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domingo, 16 de dezembro de 2012

Ao Domingo com... Matilde Oliveira

Agradeço ao Tempo Entre os Meus Livros, o convite para falar do meu primeiro livro.

Travos Doces, Cheiros da Infância” é uma obra, como o título indica que fala da infância. É auto-biográfica e fala do passado, sem nele se prender. Retrata uma época de dificuldades para a população em geral a muitos níveis, nos anos sessenta, na vila piscatória e turística da Ericeira. Naquele tempo não havia surf, mas já havia ondas gigantes. Então, o livro fala da riqueza do passado, mas apresenta a grande esperança no tempo que vem em seguida, no futuro que se cria de imediato, a partir de cada pensamento.


Apesar das dificuldades, havia riqueza que se não via, porque estava presente, e porque não haviam sido vistas ainda, todas as possibilidades existentes. Eram as pessoas, era a cultura, eram os potenciais, era a saúde e um conjunto de coisas com as quais contávamos sem dar por isso.
 

A riqueza estava nas pessoas e na sua capacidade de ir mais longe e mudar, de aperfeiçoar e melhorar, de criar coisas, na coragem, na força e na garra de transformar o bruto em lapidado, na criatividade e em tudo o que se foi manifestando, de tal modo, que hoje temos tudo aquilo que naquele tempo faltava. E criou-se, e há tanta riqueza que só não daremos por ela, caso não tenhamos memória para a diferença entre um tempo e outro tempo. Este livro vem também despertar essa memória e relembrar que, se vivemos dificuldades agora, também antes se viveram e superaram e chegámos cá, e tudo foi sendo ultrapassado, vencidos os medos, transformados, superados pela ligação e pela amizade, pelos apoios, pela troca de informação, pela partilha e pela união. 

Fala-se em crise e ela existe e é dura mas, mais do que isso, existem as pessoas e a necessidade de se unirem e ligarem, libertando-se dos medos. Os medos paralisam e fecham: “Tantos segredos, tantos medos, tantos dedos em redes rodados, tecidas com dedos de medos, nodosos dedos cansados, nós desfiados, nós desatados e reconstruídos, roídos pelo tempo, pelo tempo das águas, pelas mágoas fechadas por dentro das ondas, por dentro dos segredos do mar, nós tecidos no escuro de tempo, num tempo de segredos, num tempo de navegar, vivido devagar.
 

Quanto mais partilha e abertura houver, mais os medos são afastados e cada um terá a oportunidade de perceber a magia com que contribui para o todo. E essa magia existe onde menos se espera e revela-se com o tempo, pois o melhor da vida, por vezes, só se revela mais tarde, nas coisas e nos momentos simples e sem complicações, e em pessoas tão comuns como o meu amigo “Feijão” que aparecia e desaparecia sem que eu visse de onde vinha vindo.

O futuro determina-se no pensamento de cada um. O futuro cria-se, inventa-se e reinventa-se a partir de cada capacidade de encarar a realidade, com a magia de um sonho.

Toda e qualquer grande invenção, começou por ser um simples sonho no pensamento de alguém. Há grandes inventores conhecidos, como Thomas Edison, Bell e outros, mas nos tempos que correm, são tantas as invenções, são tantos os projetos concretizados que quase só damos por eles, quando são, por outros ultrapassados por novas invenções. E não apenas em ciência e tecnologia, mas em todos os campos da vida. Então, tudo é ciência, porque o próprio pensamento se materializa cada vez mais rapidamente e já é ele mesmo, alvo de transformações porque sabemos que um só, muda o mundo e há que ter atenção e cuidar, não vá ele materializar o que não se quer.

Não é na Assembleia da Republica que o futuro se determina, mas sim em cada um e eu espero que este livro seja um degrau para essa tomada de consciência e possa ajudar a mudar pensamentos e a confiar mais, e na importância da própria vida. Se uma vivência tão simples e sem história como a minha, se transformou em livro, então, cada um em suas vivências está a escrever um livro, um novo livro: o seu futuro, o futuro de um país, o futuro de um mundo melhor.

Portanto, há que confiar e acreditar e transmitir essa confiança, essa segurança em cada família, em cada evento familiar, em cada encontro, na rotina de cada dia e nos diálogos, sem se deixar tolher nem moldar, pelas notícias e pelo que elas parecem impor e dizer, porque não são necessariamente verdadeiras: são apenas pontos de vista.

É a crença que cria a qualidade de futuro que queremos, transmitindo aos outros, principalmente às crianças. Os próprios professores são mestres que criam outros mestres e as crianças são mestres na frescura e na confiança, na leveza e são elas que ensinam e transmitem a capacidade de tornar novas todas as coisas.

Esta é uma revolução silenciosa, longe das câmaras, longe dos holofotes e das luzes. Esta é a revolução que se faz no dia a dia, e há que aprender com os mais novos a não desistir, numa troca de conhecimentos entre mestres e alunos, entre jovens e seniores, entre todas as diferenças, mostrando essa maravilhosa formação de um tecido social, dessa bela teia de muitas cores que dá vida à vida, que dá cor ao mundo e que tem sabor, travo permanente a amanhecer, a madrugada com o sol a nascer, renovação constante na ligação entre passado, presente e futuro, com cheiro a abundância e inovação. 

Travos Doces, Cheiros da Infância” encontra-se disponível através da Editora Chiado e tenho a certeza de que o lerão com muita satisfação e agrado.


Matilde Oliveira

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