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domingo, 10 de janeiro de 2016

Entrevista com Luize Valente a propósito de "Uma Praça em Antuérpia"

Cristina Delgado (CD): Olá Luize! Adorei o seu livro pois dá gosto ler. Eu acho que é a sua forma de escrever, as frases muito curtas, os capítulos curtos e ao mesmo tempo com muita informação histórica, o que também é muito agradável; a pessoa envolve-se na história mas tendo como base a História (com letra grande).

Luize Valente (LV): A história para mim, pegando naquilo que você estava falando sobre o livro, é um tema que me fascina muito, em especial temas ligados à questão judaica e à Segunda Guerra Mundial. Eu sempre acho que tem muitas histórias desse período de guerra para serem contadas e esta história do Aristides de Sousa Mendes despertava-me muita curiosidade. Eu queria contar a
história dele, mas eu vi que existiam biografias, textos de não ficção, textos históricos, mas sempre de tipo jornalístico e não ficção. E então eu pensei o seguinte: é um assunto que eu adoro, eu queria falar muito do que o cônsul tinha feito mas de um lado mais humano e era muito curioso para mim saber: - e as pessoas que receberam esses vistos? Como é que elas chegaram até ele ali? Como é que isso acontecia? Como é que era naquele momento em que a guerra estoirou de repente, na Bélgica, na Holanda, na França,…? Aquilo chegou tão rápido e então as pessoas tinham que fugir… como é que era essa fuga?

CD: A fuga está espetacular.

LV: E foi a partir dessa ideia que me surgiu a história – eu quero falar sobre isso; eu quero falar sobre essas pessoas.

CD: E as gémeas como é que surgiram? Eu tive que voltar para trás. Eu disse assim: eu não estou a perceber a história da identidade que uma adopta.

LV: Isso aí tem muito a ver com aquilo que a gente estava conversando acerca da minha forma de escrever. Eu sempre gostei muito do folhetim, daquele romance rocambolesco e aí, na hora de escrever, eu pensei que seria interessante eu escrever esse livro como se fosse um folhetim. O tema era um assunto sério mas eu gostaria de escrever uma história que prendesse a atenção das pessoas e aí acabei assim com todos aqueles ingredientes de um folhetim: amor, mistério, capítulos curtos, frases curtas, o suspense no final do capítulo. E então como é que eu cheguei às gémeas? Eu queria trabalhar a questão assim: eu vou fazer uma família que foge e consegue um visto mas isso pode ser uma história linda mas muitas pessoas já contaram essa história; então eu vou fazer na verdade uma história em que o pano de fundo é a Segunda Guerra Mundial mas o que vai mover essa história é uma coisa passional. O que vai acontecer na minha trama no fundo é independente de ser guerra ou não, porque eu queria uma situação trágica e para fazer essa situação trágica foram surgindo os elementos que poderiam tornar isso mais interessante.

CD: Logo no princípio sabe-se praticamente, entre aspas, o que vai acontecer, tirando a história da criança, mas a sua forma de escrever é de tal forma rápida que, mesmo sabendo o final, o leitor fica preso.

LV: Olha realmente eu tenho tentado mas não me consigo lembrar do momento em que eu pensei nas gémeas. Eu me lembro que tinha uma foto em minha casa de uns irmãos da minha avó que ela na verdade nunca conheceu e isto tem a ver com histórias de migração de famílias separadas e eu ficava imaginando a história daquelas pessoas da foto e isso é que acabou por me levar à história das duas gémeas em que existe a troca de identidade – uma ia viver a vida da outra. Isso levou-me também a pensar que o que mais interessa quando a gente lê um livro é como a história é contada; muitas vezes sabemos o final como nas histórias bíblicas, toda a gente sabe o que vai acontecer mas o que interessa é como essa história vai ser contada e todo o mundo adora essas histórias. E aí eu pensei, eu vou falar logo no princípio que os personagens morrem, mas o que interessa é contar o como e porquê: uma das gémeas conta logo que trocou de identidade com a sua irmã, assumiu a identidade dela, ela morreu no seu lugar, o homem que ela amava morreu no seu lugar e tem um filho que acha que morreu. E aí o meu desafio era como é que eu vou fazer, como vou contar como isso aconteceu. Já sabemos o final que o livro terá e o desafio foi explicar como foi passar pelo processo até ao final – eu acho que talvez seja isso que faz a diferença deste livro.

CD: Eu creio que diz no final que visitou mesmo estes lugares todos. Haverá maneiras de escrever sobre um sítio e a pessoa nunca lá ter estado mas eu creio que se sente isso… os cafés, os bares, isso tudo existe?

