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segunda-feira, 25 de maio de 2026

"Lavores de Ana" de Ana Cláudia Santos

Romance curto que se lê rapidamente e até me lembro de estar a gostar de o fazer mas, escrevendo a opinião passado já mais de um mês foi-me difícil recordar do que se tratou. Nada como a leitura das primeiras frases para me recordar das aventuras e vivências de Ana em Nápoles aquando da sua juventude. A liberdade vivida, um romance intenso, as conversas literárias, o sexo vivido sem culpas.

Escrito na primeira pessoa o livro relata-nos memórias passadas de um amor vivido e da transformação interior que essas vivências implicaram e reflexões intimas. Apercebemo-nos que o livro é o olhar de Ana sobre esse periodo vivido em Nápoles e o regresso a Lisboa.

A questão da maternidade também aqui é colocada. Os limites que o tempo traz no corpo duma mulher e as expectativas sociais relacionadas com este tema. "O tempo urge; os meses equivalem a anos. Com cada mulher nasce uma clepsidra. (...) Quantos ciclos me restam ainda?" pag 97/98

Quem é esta Ana que tem o mesmo nome da autora? Até que ponto a autora está aqui representada? Esta dúvida surge no leitor durante esta leitura mas, sinceramente, não lhe dei grande importância. O foco, creio eu, está na passagem dos anos, de uma jovem que acredita na liberdade absoluta para uma mulher que se vai apercebendo dos limites do tempo, do corpo e das expectativas sociais.

Li com gosto.

Terminado em 30 de Março de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
«Foi, até certa idade, a minha história: uma juventude fértil em paixões, sem Deus e sem pecado; a sensação de ser fêmea sempre presente; uma necessidade involuntária de seduzir; a volúpia de me ver sempre através de olhos diferentes. E o que hoje penso é que uma mulher pode fazer amor com quantos homens queira, contanto que não o faça por falta de amor-próprio.»

Nápoles e Lisboa. O fim da juventude e o começo da idade adulta. Uma mulher entre dois países e entre duas idades: assim é Ana, moderna nas liberdades do corpo e anacrónica no que lhe alimenta o espírito. Lavores de Ana, história de uma travessia, é também um divertimento: seduz o leitor com cenas entre amantes, passeios de motoreta no Verão meridional e vistas bucólicas para o Vesúvio; serve-se da mística da viagem, do louvor da feminilidade, da simplificação da liberdade; joga ardilosamente com a sobreposição dos nomes próprios de autora e narradora.

E, contudo, sabemos que autora e narradora não coincidem, que o delírio amoroso esbarra em famílias conservadoras ou na falta de dinheiro, que as festas pagãs não bastam para calar sermões de padres ou comentários de vizinhas. E sabemos que a liberdade, para as mulheres, tem o tempo contado. Não sabemos, no entanto, quem é Ana.

Auspiciosa estreia de Ana Cláudia Santos na ficção longa, Lavores de Ana equilibra-se magistralmente entre o clássico instantâneo e a condição volátil de um sonho inventado.

Cris

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