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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

"Entre os Genes" de Raquel Cunha

Livro pequeno mas muito impactante. Conheço a Raquel desde que nasceu. Filha de uma amiga de longa data e vizinha também. Recordo os momentos que passei com a sua mãe a conversar nas noites de verão cada uma sentada na sua varanda, que fazíamos questão de saltar quando a isso estávamos dispostas. Note-se que as varandas pegavam uma na outra... Era o meio mais rápido de passar de uma casa para a outra, aliás!

Depois as nossas vidas seguiram o seu rumo e as visitas deixaram de ser tão frequentes mas o contacto, embora mais esporádico, manteve-se. Recordo que numa visita a minha casa a Raquel, já com os seus oito anos, fartou-se de pedir água à minha mãe (disse-mo ela depois). Pouco tempo depois surgiu o diagnóstico de diabetes. Para a Raquel e para a sua família imagino que tenha sido uma situação muito delicada em que tiveram de juntar forças para superar da forma o mais natural possível! Este diagnóstico foi a ponta do iceberg.

Ler este livro foi mergulhar em tudo o que um iceberg esconde por debaixo das águas. Muitos anos mais tarde foi-lhe diagnosticada uma doença rara, o Síndrome de Wolfram, que acarreta outras complicações de saúde difíceis.

Fiquei com uma admiração enorme pela coragem demonstrada pela Raquel ao colocar ao de cima algumas das situações por que passa no seu dia a dia e, sobretudo, como consegue modificar e dar sentido às mesmas. Dar a volta às dificuldades, ajudar outros com o seu exemplo é o seu propósito. 

Farmacêutica de profissão, curso que não exerce devido aos seus sintomas, dedica-se à mentoria e ao coaching. Aconselho vivamente a leitura deste livro. Faz-nos pensar em como, muitas vezes, as coisas pequeninas tomam, para nós, porporções desmedidas e nos esquecemos facilmente do seu minúsculo tamanho.

Resiliência, coragem e força. Fui à apresentação do livro da Raquel. Quis ouvir um pouco do que tinha acabado de ler. Um exemplo para todos. 

Se tiverem Facebook espreitem aqui: https://www.facebook.com/raquel.cunha.7165

Terminado em 25 de Novembro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse
De uma menina tímida à mulher que vemos hoje, após trinta anos a lidar com uma doença genética rara, neste livro, a autora relaciona muito do que já viveu com coaching e desenvolvimento pessoal, e ainda sugere pequenas atitudes que nos levam além do que a vida nos dá. 

Cris

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Convidada escolhe: As Migalhas de Beirute

As Migalhas de Beirute” – S. Costa Brava, 2019

A minha escolha por este título da obra de uma autora que não conheço, mas que foi sugerida por uma das participantes do Círculo de Leitura da UNISSEIXAL, teve a ver com o interesse que tenho em perceber a complexidade dos conflitos no Médio Oriente, motivo de notícias desde que me conheço. A minha solidariedade com a causa palestina e com o direito de um povo a viver em paz na sua terra, o qual tem nos últimos dois anos sido alvo de um genocídio impensável por parte do governo israelita, mais me levou a fazer esta escolha. Na calha e a seguir, irei ler “Gaza está em toda a parte” de Alexandra Lucas Coelho, cujas crónicas e percurso sigo regularmente e que muito admiro.

“As Migalhas de Beirute” é um livro muito duro, cuja leitura não me foi fácil. O facto de a autora ter vivido no Médio Oriente e em Paris teve certamente peso na escolha do tema. A primeira parte do livro traz-nos através de datas e acontecimentos marcantes naquela zona do mundo e em Beirute, em particular, a história de um país dilacerado pela guerra civil, por conflitos gerados do exterior, que têm tido os EUA e a Europa como potências omnipresentes. O papel da França no conflito libanês é inegável, mesmo quando os governos tentam através de divisões e de mistificações fazer de conta que nada têm a ver com os conflitos. Independentemente das divisões religiosas, foi através do exacerbamento dessas divisões que se tentou sempre chamar de religiosas as guerras, quando desde sempre os conflitos se deveram a questões de ordem geopolítica num território muito apetecível para quem quer mandar no mundo. Para além das mortes, a primeira parte do livro dá-nos a imagem de um país e de uma cidade divididos, com campos de milhares de refugiados palestinianos e com milhares de libaneses espalhados por todo o mundo, tentando refazer a vida como imigrantes. De forma larvar, o ódio vai-se instalando, os traumas de guerra não se apagam e a sede de vingança é aproveitada por milícias e grupos radicais que florescem num clima de desconfiança e de ódio generalizados.

