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sexta-feira, 21 de abril de 2017


"Escrito na Água" de Paula Hawkins

      Antes de mais quero agradecer à Topseller o ter recebido um "exemplar de avanço" e ter podido pegar nesta leitura antes da sua publicaçāo a 2 de Maio. Gostei muito da "Rapariga no Comboio", livro e filme. Estava, pois, expectante em relaçāo à sua próxima obra.
      "Escrito na Água" levou-me mais tempo a ler. Confesso que, sendo a escrita fluída e descomplicada e, por isso, de fácil leitura, foram os personagens que custaram a ganhar forma no meu pensamento. Nāo porque estivessem mal construídos, mas porque eram muitos. Os capítulos pequenos onde era alternada a perspectiva de cada um deles, obrigaram-me a escrever numa folha quem era quem, quem fizera o quê e que ligaçōes familiares existiam entre eles. E isso bem até metade do livro. Estava suspensa no tempo e no espaço pois muito dos diversos personagens coexistem no livro em espaços temporais diferentes e foi complicado localizar-me sem recorrer à minha cábula.
      A história adensa-se e aos poucos o puzzle vai sendo completado. Bem, nāo o puzzle completo... Apenas os bordos. É que este puzzle tem milhares de peças e só mesmo nas últimas páginas é que os mistérios sāo esclarecidos. Ou ficará algum para as últimas linhas?
      As mortes de algumas raparigas caídas de um penhasco junto a um rio sāo o mote para um livro onde o mistério está presente em todas as páginas. Depois dos personagens estarem verdadeiramente ligados a nós torna-se fácil reconhecê-los e seguir os acontecimentos. Espero que, também este livro, passe para a tela... Se assim for, lá estarei! 

Terminado em 13 de Abril de 2017

Estrelas: 4*+

Sinopse
      Um thriller intenso, da autora do bestseller mundial "A Rapariga no Comboio". Cuidado com as águas calmas. Não sabemos o que escondem no fundo. Nel vivia obcecada com as mortes no rio. O rio que atravessava aquela vila já levara a vida a demasiadas mulheres ao longo dos tempos, incluindo, recentemente, a melhor amiga da sua filha. Desde então, Nel vivia ainda mais determinada a encontrar respostas. Agora, é ela que aparece morta. Sem vestígios de crime, tudo aponta para que Nel se tenha suicidado no rio. Mas poucos dias antes da sua morte, ela deixara uma mensagem à irmã, Jules, num tom de voz urgente e assustado. Estaria Nel a temer pela sua vida? Que segredos escondem aquelas águas? Para descobrir a verdade, Jules ver-se-á forçada a enfrentar recordações e medos terríveis há muito submersos naquele rio de águas calmas, que a morte da irmã vem trazer à superfície. Um livro profundamente original e surpreendente sobre as formas devastadoras que o passado encontra para voltar a assombrar-nos no presente. Paula Hawkins confirma, de forma triunfal, a sua mestria no entendimento dos instintos humanos, numa história com tanta ou maior intensidade do que "A Rapariga no Comboio"
Cris

