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quinta-feira, 14 de abril de 2016

A Escolha do Jorge: "A Noite Não É Eterna"

"A Noite não é Eterna" é o mais recente romance de Ana Cristina Silva que nos apresenta uma narrativa que remonta à Roménia da década de oitenta do século passado, ainda sob o jugo de Nicolai Ceausescu.
Passada nos arredores de Bucareste, o livro centra as atenções no núcleo familiar composto por Paul, um alto quadro do Partido Comunista, a esposa Nadia, professora primária, e os filhos Inga e Drago. Excessivamente autoritário e determinado em ascender no seio do Partido, Paul não pensa duas vezes em entregar o pequeno Drago aos cuidados do Estado, seguindo escrupulosamente a ideia de Ceausescu em criar um exército único capaz de concretizar a revolução socialista.
Determinada em encontrar o filho Drago, Nadia falsifica documentos fazendo-se passar por uma inspetora estatal que supervisiona os orfanatos na região de Bucareste sem que se aperceba que, também ela, é vigiada pela Securitate, a polícia secreta do país. Após algumas tentativas falhadas na senda de Drago, Nadia é contactada pela Securitate propondo-lhe um jogo sujo, caindo desta forma nas malhas terríveis da ditadura através de alguns dos seus inúmeros peões. Em troca da informação relativa à localização do orfanato onde se encontra o seu filho, Nadia vê-se obrigada a vigiar Paul. Não tendo nada a perder, Nadia coloca o objetivo em encontrar o filho em detrimento da desgraça iminente que se abaterá sobre o marido até porque desde o momento em que Paul entregou o filho aos cuidados do Estado que Nadia vive com o sentimento de se vingar do marido desejando-lhe mesmo a morte.
Reencontrará Nadia o seu filho? Até onde pode ir o amor de mãe ferido capaz de incorrer numa pena máxima num regime inclemente?
Nadia vai conhecer a realidade dos orfanatos do seu país tomando consciência da existência de crianças seropositivas que foram infetadas na sequência de transfusões de sangue de acordo com as indicações de Elena Ceausescu. Sem se dar conta, a procura de Drago transformará Nadia num elemento contrarrevolucionário, opondo-se de forma determinada ao regime vigente, para lá do medo e do terror instalado no país, instrumentos utilizados como armas de arremesso.
Nadia integrará um movimento de resistência cuja missão é enviar crianças desprotegidas para a RDA que posteriormente seguirão para o Ocidente a fim de serem entregues aos cuidados especiais de entidades próprias.
Não me alongando em termos de sinopse de "A Noite não é Eterna", o livro ganha, à semelhança de outras obras da escritora, na dimensão psicológica dos personagens e na forma como a narrativa flui. Nadia ocupa a figura central passando de mulher submissa ao marido e ao regime comunista a mulher determinada a pôr cobro a todo um conjunto de injustiças. O seu repúdio face à situação que se abateu sobre si própria é em si mesmo a sua voz de repúdio face a um regime assassino que a todos esmaga com a sua força.
"A Noite não é Eterna" ganharia tanto mais se apresentasse mais alguns aspetos sobre Bucareste e até Timisoara, cidades onde se desenvolve a narrativa. Aspetos simples que constituiriam mais do que o eco ou o pano de fundo de cidades importantes, ainda hoje, naquele país, para além de alguns lugares-comuns que poderiam ter lugar noutras geografias europeias, como na RDA com a sombra da Stasi ou até mesmo Portugal no período salazarista com a atuação da PIDE.
Salvo uma ou outra pincelada histórica que surge no romance, é, com efeito, no final, que com a grande manifestação popular na Praça da República junto ao palácio presidencial e o julgamento sumário do casal Ceausescu ‘a posteriori’ que do ponto de vista histórico, o romance atinge a sua apoteose, com dados concretos que não só ilustram um dos marcos decisivos da história da Roménia contemporânea, mas também a esperança que fica no ar face a um amanhã melhor.
É essa encruzilhada e a esperança face à incerteza do amanhã após o derrube do regime de Ceausescu que Ana Cristina Silva tão bem reproduz. Talvez esteja aqui reproduzida a renovação sempre presente de uma contínua revolução dos cravos que tem ainda tanto abril por cumprir.
