Fiquei com muita vontade de ver o filme mal acabei de ler este livro. As cenas descritas dos dias que passaram à deriva os naufragos do baleeiro Essex, abalrroado por um cachalote, foram de tal forma cinematográficas que quero verificar com os meus olhos se o produtor do filme teve ideias semelhantes àquelas que "vi" ao ler.
No Coração do Mar conta-nos a história de alguns homens (cerca de vinte) que, em 1819, ficaram mais de 90 dias à deriva, divididos em três botes, no Oceano Pacífico. A situação tornou-se de tal modo desesperada que acabaram por se alimentar dos corpos dos companheiros que sucumbiam ao seu lado. Salvaram-se oito.
Um relato impressionante feito com base numa investigação exaustiva dos relatos dos sobreviventes e dos seus familiares. Um livro de não-ficção, duro, que nos descreve como o Homem consegue sobreviver numa situação limite. Um livro bem contado, onde abundam os termos técnicos de tudo o que diz respeito aos baleeiros e a caça às baleias nesse tempo e também de outros naufrágios, que me prendeu até mais do que estava à espera. A escrita é simples e directa e mesmo as partes onde abundam os termos técnicos são fáceis de se ler, muito embora fossem as que menos gozo me deram.
Uma história de sobrevivência e resistência inimaginável que os amantes do mar vão adorar de certeza! Uma leitura empolgante e muito agradável de se ler se bem que o tema seja, não há dúvidas, dificil de "digerir". A história deste naufrágio inspirou Hermam Neville a escrever o seu famoso Moby Dick.
Leiam e aproveitem para ir ao cinema também. É o que vou fazer, sabendo de antemão que um livro é sempre o Livro.
Terminado em de Janeiro de 2016
Estrelas: 4*+
Sinopse
No verão de 1819, o baleeiro Essex partiu de Nantucket para mais uma expedição de caça à baleia. Quinze meses depois, o impensável aconteceu: numa região remota do Pacífico Sul, um cachalote de enormes proporções provocou o naufrágio do Essex. A tripulação de vinte homens refugiou-se em três botes salva-vidas rumo à América do Sul, numa jornada épica pela sobrevivência. Três meses depois, os oito tripulantes que continuavam vivos foram encontrados à deriva. Para sobreviver, usaram todos os recursos, inclusive o canibalismo.
No Coração do Maré um relato empolgante de um naufrágio tão relevante no seu tempo como o do Titanic atualmente. A aventura do Essex inspirou Herman Melville a escrever o clássico Moby Dick.
Para mais informações sobre o livro vejam Editorial Presença aqui!
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
domingo, 10 de janeiro de 2016
Entrevista com Luize Valente a propósito de "Uma Praça em Antuérpia"
Cristina Delgado (CD): Olá Luize! Adorei o seu livro pois dá gosto ler. Eu acho que é a sua forma de escrever, as frases muito curtas, os capítulos curtos e ao mesmo tempo com muita informação histórica, o que também é muito agradável; a pessoa envolve-se na história mas tendo como base a História (com letra grande).Luize Valente (LV): A história para mim, pegando naquilo que você estava falando sobre o livro, é um tema que me fascina muito, em especial temas ligados à questão judaica e à Segunda Guerra Mundial. Eu sempre acho que tem muitas histórias desse período de guerra para serem contadas e esta história do Aristides de Sousa Mendes despertava-me muita curiosidade. Eu queria contar a
história dele, mas eu vi que existiam biografias, textos de não ficção, textos históricos, mas sempre de tipo jornalístico e não ficção. E então eu pensei o seguinte: é um assunto que eu adoro, eu queria falar muito do que o cônsul tinha feito mas de um lado mais humano e era muito curioso para mim saber: - e as pessoas que receberam esses vistos? Como é que elas chegaram até ele ali? Como é que isso acontecia? Como é que era naquele momento em que a guerra estoirou de repente, na Bélgica, na Holanda, na França,…? Aquilo chegou tão rápido e então as pessoas tinham que fugir… como é que era essa fuga?
CD: A fuga está espetacular.
LV: E foi a partir dessa ideia que me surgiu a história – eu quero falar sobre isso; eu quero falar sobre essas pessoas.
CD: E as gémeas como é que surgiram? Eu tive que voltar para trás. Eu disse assim: eu não estou a perceber a história da identidade que uma adopta.
LV: Isso aí tem muito a ver com aquilo que a gente estava conversando acerca da minha forma de escrever. Eu sempre gostei muito do folhetim, daquele romance rocambolesco e aí, na hora de escrever, eu pensei que seria interessante eu escrever esse livro como se fosse um folhetim. O tema era um assunto sério mas eu gostaria de escrever uma história que prendesse a atenção das pessoas e aí acabei assim com todos aqueles ingredientes de um folhetim: amor, mistério, capítulos curtos, frases curtas, o suspense no final do capítulo. E então como é que eu cheguei às gémeas? Eu queria trabalhar a questão assim: eu vou fazer uma família que foge e consegue um visto mas isso pode ser uma história linda mas muitas pessoas já contaram essa história; então eu vou fazer na verdade uma história em que o pano de fundo é a Segunda Guerra Mundial mas o que vai mover essa história é uma coisa passional. O que vai acontecer na minha trama no fundo é independente de ser guerra ou não, porque eu queria uma situação trágica e para fazer essa situação trágica foram surgindo os elementos que poderiam tornar isso mais interessante.
CD: Logo no princípio sabe-se praticamente, entre aspas, o que vai acontecer, tirando a história da criança, mas a sua forma de escrever é de tal forma rápida que, mesmo sabendo o final, o leitor fica preso.
LV: Olha realmente eu tenho tentado mas não me consigo lembrar do momento em que eu pensei nas gémeas. Eu me lembro que tinha uma foto em minha casa de uns irmãos da minha avó que ela na verdade nunca conheceu e isto tem a ver com histórias de migração de famílias separadas e eu ficava imaginando a história daquelas pessoas da foto e isso é que acabou por me levar à história das duas gémeas em que existe a troca de identidade – uma ia viver a vida da outra. Isso levou-me também a pensar que o que mais interessa quando a gente lê um livro é como a história é contada; muitas vezes sabemos o final como nas histórias bíblicas, toda a gente sabe o que vai acontecer mas o que interessa é como essa história vai ser contada e todo o mundo adora essas histórias. E aí eu pensei, eu vou falar logo no princípio que os personagens morrem, mas o que interessa é contar o como e porquê: uma das gémeas conta logo que trocou de identidade com a sua irmã, assumiu a identidade dela, ela morreu no seu lugar, o homem que ela amava morreu no seu lugar e tem um filho que acha que morreu. E aí o meu desafio era como é que eu vou fazer, como vou contar como isso aconteceu. Já sabemos o final que o livro terá e o desafio foi explicar como foi passar pelo processo até ao final – eu acho que talvez seja isso que faz a diferença deste livro.
CD: Eu creio que diz no final que visitou mesmo estes lugares todos. Haverá maneiras de escrever sobre um sítio e a pessoa nunca lá ter estado mas eu creio que se sente isso… os cafés, os bares, isso tudo existe?
LV: Existe. Eu acho que quando a gente escreve um romance histórico, a grande importância é criar verosimilhança interna da trama, ou seja, a história que criamos tem que se adaptar à história real e não ao contrário – não tem como adaptar factos históricos à história que eu quero contar. Então o que é que eu fiz primeiro? Eu tinha uma base de pesquisa muito grande, eu queria contar o período do Aristides, principalmente ali o período de Maio / Junho de 1940.
