Gosta deste blog? Então siga-me...

Indique o seu email para receber actualizações

Também estamos no Facebook e Twitter

terça-feira, 11 de outubro de 2016

A convidada Escolhe: História da Menina Perdida

"História da Menina Perdida - Maturidade - Velhice " - Elena Ferrante, 2014

Foi com um sentimento, misto de perda e de satisfação que cheguei ao fim da saga napolitana. Ao longo de quase mês e meio segui o percurso das duas amigas, principais protagonistas da tetralogia de Elena Ferrante. Em Nápoles, sobretudo, mas também em Pisa, Florença, Milão, Génova e Turim, desenrolam-se as vidas, sonhos, aventuras, amores, dúvidas, sentimentos, desde a infância até à velhice das duas amigas. Mas este retrato não se limita a elas, antes é uma longa viagem no tempo pela vida das pessoas e das famílias do bairro pobre e pelos desenvolvimentos da história da Itália e do mundo "que já não queria ter fronteiras" em veloz mutação.

Vive-se uma época turbulenta em Itália. Os raptos, os assassinatos (Aldo Moro), as extorsões são uma constante em Nápoles e noutras cidades italianas. O bairro tem as suas próprias leis e Lena, quando volta a viver na sua cidade natal, apercebe-se que é tratada como uma estranha e que há coisas que não lhe revelam. "Matava-se cada vez mais, no Véneto, na Lombardia, na Emilia, no Lácio, na Campânia. De manhã passava o olhar pelo jornal, e por vezes o bairro parecia-me mais calmo do que o resto da Itália." As posições políticas estão extremadas e as acções violentas levam a que uns vivam na clandestinidade e sejam procurados pela polícia, outros, como os Solara, que dominam o tráfico de droga, actuam impunemente e têm o seu próprio exército para fazer o trabalho sujo. A corrupção, a promiscuidade no interior do Estado envolvem igualmente camorristas e figuras públicas com peso na política. Lobbies e interesses muito poderosos fazem-se sentir no mundo da política, no mundo editorial, no jornalismo e nas universidades.

A influência da personalidade forte e agreste de Lila sobre Lena, apesar das distâncias e dos longos períodos de afastamento e de silêncio, se por um lado é um incentivo positivo para Lena e para o desabrochar das suas capacidades, por outro é um factor que desperta nela insegurança. Mas esta dependência/independência entre elas é recíproca. Lena separa-se do marido para finalmente viver uma paixão da adolescência e é confrontada pela amiga que a culpabiliza pelo seu afastamento das duas filhas e a adverte contra o amante. Se este é um período de exaltação e de fragilidade emocional, a verdade é que Lena, a narradora, na sua prática, como mulher e como mãe, dificilmente consegue não cair em contradição com o que escreve e o que diz nos debates e nas sessões em que participa na sua qualidade de escritora de renome.

Aos 36 anos, ambas engravidam. A segunda gravidez de Lila; para Lena a terceira. "Eu loira, ela morena, eu calma, ela nervosa, eu simpática, ela pérfida, nós duas opostas e em harmonia, nós duas distantes das outras mulheres grávidas, que observávamos com ironia." Enquanto que Lena nascida e criada no bairro sente que tem uma dupla identidade – é a senhora culta, escritora a viver na alta de Nápoles – Lila vive no bairro e tem as atitudes e a linguagem agressiva dos naturais do bairro.
Desaparecimentos misteriosos, enfartes, a degradação pela droga, mortes trágicas, prisões, traições, suicídios, depressões, a terra que treme "aqui existe o Vesúvio, que te recorda todos os dias que o maior empreendiimento dos homens poderosos, a obra mais magnífica, o fogo e o terramoto, e a cinza e o mar em poucos segundos a reduzem a nada." A estabilidade é uma miragem. O tempo é impiedoso para os corpos, os prédios, o comércio, a fama. As personagens de Elena Ferrante são de carne e osso e a autora descarna-as sem piedade. O "puro prazer de narrar" que caracteriza a escrita de Elena Ferrante foi como o editor de Elena Greco avaliou o terceiro livro que ela lhe enviou para publicação.

Com a velhice chegam as separações inevitáveis, o confronto com a solidão, com a perda de público, com o mundo em mudança prodigiosa. E como que num regresso ao princípio, surgem os fantasmas do passado, as bonecas da infância perdidas na cave de Dom Achille, a força da presença de Lila na vida de Lena mesmo quando ela voluntariamente se quis apagar.

Chegou ao fim esta saga napolitana, inesquecível. Lida sem interrupções, sem outras leituras pelo meio. A iniciar o Epílogo, a narradora desabafa: "Eu própria não consigo acreditar. Terminei esta história que me parecia que nunca mais terminava." Impressionante!

Almerinda Bento

Sem comentários:

Enviar um comentário