LV: Existe. Eu acho que quando a gente escreve um romance histórico, a grande importância é criar verosimilhança interna da trama, ou seja, a história que criamos tem que se adaptar à história real e não ao contrário – não tem como adaptar factos históricos à história que eu quero contar. Então o que é que eu fiz primeiro? Eu tinha uma base de pesquisa muito grande, eu queria contar o período do Aristides, principalmente ali o período de Maio / Junho de 1940.

CD: Isso é uma pequena parte do livro todo…

LV: … seria maior a questão do Aristides, mas a história mesmo foi para Antuérpia porque a Clarisse ia conhecê-lo quando ele era cônsul em Antuérpia onde ele esteve antes de ir para Bordéus mas, o livro foi crescendo de tal forma, o livro vai pedindo e é engraçado que tem um momento em que você sabe o começo e o fim do livro mas nesse meio, principalmente num romance histórico, acontecem situações que se você foge delas a verosimilhança interna do livro se perde, os personagens perdem a credibilidade para o leitor. É o que acontece neste livro quando o Theodor foge da Alemanha, ele vai para Portugal que era o lugar mais longe do nazismo a que ele podia chegar. Só que ele, perseguido pela polícia política portuguesa, tem que fugir para França em 1936 quando começa a guerra civil espanhola e isso para mim foi uma surpresa porque não constava do meu plano original.

CD: No princípio, antes de começar, já tem uma ideia…

LV: Sim eu tenho uma ideia da história toda. A editora comprou a minha ideia com base numa sinopse de 17 páginas bem estruturada. Neste caso da guerra civil espanhola, que acabou sendo uma necessidade do livro e ocupou um período grande do livro, não seria crível que o Theodor, sendo um comunista e um homem tão ligado em questões políticas, não fosse ficar ali, naquele momento, lutando ao lado dos republicanos contra os franquistas que tentam tomar o governo em Espanha. E aí eu falei: não vai ser crível não escrever sobre esta situação e o livro teve então que ganhar vários capítulos que não estavam inicialmente previstos e aí… o período do Aristides que era para ficar maior, acho que ficou na medida certa, porque este não era um romance sobre o Aristides; ele é uma parte dessa história mas de uma forma que ainda não vi em outros relatos sobre ele, que é o ponto de vista de um refugiado. As pessoas naquele período já o viam como um salvador na loucura e confusão que era Bordéus.

CD: Os relatos de fuga são muito reais. Consegue-se visualizar a confusão e o pânico das pessoas, o medo…

LV: Ah! Eu fico muito feliz porque isso eu não encontro em muitos livros de história. Uma coisa que foi fundamental para mim foi um diário que, por coincidência chegou às minhas mãos. Eu estava em Antuérpia fazendo as minhas pesquisas, vendo os lugares… e eu estava alojada em casa dos pais de uma amiga minha (eles não são judeus) e a avó dela chegou um dia e deu-me um diáriozinho que ela tinha escrito quando tinha 13 anos e onde se encontram as suas notas e impressões da fuga da família no dia em que foi bombardeada Antuérpia; eles fugiram para o norte da Bélgica e, enfim depois, tiveram que voltar para casa. E então, parte do meu relato de fuga é em cima desse diário. A minha amiga e a mãe da minha amiga, filha dela, nunca souberam disso porque ela nunca tinha mostrado esse diário para ninguém; as gerações que viveram a guerra não falavam muito sobre isso.

CD: As pessoas queriam esquecer…

LV: É. E aí eu acho que as segunda e terceira gerações, a nossa geração, é que tem mais curiosidade. Então a filha da avó da minha amiga e a minha amiga nunca perguntaram e quando eu lá cheguei com essa curiosidade ela mostrou e elas traduziram para mim – o diário estava escrito em holandês e aí elas traduziram para o inglês – e aí há vários detalhes que eu peguei: dormir num celeiro que tinha piolhos, a ajuda das pessoas, a ajuda nos conventos, as fugas, as bicicletas que tinham que ser deixadas depois de um tempo porque o pneu também acabava…

CD: E este processo de escrita demora quanto tempo?

LV: Olha, desde o dia em que eu entreguei a ideia do livro ao dia em que entreguei o livro pronto, foi um ano e meio. A minha escrita é muito com frases curtas, eu não uso muitos adjectivos, não costumo usar aquele rebuscado que alguns autores têm; acho que não é o meu estilo. Eu me preocupo muito com a informação e com a acção. Então eu acho que eu fiquei a maior parte do tempo fazendo pesquisas, detalhes mesmo: - a questão dos pneus da bicicleta, eu tenho que ir lá ver na loja de bicicletas quanto tempo dura; - a Clarisse está grávida de 7 ou 8 meses, eu conversei com uma ginecologista, 7 meses ela podia ter perdido o bebé, 8 é mais difícil…; - com datas em vou verificar, dia 20 de Junho, dia 21 de Junho, o que é que aconteceu?

