menor imprevisto, a obsessão por bibliotecas e livros e também a dificuldade em compreender os códigos sociais ou em estabelecer relações de amizade clássicas.

domingo, 1 de junho de 2014

Ao Domingo com... Susana Machado

Era uma vez…
É assim que começo a maior parte das minhas histórias. Essa simples expressão parece ter a capacidade de nos transportar para outras realidades, uma outra dimensão, onde a fantasia se cruza com a realidade, para nos dar pequenas e grandes lições de vida.
Suponho que pudesse começar assim também a minha própria história, pois o que é a vida senão uma folha de papel onde, entre sonhos e desejos, vamos construindo a nossa existência?!

A minha existência é curta, porém longa, composta de uma dualidade que me define. Sou gémeos de signo astrológico e, quer acredite ou não na influência dos astros na minha vida, há características às quais não posso fugir – a criatividade, o desejo de comunicar e a vontade de conhecer novos lugares, sejam estes reais ou inventados.
Nasci naquela que considero a mais bela cidade do mundo, o Porto e cresci num ambiente urbano, mas fortemente pontuado de elementos rurais, que enriqueceram a minha infância e adolescência. Fui daquelas crianças que teve o privilégio de subir às árvores, esfolar os joelhos a andar de bicicleta, brincar em casinhas de faz de conta, com bolos de lama e arroz de bagos de urze.
As letras sempre me acompanharam. Digo sempre, pois não recordo concretamente o momento em que ler se tornou uma paixão e escrever uma vocação. Aqui e ali, sempre fui escrevinhando qualquer coisa, um ou outro poema, uma ou outra história de aventura, a maior parte delas, certamente, inacabadas e de pobre qualidade criativa…
Guardo ainda as cartas de amor (e desamor) juvenil que recebi, como resposta às tantas mais que escrevi. Sempre gostei de receber e escrever cartas. Quanto mais longas melhor. O cheiro do papel, a letra inicialmente cuidada e um pouco rebuscada que para o final mais se assemelhava a letra de médico, os sonhos e sentimentos projectados numa simples folha de papel…pedaços de mim, da minha história, que nada poderia substituir.
A acompanhá-las, os poemas. Essas melodias escritas, que escondem nas entrelinhas motivos e emoções que nós próprios desconhecemos ter. Tristes, complexos, mais ou menos intensos… foi por aí que comecei a escrever mais a sério. Formas breves e momentâneas que não exigem grande compromisso comigo ou com os outros.
Mas só muito recentemente assumi verdadeiramente a minha relação com a escrita. Cansada das temáticas depressivas que povoaram a minha adolescência, mergulhei num mundo de magia, sonhos e fantasia. As pessoas cometem o equívoco de pensar que escrevo
para crianças, mas na verdade, escrevo para mim. Quando era criança não precisava que me lembrassem como o mundo e a vida são mágicos, como sonhar é fundamental para construir a felicidade que tanto buscamos. Por isso, ao contrário do que a maioria pensa, escrevo sobretudo para adultos, pois sei que são eles quem mais precisam de ouvir as mensagens que transmito. Porque sei que são eles quem mais precisam de acreditar no sonho e na magia, quem mais precisam de histórias positivas na sua vida.
Procuro, assim, que as minhas histórias sejam fontes de prazer para quem as lê, independentemente da idade, mas maior fonte de prazer, são para mim, porque sou a primeira a povoar os mundos que crio, a primeira a viver as aventuras que narro. 
Mas espero que nas minhas histórias não haja apenas prazer na leitura, espero transmitir mensagens positivas, capazes de educar para aqueles valores com os quais eu tive o privilégio de crescer, mas que vejo, a cada dia, desaparecer um pouco mais da sociedade em que vivo…
Agora, assumi completamente o compromisso, após o primeiro livro publicado, o trabalho tem sido constante e regular, recompensado aqui e além nas sessões de apresentação que sou convidada a fazer, nos prémios que vão acontecendo, nos contactos para novas edições, mas acima de tudo pelas críticas que me vão chegando.
E assim, vivo e escrevo com o meu próprio sonho (ainda pouco concreto e definido) de mudar o mundo com histórias de encantar.

Susana Machado
coolorir@gmail.com
http://susanamachado.wix.com/autora
www.facebook.com/susanamachado.autora