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terça-feira, 28 de abril de 2015

Resultado do Passatempo Planeta


O Tempo Entre os Meus Livros anuncia mais um resultado de um passatempo que teve todo o gosto em realizar! Assim, dos 307 participantes foi seleccionado o n* 28 que corresponde a:

- Catarina Priolé de Alenquer

Muitos parabéns! A editora Planeta Manuscrito enviar-te-á o livro brevemente!

Para ler o meu comentário ver aqui!

Resultado do Passatempo Presença


Anunciamos aqui o vencedor deste passatempo que receberá o livro Mãe de Alejandro Palomas.

Dos 348 participantes foi seleccionado o n*84 que corresponde a:

- Rosana Maia de Macieira da Maia

Muitos parabéns! A Editorial Presença enviar-te-á o livro muito em breve. Espero que gostes tanto quanto eu.

Para mais informações sobre o livro veja aqui! Para leitura do meu comentário veja aqui!

Resultado Passatempo Marcador

segunda-feira, 27 de abril de 2015

"Hotel Sunrise" de Victoria Hislop

Desta autora li A Ilha, livro que me deixou apaixonada pela sua escrita, e A Arca. Ambos com contextos históricos muito específicos, com uma pesquisa muito completa, o que me agradou verdadeiramente. E era isso que buscava nesta obra. Sem tomar muita atenção à sinopse, andei a pairar na leituras das primeiras páginas esperando que a mesma magia acontecesse...

Isso sucedeu realmente mas só depois de ter compreendido a situação política de Chipre, visto que infelizmente pouco sabia do assunto. E Victoria Hislop, sabiamente, fez o favor de me ir explicando no decorrer da acção. Certo, certo, é que a meio do livro estava rendida de novo à sua escrita e envolvida numa trama cheia de momentos de tensão e suspense.

Gostei particularmente de poder chegar ao fim e de não poder afirmar quem tinham sido os personagens principais nem sequer, ao longo da leitura, perceber quem seriam os "bons/maus da fita"! Na primeira metade do livro, com o romance entre Aphroditi e Markos depreendemos que esta obra irá girar em torno destes dois personagens mas depressa verificamos que não é esse o caso. Pela importãncia que o Hotel Sunrise irá ter na vida dos intervenientes deste romance atrever-me-ia a escolhê-lo como o "personagem principal", junto do qual os ódios, os amores, as traições, as ambições, o sentido do dever tomam entre os cipriotas turcos e gregos tomam uma grande dimensão.

Duas famílias unidas pela amizade e separadas por lados diferentes de uma guerra sem sentido e que fez muitos mortos.

Se ainda não leram nenhum romance desta autora têm aqui uma boa oportunidade para o fazer. Recomendo!

Terminado em 27 de Abril de 2015

Estrelas: 4*+

Sinopse

Famagusta, no Chipre, é uma cidade dourada pelo calor e pela sorte, o resort mais requisitado do Mediterrâneo. Um casal ambicioso decide abrir um hotel que prime pela sua exclusividade, onde gregos e cipriotas turcos trabalhem em harmonia.
Duas famílias vizinhas, os Georgious e os Özkans, encontram-se entre os muitos que se radicaram em Famagusta para fugir aos anos de inquietação e violência étnica que proliferam na ilha. No entanto, sob a fachada de glamour e riqueza da cidade, a tensão ferve em lume brando…
Quando um golpe dos gregos lança a cidade no caos, o Chipre vê-se a braços com um conflito de proporções dramáticas. A Turquia avança para proteger a minoria cipriota turca e Famagusta sucumbe sob os bombardeamentos. Quarenta mil pessoas fogem dos avanços das tropas.
Na cidade deserta, restam apenas duas famílias. Esta é a sua história.