CD: Isso é uma pequena parte do livro todo…
LV: … seria maior a questão do Aristides, mas a história mesmo foi para Antuérpia porque a Clarisse ia conhecê-lo quando ele era cônsul em Antuérpia onde ele esteve antes de ir para Bordéus mas, o livro foi crescendo de tal forma, o livro vai pedindo e é engraçado que tem um momento em que você sabe o começo e o fim do livro mas nesse meio, principalmente num romance histórico, acontecem situações que se você foge delas a verosimilhança interna do livro se perde, os personagens perdem a credibilidade para o leitor. É o que acontece neste livro quando o Theodor foge da Alemanha, ele vai para Portugal que era o lugar mais longe do nazismo a que ele podia chegar. Só que ele, perseguido pela polícia política portuguesa, tem que fugir para França em 1936 quando começa a guerra civil espanhola e isso para mim foi uma surpresa porque não constava do meu plano original.
CD: No princípio, antes de começar, já tem uma ideia…
LV: Sim eu tenho uma ideia da história toda. A editora comprou a minha ideia com base numa sinopse de 17 páginas bem estruturada. Neste caso da guerra civil espanhola, que acabou sendo uma necessidade do livro e ocupou um período grande do livro, não seria crível que o Theodor, sendo um comunista e um homem tão ligado em questões políticas, não fosse ficar ali, naquele momento, lutando ao lado dos republicanos contra os franquistas que tentam tomar o governo em Espanha. E aí eu falei: não vai ser crível não escrever sobre esta situação e o livro teve então que ganhar vários capítulos que não estavam inicialmente previstos e aí… o período do Aristides que era para ficar maior, acho que ficou na medida certa, porque este não era um romance sobre o Aristides; ele é uma parte dessa história mas de uma forma que ainda não vi em outros relatos sobre ele, que é o ponto de vista de um refugiado. As pessoas naquele período já o viam como um salvador na loucura e confusão que era Bordéus.
CD: Os relatos de fuga são muito reais. Consegue-se visualizar a confusão e o pânico das pessoas, o medo…
LV: Ah! Eu fico muito feliz porque isso eu não encontro em muitos livros de história. Uma coisa que foi fundamental para mim foi um diário que, por coincidência chegou às minhas mãos. Eu estava em Antuérpia fazendo as minhas pesquisas, vendo os lugares… e eu estava alojada em casa dos pais de uma amiga minha (eles não são judeus) e a avó dela chegou um dia e deu-me um diáriozinho que ela tinha escrito quando tinha 13 anos e onde se encontram as suas notas e impressões da fuga da família no dia em que foi bombardeada Antuérpia; eles fugiram para o norte da Bélgica e, enfim depois, tiveram que voltar para casa. E então, parte do meu relato de fuga é em cima desse diário. A minha amiga e a mãe da minha amiga, filha dela, nunca souberam disso porque ela nunca tinha mostrado esse diário para ninguém; as gerações que viveram a guerra não falavam muito sobre isso.
CD: As pessoas queriam esquecer…
LV: É. E aí eu acho que as segunda e terceira gerações, a nossa geração, é que tem mais curiosidade. Então a filha da avó da minha amiga e a minha amiga nunca perguntaram e quando eu lá cheguei com essa curiosidade ela mostrou e elas traduziram para mim – o diário estava escrito em holandês e aí elas traduziram para o inglês – e aí há vários detalhes que eu peguei: dormir num celeiro que tinha piolhos, a ajuda das pessoas, a ajuda nos conventos, as fugas, as bicicletas que tinham que ser deixadas depois de um tempo porque o pneu também acabava…
CD: E este processo de escrita demora quanto tempo?
LV: Olha, desde o dia em que eu entreguei a ideia do livro ao dia em que entreguei o livro pronto, foi um ano e meio. A minha escrita é muito com frases curtas, eu não uso muitos adjectivos, não costumo usar aquele rebuscado que alguns autores têm; acho que não é o meu estilo. Eu me preocupo muito com a informação e com a acção. Então eu acho que eu fiquei a maior parte do tempo fazendo pesquisas, detalhes mesmo: - a questão dos pneus da bicicleta, eu tenho que ir lá ver na loja de bicicletas quanto tempo dura; - a Clarisse está grávida de 7 ou 8 meses, eu conversei com uma ginecologista, 7 meses ela podia ter perdido o bebé, 8 é mais difícil…; - com datas em vou verificar, dia 20 de Junho, dia 21 de Junho, o que é que aconteceu?
CD: Demora mais tempo. Acaba por demorar mais tempo na pesquisa mas depois…
LV: É. E essa coisa do texto burilado para mim, é…
CD: Sim, porque este livro escrito pela Lesley Pearse, p.ex., que é uma autora que eu também gosto não era assim…
LV: Aí entra a descrição demais, eu mesma quando lia havia assim coisas que eu cortava, depois vou cortar, vou cortar, vou cortar, porque eu tento pegar emocionalmente as pessoas que estão lendo. Então se eu vou-me estender, eu vou quebrar também esse impacto para o leitor. O meu outro livro, “O Segredo do Oratório”, também é assim, tem várias coisas que eu cortei muito, que eram detalhes que para serem colocados, eu tinha que criar todo um contexto e assim eu iria perder a minha linha que é a questão passional. Eu preciso prender as pessoas porque elas têm que viver a mesma emoção da Clarisse… - é uma história sobre personagens passionais e então para isso eu realmente não podia ficar muito descritiva porque eu acho que que eu quebraria. Hoje eu vejo que na hora de escrever um romance histórico, a gente gosta muito de mostrar que sabe e então eu tive que exercer assim um controlo… não vou ficar me mostrando… Eu quero que os factos históricos estejam no fundo, sirvam de pano de fundo e eles são verdadeiros, mas o que vale para mim é aquela história da Clarisse e do Theodor tentando fugir, as peripécias que vão acontecendo e poder narrar… e depois eu também fiquei feliz quando li e senti que estava numa guerra, num bombardeamento, eles pegavam num carro, eles vão fugir e isso…
CD: Isso é muito visual, quem está a ler consegue visualizar muito bem.
LV: Noutro dia um senhor que está lendo o livro falou-me no Eric Remarque e na maneira como ele narra factos de guerra, mas ele viveu esse período e eu não vivi mas conseguia passar essa atmosfera. Esse foi um trabalho de pesquisa muito exaustivo para mim: a pesquisa dos livros, a minha viagem aos locais, fui a Dunquerque, fui a Calais, a Vilar Formoso. Fui a Bordéus e aí eu me lembro de ir para a sinagoga e daí a pé até ao consulado e caminhava de uma forma como se fosse uma grávida caminhando, aí eu falava… bem ela demora quanto tempo? 20 minutos. Isso parece ser um detalhe do livro mas eu acho que essas coisas permitiram passar essa sensação que você me diz agora e que me deixa muito feliz.
CD: Parece muito real.
LV: É exactamente esse sentido realista que eu quis dar ao livro e isso tem uma influência grande da literatura do Eça de Queiróz.
CD: Há uma frase que eu achei espectacular que é: o tempo não volta, o “se” é uma possibilidade que janais se realizará. – isto é para agora, isto é para sempre, esta frase é para sempre. Todo o ser humano tem um “se”… Qualquer coisa que acontece e… “se”… e “se” eu fizesse e “se” eu tivesse feito e “se” eu dissesse e “se” eu tivesse dito…
LV: O livro todo é o “se”. O livro todo é uma série de coincidências que na vida real acontecem mesmo. Uma coincidência enorme que aconteceu comigo foi eu estar aqui em Portugal, em Santarém em casa de uma família amiga e uma das pessoas da família é professora no liceu e aí eu disse que gostaria muito de falar com os alunos; ela conversa com a bibliotecária que é professora de português e ela diz, nossa eu encomendei esse livro há dois dias, que coincidência que a autora que é brasileira está aqui… e isso é uma grande coincidência… se eu falasse isso… Ah isso não é possível e logo em Santarém que é uma cidade pequena…
CD: As coincidências existem mesmo…
LV: Aí eu falei… então a vida da gente é feita de muitas coincidências e a minha preocupação é que aquelas coincidências da história fosse verosímel. A troca das gémeas eu não queria ter feito em Irún. Irún para mim é uma cidade feia, não tem aquele charme… Em Vilar Formoso para mim seria muito mais charmoso mas eu não podia fazer… não seria crível. Bayonne seria muito mais charmoso mas teve que ser em Irún e então eu tive que criar a situação de estar num café e uma das crianças sair para fazer xixi, o que é normal uma criança querer fazer xixi e aquele carro da polícia portuguesa passar, porque aquilo era crível naquele momento porque o Salazar tinha mandado… agora tinha que ser naquele período entre 20 e 22 de Junho.
