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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

"A Outra Metade de Mim" de Affinity Konar

Creio que não existe expressão mais certa do que a contida na capa e por isso começo a minha apreciação deste livro com ela: achei-o "brutalmente belo!" Foi isso que senti quase no princípio deste livro e que tive a certeza já a meio da sua leitura. O final, de uma beleza rara onde a adjectivação passa pela palavra "recomeço". Uma esperança que muitos não tiveram direito. Um recomeço difícil, sem ódio.

Fiquei estarrecida com muitas partes desta narrativa mas fiquei também surpresa com a inocência que transparece nos discursos das duas gémeas, personagens principais, que nas mãos de Mengele, tentam sobreviver. A narrativa é feita, alternadamente, pelas vozes das duas meninas que na época teriam 10/12 anos, mas contada quando adultas. Um recordar doloroso do passado.

No "Zoo" onde viveram, onde a Maldade teve asas numa doentia imaginação e Mengele foi o seu instrumento humano, as gémeas, serviram de cobaias para as experiências que se realizaram naquela parte do campo de Auschwitz. Os gémeos, acreditava-se, teriam mais hipóteses de sobrevivência. 

A capa está espectacular. Simples, bonita e, coisa rara em muitos livros, tem tudo a ver com a história. Leiam e vejam porquê... 

Uma leitura brutal e de uma rara beleza, contudo. Porque no fundo, a Luz e a Esperança. A Libertação e o Recomeço. 

Sem mais palavras, dou nota máxima (já alguma vez dei 7?). O meu livro para 2016.


Terminado em 29 Outubro de 2016

Estrelas: 7*

Sinopse
Pearl tem a seu cargo o triste, o bom, o passado. Stasha fica com o divertido, o future, o mau. Corre o ano de 1944 quando as gémeas chegam a Auschwitz com a mãe e o avô. No seu novo mundo, Pearl e Stasha Zamorski refugiam-se nas suas naturezas idênticas, encontrando conforto na linguagem privada e nas brincadeiras partilhadas da infância. As meninas fazem parte da população de gémeos para experiências conhecida como o Zoo de Mengele e, como tal, conhecem privilégios e horrores desconhecidos dos outros. Começam a mudar, a ver-se extirpadas das personalidades que em tempos partilharam, as suas identidades são alteradas pelo peso da culpa e da dor. Nesse inverno, num concerto orquestrado por Mengele, Pearl desaparece.

Stasha sofre a perda da irmã, mas agarra-se à possibilidade de que ela continue viva. Quando o campo é libertado pelo Exército Vermelho, ela e o companheiro Feliks - um rapaz que jurou vingança depois da morte do seu gémeo - atravessam a Polónia, um país agora destruído. Não os detêm a fome, os ferimentos e o caos que os rodeia, motivados como estão em igual medida pelo perigo e pela esperança. Encontram no seu caminho aldeões hostis, membros da resistência judaica e outros refugiados como eles, e continuam a sua viagem incentivados pela ideia de que Mengele pode ser apanhado e trazido à justiça. À medida que os jovens sobreviventes descobrem o que aconteceu ao mundo, tentam imaginar um futuro nele. Uma história extraordinária, contada numa voz que tem tanto de belo como de original, Mischling é um livro que desafia todas as expectativas, atravessando um dos momentos mais negros da história da humanidade para nos mostrar o caminho para a beleza, a ética e a esperança.

sábado, 29 de outubro de 2016

Na minha caixa de correio

  

 

E chegaram esta semana:

- A Magia do Acaso, livro autografado, oferta da Asa.
- A Criança de Fogo e A Derradeira Ilusão, ofertas da Topseller
- O Rapaz e o Pombo, oferta da Oficina do Livro
- Cilada em Israel, oferta de uma amiga que precisava de espaço nas estantes.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Convite Bertrand


Novidade ASA

A Magia do Acaso
de Tiago Rebelo
O que acontece quando a magia de um encontro improvável muda radicalmente as vidas de um homem e uma mulher?
Sofia, secretária num escritório de um famoso advogado, casada com André, um bem-sucedido administrador de uma empresa do ramo imobiliário, e eterna sonhadora, sente-se insatisfeita com a confortável vida que leva. Num encontro improvável conhece Bernardo, um fascinante homem de negócios. Apesar do charme inebriante deste e da inesperada atracção que sente não se decide a pôr em causa o seu casamento.
Mas um acontecimento inesperado encarregar-se-á de fazer tremer os pilares da vida monótona que hesita em deixar. Após inúmeros encontros e desencontros, peripécias e reviravoltas, Sofia consegue finalmente fazer uma ruptura total com a vida que levou até aqui, virar a página e entregar-se por completo a Bernardo. Os sonhos e a magia do acaso vencem sempre.
Tiago Rebelo é um escritor que nos faz procurar compreender quem somos através das suas histórias empolgantes e das suas personagens consistentes. Com uma longa carreira de produção literária recheada de êxitos, é um dos autores preferidos do público português, sendo os seus livros uma presença habitual nos lugares cimeiros das principais tabelas de vendas nacionais.  A sua obra está disponível em países como Angola, Brasil, Moçambique, Itália, Suíça, Argentina e Roménia.

Julia Navarro fala sobre o seu novo livro «História de um Canalha» - iniciativa Bertrand


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A escolha do Jorge: Tudo Passa

“Tudo Passa” é uma das obras emblemáticas de Vassili Grossman (1905-1964) a par de “Vida e Destino” e "Bem Hajam!” igualmente publicadas em língua portuguesa.