domingo, 26 de abril de 2015

Ao Domingo com... Paula Dias

Preciso sempre de ter desafios paralelos na minha vida, para lhe dar sentido.
Há trinta anos que passo os meus dias a escrever em jargão jurídico. Sempre escrevi muito. Diários, cartas, bilhetes, pequenas histórias, contratos e pareceres. Depois de ter montado uma oficina de joalharia para trabalhar ao serão e aos fins-de-semana, mudei de casa e fiquei sem espaço. Dediquei-me à pintura. Estudei bastante. Viajei. Visitei muitos museus. Durante mais de 15 anos, pintei quadros a óleo. O cheiro da terebentina enlouquecia as pessoas lá de casa e estávamos todos à beira de um ataque de nervos. Também já não havia paredes para colocar os quadros e os amigos até faziam má cara quando - por vezes, a propósito de nada - eu os visitava com um quadro debaixo do braço.
Percebi que tinha que mudar de atividade paralela. Mudar de ramo. Isso. Enquanto comia as passas na madrugada do primeiro dia de 2012, decidi que me ia dedicar à escrita. Lá em casa aplaudiram com entusiasmo e, não fosse eu mudar de ideias, ofereceram-me um curso de escrita criativa na, já extinta, “Companhia do Eu”. Logo nas primeiras aulas consegui ser a pior aluna da turma. Textos sem piada e sem ritmo. Falta de hábito para gerir o tempo e para seguir instruções. Estranhei, mas habituei-me. E achei graça. Achei muita graça. O tempo passava muito depressa e passei a gostar do que escrevia. A seguir a esse primeiro curso, vieram muitos outros. Por vezes, com escritores diferentes. Mas, o que é certo, é que voltava sempre aos cursos do meu “mentor”, o escritor e poeta Pedro Sena-Lino, que é o professor de escrita mais entusiasta do mundo. Brilhante, diria eu!
E fui escrevendo contos. Escrevendo sempre. Por vezes, participava em concursos para antologias e outras compilações. Um par de desilusões e algumas injustiças. Nunca gostei de mudança de regras a meio do jogo.
Também num curso de escrita criativa, conheci algumas pessoas que, como eu, gostavam de ter uma tertúlia de leitura. E foi assim que nasceu a “Roda dos Livros”, onde me foram sendo aconselhados novos autores e onde conheci algumas das novas tendências. Sempre li bastante mas, na hora de escolher, era muito conservadora e, talvez até, um pouco preconceituosa. A “Roda dos Livros” tem a enorme utilidade de nos depararmos com “leituras diferentes” da mesma obra, de acordo com o leitor em questão. E isso, para além de tudo o mais (e o mais é muito), é mesmo enriquecedor.
Em agosto de 2014, parti uma perna em três sítios. Coisa feia. Fui operada e fiquei três meses em casa. A recuperação não estava a correr bem e adivinhavam-se novas cirurgias. Mas - soube na véspera de Natal - tinha que esperar mais três meses para ver o que era preciso fazer. Era muito tempo. O tempo iria tardar a passar, a não ser que arranjasse um projeto de que gostasse muito e que me mantivesse viva. Estava quase a fazer 50 anos e queria estar, nessa data, a dançar o tango em Buenos Aires (era um objetivo antigo). Um desiderato impossível, já que andava mal (e não dançaria o tango nem coisa nenhuma) e estavam desaconselhadas as viagens longas de avião.
E, foi assim, que surgiu a ideia do livro “três pianos e outros exercícios”, numa edição de autor. Seria o presente que daria a mim própria para comemorar os 50 anos e que, depois, partilharia com os amigos, na brincadeira.
A escolha dos contos foi instintiva e – quase - de impulso. Um porque tinha sido o primeiro que escrevi “três pianos”, outros porque me lembravam situações da vida e momentos (bons e maus) e o último que escrevi “a Glória do arroz-doce”, que me parecia ser o mais equilibrado de todos.
Pressenti, a certa altura, que o meu sentido “de estética” iria ficar abalado se o livro-objeto não ficasse bonito. Muito bonito.
Já muito em cima do acontecimento (o dito dia dos meus anos), telefonei à Patrícia Reis, para me ajudar no design. A sua extraordinária generosidade levou-a a “alinhar” na brincadeira e, através do Atelier 004, aceitou participar no projeto. Foi tudo muito rápido e duma eficácia notável. Enviei os textos e umas fotografias que a minha amiga Lisa Vaz me tinha tirado num passeio pelos miradouros de Lisboa. E, deixei a Patrícia trabalhar.
Os livros chegaram antes da data prevista. E, surpresa das surpresas: eram mesmo como eu os tinha imaginado e tinham os cantos redondos. Tinham os cantos redondos. Isso era mesmo o que eu mais queria.
E a brincadeira continuou. Fiz um jantar de anos e os livros, embrulhados e com fitas, decoravam as mesas ao centro. Surpreendi a família e os amigos com essa primeira partilha. Decidi, com a ajuda de amigos e da “Pessoa e Companhia – Associação Cultural”, fazer uma apresentação de “três pianos e outros exercícios” à séria, com direito a música, arroz-doce e vinho tinto. O Pedro Sena-Lino enviou de Bruxelas um texto lindíssimo “Uma Galáxia Por Dentro”, que foi lido pela Isabelina Jorge, minha amiga das andanças dos cursos de escrita. O Jorge Alexandre Navarro apresentou o livro e a Isabel Castelo Branco leu uns excertos. Vieram ao meu encontro sorrisos bonitos e inspiradores (os amigos da Roda dos Livros e do Coletivo Nau, e tantos outros amigos e familiares). Foi mesmo “um sábado para a categoria dos dias bem vividos”, como escreveu no dia seguinte o Paulo M. Morais. E, assim, partilhei ainda mais livros.
Agora, não sei bem o que vou fazer. Muito em breve, vou tomar umas “vitaminas para a imaginação” com o Pedro Sena-Lino e com a Patrícia Reis e, depois, logo se vê. Não penso abandonar a escrita (e até tenho uma biografia em mente - se a pessoa em causa concordar - e já sei onde mora o protagonista do meu romance; não falta tudo, portanto), mas gostava de descobrir um projeto que, de alguma forma, juntasse a escrita à pintura. Podia, talvez, optar pelas tintas de acrílico, para não arranjar problemas em casa…  
Paula Dias

sábado, 25 de abril de 2015

Na minha caixa de correio

  

  

  


Ofertas gentil das editoras:
O Luto de Elias Gro da Companhia das Letras,
Rainhas Malditas e Desejo de Chocolate da Planeta,
Mistério na Califórnia da Quinta Essência,
Nô e Eu da Editora Guerra e Paz
O Outro Lado da Guerra Colonial da Esfera dos Livros 
A Perfumista da Suma de letras
O meu muito obrigada! 
Comprados numa loja Cash Converters por €1,5 e €2,5: 
Afastado e Mapa para Amantes Perdidos.




sexta-feira, 24 de abril de 2015

Novidade Sextante Editora

O Meteorologista

de Olivier Rolin
A sua ocupação eram as nuvens. Sobre a imensa extensão da URSS, os aviões tinham necessidade das suas previsões para aterrar, os navios para abrir caminho através dos gelos, os tratores para lavrar as terras negras. Na conquista do espaço que se iniciava, os seus instrumentos sondavam a estratosfera, ele sonhava domesticar a energia dos ventos e do sol, acreditava «construir o socialismo», até ao dia de 1934 em que foi detido como «sabotador». A partir desse momento a sua vida, a de uma vítima por entre os milhões de outras do terror estalinista, foi uma descida aos infernos. Durante os anos no campo de concentração, e até à véspera da sua morte atroz, ele enviava à pequena filha Eleonora desenhos, herbários, adivinhas. É a descoberta dessa correspondência destinada a uma criança, que ele não mais voltaria a ver, que me levou a investigar sobre o destino de Alexei Feodossevitch Vangengheim, o meteorologista. Mas também a convicção de que estas histórias de um outro tempo, de um outro país, não são tão longínquas como poderíamos pensar: o triunfo mundial do capitalismo não se explica sem o fim terrível da esperança revolucionária.