CD: Só houve uma parte que eu não consegui perceber, se calhar foi a minha leitura – porque é que a Olívia voltou para Bordéus? Ela estava em Portugal, sossegada… O que é que ela veio fazer para Bordéus?
LV: Ah porque é que ela foi encontrar Clarisse? Pelo seguinte: A Olívia foi lá para ver a irmã Clarisse. Ela sabe que a Clarisse fugiu de Antuérpia e está a caminho de Portugal e por um telefonema de Theodor, Olívia fica a saber que eles estão em Bordéus, que estão bem e que eles irão conseguir o visto para Portugal. A Olívia antes de ir para o Brasil quer deixar dinheiro para ajudar a Clarisse. E também a Olívia não sabe que a guerra estava tão terrível como estava sendo e isto porque tudo o que sabe da guerra é o que lê nos jornais portugueses. Ela não sabe a situação real de perigo provocada pela guerra; para ele é pegar um tren. Como ela fez e vai chegar a Bordéus em 12 horas.
CD: É porque ela não tem noção da guerra.
LV: Quando ela se apercebe como está decorrendo a guerra, ela fica preocupada. Ela não tinha ideia da dimensão da guerra. Ela tem apenas a visão que lhe é dada pelos jornais portugueses que noticiam o começo da guerra mas onde o maior destaque vai para a abdicação do rei inglês devido ao romance que mantinha com uma senhora americana.
CD: Gostava de lhe perguntar acerca de livros… Assim um livro que gostasse de ter escrito; do seu género ou um género completamente diferente.
LV: Eu tenho os meus autores preferidos, assim o Philip Roth, que é um autor que eu amo, e o Ian McEwan… mas eu gostaria mesmo de ter escrito algumas coisas dos autores mais antigos que são bem mais folhetinescos. Eu gostaria de ter escrito “Crime e Castigo” do Dostoievski e eu acho que eu gostaria de ter escrito todos os livros do Eça. Eu gostaria de ter escrito “Os Maias”, “O Crime do Padre Amaro”, “A Relíquia”, porque o que eu acho incrível no Eça e no Dostoievski, é que eles escrevem coisas que são uma literatura gostosa mas com temas muito difíceis. O Eça n’“Os Maias” escreve sobre o incesto; imagina alguém a escrever naquela época sobre isso que até hoje é difícil de se escrever. E também o “Crime e Castigo” que é um livro que é um folhetim, foi escrito em capítulos num jornal. E esse livro, eu acho que foi uma das coisas mais lindas que foram escritas. Trata sobre as culpas que a gente carrega: se você sabe que fez uma coisa que você acha que não é correcta, você pode estar absolvido para o mundo, você pode nunca ser descoberto, como é o caso no “Crime e Castigo” mas você chega num ponto em que você não consegue viver com aquilo. E esta questão da culpa lembra-me estes temas da guerra: o comportamento dos alemães durante a guerra, das pessoas que fizeram delações, que denunciaram um vizinho… como elas vivem com essas culpas? Vou escrever um próximo livro que tem a ver com isso…
CD: Então e esse próximo livro, como vai ser?
LV: Pois o próximo livro, que já está assim embrionário, é um livro que também tem a ver com a Segunda Guerra e que vai andar à volta dos judeus húngaros que foi um massacre de mais de 400.000 judeus mortos em 1944 em Auschvitz, dos quais a maior parte era de origem húngara. E isso aconteceu quando a guerra já estava perdida para a Alemanha e isso é uma coisa que não dá para entender… Eu vou escrever no mesmo estilo e ao mesmo ritmo; a personagem central é, na verdade, uma mulher que tem um bebé em Auschvitz e aí eu vou também trabalhar com outro personagem histórico que é uma senhora polaca que fazia partos em Auschvitz, ela tem até um processo de canonização. Eu descobri esta senhora parteira por acaso. Ela é uma personagem que vai funcionar neste novo livro um pouco como o Aristides neste meu livro actual – provavelmente vai acontecer a mesma coisa; ela vai passar pelo livro; mas o ponto de partida vai ser ela para eu chegar a essa história do bebé que nasceu. Ela marcava as crianças e aí marcou também esta menina que é filha de pai judeu e iremos ter também um romance de um soldado alemão com a mãe dessa criança e, enfim, já vai ter uma história também assim…
CD: Muito obrigada pela sua disponibilidade! Fico então à espera do próximo romance!
sábado, 9 de janeiro de 2016
Na minha caixa de correio
Capitãs de Abril e A Modista ganhei no Liga e Ganha.
A Chave de Dante veio do Clube dos Passatempos.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
De Amor e Sangue de Lesley Pearse
Há quem escreva muito bem. Umas vezes com uma escrita bonita e fluida, outras, mais intricada chegando ao ponto de não ser entendida por todos os leitores. Umas atraem, outras enfadam. Ambas bem escritas mas diferentes.
Considero que Lesley Pearse escreve bem. Que faz parte do primeiro grupo de autores que mencionei. A história, sempre bem contextualizada, apaixona o leitor e leva-o para muitas viagens, para caminhos e mundos desconhecidos. Adoro quando isso me acontece! As muitas páginas (662) parecem poucas porque são lidas rapidamente e os lugares são-nos reais, os odores infiltram-se no nariz, o barulho torna-se audível. Ja não estamos "aqui" mas vamos para "lá"!
Se ficasse por aqui, já esta leitura teria valido a pena. E muito. Mas há mais. Quando corre uma lágrima, sorrateira e inesperada, dos meus olhos então sei que a escrita tocou o meu coração. Se isso faz diferença? Faz TODA a diferença! Faz querer pegar nos livros dela que cá tenho na estante e devorá-los de imediato. Sim, porque se trata de devorar uma leitura, aquilo que estou a falar. E isso sabe tão, mas tão, bem!
A história? Vão ter de ler mesmo. Porque não a saberia reproduzir em poucas palavras e também não quero contar-vos praticamente nada. O local? Inglaterra, ano 1832 e seguintes.
E se querem um conselho não leiam a sinopse. Deixem-se levar, peguem no livro e leiam. Vai valer a pena!
Terminado em de Novembro de 2015
Estrelas: 5*+ (6*?, acho que sim!)
Sinopse
Somerset, 1836.
A recém-nascida Hope é a prova viva do adultério da mãe, a aristocrata Lady Harvey. A sua chegada a este mundo não é festejada e as lágrimas em seu redor não são de alegria. Imediatamente arrancada àquele meio privilegiado e entregue nas mãos dos Renton, uma família pobre mas acolhedora, Hope cresce sem saber a verdade sobre as suas origens. E quando chega o dia em que também ela tem de começar a contribuir para o sustento da família, é precisamente para os Harvey que trabalha. Deslumbrada perante a mansão luxuosa, a elegância dos seus patrões e a beleza que os rodeia, Hope enfrenta com brio e gratidão a extenuante rotina de trabalho.