CD: Demora mais tempo. Acaba por demorar mais tempo na pesquisa mas depois…

LV: É. E essa coisa do texto burilado para mim, é…

CD: Sim, porque este livro escrito pela Lesley Pearse, p.ex., que é uma autora que eu também gosto não era assim…

LV: Aí entra a descrição demais, eu mesma quando lia havia assim coisas que eu cortava, depois vou cortar, vou cortar, vou cortar, porque eu tento pegar emocionalmente as pessoas que estão lendo. Então se eu vou-me estender, eu vou quebrar também esse impacto para o leitor. O meu outro livro, “O Segredo do Oratório”, também é assim, tem várias coisas que eu cortei muito, que eram detalhes que para serem colocados, eu tinha que criar todo um contexto e assim eu iria perder a minha linha que é a questão passional. Eu preciso prender as pessoas porque elas têm que viver a mesma emoção da Clarisse… - é uma história sobre personagens passionais e então para isso eu realmente não podia ficar muito descritiva porque eu acho que que eu quebraria. Hoje eu vejo que na hora de escrever um romance histórico, a gente gosta muito de mostrar que sabe e então eu tive que exercer assim um controlo… não vou ficar me mostrando… Eu quero que os factos históricos estejam no fundo, sirvam de pano de fundo e eles são verdadeiros, mas o que vale para mim é aquela história da Clarisse e do Theodor tentando fugir, as peripécias que vão acontecendo e poder narrar… e depois eu também fiquei feliz quando li e senti que estava numa guerra, num bombardeamento, eles pegavam num carro, eles vão fugir e isso…

CD: Isso é muito visual, quem está a ler consegue visualizar muito bem.

LV: Noutro dia um senhor que está lendo o livro falou-me no Eric Remarque e na maneira como ele narra factos de guerra, mas ele viveu esse período e eu não vivi mas conseguia passar essa atmosfera. Esse foi um trabalho de pesquisa muito exaustivo para mim: a pesquisa dos livros, a minha viagem aos locais, fui a Dunquerque, fui a Calais, a Vilar Formoso. Fui a Bordéus e aí eu me lembro de ir para a sinagoga e daí a pé até ao consulado e caminhava de uma forma como se fosse uma grávida caminhando, aí eu falava… bem ela demora quanto tempo? 20 minutos. Isso parece ser um detalhe do livro mas eu acho que essas coisas permitiram passar essa sensação que você me diz agora e que me deixa muito feliz.

CD: Parece muito real.

LV: É exactamente esse sentido realista que eu quis dar ao livro e isso tem uma influência grande da literatura do Eça de Queiróz.

CD: Há uma frase que eu achei espectacular que é: o tempo não volta, o “se” é uma possibilidade que janais se realizará. – isto é para agora, isto é para sempre, esta frase é para sempre. Todo o ser humano tem um “se”… Qualquer coisa que acontece e… “se”… e “se” eu fizesse e “se” eu tivesse feito e “se” eu dissesse e “se” eu tivesse dito…

LV: O livro todo é o “se”. O livro todo é uma série de coincidências que na vida real acontecem mesmo. Uma coincidência enorme que aconteceu comigo foi eu estar aqui em Portugal, em Santarém em casa de uma família amiga e uma das pessoas da família é professora no liceu e aí eu disse que gostaria muito de falar com os alunos; ela conversa com a bibliotecária que é professora de português e ela diz, nossa eu encomendei esse livro há dois dias, que coincidência que a autora que é brasileira está aqui… e isso é uma grande coincidência… se eu falasse isso… Ah isso não é possível e logo em Santarém que é uma cidade pequena…

CD: As coincidências existem mesmo…

LV: Aí eu falei… então a vida da gente é feita de muitas coincidências e a minha preocupação é que aquelas coincidências da história fosse verosímel. A troca das gémeas eu não queria ter feito em Irún. Irún para mim é uma cidade feia, não tem aquele charme… Em Vilar Formoso para mim seria muito mais charmoso mas eu não podia fazer… não seria crível. Bayonne seria muito mais charmoso mas teve que ser em Irún e então eu tive que criar a situação de estar num café e uma das crianças sair para fazer xixi, o que é normal uma criança querer fazer xixi e aquele carro da polícia portuguesa passar, porque aquilo era crível naquele momento porque o Salazar tinha mandado… agora tinha que ser naquele período entre 20 e 22 de Junho.