Convite Companhia das Letras


Novidade Sextante

A sua ocupação eram as nuvens. Sobre a imensa extensão da URSS, os aviões tinham necessidade das suas previsões para aterrar, os navios para abrir caminho através dos gelos, os tratores para lavrar as terras negras. Na conquista do espaço que se iniciava, os seus instrumentos sondavam a estratosfera, ele sonhava domesticar a energia dos ventos e do sol, acreditava «construir o socialismo», até ao dia de 1934 em que foi detido como «sabotador». A partir desse momento a sua vida, a de uma vítima por entre os milhões de outras do terror estalinista, foi uma descida aos infernos.
Durante os anos no campo de concentração, e até à véspera da sua morte atroz, ele enviava à pequena filha Eleonora desenhos, herbários, adivinhas. É a descoberta dessa correspondência destinada a uma criança, que ele não mais voltaria a ver, que me levou a investigar sobre o destino de Alexei Feodossevitch Vangengheim, o meteorologista. Mas também a convicção de que estas histórias de um outro tempo, de um outro país, não são tão longínquas como poderíamos pensar: o triunfo mundial do capitalismo não se explica sem o fim terrível da esperança revolucionária.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A Escolha do Jorge: Uma Vida à Sua Frente

"Uma Vida à sua Frente" foi escrito sob o pseudónimo de Émile Ajar tendo garantido a Romain Gary a atribuição do Prémio Goncourt em 1975 pela segunda vez.
Contado pela voz de Momo, uma criança árabe de dez anos, vai levar-nos ao coração de Paris depois da guerra estando em casa de Madame Rosa desde bebé na sequência da morte da mãe e por pedido do pai.
Madame Rosa é uma judia polaca, antiga prostituta, que acabou por ir viver para França até ter sido enviada para Auschwitz, tendo acabado por sobreviver. Regressada a Paris depois da guerra, Madame Rosa retoma novamente a sua vida como prostituta até que atingindo certa idade, decide acolher crianças, filhos de outras prostitutas judias e árabes que se "defendem" como podem nas ruas de Paris sob a caução de dinheiro que tarda sempre em chegar.
O pequeno Momo vai descrevendo a vida daquele apartamento que se situa num sexto andar e com todo o corrupio de entra e sai de crianças que são deixadas ao cuidado de Madame Rosa, assim como dos amigos habituais que são solidários com a causa de Madame Rosa que se mantém ilegal naquele país.
Parafraseando Momo, entre "proxinetas", "travestitas", "p***s", cada um "defende-se" nas ruas de Paris para ser feliz e para ter algum dinheiro para sobreviver para o dia-a-dia dos seus filhos entregues a Madame Rosa.
À medida que a narrativa avança, também a idade de Madame Rosa não se faz perdoar e esta senhora que tanto tem feito pelos pobres e combalidos que tanto se "defendem" nas ruas em busca de uma vida melhor, a Madame Rosa começa aos poucos a perder as suas faculdades mentais ao ponto de deixar de conseguir interagir com as pessoas à sua volta.
Aos poucos, Momo assume as rédeas daquele apartamento na medida em que Madame Rosa por também ter graves problemas de mobilidade graças ao aumento significativo de peso deixando de conseguir sair de casa.
Momo com a ajuda da vizinha "travestita", Madame Lola, um ex-bouxeur senegalês que também se "defende" nas ruas de Paris, auxilia estes vizinhos com comida e dinheiro como forma de enfrentar o dia-a-dia com dignidade.
À medida que Momo vai descrevendo a perda das faculdades mentais de Madame Rosa, assim como os poucos traços de beleza que ainda lhe restam como vestígios dos tempos em que se "defendia" com grande estilo nas ruas de Paris, Momo vai-se adaptando à dura realidade da eventual perda que se avizinha.
É neste contexto que Momo tudo faz para que Madame Rosa se sinta feliz e acarinhada, compreendendo que face à inevitabilidade da natureza, também ele se encontra só no mundo. É a partir do momento em que toma consciência de que afinal é mais velho do que aquilo que o fazem parecer, que Momo assume uma atitude de grande responsabilidade perante aquela que sempre o protegeu e que de alguma forma é a sua mãe adoptiva assim como a única pessoa que tem no mundo.
É perante esta tomada de consciência que Momo se opõe às leis da natureza interrogando-se tantas vezes por que razão é permitido às pessoas mais novas abortar, não sendo possível, por outro lado "abortar" os idosos para que não sofram mais.
A forma inocente e doce de abordar alguns dos temas que preocupam a sociedade contemporânea é algo único e magistral na medida em que todo o género de preconceitos que assolam a nossa forma de pensar são aqui trazidos por Momo de uma forma carinhosa dando a ideia de os problemas da sociedade poderem ser resolvidos de modo extremamente simples ao contrário dos adultos que tudo complicam.
Se este livro traz consigo momentos que nos fazem esboçar inúmeros sorrisos, uma coisa é certa, não ficamos indiferentes às atitudes do jovem Momo que demonstram a essência do verdadeiro amor ao próximo.
"Uma Vida à sua Frente" é um livro que nos marca profundamente graças à sua magistral beleza. É a sua dimensão ética e estética que transformam este livro numa obra de arte! Uma vez que nem sempre aprendemos uns com os outros, ao menos que haja livros que são verdadeiros compêndios para a vida.

Excertos:
"A felicidade é uma bela porcaria, uma velhaca, e seria bom ensinar-lhe a viver. Não estamos do mesmo lado, ela e eu, e não me ralo com ela. Nunca me meti na política, ainda, porque alguém fica sempre a ganhar contra os outros, mas deviam existir leis para impedir a felicidade de se armar em sacana." (p. 60)

"Depois [Madame Rosa] pediu o seu roupão cor-de-rosa mas não conseguimos enfiá-la lá dentro porque era o seu roupão de p*** e tinha engordado demais em quinze anos. Eu acho que não se respeita as velhas p**** como se deve, em vez de persegui-las quando são novas. Eu, se pudesse, cuidaria somente das velhas p**** porque as novas têm proxinetas, mas as velhas não têm ninguém. Escolheria só aquelas que são velhas, feias e que não prestam para nada, seria o proxineta delas, ocupar-me-ia delas e faria reinar a justiça. Seria o maior chui e proxineta do mundo e, comigo, ninguém mais veria uma velha abandonada chorar no sexto andar sem elevador." (p. 90)

"A Madame Rosa tinha agora ausências cada vez mais prolongadas e passava às vezes horas inteiras sem sentir nada. Pensei no cartaz que o Senhor Reza, o sapateiro, afixava para dizer que, em caso de ausência, era favor dirigir-se a outro sítio, mas nunca soube a quem me dirigir, porque alguns até chegam a apanhar a cólera em Meca. Sentava-me no banco ao lado dela, agarrava-lhe na mão e esperava pelo seu regresso." (p. 103)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 22 de abril de 2015

"Mãe" de Alejandro Palomas

Que surpresa boa foi ler este livro! Não tinha quaisquer expectativas e, por vezes, isso é um bom começo. Significa que estamos abertos a qualquer discurso, a qualquer história que se nos apresentar.