Nas ditaduras a cegueira do líder conduz à cegueira da população ao ponto de se reproduzirem atos ignominiosos em nome do líder. A ânsia em ascender dentro do Partido, como no caso específico de Paul, gera a reprodução de ideias e atos terríveis no seio doméstico ao ponto de cada lar reproduzir em certa medida a repressão do Estado sobre os cidadãos. Compreende-se assim que a violência doméstica (nem que seja somente do ponto de vista psicológico) seja um reflexo da violência que o próprio Estado exerce sobre os cidadãos em geral em nome de uma cegueira louca que é continuamente repetida em nome de um louco maior que era, no caso da Roménia, o próprio Ceausescu.
Deste modo, cada lar conseguia reproduzir a figura de Ceausescu através de cada marido e pai de família, tal como acontece com Paul na sua relação com Nadia e os seus filhos Inga e Drago.
Só uma pessoa louca consegue desvirtuar a linha que separa o bem do mal ao ponto de contagiar outros que contribuem para a manutenção do sistema que se alimenta a si próprio. Foi assim na Roménia durante mais de quatro décadas.
Ainda hoje a Roménia sofre as consequências da loucura repressiva de Ceausescu.
Outra das ideias bem conseguidas ao longo do romance é o conceito de revolução que nalgumas ditaduras constitui uma forma de iludir a população dando a ideia de se realizar algo grandioso e extraordinário, transformando o futuro do país em algo glorioso quando na verdade o que se pretende levar a cabo é aumentar o sofrimento da população na medida em que é com esse mesmo sofrimento e sacrifício coletivo que a revolução é concretizada.
"(…) Às vezes sentia-se confusa, porque via genuíno entusiasmo em muitos dos seus colegas, convencidos de que o país tinha descoberto o rumo para o paraíso." (p. 48)
Os opositores aos regimes são, pois, considerados como antirrevolucionários quando na verdade, aquilo que mais ambicionariam era efetivamente uma revolução propriamente dita que pusesse cobro ao regime comunista, ao fim da ditadura.
Gosto de pensar este livro, não na história em si, mas na ideia de ditadura e totalitarismo em si mesmos, na forma como surgem, os contextos favoráveis à sua instituição e à forma como são alimentados, levando e contagiando atrás de si milhares de pessoas que, em certa medida, contribuem para a destruição e corrosão do próprio país.
A intimidade é devastada. O sentido prático e comum da vida perde-se em detrimento de algo maior, o Estado, que tudo mina e tudo corrompe.
Nas ditaduras, a loucura instala-se transversalmente a toda a sociedade porque ninguém ligado ao Partido quer ficar para trás. Por uma questão de sobrevivência, cada elemento do Partido vê-se na iminência em ser denunciado tornando-se também delator, contribuindo para a instalação de um clima de medo, terror em tantas situações. Assim, compreende-se a loucura e o medo que se disseminam nas ditaduras como uma doença infecciosa.
"Nadia aprendera com a mãe a esconder-se atrás do vago, a dissimular o que sentia e a amordaçar o receio." (p. 47)
"Mesmo tentando desviar-se do medo, o sentimento enraizava-se no corpo, pois qualquer colega podia acusá-la de traição pelos motivos mais fúteis." (p. 48)
"Para que a desgraça não invada mais a sua vida, para não ser acusada de fraude e falsificação de documentos, e, sobretudo, se quiser saber onde está o seu filho, tem de passar a vigiar o seu marido e apresentar-me relatórios mensais.
(…)
Nadia compreendeu que aquela era a única maneira de ver Drago. Não hesitou. Disse que sim. Não havia mais nada a fazer. Para ter de volta o filho, tornar-se-ia uma delatora. Era uma escolha sem dúvida penosa, mas Paul merecia todos os castigos." (pp. 64-65)
"A Noite não é Eterna" é uma metáfora sobre as ditaduras que afinal não duram para sempre e os ditadores tão-pouco. Os seus atos, esses sim, permanecerão na memória coletiva, na História de um povo, como forma de alerta e sobreaviso das gerações futuras. Fica sempre a esperança no amanhã que o mundo acorde um pouco melhor.

Texto elaborado por Jorge Navarro.

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