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sábado, 30 de março de 2019

Na minha caixa de correio

  

  


Comprados a um preço muito simpático na livraria Dejà Lu (conhecem?) na Cidadela de Cascais, os três livros de Rosa Lobato de Faria e também, O Amante Bilingue.
Comprado em segunda māo, como novo, A Mascote.
Ofertado pela editora Cultura, O Fazedor de Cercas.
Oferta da Porto Editora, Yämmi (tenho a Bimby mas é fåcil adapatr).

sexta-feira, 29 de março de 2019

A Escolha do Jorge: “Raparigas da Província”


“Raparigas da Província”
Edna O’Brien
(Relógio D’Água)

“«Vou estoirar com esta cidade», disse ela e falava a sério, naquela primeira noite em Dublin.” 
(p. 162)

Nascida na Irlanda em 1930 e com mais de 40 obras publicadas, Edna O’Brien é uma das mais prestigiadas escritoras de língua inglesa juntando-se a nomes como James Joyce e Frank O’Connor.
São várias as suas obras de referência, mas é com a trilogia “Country Girls – Raparigas de Província”, os seus primeiros três romances, que Edna O’Brien dá os primeiros passos no mundo das letras, tendo de imediato um impacto negativo perante a sociedade e a Igreja, na medida em que durante vários anos os seus livros foram censurados.

Edna O’Brien põe o dedo na ferida em inúmeros aspectos da sociedade irlandesa e, neste caso em concreto, reportando-se à década de 50, em que predominava o mundo rural em oposição às cidades e o peso da Igreja com a noção de pecado sempre na boca e no pensamento das pessoas e a necessidade de redenção. O retrato das pequenas comunidades com o seu típico “diz-que-diz” em que num ápice, qualquer pessoa, mas em especial as mulheres, caem nas bocas do mundo e rapidamente em desgraça em oposição a uma sociedade dominada por homens que se vingam na bebida e na violência doméstica por ser uma espécie de ‘modus vivendi’ que se instituiu ao longo dos tempos, daí tolerado e aceite pelos demais habitantes.

“Raparigas da Província” retrata assim esta dura realidade fechada sobre si própria que encara Dublin como a grande miragem, nesta oposição campo-cidade, mas também clausura versus liberdade.
Duas jovens adolescentes, Baba e Cait, ansiosas por sair da vila e das suas rotinas, acabam por frequentar um convento a fim de concluírem estudos. As rotinas duras impostas pelas religiosas transformam Baba e Cait numa espécie de balão à espera de rebentar, tentando, tudo por tudo, para serem expulsas rumo à sua emancipação em Dublin.

Baba é mais arisca, mais irreverente e a mais inconsequente das amigas, ao contrário de Cait, mais simples e fortemente ligada ao Catolicismo e às suas tradições, vivendo frequentemente com a ideia de estar a cometer algum pecado, tendo de modo permanente a imagem da sua mãe falecida como referência face à distinção entre a ideia de bem e de mal. Até os seus impulsos são mais recatados, não vá algo de mal desabar sobre a sua cabeça e sobre o seu futuro. “«Mas o que nós queremos é rapazes. Aventuras românticas. Amor e essas coisas», disse eu, desalentada. Imaginava-me debaixo de um candeeiro de rua à chuva, com o cabelo solto em desordem e os lábios em suspenso, a aguardar o milagre de um beijo. Um beijo. Nada mais. A minha imaginação não ia mais além. Receava fazê-lo. A mamã protestara com angústia ao longo daqueles anos tempestuosos. Mas os beijos eram lindos. Os beijos dele. Na boca, nas pálpebras e no pescoço, quando levantava a juba do meu cabelo.” (p. 176)

A escrita de Edna O’Brien é fluida a par de ser contagiante e electrizante. A leitura provoca uma estranha sensação de se quebrar ou rebentar algo dentro de nós no que concerne às estruturas emocionais, quer pela narrativa, sempre empolgante, mas também pela beleza da escrita que nos cativa desde a primeira à ultima página. Edna O’Brien tem um sentido de humor refinadíssimo e o recurso a metáforas é notável, sem nunca cair no grosseiro ou no banal.

“Raparigas da Província” (1960) é um romance com quase sessenta anos e para os dias que correm poderíamos dizer que não tem nada de especial, contudo, à data, a questão da mentalidade dominada pela Igreja e a pobreza das pequenas comunidades constituíam os aspectos relativamente aos quais levaram a que Edna O’Brien fosse considerada uma escritora subversiva no intuito de provocar uma revolução face à ordem social estabelecida na Irlanda, branqueando-se assim o presente e hipotecando o futuro.