Mas esta não é uma história qualquer. O relato dos vários acontecimentos que influenciaram os membros de uma família é-nos contado por Fer e tem como ponto de partida o jantar de final do ano que sua mãe, Amália, tenta fazer correr na perfeição. Nada poderia correr mal, e não fora a sua propensão para o desastre e tolices várias que nos fazem gargalhar (mesmo!), teria sido a noite perfeita...

Fer analisa os comportamentos da mãe e das duas irmãs, mas, sobretudo, analisa o seu comportamento. Os segredos são desvendados aos poucos, o passado é analisado, as pontas soltas deixadas sabiamente ficar em determinados páginas começam finalmente a fazer sentido e, deste modo, a narrativa consegue manter o suspence mesmo até ao fim.

Não posso deixar passar em branco a caracterização tão bem conseguida de Amália, a mãe. Com atitudes que chegam a roçar a infantilidade, que nos levam facilmente às gargalhadas, uma inocência que já não é admitida nem própria da sua idade, vai revelando aos poucos o seu profundo conhecimento das necessidades e carências dos filhos. Fazendo girar tudo e todos à sua volta, consegue levá-los a analisar os seus comportamentos, alterando-os se necessário.

Um livro que se revelou mais profundo do que a leitura da sinopse dava a entender. Gostei muito e recomendo por isso.

Para mais informações veja Editorial Presença aqui!

Terminado a 21 de Abril de 2015

Estrelas: 5*

Sinopse

Na cosmopolita Barcelona, celebra-se mais uma passagem de ano e aproxima-se a meia-noite. Amalia, aos 65 anos, consegue finalmente realizar o seu sonho: reunir toda a família. Mãe, obra narrada pela voz do filho mais velho, conta a história desta mulher encantadora e combativa, de uma alegria contagiante, que com a sua imensa generosidade entretece uma rede de fios invisíveis que liga e protege os seus, e é capaz de aliviar o silêncio de uns e inspirar outros a acreditar na vida. Amália sabe que é o momento de agir e não está disposta a deixar que nada a desvie do seu propósito. Uma história que arrebatará o coração de todos aqueles que a lerem e que é uma verdadeira homenagem a todas as mães do mundo.

terça-feira, 21 de abril de 2015

A convidada escolhe: "APÁ SÓCE, DESLARRGAME DA MÃO" E NÃO SÓ

Depois dum prolongado e profundo silêncio, mas sempre acompanhada da companhia fiel e amiga dos livros, não consegui resistir ao apelo do meu herói de Setúbal.
Chegou-me há dias à caixa do correio o pequeno pacotinho do 3º livrinho, depois duma hilariante conversa telefónica travada no 1º de Abril. Moral da história: serão prolongado, recheado de boa disposição e excertos lidos em voz alta.
Com a graça a que Rui Garcia (perdão, o Charroque) já me habituou, desta feita fez um apanhado de 38 posts do bem humorado blog com algumas daquelas minhas personagens já minhas conhecidas.
Vai daí. dei comigo a pensar num romance histórico que em tempos li e me arrebatou, da autoria de Alice Brito chamado "As mulheres da Fonte Nova".
Saltei da cama, fui à estante e com delícia reli um excerto sublinhado que não resisto a partilhar.
Então lá vai.
..."Pátria, mesmo, era a cidade. Até a língua própria tinha, com os erres a dobrarem-se ali num ângulo da gorja. Quem quiser sentir esta cidade tem de falar a sua língua. Os lábios têm de tentar arranhar os erres da sardinha, do carapau, e do xarroco, que se estendem algures entre o céu-da-boca e a garganta; a memória deve fixar os tiques linguísticos nasalados que cortam ou amachucam, por vezes as últimas sílabas.
Mesmo que não se consiga uma imitação perfeita já é uma tentativa de entendimento, um passo em direcção à alma única que se esconde nesta pronúncia singular, neste texto expressivo que a cidade recita já há séculos e ninguém ouve, ou quando ouve é para troçar, esse esforço, esse arranhão do pio.
Esta pronúncia, esta especial coreografia da fala, é a cidade nascida da cidade. Respeito, respeitinho, porque normalmente a cidade-pronúncia é de várias gerações com genealogias de mar, de grão salino, portanto de sangue de um azul que o rio emprestou".

Ana Mafalda Salvado

Nota:
Por dificuldades técnicas não se conseguiu verticalizar a foto do livro, encontrando-se na horizontal.
Cris

segunda-feira, 20 de abril de 2015

"A Lista de Prioridades" de David Manasche

Quando alguém me diz que não consegue ler livros como este, relatos de casos verídicos sofridos, fico sempre com a certeza que se lessem algum do género acabariam por gostar tal é a fonte de aprendizagem em que consistem. Saber que alguém passou e sentiu o que descreve é, para mim, um acto de coragem, de bravura, que admiro muitíssimo e que respeito de igual modo. Não consigo ficar indiferente a estas leituras. Nem quero tao pouco!

Todos aqueles que passaram por uma situação de doença grave afirmam que mudaram radicalmente a sua vida. Pelo menos começaram a olhá-la e a vivê-la de forma diferente.
David Menasche era professor. Adorava sê-lo. Mas mais do que ensinar ele estabelecia uma forte ligação com os seus alunos. Ajudava-os a crescer ao fazê-los auto-descobrirem-se. Uma das coisas que habitualmente fazia era pedir que fizessem uma lista de prioridades, fornecendo vários itens que teriam de colocar por ordem de preferência. Ele próprio, num momento especial da sua vida, fez a sua lista.

