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domingo, 2 de julho de 2017

Ao Domingo com... PJ Vulter

VENHO DO MAR

Escrever é uma aventura.

Escrever é uma jornada de descoberta, um périplo de partidas e destinos, uma tempestade de emoções e, muitas vezes, um caminho de autoconhecimento; mas acima de tudo - e para resumir e simplificar - é uma viagem.

É como embarcar num veleiro. O meu é branco, com uma linha azul escura logo abaixo da murada, da proa à ré, e um mastro central de onde se enfunam duas grandes velas de pano níveo.

E para onde me leva o veleiro?

Para onde o destino me quiser levar.

Faço-me ao mar, bem apetrechado. Levo mantimentos, as cartas de marear atualizadas e todas as engenhocas que dão jeito a um bom marinheiro porque, gostando de partir sem destino, não pretendo perder-me. Mas não traço rotas.

Numa espécie de ritual, deixo que o veleiro encontre o seu caminho. Com as mãos leves sobre o leme, permito que a quilha vá cortando as águas ao sabor das correntes, e das contra correntes, até ao momento em que, inexoravelmente, ele toma uma direção. E é nessa altura que eu me preocupo com as rotas; estudo as cartas náuticas e as previsões meteorológicas. Nada disso será determinante para escolha de um destino; serve apenas para efeitos de orientação. É assim que eu gosto de navegar: uma milha de cada vez; e os desafios que vão surgindo vão resolvendo-se, um por um.

Pode acontecer ter que fazer paragens inesperadas. Às vezes, porque a jornada se tornou mais longa do que o previsto, tenho de me reabastecer de mantimentos; noutras ocasiões, porque sinto necessidade de fazer uma navegação mais pormenorizada, tenho de encontrar cartas hidrográficas mais detalhadas ou arranjar alguns gadgets para navegação de última geração.

Pode acontecer, também, que a aventura me tenha conduzido a um mar morto; a um local sem vento e sem correntes, onde o calor acutilante me rouba o ar, e a resiliência, a cada dia que passa e que persisto teimosamente num local que não me vai dar mais nada do que aquilo. Quando é assim, tenho de fazer uma arribada: traçar uma rota de fuga para um porto de abrigo e ligar o motor do veleiro para me levar até lá. Depois, emborrasco-me num bar qualquer do porto, petiscando qualquer mariscada, até que os olhos mortiços, cansados de tanto olhar o quadro do menino da lágrima, choram, limpam a vista como a chuva limpa os céus, enquanto a lágrima do menino se transmuta no meu veleiro e desliza – só na minha mente embriagada – pelo mapa-múndi em que se transformaram as cores desgastadas do quadro bombardeado, há anos, pelo sal do mar. E é nessa altura que sei que chegou o momento de voltar a partir.

Contudo, conquanto o primeiro tipo de paragem seja frequente, a último raramente me acontece. Se é que me entendem…

A norma é fazer longas e prazerosas jornadas pelo mar azul, sabendo que a cada dia que passa me aproximo do meu destino; mesmo que ainda não saiba qual é ele. A verdade é que, mesmo sem saber para onde vou, todas as noites, quando me deito no convés balouçante a admirar as estrelas, sei que estou mais perto; como se isso me fosse segredado pelo zunir da aragem no cordame.

Um dia – sei-o bem -, na linha curva do horizonte, avistarei terra e saberei que cheguei ao meu destino.

Lá, poder-me-ão perguntar de onde eu venho…

E se assim for, eu responderei, simplesmente: venho do Mar.

PJ Vulter

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