A chegada de Baba e Cait a Dublin constitui, desta forma, o romper com o mundo rural, com a Igreja, com a mentalidade fechada e obtusa face ao mundo urbano, sinónimo de liberdade e um desejo imenso de se realizarem enquanto mulheres, descobrindo assim a sexualidade ainda que de uma forma muito incipiente. Com o tempo, as jovens vão compreender que a realidade nem sempre acompanha o furor dos desejos e que um certo idealismo pode trazer frustração à mistura, mas isso também faz parte do crescimento, do tornar-se adulto e do compreender a relação com o outro, mesmo quando o outro é um homem mais velho e casado. “Nós queremos viver. Beber gin. Enfiarmo-nos no banco da frente de grandes carrões e estacionar diante de grandes hotéis. Queremos ir a sítios, e não ficar aqui sentadas nesta enxovia cheia de mofo.” (p. 176)

Baba e Cait são personagens ficcionadas, mas que representam toda uma geração de jovens que se tornaram mulheres e que, com a sua determinação, conseguiram romper com os laços da tradição rumo à sua emancipação, mas também, no seu conjunto, contribuíram para o progresso e modernidade da Irlanda nas décadas seguintes.

“Raparigas da Província” funciona também como uma espécie de espelho face ao Portugal dos anos 50, com o país a viver a consolidação da ditadura que andava de mãos dadas com a Igreja que determinava todo um código de normas e condutas, fechando o país sobre si próprio, aguardando ainda por mais de duas décadas pelo grito de libertação.

Edna O’Brien continua a centrar a sua atenção e energias no papel das mulheres na sociedade contemporânea, nas desigualdades existentes e no muito que ainda há por fazer nestes campos. Exemplo disso é o seu mais recente romance “Pequenas Cadeiras Vermelhas” (2015), publicado recentemente pela Cavalo de Ferro.

Da trilogia “Country Girls – Raparigas da Província” continuam por traduzir para português “The Lonely Girl” (1962) e “Girls in their Married Bliss” (1964).

Excertos:
“«Que linda coisa! Sua porca…», disse o meu pai, aproximando-se. Estava a tentar encontrar uma palavra suficientemente má para me descrever. Tinha a mão erguida, como se fosse bater-me.
«Odeio-te», disse eu de repente e com veemência.
«Cala essa boca obscena e pestilenta», e deu-me uma bofetada terrível. Caí e bati com a cabeça na aresta do guarda-loiça, e dentro dele as chávenas chocalharam. A cara doía-me, da bofetada.
Mr Brennan correu para mim e arregaçou as mangas.
«Deixe-a em paz», disse ele, mas o meu pai estava pronto para me bater outra vez.” (p. 134)

“«Sabes, Caithleen, é uma pena muito grande. Eras inteligente na escola. Terias ido longe. Por que razão arruinaste o teu futuro?» Segurou-me na mão, ao fazer-me a pergunta.
«Não me pergunte a mim», respondi.
«Eu sei porquê», disse ele. A sua voz era calma e a mão era macia e répida. Era um homem bom e gentil.
«Pobre Cithleen, sempre foste o joguete da Baba.»
«Eu gosto da Baba, Mr Brennan. Ela é muito divertida e não faz as coisas por mal.» Era verdade.
«Ah, se pudéssemos escolher os nossos filhos», disse ele tristemente. Formou-se-me um nó na garganta, e eu sabia tudo aquilo que ele tentava dizer-me. E pareceu-me que a vida para ele era uma desilusão. Os anos passados a percorrer estradas más à noite, a atravessar campos à luz de uma lanterna para chegar até junto de um animal doente, num telheiro exposto à intempérie, tinham sido deitados fora. Mr Brennan não encontrara felicidade junto da mulher nem dos filhos. E ocorreu-me que ele gostaria de ter tido a mamã como esposa e a mim como filha. Senti que ele estava a pensar a mesma coisa.” (p. 136)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 27 de março de 2019

"Rugas" de Paco Roca (Graphic Novel)

Esta é a segunda novela gráfica que leio deste autor. A primeira foi esta aqui. Gostei muito de ambas, mas o "Rugas" tocou-me de uma forma especial. Não consegui encontrar este livro em português porque está esgotado e li-o em espanhol, empréstimo da Isa do canal do Youtube Jardim de Mil Histórias. Quero relê-lo, desta feita na nossa língua. Não que o espanhol fosse difícil mas quero mesmo saboreá-lo em português!

