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domingo, 1 de janeiro de 2012

Ao Domingo com... Carlos Reyes

Esmeralda Cor-de-Rosa é o meu primeiro romance. Pensado durante muitos anos acabou por ser editado quando já tenho (imaginem!) setenta e quatro anos de idade. Reconheço que só agora o poderia ter feito. No longo percurso do tempo que atravessei senti-me envolvido pelo bichinho das artes plásticas e dei comigo obedecendo ao desejo de comunicar garatujando e concebendo formas (procurando originalidade) que exprimissem conteúdos da nossa vivência diária – o drama social do Homem.

Mas… quem sou eu afinal?

Nasci na Figueira da Foz em 1937 ao fim da tarde de um dia friorento de Janeiro, fruto de mãe com pouca instrução, mas que fazia versos, e pai iletrado, porém «…oficial da vidraça – esses heróis de força e arte que se extinguiram.»

Palmilhei os espaços da infância em brincadeiras junto ao rio onde depressa aprendi a nadar. Depois de saber ler, soletrando as palavras, “devorava” os livros amarelados da colecção “Manecas”. Prossegui lendo, então já fluentemente a colecção “Salgari” e vibrava com as aventuras de Sandokan. Aos doze ou treze anos comprei o primeiro livro, “Uma Aventura na Escócia” de Robert Louis Stevenson, numa edição da Editorial Inquérito (naturalmente agora extinta) tendo para isso efectuado um pacto com o dono da papelaria em que este mencionou, na factura mensal que o meu pai pagava, cadernos diários e sebentas para a escola. Mantenho-o como relíquia na estante.

Entretanto surgiram os filmes de capa e espada, e as façanhas dos aventureiros acalentavam a ilusão de valentia própria da adolescência. A seguir deparei-me com Júlio Verne na biblioteca de uma associação desportiva e alimentei o espírito com as aventuras vividas por novos heróis, no subsolo, no mar e no ar.

Deixei para trás a adolescência, praticando “remo” na mais útil e saudável das então actividades da Mocidade Portuguesa: “Alma sã em corpo são”, como determinava a propaganda do Estado Novo.

Neste tempo descobri Eça de Queirós e Jorge Amado. Aqui deu-se um choque. Os conteúdos dividiram o pensamento e tive que me familiarizar com o realismo de Eça e a política ideológica de Amado.

Com dezoito anos entrei no mundo do trabalho. A juventude passada até aí conheceu o seu termo. Foi o desligar do cordão umbilical a que me sentia apegado, acostumado desde a infância à cumplicidade que a vida citadina, junto àquele mar, proporcionava sob o amparo familiar. Desloquei-me para uma vila (hoje cidade) reconhecida como terra com enraizada tradição de luta dos trabalhadores.

Uma “segunda” juventude, rodeada de novos amigos, começou a tomar forma e despertou a consciência para outras realidades com que a vida nos presenteia. Existia um conflito latente e pertinaz entre o operariado e o patronato e era urgente decidir o caminho.

Entre os muitos escritores que influenciaram esta juventude, abordando a Arte, a Ciência, a Técnica, a Aventura e o Sociopolítico, decidi-me pelo poema “Se” de Rudiard Kipling como mentor de um percurso de vida com o qual tenho pretendido olvidar (ou contrariar?) “o destino”. Por isso «(…) quem comigo conta encontra sempre mais que a conta (…)». Continuei a ler, a ler muito, e descobri o quanto é saudável para o espírito tal exercício, tornando-me quase compulsivo nessa ocupação.

Descobri também que quando tinha cinco meses e dormia o sono de inocente já Picasso se defrontava com a dor e o pânico vividos na Guerra Civil de Espanha e registava, no exílio e para o futuro, a tragédia de Guernica na enorme tela que, com certa frequência, vou admirar no “Rainha Sofia” e onde ainda hoje sou colhido pela emoção.

Compreendi a mensagem de Bertrand Russell «nunca é um tempo perdido o tempo que nós perdemos a fazer aquilo que gostamos de fazer». Por um lado as artes plásticas, sempre presentes, ajudaram a preencher muito desse tempo e deram satisfação ao desejo de legar a marca da minha passagem.  A escrita veio também ocupar a outra parte de tempo disponível e permitiu concretizar a ideia de editar o romance “Esmeralda Cor-de-Rosa”.  No princípio eram textos avulsos, relatos de acontecimentos, recordações de um percurso sinuoso com encargo familiar inerente, descrição de conflitos eternizados, que nos permitem distinguir o carácter dos humanos com que nos cruzamos na vida, nos rodeiam e nos colocam no papel de juízes mas que revigoram a nossa capacidade de julgar. Depois foi a ficção que entrou no meio de tudo isto e contribuiu para a construção do romance. Nasceram personagens, transfigurei outras, criei situações (algumas insólitas), misturei tudo com cuidado por forma a que o leitor fosse transportado pelo narrador sem perder o fio de ligação ao conteúdo das histórias contadas e procurei dar solução às expectativas geradas. Foi assim, durante alguns anos, trabalhando cuidadosamente a escrita, alternando no tempo com a inspiração que surge para a prática das artes plásticas e leva a pegar no lápis, foi assim, dizia, que surgiu “Esmeralda Cor-de-Rosa”.

Carlos Reys 

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