A morte dos pais de Samir Bustani na Primavera de1988 é o ponto de partida para esta história de uma família libanesa. Apoiado por um tio há anos refugiado em Paris, o jovem Samir e a irmã vão conhecer uma realidade completamente diferente. No livro surgem temas em que se confrontam culturas, crenças e atitudes que dividem pessoas e famílias. A intolerância baseada na religião, a homossexualidade, a submissão da mulher na família, mas também a capacidade de resistir e continuar a viver num mundo em convulsão são alguns dos temas que o livro aborda.

Se o surgimento da internet foi uma ferramenta extraordinária para pôr em comunicação pessoas de todo o mundo, ou seja, um poderoso aliado da democracia, ela também tem sido usada para chegar a alvos frágeis e vulneráveis, facilmente manipuláveis que veem nela a resposta a frustrações e desilusões da vida. Muitos grupos extremistas têm-na usado em seu favor, radicalizando jovens inseguros, sem perspectivas de futuro, desiludidos da vida e facilmente ganhos quando lhes acenam com um paraíso que vingue anos e anos de frustração e infortúnio. O livro mostra-nos esse mundo de ódio que infelizmente contamina tanta gente, que gera destroços, migalhas e apenas destruição.

O ódio e a violência só geram cada vez mais ódio e violência. Todos perdemos e a democracia fica em risco. Será que temos capacidade de enfrentar a besta que nos quer destruir?

2 de Setembro de 2025

Palavras-chave: guerra, democracia, ódio, Médio Oriente

Almerinda Bento 



quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

"Pão Seco" e "Tempo de Erros" de Muhammad Chukri


Tendo lido estas obras uma a seguir à outra fez-me sentido falar delas em conjunto.

"Pão Seco" foi uma descoberta intensa, dolorosa e de um realismo brutal. Foi realmente uma leitura muito forte quer pela escrita dura e muito crua como pela história contada. Sabem quando a realidade ultrapassa em muito a ficção? Quando, depois de teres lido muitos livros, estás perante um que sai fora de tudo o que leste até aí?

Estes volumes constituem uma autobiografia (existindo um outro, "Rostos", que ainda não li) e neste primeiro é-nos narrada a infância e juventude do autor, marcada por um ódio intenso na sua relação com o pai que era uma pessoa de uma agressividade extrema. Miséria, fome, violência, drogas, prostituição, criminalidade pelas ruas de Tânger e Tetuão (Marrocos). 

Com um estilo seco, que saltita de quando em vez entre acontecimentos mas que não é difícil de seguir, esta obra marcou-me profundamente como leitora. Não existe inocência nesta infância e sim uma forte resistência que o fazem um sobrevivente. Mas não se enganem, Muhammad Chukri resvala na marginalidade como seria de esperar. 

"O meu irmão chora, contorce-se com dores, chora por pão. É mais novo que eu.. Choro com ele. Vejo-o (o pai) a acercar-se dele. O monstro acerca-se dele.A demência nos olhos. As mãos, quais tentáculos dum polvo. Ninguém o consegue deter. Sonho que peço ajuda. Monstro! Demente!Alguém o detenha! Num ataque de fúria, o maldito torce-lhe o pescoço. O meu irmão contorce-se. O sangue jorra-lhe da boca. Fujo para fora de casa enquanto o meu pai cala a minha mãe ao murro e ao pontapé."