Vassili Grossman é proveniente de famílias judias da Ucrânia tendo a sua mãe sido vítima dos nazis; formado em engenharia química à semelhança de Primo Levi, o autor desde cedo dedicou-se à escrita estando ao serviço da URSS no âmbito da 2ª Guerra Mundial em assuntos que enalteciam o país em detrimento dos Alemães em temas como a Batalha de Estalinegrado, a queda de Berlim ou o Holocausto.

Se por um lado o autor era reconhecido no seio da URSS como um dos escritores de apreço do Estado, por outro lado, só mais tarde a URSS se apercebeu que a escrita de Vassili Grossman apontava as garras na defesa dos direitos do Homem, o que significa que inevitavelmente o autor iria denunciar os crimes mais ferozes e hediondos cometidos no seio do estado soviético.

“Tudo Passa” desenvolve-se num misto de romance e ensaio envolvendo o leitor na história de Ivan Grigorievitch que passou três décadas da sua vida em campos de trabalho forçado, na Sibéria, e que ao fim deste tempo, regressa a Moscovo para viver o tempo que lhe resta, em liberdade. Esta história que varia entre o comovente e o angustiante é relatada de uma forma em que são postos a nu as muitas armas utilizadas pelo estado soviético como forma de controlar e esmagar a população. O medo instalou-se de forma severa e a liberdade foi totalmente retirada aos cidadãos. Este foi o destino da URSS durante décadas. Uma população subjugada e silenciada pelo medo. Era o medo que conduzia às múltiplas denúncias de familiares e vizinhos que viriam a acabar em campos correccionais onde acabariam por morrer à fome, com doenças, ou vítimas de tortura e esgotamento físico ou a conjugação das razões enumeradas anteriormente. Quem sobreviveu, ficou com a vida despedaçada, muitas vezes mutilado com deficiência física, além dos traumas de natureza psicológica e emocional a que foi sujeito. Que préstimo teriam estas pessoas em liberdade, na sociedade que desconheciam e relativamente à qual foram retirados durante anos a fio? Eram estranhos aos outros, tornaram-se estranhos para eles próprios.

Mas chegou o dia 5 de Março de 1953 que trouxe a notícia do falecimento de Estaline! A URSS tremeu ante a notícia porque ninguém concebia simplesmente a ideia de que o grande ditador morresse e se assim era a explicação assente no medo latente e vibrante pelo qual as pessoas viviam.  A morte de Estaline teve um impacto de tal forma grande na URSS que Vassili Grossman escreveu “Stálin morreu fora do plano, sem ordem dos órgãos de direção. Stálin morreu sem ordem pessoal do próprio camarada Stálin. Nesta liberdade, neste voluntarismo da morte havia qualquer coisa de dinamitador, contradizendo a própria essência profunda doestado. Grande perturbação abrangeu as mentes e os corações.” (p. 32)

Embora o regozijo fosse sentido em certos meios e tantas vezes à porta fechada, após a morte de Estaline veio a comprovar-se que o período então vigente nada mais era do que a consolidação do anterior assente nos valores marxistas-leninistas e tendo Estaline como o grande exemplo na concretização de um Estado soviético forte assente no medo e na liberdade confiscada aos cidadãos.

É precisamente o que aconteceu com Ivan Grigorievitch que ao regressar da Sibéria procurava dar continuidade à sua vida que ficara em suspenso, no reatar amizades e até uma relação amorosa parada no tempo durante décadas. O tempo passa e as vidas daqueles que fizeram parte da vida dos que experimentaram o cárcere também seguiram o seu curso ainda que, passadas três décadas de ausência, “Tudo Passa” para Ivan Grigorievitch se dar conta que afinal tudo permanece na mesma, um buraco negro nas vidas das pessoas, que continuam assombradas com a ausência da liberdade.

Ivan Grigorievitch vai relatando as suas experiências desde o comunismo de guerra entre brancos e vermelhos até que estes, os bolcheviques instituem a ditadura do proletariado assente nos princípios de Marx sob a vigilância e orientação de Lenine. Estão assim criadas as bases daquele que foi um dos mais terríveis estados totalitários que a História conheceu. De Lenine a Estaline foi um passo, acentuando-se uma política baseada nas depurações frequentes porque, também Estaline, nunca conseguiu vencer o medo que o corroía sob o perigo eminente de o Estado vigilante ruir.

A estrutura de “Tudo Passa” evolui deste modo entre o romance em que o leitor conhece inúmeros casos de vítimas do terror leninista e estalinista, mas também apresenta-nos um discurso que apela à reflexão, apresentando assim a forma de ensaio.

Vassili Grossman alerta-nos nas entrelinhas que o perigo está sempre à espreita face a ditadores improváveis. Nunca saberemos o que a História nos reserva, mas é nosso dever aprender com as suas lições de modo a evitarmos semelhantes horrores e sofrimentos.

Tantas vezes abafado face ao impacto do Holocausto, o terror vivido na URSS com milhões de vidas ceifadas é relegado para um segundo plano. Vassili Grossman não pretende sobrepor um em detrimento do outro, independentemente de o número de vítimas na URSS ser substancialmente superior, e num período de tempo também superior, que o do Holocausto quando circunscrito à 2ª Guerra Mundial. Tratam-se, pois, de duas situações que marcaram a História do século XX manchando a mão do Homem que passa a ser encarado como um assassino em massa a par das inúmeras conquistas em matéria científica e tecnológica que alcançou e tem alcançado. É este também o papel da História, não esquecer os milhões de vítimas nas mãos de indivíduos ignóbeis e tudo por causas perdidas como o nazismo e o comunismo.

