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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A Escolha do Jorge: "A Cura"

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Uma das surpresas que a editora Quid Novi apresentou este ano no âmbito da literatura portuguesa foi “A Cura”, o mais recente romance de Pedro Eiras que tem já trabalho apresentado em diversas áreas como a poesia, teatro, ensaio e o romance.


“A Cura” é o livro ideal para todos aqueles que gostam de psicologia e psiquiatria na medida em que nos conta a inusitada “viagem alucinante” de um psicanalista conceituado a nível mundial pelos seus estudos nesse âmbito.

A visita de um paciente inesperado que é uma figura pública vai alterar por completo o modo de pensar do psicanalista ao ponto de nas sessões com o paciente mistério deixar de se perceber quem é que está a fazer a terapia e quem é que se deve deitar no famoso divã.

“A Cura” apresenta-nos uma tentativa de aproximação entre a religião e a psicanálise através dos argumentos de peso de dois personagens que sabem o que dizem e ainda que cada um sinta plena confiança naquilo em que acredita, as sessões entre paciente-terapeuta acabam por culminar com um volte-face sem precedentes ao ponto de que quem julga que está verdadeiramente seguro de si e das suas convicções, afinal vai passar por uma fase de “cura”. Cura ou salvação? Eis a questão…

Pedro Eiras consegue com este seu romance um trabalho inigualável no contexto da literatura portuguesa contemporânea que certamente marcará quem quer que mergulhe nestas águas onde talvez se (re)encontre já que a leitura em si mesma já é refrescante como um banho.

Excertos:
“A tua agressividade é boa, porque a agressividade faz-nos nascer e crescer, é porque temos agressividade que inspiramos e expiramos e o nosso coração bate. Mas usa a tua agressividade para dominar o super-ego. Não deixes que seja ele a dominar-te.
(…)
O pecado não existe. É uma invenção do ego que tem medo de matar o pai; mas o pai deve ser assassinado para o ego poder respirar.
(…)
Não podes desejar e depois arrepender-te. Deseja! Deseja livremente! Passaste a vida a papaguear os desejos dos outros. Agora tens de ser tu opatricida.
(…)
O pai tem de ser morto. A violência existe, nascer é violento, respirar é violento, não se pode pedir sempre desculpa pela violência… Ouve o que te digo: aceita as tuas pulsões.
(…)
Não, tu queres negá-las. Talvez seja um defeito da tua educação. Talvez não tenhas sido preparado para lutar por elas. Uma vez eu disse-te: o teu pai foi um Laio fraco, um Laio fraco é um problema. O teu pai não deu trabalho a matar. Por isso, não estás pronto para matar pais na tua vida. Os teus pais ressuscitam.”
(pp. 196-197)

“Ouça, ouça, por favor… O Sr. Doutor chama “neurose” ao temos em que deve assentar a humildade. Eu sei que “neurose” é uma patologia. Mas, paciência! O Sr. Doutor considera que eu tenho uma neurose, eu considero que tenho temor a Deus. Para que havia de curar aquilo que me alimenta? Eu só devo curar-me do que me afasta do Senhor.”
(p. 203)


 Texto da autoria de Jorge Navarro

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