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quinta-feira, 12 de abril de 2018

A Convidada Escolhe: "Os Loucos da Rua Mazur"


Por que é que um livro é incómodo, polémico, alvo de cartas abertas… Digo livro e podia dizer obra de arte, mas neste caso estou a referir-me ao último livro de João Pinto Coelho, galardoado com o Prémio Leya 2017. É polémico porque falseia a verdade? É polémico porque põe o dedo na ferida e destapa a história naquilo que ela se esforça por ocultar? É incómodo porque devido à sua crueza, revela características humanas que são tudo menos “humanas”?

Na nota de autor que encerra o livro, João Pinto Coelho escreve: “No dia 10 de Julho de 1941, em Jedwabne, pequena cidade do nordeste da Polónia, um grupo de cidadãos, na sua maioria cristãos, reuniram à força os seus vizinhos judeus na praça principal e, num festim de violência, conduziram-nos até um celeiro próximo que incendiaram, queimando vivas centenas de pessoas, incluindo muitas crianças. Nos dias que se seguiram, sucederam-se as pilhagens e apagaram-se para sempre os traços seculares da presença judaica na cidade. “ Mas, apesar de o livro ter a ver com esses momentos da história ocorridos há oitenta anos, é um livro de ficção.

A narrativa decorre em Paris no início deste século e acompanha alguns meses da vida de Yankel, um velho judeu cego proprietário da Livraria Thibault. A rotina da sua vida de livreiro com a presença de Fidelia, a actual companheira que faz dos seus dias “maratonas de leitura”, de Armand, o cão, para além dos dias da semana na livraria, é interrompida pela visita de Eryk. Eryk que Yankel não vê desde 1941, fora seu amigo de infância e é actualmente um escritor famoso em Bruxelas, sob o nome de Paul Lestrange.  Este reencontro há muito ansiado tem agora a urgência da vida que está quase a chegar ao fim. Eryk quer escrever o seu último livro, quer acabá-lo, mas para isso precisa das informações que só o seu amigo Yankel tem, apesar de cego e que ele não foi capaz de captar. Isso obrigá-los-á a recordar a infância e a terra natal no nordeste da Polónia, na segunda metade dos anos 30 e nos primeiros anos dos anos 40 do século passado, quando a sua terra – “o círculo perfeito” – era habitada por uma comunidade dividida entre judeus e cristãos. Vivienne, a mulher de Eryk e sua editora, será o elo de ligação entre os dois homens.

É clara, desde o início, a tensão entre os dois velhos polacos. Os seus diálogos são cínicos, mordazes, percebe-se que há questões por resolver, que há um ajuste de contas, mas por fim Yankel acede em contar para um gravador a sua história na primeira pessoa, a qual depois será reescrita e editada por Eryk e Vivienne. O/A leitor/a vai assim acompanhando entre a Polónia e Paris o desenrolar da história dos dois amigos e de Shionka, a jovem muda filha da Dreide, a bruxa da aldeia. E fica desde logo preparado/a para um crescendo na narrativa, pois se o preâmbulo e os primeiros capítulos são sobre a inocência, o final será obsceno.

São inúmeras as personagens que povoam aqueles dias despreocupados e felizes da infância: Shionka, viva, desinibida, despreocupada, era muda, mas tinha um talento especial com os seus silêncios e trejeitos e uma capacidade extraordinária para comunicar com o belo Yankel, cego de nascença e Eryk o amigo cristão; Rasia, a mãe de Yankel; Salomão Finkelstein e Roman Skiba os dois homens mais poderosos da comunidade judaica e cristã respectivamente; Tadeusz o presidente da Câmara; o padre Kazimierz, Pani Krysia e as beatas; o professor Shlomo Pasternak, judeu, poeta, encadernador, tenor, comunista, uma personagem invulgar, injustiçada e caluniada por um crime que não cometeu, abandona a terra e deixa um edifício que virá a ser o manicómio Pasternak; Florian e a irmã Kasia serão os primeiros loucos a habitar o manicómio; Tauba Sandberg a linda judia com “pescoço de Modigliani” e Perla são as duas amigas ligadas pela vida e pela morte; o Checo, pintor e vendedor de tintas…