quarta-feira, 19 de abril de 2017


Rapariga em Guerra de Sara Nović

      Um livro que me encheu verdadeiramente as medidas. Lido num dia de descanso em que nem quis sair para nāo perder pitada. 
      Creio que nāo é fácil escrever uma história onde a acçāo se passa num cenário de guerra. Pode-se cair em pieguices exageradas ou entāo, pelo contrário, descrever muito superficialmente os actos de horror que as guerras, todas, trazem consigo. O meio termo é importante para o leitor conseguir embrenhar-se na história, senti-la sua. Foi, de facto, o que me aconteceu. 
      As guerras sāo, felizmente para muitos, uma coisa lá bem longe. E esta, o desmantelamente da antiga Jugoslávia e a guerra civil entre a Croácia e a Sérvia, nos anos 90, acabou por ficar remetida algures em mim numa memória longínqua. Mesmo tendo visitado o país já há alguns anos e ter ainda encontrado casas com vestígios dessa guerra (por exemplo, algumas casa ainda com os buracos das balas) nāo se consegue visualizar o sofrimento passado por esse povo e bem depressa somos conquistados pela beleza de um país possuidor de uma costa belíssima e, consequentemente a beleza da paisagem faz esquecer o seu passado sofrido. No entanto, ao ler passagens do livro fui, de novo, passear pela Croácia e ficou o desejo de lá voltar. Agora com outros olhos, certamente.
      Como dizia, aqui a autora prende-nos logo nas primeiras páginas. Ana, uma menina croata de 10 anos, recorda a sua infância livre e feliz. As dificuldades eram muitas porque a sua família nāo tinha muitos recursos mas a bicicleta, o seu amigo Luka, o futebol e a relaçāo especial com o seu pai preenchiam os seus dias. Aos poucos, este cenário muda: a comida escasseia, os aviōes sobrevoam e os ataques aéreos, os abrigos e o cheiro a queimado passam a ser uma realidade. As brincadeiras mudam, passando a imitar o que os seus pequenos olhos veem. 
      Uma escrita arrebatadora, pormenores descritos com uma clareza surpreendente, por vezes com a inocência própria de uma criança que aprendeu a creser mais rapidamente do que era suposto. 
      Nāo posso deixar de vos contar como me senti descontente quando a narrativa dá um salto temporal. Sabem aquela sensaçāo de nāo querer abandonar as páginas que retratam uma época, de querer saber mais pormenores? Mas, verifiquei com agrado que a autora soube conquistar a minha atençāo rapidamente porque a história parece real e aborda outros aspectos que me pareceram muito interessantes: o que fazer com as memórias que foram dolorosamente postas de lado para se conseguir sobreviver?
      A guerra vista com os olhos de uma criança. Uma mulher que cresceu mas, escondido o passado, nāo sabe onde pertence, onde é a sua casa. Recomendo muitíssimo. Nota máxima.

Terminado em 15 de Abril de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
      Uma saga de guerra, um relato da passagem à idade adulta, uma história de amor e de memória, Rapariga em Guerra percorre todas estas facetas e revela-se um romance de estreia ao mesmo tempo perturbador e cheio de esperança, escrito com a força da verdade. Zagreb, 1991. Ana Juric é uma menina de dez anos com um espírito descontraído, que vive com a sua família na capital da Croácia. Mas, nesse ano, a Jugoslávia é abalada pela guerra civil, destruindo a infância idílica de Ana. A paz do dia a dia é manchada pelo racionamento, pelos constantes raids aéreos e os jogos de futebol são substituídos pelo fogo das armas. Os vizinhos começam a desconfiar uns dos outros e a sensação de segurança começa a desvanecer-se. Quando a guerra lhe bate à porta, Ana tem de encontrar um novo caminho num mundo perigoso.
      Nova Iorque, 2001. Ana é agora uma estudante universitária em Manhattan. Apesar de todas as tentativas para deixar o passado para trás, não consegue escapar às recordações de guerra e aos segredos que guarda até dos que lhe são mais próximos. Perseguida pelos acontecimentos que lhe roubaram a família para sempre, regressa à Croácia depois de uma década de ausência, na esperança de fazer as pazes com o lugar a que um dia chamou casa. Enquanto enfrenta o passado, procura reconciliar-se com a história difícil do seu país e com os acontecimentos que lhe interromperam a infância, há tantos anos. Avançando e recuando no tempo, este livro é um retrato franco e generoso de um país devastado pela guerra, mostrando-nos, com uma escrita brilhante, a impossibilidade de separar a história de um país e a história do indivíduo.
      Sara Nović revela destemidamente o impacto da guerra numa menina e o seu legado em todos nós. É a estreia de uma escritora que olhou para o passado recente e encontrou uma história que ressoa ainda hoje.