Mas a descoberta de uma ligação proibida vai lançá-la sozinha para as ruas, para uma vida de miséria e solidão. É na adversidade, porém, que descobre uma força interior que desconhecia, bem como um talento para ajudar os mais fracos. Trata-se de um dom que não passa despercebido ao Dr. Bennett, que a leva consigo para a Crimeia, para ajudar a tratar dos feridos vindos dos sangrentos campos de batalha. Mas os segredos do passado teimam em vir ao de cima, e Hope tem ainda um longo caminho a percorrer na tentativa de enfrentar o legado do seu nascimento.
Considero que Lesley Pearse escreve bem. Que faz parte do primeiro grupo de autores que mencionei. A história, sempre bem contextualizada, apaixona o leitor e leva-o para muitas viagens, para caminhos e mundos desconhecidos. Adoro quando isso me acontece! As muitas páginas (662) parecem poucas porque são lidas rapidamente e os lugares são-nos reais, os odores infiltram-se no nariz, o barulho torna-se audível. Ja não estamos "aqui" mas vamos para "lá"!
Se ficasse por aqui, já esta leitura teria valido a pena. E muito. Mas há mais. Quando corre uma lágrima, sorrateira e inesperada, dos meus olhos então sei que a escrita tocou o meu coração. Se isso faz diferença? Faz TODA a diferença! Faz querer pegar nos livros dela que cá tenho na estante e devorá-los de imediato. Sim, porque se trata de devorar uma leitura, aquilo que estou a falar. E isso sabe tão, mas tão, bem!
A história? Vão ter de ler mesmo. Porque não a saberia reproduzir em poucas palavras e também não quero contar-vos praticamente nada. O local? Inglaterra, ano 1832 e seguintes.
E se querem um conselho não leiam a sinopse. Deixem-se levar, peguem no livro e leiam. Vai valer a pena!
Terminado em de Novembro de 2015
Estrelas: 5*+ (6*?, acho que sim!)
Sinopse
Somerset, 1836.
A recém-nascida Hope é a prova viva do adultério da mãe, a aristocrata Lady Harvey. A sua chegada a este mundo não é festejada e as lágrimas em seu redor não são de alegria. Imediatamente arrancada àquele meio privilegiado e entregue nas mãos dos Renton, uma família pobre mas acolhedora, Hope cresce sem saber a verdade sobre as suas origens. E quando chega o dia em que também ela tem de começar a contribuir para o sustento da família, é precisamente para os Harvey que trabalha. Deslumbrada perante a mansão luxuosa, a elegância dos seus patrões e a beleza que os rodeia, Hope enfrenta com brio e gratidão a extenuante rotina de trabalho.
Mas a descoberta de uma ligação proibida vai lançá-la sozinha para as ruas, para uma vida de miséria e solidão. É na adversidade, porém, que descobre uma força interior que desconhecia, bem como um talento para ajudar os mais fracos. Trata-se de um dom que não passa despercebido ao Dr. Bennett, que a leva consigo para a Crimeia, para ajudar a tratar dos feridos vindos dos sangrentos campos de batalha. Mas os segredos do passado teimam em vir ao de cima, e Hope tem ainda um longo caminho a percorrer na tentativa de enfrentar o legado do seu nascimento.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
A escolha do Jorge
AS MELHORES LEITURAS DE AUTORES PORTUGUESES 2015
(conto, novela e romance)
1.
“A NOIVA DO TRADUTOR”
JOÃO REIS
(COMPANHIA DAS ILHAS)
2.
“ATÉ PARA O ANO EM JERUSALÉM”
MARIA DA CONCEIÇÃO CALEIRO
(COMPANHIA DAS ILHAS)
3.
“DE RE RUSTICA”
H. G. CANCELA
(EDIÇÕES AFRONTAMENTO)
Os demais títulos apresentam-se por ordem alfabética
Boas leituras!
Jorge Navarro
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
"Quando Hitler Roubou a Coelho Cor-de-Rosa" de Judith Kerr
Comecei este livro no último dia do ano passado e acabei-o dia 1de Janeiro. Porquê esta escolha quando tenho aqui tantos em espera? Estava deveras curiosa com este livro. A capa é muito apelativa também! É um livro para uma faixa etária que ronda os oito/dez anos, julgo eu, e esperava com esta leitura perceber se realmente o livro estaria adequado para um público mais jovem e como é que se aborda um tema tão pesado.
Gostei muito. Li com prazer muito embora o discurso da autora fosse dirigido ao público mais jovem. A história, baseada na vida de Judith Kerr, é-nos contada através e pela Anna, uma menina alemã-judia de dez anos, que vê a sua vida virada do avesso quando seu pai decide fugir da Alemanha e refugiar-se na Suíça ainda antes da eleição que levou Hitler ao poder... Jornalista e escritor, com ideias anti-nazis muito fortes, seu pai num rasgo que muitos acharam exagerado, decidiu partir quando foi avisado que pretendiam tirar-lhe o passaporte.
Anna, seu irmão e pais vivem então quase dois anos entre a Suíça e França, tentando sobreviver com o pouco dinheiro que seu pai ganha escrevendo artigos para os jornais.
Uma abordagem muito real (visto que se baseou na vida da autora), com uma escrita dirigida a um leitor jovem mas que consegue captar a atenção de uma faixa etária mais velha. Explica admiravelmente o que se passou nessa época, de que forma Hitler apertava o cerco cada vez mais, através dos olhos e da inocência de uma criança.
O único senão que encontrei é que faria todo o sentido continuar esta história num outro livro, visto que Anna e sua família partem, no final, para Inglaterra para tentarem recomeçar de novo a vida depois de quase dois anos em França mas não tenho conhecimento que exista qualquer seguimento desta história...
Se procuram um livro divertido e com a inocência própria dos 8/10 anos mas que, ao mesmo tempo, aborda ao de leve uma temática que todos devem tomar conhecimento (a subida de Hitler ao poder e as mudanças que daí advieram), encontraram-no. Ele é perfeito!
Terminado em 1 de Janeiro de 2016
Estrelas: 5*
Sinopse
Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa é uma das obras mais lidas por jovens de todo o mundo. Considerada um clássico da literatura juvenil, e inspirada na vida da própria autora, fala-nos da Segunda Guerra Mundial numa nova perspetiva e até com algum humor.
Vive-se o ano de 1933. Anna tem apenas nove anos e anda demasiado ocupada com a escola e com os amigos para reparar nos cartazes políticos espalhados pela cidade de Berlim com a suástica nazi e a fotografia de Adolf Hitler, o homem que muito em breve mudaria a face da Europa. Ser judeu, pensa ela, é apenas algo que somos porque os nossos pais e avós são judeus.
Mas um dia o pai dela desaparece inexplicavelmente. E, pouco tempo depois, ela e o irmão, Max, são levados pela mãe com todo o sigilo para fora da Alemanha, deixando para trás a sua casa, os amigos e os amados brinquedos. Reunida na Suíça, a família de Anna embarca numa aventura que vai durar anos.
Gostei muito. Li com prazer muito embora o discurso da autora fosse dirigido ao público mais jovem. A história, baseada na vida de Judith Kerr, é-nos contada através e pela Anna, uma menina alemã-judia de dez anos, que vê a sua vida virada do avesso quando seu pai decide fugir da Alemanha e refugiar-se na Suíça ainda antes da eleição que levou Hitler ao poder... Jornalista e escritor, com ideias anti-nazis muito fortes, seu pai num rasgo que muitos acharam exagerado, decidiu partir quando foi avisado que pretendiam tirar-lhe o passaporte.
Anna, seu irmão e pais vivem então quase dois anos entre a Suíça e França, tentando sobreviver com o pouco dinheiro que seu pai ganha escrevendo artigos para os jornais.
Uma abordagem muito real (visto que se baseou na vida da autora), com uma escrita dirigida a um leitor jovem mas que consegue captar a atenção de uma faixa etária mais velha. Explica admiravelmente o que se passou nessa época, de que forma Hitler apertava o cerco cada vez mais, através dos olhos e da inocência de uma criança.