“Mas onde está essa vida, onde está esse terrível sofrimento? Será que não resta nada? Será que ninguém vai ser responsabilizado por tudo isso? Será tudo esquecido, não ficará nada na memória? E a terra cobrirá as pegadas?” (p. 152)

Vassili Grossman é deste modo uma das vozes da URSS que tem a missão de denunciar o terror estalinista, mas também de alertar as consciências face ao futuro incerto. “Tudo Passa” afirma-se como uma obra singular não apenas de cariz histórico, mas fazendo a ponte com a literatura, constituindo uma das obras incontornáveis da segunda metade do século XX.

Vassili Grossman é daqueles escritores que não necessitam de ficcionar uma narrativa com histórias duras e macabras. Basta para isso basear-se na realidade que viveu de perto e da qual foi vítima em certa medida.

Excerto:
“O terror e a ditadura engoliram os seus criadores. E o Estado, que parecia apenas um meio, acabou por se tornar um fim! As pessoas que criaram este Estado pensavam que era um meio de concretização do ideal delas. Mas verificou-se que os seus sonhos e ideais eram apenas um meio do grande e terrível Estado. O Estado servidor transformou-se num autocrata sombrio. Não foi o povo que precisou do terror do ano de 1919; não foi o povo que liquidou a liberdade de imprensa e de palavra; não foi o povo que precisou da morte de milhões de camponeses – os camponeses eram precisamente a maior parte do povo, não foi o povo que mandou encher as prisões e os campos correcionais em 1937; não foi o povo que precisou das deportações mortíferas para a taiga dos tártaros da Crimeia, dos calmuques, dos balcares, dos búlgaros e dos gregos russificados, dos tchetchenos e dos alemães do Volga; não foi o povo que pôs fim à liberdade de semear, ao direito à greve operária; não foi o povo que estabeleceu o monstruoso descalabro dos preços relativamente ao custo real das mercadorias.
O Estado tornou-se dono e senhor, o nacional deixou de ser forma transformando-se em conteúdo, em essência, expulsou o caráter socialista para o transformar em invólucro, em fraseologia, casca, aparência. Resta a lei sagrada da vida que se definiu com trágica evidência: a liberdade do homem está acima de tudo; não há no mundo qualquer objetivo ao qual seja lícito sacrificar a liberdade humana.” (p. 179)

Texto da autoria de Jorge Navarro

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"Água do Meu Coração" de Charles Martin

Charles Martin é, para mim, uma aposta segura. Já li A Montanha Entre Nós (podem
ler aqui a minha opinião) e tenho quase a certeza de ter lido Até Que o Rio nos Separe mas não encontro o meu comentário no blogue, o que significa que tenho de tratar disso rapidamente... No entanto, pegar num livro com as expectativas elevadas é sempre um risco, como sabem.

Não se aflijam que, aqui, neste Água do Meu Coração, não há perigo de elas serem demasiado altas e a leitura sair gorada. A-DO-REI!

Uma escrita tão simples e no entanto, tão repleta de conteúdo que nos toca rapidamente o coração, que nos enche tanto a alma que fiquei, após a última página, a secar a lágrima que teimou em sair. Confesso que um filme consegue comover-me mais rapidamente que um livro e são raras as vezes que as páginas de uma história possuem influência direta com o meu saco lacrimal... Creio que este autor tem o condão de nos fazer visualizar os sítios que descreve, as personagens que caracteriza e, acima de tudo, dar vida ao que nos conta. Estive lá, nessa Nicarágua longínqua, que desconheço e partilhei o quanto o sofrimento e o amor podem alterar o carácter de um homem. 

Adorei, simplesmente. Recomendo muitíssimo. Uma história que desperta em nós uma característica que acho fabulosa no ser humano: a esperança. Ah, e não devem ler a sinopse. Partam à descoberta deste livro sem saberem nada do seu conteúdo. Garanto-vos que vai ser bem melhor!

Terminado em 23 de Outubro de 2016

Estrelas: 6*+

Sinopse
Com uma vida difícil desde criança e um passado no mundo dos negócios de que não se orgulha, Charlie Finn vive agora tranquilamente de trabalhos pouco transparentes que faz com o seu barco ao largo da costa de Miami.
Charlie procura levar um dia de cada vez, sem grande agitação, no entanto, quando os seus atos têm consequências devastadoras para aqueles que mais ama, sente-se obrigado a reparar todo o mal que causou.
Decidido a trazer para casa são e salvo o filho do seu melhor amigo, viaja para a América Central. A viagem leva-o inesperadamente até León, um lugar a que outrora virara costas pelas piores razões, onde reencontra aqueles que pagaram pelas decisões cegas do seu passado, entre eles Paulina e a filha.
Poderá o confronto com o passado conceder a Charlie a redenção de todos os males que provocou e ajudá-lo a encontrar um amor como nunca julgou possível?

Cris

sábado, 22 de outubro de 2016

Na minha caixa de correio

  

 

Quero tanto ler estes livros que recebi esta semana que nem sei por onde começar!
Ora bem, chegaram esta semana:
Uma Parte Errada de Mim veio do Clube dos Passatempos/Correio da Manhã.
Eu Sou a Árvore foi uma oferta da Companhia das Letras.
Da Marcador chegou Concerto em Memória de um Anjo.
A Guerra Não Tem Rosto de Mulher foi uma oferta da Elsinore.
E finalmente, oferta da Bertrand, A Outra Metade de Mim.
Acho que vou começar a leitura de baixo para cima, começando pelo livro da Bertrand. Volto ao meu tema de eleição, o Holocausto. Que acham? (O pior mesmo é que não consigo olhar para as minhas estantes sem pensar que deveria ter um trabalho que me ocupasse metade do dia...)

