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terça-feira, 25 de setembro de 2012

A convidada escolhe... O retorno


Comprei este livro porque vi uma entrevista na TV com a escritora Dulce Maria Cardoso e fiquei expectante em relação o ele. Sei que o vou ler. Não sei é quando... (Cris)

"Começo já por dizer que este livro é único!
E porquê? É simples, é o primeiro que leio sobre este tema que não envereda por opiniões de quem das duas uma, estava do lado dos “Retornados” ou de quem simplesmente estava do lado contrário, os da Metrópole que azedamente tiveram de aceitar o retorno.

Dulce Maria Cardoso conta-nos duma forma muito particular o que foi a debandada
de Angola na época da descolonização, na altura da famosa ponte aérea, que trouxe à metrópole cerca de meio milhão de portugueses que estavam em África.

Gostei muito deste livro onde, através da voz de Rui, um adolescente, ficamos a
conhecer o fim do Império e os efeitos da descolonização nos portugueses “de lá” e nos “de cá”.

Na primeira parte conhecemos a sua familia, a mãe com os seus “demónios”, o pai com as suas raivas, a irmã Maria de Lurdes (Milucha) com os seus desejos e Rui com os seus sonhos sobre raparigas bonitas com cerejas nas orelhas a fazer de brincos. É o tempo que antecede o retorno à Metrópole, o tempo em que tudo deixa de ser seu, em que é preciso deixar de lado, bens, sonhos e vivências para fugir e embarcar rumo ao ponto de partida de seu pai quando para fugir à fome embarcou para Angola... Rui, a mãe e Milucha com a ajuda do Tio Zé, embarcam os três rumo a Lisboa e tal como outros milhares de pessoas, encetam uma difícil nova vida, primeiro alojados num hotel no Estoril e mais tarde numa nova casa, já após o regresso tão esperado e ao mesmo tempo inesperado do seu pai.

Na segunda parte, ficamos a conhecer o efeito do choque causado pela vinda para uma uma nova terra, a perda da terra que sempre chamaram sua, a perda dos bens e amigos, a perda das suas vidas, tornando ainda mais chocante e difícil o retorno de uns (os que da Metrópole tinham um dia partido) e desterro de outros (as novas gerações já nascidas em África), somando-se ainda a também difícil aceitação dos habitantes dessa Metrópole que os rejeita, que os vê como usurpadores e exploradores dos “pretos” e posteriores usurpadores e exploradores do que também não lhes pertence já no Portugal Continental. A integração muito difícil, a saudade, as desilusões, (afinal as raparigas da Metrópole nem usam cerejas penduradas nas orelhas a fazer de brincos)... a difícil vivência numa sociedade ainda em pleno processo revolucionário, tornam este retorno uma verdadeira tormenta.

A sociedade da época é-nos retratada pela autora, duma forma objectiva quase cruel mas tão verdadeira! Ao ler as páginas deste livro, lembrei-me muito das palavras cruéis que tanto ouvi nessa época acerca dos “retornados”.

Um livro que se lê quase duma assentada de tão envolvente que se torna e uma lição fantástica de história, de sentimentos, de angustias, de vida... que considero ser necessário para a compreensão da época e que quanto a mim poderá trazer alguma paz a uma sociedade que por vezes ainda denota alguma aversão a esse retorno e refiro- me novamente aos que vieram e aos que já cá estavam... a rejeição foi bi-lateral, é tempo agora de aceitar e seguir em frente, mantendo as memórias livres de acusações e ressentimentos.

Numa escala de 1/10, este livro é um 10 absoluto!"

Teresa Carvalho

1 comentário:

  1. Olá,
    O tema interessa-me, não porque tenha vivido a situação em questão, mas por razões familiares, o meu marido e família foram protagonistas deste drama.
    Deixaram tudo e vieram para uma terra desconhecida e foram de rotulados de retornados, quando não o eram, pois, para muitos era a primeira vez que pisavam Portugal.

    Não fiquei indiferente ao comentário da convidada, Teresa Carvalho, trata-se de um livro único, que eu vou querer ler e muito brevemente.

    Boas leituras.

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