Como disse, foi uma leitura especial. O tema toca-me bastante e está tratado com muito carinho mas com a crueza necessária para que a realidade seja visível aos olhos de todos. A demência, os lares de idosos ou depósitos, como queiram chamar-lhes, a amizade e o companheirismo que se gera, às vezes involuntariamente, entre os mais idosos. Um olhar cru sobre a velhice que magoa, que dói, que toca o coração. Um olhar de quem escreve com os desenhos que pinta. Muito bom! 

Recomendo vivamente.

Terminado em 24 de Março de 2019

Estrelas: 6*

Sinopse
Emílio, um bancário reformado, sofre da doença de Alzheimer e é internado num lar de terceira idade. Rodeado de vários outros idosos, cada um com um quadro «clínico» distinto e com uma personalidade bem vincada, vai aprendendo as diversas estratégias para combater o tédio e a erosão da rotina. Ao mesmo tempo, Emílio e os seus companheiros vão tentando introduzir, num quotidiano marcado por medicamentos, refeições, «terapias ocupacionais» e sestas de duração indefinida, alguns vislumbres de encanto e alegria de viver.

Cris

terça-feira, 26 de março de 2019

"Sr. Mercedes" de Stephen King

Esta foi a minha estreia com este autor. Alguns dos seus livros são velhos moradores das minhas estantes mas não me lembro de ter lido nenhum. Embora não tivesse pegado nele completamente às escuras porque tenho amigas que gostam muito da sua escrita, confesso que foi uma agradável surpresa.

O suspense é o motor deste livro ou está presente sempre em toda a obra, como queiram. E gostei verdadeiramente disso. Deixa-nos, a nós leitores, sem fôlego. E não pensem que vão adivinhar tudo o que se vai passar, porque não vão. Mesmo quando a escrita nos leva para um determinado caminho, a incredulidade é nossa companheira...

Gostei também dos personagens principais. Não são perfeitos, possuindo algumas taras, tiques e afins e  fogem à lei estando dentro da lei. O polícia reformado, o rapaz negro mega inteligente, a rapariga com comportamento obsessivo-compulsivo que é barra em informática. Conhecemos o assassino, entramos na sua casa, na sua mente, nos seus estranhos costumes e manias. Vamos saltitando de uns para os outros até que culmina num final apoteótico. Muito bom!

Terminado em 24 de Março de 2019

Estrelas: 5*

Sinopse
Numa madrugada gelada, uma fila de desempregados desesperados vai crescendo para conseguir lugar numa feira de emprego. Inesperadamente, um condutor solitário avança sobre a multidão num Mercedes roubado, atropelando os inocentes; depois recua e torna a avançar. Oito pessoas são mortas, quinze ficam feridas. O assassino foge. Meses mais tarde, noutro lugar da mesma cidade, um polícia reformado chamado Bill Hodges continua perturbado pelo crime que ficou por resolver. Quando recebe uma carta demente de alguém que se autodenomina «O Assassino do Mercedes» e ameaça um ataque ainda mais diabólico, Hodges desperta da sua reforma deprimente e decide a todo o custo evitar uma nova tragédia.

Brady Hartsfield vive com a mãe alcoólica na casa onde nasceu. Adorou aquela sensação de morte ao volante do Mercedes, e quer sentir aquilo de novo. Só Bill Hodges, com os seus dois novos (e improváveis) aliados, pode deter o assassino antes que ataque de novo. E não têm tempo a perder, porque a próxima missão de Brady, se for bem-sucedida, irá chacinar milhares de pessoas. Sr. Mercedes é uma luta épica entre o bem e o mal, e a exploração da mente de um assassino obsessivo .

Cris

segunda-feira, 25 de março de 2019

Para os Mais Pequeninos: O Duende Que Caiu da Lua

Nem sei o que achei mais bonito neste livro! Foi de certeza feito com muito carinho para os mais
pequeninos porque tanto a capa, como a história, como as ilustrações são maravilhosas!