Cris

terça-feira, 18 de abril de 2017


A Convidada escolhe: "Um Instante de Amor"

Este romance, reeditado, está em exibição no cinema atualmente e como não vou ter oportunidade de
ver, decidi-me a ler o pequeno livro numa tarde de lazer.

Não foi uma agradável surpresa, e dada a sua modesta dimensão para uma história contada pela neta sobre a avó louca foi uma leitura moderadamente convincente sobre o período pós-guerra na Sardenha.

“Um instante de Amor” deve o titulo ao que foi escrito num caderninho preto com a borda vermelha sobre a relação da sua avó com um veterano da guerra que conheceu nas Termas, onde ambos procuravam libertar-se das pedras (nos rins) que lhes afetava a saúde. Uma mulher linda, considerada louca pela paixão exaltada com que se manifestava numa época que  tal não era aceite, ou compreendido. Do casamento com um viúvo imposto pela família, surge o rol do que sabia fazer para que o marido não gastasse dinheiro com as mulheres da casa de passe, e surgem descrições inesperadas de sexo sem sentimento e sem poesia.

A escrita é corrida e fluída, com escassa pontuação, o que me obrigava a reler para "não perder o fio à meada". Interessante que baste mas longe de ser um livro brilhante.

Um moderado prazer de ler!”

Vera Sopa

domingo, 16 de abril de 2017


Passatempo Minotauro: "A Serpente do Essex"

Temos para hoje um passatempo para os seguidores do blogue com a colaboraçāo da mais recente editora portuguesa, a Minotauro, grupo Almedina. O livro que temos para ofertar é A Serpente do Essex, de  Sarah Perry.

Só precisam de colocar um "gosto" no FB da editora (aqui) e enviar um mail com os vossos dados (nome, morada e nome do seguidor do blogue) para otempoentreosmeuslivros@gmail.com.

NOTA: Só podem participar uma vez mas quem partilhar o passatempo e enviar o link da partilha conta com duas participaçōes.

O passatempo decorre até ao dia 26 de Abril.

Boa sorte!

Cris

sábado, 15 de abril de 2017


Na minha caixa de correio

  

 

 

Ofertado pela Minotauro o Rapariga em Guerra será a minha próxima leitura. Vejam o comentário do Jorge sobre este livro, aqui. Fiquei bastante curiosa! Espero por vocês dia 20 na Livraria Almedina no Atrium Saldanha, na apresentaçāo do livro e tertúlia de leitura. Vejam aqui!
O Segredo do Rei foi oferta do Clube do Autor. Sobre uma história que desconhecia.
Da Marcador chegou-me um livro fabuloso: É Isto Que Eu Faço. Histórias e fotos surpreendentes de uma reporter de guerra.
Os Vadios foi ofertado pela Porto Editora. Leitura para este fim de semana.
Mar Liberal ganhei nos passatempos do Clube dos Passatempos.
Comprado na Livraria Almedina, Vegetais com Todos e para Todos. Uma mudança na minha alimentaçāo, é o motivo do meu interesse por estes livros.
O Grande Livro dos Treinos foi ofertado ela Arena. Chegou sem contar.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Tertúlia de Leitura - MINOTAURO



Novidade Clube do Autor

O Segredo do Rei 
de José María Zavala
Famílias reais, espiões e glamour num país dominado pelo regime conservador de Salazar são os principais ingredientes deste romance, que depressa se tornou um sucesso de vendas.
A partir de factos reais, "O Segredo do Rei" narra a investigação policial na sequência da morte do irmão do rei Juan Carlos, no Estoril. Coordenada pelas polícias portuguesa e espanhola, a Operação Giralda conduz-nos de Portugal até Paris, em busca de uma organização criminosa.
Ação, suspense e romantismo fundem-se neste romance histórico baseado numa das etapas mais desconhecidas da biografia de Juan Carlos, escrito por um dos maiores especialistas na Casa Real Espanhola.


