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segunda-feira, 13 de maio de 2019

A Escolha do Jorge: “Cuidar dos Vivos”


“Entre o instante em que o coração pára no corpo do dador e o momento em que ele volta a bater no do receptor, o órgão conserva-se durante quatro horas.” 
(p. 123)

O meu primeiro contacto com “Cuidar dos Vivos” de Maylis de Kerangal (n. 1967) foi com a sua adaptação ao cinema através da realizadora Katell Quillévéré. Trata-se de uma história comovente e intensa, passada em vinte e quatro horas, sobre a morte inesperada de Simon Limbres, um jovem de 19 anos, e o transplante de alguns dos seus órgãos, em tempo útil, para outros pacientes.

A ideia apresentada deste modo parece fria e até cruel, no entanto, para quem viu o filme e depois durante a leitura, percebemos, com esse mesmo impacto, que perante situações de acidente que culminam com vítimas mortais, é necessário articular e dosear a informação sobre um dado falecimento aos familiares directos, neste caso, os pais do jovem, a par da abordagem sobre a possibilidade de doação de órgãos, numa altura em que a família ainda não digeriu sequer a ideia imediata que é a morte inesperada.

O filme foi marcante e tendo-o visto mais do que uma vez foi a razão por não ter lido de imediato o livro na medida em que se trata de um filme que ainda o tenho presente, pelas imagens esteticamente belas, os diálogos, as circunstâncias, os personagens.

Terminada a leitura do livro, constato que a adaptação ao cinema é notável, não necessitando de criar mentalmente os personagens porque recorro aos do filme, assim como aos demais cenários, e lendo os diálogos que, no fundo, me são familiares, seguem a par e passo a adaptação feita para filme.

Mesmo conhecendo a história e sabendo de antemão ao que ia encontrar, sou confrontado com uma forma de escrita muito diferente daquilo a que estou habituado, daí que seja importante e meritório reconhecer o trabalho dificílimo da tradutora de “Cuidar dos Vivos” de Maylis de Kerangal, por razões várias.

Somos confrontados com frases excessivamente longas e até de frases-parágrafo do tamanho de uma página ou mais, o que pode gerar alguma perda de concentração na fluidez do texto, não esquecendo que a autora mistura de modo exímio a narração com as falas dos personagens, o que pode trazer alguma confusão ao leitor, reconheço. Talvez pelo facto de estar familiarizado com a história e de a ter bem presente, reconhecendo as falas dos personagens, não senti dificuldade na leitura. A par destas particularidades da forma, há ainda a referir o trabalho hercúleo da tradutora no que concerne aos termos técnicos, quer aqueles relacionados com o surf e ainda todos os procedimentos técnicos relacionados com o transplante de órgãos, de modo a promover uma tradução objectiva, coerente e, correcta do ponto de vista científico, não esquecendo a necessidade da cadência e fluidez das frases, num discurso que poderá, numa primeira abordagem, conduzir a algum desalento na tentativa de chegar aos leitores.

O resultado, contudo, é excelente e, mesmo perante as particularidades acima descritas, o leitor é levado a compreender passo a passo, cada fase do processo relacionado com o transplante de órgãos.
“Cuidar dos Vivos” é uma obra que funde literatura com ciência e técnica e parece-me importante aludir a este aspecto, sobretudo porque poderíamos articular três pontos fundamentais nesta obra, a saber: o discurso científico em que são explicados os pontos fundamentais naquilo que é essencial, desde a morte cerebral (do jovem) até ao transplante de órgãos, toda a questão técnica, sempre clara, muito objectiva, e num tom deveras pragmático, mesmo quando se fala da morte e sobretudo porque através desta morte em particular pode vir a ser o veículo de vida para outros pacientes, e tudo isto gerindo toda a questão emocional perante a perda de um filho cujo cenário, ainda que doloroso seja promovido com humanidade e dignidade, salvaguardando também a sacralização do corpo depois de ter sido esventrado, para depois ser devolvido à família para serem realizadas as cerimónias fúnebres.

Chego a este momento e a cabeça explode de imagens e de ideias que se baralham entre a perda de um filho e que continuará vivo noutros corpos, em urgência da vida, por um rim, um pulmão, o fígado ou o coração (órgãos de Simon transplantados). Creio que será essa a ideia de conforto, ainda que jamais substitua a perda, a de uma certa redenção face à ideia de a morte do filho possibilitar a vida de terceiros.

São vários os momentos marcantes neste livro, muitas vezes até frases que surgem sob a forma de pensamento e que nos levam a reflectir sobre a vida e a morte e que a civilização ocidental pode ter atingido um grau de desenvolvimento tal, mas é necessário não esquecermos que, no essencial, somos seres humanos e podem passar milénios que as dúvidas e os medos do Homem continuam a ser os mesmos de há milénios e a questão do corpo perante a vida e a morte são sagrados (não necessariamente numa perspectiva religiosa).

O desenvolvimento científico e técnico que tem facilitado a muitas pessoas receberem um órgão transplantado obriga a um discurso humanista, mas também à reflexão sobre questões de ordem ético-moral e também religiosa, e esse ponto surge também salvaguardado numa breve passagem do livro, contudo, uma das mais importantes e também mais belas. “Esta fase da colheita, o restauro do corpo do dador, não pode ser banalizada, é uma reparação; é preciso agora reparar, consertar os estragos. Devolver o que foi dado tal como foi dado. Senão, é barbárie.” (p. 183)

A meu ver, esta frase, este pensamento, encerra a ideia de civilização e dos seus limites nunca desviando a atenção daquilo que é mais importante: o homem.

Excertos:
"(...) É o medo da morte e o medo da dor, o medo da operação, dos tratamentos pós-operatórios, o medo da rejeição e de que tudo recomece, o medo da intrusão de um corpo estranho no seu, é de se tornar uma quimera, e de deixar de ser ela mesma." (p. 145)

"O coração de Simon migrava para um outro lugar do país, os rins, o fígado e os pulmões chegavam a outras províncias, fugiam para outros corpos. O que subsistiria, nesta explosão, da unidade do seu filho? Como ligar a sua memória singular a este corpo difractado? O que seria feito da sua presença, do seu reflexo na Terra, do seu fantasma?" (p. 176)

Texto da autoria de Jorge Navarro

2 comentários:

  1. Lembro me bem do filme. Marcante!
    Gostei do post, vou considerar o livro para uma leitura em breve.
    Boas leituras, Jorge e Cristina. Saudadinhas de ambos

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    Respostas
    1. Olá Cris! Também fiquei curiosa. Nem vi o filme nem li o livro. Bj

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