"(...) - O pai vai-me matar como matou o mano. 

- Não tenhas medo. Vem comigo (a mãe). Ele não te vai matar. Anda. E cala-te, para os vizinhos não nos ouvirem. 

O meu pai lava-se em lágrimas e cheira rapé. Impressionante: primeiro mata o meu irmão e depois chora."

No final desta obra fica a esperança que a escrita e a leitura, que Chukri quer desesperadamente aprender, o salvem da vida que tinha até então. Foi isso que me fez de imediato pegar o livro seguinte, "Tempo de Erros", que fui buscar à biblioteca.

Este segundo volume é menos chocante, a aprendizagem traz-lhe um sentido de análise sobre o mundo que se reflecte nas suas palavras, embora os problemas com a bebida o levem a situações desesperadas. O álcool está presente na sua vida de uma forma avassaladora mesmo depois de ter conseguido alguma instrução e de ser um devorador de livros.

São duas obras de uma intensidade imensa, É impossível o leitor ficar indiferente. Li que o terceiro volume desta trilogia, "Rostos", se afasta um pouco do carácter autobiográfico apresentando-se já como escritor, e fazendo referencia a várias pessoas que terão marcado a sua vida, sendo a narrativa mais fragmentada. Creio ainda não estar traduzido para português.

Terminado em 28 de Outubro de 2025 e 6 de Novembro de 2026, respectivamente

Estrelas: 5*

Sinopse "Pão Seco"
Quando a fome grassa no Rife, uma família parte para Tânger em busca de uma vida melhor.

Nas noites passadas ao relento, nos becos da cidade, o pequeno Muhammad, orgulhoso e insolente, descobre a injustiça e a compaixão, a tirania da autoridade, a loucura labiríntica da miséria, o consolo das drogas, do sexo e do álcool.

E é na prisão que um companheiro lhe desvenda as maravilhas da leitura, mudando para sempre a sua vida.

Estreia do autor em Portugal, em tradução directa do árabe, Pão Seco foi publicado originalmente em 1973, na tradução inglesa de Paul Bowles (For Bread Alone), quando os editores de língua árabe não estavam ainda preparados para o caos narrativo, a linguagem crua e a indisciplina gramatical que desafiavam a tradição e o «bom gosto».

«Verdadeiro documento do desespero humano» (Tennessee Williams), obra de culto proibida até recentemente nos países árabes por tocar em tabus da sociedade magrebina.

Este avassalador romance autobiográfico consagrou o autor e continua a iluminar o caminho de várias gerações de renegados marroquinos.

Sinopse "Tempo de Erros"
Em Tempo de Erros (1992), Muhammad Chukri prossegue o duro relato autobiográfico iniciado em Pão Seco. Nesta história, assistimos aos anos de aprendizagem do autor, à sua crescente obsessão pela leitura e ao advento de um escritor. Entre a família em Tânger e a escola em Laraxe, preenchem os seus dias uma galeria de almas perdidas, amigos e amantes como a marca da loucura e, diz-nos, «bárbaros com quem vivi de noite em estreitas ruelas e tabernas duvidosas». Num país onde «os inteligentes enlouqueceram e deliram pelas ruas, e os que merecem ficar aqui emigraram», Chukri revisita a doença, a idade adulta e as amizades com os marginais estrangeiros atraídos por Tânger, reiterando a impossibilidade de aniquilar os desejos que o movem. 

Cris 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

A Convidada escolhe: Autobiografia de uma Mulher Romântica

Autobiografia de uma Mulher Romântica” – Natália Nunes, 1954

Há muito que desejava conhecer a obra de Natália Nunes, tendo apenas referências através de dois cursos online que frequentei sobre escritoras portuguesas desconhecidas. Mesmo em bibliotecas públicas é difícil aceder à obra desta escritora nascida em 1921. No entanto, sabia da paixão de Teresa Sousa de Almeida pela obra desta escritora, tendo-a estudado de forma intensa a aprofundada. “Autobiografia de uma Mulher Romântica” que encontrei na livraria Snob, um romance escrito na primeira pessoa, é prefaciado por Teresa Sousa de Almeida, que o caracteriza como “obra única pela sua estrutura formal e pela complexidade psicológica da sua narradora” que encontra “a escrita como única tábua de salvação”.