Novidade Planeta

ISABEL ZENDAL
A Paixão de Salvar o Mundo
de Javier Moro

A 30 de Novembro de 1803, uma corveta zarpa do porto da Corunha entre saudações e aplausos. Nela viajam 22 crianças órfãs cuja missão consiste em levar a recém-descoberta vacina da varíola aos territórios ultramarinos.
Acompanha-os Isabel Zendal, encarregue de tomar conta deles. Os heróis desta insensata expedição, chefiada pelo médico Francisco Xavier Balmis e o seu ajudante Josep Salvany, sobreviveram a temporais e naufrágios, enfrentaram a oposição do clero, a corrupção dos oficiais e a cobiça dos que buscam lucrar à custa dos desamparados.
Se no fim esta aventura se transformou na maior proeza humanitária da História, deveu-se  unicamente à coragem daquelas crianças que se viram condenadas a salvar as vidas de tantas pessoas, mas também à audácia dos chefes, homens sem medo que competirão pelo amor da única mulher a bordo.

Novidade TopSeller


Novidade Saída de Emergência

Guerra ao Açúcar 
de Sónia Marcelo
Sabia que, em média, cada português consome 16 pacotes de açúcar por dia?
Isso significa 3 quilos por mês e quase 35 quilos de açúcar por ano.
Como é isto possível? Simples: o açúcar está presente na maioria dos alimentos e é considerado pela Organização Mundial da Saúde como o “veneno” do século XXI, sendo responsável por doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes e até cancro.
Com Guerra ao Açúcar, Sónia Marcelo faz mais do que alertar para os perigos do açúcar. Graças a uma compilação exaustiva de alimentos, ajuda-nos a compreender o açúcar presente e até escondido na maioria dos alimentos da nossa despensa.
Mas a dietista não se fica por aqui: para ajudar a reduzir este “doce veneno” nas nossas vidas, oferece-nos um plano alimentar de desintoxicação para 21 dias e receitas práticas e saborosas para fazer em casa.

Novidade Porto Editora

Os Vadios
de Emily Bitto
No seu primeiro dia de aulas numa nova escola, Lily trava amizade com Eva, uma das filhas do infame artista avant-garde Evan Trentham. Ele e a sua esposa, Helena, tentam escapar ao  conservadorismo sufocante da Austrália dos anos 1930 convidando outros artistas, cujo ideal e ambição se coadunam com os seus, para viver e trabalhar em sua casa. À medida que a amizade de Lily e Eva cresce, a primeira deixar-se-á seduzir pela excentricidade desta residência de artistas, ansiando por se integrar e pertencer verdadeiramente a uma família improvisada. Mas há sempre um
preço a pagar pelo sonho e, falhada a utopia, serão as filhas de Evan que mais sofrerão com as escolhas dos pais.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

A escolha do Jorge: "Rapariga em Guerra"


