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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Escolha do Jorge: "Nós "


Evgueni Zamiatine (1884-1937) escreveu o romance “Nós” em 1920 tendo sido publicado pela primeira vez quatro anos mais tarde, nos EUA. Tratando-se de uma obra que põe diretamente em causa muitos dos princípios daquilo em que se veio tornar a URSS e o seu funcionamento, “Nós”, a obra mais emblemática de Zamiatine, foi somente publicada em russo em 1952, mas também nos EUA e somente viu a luz do dia na URSS, nos anos 80, depois da Perestroika, quando o regime comunista estava próximo do seu colapso.

Zamiatine conseguiu ter uma inspiração quase profética na redação deste livro na medida em que criou um Estado Totalitário com o nome de Estado Único sob a égide de um Benfeitor que tinha como objetivo a garantia de funcionamento, em harmonia, de toda a sociedade, matematicamente organizada como sendo a soma de todos os indivíduos que adquiriam gradualmente a consciência de serem um “Nós”. Esta organização social era conseguida através de um sistema de ética científica em que cada pessoa foi literalmente reduzida a um número.

A Guerra dos Duzentos Anos conduziu ao fim da sociedade contemporânea e do próprio Cristianismo levando à constituição do Estado Único que funciona como garantia da felicidade dos seus números sem que estes tenham de lutar para atingir esse fim. No Estado Único, os números, no seu conjunto, permite que essa felicidade seja alcançada através da implementação das Tábuas dos Mandamentos Horários que regulam as atividades diárias desde o dormir, levantar, trabalhar, fazer exercício físico, não esquecendo a regulação das relações sexuais que são estabelecidas entre os números.

Com a criação do Estado Único, dois problemas tiveram de ser eliminados de modo que os números pudessem atingir a plenitude da felicidade, a saber, a Fome e o Amor. Houve a necessidade que garantir as necessidades básicas alimentares da sociedade, ao passo que foi preciso eliminar toda e qualquer afetividade das relações entre os números deixando de haver o conceito de família (pai, mãe, irmãos, etc), sendo que estas relações passam a ser reguladas por uma sexualidade matematizada e controlada pelo Estado Único.

Fosse tudo tão simples como o acima descrito como controlar a natureza humana! Tudo correria bem se num Estado Único como este não existissem números que se rebelassem face ao poder e à ordem instituídosindependentemente dos castigos lhes possam vir a ser infligidos! Em “Nós” esse aspeto não é exceção, mas sem estar a contar mais detalhes deste livro obrigatório, fica a ideia de que os regimes autoritários por muito duradouros que possam ser, acabam por ter os seus dias contados mais não seja pelo desgaste e também por eventuais situações de rebelião, situações alargadas simultaneamente às democracias que, em muitas situações, têm os seus mecanismos de controlo da sociedade à conta de leis disfarçadas de liberdade que, poderão também desembocar em regimes totalitários e disso a História é testemunha atendendo ao que se seguiu com a Grande Depressão que desembocou na 2ª Guerra Mundial.

As voltas que a História tem dado ao longo do último século, umas vezes à esquerda, outras à direita, têm conduzido à constante instrumentalização do ser humano reduzindo-o cada vez mais a um objeto por parte do poder político instituído.

“Nós” de Evgueny Zamiatine permite-nos ficar alerta na qualidade de cidadãos de modo a podermos ler nas entrelinhas face a quaisquer tomadas de decisão do poder político a que estamos sujeitos.
Concluindo, esta obra constituiu uma forte influência em autores contemporâneos de Zamiatine, nomeadamente em Aldous Huxley comAdmirável Mundo Novo (1930), em George Orwell com 
“1984” (1948) eRay Bradbury com “Fahrenheit 451 (1953).


Excertos:

“Normalmente vivemos cada instante à vista de todos, sempre banhados em luz e cercados de paredes de vidro que parecem feitas de ar refulgente.Nada temos a esconder uns dos outros. Esta forma de viver, assim às claras, facilita a difícil e nobre missão dos guardas. Se assim não fosse, sabe-se lá o que podia acontecer. É muito possível que as habitações opacas dos antigos estejam na origem da sua triste psicologia celular. «A minha (sic) casa é a minha fortaleza»… De facto, eles puxavam muito pelo miolo!” (p. 33)
“Naturalmente, depois de ter dominado a Fome (uma vitória que foi o sinal algébrico = da soma das venturas externas), o Estado Único levou a cabo uma ofensiva contra o outro denominador do Universo, ou seja, o Amor. Este elemento acabou por ser derrotado, isto é, foi organizado, matematizado, e, cerca de trezentos anos depois, seria proclamada a nossa «Lex Sexualis»: Qualquer número tem o direito de utilizar qualquer outro número como produto sexual.» (p. 36)
“Qual é a coisa que os homens, desde o berço, pedem? A coisa com que sonham, com que se torturam a si próprios? Todos querem encontrar alguém que lhes diga de uma vez por todas o que é a felicidade… e que depois os amarre bem à felicidade, com cadeados. Não é isso mesmo o que nós fazemos hoje? O velho sonho do Paraíso… Repara que no Paraíso ninguém sabe o que seja o desejo, piedade, amor… Quem está no céu são os bem-aventurados que se sujeitaram à fantasioctomia (…), são os anjos, são os servos de Deus. E agora, no exato momento em que tinhas realizado esse sonho, quando o tinhas já na mão, assim (…), quando só te faltava pegares na presa para a fazeres em postas e a distribuíres à tua volta… nesse momento, tutu…” (p. 253)


Texto da autoria de Jorge Navarro

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