Clotilde, a narradora, começa por falar da chuva naquele dia em que chegou “à terra do exílio” (pág. 21) que lhe faz recordar um outro dia marcante, de chuva inclemente de que só saberemos no final do romance. Ela está num quarto de pensão numa Vila, onde irá dar aulas de alemão num colégio da terra. A viver um momento de dor profunda, logo se percebe que essa dor não decorre da sua viuvez recente, mas de uma paixão posterior não correspondida.

Enquanto não começam as suas aulas que só se iniciarão uma semana depois, aproveita para passear pela aldeia de pescadores, passear pelas dunas e ver o mar, tentando obter serenidade através do contacto com a natureza. Desde o início, o/a leitor/a segue as descrições minuciosas da paisagem, da vida vegetal e animal, e as reflexões que acompanham a narradora ao longo desse percurso. No tempo livre de que dispuser vai recordar a infância, o papel da austera avó Gracinda com quem viveu nos seus primeiros anos de vida e da preceptora Charlotte, uma mulher livre que sempre a aconselhou “a seguir sempre os seus impulsos” (pág. 98). “Talvez devesse aproveitar as horas livres que me vão surgir, para fazer aquilo que se chama um exame de consciência, para dirigir um olhar perscrutador a todo o meu passado, contemplar numa visão retrospectiva o caminho que já percorri e me trouxe assombrada e desolada a este exílio…” (pág. 76)

Desde sempre a ligação que estabeleceu desde nova com a natureza na aldeia da avó trazia-lhe uma sensação de plenitude a que se seguia um sentimento de insatisfação e até desespero, sendo que os sentimentos de incompletude e frustração caracterizaram as suas primeiras experiências sentimentais, que a levaram a isolar-se, sentindo que era “esquisita”.

Clotilde não se enquadra no modelo tradicional que a avó Gracinda e a tia Constância queriam para ela e para as primas, que era final o caminho asfixiante da sujeição aos padrões da docilidade e da domesticidade que estavam reservados para as mulheres como esposas e donas de casa e não como pessoas com autonomia e vontade própria. Apesar do breve período da sua vida que correspondeu a um curto noivado e casamento e em que existiu um certo apaziguamento que a leva a seguir as convenções e as normas impostas socialmente, Clotilde confessa “Eu tinha uma tendência para complicar a vida!” (pág. 167), à felicidade segue-se o tédio, a vontade de fugir. Foi em Filipe que ela viu pela primeira vez uma vida com sentido, alguém cuja “passagem pela vida” era “significativa e útil”. (pág. 173)

Como escreve Teresa Sousa de Almeida no prefácio (pág. 12) “as heroínas de Natália Nunes, apesar de todas as vicissitudes, encontram sempre o seu caminho” e Clotilde, a terminar o romance decide regressar às serras da sua infância e diz: “Fui repelida e desprezada por ser uma romântica. Pois não serei eu quem desminta a minha natureza! Se não tenho lugar neste mundo fujo para as penhas nas alturas solitárias e levo a minha alma, que o meu corpo de bicho montês sabe contentar-se com as caricias das fragas e com os beijos dos arbustos!”

Um romance escrito por alguém com profundo domínio da língua, usando vocabulário rico e elaborado e totalmente dedicado a analisar os estados de alma de uma mulher fora dos padrões expectáveis na sociedade portuguesa dos anos 1950.