O único senão que encontrei é que faria todo o sentido continuar esta história num outro livro, visto que Anna e sua família partem, no final, para Inglaterra para tentarem recomeçar de novo a vida depois de quase dois anos em França mas não tenho conhecimento que exista qualquer seguimento desta história...
Se procuram um livro divertido e com a inocência própria dos 8/10 anos mas que, ao mesmo tempo, aborda ao de leve uma temática que todos devem tomar conhecimento (a subida de Hitler ao poder e as mudanças que daí advieram), encontraram-no. Ele é perfeito!
Terminado em 1 de Janeiro de 2016
Estrelas: 5*
Sinopse
Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa é uma das obras mais lidas por jovens de todo o mundo. Considerada um clássico da literatura juvenil, e inspirada na vida da própria autora, fala-nos da Segunda Guerra Mundial numa nova perspetiva e até com algum humor.
Vive-se o ano de 1933. Anna tem apenas nove anos e anda demasiado ocupada com a escola e com os amigos para reparar nos cartazes políticos espalhados pela cidade de Berlim com a suástica nazi e a fotografia de Adolf Hitler, o homem que muito em breve mudaria a face da Europa. Ser judeu, pensa ela, é apenas algo que somos porque os nossos pais e avós são judeus.
Mas um dia o pai dela desaparece inexplicavelmente. E, pouco tempo depois, ela e o irmão, Max, são levados pela mãe com todo o sigilo para fora da Alemanha, deixando para trás a sua casa, os amigos e os amados brinquedos. Reunida na Suíça, a família de Anna embarca numa aventura que vai durar anos.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
A Convidada Escolhe: O Dia Em Que Estaline Encontrou Picasso na Biblioteca
Há muito que conhecia a mestria de Alice Brito no manejo da palavra, na forma de escolher as palavras certas para expor ideias ou exprimir opiniões, nunca neutras. Não havia, no entanto, lido ainda o seu primeiro livro "As Mulheres da Fonte Nova", aclamado de forma generalizada como uma entrada brilhante no romance, quando me foi oferecido este seu segundo romance.
O título escolhido para a obra, provocatório e a que é impossível ficar-se indiferente, faz jus ao livro à medida que se vai entrando na sua leitura. A história da Europa, do pensamento e das ideias políticas que percorrem o século XX e que vão até aos nossos dias, marcados pela arrogância do neoliberalismo são o pano de fundo deste romance. Há vários planos temporais onde desfilam diferentes personagens formando um painel de figuras que ajudam a contar a história de várias gerações de uma família. Esses planos entrelaçam-se desvendando até ao final um percurso de acontecimentos, de escolhas, de conflitos.
Setúbal, a cidade natal da autora, é o ponto de partida do romance, com o nascimento de Juan em 1921. Até chegarmos a Dulce, a professora de Educação Visual colocada em Setúbal, na altura da crise das dívidas soberanas em 2008, vamos descobrir os fios que ligam este avô anarquista à jovem professora com um talento para a pintura, traço persistente na família, desde a bisavó. Setúbal é ponto de partida e também de chegada, mas, entretanto, passamos pela Galiza, por Barcelona, por Tarragona, Lisboa, Porto, Paris e Beja. À medida que a história vai sendo contada, vamos entrando nos diferentes ambientes, desde uma Setúbal pobre, no início do século passado, onde as mulheres anseiam por ser modistas, ou costureiras ou regentes escolares em vez da dureza do trabalho nas fábricas do peixe e onde aparece a classe operária a reivindicar a jornada de oito horas de trabalho; até à Barcelona triunfante e ufana da sua modernidade patente em 1929 no ano da exposição internacional onde a novidade da luz eléctrica se vai impor; a crueza da guerra civil em Espanha e as referências às disputas entre os vários grupos que na Europa lutavam contra o ascenso do fascismo ; a cidade de Paris do pós-guerra fervilhando de nomes que marcaram a cultura e as artes do século passado como Piazzola, Portinari, Sartre ou Camus; os ambientes da clandestinidade em Portugal, em que o rigor da disciplina e do cumprimento das tarefas impedia qualquer laivo de emoção ou de sentimentalismo ou de direito à individualidade; ou o peso do conservadorismo e da ideologia salazarista que se alimentou por décadas do preconceito, do medo e das aparências.
A Setúbal e a sociedade portuguesa actual são-nos apresentadas através de Dulce e do grupo de amigos que fazem parte do seu quotidiano, em especial David, homem de esquerda, atento e interessado ao que se passa no mundo e na sociedade, cuja formação e intervenção cívica vai beber à luta pela democracia em Portugal. Muito frequentes as referências à comida e, sobretudo, à simplicidade e sabor da cozinha alentejana como espaço privilegiado de convívio e relacionamento entre Dulce e os amigos.
Desfilam neste romance vários tipos de personagens como as criadas, os bêbados, as modistas, os chulos, as prostitutas, os agressores, a PIDE, a GNR. A narradora que é muito presente ao longo do romance não dispensa fazer comentários, àpartes muito pessoais, toma partido, invectiva e pune os "maus" e não tem contemplações nem faz "rodriguinhos" com a linguagem, usando o vernáculo com tanto à vontade como a linguagem mais erudita ou coloquial.
Este é naturalmente um livro em que a investigação histórica está muito presente e é marcadamente político: o fascismo não é ignorado nem poupado, assim como os abusos e os crimes que se cometeram em nome de ideias que arvoravam a defesa do povo e da humanidade. A história está repleta de momentos de autodestruição, a grandes mudanças sociais que se seguem às "revoluções" para logo se regressar a uma "normalidade" com o regresso das mulheres ao lar, às comidas, aos cuidados e ao arranjo das coisas da casa. Aos avanços e às conquistas segue-se uma aparente acalmia das classes que momentaneamente perderam o pé, para logo que possível reganharem o terreno perdido. Se por um lado nos é apresentada uma perspectiva da evolução social, o livro termina num momento particularmente difícil e sem perspectivas, com a finança a decidir cegamente sobre as nossas vidas.
Para terminar, e em jeito de síntese, depois da leitura deste livro impõe-se "As Mulheres da Fonte Nova". Certamente não me arrependerei.
Almerinda Bento
O título escolhido para a obra, provocatório e a que é impossível ficar-se indiferente, faz jus ao livro à medida que se vai entrando na sua leitura. A história da Europa, do pensamento e das ideias políticas que percorrem o século XX e que vão até aos nossos dias, marcados pela arrogância do neoliberalismo são o pano de fundo deste romance. Há vários planos temporais onde desfilam diferentes personagens formando um painel de figuras que ajudam a contar a história de várias gerações de uma família. Esses planos entrelaçam-se desvendando até ao final um percurso de acontecimentos, de escolhas, de conflitos.
Setúbal, a cidade natal da autora, é o ponto de partida do romance, com o nascimento de Juan em 1921. Até chegarmos a Dulce, a professora de Educação Visual colocada em Setúbal, na altura da crise das dívidas soberanas em 2008, vamos descobrir os fios que ligam este avô anarquista à jovem professora com um talento para a pintura, traço persistente na família, desde a bisavó. Setúbal é ponto de partida e também de chegada, mas, entretanto, passamos pela Galiza, por Barcelona, por Tarragona, Lisboa, Porto, Paris e Beja. À medida que a história vai sendo contada, vamos entrando nos diferentes ambientes, desde uma Setúbal pobre, no início do século passado, onde as mulheres anseiam por ser modistas, ou costureiras ou regentes escolares em vez da dureza do trabalho nas fábricas do peixe e onde aparece a classe operária a reivindicar a jornada de oito horas de trabalho; até à Barcelona triunfante e ufana da sua modernidade patente em 1929 no ano da exposição internacional onde a novidade da luz eléctrica se vai impor; a crueza da guerra civil em Espanha e as referências às disputas entre os vários grupos que na Europa lutavam contra o ascenso do fascismo ; a cidade de Paris do pós-guerra fervilhando de nomes que marcaram a cultura e as artes do século passado como Piazzola, Portinari, Sartre ou Camus; os ambientes da clandestinidade em Portugal, em que o rigor da disciplina e do cumprimento das tarefas impedia qualquer laivo de emoção ou de sentimentalismo ou de direito à individualidade; ou o peso do conservadorismo e da ideologia salazarista que se alimentou por décadas do preconceito, do medo e das aparências.
