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quinta-feira, 2 de março de 2017

A escolha do Jorge: “Carta à Mulher do Meu Futuro”

Péter Gárdos (n. 1948) é um realizador e encenador húngaro de renome com alguns prémios atribuídos ao longo da sua carreira. O seu mais recente filme “Fever at Dawn” surge na sequência da sua estreia como romancista através da obra “Carta à Mulher do Meu Futuro” (“Febre ao Amanhecer”, o original em húngaro).
Péter Gárdos tenta reconstituir a forma como os seus progenitores se conheceram após a 2ª Guerra Mundial, quando ambos se encontravam em campos de refugiados na Suécia. Após a morte do seu pai, a mãe de Péter Gárdos entregou-lhe dois maços de cartas correspondentes às cartas trocadas entre ambos, depois de terem saído dos campos de concentração. O seu pai Miklós, tendo conhecimento da existência de 117 raparigas da sua terra natal, sobreviventes de campos de concentração, decidiu escrever a todas elas na esperança de encontrar a mulher com quem iria constituir família.
A obstinação de Miklós em contrariar os exames médicos e os poucos meses de vida que lhe estavam sentenciados foi de tal forma grande que acabou por sobreviver à tuberculose contraída no campo de concentração de Bergen-Belsen, além de todas as consequências relacionadas com maus tratos que deixaram Miklós em pele e osso, sem dentes, um ser humano completamente debilitado com menos de 30 quilos.
A troca de correspondência com Lili uniu estes dois jovens que nada tinham a perder além da dor da
perseguição por serem judeus. A guerra já era passado, daí que fosse imperativo recuperar a saúde e preparar o futuro.
A obra dá-nos conta das dificuldades por que estes dois jovens passaram e de como tendo chegado aos campos de refugiados na Suécia, como verdadeiros farrapos humanos, e de como só conseguiram sobreviver quase por um milagre, conseguiram, através do amor que passou a uni-los, vencer a própria morte.
Não sendo propriamente uma obra extraordinária do ponto de vista literário, “Carta à Mulher do Meu Futuro” apresenta-se como mais uma obra que traz à luz uma história baseada em factos reais e que denunciam uma vez mais as atrocidades cometidas pelos nazis no decurso da 2ª Guerra Mundial.
O filme “Febre ao Amanhecer” foi apresentado em Março de 2016 na “Judaica – Mostra de Cinema e Cultura”, em Lisboa, tendo contado com a presença do escritor e realizador Péter Gárdos, coincidindo igualmente com o lançamento da obra “Carta à Mulher do Meu Futuro”.

Excertos:
“O meu pai nunca contou a Lili que no campo de Belsen, durante três meses, queimava cadáveres.
Como poderia falar daquele cheiro horrível, asfixiante, que se libertava do monte de corpos, irritando-lhe a garganta? Como poderia encontrar verbos ou adjectivos adequados para definir essa função? Como poderia descrever aqueles momentos, reiterados, em que uns braços nus e escanzelados lhe escapavam das mãos e caíam, inanimados, sobre outros corpos gelados, produzindo um barulho abafado?” (p. 121)

“- Sabe, por um cruel capricho do destino, fiz parte do grupo de médicos que assistiram ao momento da libertação do campo de Belsen. Gostaria de esquecer esse dia, mas não é possível. Julgávamos que já tinham sido retiradas todas as pessoas que dessem qualquer sinal de vida, por pequeno que fosse. Só restavam cadáveres no asfalto… cerca de trezentos corpos imóveis, nus ou cobertos por trapos. Tantos mortos com corpo de criança... esqueletos com vinte quilos…
(…)
Olhei para trás uma última vez, só para o caso de… Não percebi se era eu que estava a ver coisas ou se… realmente havia um dedo a mexer-se… Percebe, Miklós? Como agora lhe estou a mostrar, assim, desta maneira, semelhante à última batida de asas de um pombo… ou à última folha que dança quando o vento abranda.
O médico levantou a mão e dobrou o dedo indicador. Depois acrescentou, com voz rouca:
- Foi assim que trouxemos a Lili de volta.” (pp. 135-136)

Uma carta original




3 comentários:

  1. Este é um livro que vou ler. Obrigada, Jorge, por mo teres descoberto. Tem um tem que me diz muito e baseia-se em epístolas, algo que igualmente tem que ver comigo.

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  2. Este é um livro que vou ler. Obrigada, Jorge, por mo teres descoberto. Tem um tem que me diz muito e baseia-se em epístolas, algo que igualmente tem que ver comigo.

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  3. Não há palavras... apenas um murro no estômago!

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