“Rapariga em Guerra” de Sara Nović constitui uma das primeiras apostas da Minotauro, uma das mais recentes editoras portuguesas. Numa história que remonta ao período da guerra civil que conduziu ao desmantelamento da Jugoslávia, durante a década de 90, do século passado, Sara Nović centra a narrativa na perspectiva da Croácia e da sua difícil relação com a Sérvia naquele que constituiu um longo e terrível caminho para a sua independência.
A Jugoslávia que durante décadas esteve sob os desígnios do Marechal Tito tendo como pano de fundo o comunismo fora da alçada do regime soviético, rapidamente resvalou para o descalabro após a morte do governante. Antigas contendas que constituíam um barril de pólvora entre etnias e religiões diferentes nos Balcãs, rapidamente contribuíram para o reaparecimento de nacionalismos que levaram à morte e tortura de milhares de vítimas, um pouco por todo aquele país que já de si era um mosaico cultural à beira da ruptura.
Sara Nović centra a narrativa numa família de Zagreb, cuja personagem principal é Ana Jurić, uma menina de dez anos, que gosta de jogar futebol e de andar de calções. O seu melhor amigo é Luka, um rapaz da mesma idade, com quem brinca e explora os principais pontos da capital croata. Para ambas as crianças, é natural terem famílias e amigos onde convivem católicos, ortodoxos e muçulmanos. Há uma consciência de pertença pela diferença que torna aquele povo, aquele país, como algo único na Europa. Mas estas crianças percebem que algo não está bem. Zagreb vive períodos de tensão em que as hostilidades entre croatas e sérvios aumentam, numa altura em que rebenta a guerra. Os bens alimentares começam a faltar nas lojas, a insegurança aumenta, a população, os que podem, tentam sair da região, para países vizinhos, na medida do possível.
Há dados interessantíssimos que Sara Nović descreve sobre Zagreb, respeitando o conhecimento histórico, mas contribuindo com dados que, graças à literatura, contribuem para que o leitor tenha uma visão, uma perspectiva mais rica sobre a guerra da Jugoslávia. Dados, informações que do ponto de vista histórico são considerados de natureza subjectiva ou não importantes de todo, mas que num romance são importantes para a compreensão de uma tão complexa região e guerra também.
Alternando a narrativa entre a Croácia e os EUA, Sara Nović vai unindo o passado e o presente na tentativa de Ana Jurić encontrar um ponto de equilíbrio no que respeita à procura ou (re)descoberta da sua identidade. O leitor fica a perceber alguns dos traumas de guerra por que passaram tantos jovens, como que por necessidade e até em situações extremas de vida ou de morte, num contexto de guerra, mas que a consciência, mais tarde ou mais cedo, aviva episódios concretos que tiveram lugar num dado momento da vida e que nos faz reposicionar a vida, ética e moralmente, na relação com os outros e até com o país e a História.
Esta relação entre o passado e o presente tem W. G. Sebald como fio condutor. Na descoberta e encantamento pela literatura, Ana Jurić descobre o escritor alemão W. G. Sebald, acabando por se rever na sua escrita no que concerne à questão da memória e a forma como esta condiciona a vida presente. Há uma expressão interessantíssima que alude ao conjunto das obras de W. G. Sebald quando é referido o “feitiço do desespero” (p. 97), expressão que, de certa forma, vai contribuir para que Ana Jurić tenha a coragem de regressar à sua Zagreb natal e enfrentar a verdade, o que ficou da guerra, reencontrar vivos e apaziguar-se com o seu passado, assim como com a tragédia que assolou a sua família.
Ainda que a história seja ficcionada, Sara Nović respeita a realidade histórica conduzindo o leitor pelos caminhos horríveis da guerra e da loucura dos homens quando estes perdem a noção de respeito pela vida e a razão, deixando à flor da pele o homem natural capaz de se transformar num monstro.
Livros como “Rapariga em Guerra” contribuem para a reflexão sobre a incapacidade de o homem gerir as diferenças étnicas e religiosas, resvalando para os nacionalismos exacerbados que conduzem a guerras sem sentido vitimando milhares de pessoas inocentes. A guerra da Jugoslávia que teve lugar na última década do século XX foi a guerra mais cruel depois da 2ª Guerra Mundial e que teve o seu palco em solo europeu com a agravante de o Mundo poder assistir aos confrontos bélicos e à mortandade nos Balcãs como se tratasse de um filme, pese embora os personagens fossem bem reais.