A Setúbal e a sociedade portuguesa actual são-nos apresentadas através de Dulce e do grupo de amigos que fazem parte do seu quotidiano, em especial David, homem de esquerda, atento e interessado ao que se passa no mundo e na sociedade, cuja formação e intervenção cívica vai beber à luta pela democracia em Portugal. Muito frequentes as referências à comida e, sobretudo, à simplicidade e sabor da cozinha alentejana como espaço privilegiado de convívio e relacionamento entre Dulce e os amigos.
Desfilam neste romance vários tipos de personagens como as criadas, os bêbados, as modistas, os chulos, as prostitutas, os agressores, a PIDE, a GNR. A narradora que é muito presente ao longo do romance não dispensa fazer comentários, àpartes muito pessoais, toma partido, invectiva e pune os "maus" e não tem contemplações nem faz "rodriguinhos" com a linguagem, usando o vernáculo com tanto à vontade como a linguagem mais erudita ou coloquial.
Este é naturalmente um livro em que a investigação histórica está muito presente e é marcadamente político: o fascismo não é ignorado nem poupado, assim como os abusos e os crimes que se cometeram em nome de ideias que arvoravam a defesa do povo e da humanidade. A história está repleta de momentos de autodestruição, a grandes mudanças sociais que se seguem às "revoluções" para logo se regressar a uma "normalidade" com o regresso das mulheres ao lar, às comidas, aos cuidados e ao arranjo das coisas da casa. Aos avanços e às conquistas segue-se uma aparente acalmia das classes que momentaneamente perderam o pé, para logo que possível reganharem o terreno perdido. Se por um lado nos é apresentada uma perspectiva da evolução social, o livro termina num momento particularmente difícil e sem perspectivas, com a finança a decidir cegamente sobre as nossas vidas.
Para terminar, e em jeito de síntese, depois da leitura deste livro impõe-se "As Mulheres da Fonte Nova". Certamente não me arrependerei.
Almerinda Bento
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
"Eu fui a Espia Que Amou o Comandante" de Marita Lorenz
Um dos géneros que gosto de ler são auto-biografias. Sou cusca mesmo! Gosto de saber um pouco da vida que tiveram e daquilo que querem partilhar com o leitor.
Mesmo sem querer e não fazendo quaisquer juízos de valor, não pude deixar de me impressionar com a vida que a autora teve. "Fogo!" Parece que nem sequer teve tempo de respirar tal é a sucessão de acontecimentos em que se vê metida! Alguns por falta de ponderação, creio, mas outros completamente fora do seu poder de decisão. A começar logo quando criança, quando se vé sozinha no campo de concentração de Bergen-Belsen.
Filha (a mais nova) de pai alemão e mãe americana, nascida em 1939, sentiu desde cedo os horrores da guerra. A mãe foi sempre o seu pilar, a sua segurança, mas mesmo ela não conseguiu impedir que fosse violada aos 7 anos. Amante de Fidel Castro, de quem teve um filho que lhe foi roubado à nascença, teve uma vida de luxos mas também de muita miséria. Mas isso foi só o começo de uma vida muito atribulada e de muitos excessos também. Amou e sofreu muito.
A sua vida dava realmente um filme. Creio que de horror por tudo o que passou. Uma vida que vale a pena ler. Um livro que se lê como um romance e que é, também, uma lição de vida e de História. Gostei muito.
Terminado em 30 de Dezembro de 2015
Estrelas: 5* (se é que se pode classificar uma auto-biografia...)
Sinopse
São poucas as pessoas que podem dizer que viram passar uma parte importante da história do século xx ante os seus próprios olhos. Não como meros espectadores, mas quase que a devorando. Marita Lorenz é uma delas... um grupo de barbudos, encabeçado por Fidel Castro, subiu a bordo. Foi amor à primeira vista. Uma semana depois, el Comandante mandava buscá-la a Nova Iorque e fazia dela sua amante.i
Mesmo sem querer e não fazendo quaisquer juízos de valor, não pude deixar de me impressionar com a vida que a autora teve. "Fogo!" Parece que nem sequer teve tempo de respirar tal é a sucessão de acontecimentos em que se vê metida! Alguns por falta de ponderação, creio, mas outros completamente fora do seu poder de decisão. A começar logo quando criança, quando se vé sozinha no campo de concentração de Bergen-Belsen.
Filha (a mais nova) de pai alemão e mãe americana, nascida em 1939, sentiu desde cedo os horrores da guerra. A mãe foi sempre o seu pilar, a sua segurança, mas mesmo ela não conseguiu impedir que fosse violada aos 7 anos. Amante de Fidel Castro, de quem teve um filho que lhe foi roubado à nascença, teve uma vida de luxos mas também de muita miséria. Mas isso foi só o começo de uma vida muito atribulada e de muitos excessos também. Amou e sofreu muito.
A sua vida dava realmente um filme. Creio que de horror por tudo o que passou. Uma vida que vale a pena ler. Um livro que se lê como um romance e que é, também, uma lição de vida e de História. Gostei muito.
Terminado em 30 de Dezembro de 2015
Estrelas: 5* (se é que se pode classificar uma auto-biografia...)
Sinopse
São poucas as pessoas que podem dizer que viram passar uma parte importante da história do século xx ante os seus próprios olhos. Não como meros espectadores, mas quase que a devorando. Marita Lorenz é uma delas... um grupo de barbudos, encabeçado por Fidel Castro, subiu a bordo. Foi amor à primeira vista. Uma semana depois, el Comandante mandava buscá-la a Nova Iorque e fazia dela sua amante.i
domingo, 3 de janeiro de 2016
" A Menina Pé-de-Vento" de Fernando Rui Maria
Comecei o ano a ler um livro juvenil. Sabia que este se seguiria tanto mais que vos queria falar um pouco da apresentação do "A Menina Pé-de-Vento" que teve lugar na Junta de Freguesia da Portela em 29 de Novembro, que assisti com muito gosto.
Com a casa cheia (MESMO!), cheia de amigos de longa data, foi com prazer que assisti, num alegre convívio, a esta apresentação. Uma pequena leitura feita por uma das filhas do Fernando (estiveste muito bem Joana, como sempre!) com a colaboração de alguns dos presentes, uma cómica performance de um ilusionista amigo com o sorteio de um livro, foram alguns dos momentos bem passados com que o autor brindou a plateia.
Um conto que se lê rapidamente, com ilustrações do autor, representativas dos vários momentos da história de uma rajada de vento que, cansada de estar sozinha, se apoderou do corpo de uma bébé recém nascida. A menina, mal abria a sua boquinha, soprava um forte vento que tudo levava atrás...
Uma história para ser lida e contada aos mais pequenos. Parabéns Fernando! Continua. Sei que a segunda edição já vem a caminho... Que este ano te traga novos projectos!
Ficam então as fotos:
Com a casa cheia (MESMO!), cheia de amigos de longa data, foi com prazer que assisti, num alegre convívio, a esta apresentação. Uma pequena leitura feita por uma das filhas do Fernando (estiveste muito bem Joana, como sempre!) com a colaboração de alguns dos presentes, uma cómica performance de um ilusionista amigo com o sorteio de um livro, foram alguns dos momentos bem passados com que o autor brindou a plateia.
