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sexta-feira, 11 de março de 2016

Novidade Clube do Autor

Índias
de João Morgado
Podemos julgar um homem a mais de 500 anos de distância? Podemos analisar o seu trajecto histórico à luz dos valores actuais? Sim e não.
É verdade que muitos dos valores humanistas para que hoje remetemos, já estavam presentes na sociedade do século XVI. Matar, torturar, saquear, eram obviamente condenáveis à luz da própria cristandade. Tanto assim, que o próprio Vasco da Gama acabou por ser moralmente condenado por uma certa nobreza atreita a códigos de conduta, e pelas ordens religiosas defensoras de valores mais humanistas, de uma visão mais lúcida da fé. O iluminismo estava a abrir caminhos por então. Gama foi afastado uma vez, mas voltou ao Índico ainda com mais raiva. Foi afastado uma segunda vez, mas ainda assim voltou a ser chamado para regressar às Índias. O que podemos inferir daqui?
Antes de mais, que el-rei de Portugal partilhava com Gama a mesma ambição de conquista e poder, desvalorizando as questões éticas ou cavaleirescas. Eram ambos pragmáticos, com objectivos bem delineados, e capazes de tudo para serem bem-sucedidos. Gama queria reconhecimento social e riqueza, D. Manuel I ambicionava ser imperador. É isto desprezível?
Talvez o seja no plano da desmedida ambição pessoal. Mas o sucesso destes dois homens era também a grandeza do reino. Não era essa a sua missão?
Podemos questionar se os meios justificam os fins. Após a segunda viagem de Vasco da Gama, podemos dizer que Portugal não foi negociar especiarias, foi tomá-las pela força. Tinha a melhor frota marítima, conhecimentos navais invejáveis, um poder de fogo inigualável. Jogou todo o seu poderio no mar Índico para combater os mouros que dominavam o mercado, para subjugar os indianos que eram senhores de infindáveis riquezas. Na verdade foi uma invasão de territórios, uma usurpação de direitos, um abuso de poder. Mas estes sim, são valores a que olhamos à luz dos nossos dias. Naqueles tempos era outro o entendimento, os reinos guerreavam-se, as fronteiras eram instáveis, os pactos dependiam das boas vontades dos monarcas e das relações de forças entre os seus exércitos. Alexandre, O Grande, não tinha conquistado um dos maiores impérios do mundo antigo? O império de Roma não tinha anexados povos do mar Mediterrâneo, na África e na Ásia? Os árabes não tinha já invadido territórios africanos e chegado à Península Ibérica? O que impedia Portugal de ambicionar um lugar na história mundial, o seu quinhão de glória, de poder e riqueza?
Portugal não foi condenado, quanto muito foi invejado. Pelo que não tardou a que outros reinos enveredassem pelo mesmo caminho. Quando franceses, ingleses, holandeses ganharam poder nos mares, também eles conquistaram os seus territórios, ganharam as colónias que mantiveram até tempos recentes. E no contexto da época, nenhum destes impérios foi conseguido sem guerras, o mesmo é dizer, sem mortes, injustiças, misérias humanas. Guerras por certo bem mais sangrentas que as protagonizadas pelos exércitos portugueses. É neste contexto histórico que devemos enquadrar D. Manuel I e Vasco da Gama como seu peão de armas.  

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