Gosta deste blog? Então siga-me...

Também estamos no Facebook e Twitter

segunda-feira, 2 de março de 2026

"Huris" de Kamel Daoud

Já faz algum tempo que li este livro. Gosto de fazer a opinião de imediato e não deixar passar tanto tempo mas a forte impressão com que fiquei quando o acabei, manteve-se até hoje. E vai
permanecer.

Contado na primeira pessoa, por uma mulher, o leitor vai-se apercebendo do aspecto físico da mesma pelas descrições que a própria vai fazendo de si. Possui "um sorriso de orelha a orelha". Dito assim parece um aspecto positivo, uma característica fisica favorável. Mas não. Não mesmo. 

Alva é uma mulher que sofreu, em criança, quando tinha apenas 5 anos, uma mutilação, que sobreviveu a uma tentativa de assassinato e o dito sorriso mais não é que a cicatriz que lhe resta desse ataque bárbaro. Sobreviveu com muitas sequelas físicas (ficou sem voz, respira por uma cânula) e psicológicas.

Este livro é uma carta que Alva escreve à filha que está no seu ventre e que ela trata carinhosamente por Huris mas que não quer que nasça pois o mundo em que vive não é um bom mundo para as mulheres.

A história transporta-nos para a História da Argélia, mais propriamente para a guerra civil que durou 10 anos, entre 1990 até 2000. Dez anos de massacres e violência, de mortes e horror. Pior ainda que essa guerra é o facto de se fingir que ela não aconteceu, que tudo não se passou de um mal entendido. Logo, Alva (com a sua situação física) é uma testemunha indesejável.

Esta história é tambem a história de um livreiro, a história do pai de Huris, das mães que teve, da Argélia desconhecida de muitos.

Com uma escrita muito dura, descritiva, emotiva e forte, este livro penetra aos poucos no leitor, marcando-o. As palavras de Huris, as suas lembranças que só muito lentamente são oferecidas ao leitor, são duras e marcantes.

Vale muito a pena mergulhar profundamente neste livro.

"Deram comigo enfiada num canto, como morta, depois de ter rastejado para debaixo do baú de madeira da minha mãe, aquele onde ela guardava os cobertores grossos. tinha-me arrastado até lá ao longo de um oued vermelho. Muitas vezes escondia-me nesse sítio, quando brincava com a minha irmã. Empurrei a minha cabeça com uma mão e o corpo com a outra; da minha irmã, primeiro, só encontraram a cabeça. Depois os rastros de sangue, como um caminho, indicaram outros cadáveres. Os meus pais, não se conseguiu juntar-lhes os pedaços para os enterrar. Aliás nunca se enterrou ninguém inteiro." pág. 123

Terminado em 10 de Dezembro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse

Sou o verdadeiro vestígio, o mais sólido dos indícios a atestar tudo o que vivemos. Escondo a história de uma guerra inteira inscrita na minha pele desde criança.

Minha pequena Huri, que virias tu fazer com uma mãe como eu, num país que não nos quer, às mulheres, ou só as quer de noite? Conto-te tudo o que puder, mas, a certa altura, será preciso parar. Sou um livro cujo fim é o teu.

Alva é uma jovem argelina com uma tragédia marcada no seu corpo: a cicatriz no pescoço e as cordas vocais destruídas, consequência da guerra civil dos anos 90. Muda, sonha em recuperar a voz. A sua história, só a pode contar numa voz imaginada à filha que traz no ventre.

Mas será que ela tem o direito de ter esta criança? Pode uma mulher dar vida quando a sua praticamente lhe foi tirada? Num país que aprovou leis para punir qualquer pessoa que evoque a guerra civil, Alva decide voltar à sua aldeia natal, onde tudo começou, com a esperança de que os mortos possam dar-lhe as respostas que os vivos lhe negam.

Em Huris, um romance corajoso e comovente , poderoso e lírico, Kamel Daoud restitui aos esquecidos, às vítimas inocentes e aos sobreviventes da terrível guerra civil argelina – e de todas as guerras – a voz que lhes foi roubada.

Cris


Sem comentários:

Enviar um comentário