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quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A escolha do Jorge: O Direito à Preguiça


Paul Lafargue (1842-1911) é um dos intelectuais revolucionários mais conhecidos ligados ao socialismo francês e na sua experiência no exílio, em Londres, dinamizou a Primeira Internacional. Genro de Karl Marx (1818-1883), é difícil dissociar a obra de um e de outro, na medida em que ambos foram acérrimos defensores do proletariado face ao crescente avanço do mundo industrializado numa lógica de associação com o capitalismo em geral.
Publicado em 1880, O Direito à Preguiça é um conjunto de quatro textos que reflecte sobre as consequências do desenvolvimento da agricultura e da indústria, no século XIX, conhecido na História como a 2ª Revolução Industrial.
Com o aumento da população que teve lugar a partir do século XVIII, verificou-se um aumento de mão-de-obra que ficou disponível para trabalhar nas minas e nas fábricas, não só pela pressão demográfica que conduzia a necessidades para provir, do mesmo modo que, devido à crescente
mecanização da agricultura, as pessoas viram-se na iminência de sair dos campos para as cidades e arredores, na tentativa de alcançarem melhores condições de vida.
Paul Lafargue refere que o aumento da população veio a embaratecer a mão-de-obra que, tendo aumentado, e estando tão disponível, o preço a pagar pela força do trabalho diminuiu para cerca de metade face ao valor que os trabalhadores auferiam antes de terem saído dos campos, no século anterior.
Mais, a pressão do lucro numa lógica capitalista, vai obrigar a que os patrões olhem para o proletariado como o outro lado da mercadoria, um meio para atingir o fim, neste caso, o aumento da produção que entrará nos circuitos económicos nacionais e internacionais. Por outro lado, a necessidade de trabalho para satisfazer as necessidades da prole, vai obrigar o proletariado a jornadas de trabalho que chegam às 14 horas diárias. É precisamente este aspecto que é criticado por Paul Lafargue e desenvolvido ao longo do ensaio, a submissão do proletariado por necessidade e por falta de conhecimentos constitui, em si mesmo, o motor para a exploração da classe desprotegida em detrimento daqueles que detêm os meios de produção e, consequentemente, o lucro.
“Uma estranha loucura domina as classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Essa loucura arrasta atrás de si misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Essa loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até à exaustão das forças vitais do indivíduo e da sua prole.” (p. 11)
É o trabalho exercido até ao limite das forças que impede o proletariado para o tempo livre, que não tem, para o ócio, tema igualmente desenvolvido por Robert Louis Stevenson (1850-1894), contemporâneo de Paul Lafargue, em “Apologia do Ócio”. Somente a possibilidade do ócio permitirá às classes trabalhadoras o acesso à escolaridade e, com o passar dos anos e das gerações, à tomada de consciência de classe e a necessidade de luta face aos seus direitos, subindo grau a degrau na busca da felicidade. “Não há dever tão subestimado como o dever de ser feliz.” (Robert Louis Stevenson, “A Apologia do Ócio”, p. 26, Antígona)
Com o aumento dos movimentos sindicalistas e a sua actividade, assiste-se a um efectivo decréscimo do número de horas da jornada diária, porém, não deixa de ser irónico, que além das inúmeras lutas travadas entre o proletariado e os senhores do capital, o certo é que a industrialização e mecanização da agricultura contribuíram também, a longo prazo, para a libertação do homem no que concerne aos trabalhos que exigem um esforço físico maior e, noutra perspectiva, à redução da jornada diária.
“O sonho de Aristóteles é a nossa realidade. As nossas máquinas, animadas pelo fogo, com membros de aço, infatigáveis, com maravilhosa fecundidade, inesgotável, cumprem docilmente por si próprias o trabalho sagrado; e, no entanto, o génio dos grandes filósofos do capitalismo continua dominado pelo preconceito do salariado, a pior das escravaturas. Ainda não compreendem que a máquina é o redentor da humanidade, o Deus que resgatará o homem das ‘sordidae artes’ e do trabalho assalariado, o Deus que lhe dará tempo livre e a liberdade.” (p. 85)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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