A autora perdeu os seus dois filhos num intervalo de sete anos, o Vincent com 16 anos em 2017 e o James com 19 em 2024. Suicidaram-se ambos.
E no entanto este livro não é nada lamechas (teria todo o direito de o ser!) e é aparentemente escrito de uma forma fria, analítica. Mesmo assim senti-me mais confortável em meter outras leituras pelo meio. Posso afirmar, sem receio de estar a enganar-me, que este foi o livro que mais sublinhei. Neste caso, lido em ebook, as frases sublinhadas e guardadas ajudaram-me nesta partilha que aqui faço. Deixo aqui apenas algumas.
Quero referir também que a vida desta autora premiada, que ela tembém aborda aqui no livro, é por si só um filme de violência, de dor.
"O meu coração já começava a ter uma sensação para a qual não há nome. Podemos chamar-lhe dor, tormento, suplício, mas nenhuma destas palavras serve tão usadas são, que se tornam inuteis" pág 8
"Mesmo fazendo tudo o que é humanamente possível e sensato por um filho, uma mãe não consegue obrigá-lo a viver - com este facto teria eu própria de viver, refleti, todos os dias, sem exceção, até ao fim da minha vida". pag 55
"Muito raramento contamos a passagem do tempo tão atentamente como no início da vida de um recém nascido; um dia, três dias, sete dias, duas semanans, três semanas de idade. Pela minha experiência, só voltamos a contar com tanto cuidado e atenção depois da morte de um filho; passou um dia, passaram três, uma semana, três meses." pag 73
"Imagino que, perante a minha vida, muitas pessoas façam esta pergunta, ou uma variação dela, em voz alta ou de si para consigo: Como pôde isto acontecer? Todos os dias, sem exceção, quando páro de escrever no computador, ou enquanto cozinho, leio, toco piano, ou faço uma pausa nas escadas, ao subir ou descer, ouço-me perguntar: Como pôde isto acontecer? Como é possível? Como acabei nesta situação-limite a que chamo a minha vida?" pag 127
"Como se vive no fundo do abismo? Marcando passo. De que outro modo se pode viver?" pag 128
"Não sou uma mãe em luto. Sou uma mãe que viverá, todos os dias sem exceção, até ao fim da vida, com a mágoa de ter perdido o Vincent e o James, e com a memória de os ter criado." pag159
E muitas mais citações ficaram anotadas. Um livro a ler. Mesmo assim, essa dor é, para a grande maioria, inimaginável!
Terminado em 4 de Maio de 2026
Estrelas: 5
Sinopse
«Escrever, ensinar, jardinar, ir ao supermercado, cozinhar, tratar da roupa — são atividades que, situando-se no tempo, não rivalizam com os meus filhos, porque eles se tornaram intemporais.»
Vincent morreu com 16 anos. James morreu com 19 anos. Num intervalo de sete anos, os dois filhos de Yiyun Li escolheram o suicídio, a meio caminho entre a escola e a casa de família. Tudo na natureza apenas continua é um testemunho delicado, revolucionário, que tem origem no «abismo», o novo habitat de uma escritora que escolhe professar a «aceitação radical» destas mortes trágicas.
Indefetível na eterna condição de mãe, eternamente ligada aos seus filhos, Yiyun Li faz germinar neste livro uma gramática só sua: austera, íntima, capaz de descrever uma das mais extremas experiências humanas, no ponto exato em que a linguagem costuma falhar.
Num exercício literário inigualável, Yiyun Li fixa para sempre o lugar dos seus filhos no mundo, porque «não há agora e outrora, agora e mais tarde; só agora e agora e agora e agora», mas somente agora e agora e agora e agora», como um tempo que nunca termina, apesar da tragédia.
Cris

Interessante 👏😘
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