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quinta-feira, 18 de junho de 2015

A Escolha do Jorge: O Baile

"O Baile" de Irène Némirovsky é a proposta de leitura desta semana. Num registo direto e apaixonante, a escritora envolve-nos numa história sempre muito visual e que uma vez mais não deixa de criticar a sociedade do seu tempo, sobretudo os judeus residentes em Paris que ambicionam o dinheiro e a vida fácil.
Paris, Anos 20. A família Kampf vive numa faustosa mansão fruto de um golpe de sorte através de um inusitado investimento na Bolsa. Os Kampf são uma família judia em que apenas aquilo que os liga à comunidade são somente as tradições e não propriamente as questões de fé.
Uma família que de repente ficou rica e que anos antes enquadrava-se numa classe média baixa com algumas dificuldades económicas aspirando, no entanto, ascender socialmente são os personagens centrais de "O Baile".
Bafejada pela sorte, os Kampf sentiram uma necessidade imensa de imitar os ricos da sociedade parisiense em todos os seus rituais e se enquanto elementos da classe média faltavam-lhe o dinheiro para fazer frente aos burgueses, agora que o possui falta-lhe o nível e a classe daqueles. A intriga e as aparências, bem como a necessidade de se mostrar perante os outros fazem desta família uma perfeita deturpação e, de algum modo, um reflexo da sociedade de então. A afirmação do ter, do possuir, do mostrar-se perante os outros segue também em linha com a necessidade de viver e, neste caso em particular, esquecer os anos das dificuldades. A própria mentalidade de então, do primeiro após guerra, os famosos "anos loucos" constituíram, pois, o palco ideal para os Kampf se afirmarem perante a alta sociedade.
Um senhor Kampf trabalhador, mas pouco empenhado e uma esposa de nome Rosine, com passado duvidoso, mãe desinteressada, mulher fútil, tenta aproveitar-se das intrigas em torno dos grandes para poder ascender socialmente através de jogadas pouco claras. Antoinette é a filha de quinze anos que vive agora perdida na grande mansão sob os olhares atentos de uma preceptora inglesa e o desinteresse da mãe.
Como forma de os Kampf obterem um lugar ao sol na sociedade, decidem promover um baile em sua casa acolhendo, desta forma, as mais prestigiadas personalidades. Toda a preparação do evento é reflexo de uma futilidade ambulante, desde o envio dos convites, a contratação de músicos para o efeito, a decoração do salão, a comidas e bebidas, as roupas para brilharem numa noite que se pretende ser um sucesso que fique de recordação para todos, servindo assim, de catapulta para a escalada social.
Mas as coisas começam a correr mal a partir do momento em que Rosine comunica a Antoinette que esta não irá participar no baile por ter somente 15 anos. Esta ideia de recusa não é digerida pela adolescente acabando por tecer um plano maquiavélico com contornos emocionais e psicológicos sem precedentes e sem que tenha uma total consciência dos seus atos.
O ato de Antoinette vai conduzi-la inevitavelmente na entrada da idade adulta ao passo que a sua mãe, procurando conforto na filha, têm um momento único, o primeiro, em que se encontram verdadeiramente, mas em rumos opostos. "«No caminho da vida», foi o instante inapreensível em que elas se cruzaram: uma ia a subir e a outra a afundar-se na penumbra. Nenhuma delas o sabia." (p. 55)



Excerto:

"- É tua, imbecil, a culpa é tua, a tua estúpida vaidade, o teu orgulho de pavão, é tudo culpa tua… O senhor quer dar bailes! Receber! Mas, é de morrer a rir! Palavra de honra, tu pensas que as pessoas não sabem quem tu és, donde vens! Novo rico! Estão-se bem nas tintas para ti, hem, os teus amigos, os teus belos amigos, ladrões, vigaristas!
- E os teus, os teus condes, os teus marqueses, os teus alcoviteiros!
Continuaram a gritar um para o outro uma enxurrada de palavras arrebatadas, que corriam como uma torrente. Depois, de dentes cerrados, Kampf disse muito baixo:
- Quando te recolhi, já tinhas andado sabe Deus por onde! Pensas que não sei, que nunca reparei em nada! Eu, eu pensava que tu eras bonita, inteligente, que se ficasse rico tu me respeitarias… Enganei-me redondamente, não há dúvida, que grande negócio, modos de regateira, uma velha com maneiras de cozinheira…" (p. 52)

Texto da Autoria de Jorge Navarro

1 comentário:

  1. Olá!

    Vi este livro na feira do livro este ano, mas passou-me ao lado.
    Parece uma história interessante. Vou ficar com ele debaixo de olho.

    Beijinhos e boas leityras

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