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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Notas sobre um Naufrágio

 Notas sobre um Naufrágio” – Davide Enia, 2017

Em nota na badana deste livro traduzido por Tânia Ganho, ela refere que este livro lhe foi sugerido por uma amiga italiana, depois de Tânia Ganho lhe ter recomendado “Um Muro no Meio do Caminho de Julieta Monginho. (https://almerindaagridoce.blogs.sapo.pt/um-muro-no-meio-do-caminho-julieta-16794) Enquanto Julieta Monginho ficciona a partir da sua experiência como voluntária durante um mês, no Verão de 2016, num campo de refugiados numa ilha grega, Davide Enia em “Notas sobre um Naufrágio” traz-nos relatos e vozes de pessoas que conheceu em Lampedusa, em vários momentos, ao longo de três anos.

Mediterrâneo, o mar sonhado como meio de chegar à Europa para milhares de homens e mulheres fugidos da fome, da guerra, da violência, e que para muitos acaba por ser o seu cemitério. Lampedusa, a ilha mais próxima de África, um “contentor de opostos” onde “… convivem emergência e hipocrisia, burocracia e solidariedade” (pág. 16). Ao longo de três anos e em várias ocasiões, o autor, dramaturgo e actor Davide Enia assistiu a desembarques de náufragos, ouviu socorristas, mergulhadores, médicos, psicólogos, ilhéus, sobreviventes de naufrágios e também Paola e Melo donos de um B&B onde Davide fica, sempre que permanece na ilha.

Todas as vozes, todos os testemunhos são únicos e reflectem episódios, cenas, momentos inesquecíveis e marcantes para cada um dos protagonistas. “De todas as vezes, absolutamente todas, tenho a nítida sensação de me encontrar diante de seres humanos que carregam dentro de si um cemitério inteiro.” (pág. 12). Há uma enorme honestidade e ausência de sensacionalismo na escrita poética, muito sensível e até contida de Davide Enia nos relatos dramáticos que acompanhamos ao longo das duas centenas de páginas deste romance. O medo de Paola e Melo quando um dia vêem através da janela da sala, uma multidão de náufragos a aproximar-se da casa – “Trancamo-nos aqui dentro.” (pág. 31) – logo seguida de vergonha por essa reacção instintiva. “Nunca me esquecerei disso. Pregava uma coisa e na hora H, fazia outra. Já antes, tinha as minhas ideias de intelectual de esquerda: é preciso acolher, não se deve ter medo. Pois, no momento em que me vi metida naquela situação, porra…” (pág. 31). Há um registo que se repete – “O primeiro desembarque nunca se esquece” (pág. 34) – por parte de pessoas que tinham assistido a vários desembarques de refugiados. Para o ginecologista Pietro Bartolo, o primeiro a ser entrevistado sobre o naufrágio de 3 de Outubro de 2013, aquele foi “o evento divisor de águas” (pág. 53). Se há um mergulhador experiente que se recusa a falar sobre aquele dia trágico, dos vários testemunhos das pessoas cuja vida é a realidade dos desembarques e dos naufrágios, há um antes e um depois do 3 de Outubro. Num barco com 523 pessoas, conseguiram-se resgatar 155 sobreviventes e os restantes 368 foram cadáveres posteriormente recolhidos. “Fala-se demasiadas vezes dos seres humanos como números ou estatísticas, mas as pessoas são muito mais do que isso, acalentam esperanças e preces, inquietudes e tormentos.” (pág. 109). “Assistimos impotentes ao naufrágio e é como se a água entrasse dentro de nós” (pág. 91).

É complexo e é-me difícil num pequeno texto, destacar alguns casos, porque todos são importantes. As mulheres e meninas que chegam grávidas em resultado de violações contínuas e repetidas, individuais ou em grupo. “Para uma mulher é sempre pior.” (pág. 52). (…) “Há mulheres transformadas em brinquedos, usadas até se partirem.” (pág. 53). As crianças que sobrevivem. O rapaz de doze anos que se recusava a comer, a dormir, a falar até que finalmente um mediador conseguiu que ele dissesse que o que desejava era falar com a mãe para lhe dizer que estava vivo. Há 8 meses que partira da sua terra. Ou Bemnet, um rapaz de 17 anos, da Eritreia, sobrevivente de um naufrágio em que morreram 75 pessoas sendo ele um dos cinco sobreviventes: “Lampedusa é a minha casa, o lugar onde renasci”. “Pus o pé em terra no dia 20 de Agosto. Esse dia tornou-se o meu segundo aniversário. Aqui, nasci pela segunda vez. (…) “Os meus amigos estão todos ali” (pág. 128) disse Bemnet apontando para o mar.

Os relatos são entrecortados com reflexões do autor em que surgem o pai, cardiologista reformado, amante da fotografia e o tio Beppe por quem o autor tem um amor muito especial e que está, ele também a lutar contra um linfoma. A doença, uma outra forma de naufrágio. É esse entrelaçar dos testemunhos de sobreviventes, de profissionais e de voluntários na tarefa do resgaste e da cura dos náufragos, com as histórias e personalidades do pai e do tio de Davide que torna este romance uma leitura memorável e de grande sensibilidade. Num tempo de ódios como aquele que vivemos, é um privilégio este livro ter-me chegado às mãos. Aconselho que o leiam.

Termino, escolhendo dois parágrafos do testemunho de Bartolo, o médico ginecologista:

Toda a gente sabe o que está a acontecer e finge não saber. É por isso que estou a falar convosco, porque cada voz individual pode ajudar a sensibilizar as pessoas. Somos gotas individualmente, mas muitas gotas podem fazer um oceano.”

Escrevam, contem ao mundo inteiro o que viram, porque é preciso: no continente não têm noção do que está realmente a acontecer. Mas não me refiro só ao que se passa aqui em Lampedusa, esta ilha é apenas um ponto de passagem, a etapa de uma odisseia; refiro-me ao que acontece realmente a estes pobres coitados que aqui chegam, as atrocidades que são obrigados a sofrer, a humilhação da sua própria existência, o aviltamento dos seus sonhos e esperanças.” (pág. 52)

1 de Novembro de 2025

Almerinda Bento



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