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quinta-feira, 2 de maio de 2019

A Escolha do Jorge: “Os Irmãos Tanner”



Amar o que nos é mais próximo é uma vantagem que faz avançar os séculos tempestuosamente, que nos faz rolar pelo mundo pensativamente, que nos faz sentir a vida a alta velocidade e com alma, e por isso temos de saber agarrá-la e aproveitá-la a cada segundo, mil vezes, mas eu que sei!” 
(pp. 34-35)

Reconhecido por Kafka, Robert Musil, Hermann Broch, entre outros, Robert Walser (1878-1956) é um dos grandes nomes da literatura do século passado, muito embora o seu reconhecimento só tenha acontecido após a sua morte.
Robert Walser soube analisar a realidade do seu tempo, a par do comportamento humano atendendo às transformações que ocorreram na passagem do século XIX para o século XX. O escritor suíço de língua alemã passou a escrito com grande mestria um retrato psicológico e sociológico bastante acurado, passando aos leitores um grito de insatisfação face ao rumo que o homem moderno estava a tomar, na medida em que a sua liberdade ficou fortemente condicionada face às exigências do novo estilo de vida das cidades.
As suas obras reflectem muito da vida do escritor, assim como da sua família e obras como “Os Irmãos Tanner” (1907) não é excepção, além de mergulharmos numa escrita que também nos leva a questionar a vida contemporânea em que as pessoas ficaram presas a rotinas sem, contudo, viverem a vida em pleno. As rotinas, o trabalho, a imposição do capitalismo através da sedução consumista transformou o homem contemporâneo num ser alienado e virado para si mesmo, passando a isolar-se das outras pessoas.
Passado mais de um século após a publicação de “Os Irmãos Tanner”, Robert Walser leva-nos a questionar sobre o que andamos de facto a fazer com a nossa liberdade. O escritor encarna Simon Tanner, o personagem principal da narrativa, através de pelo menos um dos dados importantes que rapidamente nos apercebemos no início da obra e que somos iludidos com a ideia de que Robert Walser/Simon Tanner eram pessoas erráticas, sem discernimento, inconsequentes, na medida em que saltavam de trabalho em trabalho porque não se conseguiam ver presos a uma única actividade ou a partir do momento em que esse trabalho deixava de os satisfazer ou porque condicionavam a sua liberdade.
Quanto ao privilégio de auferir um salário mensal fixo, a minha indiferença não podia ser maior. Aqui esmoreço, perco inteligência e coragem, torno-me burocrata.” (p. 30)
À medida que a narrativa avança, percebemos o modo de pensar de Simon Tanner na medida em que o homem moderno se iludiu com uma estranha felicidade nas prisões que cria com as rotinas laborais e burocráticas, através de tarefas que, vistas as coisas, não enaltecem o ser humano, não promovem a sua criatividade, além de que o deixam enclausurado durante uma boa parte do dia em edifícios que, tantas vezes, são comparadas a prisões.
Prefiro ser pobre mas saudável, renuncio a uma vivenda em favor de um quarto barato, mesmo que ele dê para um beco escuro, prefiro ter embaraços financeiros a cair no embaraço de decidir aonde hei-de viajar no Verão para restabelecer a minha saúde arruinada, é certo que sou respeitado por uma pessoa apenas, a saber, eu próprio, mas é este o respeito que mais me importa, sou livre e, sempre que a necessidade o exige, posso vender a minha liberdade por certo tempo, para depois ser livre outra vez. Vale a pena ser pobre em nome da liberdade. Não me falta o que comer, porque tenho o talento de me saciar com pouco. Perco as estribeiras quando alguém me fala em “ter estatuto” e tenta assim incutir-me juízo. Quero continuar a ser uma pessoa. Numa palavra: gosto do perigo, do abismo, do incerto, do incontrolável!” (p. 166)