CD: Só houve uma parte que eu não consegui perceber, se calhar foi a minha leitura – porque é que a Olívia voltou para Bordéus? Ela estava em Portugal, sossegada… O que é que ela veio fazer para Bordéus?

LV: Ah porque é que ela foi encontrar Clarisse? Pelo seguinte: A Olívia foi lá para ver a irmã Clarisse. Ela sabe que a Clarisse fugiu de Antuérpia e está a caminho de Portugal e por um telefonema de Theodor, Olívia fica a saber que eles estão em Bordéus, que estão bem e que eles irão conseguir o visto para Portugal. A Olívia antes de ir para o Brasil quer deixar dinheiro para ajudar a Clarisse. E também a Olívia não sabe que a guerra estava tão terrível como estava sendo e isto porque tudo o que sabe da guerra é o que lê nos jornais portugueses. Ela não sabe a situação real de perigo provocada pela guerra; para ele é pegar um tren. Como ela fez e vai chegar a Bordéus em 12 horas.

CD: É porque ela não tem noção da guerra.

LV: Quando ela se apercebe como está decorrendo a guerra, ela fica preocupada. Ela não tinha ideia da dimensão da guerra. Ela tem apenas a visão que lhe é dada pelos jornais portugueses que noticiam o começo da guerra mas onde o maior destaque vai para a abdicação do rei inglês devido ao romance que mantinha com uma senhora americana.

CD: Gostava de lhe perguntar acerca de livros… Assim um livro que gostasse de ter escrito; do seu género ou um género completamente diferente.

LV: Eu tenho os meus autores preferidos, assim o Philip Roth, que é um autor que eu amo, e o Ian McEwan… mas eu gostaria mesmo de ter escrito algumas coisas dos autores mais antigos que são bem mais folhetinescos. Eu gostaria de ter escrito “Crime e Castigo” do Dostoievski e eu acho que eu gostaria de ter escrito todos os livros do Eça. Eu gostaria de ter escrito “Os Maias”, “O Crime do Padre Amaro”, “A Relíquia”, porque o que eu acho incrível no Eça e no Dostoievski, é que eles escrevem coisas que são uma literatura gostosa mas com temas muito difíceis. O Eça n’“Os Maias” escreve sobre o incesto; imagina alguém a escrever naquela época sobre isso que até hoje é difícil de se escrever. E também o “Crime e Castigo” que é um livro que é um folhetim, foi escrito em capítulos num jornal. E esse livro, eu acho que foi uma das coisas mais lindas que foram escritas. Trata sobre as culpas que a gente carrega: se você sabe que fez uma coisa que você acha que não é correcta, você pode estar absolvido para o mundo, você pode nunca ser descoberto, como é o caso no “Crime e Castigo” mas você chega num ponto em que você não consegue viver com aquilo. E esta questão da culpa lembra-me estes temas da guerra: o comportamento dos alemães durante a guerra, das pessoas que fizeram delações, que denunciaram um vizinho… como elas vivem com essas culpas? Vou escrever um próximo livro que tem a ver com isso…

CD: Então e esse próximo livro, como vai ser?

LV: Pois o próximo livro, que já está assim embrionário, é um livro que também tem a ver com a Segunda Guerra e que vai andar à volta dos judeus húngaros que foi um massacre de mais de 400.000 judeus mortos em 1944 em Auschvitz, dos quais a maior parte era de origem húngara. E isso aconteceu quando a guerra já estava perdida para a Alemanha e isso é uma coisa que não dá para entender… Eu vou escrever no mesmo estilo e ao mesmo ritmo; a personagem central é, na verdade, uma mulher que tem um bebé em Auschvitz e aí eu vou também trabalhar com outro personagem histórico que é uma senhora polaca que fazia partos em Auschvitz, ela tem até um processo de canonização. Eu descobri esta senhora parteira por acaso. Ela é uma personagem que vai funcionar neste novo livro um pouco como o Aristides neste meu livro actual – provavelmente vai acontecer a mesma coisa; ela vai passar pelo livro; mas o ponto de partida vai ser ela para eu chegar a essa história do bebé que nasceu. Ela marcava as crianças e aí marcou também esta menina que é filha de pai judeu e iremos ter também um romance de um soldado alemão com a mãe dessa criança e, enfim, já vai ter uma história também assim…

CD: Muito obrigada pela sua disponibilidade! Fico então à espera do próximo romance!

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