Novidade Bertrand

A outra metade de mim
de Affinity Konar
Pearl tem a seu cargo o triste, o bom, o passado. Stasha fica com o divertido, o futuro, o mau. Estamos em 1944. As meninas foram enviadas para Auschwitz com a mãe e o avô. Pearl e Stasha Zamorski, gémeas judias da Polónia, refugiam-se no seu próprio mundo, reconfortando-se com a linguagem secreta que partilham e as brincadeiras da infância, no meio da loucura da Segunda Guerra Mundial. Mas este refúgio é ameaçado quando caem sobre a asa de
Josef Mengele, o anjo da morte de Auschwitz. Na qualidade de cobaias do célebre Zoo de Mengele, as meninas vivem privilégios e horrores desconhecidos dos demais. Convicta de que uma participação voluntária irá salvar a sua família, Stasha deixa que Mengele faça dela sua mascote. Horrorizada com isto, Pearl dedica-se ainda mais ao bem-estar da irmã naquele clima de brutalidade e horror. Quando Pearl desaparece durante um concerto organizado por Mengele no inverno de 1944, Stasha sofre, mas não deixa de acreditar que a sua gémea continua viva. Depois da libertação de Auschwitz, ela e o seu companheiro Feliks, um rapaz que jurou vongar o seu próprio gémeo, atravessam toda a devastação da Polónia em busca do médico nazi, que Stasha acredita ter a capacidade de trazer Pearl de volta. Nesta viagem marcada pelo perigo e pela esperança, vão descobrindo o que aconteceu ao mundo, ao mesmo tempo que
tentam imaginar um qualquer futuro possível.

Novidade Clube do Autor

O Filho de Deus
de Bodie e  Brock Thoene
Neste novo volume da muito elogiada série de livros sobre a vida de Jesus, ao autores retratam os últimos dias da vida de Jesus através do olhar de três pessoas marcantes: o governador Pôncio Pilatos, para quem a Judeia era essencial para as suas aspirações políticas; a mulher, Cláudia, que procura ajuda para o filho aleijado; e o centurião Marcos Longinus, aprisionado entre a lealdade ao Império, o amor por Cláudia e uma crença cada vez maior em Jesus.Em "O Filho de Deus" encontramos assim uma narrativa a três vozes que dá ao leitor um retrato realista da vida social e política de Jesus Cristo.

Novidade Oficina do Livro

O RAPAZ E O POMBO
de Cristina Norton
Cristina Norton surpreende-nos, mais uma vez, com um romance em que mistura realidade com ficção, numa história passada entre os anos 1930 e 1958. O leitor é conduzido pela voz de um rapaz judeu, com humor e ironia, num universo repleto de momentos de desalento, ternura e amor à vida. As personagens à volta dessa criança não têm nome nem identidade e vivem em lugares não definidos, porque representam todas as pessoas que passaram por uma das maiores injustiças de todos os tempos.
Quando Cristina Norton teve a ideia de escrever sobre um rapaz que encontra num pombo o seu consolo e refúgio, achou que não podia excluir o que uma mulher lhe revelara em Buenos Aires, no fim dos anos 50. Sentiu que tinha o dever de escrever e denunciar o que por vergonha as mulheres que haviam passado por esse género de escravatura não ousavam contar.
Destaca-se também uma adolescente alemã (personagem que retrata uma amiga da autora e um testemunho real), porque ela, a mãe e a irmã sofreram as consequências de um regime e de uma guerra com que não concordavam, apesar de serem arianas puras.
Os caminhos dos protagonistas deste romance cruzam-se nos países onde decorrem as suas vidas: Alemanha, Holanda, Itália, Suíça, Espanha, Brasil, Argentina e também Portugal.

Foi em memória deles e de todos os que não tiveram voz para narrar o inenarrável que este livro foi escrito.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A Carreira do Mal de Robert Galbraith

Epá! Gostei mesmo deste livro. Amantes de policiais com acontecimentos bem macabros, este livro é para  vocês! 
Com um enredo de cortar a respiração, com os detectives já meus conhecidos de O Bicho da Seda, Cormoran Strike e Robin Ellacott, este livro é de uma leitura surpreendentemente rápida, com as páginas a voarem pelos nossos dedos. 

Sem dar conta 500 páginas voaram num ápice e a minha rendição foi imediata. 
As pistas são lançadas e os suspeitos do crime delineados rapidamente por sugestão do detective. No entanto, o assassino parece fugir entre os dedos sem deixar rasto e torna-se difícil encontrá-lo. 


As mortes sucedem-se. Os membros decepados também. Só alguém com um alto distúrbio conseguiria continuar a matar e não ser encontrado. Qual dos três suspeitos seria capaz de tal barbárie? Bem estruturados, os capítulos são constituídos a duas vozes intercaladas, uma do lado do assassino, outra do lado dos detectives. Fui acompanhando a trama sem descortinar a verdade. 

Gostei especialmente do clima romântico que parece nascer entre os dois detectives e ainda mais do final por não ser o esperado. Fica em aberto um leque de muitas possibilidades para os próximos livros, o que muito me agradou. 


Foi com muito prazer que li este livro e é com satisfação que o recomendo! Creio que vão gostar. Basta serem apreciadores deste género literário.


Para mais informações sobre o livro vejam Editorial Presença 
aqui!
Terminado em 19 de Outubro de 2016
Estrelas: 6*
Sinopse

Quando recebe um misterioso embrulho, Robin Ellacott fica horrorizada ao descobrir que lá dentro se encontra a perna de uma mulher. 