Excertos:
“Fomos para nossa casa e, na televisão, vi o que significava a queda de uma cidade. As imagens eram estranhas. Todos os croatas residentes em Vukovar estavam a combater ou haviam sido capturados, pelo que as redes noticiosas croatas tinham intercetado uma transmissão alemã, o seu correspondente narrando os acontecimentos numa mistura de consoantes que não me era familiar. A transmissão era em direto e o narrador não fora traduzido, mas o refugiado, os meus pais e eu fitávamos o ecrã, como se olharmos para ele com afinco melhorasse a nossa capacidade de perceber alemão. As fachadas de betão das casas estavam desfiguradas, marcadas pelas balas e pelos morteiros. Os tanques do JNA avançavam a toda a velocidade pela rua principal, seguidos por comboios de camiões brancos das Forças de Manutenção da Paz da ONU. Ao longo da estrada, num local que, provavelmente, estivera outrora coberto de relva, mas agora se encontrava espezinhado e enlameado, filas de pessoas jaziam de rosto virado para baixo, os narizes contra a terra e as mãos atrás da cabeça. Um soldado barbudo com uma AK-47 andava por entre as filas. Ele disparou. Algures, alguém gritava. De súbito, a câmara ergueu-se e afastou-se, captando antes o colapso da torre de uma igreja. O rugido abafado de uma explosão distante ribombou pelos altifalantes da televisão. Ao fundo, mais homens barbudos, com bandeiras negras com caveiras marchavam pelas ruas vazias, cantando ‘Bit će mesa! Bite će mesa! Klaćemo Hrvate!’, «Haverá carne! Haverá carne! Vamos abater todos os croatas!»” (pp. 57-58)

“A princípio, as reações dos adultos rondavam a preocupação e a intromissão, tecendo perguntas acerca da guerra, e eu falava com verdade acerca das coisas que vira. No entanto, as minhas descrições eram, muitas vezes, recebidas com um afastamento desconfortável do olhar, como se esperassem que retirasse as coisas que dissera, que afirmasse que, afinal, a guerra ou o genocídio não eram nada de especial. Ofereciam as suas condolências, como lhes havia sido ensinado, aguardando em seguida durante um instante educado antes de apresentarem uma desculpa para porem fim à conversa.
As considerações sobre o como e o porquê de as pessoas ficarem num país com condições tão terríveis era o que mais odiava. Sabia que tinham origem na ignorância, não em conhecimento. Falavam assim porque nunca tinham sentido o cheiro do fumo dos ‘raids’ aéreos ou o odor da carne queimada a partir das suas varandas; não conseguiam imaginar que um local tão perigoso continuasse a abrigar todos os sentimentos ligados a um lar.” (p. 82)

“Ele estava a tentar calcular quanto tempo seria preciso para esquecer a guerra.
- Talvez já estejamos a caminho – disse. – Os miúdos que nasceram nos últimos cinco ou seis anos já nasceram fora do tempo de guerra. São bebés pós-guerra.
- Ainda todos falam nela – disse Luka.
- Aqui talvez. Mas falar não é o mesmo que vivê-la.
- Não é preciso viver algo para recordar. Tu hás de ter filhos e eles hão de querer saber onde estão os seus outros avós.
- E eu direi que morreram.
- Devias dizer-lhes a verdade.
- Essa é a verdade. Morreram.” (pp. 221-222)

Texto da autoria de Jorge Navarro


Convite Porto Editora


terça-feira, 11 de abril de 2017


A convidada escolhe: "Deus não mora em Havana"

O ambiente de Havana numa narrativa viva e colorida, que nos faz sonhar com um país sobejamente conhecido como destino de férias. Uma leitura carregada de cheiros e de sons que reproduzimos em imagens imaginárias. Uma viagem inebriante conduzida por Jonava. A escrita fluída e cativante de Yasmina exerceu um enorme fascínio sobre mim, que li quase sem descanso. Não conhecia e cheguei a pensar que se tratava do nome de uma mulher e no entanto, é um homem que tão bem o faz.
Cantar era a vida de "Don Fuego", o sopro incendiário das Caraíbas que se vê impedido de o fazer quando o Buena Vista é vendido e se depara com dificuldades em regressar ao palco. Vai tomando o pulso à vida e à realidade que o rodeia. Para agravar o quadro, apaixona-se perdidamente por uma jovem. No fim, uma aventura. Panchito, o velho sábio e trompetista excecional, que se refugiou com o seu cão Orfeo numa velha barraca depois da glória, é o mistério que procurei desvendar durante toda a narrativa.
A história é simples e o desfecho, possível, apesar de uma ou outra reviravolta que não se fazia esperar. De qualquer modo, o melhor, é mesmo a magia que já ouvi contar e consegui sentir sobre aquela ilha e aquele povo. Um prazer de ler!

