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quinta-feira, 26 de junho de 2014

A Escolha do Jorge: "O Tempo Morto É Um Bom Lugar"

Esta semana tentarei apresentar um livro num registo um pouco diferente daquele que tem sido feito nesta rubrica semanal em "O tempo entre os meus livros" ao longo dos últimos meses. Nem sempre a escolha é imediata ou que tenha de ser necessariamente um livro publicado recentemente.
Hoje o livro que proponho é o novo romance de Manuel Jorge Marmelo "O Tempo Morto é um Bom Lugar". O autor foi galardoado no início do ano com o Prémio Correntes D’Escritas à conta do seu romance "Uma Mentira Mil Vezes Repetida".
O novo romance de Manuel Jorge Marmelo foi precisamente o meu primeiro contacto com a sua obra tendo ficado com bastante curiosidade após a leitura da sinopse não sabendo ao certo o que poderia desenvolver-se a partir dali.
Devo dizer que fiquei de tal modo viciado no livro com a leitura das primeiras páginas na medida em que sabendo de antemão o que vai acontecer em função da informação disponibilizada na sinopse, ficamos com os sentidos à alerta sobretudo quando termina a primeira parte do livro após apresentadas algumas histórias ou simplesmente aquela visão da história daqueles personagens.
Imagine que Henrique Vermelho é contratado para escrever a autobiografia de Soraya Évora, uma estrela de um daqueles programas televisivos com enorme projeção nacional em que a vida privada é completamente exposta para gáudio de todos. Mas imagine também que Henrique acaba por se envolver sexualmente com Soraya e que certa manhã, não sabendo nem como nem porquê, a jovem atraente está morta ao seu lado.
Este episódio é de facto o cerne de toda a obra em que o leitor vai tentar compreender o que aconteceu e até que ponto estará Henrique envolvido ou não na morte da jovem.
Mas o complexo da questão é que Henrique decide entregar-se à polícia assumindo para tal toda a culpa na morte da jovem. Sem emprego e já na casa dos cinquenta anos, Henrique sente que nada tem a perder dadas as condições que atualmente o país atravessa, daí que sendo preso não terá de voltar a ter de se preocupar com as contas para pagar, nem com a pensão de alimentos da filha que raramente vê, nem tão-pouco com as apresentações quinzenais por auferir subsídio de desemprego e também não ter de ser chamado para frequentar formações que não servem para nada, nem para ele, nem para ninguém.
Deste modo, o tempo que Henrique passa na prisão irá ser bom ele na medida em que poderá empregá-lo na reflexão sobre a sua vida, coisa que em liberdade, não tem nem tempo nem vontade de o fazer dadas as preocupações mundanas que lhe ocupam parte do dia. É aqui que entra precisamente o título do livro, pois a prisão, a nova morada de Henrique, é afinal de contas um bom lugar esforçando-se a todo o custo por lá ficar o máximo de tempo possível.
A partir daqui, o autor da obra consegue cativar-nos de tal modo no enredo que não se tratando propriamente de um livro policial, a dada altura da narrativa acabamos mesmo por estar perante algo do género. À medida que avançamos na leitura, rapidamente percebemos que o livro funciona como a cartola do mágico de onde saem inúmeras surpresas, vários números de magia, na medida em que são várias as histórias que são apresentadas paralelamente à história da dupla Henrique-Soraya. Ficamos, pois, com a sensação de estarmos perante um livro com vários livros dentro, mas que ainda assim, está tudo de tal modo encaixado e tão bem relacionado que o leitor é completamente levado por esta arte e artimanha de quem sabe tão bem contar histórias. Tal é o caso se imaginarmos que num dos países nórdicos, provavelmente numa Islândia, um tal escritor Ólafur Bjarnason que se isola num casebre rural no intuito de escrever a história de Tristão, um bibliotecário que terá um fim ignominioso após ter cometido um sério crime que colocaria de certo modo o normal funcionamento da ditatorial Frihedlândia.
Mais à frente é contada a história de Bernardino Barbas, um escritor que foi detido por ter assassinado o seu único leitor após ter vendido escassos exemplares, o que lhe terá provocado uma angústia imensa e desse modo inviabilizaria que o seu livro, a sua frustração, não chegasse a mais ninguém, colocando-se de certa forma numa situação/posição semelhante à de Henrique.
Mas como iremos ver, à medida que avançamos para a parte seguinte da obra, talvez as coisas não tenham acontecido conforme descritas na secção anterior e o leitor é então levado a mergulhar num verdadeiro jogo de máscaras dado que terá de descobrir onde está a verdade e a mentira da ficção. Afinal quem terá escrito a autobiografia de Soraya Évora que é publicada postumamente e com uma procura extraordinária por parte de leitores ávidos de mexericos. Quem é esse escritor-fantasma?
A esta questão é o que João Abelha, um jornalista e antigo colega de Henrique vai tentar descobrir com a ajuda de algumas prostitutas que para além de serem exímias na sua profissão, têm igualmente olho e perspicácia para questões que envolvem mistério e intriga (quase) policial.
Com muito humor à mistura, Jorge Manuel Marmelo seduz-nos com um livro que para além da riqueza dos recursos que utiliza nesta multiplicidade ficcional, não se faz rogado nem perde uma oportunidade para criticar a sociedade contemporânea e o governo, sendo uma o reflexo do outro ou simplesmente duas faces da mesma moeda. A crise económica e as medidas de austeridade também estão presentes no livro, mas também não são esquecidos aqueles que têm sido os mais vulneráveis com toda a atual conjuntura de depressão económica que o país atravessa que são precisamente os mais fracos, os mais pobres e que de alguma forma têm vindo a engrossar as fileiras de quem dorme nas ruas vivendo da caridade e boa vontade alheias.
Por outro lado, "O Tempo Morto é um Bom Lugar" é um livro sobre a liberdade, desde o seu conceito até àquilo que podemos fazer com ela, assim como os seus limites, levantando várias questões de índole moral.
Ainda que com muitas histórias à mistura que se entrecruzam entre si e com tantos coelhos a saírem da cartola, Manuel Jorge Marmelo presenteou-nos com uma obra que dificilmente esqueceremos até mesmo pela sua estrutura.
Como referi no início, não li outras obras deste escritor, porém devo dizer que a sensação pós-leitura é semelhante a uma anestesia que se pretende mais e mais e mais. E mais um pouco.
"O Tempo Morto é um Bom Lugar" figurará certamente entre os melhores livros do ano ocupando igualmente "um bom lugar" nas nossas estantes.