Primeiro foi a capa que me chamou a atenção, depois as ilustrações e finalmente a história... É um livro em que o imaginário infantil está maravilhosamente representado: um duende caiu da lua e, ups! Como vai conseguir regressar? A sorte de Katan, o duende, foi ter sido encontrado por Tomás, um menino que sabia como resolver as coisas. Sim, porque os seus pais tinham-lhe dito que devia, antes de pedir ajuda, procurar soluções para os problemas que encontrasse na sua vida. Determinado como era, Tomás havia de descobrir uma solução para o problema...

Um livro que nos fala de amizades improváveis, do que fazemos para ajudar os amigos e de uma palavra que todos sentem no coração, a saudade! As ilustrações são, como referi, maravilhosas! Ora vejam:

 

 


Cris

sábado, 23 de março de 2019

Na minha caixa de correio

 

 
 Oferta da Editora Saída de Emergência: Saúde Feminina;
Os restantes foram comprados em alfarrabistas.

sexta-feira, 22 de março de 2019

A Escolha do Jorge: “O Chefe de Estação Fallmerayer”


“O Chefe de Estação Fallmerayer”
Joseph Roth
(Assírio & Alvim)

“(…) Fallmerayer perseguia o estranho aroma do couro da Rússia e o indistinto perfume da mulher, que um dia se deitara na sua cama, sobre o seu travesseiro, debaixo do seu cobertor.” 
(p. 48)

É sempre uma agradável surpresa a (re)edição das obras de Joseph Roth (1894-1939), considerado um dos grandes escritores do século passado e também um dos últimos escritores que encerram o fim de toda uma tradição judaica que se perdeu com a 2ª Guerra Mundial. Joseph Roth é um valor seguro nas letras e, tanto os seus romances como as novelas/contos estão imbuídos de valores morais na sua articulação com uma espécie de justiça de carácter universal a par de uma estética capaz de deixar o leitor inebriado com as suas palavras e cenários criados.

“O Chefe de Estação de Fallmerayer” constitui uma das últimas novelas de Joseph Roth, publicadas na década de 30, quando o escritor já se encontrava bastante doente, ainda que dedicasse muito do seu tempo à escrita. Esta novela, a par de “A Lenda do Santo Bebedor” e “O Leviatã” são pequenas pérolas da literatura contemporânea que, em boa hora estão a regressar às livrarias e, no seu conjunto, são reveladores de um espírito quase profético de Joseph Roth face ao que estaria por acontecer na Europa e no Mundo, no que concerne ao desaparecimento da cultura judaica no Velho Continente, na sequência do genocídio e holocausto perpetrados pelo regime nazi.

Esta novela – ou este conto - em particular tem como pano de fundo a Áustria nas vésperas da 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e Adam Fallmerayer como principal protagonista, sendo um chefe de estação de caminho-de-ferro de uma pequena estação situada a um par de horas de Viena. Numa certa noite, Adam Fallmerayer percebeu que o seu destino iria mudar na sequência de um acidente grave com duas composições, tendo ficado inebriado com Anja Walewska, uma das sobreviventes do acidente, que viajava da Ucrânia rumo à Itália a fim de se encontrar com o seu marido.

Durante alguns dias, Adam Fallmerayer deu guarida a esta visitante inusitada até que, por indicação do médico, pudesse então dar continuidade ao seu périplo. Adam Fallmerayer ficou completamente extasiado por um sentimento de amor que nunca experimentara em oposição ao seu casamento realizado por conveniência.

O episódio acima descrito veio a marcar por completo a vida pacata de Adam Fallmerayer, assim como o seu destino, na medida em que “Fallmerayer perseguia o estranho aroma do couro da Rússia e o indistinto perfume da mulher, que um dia se deitara na sua cama, sobre o seu travesseiro, debaixo do seu cobertor.” (p. 48)

O início da 1ª Guerra Mundial, em 1914, foi o mote para Adam Fallmerayer romper em definitivo com a sua vida passada, em como com os laços familiares aos quais pertencia, aproveitando a guerra para ir atrás do seu sonho que se converterá em desgraça. “Tinha o sentimento de uma gratidão infinita para com o destino, que o conduzira à guerra e a este local e, em simultâneo, um medo indescritível de tudo o que então estava prestes a acontecer-lhe. A guerra, a ofensiva, o ferimento, a proximidade da morte: eram acontecimentos pálidos em comparação com o que estava para vir.” (p. 50) “A guerra tinha de durar eternamente, e o serviço prestado por Fallmerayer naquele local e naquele posto tinha de ser eterno.” (p. 62)

O desejo de procurar Anja Walewska foi a volúpia que o levou a cometer actos inconsequentes ao ponto de desafiar o seu próprio destino. Adam Fallmerayer cega com estes excessos em busca do amor, mas conhece-o e vive-o fugazmente ao ponto de a felicidade extrema estar prestes a acontecer com tudo o que poderia desejar na vida, mas o destino troca-lhe as voltas, acontecendo a Adam Fallmerayer o que vem a acontecer à cultura judaica na Europa, anos mais tarde.

