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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

A Escolha do Jorge: A Noite é Mãe do Dia

Lars Norén (n. 1944) é o dramaturgo mais importante das últimas décadas na Suécia tendo inúmeras peças de teatro publicadas e encenadas à semelhança do que aconteceu com "A Noite é Mãe do Dia" (1982) que foi editada em Portugal, em 1997, através das Edições Cotovia e levado a cena um ano mais tarde, contando com a participação dos atores Lia Gama, Mário Jacques, Ivo Canelas e Diogo Dória.
Lars Norén é conhecido pelas suas peças realistas com incidência nas relações familiares particularmente tensas que refletem de alguma forma a degradação dos valores e dos costumes da sociedade contemporânea.
"A Noite é a Mãe do Dia" é passada ao longo do dia 9 de maio de 1956, numa grande cozinha de um hotel de província da Suécia com o casal Martin e Elin e os filhos Jorge e David. O casal gere o negócio de família com a preciosa ajuda de Jorge que desempenha todo o género de tarefas relacionadas com a manutenção da unidade hoteleira. Já David, é o filho mais novo, um adolescente irresponsável e inconsequente, desinteressado das preocupações familiares e esse dia é marcado pelo seu aniversário.
Lendo as primeiras páginas da peça, rapidamente concluímos que estamos perante uma família algo desestruturada, cujas pontas que vão sendo deixadas ao longo do primeiro ato vão ganhando terreno no ato seguinte à medida que as personagens se vão revelando e ganhando profundidade emocional e psicológica.
A família vive sérias dificuldades económicas em cumprir o pagamento dos empréstimos ao banco, o que põe em perigo o futuro do hotel e dos seus empregos. David tudo exige aos seus pais sem olhar a meios para conseguir dinheiro para os seus pequenos prazeres como entradas em concertos, discos, entre outros interesses juvenis. Jorge trabalha desalmadamente sem vacilar na tentativa de levar o negócio da família a bom porto. Mas Jorge perde as estribeiras com David que se mostra irresponsável, desonesto e totalmente desinteressado face ao negócio familiar para o qual nada contribui. Elin é maternal e tudo suporta nesta família. Compadece-se com David que não deixa de mimar com presentes no seu aniversário mesmo que o retorno seja a má educação e o sarcasmo do filho. Poupa ao máximo as funcionárias que estão ao serviço do hotel que para não as sobrecarregar, toma sobre si tarefas adicionais sobrecarregando-se a si própria fisicamente. Martin manifesta uma preocupação relativa pelos assuntos do hotel enquanto está sóbrio dado que vive enjaulado e perseguido pelo seu próprio drama que é o alcoolismo crónico. Após um período de internamento com um impacto terrível na família, Martin continua a beber às escondidas até que Jorge percebe pelo cheiro que o pai continua a viver o pesadelo do alcoolismo.
Perante as evidências, Jorge perde por completo as estribeiras e a família envolve-se numa contenda sem precedentes, numa tensão que chega ao leitor de forma agressiva tanto quanto inesperada ao ponto de Jorge, a mãe e o irmão seguirem os seus instintos de forma cega e totalmente desproporcionada e irracional culminando numa tragédia.
Martin revela-se o personagem mais fraco da família na sequência de ainda viver de forma intensa o drama da guerra. Revelações funestas são trazidas ao de cima no decurso do dia, à medida que a tensão familiar vai aumentando.
Numa época em que a violência doméstica adquire contornos maquiavélicos requintados ou recorrendo a práticas tradicionais de violência psicológica, emocional e física, por vezes extrema, "A Noite é Mãe do Dia" deixará o leitor em completo sobressalto e profunda inquietação. O homem levado pelos seus instintos, perante um dado episódio, terá dificuldade em saber qual é o limite da sua atuação chegando mesmo a cegar de tanta irracionalidade.
"A Noite é Mãe do Dia" coloca a ferida em muitas situações concretas da sociedade contemporânea, baralhando e inquietando o leitor rumo a um precipício. Atingido um certo grau civilizacional, estará o Homem em queda livre, desprovido de sentido?

