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segunda-feira, 9 de março de 2020

A Escolha do Jorge: "O Tradutor Cleptomaníaco"


O Tradutor Cleptomaníaco
Dezső Kosztolányi 
(Editora 34)

“Um departamento de psiquiatria é igual em todo o mundo, como um parlamento. Parece que a natureza, com a equação das doenças psiquiátricas, quer demonstrar o mesmo em todos os pontos cardeais.” (p. 78)

Tradutor, jornalista, poeta e romancista, Dezső Kosztolányi (1885-1936) é um dos nomes incontornáveis da literatura húngara do século XX. Em Portugal conhecemos o escritor através do romance “Cotovia” (Dom Quixote, 2006), além de contos dispersos integrados nas antologias de contos húngaros publicados na década de 40.

Dezső Kosztolányi deu um contributo enorme no que concerne ao romance tradicional, graças à linguagem refrescante que introduz, recorrendo a situações do quotidiano que constituem o pano de fundo das suas narrativas, podendo os leitores reverem-se nas histórias.

Maioritariamente de cariz urbano, as histórias de Dezső Kosztolányi reflectem o dia-a-dia de Budapeste, num período entre guerras, tendo os jardins, cafés, quartos de escritores, salões de conferências e outros locais de convívio, os espaços onde a sociedade deambula e procura ser feliz.

Dezső Kosztolányi acompanhou o desenvolvimento das teorias psicanalistas procurando estudar a complexidade do ser humano, um dos traços mais presentes na obra do autor, subvertendo muitas vezes a realidade, percebendo quais são os obstáculos da humanidade no trilho da felicidade, tentando demonstrar que o caminho a seguir e o sentido da vivência do ser humano reside nas coisas mais simples.

Irónico, mordaz, algumas vezes corrosivo, sarcástico e muitas vezes divertido, Dezső Kosztolányi presenteia-nos com histórias que resistem à passagem do tempo. Graças à sua simplicidade articulada com as preocupações da existência humana, o escritor húngaro mostra ao leitor que a alegria e a felicidade encontram-se nas pequenas coisas, nos gestos simples.

“Kornél Esti” (1933) é a penúltima obra de Dezső Kosztolányi, cuja edição brasileira recebeu o título de “O Tradutor Cleptomaníaco e outras histórias de Kornél Esti” (Editora 34, 1996). Este volume de contos apresenta Kornél Esti como personagem transversal nos treze contos à semelhança da sua última obra “O Olho do Mar” (1936). Kornél Esti apresenta-se como uma espécie de alter ego de Dezső Kosztolányi, em que numas histórias é narrador, noutras é o personagem principal, mas em todas elas, ajudam o leitor a compreender a vida cosmopolita de Budapeste durante os anos 20 do século passado.

Dezső Kosztolányi explora nalguns pontos a linha da literatura fantástica, como por exemplo, no conto inicial, “O Tradutor Cleptomaníaco”, em que o personagem principal rouba os personagens da obra que traduz. A relação da ciência com a literatura é desenvolvida no conto mais extenso, em “O presidente” que nos relata a história de um indivíduo que adormece sempre no início dos discursos das conferências, acordando momentos antes de os mesmos terminarem. Constituindo um objecto de estudo, Dezső Kosztolányi tece fortes críticas aos políticos e à sociedade em geral, aludindo às questões relacionadas com os casos psiquiátricos versus conceito de normalidade, aproveitando o momento para criticar todos aqueles que têm a pretensão de virem a ser escritores quando, na verdade, aquilo que de melhor fazem é provocar sonolência nos leitores, seguindo em linha com o conteúdo da narrativa.

“O fim do mundo” é outra das melhores histórias presentes neste volume em que um dos personagens, seduzido e angustiado pelo fim do mundo nos seus sonhos, vê-se incapaz de compreender o sentido da vida até decidir começar a vivê-la. “(…) Só aquele que está totalmente preparado para a morte é que pode viver, e nós tolos, morremos, porque só nos preparamos para a vida, e queremos viver a todo o custo. A ordem que você vê ao seu redor, na verdade, é desordem, e a desordem é a verdadeira ordem. E o fim do mundo, no fundo, é o começo do mundo.” (p. 124)
Do mesmo modo que Dezső Kosztolányi projectou em Kornél Esti o seu alter ego, dando-lhe liberdade de pensar e agir, contar histórias, as suas histórias, interagir com os demais personagens, discutindo até um com o outro, Dezső Kosztolányi teve de pôr cobro a algo que se tornava insustentável no decurso dos episódios.

Neste sentido, após este conjunto de histórias extraordinárias em que o absurdo se cruza com o inesperado, Dezső Kosztolányi  vaticina algo, não necessariamente insólito, em “A Derradeira Conferência” acontecendo algo de inesperado a Kórnel Esti ou nem tanto assim…, mostrando uma vez mais a sua mestria enquanto contista.

Excerto:
"No meu transtorno, enfiei as mãos no bolso. Encontrei aquele livro que Zwetschke embrulhara, e o abri. Era o Messias de Klopstock, aquela poesia épica em hexâmetros, que – segundo a opinião unânime de gerações – é o livro mais chato do mundo, tão chato que ninguém ainda o leu, nem aqueles que o enaltecem, nem aqueles que o achincalham. Dizem que o próprio Klopstock não conseguiu lê-lo, apenas o escreveu. Abri-o, e comecei a folheá-lo meditativo. Que trecho deveria ler? Tanto fazia. Como sabia que o que o falecido mais prezava na vida era o sossego, e o seu desejo, como o de todos nós, deveria ser o de dormir tranquilamente no caixão, devagar, monotonamente comecei a ler o primeiro canto. O efeito foi espantoso. Uma flor da trepadeira fechou o seu cálice assombrada, como se a noite já tivesse descido. Um besouro caiu de costas na poeira e assim ficou, como que hipnotizado. Uma borboleta, que em círculos sobrevoava o túmulo, caiu do ar sobre a lápide e dormiu de asas fechadas. Senti que os hexâmetros penetravam pelo granito da tumba, até os restos mortais do falecido e que seu sono mortal – o sono eterno – ficava mais profundo com eles.” (p. 81)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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