Um conto que se lê rapidamente, com ilustrações do autor, representativas dos vários momentos da história de uma rajada de vento que, cansada de estar sozinha, se apoderou do corpo de uma bébé recém nascida. A menina, mal abria a sua boquinha, soprava um forte vento que tudo levava atrás...
Uma história para ser lida e contada aos mais pequenos. Parabéns Fernando! Continua. Sei que a segunda edição já vem a caminho... Que este ano te traga novos projectos!
Ficam então as fotos:
sábado, 2 de janeiro de 2016
Na minha caixa de correio
Se Não Agora, Quando? foi comprado com um vale Fnac.
O Passo Constante das Horas foi comprado numa loja Cash Converters por menos de metade do preço.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Os Melhores de 2015
Não li muito este ano. Sessenta e tal livros, uma mēdia de cinco por mês. Tenho de me organizar melhor! Anos houve que quase dobrava esse número por mês... Tenho tantos na estante que precisava MESMO de ter umas horinhas extras de leitura diária.
Para terminar o ano ficam aqui as leituras a que atribuí 6 estrelas e os respectivos links para as minhas opiniões:
"O Último Adeus" de Kate Norton, 615 pág. - 6*
"Peregrino" de Terry Hayes, 655 pág. - 6*
"A História Secreta" de Donna Tartt, 542 pág. - 6*
"Hanns e Rudolf" de Thomas Harding, 343 pág. - 6*
"A Eterna Demanda" de Pearl S. Buck, 297 pág. - 6*
"Os Muitos Nomes do Amor" de Dorothy Koomson, 468 pág. -6*
"O Diário de Helga" de Helga Weiss, 213 pág. - 6*
"Fuga de Auschwitz" de Joel C. Rosenberg, 427 paág. - 6*
"Comédia em Modo Menor" de Hans Keilson, 125 pág. - 6*
"Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho, 447 pág. - 6*
"O Dia Em Que Estaline Encontrou Picasso na Biblioteca" de Alice Brito, 363 pág - 6*
"Últimos Ritos" de Hannah Kent, 319 pág. -6*
Para terminar o ano ficam aqui as leituras a que atribuí 6 estrelas e os respectivos links para as minhas opiniões:
"O Último Adeus" de Kate Norton, 615 pág. - 6*
"Peregrino" de Terry Hayes, 655 pág. - 6*
"A História Secreta" de Donna Tartt, 542 pág. - 6*
"Hanns e Rudolf" de Thomas Harding, 343 pág. - 6*
"A Eterna Demanda" de Pearl S. Buck, 297 pág. - 6*
"Os Muitos Nomes do Amor" de Dorothy Koomson, 468 pág. -6*
"O Diário de Helga" de Helga Weiss, 213 pág. - 6*
"Fuga de Auschwitz" de Joel C. Rosenberg, 427 paág. - 6*
"Comédia em Modo Menor" de Hans Keilson, 125 pág. - 6*
"Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho, 447 pág. - 6*
"O Dia Em Que Estaline Encontrou Picasso na Biblioteca" de Alice Brito, 363 pág - 6*
"Últimos Ritos" de Hannah Kent, 319 pág. -6*
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Calhamaços para ler em 2016
Com tanta gente a fazer listas do que querem ler em 2016, deu-me uma súbita vontade de ir às minhas estantes dos "livros a ler" e escolher alguns que vão ficando para trás por serem um pouco obesos!
Se conseguir ler 1 livro destes por mês ficarei contente! Aqui os apresento. São livros que quero muito ler. Paralelamente fui seleccionando alguns mais elegantes e coloquei-os, de igual modo, de parte. Quem sabe?
De baixo para cima:
1) Ver: Amor de David Grossman
2) O Imperador das Mentiras de Steve Sem-Sandberg
3) Americanah de Chimamanda Ngozi Adichie
4) Suite Francesa de Irène Nemirovsky
5) As Serviçais de Kathryn Stockett
6) O tempo Entre Costuras de Maria Duenas
7) Agridoce de Colleen McCullough
8) Dispara, Eu Já Estou Morto de Julia Navarro
9) O Livro do Destino de Parinoush Saniee
10) A República dos Sonhos de Nélida Piñon
11) Maximum City de Suketu Mehta
12) Arquipélago de Joel Neto
A técnica consiste em colocar um por mês na minha mesinha de cabeceira para, nun ataque de vergonha (lol), pegar nele e devorá-lo...
Bom Ano a todos!
Se conseguir ler 1 livro destes por mês ficarei contente! Aqui os apresento. São livros que quero muito ler. Paralelamente fui seleccionando alguns mais elegantes e coloquei-os, de igual modo, de parte. Quem sabe?
De baixo para cima:
1) Ver: Amor de David Grossman
2) O Imperador das Mentiras de Steve Sem-Sandberg
3) Americanah de Chimamanda Ngozi Adichie
4) Suite Francesa de Irène Nemirovsky
5) As Serviçais de Kathryn Stockett
6) O tempo Entre Costuras de Maria Duenas
7) Agridoce de Colleen McCullough
8) Dispara, Eu Já Estou Morto de Julia Navarro
9) O Livro do Destino de Parinoush Saniee
10) A República dos Sonhos de Nélida Piñon
11) Maximum City de Suketu Mehta
12) Arquipélago de Joel Neto
A técnica consiste em colocar um por mês na minha mesinha de cabeceira para, nun ataque de vergonha (lol), pegar nele e devorá-lo...
Bom Ano a todos!
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
A Escolha do Jorge: As Melhores Leituras de Autores Estrangeiros de 2015
http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.pt/2015/07/a-escolha-do-jorge-contos-hungaros.html
2. “O VISITANTE REAL” – HENRIK PONTOPPIDAN (Estúdios Cor):
3. “O CAVALEIRO SUECO” – LEO PERUTZ (Cavalo de Ferro):
http://otempoentreosmeuslivros.blogspot.pt/2015/12/a-escolha-do-jorge-o-cavaleiro-sueco.html
Os demais títulos apresentam-se por ordem alfabética
Boas leituras!
Os demais títulos apresentam-se por ordem alfabética
Boas leituras!
"Talismã" de Mário Zambujal
Como são divertidos os livros de Mário Zambujal! E como é alegre a sua escrita!
Sou fã deste autor português. O seu discurso difere em muito daquele que habitualmente leio nos livros que escolho, mas é talvez por isso mesmo que me divirto tanto a ler o que escreve. As suas histórias estão cheias de personagens rocambolescos, com carisma. Com uma escrita cheia de humor, que predispõe muito bem e que faz rir, Mário Zambujal inventou, desta vez, uma história com peripécias sem fim vividas por Pablo Silva, um galego-português, que nos poucos dias em que a história se passa, consegue colocar-nos num verdadeiro sufoco tal é a intensidade da narrativa e tais são os acontecimentos por ele vividos!
Entre bordéis, empresas falidas e por falir, mauzões e gorilas guarda-costas, menina que, tal Cinderela, perde o sapato nos Santos Populares, tiros e roubos, talismãs que dão sorte (ou azar?), somos confrontados com uma sucessão de acontecimentos que não nos dão descanso mas que ao mesmo tempo são extremamente divertidos.
Um livro que se lê num ápice, num bocado de uma tarde e que aconselho vivamente caso não conheçam a escrita deste autor! Estou pronta para o próximo, Mário! Espero que esteja já a caminho...
Terminado em 28 de Dezembro de 2015
Estrelas: 5*
Sinopse
A vida de Pablo Luís Martinez da Silva teve início turbulento. Por pouco não chegava atrasado ao parto na Galiza, vontade de sua mãe, dona Maria Xosé. Foi o prenúncio de uma cadeia de acontecimentos que ele definia como "a desordem natural das coisas". Entre desencontros e encontros sentimentais, enreda-se em trabalhos de alto risco. Corre em busca de uma jovem loura que perdeu um sapato e foge de facínoras de calibre internacional.