“O Chefe de Estação Fallmerayer” deixa-nos num limbo de emoções, entre o amor e o desejo para a sua concretização e a melancolia, traços já conhecidos da escrita de Joseph Roth. O escritor tem esta infinita capacidade de mexer com a estrutura emocional do leitor de modo a deixar-lhe as marcas do fascínio como se de magia se tratasse. Joseph Roth é e continuará a ser um escritor que soube brincar e manipular as palavras transformadas em sentimentos, sem prejuízo de terem um impacto quase profético naquilo que estaria de por vir. E sim, Joseph Roth é um caminho seguro a trilhar!

Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 21 de março de 2019

A Convidada escolhe: "Marianna Sirca"

Marianna Sirca, Grazia Deledda, 1915

Grazia Deledda, quem conhece? Depois de Selma Lagerlöf, Grazia Deledda foi a segunda mulher a receber o prémio Nobel da Literatura em 1927. Natural de Nuoro, uma terra isolada da Sardenha onde nasceu e viveu até aos 25 anos, altura em que foi viver para Cagliari, a capital. Casa em 1900, com 29 anos e vai viver para Roma até ao final dos seus dias, em 1936. No entanto, a vivência da infância e juventude na sua terra natal e a cultura e tradições sardas muito enraizadas nela são os traços da sua escrita pictórica e muito expressiva.

“Marianna Sirca” é uma das poucas obras traduzidas em português e editadas pela Sibila Publicações, de entre a muito vasta obra desta escritora. É a história de um amor impossível. Uma mulher jovem, que recebeu por herança um rico património por parte de um tio padre com quem viveu até à sua morte, apaixona-se por um homem mais novo. As diferenças de classe e de estatuto social entre os dois são a impossibilidade de concretização desse amor. Ela uma rica proprietária de terras e de rebanhos; ele um antigo criado da casa, actualmente fugido à justiça por se ter tornado bandido.

Mas Marianna, farta de ser a menina obediente, esquecida de si própria para responder às necessidades dos outros e escrava até da criada Fidela que a controla, decide responder ao chamamento do coração e recusar as convenções e o destino que a família e a sociedade esperam dela: “Marianna, faz a vontade a quem te quer bem. Obedece.”. A afirmação de que quem manda nela é ela, a firmeza das suas convicções e das suas escolhas são incompreensíveis para os outros, que não aceitam aquilo que consideram insanidade. Afinal não é por ser uma mulher solteira, rica e livre que é mais livre do que Simone, o homem por quem se apaixona e que se esconde da justiça. Como ela diz num diálogo com a criada, o que é afinal a liberdade? Será que somos verdadeiramente livres?

Os outros temas deste livro, para além do amor, da liberdade, do estatuto submisso que é esperado por parte das mulheres, são a coragem, a cobardia e a honra. As personagens não são lineares, avançam, vacilam, são verdadeiramente humanas e com contradições, mesmo quando as suas personalidades são fortes. Não são doces nem cândidas, tal como a natureza agreste onde vivem, pintada pela pena da Grazia Deledda. A neve quando cai, ou a chuva quando ensopa as roupas e o corpo têm o seu reverso quando o calor e o Sol inclementes do Verão se fazem sentir. Ao lermos conseguimos sentir a escuridão dos bosques, o som do regato que corre, a frescura da água da fonte, os sons da noite, e a presença da Lua na sua diversidade.

O casamento que nenhum padre se prestou a celebrar tem a sua expressão final e muito visual no ritual da morte de Simone. A despedida da mãe, a presença do padre que lhe dá a extrema unção, a deposição do anel de diamante que havia sido roubado no dedo de Marianna para ser devolvido a Nossa Senhora dos Milagres. Um quadro muito forte em que sobressai a cor do sangue nos lençóis que enfaixam Simone, o sofrimento do ferido de morte e a dor das duas mulheres que mais o amaram e que são impotentes para o salvar. E em tudo isto uma profunda religiosidade a envolver a cena da morte.

