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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A Escolha do Jorge: “Marlboro Sarajevo”


 “O lugar da cabeça é na almofada, o resto é horror puro.” (p. 11)

Nascido na Bósnia, Miljenko Jergović (n. 1966) é considerado um dos escritores mais importantes da sua geração da ex-Jugosláviada. “Marlboro Sarajevo” é uma colectânea de contos publicada, em 1994, numa altura em que decorria o cerco a Sarajevo (1992-1996), no contexto da guerra sangrenta que opôs sérvios e bósnios. A guerra da Bósnia foi o conflito bélico mais agressivo e complexo que a Europa conheceu no pós 2ª Guerra Mundial, numa altura em que a guerra entrava nas casas das pessoas através de imagens que o mundo não acreditava ver novamente.

Durante o cerco a Sarajevo, morreram mais de 12 000 pessoas, na sua maioria civis, além de mais de 50 000 feridos e de uma população que diminuiu para pouco mais de 60% face aos valores antes do início da guerra.

É neste contexto de guerra que Miljenko Jergović nos apresenta um conjunto de histórias de gente anónima que constituem alguns dos episódios dos anos da guerra.

O autor não faz a apologia das vítimas face aos culpados, limita-se a contar as histórias de pessoas singulares, a vida banal, o dia-a-dia e de como tudo ficou diferente nos anos do cerco da cidade. Histórias de sobrevivência face à necessidade de encontrar bens alimentares, água, abrigo e combustível. Não ser apanhado nas emboscadas dos sérvios ou escapar a um qualquer sniper que vigiasse a partir das montanhas é algo que surge inúmeras vezes documentado.

Miljenko Jergović tem o talento de mostrar sentido de humor sem ser chocante na forma como expõe algumas das suas histórias, do mesmo modo que leva o leitor à reflexão de que não há guerras inteligentes, além das vítimas que a guerra provoca, inocentes na sua maioria. A guerra conduz também à perda da racionalidade quando implementa actos de profunda barbárie, em linha com os crimes hediondos perpetrados pelos nazis durante a 2ª Guerra Mundial.

Há histórias de uma violência atroz que nos esmagam e que nos levam a reflectir sobre como é possível um ser humano odiar tanto ao ponto de sacrificar a vida de terceiros. O que há no mundo e na vida que seja o motivo de alguém tirar a vida a outra pessoa? A incompreensão instala-se ao longo de várias histórias porque Miljenko Jergović apresenta aquilo em que o homem se pode tornar, naquilo que de pior pode vir a ser.

Mas Miljenko Jergović alterna com histórias de profunda humanidade em que o espírito de entreajuda e de sacrifício, de partilha e de tolerância face às diferenças culturais de uma cidade que sempre se pautou por ser a cidade mais tolerante do mundo onde coexistiam pacificamente pessoas das três religiões monoteístas capazes de viver em harmonia, na medida do possível como até então.

Contos como “O Senhor” comovem-nos pela sensibilidade que transportam face à capacidade de os homens praticarem a caridade sem olhar a meios, sobretudo numa época de grande contenda e sacrifício para todos. Este é na minha opinião o mais belo conto da presente colectânea. Os gestos de bondade e de gratidão quando menos se espera é algo marcante e de uma lição imensa de humanidade.

Este é seguramente um dos contos em que perante a contrariedade e face a tantas e tantas guerras e conflitos armados que já conhecemos depois da guerra da Bósnia, nos anos 90, leva-nos a ter esperança na humanidade que é capaz de fomentar a paz entre os homens.

Ler “Marlboro Sarajevo” foi uma forma de revisitar Sarajevo e embora tal tenha somente acontecido alguns anos depois da guerra, é uma das cidades que mais me marcaram ao perceber que a sua população tentava ainda sobreviver ao trauma da guerra, não esquecendo os sinais evidentes das marcas das balas e granadas nos edifícios, das milhares de pedras tumulares muçulmanas dispostas nas encostas da cidade por ter havido necessidade de encontrar solo para enterrar os mortos porque os cemitérios não eram suficientes ou das pessoas que iniciavam as conversas com “Antes da guerra…” ou “Depois da guerra…” Havia sempre um antes e um depois da guerra porque essa pareceu-me que ainda era visível nos seus rostos e pensamentos.

“Marlboro Sarajevo” de Miljenko Jergović constitui uma surpresa literária a par de ser uma obra que se impõe nos dias complexos em que vivemos, numa altura em que ódio e racismo marcam presença assídua nas televisões, impondo-se gradualmente como se se tratasse de algo natural ao ser humano e à humanidade, da Mentira que aos poucos adquire rosto de Verdade.

Num contexto de guerra, “Marlboro Sarajevo” é também um hino à civilização, a tudo quanto o homem ao longo da História construiu como forma de legado para as gerações futuras.

Excertos:
“O ódio que eu conhecia era demasiado individual para que dele nascesse um mal colectivo. Os Bósnios odiavam demoradamente, com persistência e deleite, mas em completa desorganização. Tinha de chegar alguém com canhões, tanques e aviões para organizar esse ódio. Quem detonava o morteiro, tive a sensação disso, fazia-o para matar alguém próximo de si, alguém que tinha insultado com demasiada frequência, e com quem provavelmente resolveria os seus mal-entendidos numa rixa de café. Com os punhos ou com a faca.” (p. 140)

“Todos os dias a situação confirmava cada vez mais a Mentira sobre o ódio bósnio, a mentira sobre este país de intolerância glacial. Mas como ninguém fez nada pela Verdade, ela deixou de funcionar como argumento. Se alguma vez escreverem uma História, não acredito que ela seja tão pouco mencionada. Nem sequer como uma nota de rodapé. A Verdade será ofensiva, mesmo se alguém se atrever a dizê-la, tanto para os Sérvios como para os Croatas e os Muçulmanos. Os primeiros incitaram ao crime e cometeram-no, e os outros, na sua desgraça, acreditaram que aqueles tinham razão, que tinham de pensar como eles e fazer o que eles faziam. Tudo o que acontecer a seguir será apenas o reflexo dessa catarse do Mal, mas não terá nenhuma ligação com o que a Bósnia e Sarajevo eram.” (p. 142)

“Não se pode registar nem memorizar todas as bibliotecas particulares da cidade de Sarajevo que foram incendiadas. Também não existe ninguém para quem merecesse a pena fazê-lo. Mas como a chama de todas as chamas e o fogo de todos os fogos, como a cinza e o pó finais e míticos, recorda-se o destino da Biblioteca Universitária de Sarajevo, a famosa Vijecnica, cujos livros arderam durante um dia e uma noite. Isto aconteceu, depois de um silvo e de uma explosão, há exactamente um ano. Talvez na mesma data em que tu estás a ler isto. Acaricia com ternura os teus livros, forasteiro, e lembra-te que são pó.” (pp. 153-154)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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