Esta é a história de uma viagem. A viagem de uma vida feita com muita dedicação. Mas é também é uma viagem de aceitação da morte, ao fim de seis longos anos a lutar contra ela, de aceitação das suas dependências, das suas incapacidades.

Um livro enriquecedor que, sem ser lamechas, nos comove sobretudo pelos testemunhos dos seus (tantos!) alunos. Um livro onde a força de viver faz impossíveis!

"Até ao meu último suspiro, viverei!"

Terminado a 16 de Abril de 2015

Estrelas: 5*

Sinopse

O professor David Menasche tinha 34 anos quando lhe foi diagnosticado um tumor cerebral. Durante 6 anos submeteu-se a diversos tratamentos, na esperança de ultrapassar a doença. Até ao dia em que ficou paralisado de um braço e praticamente cego. Perdeu uma parte da memória e, pior, perdeu a capacidade de ensinar. Naquela que seria a decisão mais dolorosa da sua vida, abandonou o ensino e os seus alunos. No entanto, convicto de que queria viver o tempo que ainda lhe restava com dignidade e autonomia, David Menasche interrompeu os tratamentos e partiu numa viagem inspiradora pelos EUA, levando apenas a sua bengala e, às costas, a sua mochila. Acolhido por antigos estudantes seus, ultrapassou obstáculos, viveu experiências memoráveis, aprendeu lições de valor incalculável e tornou-se, ele próprio, um aluno. O cancro acabaria por vencer a batalha, mas ele nunca deixou, verdadeiramente, de viver.

domingo, 19 de abril de 2015

Ao Domingo com... João Felgar

Quem convive de perto com escritores reconhece neles esse traço canibal de que falo. Quando se deixam ficar calados, como se fossem só olhos e ouvidos, e absorvem tudo quanto está à sua volta. Um timbre de voz que acompanha a mentira, o gesto de afastar a franja da testa, uma expressão de indiferença que se faz com a mão, como quem sacode uma mosca, o olhar da gula, o silêncio que acompanha a inveja, o toque das unhas no tampo da mesa, a exuberância do riso onde se esconde o primeiro ciúme, acabado de surgir. Em casos piores, é a própria história dos outros que engolem e ruminam ao longo de anos, misturando-a sem critério com coisas passadas com as empregadas da casa, ou ouvidas no metro. A arte do escritor, a existir, está nessa mistura que ele faz, de forma a tornar irreconhecível e anónimo aquilo que vai debicando aos outros, tudo envolvido numa ética onde o questionamento prepondera sobre a regra. Mary Shelley, que teve uma vida muito desregrada em amantes e em dívidas, retrata bem esse tipo de processo criativo na forma de um monstro feito a partir de bocados de gente falecida. Uma ideia que aflorava a genialidade, pelo menos na perspetiva do seu criador, Victor Frankenstein, um jovem cheio de cultura e carregado de boas intenções, e por isso mesmo muito propenso ao desastre. Morre extenuado e pesado por muitas angústias, depois da criatura ter matado todos quantos lhe eram queridos.

Eu nunca tive grande convívio com escritores, até ao dia em que me tornei um. Perdoe-se-me o pretensiosismo, mas não sei em que momento, ao certo, se deixa de ser alguém que escreve livros e se passa a ser escritor. Seja lá o que for, a verdade é que vou dando por mim, não poucas vezes, a fazer de conta que não estou presente enquanto ouço as conversas dos outros, um pouco como fazem os cães quando fingem que estão a dormir. São capazes de estar a ressonar, mas abanam o rabo se nos ouvem a falar deles. Eu, poucas vezes digo que uma história que me contam é interessante, e mostro-me alheado se me dizem “a minha vida dava um livro”. A maior parte das vezes não dá, mas nem por isso se deita fora. Dez anos depois, pode vir a ser preciosa. Isto faz com que tenha a memória cheia de coisas assim, sem que me entregue ao esforço de as catalogar, ao ponto de não saber já se as li em livros, se as vi em filmes, ou se me foram contadas em confidência. Talvez um dia tudo isso se misture na medida certa, e apareça nas páginas de um livro.

As pessoas não levam a mal esses aproveitamentos de fraca honestidade. Pelo contrário, à segunda ou terceira pergunta que fazem, estão a querer saber se tive conhecimento daquelas histórias através da minha profissão, ou se são ajustes de contas com gente da minha família. Como se isso as deixasse mais sossegadas, por haver coisas que, a serem inventadas, seriam reveladoras de uma mente cheia de problemas e de assuntos mal resolvidos. Hoje gosta-se da história “inspirada em factos reais”. Creio que sempre foi assim, mas antes escondia-se esse aspecto e era uma vergonha quando se descobria. A “ficção-falsa” deixou de ser uma impostura para se tornar num género literário com grande saída. O facto do escritor ser jornalista, antigo polícia ou alguém que anda pelos tribunais, garante que tudo o que está escrito é verdadeiro, sendo isso meio caminho andado para o sucesso. Dizem-me, porque eu até agora ainda não tive essa confirmação. Seguindo a mesma tendência, os romances de época são escrutinados como se fossem teses de mestrado, sendo o mais ligeiro desvio à verdade interpretado como grave falha de rigor. Dá a ideia que o contacto com a realidade (presente ou passada) passou a ser feito através da leitura de romances. Ou, por outras palavras, o real tornou-se lúdico – o que não era novidade nenhuma desde os tempos em que decidiram fechar pessoas dentro duma casa, para filmá-las enquanto cozinham, tomam banho e se espreguiçam em fato de treino, transmitindo depois tudo em horário nobre.

O fenómeno, no que toca à literatura, cai que nem uma luva ao escritor, que se vê assim poupado a inventar histórias e personagens, sempre no receio de que nada daquilo pareça real. A verosimilhança, que é um dos muitos alçapões da escrita, deixou de ser inquietante para quem faz disto vida. E o canibal, que antes se fingia de morto enquanto se alimentava de histórias e gestos alheios, passeia-se agora a descoberto e assina autógrafos, sujeito apenas à lei de Lavoisier – um homem indubitavelmente inteligente, que se tornou conhecido por via de uma ideia pertencente a Anaxágora de Clazómenas. Morreu guilhotinado, depois de um período de relativa glória e reconhecimento público.