Sendo um livro muito datado há, no entanto, nos sentimentos e reacções das personagens uma actualidade intemporal que corresponde à condição humana. Não foi certamente por acaso que o membro da academia sueca que atribuiu em 1927 o prémio Nobel da Literatura a Grazia Deledda, referiu que na sua obra “todos os caminhos conduzem ao coração humano”.

Em boa hora Sibila Publicações se lembrou de editar esta escritora sarda tão pouco divulgada e conhecida entre nós.

16 Março 2019
Almerinda Bento

segunda-feira, 18 de março de 2019

"O Rouxinol" de Kristin Hannah

Desafio qualquer um a ler este livro! Quando já quase meio mundo o tinha lido e falado maravilhas dele, achei que era altura de lhe pegar. Morava há tanto tempo nas minhas estantes que, quanto mais falavam dele, mais eu me retraía para o ler... Foi mais uma leitura conjunta com algumas meninas de blogues e canais que me fez decidir. Ia a medo, confesso. Quando as expectativas são altas...

Que dizer? Como não gostar? A escrita é simples embora denotando uma apurada pesquisa sobre os temas tratados, todos relacionados com a II Guerra. Mas o enredo é fabuloso, de uma envolvência crescente que nos faz querer esquecer por completo as nossas obrigações diárias... e parar por completo para ler! As últimas 100 páginas são terríveis! Mesmo que não sejam sensíveis desafio-vos a poisar o livro para irem dar uma volta. As imagens que o vosso cérebro visionou com a leitura acompanhar-vos-ão, tenho a certeza!

Não vos vou contar a história, é verdade, mas volto a desafiar-vos para esta leitura. Este NÃO é mais um livro sobre o holocausto. É UM dos livros, um dos tais! 

Terminado em 14 de Março de 2019

Estrelas: 6*

Sinopse
Na tranquila vila de Carriveau, Vianne despede-se do marido, Antoine, que parte para a frente da batalha. Ela não acredita que os nazis vão invadir a França… mas é isso mesmo que fazem, em batalhões de soldados em marcha, em caravanas de camiões e tanques, em aviões que enchem os céus e largam as suas bombas por cima dos inocentes. Quando um capitão alemão reclama a casa de Vianne, ela e a filha passam a ter de viver com o inimigo, sob risco de virem a perder tudo o que têm. Sem comida, dinheiro ou esperança, e à medida que a escalada de perigo as cerca cada vez mais, é obrigada a tomar decisões impossíveis, uma atrás da outra, de forma a manter a família viva. Isabelle, a irmã de Vianne, é uma rebelde de dezoito anos, que procura um objetivo de vida com toda a paixão e ousadia da juventude.

Enquanto milhares de parisienses marcham para os horrores desconhecidos da guerra, ela conhece Gäetan, um partisan convicto de que a França é capaz de derrotar os nazis a partir do interior. Isabelle apaixona-se como só acontece aos jovens… perdidamente. Mas quando ele a trai, ela junta-se à Resistência e nunca olha para trás, arriscando vezes sem conta a própria vida para salvar a dos outros. Com coragem, graça e uma grande humanidade, a autora best-seller Kristin Hannah capta na perfeição o panorama épico da Segunda Guerra Mundial e faz incidir o seu foco numa parte íntima da história que raramente é vista: a guerra das mulheres.

O Rouxinol narra a história de duas irmãs separadas pelos anos e pela experiência, pelos ideais, pela paixão e pelas circunstâncias, cada uma seguindo o seu próprio caminho arriscado em busca da sobrevivência, do amor e da liberdade numa França ocupada pelos alemães e arrasada pela guerra. Um romance muito belo e comovente que celebra a resistência do espírito humano e em particular no feminino. Um romance de uma vida, para todos.

Cris

sábado, 16 de março de 2019

Na minha caixa de correio

  

  

  

  
Comprados numa promoção da Wook:
-A Arte de Matar Dragoēs, Vidas Entrelaçadas e Transatlântico.

Comprado num alfarrabista:
- A Cidade nos Confins do Céu

Ofertados pelas editoras:
- OHomem das Castanhas - Suma de Letras
- Rosa Branca , Floresta Negra -  Minotauro
- Memórias de Uma Vida em Guerra - Topseller
- Uma Noite em Lisboa - Saída de Emergência
- A Aluna Americana - Porto Editora
-  Os Meninos de Varsóvia -  Porto Editora
- A Alegria das Pequenas Coisas - Arena
- Santa Bakita - Porto Editora

sexta-feira, 15 de março de 2019

A convidada escolhe: "Em tudo havia beleza"

Pensamentos soltos, à deriva, numa verdadeira catarse. Palavras da vida de um homem. A contemplação dos mortos. Muitos e curtos capítulos que facilitam em muito a leitura. Em tudo havia beleza.