15 de Agosto de 2025

Almerinda Bento

A Convidada Escolhe: “A Outra Filha”

A Outra Filha” – Annie Ernaux, 2011

Depois de “Os Anos”, este é o segundo livro que leio de Annie Ernaux. Em todo ele encontro o estilo autobiográfico e certos detalhes que se observam em “Os Anos”, como por exemplo a referência às fotografias, embora aqui as fotografias sejam escassas. A fotografia a sépia que os pais disseram ser dela, afinal era de uma irmã que morreu dois anos antes de a narradora ter nascido. Essa morte e essa outra filha, foi algo sempre silenciado até ao dia em que a narradora ouviu uma conversa entre a mãe e uma cliente. Foi uma descoberta dolorosa para uma menina com dez anos, numas férias de Verão de 1950.

A morte da outra filha, um assunto que foi sempre silenciado pelos pais. Naturalmente, algo que foi muito penoso na vida do jovem casal e que nunca conseguiram revelar à segunda filha, tida como filha única. No entanto, numa idade avançada da mãe, diagnosticada com doença de Alzheimer e numa consulta médica, entre as respostas dadas às perguntas do médico, falou que tinha tido duas filhas.

O livro é uma carta à irmã. E embora a narradora pudesse ter questionado primas, tias e tios sobre essa irmã, a verdade é que houve sempre um pudor, uma incapacidade de transpor esse silêncio que os pais criaram. “… não interroguei… porque eu não queria saber. Preservar-te tal qual te recebi aos dez anos. Morta e pura. Um mito. (…) Antes de começar esta carta, eu sentia uma espécie de tranquilidade em relação a ti, que agora ficou pulverizada. (…) Tenho a impressão de não possuir uma linguagem para ti, para te exprimir, de só saber falar de ti em modo de negação, do constante não-ser. Tu estás fora da linguagem dos sentimentos e das emoções. Tu és a antítese da linguagem. (…) Tu só existes através da impressão que deixaste na minha existência. Escrever-te mais não é do que percorrer a tua ausência. Descrever a herança de ausência. És uma forma vazia impossível de preencher com a escrita.” (págs. 42 e 43)

Este livro tem muito a ver com vida e morte. Com família. Com silêncios. Com fantasmas. Com traumas que ficam para a vida. A autora-narradora, ainda antes de escrever esta carta à irmã sentiu necessidade de voltar à casa de infância, àquela onde ela e a irmã tinham nascido e que há muitas décadas estava na posse de outros proprietários. “Tinha uma espécie de sensação plena, feita de espanto e de contentamento obscuro por me encontrar ali, naquele exato lugar no mundo, entre aquelas paredes, perto daquela janela, por ser o olhar que contempla o quarto onde tudo começou para uma e outra, para uma e depois a outra. Onde tudo se decidiu. O quarto da vida e da morte, que estava banhado de luz naquele fim de tarde. O lugar do enigma do acaso.” (pág. 61)

Annie Ernaux é uma autora a quem apetece voltar. Diz-me tanto e está tão próxima da alma humana. Este livro foi traduzido para a nossa língua por Tânia Ganho.

24 de Junho de 2025

Almerinda Bento

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

"No Brasil Não Há Leões" de Álvaro Curia

Li com gosto este livro, muito embora, no início, tivesse tido alguma dificuldade em
compreender a linguagem utilizada nalgumas partes. Não a achei difícil de  apreender e até acho que tem uma musicalidade sui generis, quase poética, mas foi isso que aconteceu. Depois de entranhada, fluiu bem.

A história prende-se com as memórias que possuímos na infância e que muitas vezes se desvanecem no tempo ficando uma sensação que pode não corresponder verdadeiramente ao acontecido. Mas, lá está, o sentimento de que algo aconteceu continua lá, que pode ser uma sensação de perda, de abuso, de falta de amor, etc.

O protagonista, e também narrador, relata-nos a sua infância. O seu nome só é desvendado muitas páginas à frente. Logo de início, um acidente grave onde perdem a vida os seus avós faz despoletar toda uma memória de traumas de infância.

Passado e presente são intercalados sem que o leitor perca o fio à meada. O narrador, adulto, revisita o seu tempo de menino de 10 anos. O medo por se sentir diferente e que lhe tolhe os movimentos, o bullying a que é sujeito, os nomes atirados com raiva, as agressões cheias de ódio e que passam despercebidas e que esconde desesperadamente. As visitas a casa dos avós e o tio que se insinua sexualmente sem que ninguém se aperceba.