A serenidade de Simon Tanner atrai o leitor e os desconhecidos que com ele se cruzam chegando a entabular conversa por sentirem nele algo de diferente em relação aos demais transeuntes. Sempre com um sorriso no rosto e de bem com a vida, Simon Tanner irradia algo que pareceu perder-se no tempo da era industrial e na expansão urbana em que as fábricas contribuíram para a descaracterização do trabalho manual, deixando, por isso, de os objectos serem apreciados com o merecido respeito dado tratar-se da produção em massa em oposição ao trabalho executado pelos artífices. Do mesmo modo que a vida tranquila do campo e a cadência das estações do ano conferem calma e tranquilidade ao homem por este ser também um elemento integrante da natureza, fazendo parte de um tecido social do qual faz parte e no qual é respeitado, em oposição à expansão das cidades em que cada um existe por si mesmo numa amálgama de gente opaca e sem vínculos entre si.
Se eu fosse sapateiro, pelo menos faria sapatos para crianças, homens e senhoras, que num dia de Primavera iriam passear para a rua com os meus sapatos calçados. E quando eu visse os meus sapatos em pés estranhos, sentiria a Primavera. Aqui não consigo sentir a Primavera, aqui a Primavera incomoda-me.” (p. 27)
É esta ideia de o Homem ser parte integrante da natureza que o conduz à sua preservação. Preservando a natureza, será também uma forma de preservar a espécie humana e esta preservação traz consigo a ideia de conservação cultural que é transmitida de geração em geração ao longo dos séculos. Quando o Homem se dá aos outros, recebe na mesma medida, mas sobretudo através do respeito e amor pelo que a Humanidade cultivou ao longo dos tempos.
A cultura, por mais refinada, permanece natureza, porque afinal não é mais do que uma invenção lenta que se estende ao longo dos tempos e que é criada por seres que dependerão sempre da natureza. Se você pintar um quadro, Kasper, esse quadro será natureza, porque você pinta com os seus sentidos e com os seus dedos, e estes foram-lhe dados pela natureza. Não, fazemos bem em amar a natureza, em pensar sempre nela com seriedade, diria mesmo em adorá-la, pois mais tarde ou mais cedo nós temos de rezar, senão envilecemos. Amar o que nos é mais próximo é uma vantagem que faz avançar os séculos tempestuosamente, que nos faz rolar pelo mundo pensativamente, que nos faz sentir a vida a alta velocidade e com alma, e por isso temos de saber agarrá-la e aproveitá-la a cada segundo, mil vezes, mas eu que sei!” (pp. 34-35) “Compreendo tão bem a arte e o ímpeto que ela transmite aos homens e a vontade de conquistar deste modo o amor e a mercê da natureza.” (p. 75)
Simon Tanner apresenta-se assim, serenamente, em contraciclo, num contexto social e económico que se, por um lado, representa o homem moderno, por outro, ilustra bem a forma como o homem e a sociedade em geral desenvolveram as cidades, mas descaracterizando o ser humano na sua essência, condicionando a sua liberdade e não se tornando necessariamente mais feliz.
Robert Walser oferece-nos, deste modo, um romance soberbo tanto quanto luminoso, repleto de humanidade que nos faz reflectir sobre a nossa passagem pelo mundo, os valores e a bondade entre os homens. Robert Walser através do seu interlocutor Simon Tanner idealizou a religião perfeita, na sequência dos pontos expostos, conforme descrita na seguinte passagem:
A religião é, na minha experiência, o amor à vida, um apego íntimo à terra, a alegria do momento, a confiança no belo, a crença nos homens, a ausência de preocupações no convívio com amigos, a vontade de meditar e um sentimento de irresponsabilidade em caso de desgraça, é sorrir diante da morte e mostrar coragem em todos os desafios que a vida oferece. Nos últimos tempos, a nossa religião passou a ser um sentido profundo e humano de decência. Se os homens forem decentes entre si, também o serão aos olhos de Deus. Que mais pode Deus querer?” (p. 171)
Texto da autoria de Jorge Navarro




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