A morte, o desamparo que ele confundia com pobreza, o envelhecimento, o divórcio e a paternidade, a saudade e o amor, numa época e numa família classe média-baixa que não me é estranha. Curiosas particularidades que nesta demanda pela compreensão do seu passado, eu encontre paralelos com o meu.

Resgatar o passado para se reconciliar com o presente. A herança genética e a educação que, na solidão se repensa na ligação com os outros. A lei de Ordesa.

Sem filtro, sem destoar, sem intenção de brilhar, este livro tornou-se um sucesso. Não creio que seja para todos. Não sei se é uma autoficção, romance ou biografia, mas gostei e li sem parar, apesar de estranhar.

Vera Sopa

terça-feira, 12 de março de 2019

"Depois de Mim" de Emily Bleeker

Descobri recentemente as "leituras conjuntas" e, confesso, estou fã. Vamos comentando durante a leitura, facto que me agrada muitíssimo e acabo por acelerar a leitura que tenho em mãos. Li este livro em conjunto com a M. João Covas do canal "Livros? Gosto" e a M. João Diogo do blogue "A Biblioteca da João".

Esta obra fez-me sentir um misto de emoções diferentes. A escrita é simples e isso faz com que a leitura seja fluída. No entanto, creio que a dúvida esteve sempre presente quase até ao fim da leitura. Passo a explicar: Luke acaba de perder a esposa. Ambos lutaram sem sucesso contra um cancro que não lhes deu sossego. Depois da sua morte começa a receber cartas dela durante quase um ano. Nesse espaço de tempo vários mistérios tomam conta da vida de Luke. Começa a desconfiar de sua esposa, Natalie e nós, leitores, duvidamos também. Não vou aprofundar para não vos contar mais que o necessário. No entanto, o facto de Luke ir recebendo várias cartas fez com que achasse, até quase ao final, que se tratava de algo pouco credível. Uma carta, acredito que quem sabe que a sua vida tem os dias contados, tem vontade de escrever, mas tantas... Isso fez-me ficar na dúvida durante toda a leitura. 

Mas dou a mão à palmatória! No final tudo faz sentido e as peças dos mistérios encaixam todas. Somos confrontados com um enredo com mistérios, romance, segredos de uma vida, violência doméstica, o luto. Gostei muito e recomendo!

Terminado em 11 de Março de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Querido Luke,
Deixa-me começar por dizer que te amo…
Eu não queria deixar-te…

Luke Richardson regressou a casa depois do funeral de Natalie, a sua amada esposa, pronto para enfrentar a tarefa de criar os seus três filhos sozinho. Mas não está preparado para o que encontra no chão, à sua espera - um envelope azul, com o seu nome escrito por Natalie. A carta, escrita no primeiro dia do tratamento oncológico da mulher, revela ser a primeira de muitas. Luke está convencido de que elas são genuínas, mas quem as deixa na sua caixa do correio?

À medida que a sua obsessão com as cartas cresce, Luke descobre segredos há muito enterrados que o fazem questionar tudo o que sabia sobre a sua mulher e a sua família. E uma escolha impõe-se: conseguirá Luke encontrar forma de viver sem Natalie ou ficará para sempre perdido no passado que as cartas encerram?

Cris

sábado, 9 de março de 2019

Na minha caixa de correio

  

Oferta da editora Saída de Emergência, Depois de Mim. Jå o estou a ler...

 Ofertas do marido: As Mulheres no Castelo e O Conde de Monte Cristo I

sexta-feira, 8 de março de 2019

A Convidada escolhe: "Os enamoramentos"

Adiei ler o magnifico romance de Javier Marías "Os enamoramentos" porque sabia que seria uma leitura sentida e com sentido. Uma prosa cuidada que implica ler e reler para memorizar o que bem soube exprimir. Convicções e sentimentos são postos em causa com uma narrativa que trata o que concerne a morte violenta e inesperada de um homem, elemento de um casal feliz e admirado por María Dolz, num apaixonante tratado sobre a natureza humana.