E sempre as memórias que não são exactas e que deixam dúvida.

Como é que uma criança lida com os diferentes tipos de abusos a que é sujeita? Onde leva o medo se não tiver escape? A somatização dos traumas é, muitas vezes uma dura realidade. Os comportamentos obsessivo/compulsivos a saída encontrada pela criança.

"Se, durante um almoço, eu não abanasse a perna direita um dado número de vezes, isso significaria que o rapaz mais velho que me pisou a cabeça estaria à minha espera quando regressasse à escola. (...) Se abanasse as duas pernas em simultâneo entre cada fala do apresentador das notícias, na televisão, então ter-me-iam esquecido das lengalengas com que também rimavam o meu nome em palavrões. Durante semanas fui adicionando pequenos gestos aos meus rituais. (...) Todos estes eram rituais viciados mas que passavam despercebidos, Conforme os dias avançavam o preciosismo da alucinação ganhava mais detalhe." pág 86/87

"Os meus rituais passaram a ser não só de súplica, como também de graças." pág 95

"Passaram-se anos, mas continuo a detalhar as noites de pavor, insinuando-me nas ausências com que esta cidade me recebe. (...) Não somente os aldeões, os pioneiros, mas também as crianças que me atulharam os dias de pavor, não imagino que tenham crescido (...) Talvez me procure também o meu tio, o que terá feito de mim para que, quando acordei, naquela noite, me parecesse tão saciado. Onde me esqueci de vigiar as horas? A sua impunidade pesa-me aos ombros." pág 213

Um livro duro, uma história sobre coragem também. E o poder do amor que um animal te dedica.

Terminado em 6 de Novembro de 2025

Estrelas: 5*

Sinopse
O elevador caiu. Os corpos ainda não arrefeceram, mas a família desfaz-se. O luto não é só perda - é também libertação, é fuga, é abandono. E, para uma criança, pode ser o fim decisivo da inocência.

Quinze anos depois, é nos fragmentos difusos de uma infância marcada pelo medo que o narrador, agora adulto, tenta dar forma ao seu trauma e compreender quem se tornou.

Nesta dolorosa narração, há lapsos, imagens que se repetem, detalhes que só mais tarde ganham significado.

Nenhuma pedra fica por virar: o abuso, tão difícil de nomear; a violência, por vezes física, quase sempre emocional; e o abandono, sempre o maldito abandono, vindo de quem nunca deveria ter ousado pensar em partir.

«Olho essa violência de frente, defino-a em rigor, nomeio-a, dou-lhe a minha voz para que ninguém faça dela a sua fala. Feito em pedaços de pedra, é a mim que a minha dor pertence.»

Uma nova voz na literatura portuguesa - urgente, inconfundível. Álvaro Curia está de regresso com um romance em que a escrita é ferida, denúncia e salvação.

Cris 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

"As Moscas de Outono" de Irène Némirovsky

Gosto muito desta autora e recomendo muito o seu livro "Suite Francesa".

Tatiana é uma velha ama de uma família nobre, os Karine, que estão exilados em Paris, fugidos da Revolução Russa. Ficou a tomar conta da casa até se ver obrigada a deslocar-se também para essa cidade. Encontra-os perdidos dentro de um apartamento, sem rumo, sem estatuto, sem dinheiro. Como moscas de Outono. Daí o título. Tatiana vive de recordações.

É uma novela que está pejada de reflexões sobre a memória, o envelhecimento, a mudança imposta. Tem como pano de fundo implícito a França entre as duas guerras, a situação socio/económica de uma burguesia em decadência. Leitura que se faz num ápice. Gostei e prende o leitor.

Terminado em 4 de Outubro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse
«A escrita subtil e a afinada certeza psicológica recordam-nos do quanto a boa prosa pode conseguir em muito poucas palavras.»
The Times

Tatiana Ivanovna dedicou a sua vida aos Karine, que ajudou a nascer e a criar na opulência e no luxo ao longo de duas gerações.

