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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A Escolha do Jorge: Trans Iberic Love

Raquel Freire apresenta-nos um Trans Iberic Love repleto de energia, amor e ideais face a uma revolução iminente que tem como objetivo redefinir a visão de a sociedade encarar o homem/mulher para lá da sua redução binária de géneros centralizando a sua atenção naquilo que é a essência de cada um enquanto pessoa dotada de liberdade para ser feliz na sua relação com quem quer que se sinta feliz.
Trans Iberic Love conta-nos a viagem alucinante de duas pessoas que se conhecem e que vivem à margem dos conceitos estabelecidos como regras de relacionamento afetivo. Maria é portuguesa e nunca aceitou as regras normativas daquilo que habitualmente se designa como mulher. Com o coração cheio de amor para dar, Maria não sente quaisquer pruridos nem confusões quando conhece o espanhol José que nasceu Eva e que desde tenra idade sempre se sentiu homem, muito embora nunca tenha sentido necessidade em mudar de sexo.
Aquilo que para a grande maioria das pessoas poderia constituir um problema de relacionamento físico e emocional, para Maria e José passou a funcionar como uma relação em pleno sem que se verificassem quaisquer obstáculos na medida em que se sentiam protegidos pelo amor que os unia.
É neste cenário que Maria defende as novas tendências do feminismo e da pansexualidade ao passo que José defende a criação de uma identidade trans sem que tenha de obedecer estritamente aos conceitos de homem e de mulher.
Trans Iberic Love parte do amor entre as pessoas como fonte de criação de uma sociedade mais justa para lá dos aguilhões do capitalismo financeiro que transformou os indivíduos em escravos de um sistema cruel e maquiavélico. Trans Iberic Love promove as pessoas a cidadãos de pleno direito repletos de dignidade e liberdade.
Com Trans Iberic Love, Raquel Freire abana as consciências, choca os falsos moralistas, reposicionando de igual modo a política ao serviço dos cidadãos numa escala universal em que cada um tem a plena consciência dos seus direitos e deveres contribuindo para uma sociedade mais perfeita em que os mais desprotegidos não são esquecidos, relegando-os ao seu devido lugar na sociedade.
Trans Iberic Love é pois um romance inspirador e verdadeiramente revolucionário na medida em que está repleto de muitas ideias que ficarão certamente a martelar nas nossas consciências atendendo a preconceitos que nos moldam ao longo de toda a vida.
Trans Iberic Love é um romance que apenas poderia ter sido escrito por uma mulher que nos dirige a consciência no sentido do amor e da tolerância tal como a personagem Maria que se apaixona por José (nascido Eva) e que não descarta a possibilidade de vir a engravidar estando, pois dotado dos órgãos sexuais femininos e assim, Maria e Eva poderão cumprir a sua missão na concretização do amor para lá dos géneros.
Trans Iberic Love será adaptado ao grande ecrã, mas enquanto isso não acontece, é sem dúvida um livro a descobrir!

Excertos:

"É necessário mudar as leis de registo civil, retirar as menções de sexo e identidade de género dos documentos oficiais porque na prática causam mais discriminações. Ser catalogado de homem ou ser mulher serve para aumentar as discriminações e para que persistam os jogos de poder, as hierarquias. Nós somos pessoas, temos muitas mais características iguais do que diferentes." (p. 60)

"Sozinho não vou a lado nenhum. A revolução faz-se com xs outrxs. «A união faz a força.» As mudanças começam por baixo. Pelas pessoas. Pelo mexilhão. Por quem é discriminado todos os dias. Por quem é excluído da sociedade, porque tem uma diferença qualquer. Que o sistema vê como um defeito. Como eu. Porque tem uma cor de pele diferente. Porque nasceu num continente pobre. Emigrou. Nasceu biologicamente do «sexo mais fraco». Tem comportamentos que não são socialmente aceites pelo poder religioso. Tem uma orientação sexual minoritária. Não ouve. Não obedece. Não tem um corpo anatomicamente igual aos outros. Pertence a uma tribo em extinção. Tem outro credo. É pobre.
(…)
A cooperação entre os estados e as grandes corporações para manter o capitalismo a funcionar tem que ser derrotada pela união e cooperação de todas as pessoas exploradas e oprimidas do mundo. A mudança não vem de cima. É organizada de baixo. Nesta guerra somos todxs soldadxs.
As mais belas flores nascem do lixo." (pp. 66-67)
"Que médicx vai salvar estas crianças do desespero? Da frustração de viverem em ficções identitárias que lhes são vendidas o tempo todo em todas as publicidades e propagandas em todos os ecrãs? Que médicx vai salvá-las desta queda atroz no vazio? De serem as cobaias da globalização do consumismo do ‘american dream’? Da castração e do suicídio quotidiano que lhes está destinado? (p. 181)
"Todos estes conceitos binários não me ofendem quando são ditos assim com este sorriso e esta inocência. Eu estou para lá da feminilidade e da masculinidade. A sexualidade e a identidade são espaços plásticos, não são espaços naturais. São tudo construções sociais e políticas. São conceitos que foram inventados pela medicina no final do século XIX: criaram o conceito de heterossexualidade para normalizá-lo e o de homossexualidade para patologizá-lo. O capitalismo criou-os para regular o sexo e a reprodução, os comportamentos sociais. Eu dou aulas disto na Universidade, chamam-lhe: Estudos Queer." (pp. 273-274)
"Os governos deixaram de nos representar há muito, muito tempo. Por isso precarizaram as nossas vidas, o acesso ao trabalho, à habitação, à saúde, à educação. Por isso somos escutadxs pelas polícias. Por isso somos espancadxs nas manifestações. Por isso nos tentam calar sempre que fazemos ouvir a nossa voz, cada vez mais, cada vez mais.
Para onde vai este mundo? Para onde vai esta Europa cada vez mais anti-democrática? Como vamos lutar contra estes criminosos super milionários banqueiros, políticos, que executam cuidadosamente esta ditadura dos mercados?" (pp. 283-284)
Booktrailer de Trans Iberic Love de Raquel Freire:
http://www.youtube.com/watch?v=F8bQ0kVdsm8

Texto da autoria de Jorge Navarro

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