Percepções, anseios, luto, traição, amor, tudo é exposto a um novo olhar (de quem lê) em que se torna impossível não se rever e não ficar marcado pelas palavras do autor. Não são palavras vãs, de efeito, uma vez que várias são as passagens que nos tocam nalguma fibra sensível enquanto a narradora divaga sobre enamoramentos, numa história que funciona em espiral revelando novos contornos das personagens e da trama.

Não é uma história banal, apesar de o parecer, pelo modo como é contada. Exigente e algo densa, não creio que agrade a todos. Contudo, adorei.

Este livro impregnou-me de sentimentos. Extraordinário.

Vera Sopa

quinta-feira, 7 de março de 2019

"A Sombra do Passado" de Nikola Scott

Acabei há pouco de ler este livro. De coração cheio é como me sinto. Uma história ficcionada que poderia ter acontecido porque, no meio do enredo, encontramos dados que se baseiam em factos que realmente tiveram lugar na década de 50, princípios de 60.

Depois de ter lido a nota da autora, reflecti um pouco no papel da mulher na guerra, a II neste caso. Lutou e apoiou em tempos de guerra o seu país mas acabada ela, a moralidade voltou e tentou confiná-la de novo às quatro paredes do lar. Com uma educação sexual quase inexistente, quem se atrevesse a colocar "o pé fora do baralho" e engravidasse, era imediatamente afastado da família numa tentativa de esconder "a pouca vergonha" sendo que "as culpas" iam directamente para quem carregava o novo ser... As adopções forçadas, os "lares" para os quais elas eram enviadas até o problema desaparecer eram uma constante. Muito interessantes as notas da autora.

O enredo passa-se maioritariamente em Londres, em duas épocas temporais: 1958 e 2000. É através de duas narradoras que nos contam a sua história na primeira pessoa que vamos tomando conhecimento deste enredo fabuloso, cheio de mistério, que nos envolve e nos apaixona. Sem ser melodramático, toca o leitor e viajamos no passado juntamente com as personagens.

A leitura foi compulsiva. Gosto tanto quando as páginas voam sem que me aperceba delas... Com uma escrita tão simples quanto apelativa, a autora mostra-nos um pouquinho da sua prodigiosa imaginação. O enredo é ficcionado sim, mas poderia ter acontecido na realidade. E é este sentimento de que o que se lê poderia ser verdade que me apaixonou completamente. 

Nota máxima à escrita da autora, que me arrebatou por completo. As personagens são credíveis, os seus sentimentos são por nós partilhados. Uma empatia perfeita, tanto com Addie como com a sua māe, Elizabeth.

Livro de capa dura, como deveriam ser todas. Título perfeito e foto da capa que tem tudo a ver. Recomendo sem reservas!

Terminado em 5 de Março de 2019

Estrelas: 6*

Sinopse
1958. A bela e inocente Elizabeth Holloway vai passar o verão a Hartland, uma magnífica propriedade no litoral do condado de Sussex, no Sul de Inglaterra.
Para a jovem, os Shaws são um modelo  de sofisticação. Contudo, quando Elizabeth  se apaixona, ninguém a avisa de que os  seus sonhos são perigosamente ingénuos. Quarenta anos mais tarde, a filha de Elizabeth, Addie, encontra uma estranha à sua porta que afirma ser sua irmã gémea. Addie recusa-se  a acreditar na declaração - até que o seu pai admite que as circunstâncias do seu nascimento não foram as que ela supõe.
A revelação desafia tudo o que Addie achava que sabia sobre a mulher brilhante e difícil que tinha sido a sua mãe. Agora, ela e a sua nova irmã Phoebe vão descobrir a extraordinária história de uma criança perdida, e o segredo  de um verão radioso que mudou a vida  de uma mulher para sempre.

Cris

quarta-feira, 6 de março de 2019

Para os Mais Pequeninos: "Papá das Pernas Longas"


Quem convive com estes seres pequeninos sabe que, quando se põem a questionar, são um sem fim de perguntas que se abatem sobre nós... Por vezes, por detrás delas está o medo, às vezes sem motivo, de ficarem sós ou de que os pais os abandonem! 

Como pano de fundo deste livro engraçado está a mensagem de que, haja o que houver, um pai faz (ou devia poder fazer!) tudo para que nunca se sintam abandonados... Então à pergunta de "como me vens buscar ao infantário se o teu carro não pegar?" surgem páginas deliciosas, cheias de imaginação, de como um pai ultrapassa todos os problemas para conseguir ir buscar o filho à escola.

Ora vejam as imagens:

 

 




Cris