Quanto a mim, acabado de chegar, hesito.  

João Felgar

sábado, 18 de abril de 2015

Na minha caixa de correio

  

  

  


Ofertas das editoras:
Mãe e Tempo de Partir da Editorial Presença.
Mary Berg e A Lista de Prioridades da Vogais e Nascente
O Bom Alemão veio do Clube do Autor.
Adquirido numa loja Cash Converters por €2, Caos Calmo e por €6, O Filho Pródigo.
Do JN ganhei o Guia Completo Anti-Cancro e Viagem ao Infinito.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Novidades Marcador

A PRINCESA AZUL
de Filipa Sáragga
No Reino Distante, do amor do Rei Grande e da Rainha Luz, nasce uma princesa de pele azul chamada Clara. Como todos aqueles que são diferentes, Clara, a princesa que é azul, cresce para ser amada por muitos e a ser discriminada por outros. À medida que cresce vai ter que enfrentar o bom e o mau, o justo e o injusto. A maldade que lhe infligem por ser diferente faz com que Clara chegue ao limite das suas forças e com essa dor parte à procura de uma solução, e quem sabe, bem lá no fundo também à procura de si mesma. Com a companhia da Rosa- Baú e com a ajuda dos seus sete cristais Clara vai aprender a amar, a perdoar, a respeitar, agradecer tudo o que é essencial nesta vida. 

Coração de mãe nunca se engana 
de Maria Inês Almeida
Maria Inês Almeida, a autora deste livro, encontra no seu filho, José, o parceiro ideal para escrever a mais bela das histórias. A história da vida que todos os dias liga uma mãe a um filho. Em textos simples e cheios de sabedoria, percorrem juntos um caminho que os leva a descobrir o mundo, a vida, a amizade e o amor. São momentos sinceros, divertidos, profundos, verdadeiros que não vão deixar o leitor indiferente.


A Alquimista das Cores 
de Aimee Bender
Um acontecimento traumático ocorre quando uma rapariga de cabelos dourados aparece num pomar de maçãs; uma mulher põe em prática uma fantasia com o marido e descobre que não consegue regressar à sua antiga vida sexual; uma mulher muito feia casa com um ogre e debate-se com a decisão de o deixar ou não, depois de ele devorar os filhos por acidente; e duas irmãs viajam até ao coração da Malásia, onde uma delas aprende a arte de cerzir tigres cujas listas se rasgam.

Convite Nascente


Novidade Oficina do Livro

VIVER COM DOENÇAS SEM SER DOENTE
de Maria José Costa Félix
As doenças podem ser uma experiência positiva. Ter a importante função de nos empurrar para a essência do que somos, convidando-nos a aproveitar ao máximo a vida que nos é dada, num qualquer estado de saúde. Podem revelar-nos, até quando parecemos uma pessoa frágil e sem luz, que existe uma força maior e fazer-nos vislumbrar a essência da vida.
Aqui ficam quinze casos e testemunhos de quem conseguiu ter uma atitude positiva perante a doença e de profissionais com experiência nesta área.
O nosso verdadeiro estado de saúde depende, não tanto das doenças que temos, mas sobretudo de como aceitamos o facto de podermos adoecer e das doenças poderem vir ter connosco. Poderá haver pessoas que, embora sem terem doenças, se sentem doentes e outras que, com uma doença grave, se sentem saudáveis apenas porque continuam ativas e interessadas pela vida. 

Novidade Presença

Tempo de Partir
de Jodi Picoult
Durante mais de uma década, Jenna Metcalf não deixa de pensar na sua mãe, Alice, que desapareceu em misteriosas circunstâncias na sequência de um trágico acidente. A criança que era então não conservou lembranças dos acontecimentos, mas Jenna recusa-se a acreditar que a mãe a tivesse abandonado e relê constantemente os diários que ela escrevia com as observações da sua pesquisa sobre elefantes, tentando encontrar uma pista oculta. Desesperada por obter respostas, Jenna contrata dois improváveis ajudantes, uma médium famosa por encontrar pessoas desaparecidas e um detetive que já tinha estado envolvido na investigação do desaparecimento de Alice, e parte determinada a descobrir a verdade.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A escolha do Jorge: O Diário de Mary Berg