Agora que a revolução russa triunfou, é ainda a velha serva que continua até ao último momento a defender a propriedade da família e a velar sozinha pelo que resta dos seus bens.

Até que o dever mais uma vez lhe impõe que atravesse a pé o país e se junte aos seus amos em fuga.

No pequeno e escuro apartamento de paris onde agora vivem, os karine partilham o destino de tantos outros nobres exilados russos que procuram adaptar-se à sua nova vida e sobreviver por todos os meios possíveis, exaustos e confusos como moscas de outono.

Só Tatiana, demasiado velha para mudar, está determinada a não querer esquecer o passado...

Publicado originalmente em 1931, quando Irène  Némirovsky contava apenas 28 anos, As Moscas de Outono vem contribuir decisivamente para o aumento do seu prestígio enquanto autora, referida pelo New York Times como «sucessora de Dostoiévski» pela sua capacidade para refletir sobre a moralidade e as contradições da vida.

«Némirovsky evoca os lugares da sua juventude com uma sensualidade e clareza que mostram o quanto aprendeu com Tolstói e  Proust.»
The Guardian

Cris

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A Convidada Escolhe: “Memória de uma Epifania”

Memória de uma Epifania” – Maria João Vaz, 2023

Conheci a Maria João Vaz numa sessão promovida pelo Bloco de Esquerda em Coimbra, no início de Março, no âmbito do II Fórum LGBTQI+. No final da sessão comprei o livro “Memória de uma Epifania” à autora, mas só agora o li, depois de ter lido “As Malditas” de Camila Sosa Villada.

Acho que André Tecedeiro consegue, no prefácio, sintetizar muito do que gostaria de aqui escrever sobre o livro: “É um livro claro, generoso e honesto. Acima de tudo, é um livro necessário” (pág. 7). E mais à frente acrescenta: “De uma forma geral, as pessoas sabem pouco sobre o que é ser trans, e o que julgam saber está cheio de equívocos.” (pág. 8).

Muito diferente de “As Malditas”, este livro surge do desejo de Maria João Vaz escrever um texto para um espectáculo de teatro que falasse da sua vida e da sua realidade, ou seja, daquilo que ela conhece melhor, projecto esse que, entretanto, evoluiu para a presente autobiografia. No fundo, Maria João Vaz sentiu necessidade de partilhar a sua experiência de mulher trans numa sociedade ainda muito alheada dessa realidade. A autora é exaustiva na partilha das suas memórias desde a mais tenra idade: a vida com os pais, os irmãos e irmã, o colégio execrável que frequentou durante sete anos, as idas à Feira Popular, o fascínio da neve e das lojas de brinquedos, mas também o desconforto desde sempre entre ela e as outras pessoas, que a levava ao isolamento, buscando a solidão e o silêncio. Nunca os pais revelaram capacidade nem sensibilidade para ver que ela era diferente, nem os próprios médicos descortinaram a origem dos ataques de pânico na escola, que para ela foi um lugar de humilhação, de prepotência e de desrespeito pelos direitos das crianças. Ao longo da vida e desde criança fez inúmeras viagens com a família, as quais reconhece não conseguir desfrutar na plenitude, mas que lhe deram uma base cultural e uma visão do mundo que é muito patente em todo o livro. O gosto secreto de vestir roupas femininas, a paixão e/ou identificação com outras mulheres mais velhas gerava nela um sentimento de culpa, de que vivia uma vida de fachada, de mentira. Para além do imenso amor pelas três filhas da sua relação com uma mulher por quem se apaixonou, os animais, e sobretudo os cães e cadelas que teve ao longo da vida, foram certamente os maiores amores da sua vida. Com formação artística na área do teatro, Maria João Vaz fez teatro, telenovelas, cinema, dobragens de filmes de animação, foi música, tendo tocado trompete no Hot Club e é escultora autodidacta . Foi uma mulher dos sete instrumentos, agarrando tudo o que podia para viver e sobreviver, num mundo que muitas vezes lhe virou as costas, a usou, foi falso e hipócrita. Mas Maria João era mulher com um sentido profundo da vida e uma busca incessante do equilíbrio e do direito a ser feliz.

