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quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Convidada Escolhe: Dora Bruder

"Dora Bruder", Patrick Modiano, 1997
Patrick Modiano é um autor francês que recebeu o prémio Nobel da Literatura em 2014. Neste livro o narrador e o autor aparentemente confundem-se e isso vai-se confirmando pela minúcia na descrição de alguns bairros da cidade de Paris onde decorre a acção e onde o autor nasceu, na data do nascimento de ambos – 1945 – e no facto de o primeiro livro escrito pelo narrador ter o mesmo título do primeiro livro escrito por Patrick Modiano – "La Place de l’Étoile".
É um livro relativamente pequeno, constituído por capítulos muito curtos. Tudo começa a partir de uma pequena notícia num Paris-Soir de Dezembro de 1941 que o narrador descobriu: uma rapariga de 15 anos, Dora Bruder havia desaparecido. O facto de o local onde ela vivia com os pais ser uma zona da cidade de Paris que o narrador conhecia bem e de que tinha recordações da infância aguçaram nele o desejo de tentar indagar o que teria acontecido a Dora Bruder. Tal como ele diz "é preciso tempo e paciência para fazer ressurgir à luz aquilo que foi apagado". Desde logo se percebe que as dificuldades, a burocracia são imensas, mas, sobretudo, que houve/há uma preocupação de quem é poder de apagar aquilo que é incómodo ou que nos envergonha como Humanidade.
O narrador/escritor é um "detective", um "arqueólogo" escavando, pesquisando para tentar responder às muitas perguntas que vai fazendo sobre Dora Bruder, sobre o seu desaparecimento e o seu paradeiro. São muitas as perguntas; são muitas as encruzilhadas; são muitas as dúvidas, mas também as coincidências. São recorrentes as expressões: Será que…? Talvez fosse… Como sabê-lo? Suponho que… Ignoro se… Nunca se virá a saber… Desconheço…
A partir de certa altura em que as pesquisas do narrador e os contactos vão sendo mais concretos, para além das características físicas e dos dados conhecidos através da pequena notícia do jornal, passamos a saber que Dora era uma rapariga judia independente, rebelde e amiga de sair e que em determinado período da sua adolescência os pais a haviam inscrito num colégio interno de onde fugiu em Dezembro de 1941. O/A leitor/a é convidado/a a acompanhar o narrador através de um roteiro que vai fazendo com as descobertas que vão desvendadndo o percurso de Dora e de outros judeus e judias que viveram o período da ocupação de Paris pelos nazis. As detenções arbitrárias porque não exibiam a estrela amarela, as condições aviltantes de encarceramento e de transferência de campo para campo até à viagem final a caminho de Auschwitz. Numa carta que uma das presas de vinte e nove anos escreveu à família, carta essa que foi atirada pela janela do comboio e que um ferroviário apanhou e pôs no correio lia-se : "Vou a caminho de um destino desconhecido, mas o comboio donde vos escrevo dirige-se para Leste: talvez a viagem seja longa…" E depois há outras cartas pungentes dirigidas aos Prefeitos, aos Directores e Chefes de Serviços dos Judeus em que se pedem informações e se pergunta pelo paradeiro de familiares há muito desaparecidos. Mas entretanto, sem mesmo se esperar e de forma inusitada pode-se ser confrontado com uma carta que nunca chegou ao destino, à venda numa das famosas livrarias dos cais do Sena!
Para além dos registos escritos que ainda subsistem e que são fundamentais para que a memória não se apague, há as fotografias das pessoas e dos locais, embora os locais não retenham as memórias de quem lá viveu ou tenham sido destruídos como aconteceu com os bairros que foram arrasados depois da guerra, como que por uma necessidade de impor a amnésia sobre o que ali se passou. "Aniquilara-se tudo para edificar uma espécie de aldeia suíça cuja neutralidade já não era possível pôr em dúvida." Afinal era preciso tornar tudo tão neutro, cinzento e asséptico quanto possível. E é clara a posição do autor de através da paciência e muita persistência trazer à luz e à actualidade aquilo que não pode ser esquecido.
Ao mesmo tempo que se segue uma pista em busca da jovem Dora Bruder que fugiu do internato mas que foi apanhada nas malhas dos ocupantes fascistas, o narrador revela-nos outros nomes de outras raparigas, de outras mulheres, de outros presos. E é exaustivo na sua identificação, como que lendo-nos o seu cartão de identidade: os nomes, as idades, os locais e datas de nascimento, a residência, a situação familiar, a origem. No entanto, mesmo conseguindo fazer-nos viver as aflições vividas por aquelas pessoas em resultado daquilo que foi capaz de investigar e descobrir, o narrador reconhece que foi incapaz de responder a muitas perguntas que formulou sobre Dora e sobre o período em que ela escolheu viver em liberdade desde que fugiu do internato até à altura da detenção pela Gestapo. Esse é o segredo de Dora Bruder, a reserva de intimidade que ninguém conseguiu violar: nem os ocupantes, nem o narrador, nem os/as leitores/as.
Um livro admirável, subtil e muito forte.

Almerinda Bento

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