O seu chefe, o detetive privado Cormoran Strike, mostra-se menos surpreendido mas está igualmente alarmado. Strike calcula que quatro pessoas do seu passado possam ser os responsáveis ? e sabe que qualquer uma delas é capaz de semelhante brutalidade.
Com a polícia concentrada num suspeito que Strike considera não ser o culpado, este e Robin decidem investigar os mundos sombrios e retorcidos dos restantes três suspeitos. No entanto, à medida que se desenrolam mais acontecimentos macabros, o tempo esgota-se…

Cris

Resultado do Passatempo Presença - "A Carreira do Mal"

Com a sempre prestável colaboração da Editorial Presença tivemos um livro fabuloso para oferecer aos seguidores do blogue, A Carreira do Mal de Robert ​Galbraith, o pseudónimo de J.K.Rowling.

Dos 297 participantes foi seleccionado o nº 156 que corresponde a:
Inês Pereira de Oliveira de Azeméis.
Muitos parabéns, Inês! Vais ser contactada via e-mail e a Editorial Presença vai, dentro em breve, enviar-te o livro. Está atenta aos CTT. 
Espero que gostes tanto quanto eu desta leitura! Estou nas últimas páginas e a adorar!
Para mais informações sobre o livro ver Editorial Presença aqui!
Cris

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

"Santuário" de Andrew Michael Hurley

Uma leitura que permaneceu, já depois de lida e por muito tempo, de uma forma constante no meu pensamento porque não sabia como descrevê-la, como comentá-la aqui no blogue.

Se, por um lado, o que me marcou mais foi a forte união que transparece entre os dois irmãos, protagonistas principais deste romance, por outro, o que me fez caminhar nesta obra foi todo o mistério, as crenças e superstições que caracterizam os restantes personagens e que conferem a esta leitura um toque de terror que me acompanhou do princípio ao fim. 
Dois irmãos, um mudo e o mais novo, alguém que tem por missão sua a proteção. Os pais que desejam e rezam por um milagre. Peregrinacões anuais para obtenção da cura do irmão mudo. Algumas personagens sinistras e um mistério que fica, na minha opinião, um pouco por esclarecer. Poder-se-ia perguntar até que ponto foi a verdade venceu ou foi apenas uma versão da verdade...
Misterioso, repleto de personagens algo complexas, uma entrada nos meandros da religião, nos segredos dos (possíveis?) mistérios, do que se conhece e do que se fica por conhecer, da verdade ou duma versão da verdade. 
Terminado a 12 de Outubro de 2016
Estrelas: 4*
Sinopse
Dois irmãos. Um, mudo; o outro, o seu protetor. Todos os anos, a família visita o santuário que fica na desolada faixa de costa conhecida apenas como «Loney», desesperadamente à espera de uma cura. Durante as longas horas de espera, os rapazes são deixados sozinhos. E não conseguem resistir à passagem que se vislumbra a cada mudança da maré, à velha casa que se ergue ao longe… Muitos anos mais tarde, Hanny é um homem feito e já não precisa dos cuidados do irmão. Mas depois descobre-se o cadáver de uma criança, morta há muito. O Loney acaba sempre por dar à costa os seus segredos.
Cris

sábado, 15 de outubro de 2016

Na minha caixa de correio

 

 

  


 


 

 

  


Ofertas das editoras, às quais agradeço infinitamente:
- Suma de Letras - Matéria Escura e O Crente,
- Topseller - Mademuiselle Chanel e O meu Nome É Leon,
- Bertrand - História de Um Canalha e A Seta do Tempo,
- Asa- O Rapaz no Cimo da Montanha, 
- Oficina do Livro - Indochina e Os Segredos da Tia Cátia
- Clube do Autor - Memórias de Um Escravo e A Livraria,
Bizâncio - Os Hóspedes, 
Porto Editora - Água do Meu Coração.

Comprados:
- Era uma Vez Um Hamburguer
- Auschewitz, Canção de Embalar

 Clube dos Passatempos:
-Era Uma Vez o Porto
-larga Quem Não te Agarra.


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Novidades Planeta

O CEMITÉRIO DOS LIVROS ESQUECIDOS (Edição especial)
de Carlos Ruiz Zafón


​​Para os que se apaixonaram por A Sombra do Vento, que se deleitaram com O Jogo do Anjo e se emocionaram com O Prisioneiro do Céu, chega agora uma nova colecção exclusiva com os primeiros três livros da tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos.
Uma nova imagem e um formato inédito, que combina a capa dura, impressa a preto e branco, com uma sobrecapa em acetato transparente, a cores.
A série O Cemitério dos Livros Esquecidos, de Carlos Ruiz Zafón,
é a mais vendida deste autor em Portugal e no mundo:
mais de 25 MILHÕES de leitores.


DESDE A SOMBRA
de Juan José Millás

Damián sente-se confuso desde que perdeu o emprego. Um dia comete um pequeno furto numa feira de antiquários e esconde-se dentro de um armário.
​Antes que consiga sair, o armário é vendido e enviado para o quarto​ de Lucía e Fede, onde Damián acaba instalado, como se fosse parte do móvel.
A habilidade com que leva a bom porto, uma premissa impossível, ​mas plausível, ainda que inverosímil, confere a este romance uma tensão ​extraordinária.
​Assim do seu esconderijo, Damián observa a família. Consegue aproximar-se do coração de Lucía, dos seus temores e sonhos e, ao fazê-​​lo, sente-se por fim respeitado e apurará do que é capaz para se sentir vivo.