Até que se dá a epifania em 2018. Maria João é muito precisa e descreve todo o seu processo de descoberta e de coming out em relação à família e ao mundo. Após cinquenta anos de condicionamento pessoal e social, descobre-se e encontra o seu verdadeiro eu. Uma epifania é sempre algo de mágico, de verdadeiramente novo, de maravilhoso, mas este processo não foi sem custos e sofrimento, significou também muita solidão e confronto com algumas pessoas que considerava amigas. Maria João Vaz partilha connosco este seu processo e embora tenha ocorrido tardiamente na sua vida, volto ao prefácio de André Tecedeiro, um homem trans, e transcrevo: “Não há solidão comparável à de vivermos longe de nós”. (pág. 7)

Num tempo em que as questões de género e a comunidade trans estão sob ataque mortal por parte da direita e extrema-direita, o conhecimento da realidade e da diversidade deverão gerar empatia e a quebra de preconceitos que se baseiam sobretudo na ignorância. Maria João Vaz foi muitas vezes aos EUA, país que sempre lhe provocou enorme atracção e até vontade de ser lugar para viver, mas, a certa altura, fruto dos ventos conservadores que dali sopram, escreve que hoje já tem pouca vontade de lá voltar. Compreende-se e lamenta-se que o mundo esteja a virar-se para o conservadorismo mais abjecto.

À autora e à coragem que reflecte ao longo deste livro autobiográfico, o meu respeito e solidariedade. A luta continua!

15 de Julho de 2025

Almerinda Bento



sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

"Confissões de Uma Livreira" de Nanako Hanada

Este título prendeu-me logo de início. Quem é apaixonado por livros e tudo o que lhes é intrínseco percebe facilmente a razão pela qual peguei nele. Li embrenhada mas fui detectando algumas situações que não me fizeram acelerar esta leitura. 

Creio que a principal razão foi o desconhecimento de quase todos os livros mencionados a maior pare deles não editados em Portugal. 

Mas contextualizando: a autora relata o seu percurso profissional que esteve quase sempre relacionado com o mundo dos livros e a sua paixão pelos mesmos. A sua inscrição, após o seu divórcio, num site de encontros e o propósito com que o fez (para além de ser obviamente conhecer pessoas) foram o ponto de partida de uma alteração na sua vida (sendo que o livro começa por aqui). Vai conhecendo pessoas e vai aconselhando livros que, acredita, essas pessoas podem gostar.

É um romance leve, autobiográfico que se lê bem. Pode-nos fazer reflectir sobre as ligações que surgem via net e no poder da leitura.

"Porque não podemos recomendar um livro a alguém que não conhecemos, não mesmo. E não podemos recomendar um livro se não o conhecermos bem. E, além disso, não podemos recomendar um livro sem termos um bom motivo. Temos de querer que aquela pessoa o leia, porque pensámos no significado que determinado livro terá para essa pessoa." pág. 52

Terminado em 3 de Outubro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse
A vida de Nanako Hanada não só estagnou - bateu mesmo no fundo.
À medida que a vida de Nanako se desmorona, ler livros é a única coisa que a mantém viva. Até que se inscreve num site de encontros que oferece 30 minutos com alguém que nunca voltará a ver.
Apresentando-se como uma «livreira sexy», propõe-se a recomendar o livro perfeito em troca de um encontro. No ano que se segue, Nanako conhece centenas de pessoas, algumas das quais procuram mais do que apenas um livro…
Confissões de Uma Livreira é uma ode ao prazer da leitura. Oferecendo um vislumbre do mundo livreiro no Japão e do lado mais excêntrico de Tóquio, esta é uma história sobre como os livros nos ajudam a criar laços com os outros — e a reencontrarmo-nos.

Cris