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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A Escolha do Jorge: O Visitante Real

Há livros que vêm ter às nossas mãos das formas mais curiosas, tal é o caso de "O Visitante Real" do dinamarquês Henrik Pontoppidan (1857-1943), uma edição dos Estúdios Cor, publicado em 1956. O curioso deste exemplar em particular é que nunca tinha sido lido dado que as folhas ainda estavam todas ligadas, havendo, pois, necessidade de as cortar antes de iniciar a leitura.
Além desta primeira publicação de "O Visitante Real", um conjunto de quatro novelas de Henrik Pontoppidan, a obra foi mais tarde publicada na coleção Prémio Nobel, em 2004, uma iniciativa do Diário de Notícias.
Henrik Pontoppidan é um dos precursores do naturalismo e realismo na literatura do seu país. Herdeiro da tradição das letras e cultura dos países setentrionais, o escritor apresenta-nos uma escrita limpa e sem artifícios que capta a atenção do leitor a partir das primeiras páginas. Apesar de o escritor ter publicado alguns romances, notabilizou-se, efetivamente, com as novelas que, tendo em consideração este único volume, apresentam ambientes de grande profundidade psicológica.
O autor revisita os vários grupos sociais, tanto o meio burguês como o mais humilde, quer seja passado na cidade, no campo ou até mesmo na Gronelândia, como no caso da novela "O Urso", cujas descrições são avassaladoras ao ponto de o autor nos transpor com tanto rigor e mestria para aquelas latitudes.
As descrições dos vários modos de vida do "ser dinamarquês" independentemente de qual o espaço onde a narrativa decorre é sempre feita na perfeição, surpreendendo-nos também a própria tradução que está à altura das novelas de Henrik Pontoppidan. O autor apresenta-nos uma Dinamarca de início de século XX que tenta impor-se face ao desenvolvimento crescente que vai tendo lugar noutras partes da Europa como a Inglaterra e a Alemanha e, mesmo com as suas assimetrias regionais, apresenta-se como um país que sabe lutar contra a adversidade aceitando os desafios do seu tempo.
É de salientar ainda o papel da mulher que é sempre apresentada como uma pessoa que tem adquirido estatuto e importância face ao homem e à sociedade em geral. A mulher é apresentada não apenas como a simples dona de casa que tem como principais funções conceber, tratar dos filhos e da casa, mas como uma pessoa que tem um papel importante no seio da família e de papel (quase) igual ao do homem não ficando de fora as suas paixões, mesmo as mais íntimas, não sendo, pois, esquecida, a vertente sexual da mulher que tantas vezes é ignorada na literatura do início do século XX e que com Henrik Pontoppidan é um dos marcos centrais em praticamente toda a obra.
"O Visitante Real" é a primeira novela (e que dá título à obra) e deambula entre o sonho e a realidade na noite de Carnaval quando um casal é visitado por um estranho indivíduo que quando menos espera já está dentro de casa com o objetivo de lhes proporcionar uma noite inesquecível que põe em confronto a juventude com a idade mais avançada. Este estranho personagem que pretende ser tratado por "Sua Alteza o Carnaval", nada mais é que o próprio Diabo e o casal sem se dar conta verá as suas vidas viradas do avesso na medida em que sentindo a felicidade nas suas vidas, a melancolia passa a ser também uma constante como que ficando a sensação de perda ou de um sonho por realizar.
Esta novela deixa-nos um certo amargo de boca, uma inquietação porque afinal é entre o sonho e a realidade que a vida se concretiza e que os homens e as mulheres tentam ser felizes, à sua maneira, como podem, sem prejuízo de ficar aquela réstia de amargura de que algo poderia ser ou deveria ter sido diferente.
Na novela seguinte, "O Urso", o autor faz o contraponto entre a imensidão da natureza através das descrições singulares e a natureza humana que em tantas situações pode ser tão comezinha. A necessidade de evangelizar todo o território dinamarquês conduziu a que fosse criada uma lei em que o Estado apoiaria jovens pastores que decidissem tomar lugar na Gronelândia, a colónia inóspita da Dinamarca.
As descrições do meio ambiente da Gronelândia são avassaladoras adquirindo semelhança com os documentários da natureza e mundo animal que passam na televisão ao domingo ao final da manhã.
Ao longo da novela questionamos sobre o que fala mais alto, se a natureza ou a religião e logo compreendemos a decisão de Thorkild, personagem principal, cuja atitude na Gronelândia foi a de total entrega ao meio envolvente, assim como na sua relação com os esquimós, a população residente. Compreenderemos até que ponto a ligação com a natureza tornou Thorkild uma melhor pessoa e um melhor pastor, sobretudo quando regressa à Dinamarca civilizada.
"A Mulher do Burgomestre" é das quatro novelas aquela que se nos apresenta de forma mais subtil. A luta entre homem-mulher assume nesta novela uma dimensão de genialidade graças ao enredo apresentado. Um casamento envenenado que culmina com um possível assassinato graças a um veneno sentimental que se instala progressivamente e que a todos mina e corrói.
Esta é a novela que mais se assemelha com uma história policial cujo desfecho deixa o leitor estupefacto graças à forma como tudo é encenado.
Por fim, "A Estalagem" conta-nos a história de um amor infinito, mas não concretizado, um amor que subsiste por si mesmo, unilateralmente, e que vive apenas de migalhas, de pequenos quês, e que, no final, levou à consciência de uma vida desperdiçada e que, afinal, de amor, não se percebe nada e que precisamos mesmos compreender os pequenos nadas das relações matrimoniais.
Chegamos ao final desta compilação e somos forçados a dizer que estamos perante um livro inigualável, rico em histórias que nos contam a vida que, no final de contas, é um pouco a vida da sociedade contemporânea com os seus problemas, quezílias, desafios, esperanças e tudo o resto. Trata-se de um livro que nos deixa com uma certa melancolia por sentirmos que estamos perante uma obra que não só nos preencheu graças às suas histórias, mas também pelo seu valor literário.
A escrita de Henrik Pontoppidan é, pois, uma escrita moderna, absorvente, e da mesma "escola" de Knut Hamsun, seu contemporâneo, que tantos outros escritores influenciaram posteriormente. Ambos os escritores foram galardoados com o Prémio Nobel de Literatura, Henrik Pontoppidan, em 1917, e Knut Hamsun, três anos mais tarde.
"O Visitante Real" de Henrik Pontoppidan a par das várias colectâneas de Contos Húngaros, obras publicadas nas décadas de 40 e de 50, são garantidamente as obras que indicaria neste momento como as minhas grandes leituras deste ano, à margem, portanto, das novidades editoriais que vão sendo publicadas amiúde.