Novidade Oficina do Livro

INDOCHINA
de Jorge Vassalo
O livro Indochina não é só uma emocionante colecção de histórias de viagem, encontros e desencontros, curiosidades e peripécias várias. É uma viagem em si mesmo que põe à prova os sentidos, as emoções e as opiniões. E é também uma ferramenta essencial para quem planeia viajar no Vietname, Camboja e Laos, pois inclui dicas e sugestões de quem conhece esta zona do mundo como poucos.
Ao longo do livro, o leitor tanto será transportado para um comboio preso no meio de um furacão como será testemunha de momentos tensos de um assalto a meio da noite. Mas poderá também anotar receitas, aprender sobre religião e mitologia ou debater a relação dos turistas com as crianças locais ou com os elefantes.
Para uns, este livro será um eco da viagem que fizeram em tempos. Para outros, a projecção de um plano concreto – ou de um sonho –, da aventura que vão viver um dia. Seja como for, é um livro aberto, que não se esgota nas palavras impressas. Sublinhe o que achar essencial, acrescente notas, opiniões, mapas e bilhetes.

Novidade Companhia das Letras

Eu Sou a Árvore
De Possidónio Cachapa
Todas as árvores caminham sobre o Tempo, sobre a passagem das estações, porque nenhum outro movimento lhes resta. Existem, simplesmente, dividindo-se entre o corpo visível que se estende à luz e o corpo inferior que vive de forma encoberta. Os seus frutos, contudo, são esperanças perdidas, Verão após Verão. Imagens do desejo de poder ser mais do que braços a estender-se ao céu, ao vento, à impiedade dos pássaros. Da vontade que todo o corpo, o poderoso corpo, pudesse sair da terra, com duas pernas móveis, e a fizesse estremecer de medo quando uma delas voltasse a pousar na superfície. Entre os homens e as árvores há tanto em comum que por vezes não se sabe onde começam uns e acabam os outros. É o gosto obstinado de lançar raiz na terra funda, de dar fruto e espalhar semente. Samuel acredita que lhe basta um solo fértil para ser feliz e, sendo-o, permitir que todos o sejam tanto como ele. Mas a mulher sonha longe, os filhos guardam segredos e a força brutal dos seus gestos de patriarca deixa marcas inesperadas naqueles que ama. No seu esperado regresso ao romance, Possidónio Cachapacolhe um livro onde a Natureza e o Homem vivem misturados, moldando-se e afeiçoando-se mutuamente, enquanto o tempo se some como um carreiro de água em terra seca.

Novidade Bizâncio

Os Hóspedes
de Sarah Waters 
1922. Londres vive dias de tensão. Os ex-militares estão desiludidos, os desempregados exigem mudança. E numa casa de gente bem-nascida no sul da cidade, cujos habitantes ainda não recuperaram das perdas devastadoras da Primeira Guerra Mundial, a vida está prestes a modificar-se.
A senhora Wray, viúva, e a sua filha Frances - uma mulher com um passado interessante a caminho de se tornar uma solteirona - vêem-se obrigadas a alugar quartos.
A chegada de Lilian e Leonard Barber, um jovem casal da «classe média» traz uma série de perturbações: a música do gramofone, o colorido, o divertimento. As portas abertas permitem a Frances conhecer os hábitos dos recém-chegados e tanto a escadaria como o patamar nunca lhe pareceram tão animados.
À medida que ela e Lilian são empurradas para uma amizade inesperada, as lealdades começam a mudar. Confessam-se segredos, admitem-se desejos perigosos; a mais vulgar das vidas pode explodir de paixão e drama.
Vivendo um affair secreto, as duas amantes são envolvidas num acto de violência e crime, que dá a Os Hóspedes o mistério e suspense, tão característico de Sarah Waters.

Promoção WOOK deste livro com oferta de "Cada dia é um milagre" de Yasmina Khadra. Para detalhes ver aqui.

Novidade Quetzal

Cinco Esquinas
de Mario Vargas Llosa
À conversa, sem os maridos, e desatentas da hora do recolher obrigatório, Chabela e Marisa terão de pernoitar juntas. O que aconteceu na cama nessa noite passará a ser um grande e saboroso segredo. Chabela é mulher de um advogado de renome; Marisa, de uma das figuras cimeiras da exploração mineira. O mundo perfeito em que vivem – não fora a constante ameaça dos guerrilheiros e sequestros – será fortemente abalado por um escândalo. Após tentativa de chantagem por parte de Rolando Garro, diretor do pasquim Destapes, a participação do engenheiro Enrique Cárdenas numa orgia será tornada pública em todos os seus pormenores mais sórdidos. Segue-se um assassínio brutal. Mas a relação de tudo isto com o poder político, nomeadamente com o homem que na verdade governa de forma corrupta e autoritária o país, o Doutor, braço direito do presidente, será trazida à luz: curiosamente pela coragem e fibra da redatora principal do referido tabloide que usa o nom de plume «La Retaquita».

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A Escolha do Jorge: A Gaivota