Excertos:
"Apesar do grande número de experiências que acumulei na vida, nem sempre saudáveis ou amenas, e só muito raramente úteis, nunca me tinha acontecido acordar ao lado de um cadáver. Senti surpresa e espanto, estupefacção, susto, pânico e medo, tudo ao mesmo tempo e sem ordem nenhuma. De modo irracional e irreflectido tentei sacudir a Soraya pelos ombros e devolvê-la à vida como se fosse um brinquedo escangalhado. Esbofeteei-a para que acordasse e abracei-lhe o corpo inerte, e só depois de tudo me ocorreu questionar-me sobre o que tinha acontecido e como era possível que estivesse morta, que tivesse morrido assim inesperadamente e sem sentido, criando-me mais um problema que eu não sabia como resolver, e logo naquelas circunstâncias tão esdrúxulas, deixando-me, se calhar, outra vez sem trabalho e sem dinheiro, a braços com a autobiografia inacabada e fantasma de uma celebridade desvanecendo-se e já perdendo a cor, cujo espectro talvez estivesse naquele instante pairando no quarto e observando o meu desatino." (p. 31)


"Deixei há muito tempo de gostar de gente. Existe um ou outro indivíduo notável, mas, em conjunto, as pessoas são uma massa lamentável. Onde há tirania, são tiranos ou entregam-se à vilania do silêncio e da delação. Onde existe liberdade, ou aquilo a que comummente se chama liberdade, são sempre capazes de se porem de acordo para eleger os tipos mais desaconselháveis e capazes de prejudicarem ou defraudarem quem os escolheu. E depois reconduzem-nos quantas vezes for possível até serem forçados a optar por outro energúmeno qualquer (quando o primeiro já se tenha governado bastante).
Na última campanha eleitoral que acompanhei enquanto jornalista, o misantropo em que me fui transformando sorria interiormente e revoltava-se ao mesmo tempo. Os candidatos dos dois ou três partidos que sempre nos governam rivalizavam na distribuição de sandes de presunto, bonés e porta-chaves. Os eleitores quase se atropelavam para alcançarem as dádivas que os políticos lhes levavam aos bairros sociais, esquecidos de todas as vilanias que os respectivos partidos haviam cometido ao longo de décadas. Os partidos do costume lideravam largamente as sondagens e os estudos de opinião – e um deles acabou por ganhar as eleições sem que eu tivesse conseguido decidir o que execrava mais: os políticos que compravam votos com sandes de presunto ou as pessoas que se vendem e embrutecem por tão pouco." (pp. 76-77)
Texto da Autoria de Jorge Navarro

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