Aparentemente convivendo sem problemas, o “círculo perfeito” era uma comunidade dividida e com territórios delimitados. Se ocorriam episódios banais e fruto de a intriga ser “a cultura dominante da cidade”, a verdade é que os sinais a que poucos liga(va)m e vistos como naturais são sintoma de um mal-estar que vai crescendo. “Cada Judeu é um prego espetado em Cristo” uma frase obsessiva do presidente da Câmara revelou-se bem um sinal do antisemitismo em muitos dos seus conterrâneos. O início da guerra, o medo que se instala, a desconfiança, são os ingredientes que potenciam os conflitos latentes, despertam a bestialidade e levam à tragédia. A história está repleta de exemplos terríveis que tornam a luta pela Paz uma prioridade absoluta para que a Humanidade não se perca. Há quem queira apagar a história, mas para além do holocausto, relembro aqui a matança dos judeus em Lisboa, na Páscoa de 1506 e que precedeu um período de cerca de trezentos anos de presença da Inquisição em Portugal, o genocídio de hutus contra tutsis no Ruanda em 1994 ou o genocídio na Bósnia-Herzegovina são apenas alguns exemplos que não podemos esquecer, especialmente agora que o mundo se está a tornar num lugar cada vez mais perigoso. Um lugar onde a loucura anda à solta.

A incomodidade a que me referi no início deste texto decorre do facto de que ninguém sai incólume. Os ocupantes que à vez são os senhores do território, fruto do acordo entre Hitler e Estaline sobre o destino da Polónia (1939) –  os alemães, os russos, os alemães – vão gerar um clima de ódio entre a população que leva a que os cristãos jurem vingar-se um dia que os russos partam: “Por isso, fizeram a Cristo a mais solene das promessas: se um dia os bolcheviques partissem, cada cristão que sobrasse saberia o que fazer à raça de sabujos e nem uma cabeça ficaria por pisar.”(p. 224) Basta o riscar de um fósforo para que a palha se incendeie. Aos gritos de “Comunistas, traidores, bufos” começa-se com pedras arremessadas contra um guarda-livros e depois vai tudo a eito. E depois há os silêncios, as cobardias, as cumplicidades, as vinganças, mas também os actos singulares, fora da multidão ensandecida. Yankel foi “só mais um judeu a escapar das cinzas.”

É um livro muito duro, com uma estrutura narrativa em dois momentos alternados, bem construído, mas nem sempre de leitura fácil; não só pelas muitas personagens que aparecem, pelo que não poucas vezes tive de voltar atrás para contextualizar, para perceber sobre quem se estava a falar. Mas é também um livro muito visual, muito dos sentidos, com passagens que certamente permanecerão na memória de quem o ler. Pela dureza, mas também pela subtileza, pela poesia e pela beleza. Terríveis a cena do parto, as cenas no manicómio onde Tauba em estado avançado de gravidez foi posta a trabalhar, as dos vagões repletos de seres amontoadas, exaustos e sedentos onde se morre e se mata por umas gotas de água ou a do afogamento voluntário das duas amigas judias agarradas aos seus bebés.  A cegueira de Yankel e o mutismo de Shionka são fonte de cenas maravilhosas de comunicação táctil entre eles, quer num aperto de mão que pode ter tantos significados até ao descobrir dos corpos e do amor. E como são os sons da guerra, dos ocupantes que entram para um cego que os ouve através das vidraças? E quando a velhice chega, a solidão é quebrada com o tic tac constante das centenas de relógios que foi coleccionando ou com o som do oboé ou será do papagaio do vizinho do andar de cima?

Depois de “Perguntem a Sarah Gross” lido há dois anos, este último livro de João Pinto Coelho leva-me a acreditar que o autor nos irá continuar a surpreender com o seu talento e  capacidade narrativa.

Abril 2018
Almerinda Bento

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