Este é um livro perturbador, muito duro, que li de forma compulsiva. Já antes havia tido contacto com a escrita peculiar de Doris Lessing, da qual já lera três outros livros, mas este é, sem dúvida, o mais poderoso e mesmo inesquecível. O facto de deixar o final em aberto torna esta obra ainda mais interessante.
Embora o livro parta de um casal inglês conservador com um projecto de vida em torno de constituírem uma família numerosa, em que à pergunta “Querem ter muitos filhos? Quantos?” a resposta dos dois era invariavelmente “Muitos” “Muitos”, a verdade é que vai ser Harriet Lovatt, a mãe, quem vai assumir o papel central no destino de toda a família. A enorme casa vitoriana que adquirem, nos arredores de Londres, que mais se assemelha a um hotel, é também uma personagem central neste romance de Doris Lessing. É o local de encontro de toda a família nas festas de Natal e da Páscoa e nas férias de Verão. Aparentemente, tudo flui, aquela família feliz é um ímã e mesmo quando há algum azedume nas discussões e alguma crítica velada ou quando opiniões divergentes ocorrem, as nuvens escuras são passageiras e a vida continua sem sobressaltos. Quem diria que um dia Harriet quisesse “acabar de vez com aquela casa de infelicidade e com os pensamentos que a acompanhavam.” (pág. 151)
“O Quinto Filho” narra a situação do nascimento de um filho diferente, para daí analisar os comportamentos das pessoas, da família, das instituições, da comunidade relativamente ao que sai fora do expectável. Doris Lessing trata com maestria os mais variados sentimentos vividos por aquela família feliz, quando confrontada com aquele novo ser, o quinto filho tão diferente dos que o tinham antecedido: surpresa, medo, culpabilização, crueldade, remorso, afastamento, apatia. “Condenação, crítica e incompreensão: Ben parecia causar estas emoções, fazê-las emergir nas pessoas, trazendo-as ao de cima…” (pág. 69) Focando na mulher, na mãe, não só o ónus da estranheza, como a culpa, deixando-a sozinha, completamente só. “Dirigiu-se para a porta e olhou para trás. Na cara da médica viu o que já esperava: um sombrio olhar fixo que reflectia o que a mulher estava a sentir, que era horror pelo desconhecido, rejeição normal daquilo que estava para além dos limites humanos. Horror por Harriet, que trouxera Ben ao mundo.” (pág. 126)
Em anteriores livros de Doris Lessing que li, tal como aqui, a autora é crítica relativamente ao funcionamento das instituições do estado não poucas vezes insensíveis quando deveriam responder às necessidades dos seus cidadãos: pela forma fria e desumanizada como funcionam sem atender aos indivíduos nas suas especificidades, num sistema padronizado aparentemente “profissional” e “sem falhas” que é cego e desumanizado. O mal-estar social surge logo numa fase inicial da narrativa, no início dos anos 1970: “A cidadezinha onde viviam transformara-se durante os cinco anos que lá tinham morado. Incidentes brutais e crimes que outrora chocariam toda a gente eram agora lugar-comum. Havia bandos de jovens que frequentavam certos cafés e becos e que não tinham respeito por ninguém. A casa ao lado já fora assaltada três vezes; a dos Lovatt ainda não, talvez porque estava sempre lá gente. No fim da rua havia uma cabina telefónica que fora destruída tantas vezes que as autoridades tinham desistido: ficara ali sem préstimo. (…) Esses acontecimentos representavam uma separação horrível: cada vez mais parecia que a Inglaterra era habitada por dois povos em vez de um, dois povos inimigos, que se odiavam um ao outro, que não ouviam o que cada um dizia. Os Lovatt começaram a ler os jornais e a ver os noticiários da televisão, embora não tivessem vontade de fazer nem uma coisa nem outra. Pelo menos deviam saber o que se passava fora da sua fortaleza, do seu reino, no qual três preciosas crianças eram criadas e onde tantas pessoas iam para mergulharem em segurança, conforto, amabilidade.” (pág. 27)
Este livro que pode ser lido literalmente, pode também ser encarado como uma fábula dos males da sociedade com muitas camadas e muitos pontos de análise e reflexão. Por outro lado, é muito actual e até intemporal e a sequência dos acontecimentos é vertiginosa, daí que qualquer pessoa que o comece a ler tenha muita dificuldade de o poisar e interromper a leitura.
Um grande e poderoso livro.
25 de Outubro de
2025
Almerinda Bento

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