Sou fã deste autor português. O seu discurso difere em muito daquele que habitualmente leio nos livros que escolho, mas é talvez por isso mesmo que me divirto tanto a ler o que escreve. As suas histórias estão cheias de personagens rocambolescos, com carisma. Com uma escrita cheia de humor, que predispõe muito bem e que faz rir, Mário Zambujal inventou, desta vez, uma história com peripécias sem fim vividas por Pablo Silva, um galego-português, que nos poucos dias em que a história se passa, consegue colocar-nos num verdadeiro sufoco tal é a intensidade da narrativa e tais são os acontecimentos por ele vividos!
Entre bordéis, empresas falidas e por falir, mauzões e gorilas guarda-costas, menina que, tal Cinderela, perde o sapato nos Santos Populares, tiros e roubos, talismãs que dão sorte (ou azar?), somos confrontados com uma sucessão de acontecimentos que não nos dão descanso mas que ao mesmo tempo são extremamente divertidos.
Um livro que se lê num ápice, num bocado de uma tarde e que aconselho vivamente caso não conheçam a escrita deste autor! Estou pronta para o próximo, Mário! Espero que esteja já a caminho...
Terminado em 28 de Dezembro de 2015
Estrelas: 5*
Sinopse
A vida de Pablo Luís Martinez da Silva teve início turbulento. Por pouco não chegava atrasado ao parto na Galiza, vontade de sua mãe, dona Maria Xosé. Foi o prenúncio de uma cadeia de acontecimentos que ele definia como "a desordem natural das coisas". Entre desencontros e encontros sentimentais, enreda-se em trabalhos de alto risco. Corre em busca de uma jovem loura que perdeu um sapato e foge de facínoras de calibre internacional.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
"O Homem de São Petersburgo" de Ken Follett
Comecei a ler este livro "às cegas". Não li a sinopse, não li comentários.
Mergulhei rapidamente em Inglaterra numa época antes da Primeira Guerra. O movimento das Sufragistas e as suas lutas, as actividades dos anarquistas, a educação dada às meninas pertencentes a uma nobreza rica e que vivia da aparência e que as mantinha na completa ignorância No que diz respeito quer ao sexo, como até como viviam os extratos sociais mais baixos, a toda uma política interna e internacional que se vivia na época, tudo está aqui bem caracterizado e com personagens muito credíveis.
Gostei muito do Epílogo. Insere o leitor, caso dúvidas houvesse, no contexto histórico e remata belissimamente com a vida das personagens e com o que lhes aconteceu. Tão bem que me levou a perguntar se elas não teriam realmente existido!
Recomendo muitíssimo esta leitura. Um livro que pode ser lido pelos amantes de thrillers, de romances históricos e de romances românticos também!
Terminado em 27 de Dezembro de 2015
Estrelas: 5*+
Sinopse
Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra prepara a defesa contra o Império Alemão. Ambos os oponentes precisam de se aliar à Rússia. O príncipe Orlof, sobrinho do czar Nicolau II, viaja para Londres, onde se encontra com Lorde Walden, casado com a sua tia Lydia. O anarquista russo Kschessinky segue-lhe no encalço. Nesta intrincada trama de interesses pessoais e políticos, ninguém prevê que Lydia reconheça Kschessinky, colocando em perigo a vida da sua filha Charlotte. Estas personagens jogam com o destino da Europa na antecâmara de um dos mais devastadores conflitos de sempre. Mais um romance empolgante de Ken Follett.
Para mais informações sobre este livro, ver Editorial Presença aqui.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
"Sobrevivi ao Holocausto" de Nanette Blitz Konig
Ainda fico perplexa ao verificar como quem sobreviveu ao Holocausto conseguiu recuperar as suas vidas e ler como essas pessoas conseguiram arranjar coragem para superar os seus traumas, leva-me a ler avidamente todos estes relatos vividos e sofridos pelos sobreviventes dessa carnificina!
Pouco tenho a acrescentar ao que tenho vindo a comentar sobre estes livros com esta temática. Sinto que tenho sempre de intercalar com algo mais fictício, até mesmo com romances mais leves, mas volto sempre a esta época pois nunca deixo de me surpreender e de me questionar como agiriamos nós se tivéssemos vivido aí... É que foram tantos a condenar, a julgar e a delatar! Nomes como Adolf Hitler, Irma Grese, Fritz Klein, Josef Kramer e Josef Mengele traduzem o que de pior o ser humano pode ser e fazer. Mas estas pessoas não agiram sozinhas. Como agiriamos nós se lá estivéssemos? Como agimos nós hoje para tantos problemas semelhantes?
Nanette Blitz Konig, vive hoje no Brasil. É Holandesa, tendo nascido em Amesterdão. Colega de Anne Frank, partilhou com ela alguns momentos terríveis em Bergen-Belsen. Tinha 16 anos quando foi libertada e pesava 31 kilos. A sua história é para ser partilhada, para que nunca o mundo esqueça o que se passou.
Fiquei surpresa quando Nanette refere o quando a posição do pai conseguiu "comprar" um lugar numa lista de judeus que eram menos maltratados do que os restantes. Basicamente essa posição de privilégio era praticamente nada mas isso fez toda a docefença para que ela pudesse aguentar um pouco mais... A ideia geral era que os judeus não eram nada e como " nada" se deveriam sentir.
Mas, mesmo depois da guerra ter terminado, a vida difícil não tinha acabado ainda. A Europa do pós-guerra não foi de todo cordial para com os sobreviventes e isso está retratado em todas as dificuldades que Nanette passou para conseguir uma vida estável e melhor. Sem estudos, sem dinheiro e sem saúde. Como tantos outros, Nanette teve de recomeçar quase do nada.
Leiam que vale a pena!
Terminado em 21 de Dezembro de 2015
Estrelas: 5*
Sinopse
Como sobreviver a um campo de concentração? Estaria essa sobrevivência condicionada ao acaso do destino? Em um emocionante relato, Nanette Blitz Konig conta a história de um período em que ela e milhões de judeus foram entregues à própria sorte com a mínima chance de sobrevivência. Colega de classe de Anne Frank no colégio, Nanette teve a juventude roubada e perdeu a crença na inocência humana quando esteve diante da morte diversas vezes – situações em que fora colocada em virtude da brutalidade incompreensível dos nazistas.
Hoje, aos 86 anos, Nanette vive no Brasil e expõe suas lembranças mais traumáticas aos leitores. As cenas vivenciadas por ela fizeram os mais experientes oficiais de guerra, acostumados a todos os horrores possíveis, chorarem ao tomar conhecimento. Em uma luta diária pela sobrevivência, Nanette deveria suportar o insuportável para manter-se viva. Através de um depoimento ao mesmo tempo sensível e brutal, ela questiona a capacidade de compaixão do ser humano, alertando o mundo sobre a necessidade urgente da tolerância entre os homens.
domingo, 27 de dezembro de 2015
Um Livro Numa Frase
(Imagem retirada da Net)
"O tempo não volta. O "se" é uma possibilidade que jamais se realizará."
In Luize Valente, Uma Praça Em Antuérpia, pág. 146
sábado, 26 de dezembro de 2015
Na minha caixa de correio
Dois livros que li já há algum tempo, que fui buscar às BLX, mas que gostava muito de ter na minha estante. Comprei com 40% de desconto. Ainda faltam Os Pilares da Terra, vol 1 e 2. Adorei estes livros. Fizeram-me fã de Ken Follett!
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
Boas Festas!
O Blogue O Tempo Entre os Meus Livros deseja a todos umas Festas Felizes e muita saúde!
(Estas bolas foram algumas das manualidades que me fizeram perder tempo e ler menos este mês, mas gosto muito de aprender coisinhas novas!)
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