"O Diário de Mary Berg" foi publicado inicialmente em 1945, aproximadamente um ano depois de a autora ter chegado aos EUA após ter sobrevivido à experiência de três longos anos no gueto de Varsóvia, seguidos de seis meses na prisão Pawiak nas proximidades do gueto e ainda outros seis meses num campo de internamento, em Vittel (França) a aguardar troca de prisioneiros para então poder viajar em segurança rumo aos EUA.
O livro chega-nos agora às livrarias na sequência da comemoração dos 70 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz sendo, pois, mais uma preciosidade que ficamos a conhecer e que de alguma forma nos alarga o conhecimento no que respeita à construção do gueto de Varsóvia assim como ao seu funcionamento.
Contado na primeira pessoa, Mary Berg é filha de uma judia com nacionalidade norte-americana e de pai igualmente judeu e comerciante de obras de arte. A família vivia confortavelmente em Lodz e acabou por se refugiar em Varsóvia no seguimento das violentas perseguições aos judeus. Iludidos com a ideia de que na capital polaca as condições de vida seriam melhores para esta comunidade, muitos judeus migraram em número significativo para Varsóvia sendo posteriormente integrados no gueto que foi edificado acolhendo 400 000 judeus que viviam com inúmeras dificuldades.
Desde a sua entrada no primeiro dia de construção do gueto de Varsóvia em 1940, Mary Berg recolhia informação vária sobre a vida dos judeus no gueto, as condições de higiene, o difícil acesso à alimentação, os maus tratos por parte dos alemães, as doenças frequentes como o tifo e as mortes frequentes cujo número aumentava à medida que as condições de vida do gueto se agravavam.
A par das más condições de vida dos judeus do gueto, Mary Berg elucida-nos também que graças ao elevado nível cultural dos judeus, desde cedo foram constituídas escolas clandestinas incluindo escolas religiosas, muitos grupos de teatro e associações culturais proliferaram no gueto durante pelo menos um ano, restaurantes e cafés com concertos ao vivo, a referência à moda ditada pelas judias com posses que impunham as cores das épocas no vestir e no calçar, os grupos de apoio aos necessitados, nomeadamente aqueles que mendigavam por uma côdea de pão e um abrigo.
O número de casamentos judeus aumentou nos primeiros meses de existência do gueto ainda que proibidos pelos nazis, embora a solução tenha passado por emitir as respectivas certidões com data anterior à implementação da lei.
A necessidade de companhia e afeto por parte das pessoas contribuiu igualmente para a existência de relacionamentos atípicos entre pessoas com uma grande diferença de idades na medida em que se tentava a todo o custo lutar contra a solidão e, consequentemente, uma eventual morte devastada pela doença e tortura na sequência das mortes dos demais elementos da família.
As frequentes perseguições e agressividade face aos judeus contribuiu para a integração do "Pequeno Gueto" no "Grande Gueto" obrigando a uma nova mudança de residência, cada vez mais difícil, por parte dos judeus afetos àquelas ruas (bairro) de Varsóvia que se tornavam cada vez mais apertadas à medida que continuava a aumentar o número de judeus que ou por iniciativa ou por imposição se dirigiram para Varsóvia.
À medida que o gueto de Varsóvia caminhava para a asfixia em termos de habitantes, os nazis adotaram uma atitude ainda mais agressiva passando a enviar milhares de judeus em vagões para o campo de concentração de Treblinka, sobretudo quando se impôs a "solução final para a questão judaica" que levou milhões de judeus para campos de concentração e de morte até ao final da guerra.
Os judeus que eram deportados para o campo de concentração de Treblinka partiam da "Umschlagplatz", um ponto ferroviário criado propositadamente com esse objetivo e que se situava nas imediações do gueto de Varsóvia.
Graças ao facto de a mãe de Mary Berg beneficiar de nacionalidade americana, toda a família acabou por ser transferida para a prisão Pawiak que se situava igualmente nas imediações do gueto, aguardando por uma troca eventual de prisioneiros de guerra alemães por judeus com várias nacionalidades várias de todo o continente americano. Após três anos de experiência no gueto de Varsóvia, a família de Mary Berg passou seis meses naquela prisão que se traduziram em seis meses de fome profunda, entre outros maus tratos a que estavam sujeitos.
É precisamente durante este período de prisão que se intensificam os ataques e consequentes massacres aos judeus do gueto, testemunhados pelos gritos e banhos de sangue que podiam ser testemunhados parcialmente da prisão de Pawiak.
As deportações aumentaram em massa e o assassinato de judeus sem dó nem piedade intensificaram-se fazendo jus ao desejo de extermínio do povo judeu por parte dos nazis.
Mary Berg só terá verdadeiramente consciência desta realidade quando foi transferida para Vittel, em França, ficando "internada" a aguardar finalmente a autorização para sair definitivamente da Europa. É durante esse internamento que Mary reencontra uma amiga do gueto de Varsóvia que lhe relata os últimos acontecimentos tortuosos por parte dos nazis aos judeus na sequência da resistência armada por parte destes tendo ficado o acontecimento conhecido por Insurreição do gueto de Varsóvia que teve lugar em 1943.
No início de março de 1944, Mary Berg e a sua família embarcaram no navio «Gripsholm» a partir de Lisboa rumo aos EUA chegando a Nova Iorque a 15 de março.
"O Diário de Mary Berg" mostra-nos o outro lado da guerra, na perspetiva de uma adolescente judia com uma capacidade (quase) inata para a descrição dos factos deixando ao leitor a responsabilidade em ajuizar sobre os vários acontecimentos descritos. Mary Berg descreve-nos uma guerra no contexto da 2ª Guerra Mundial, uma "guerra" pela sobrevivência que se traduziu numa dolorosa resistência e resiliência por parte dos judeus em relação ao jugo alemão.


Excertos:
"5 de fevereiro de 1941
(…)
A cada dia que passa há cada vez mais «sonhadores de pão» nas ruas do gueto. Os olhos estão velados por uma névoa que é de outro mundo… Sentam-se, em geral, no outro lado da rua diante das montras das lojas que vendem comida, mas os seus olhos já não veem o pão que existe atrás do vidro, que talvez lhes pareça um paraíso distante e inacessível." (p. 81)

"Agosto de 1942

Por trás dos portões de Pawiak vivemos também todo o terror que campeia no gueto. Não temos conseguido dormir nas últimas noites. O barulho dos tiros e dos gritos de desespero enlouquece-nos. Tenho de reunir todas as minhas forças para escrever estas notas. Já perdi a conta dos dias e nem sei que dia é hoje. Mas que importa isso? Estamos aqui numa pequena ilha, no meio de um oceano de sangue. Todo o gueto [de Varsóvia] se afunda em sangue. Vemos literalmente sangue humano derramado de fresco, podemos cheirá-lo. O mundo exterior saberá alguma coisa do que aqui se passa? Porque não vem ninguém em nossa ajuda? Não consigo continuar a viver; a minha força esvaiu-se. Quanto tempo teremos de aqui ficar a assistir a tudo isto?
Há alguns dias foi levado de Pawiak um grupo de cidadãos de países neutros. Só que os alemães não devem tê-los conseguido usar para uma das trocas. Da minha janela, avistei vários camiões cheios de pessoas e tentei ver, entre elas, caras que conhecesse. Passado pouco tempo, o guarda da prisão [de Pawiak] veio ter connosco, ofegante, e disse-nos que os cidadãos de países europeus neutros que eram judeus foram levados para o ‘Umschlagplatz’ para serem deportados." (p. 232)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Passatempo Presença


E pensando no Dia da Mãe, O Tempo Entre os Meus Livros com a preciosa colaboração da Editorial Presença, tem para oferecer aos seus seguidores um exemplar de "Mãe" de Alejandro Palomas.