"Em Havana, Deus perdeu a sua cotação. Nesta cidade que trocou o seu brilho de outrora por uma humildade militante feita de privações e de abjurações, a pressão ideológica liquidou a fé. " (pag.44)

"Em Havana, vivem várias familias num mesmo apartamento. Desde 1959 e da revolução castrista, a população centruplicou, mas a cidade não aumentou, como se uma maldição a mantivesse cativa de um passado tão flamejante como o inferno." (pag.49/50)

Vera Sopa

segunda-feira, 10 de abril de 2017


"Imaculada" de Paula Lobato de Faria

Sinceramente teria sido mais fácil começar esta leitura se nāo tivesse reparado no apelido da autora e nāo me tivesse posto a passear pela net. Após alguns minutos estava achado o mistério. Ainda hoje me lembro do espanto que senti aquando do terminus da leitura de um dos livros da Rosinha. Nada esperava, tudo encontrei. E os livros seguintes foram, de igual modo, uma descoberta de sentidos, cores e emoçōes. Tantas as que se esperam de um livro. Todas, aliás! 

Mas indo para o que me traz aqui: Imaculada. A capa atraiu-me de imediato. Simples, sóbria e por isso, a meu ver, bonita. A sinopse também foi do meu agrado. A acçāo passa-se numa época (Salazarismo) que nāo vivi verdadeiramente porque para além de ser criança encontrava-me numa ex-colónia e as coisas lá eram sentidas de forma diferente. Creio que a censura nāo era tāo visível nem se fazia sentir como na metrópole. Gosto, por isso, de ler romances onde a acçāo se passa nesse tempo. Acredito que muitas histórias estāo escondidas à espera de serem contadas...

Esta é uma história de um desencontro entre dois jovens. De como a vida os afastou (entendendo-se que, aqui, a "vida" se tratou de vontades humanas) depois de os ter juntado. Mas, para mim, mais do que nos contar a história desses dois jovens, a autora soube traduzir por palavras a história de uma época, soube contar-nos a história de muitos jovens que ousaram resistir ao regime. Os que se aproveitaram e os que sucumbiram.  

Por outro lado, nāo posso deixar de vos transmitir a estranheza que senti aquando da leitura de certos diálogos, sobretudo entre Cristiana, a personagem principal, e sua māe. Embora impensáveis no Portugal de hoje, espelham uma época longínqua onde o poder de decisāo sobre a vida de uma filha dependia exclusivamente dos pais. Só algumas ousavam lutar e transgredir às ordens recebidas. Irritou-me a passividade dessa personagem, daí tê-los achado bastante verosímeis.

Foi um bom começo, Paula. A meu ver, é continuar. Eu gostei.

Terminado a 10 de Abril de 2017

Estrelas: 4*+

Sinopse
Esta é uma história inspirada em acontecimentos reais em que a dualidade de ser e de parecer, da lealdade e da traição, do amor e da obrigação nos leva a caminhos imprevisíveis.
Portugal, 1956
Tempo da ditadura de Salazar, da censura e da PIDE. Numa família da alta burguesia, no interior do país, o lema "Deus, Pátria e Família" é sagrado. Mas a vida estremece quando na casa dos Correia bate à porta o amor e o desejo de liberdade.
«Apenas um por cento é baseado em memórias e todo o resto na imaginação, mas muitos leitores vão aqui identificar pessoas que conheceram durante a vida, pois os personagens desta trama são gente comum, de carne e osso», avança a autora nas primeiras páginas do romance.

Cris