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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A Escolha do Jorge: "Bom Dia, Tristeza"



“Naquele Verão, tinha dezassete anos e era totalmente feliz.” (p. 17)

“Bom Dia, Tristeza” de Françoise Sagan (1935-2004) é a obra que assinala o início das publicações da nova editora A Casa dos Ceifeiros, repondo, desta forma, nas livrarias um dos clássicos da literatura francesa do século XX.
      Escrito com apenas dezoito anos, “Bom Dia, Tristeza” transborda muito de autobiográfico através de Cécile, a personagem principal do romance. Com a fúria da juventude, este romance transpira de emoções e de desejo, o apreço pelo prazer dos corpos, a descoberta da sexualidade, o agir através das pulsões e ao mesmo tempo a inconsequência dos actos.
      Tendo como pano de fundo o início do Verão, numa região costeira do Mediterrâneo, Cécile e o seu pai de quarenta anos, viúvo, gozam umas doces e prolongadas férias afastadas do buliço de Paris.
      Com um ambiente propício ao descanso, mas também à luxúria e lassidão, o jovem pai Raymond mergulha num triângulo amoroso com um desenlace desastroso tanto quanto trágico, ao passo que a jovem Cécile observa o pai, criticando-o nos actos, pela sua falta de moral, mas ao mesmo tempo sente-se atraída pela arte da sedução, graças à enorme cumplicidade existente entre pai e filha, partilhando ambos das mesmas ideias e ideais, nomeadamente, no que concerne à noção de beleza.
“Sem partilhar a aversão que o meu pai demonstrava pela fealdade, e que muitas vezes nos levava a conviver com gente estúpida, experimentava, junto de pessoas destituídas de atractivos físicos, uma espécie de constrangimento, de ausência, e a resignação perante a falta de encanto afigurava-se-me como que uma enfermidade indecente. Na verdade, que procurávamos nós senão agradar? Ainda hoje não sei se este prazer da conquista oculta um excesso de vitalidade, um gosto pela acção ou uma necessidade fugaz, inconfessada, de apoio e serenidade.” (p. 18)
      Por seu turno, Cécile sente-se atraída por Cyril, um rapaz da sua idade, “alto e por vezes bonito, de uma beleza que incutia confiança.” (p. 18) Durante este período de férias, Cécile vai desfrutando dos prazeres do sexo, mas também vai ganhando consciência de quão volátil pode ser o amor e os sentimentos dos adultos, olhando para o comportamento juvenil do pai, um rapaz que jamais crescerá, um rapaz que em nada difere do comportamento de Cyril, com a única diferença de que é pai.
      Cécile é de certa forma acusada por Anne, uma mulher de quarenta anos, de rara beleza, amante do pai, de não saber o que é o amor. Primeiro vem a ofensa e só mais tarde a compreensão face ao sentido do que é o amor e tudo o que com ele se relaciona.
      “Tem uma ideia simplista do amor. Não se trata de uma sucessão de sensações independentes umas das outras… (…) É algo muito diferente. (…) Há uma ternura constante, uma suavidade, uma falta… Coisas que não pode compreender.” (p. 48)
      “Pela minha parte, experimentava, para além do prazer físico e absolutamente real que me proporcionava, uma espécie de prazer intelectual ao reflectir sobre ele. As palavras «fazer amor» possuem uma sedução própria, muito verbal, quando isoladas do seu sentido. O verbo «fazer», material e positivo, unido à abstracção poética da palavra «amor», encantava-me, embora sempre me tive referido anteriormente a esta expressão sem o mínimo pudor e sem me dar conta do seu sabor. Agora, tornara-me pudica.” (pp. 128-129)
      Será o regresso a Paris que deixará Cécile num estado de profunda melancolia face à recordação do último Verão. As experiências vividas permitiram-na crescer e compreender algumas das vicissitudes do que é ser adulto, do tormento que pode por vezes sentir-se na tentativa em ser feliz. Aquele Verão na costa no Mediterrâneo ficará para sempre associado a Cyril, mas também a Anne, com um sabor agridoce, como tantas vezes a vida se nos apresenta. “Dentro de mim, sinto subir algo que designo pelo seu nome, de olhos fechados: Bom Dia, Tristeza.” (p. 174)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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