Excertos:
"No sítio onde as montanhas – negras e escalvadas – se erguem a pique por cima dum mar de gelo, o braço dum fiorde desenha uma curva por entre duas altas escarpas e penetra pela terra dentro. Na embocadura, é como um estreito semeado de escolhos e de ilhotas cobertas de neve, à volta das quais rodopiam milhares de aves brancas que enchem o ar de gritos. Depois, estreita-se cada vez mais, apertado entre altas muralhas rochosas e abruptas que se elevam para o céu em degraus e desaparecem no meio das nuvens. Mais adiante alarga-se de novo para formar como que um mar interior circular atapetando o fundo duma imensa bacia, cujas paredes polidas e fendas rochosas, cobertas de musgo e pequenos arbustos negros, se reflectem nas águas tranquilas.
De longe em longe, durante a breve estação do Estio – principalmente quando há tempestade ao largo -, um baleeiro procura abrigo no fiorde, acordando os ecos com o barulho das correntes da âncora e as vozes da tripulação; ou então, um cetáceo do mar alto, perdido no meio dos recifes, esgueira-se até ali e fustiga a água furiosamente com estrondo, deixando jactos de espuma à sua volta. À parte isso, um silêncio profundo envolve dia e noite essas montanhas adormecidas, apenas interrompido pelo zumbido dos enxames de mosquitos que aparecem com o sol da meia-noite e dançam à superfície da água doirada, como véus de tule negro filtrando a poalha do sol. De quando em quando, um borbulhar de água sobe à superfície e um dorso negro e brilhante emerge algures, para desaparecer em seguida; aqui e ali, focinhos enormes vêm aspirar o ar e mergulham rapidamente em silêncio." (In "O Urso", pp. 84-85)

"Não sei se existem na verdade meios secretos que perturbam o cérebro e entregam o ser humano à violência dos apetites sensuais. O facto de a poesia popular de todos os países e de todos os tempos falar de filtros de amor e outras coisas semelhantes poderia levar-nos a crer que sim. Em todo o caso, parece-me absolutamente desnecessário supor a existência de semelhantes métodos para explicar a fraqueza do coração humano dominado pelas paixões. Sim, o amor é uma posse! Ninguém conhece a sua origem, ninguém sabe por que vias ele chega, não se conhece nenhum remédio contra os seus males. Chega e desaparece obedecendo a leis obscuras, incompreensíveis, penetra-nos duma espécie de terror misterioso. É ao mesmo tempo o prazer e a maldição da nossa vida, a nossa delícia e o nosso eterno sofrimento, o nosso paraíso e o nosso inferno." (In "A Estalagem", p. 211)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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