"A Gaivota" constitui a nona obra de Sándor Márai (1900-1989) a ser publicada pela Dom Quixote dando assim continuidade à edição da obra integral do autor húngaro em língua portuguesa.
Publicado inicialmente em 1943, em plena 2ª Guerra Mundial, "A Gaivota" alude ao período imediatamente anterior ao início do conflito em que um alto funcionário em exercício de funções num ministério, em Budapeste, tem a consciência de que no dia seguinte toda a ordem social e cultural do país aparentemente instituída entrará em colapso percebendo-se que tal acontecimento tem que ver com o início da guerra.
Ao contrário de outras obras de Sándor Márai em que a narrativa evolui num espaço fechado e claustrofóbico onde um dos interlocutores, a par do leitor, ganham consciência de uma culpa passada, arrastando-os para a angústia e a melancolia, "A Gaivota" pressupõe à semelhança de "As Velas Ardem Até ao Fim", a obra de referência do escritor, que estaremos perante uma narrativa passada em vinte e quatro horas.
O alto funcionário ministerial recebe uma visita inesperada de Aino Laine, uma jovem professora oriunda da Finlândia que recorre aos seus serviços a fim de ser ajudada na sequência do conflito que está à beira de eclodir e que a fez sair do seu país natal.
Este indivíduo, de quem nunca saberemos o nome, ao deparar-se com esta jovem enfrenta os limites da razão fazendo crer a si mesmo que está perante a revisitação da sua amiga então falecida por quem nutria sentimentos relativamente aos quais nunca concretizou a relação amorosa. Estão assim lançadas as bases para o desafio do espaço e do tempo na busca de um sentido para a vida e determinação ou afirmação dos povos na busca de um espaço que lhes é próprio.
O funcionário ministerial tem um rasgo de lucidez que poderia facilmente ser confundido com loucura, correndo, dessa forma, o risco de vir a ser mal interpretado e deitando tudo a perder tendo em consideração o elevado cargo político que ocupa em Budapeste.
O nome finlandês de Aino Laine, cuja tradução é "Única Onda", alude, segundo o funcionário, às origens comuns entre húngaros e finlandeses que participam de uma mesma raiz linguística. Aino Laine idealiza de forma poética a fusão entre os povos através da guerra no intuito do avanço e afirmação do seu espaço vital, e também a fusão através da união entre povos diferentes tendo como base o sangue. O sangue é a sustentação face ao avanço e afirmação do espaço vital dos povos através do sangue derramado nos conflitos e guerras, assim como através da união entre as pessoas contribuindo para a sua descendência.
Assim, "Única Onda" sintetiza a ideia poética no que respeita à afirmação dos povos, a sua determinação ainda antes da Europa ser reconhecida enquanto tal, enquanto símbolo ou sinónimo de civilização.
Deste modo, o funcionário reconhece em Aino Laine o regresso de Ili, o seu amor não concretizado, através de uma gémea, herdeira de todo um passado que está ligado até às origens destes dois povos, tratando-a várias vezes como uma parente distante.
É com o mundo em suspenso nas vésperas da guerra e com as mais importantes individualidades da burguesia de Budapeste que este funcionário convida Aino Laine para ir à Ópera nessa noite. Todos os valores culturais que marcam o quotidiano desta burguesia estão prestes a ruir e os seus gestos e silêncios e os seus olhares são o reflexo desse vazio iminente que adquirirá forma na manhã seguinte com a divulgação de uma determinada notícia.
Poderíamos ser levados a pensar que a solidão deste funcionário conduzi-lo-ia ao desespero e, consequentemente, à loucura fruto da guerra ou conflito interior, na medida em que o homem é feito de guerras, sendo também o produto de inúmeras guerras que atravessaram o rio do tempo, a História.
É também, por vezes, a loucura de certos indivíduos que está na origem dos conflitos bélicos como o que teve lugar na 2ª Guerra Mundial com o avanço do nacional-socialismo (nazismo).
Aino Laine é poeticamente comparada à gaivota que percorre longas distâncias, no entanto, as recordações marcam a diferença, pesam na vida de uma pessoa. As recordações constituem a história de cada um e, numa dimensão mais alargada, a história de um povo e, em última instância, a História da Europa.
Algo de grave está para acontecer com o raiar do dia e que marcará para sempre a vida dos europeus. A sua identidade é posta em causa, a sua cultura. Algo se perderá para sempre, a influência e importância da cultura judaica como centro gravitacional na Europa Central e de Leste.
"A Gaivota" de Sándor Márai tem alguns pontos em comum com "As Segundas Considerações Intempestivas" de Friedrich Nietzsche, obra iniciada com "observe-se o rebanho que pasta" que vive o momento e não o guarda ao contrário do homem que vive e guarda o instante através da recordação que produz, a memória que é necessário preservar.
"A Gaivota" constitui uma obra singular no contexto das obras de Sándor Márai a que estamos habituados que, neste caso em particular, apresenta-nos com um cariz e preocupação civilizacionais procurando o lugar da Europa na guerra, no novo conflito então iminente.
Excerto:
"Naquela desordem tremenda que caracterizava a migração dos povos, quando etnias, tribos e raízes linguísticas iniciam os seus caminhos, misturando-se e separando-se na procura de uma pátria neste mundo que, naquela altura, oficialmente, não se chamava Europa, naquele caos enorme tinham nascido muitos laços, mesmo entre povos que não possuíam raízes linguísticas comuns, mas também se tinham rompido povos que, através de uma lacónica linguagem ancestral, se entendiam mutuamente e tinham misturado os seus sangues, tanto no campo de batalha como no leito nupcial… Grandes épocas eram aquelas, semelhantes à nossa de hoje. Sangue, línguas, costumes, formas de vida, interesses, misturando-se e fermentando, tudo numa grande bacia, nas planícies da Europa, desde o Mar Mediterrâneo até às florestas nórdicas. Forças selvagens tinham amassado e misturado os povos, todo o humano transbordado, o mundo era um único fluxo, uma única onda…" (pp. 122-123)

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A convidada Escolhe: História da Menina Perdida

"História da Menina Perdida - Maturidade - Velhice " - Elena Ferrante, 2014

Foi com um sentimento, misto de perda e de satisfação que cheguei ao fim da saga napolitana. Ao longo de quase mês e meio segui o percurso das duas amigas, principais protagonistas da tetralogia de Elena Ferrante. Em Nápoles, sobretudo, mas também em Pisa, Florença, Milão, Génova e Turim, desenrolam-se as vidas, sonhos, aventuras, amores, dúvidas, sentimentos, desde a infância até à velhice das duas amigas. Mas este retrato não se limita a elas, antes é uma longa viagem no tempo pela vida das pessoas e das famílias do bairro pobre e pelos desenvolvimentos da história da Itália e do mundo "que já não queria ter fronteiras" em veloz mutação.