O passatempo decorre até ao dia 25 Abril.

Para mais informações veja Editorial Presença aqui!

Boa sorte!

terça-feira, 14 de abril de 2015

A Convidada Escolhe: A Rapariga que Roubava Livros

Há livros que nos deixam num estado indescritível, de belos, sensíveis, inspiradores. Tinha visto o filme e tinha saído da sala de cinema naquele estado de felicidade e com a sensação de tempo bem gasto a ver uma obra belíssima. Era, pois, preciso ir à origem, ao livro que lhe deu material e inspiração e o livro é, verdadeiramente, belo.
Markus Zusak, o autor, é um jovem filho de mãe alemã e pai austríaco que ele nomeia e a quem agradece a inspiração, quer na dedicatória inicial quer nos agradecimentos no final do livro. Sem as histórias que eles lhe contaram sobre a guerra, nunca este livro teria podido ser escrito por ele.
O livro é invulgar e todo ele é feito de delicadeza, de poesia, de ternura e muita sensibilidade. As frases curtas frequentemente usadas dão mais força a toda a narrativa e aos diálogos entre as personagens.
A narradora é a Morte, sem mãos a medir naquele período horrendo que foi a declaração de guerra de Hitler ao mundo "… em 1943, eu estava praticamente em toda a parte", a qual escolhe a pequena Liesel Meminger – a rapariga que roubava livros – para nos contar a sua história, desde a viagem de comboio que faz com a mãe e o irmão até uma pequena cidade dos arredores de Hamburgo onde irá viver com os futuros pais adoptivos e o seu percurso no encontro com as palavras, os livros e as pessoas. Na macabra banalidade da morte, há histórias que sobressaem e esta da jovem Liesel toca a Morte que nos convida a acompanhar esta menina desde os finais de 1938 até 1945. Liesel é a heroína que sai dos padrões e dos estereótipos da menina bem comportada; ela joga à bola na rua com os rapazes, acompanha os rapazes para roubarem fruta e rouba livros!
Através da aprendizagem da leitura, ela ganhou o gosto da escrita que a levou a escrever sobre a sua vida e a sua experiência. Aprendeu a saborear as palavras e a aprofundar os seus sentidos, as suas nuances, as suas contradições. Um dicionário é afinal um livro extraordinário pelo mundo que nos abre! Aprendeu que com as palavras se podem descrever o céu e fazer um relato meteorológico a alguém que há meses está privado de ver a luz do sol, por estar escondido numa cave porque é judeu.
O que pode um livro? O que podem as palavras? Através dos livros, que a princípio nem sequer sabia ler, mas que exerciam sobre ela um fascínio irresistível, ela aprendeu a sua tremenda força. Era a serenidade que transmitia às pessoas aterrorizadas numa cave, quando os aviões lançavam as bombas mortíferas sobre a cidade; era a esperança da recuperação quando lia ao jovem judeu moribundo escondido pelos pais na cave da sua casa; era a companhia à vizinha cujos filhos tinham partido para a guerra.
Mas há também um momento de desespero de Liesel em que ela se rebela contra as palavras e diz " Para que servem as palavras? Por que haviam elas de existir? Sem elas não haveria nada disto. Sem palavras o Fuhrer não era nada" numa referência ao poder terrível que as palavras podem ter quando estão nas mãos de ditadores ou de gente sem pingo de humanidade.
Este livro é muito rico na análise dos sentimentos e da época. O povo alemão não é confundido com o Fuhrer e seus cães de fila. Os alemães são apresentados como vítimas de uma guerra para a qual foram arrastados e que lhes trouxe morte, fome e miséria. É sobretudo através das crianças que esse retrato é feito: como é a sua vida em condições adversas, como se habituam a viver perdendo a presença dos pais, como crescem cedo demais sem poderem aceder a uma infância normal. O autor também não esbate os sentimentos contraditórios que a guerra provoca nas pessoas que a vivem e que lutam desesperadamente pela sobrevivência: medo, alívio, remorso, vergonha e culpa. Sobretudo o sentimento de culpa por viver, por estar vivo.
Um livro que aconselho mesmo!

Almerinda Bento

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A Convidada Escolhe: A Sombra dos Dias


Já o tinha comprado e na segunda vez que o li, de novo instalou-se a profunda admiração.
Num súbito impulso fui ao Diário de Notícias, à caça dum autógrafo e dumas palavras. Vim de lá duplamente rica! Afinal o Gui não era uma mera personagem. Era um ser magnifico de carne e osso e ainda hoje recordo o brilho ladino desses olhos azuis, dum homem corajoso chamado Guilherme de Melo.
O livro, de carácter autobiográfico e escrito na 3ª terceira pessoa, fala de um rapaz que nasceu, cresceu, iniciou a sua carreira de jornalista, insaciavelmente curioso, ávido de sensações e emoções e amante de Moçambique até à medula.
Na descoberta do corpo, constatou que não era como os demais, sufocou os seus impulsos, casou com uma mulher e na sequência dum acidente pediu a anulação do casamento, deixando cair a máscara, ao sentir que não podia viver senão como homossexual, condição esta que assumiu corajosamente num mundo preconceituoso.

É uma memória de vida, com textos poderosos, poéticos por vezes, de alguém que sempre deu a cara sem hipocrisia, doesse a quem doesse.
Em Outubro de 1974, na sequência dos acontecimentos que levaram à independência, muda-se definitivamente para Lisboa, indo trabalhar para o Diário de Notícias, onde trabalhou até à reforma em 1996.
Viria a morrer em Lisboa em 2013, com 82 anos.

Ana Mafalda Salvado

domingo, 12 de abril de 2015

Na minha caixa de correio

  

  

  



  

Oferta da Topseller,  A Lista de Prioridades e. O Diário de Mary Berg.
Da Quinta Essência chegou o último da Jude Deveraux.
Três Pianos é o livro de uma querida amiga, a Paula Dias.
O Acabadora e Há Mil Anos Qu e Aqui Estou foram comprados em segunda mão. 
Emprestados por um amigo os restantes três...
Por qual começar?