Excertos:
"MARTIN: Para vencer esta crise temos de reduzir o pessoal, mas a mãe é contra.
ELIN: Não são os salários o que mais despesa nos dá.
JORGE: Acho que devíamos reduzir o David.
MARTIN: Não voltes à carga!
JORGE: É realmente tua intenção, mãe, deixá-lo andar por aqui o verão inteiro a empanturrar-se? É que nesse caso vou-me embora. Não ouves o que eu digo? Ou o obrigas a arranjar um emprego ou vou-me embora daqui.
ELIN: Embora para onde?
JORGE: Não tem nada a ver com isso!
ELIN: Não podes fazer tal coisa.
JORGE: Vai tratando de arranjar alguém que saiba fazer tudo quanto eu faço: pintar, fazer recados, fazer a limpeza, lavar a loiça, arranjar o tecto, pôr a mesa, servir à mesa…
MARTIN: É obrigatório falar disso agora?
JORGE: É, pois!
ELIN: É indispensável.
MARTIN: Pronto, acabou-se. Que queres que eu faça?
JORGE: Chega-lhe! Até ele tomar juízo. Eu ajudo-te se não és capaz.
ELIN: Não há nada que tu gostasses de fazer, David?
DAVID: Há! Montes de coisas! Dar cabo desse tipo, por exemplo.
JORGE: Tem de aceitar o trabalho que lhe derem, quando não, rua! É ele ou eu. Se vocês não se impõem agora, ponho-me a andar e acabou-se a conversa! Já não aguento mais vê-lo. Olhem só para ele!... De que é que tu ris?... És anormal!
ELIN: Onde é que vais?
DAVID: Então adeus!... "Porca"!
JORGE: O que é que tu disseste?
ELIN: Calma, Jorge!
DAVID: Calm down, Jorge!
JORGE: O que é que tu disseste?
DAVID: George!
ELIN: Vai para o teu quarto.
DAVID: Porquê? Eu não sou o Jorge.
ELIN: Vai, já te disse.
JORGE: Deixe-o estar! Toma o partido dele, não é?
ELIN: Não tomo o partido de ninguém. Estou de acordo contigo em que ele tem de arranjar um emprego.
JORGE: Vocês vão ver!
MARTIN: (vai para o escritório. Senta-se por trás dos vidros. Acende outro cigarro)
ELIN: Tens que te meter sempre com ele?
DAVID: Não tenho culpa que aquela brutalidade meio sebosa faça vir ao de cima tudo o que em mim há de desagradável.
ELIN: Estás a representar o papel de quem, hoje?
DAVID: Hoje, mãe, estou a representar o meu papel.
ELIN: Não sei por que é que tu és assim.
DAVID: Não sabes?
ELIN: Não… pequerrucho. Por que achas assim tão assustador sair e misturar-te com as pessoas?
DAVID: Que merda de conversa! Quais pessoas? Onde estão elas, essas tais pessoas?
MARTIN: Não fales assim com a tua mãe!
DAVID: Que merda de conversa!" (pp. 38-41)

"MARTIN: Saberás o que dizes?
DAVID: Sei! E acordavas-me de manhã e falavas de uma maneira tão estranha – não ouvias o que eu dizia. Acordavas-me e eu ajudava-te a apanhar grandes aranhas que andavam pelas paredes e se escondiam atrás das cortinas e do espelho. Matava-as por tua conta, atirava-lhes com livros, deitava-as para a retrete e puxava o autoclismo. Mas tu gritavas, dizias que elas não morriam, que trepavam outra vez por ali acima – divertimo-nos realmente. Sim, tu divertiste-te. Quando eu matava uma aranha fartavas-te de rir. Pusemo-las, depois, num monte, no chão, e tu contava-las e verificavas se estavam bem mortas, e querias deitar-lhes fogo, mas eu dizia que o fumo era venenoso e tu concordavas e então enterrámo-las na sala de estar… não te lembras que se escondiam dentro do seu pijama e que tu dizias que saíam de dentro de ti – por um buraco na anca?... Andámos a mudar mesas e sofás durante horas até a Mónica chegar e chamar a ambulância.
MARTIN: Tudo isso é mentira, imaginação tua. Foste expulso da escola por seres mentiroso… Quando é que isso foi?
DAVID: Não é verdade, mãe? Não é verdade?
ELIN: Se calhar é.
MARTIN: Tu concordas com tudo.
DAVID: Tiveram de te meter no manicómio com os doidos furiosos.
MARTIN: Deram-me baixa. Estava esgotado e precisava de descansar.
DAVID: Por que é que te recusas a reconhecer a verdade?
ELIN: Os alcoólicos não se reconhecem.
MARTIN: E tu queres obrigar-me – a mim, teu marido a pôr-me de pé diante destes farroupilhas e a confessar que sou alcoólico? Merda para ti! Merda, já disse.
DAVID: Não te lembras que eu e a mãe te íamos visitar todas as semanas ao hospital psiquiátrico?
MARTIN: E que tem isso! É o mínimo que se pode pedir! O que é que ias lá fazer?
DAVID: Parecias tão simpático e tão amedrontado… Estavas à nossa espera lá em cima. Não te reconheci – que maluco mais esquisito, arrastavas-te como uma… uma alma penada! Tremias tanto que julguei que te ias desconjuntar todo. Purgavas dos olhos… cheiravas mal… não sei a quê, a vomitado, a caca e a tabaco… E depois, quando nos fomos embora, ficaste lá em cima a dizer-nos adeus como uma criança… Lembras-te? "Levem-me, levem-me daqui, não me deixem, não me abandonem, sinto-me tão só"… A mãe contou-me que o médico lhe tinha dito que estavas mesmo na última… quase a morrer… tiveram que pôr-te uma tenda de oxigénio para te salvar… e que de qualquer forma morrerias, se continuasses a beber. E agora recomeças!" (pp. 78-80)

Texto da autoria de Jorge Navarro

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