Vive-se uma época turbulenta em Itália. Os raptos, os assassinatos (Aldo Moro), as extorsões são uma constante em Nápoles e noutras cidades italianas. O bairro tem as suas próprias leis e Lena, quando volta a viver na sua cidade natal, apercebe-se que é tratada como uma estranha e que há coisas que não lhe revelam. "Matava-se cada vez mais, no Véneto, na Lombardia, na Emilia, no Lácio, na Campânia. De manhã passava o olhar pelo jornal, e por vezes o bairro parecia-me mais calmo do que o resto da Itália." As posições políticas estão extremadas e as acções violentas levam a que uns vivam na clandestinidade e sejam procurados pela polícia, outros, como os Solara, que dominam o tráfico de droga, actuam impunemente e têm o seu próprio exército para fazer o trabalho sujo. A corrupção, a promiscuidade no interior do Estado envolvem igualmente camorristas e figuras públicas com peso na política. Lobbies e interesses muito poderosos fazem-se sentir no mundo da política, no mundo editorial, no jornalismo e nas universidades.

A influência da personalidade forte e agreste de Lila sobre Lena, apesar das distâncias e dos longos períodos de afastamento e de silêncio, se por um lado é um incentivo positivo para Lena e para o desabrochar das suas capacidades, por outro é um factor que desperta nela insegurança. Mas esta dependência/independência entre elas é recíproca. Lena separa-se do marido para finalmente viver uma paixão da adolescência e é confrontada pela amiga que a culpabiliza pelo seu afastamento das duas filhas e a adverte contra o amante. Se este é um período de exaltação e de fragilidade emocional, a verdade é que Lena, a narradora, na sua prática, como mulher e como mãe, dificilmente consegue não cair em contradição com o que escreve e o que diz nos debates e nas sessões em que participa na sua qualidade de escritora de renome.

Aos 36 anos, ambas engravidam. A segunda gravidez de Lila; para Lena a terceira. "Eu loira, ela morena, eu calma, ela nervosa, eu simpática, ela pérfida, nós duas opostas e em harmonia, nós duas distantes das outras mulheres grávidas, que observávamos com ironia." Enquanto que Lena nascida e criada no bairro sente que tem uma dupla identidade – é a senhora culta, escritora a viver na alta de Nápoles – Lila vive no bairro e tem as atitudes e a linguagem agressiva dos naturais do bairro.
Desaparecimentos misteriosos, enfartes, a degradação pela droga, mortes trágicas, prisões, traições, suicídios, depressões, a terra que treme "aqui existe o Vesúvio, que te recorda todos os dias que o maior empreendiimento dos homens poderosos, a obra mais magnífica, o fogo e o terramoto, e a cinza e o mar em poucos segundos a reduzem a nada." A estabilidade é uma miragem. O tempo é impiedoso para os corpos, os prédios, o comércio, a fama. As personagens de Elena Ferrante são de carne e osso e a autora descarna-as sem piedade. O "puro prazer de narrar" que caracteriza a escrita de Elena Ferrante foi como o editor de Elena Greco avaliou o terceiro livro que ela lhe enviou para publicação.

Com a velhice chegam as separações inevitáveis, o confronto com a solidão, com a perda de público, com o mundo em mudança prodigiosa. E como que num regresso ao princípio, surgem os fantasmas do passado, as bonecas da infância perdidas na cave de Dom Achille, a força da presença de Lila na vida de Lena mesmo quando ela voluntariamente se quis apagar.

Chegou ao fim esta saga napolitana, inesquecível. Lida sem interrupções, sem outras leituras pelo meio. A iniciar o Epílogo, a narradora desabafa: "Eu própria não consigo acreditar. Terminei esta história que me parecia que nunca mais terminava." Impressionante!

Almerinda Bento

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Meet & Greet Julia Navarro

Hoje a minha hora do almoço foi especial!

Juntamente com algumas bloguers e outros vencedores do passatempo que a Bertrand promoveu sobre o último livro de Julia Navarro, História de um Canalha, fomos falar um pouco com esta autora.

O livro estará nas bancas no próximo dia 14 e, para não variar, terá cerca de 800 páginas. Um tijolo, portanto! Como adoro, aliás! A conversa foi muito agradável, com a autora a fazer as honras da casa, simpática, prestável, conversadora.

Primeiro a medo, lá sairam as primeiras perguntas... Julia Navarro aproveitou para nos pôr a par de vários detalhes deste livro, da dificuldade em colocar-se dentro da personagem principal, um "canalha", para melhor o descrever. Foram 3 anos intensos de escrita que muitas vezes a deixou exausta. Difícil criar um personagem vil, duro, sem consciência.

Escrito num registo um pouco diferente, este livro, o favorito da autora, aborda alguns problemas do sec. XXI. Segundo ela, o livro faz o leitor pensar, refletir, analisar sobre assuntos actuais. A informação e a comunicação que chega em catadupa que gera a (des)informação e o poder e os seus jogos sem escrúpulos. Fiquei muito curiosa.

Ficam algumas fotos!




O meu obrigada à Bertrand por este fantástico encontro!

PS. No grupo ainda falta a Maria João, com quem tive o prazer de trocar algumas palavras, uma das vencedoras do passatempo.