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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

"O Diário Secreto de Hendrik Groen aos 83 anos e 1/4"

O facto de nāo se saber quem é o autor deste livro gerou um certo mistério que me acompanhou durante toda esta leitura: terá o autor a mesma idade do protagonista e até que ponto terá retratado a sua vida?

Hendrik é um velhote solitário a quem ninguém visita. Vive num lar. Dá-se conta que os seus actuais (e únicos!) amigos estāo nesse mesmo lar onde habita e é com eles que vai passando os seus dias. Com algumas mazelas é certo, mas fala delas com humor (uma delas é a incontinência de que sofre) e consegue viver os seus dias com uma certa independência. Observador e crítico, vai anotando no diário passagens que o preocupam do seu dia-a-dia e de quem o rodeia mas, também, sobre aspectos políticos e sociais de Amesterdāo.

Escreve no seu diário todas as peripécias que se lembra da sua vida no lar (denominado significativamente de "A Decadência"), que com as suas regras, algumas pouco transparentes, criam nos utentes alguma insastisfaçāo e contra as quais questionam amiúde (quem ainda está no "lado de cá", porque existe um "lado de lá", uma ala fechada para os que sofrem de perturbaçōes mentais). Os boicotes às regras do lar que Hendrik e alguns amigos participam sāo, no mínimo, ilariantes! O facto de ir escrevendo quase diariamente é um exercício de memória que, reconhecidamente, o ajuda a manter-se lúcido e crítico.

Sendo um diário, as suas observaçōes sāo, algumas vezes, um pouco dispersas mas há no livro um fio condutor que percorre a vida de Hendrik e amigos. Fala de assuntos muito sérios (a eutanásia, por exemplo) com uma pitada de humor que nos dispōe bem mas que me angustiou bastante. Um retrato (muito fiel, pareceu-me) do quanto a vida num lar pode ser deprimente mas, também, o quanto se pode e deve aproveitar os dias como se fossem os últimos. A prova disso é a criaçāo,por parte de Hendrik e alguns amigos, dum grupo intitulado de "Velho mas nāo morto", que se dispōe fazer visitas/saídas, programadas à vez por cada elemento.

Nāo sei se o livro é autobiográfico ou nāo, mas, de qualquer forma, quero dar os meus parabéns ao autor: a verosimilhança com (aquilo que acho que é) a vida real duma pessoa idosa é algo de assustador e, nāo fora o humor subtil com que nos brinda frequentemente, passaria todo o livro com um peso no coraçāo. Como podemos transformar a velhice numa etapa positiva? A falência progressiva de todos os orgāos, incluindo o cérebro, que alegrias traz? Mesmo escrito com humor, que nos impele para um sorriso permanente, custou-me muito ler estas páginas! Quanta verdade escondida nelas!

A forma como é tratado o idoso hoje em dia em quase todas as nossas sociedades deve ser repensada! É que, se tivermos sorte, todos lá havemos de chegar, certo?

Nāo posso de deixar de transpôr para aqui algumas frases do livro que me tocaram, tanto pela sua ironia como pela verdade que elas encerram:

"É uma vida de sentido único em direcçāo à cova, é o que é."

"Nāo acredito que alguma vez se consiga passar meia hora sem que alguém traga uma doença à baila."

"Noto que a escrita tem um efeito terapêutico: estou mais descontraído do que frustrado."

"Aqui deveriamos viver a vida como se cada dia fosse o último, mas nāo, preferimos desperdiçar as nossas valiosas últimas horas com ninharias e mexericos."

"Os assuntos nem sempre fluem espontaneamente e eu tenho de ponderar cuidadosamente as palavras. Contudo, a obrigatoriedade de escrever aguça-me a vista e mantém-me atento."

Terminado em 18 de Fevereiro de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Hendrik Groen pode estar velho, mas ainda muito longe de estar morto, e espera não ser enterrado tão cedo. Os seus passeios diários são cada vez mais curtos porque as pernas começam a dar de si, e as suas idas ao médico são agora mais frequentes do que ele gostaria. Hendrik está velho, mas quem disse que tem de viver confinado ao lar para idosos perto de Amesterdão esperando que a morte chegue? Quando o Ano Novo começa, decide escrever o seu diário... Um romance inspirador que se tornou um fenómeno literário em todo o mundo. Ao chegar à última página, será difícil ao leitor, de qualquer idade, despedir-se de um personagem tão encantador e divertido.

Cris

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