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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Regresso a Reims

 Regresso a Reims” – Didier Eribon, 2009

Parece que os clubes de leitura estão a surgir um pouco por todo o lado e isso é bom. Porque, além de podermos partilhar impressões e visões sobre aquilo que lemos e que nos liga periodicamente, estes espaços permitem-nos criar novas amizades e descobrir livros que, possivelmente, nunca teriam feito parte da nossa lista de livros a ler. É o que se passou com “Regresso a Reims” de Didier Eribon, filósofo e sociólogo francês, um ano mais novo do que eu. O não ter nenhuma referência do autor e o facto de a capa do livro ser pouco apelativa, dificilmente me teriam levado a comprar este livro, se não fosse por sugestão do “Ler à Esquerda”.

Sendo uma autoficção sobre o autor e sobre a sociedade francesa em que ele e a família se inserem, o livro permite-nos também olhar para a realidade portuguesa agora, com o crescimento e visibilização agressiva da extrema direita e do conservadorismo, ocorridos há algumas décadas atrás em França com a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen. Desde logo este livro trouxe-me à lembrança Annie Ernaux e o seu característico recurso às fotografias de família para nos situar nos diferentes momentos da(s) história(s).

Após 20 anos de ausência, numa necessidade de fuga do seu meio social e familiar de origem, este regresso a Reims de Didier Eribon após a morte do pai, é uma reconciliação com a mãe e também consigo próprio. Oriundo de uma família muito pobre, para a qual estudar estava fora de questão e que carregava o preconceito para com o intelectual, a descoberta da cultura, a escolha entre resistir ou submeter-se ao determinismo social que o levaria a não sair dos seus limites de classe, assim como decidir assumir a sua orientação sexual, foram processos nada fáceis nem lineares. “É preciso ter passado, como foi o meu caso, de um lado para o outro lado da linha de demarcação para escapar à lógica implacável do óbvio e ter a perceção da terrível injustiça dessa distribuição inigualitária das oportunidades e dos possíveis” (pág. 45). Visto pela família como “excêntrico”, “não-normal”, “estranho”, “bizarro”, por causa das suas leituras, actividades políticas e atitudes (pág. 83), os estudos e a sua sexualidade afastam-no da família e de Reims, “a cidade do insulto” (pág. 187).

Um aspecto muito relevante, analisado na terceira parte do livro, é o fenómeno político que consistiu na mudança de voto de parte significativa da classe operária francesa anteriormente comunista para o voto na direita e na extrema-direita. Didier Eribon analisa a erosão do PCF, a incapacidade de aceitar os movimentos sociais emergentes, a desilusão dos meios operários que se sentiram traídos por um governo com participação dos comunistas, com uma esquerda socialista cada vez mais a virar-se para a direita, assumindo uma linguagem de governantes e já não de governados. A anterior dicotomia “operários/burgueses” passa a ser substituída por “franceses/estrangeiros”; a “classe operária” e os “operários” desaparecem do discurso político; o “senso comum” aprofunda-se: já não é o/a operário/a ou o homem/mulher de esquerda, substituídos pelo “francês”. O racismo entranhado na classe operária vira-se contra os imigrantes, acusados de “roubarem” os empregos e as prestações sociais devidas aos “nacionais”. De notar a persistência desse discurso anti-imigrantes dos anos 80 em França e que encontramos nos anos 20 do século XXI disseminado na Europa e na boca e nas palavras de ordem da extrema direita portuguesa. Em conversa com o autor, a mãe explica que o seu voto na Frente Nacional foi “para expressar um protesto porque as coisas não estavam bem” (pág. 122), rematando que “A esquerda, a direita, não há nenhuma diferença, são todos iguais e são sempre os mesmos que pagam” (pág. 120). A impotência transforma-se em raiva e faz alterar radicalmente o voto anteriormente de esquerda para a direita e extrema direita.

Didier Eribon cita Sartre e Beauvoir como referências fundamentais no seu percurso e no seu pensamento, assim como Foucault que biografou. Sendo Paris a cidade para onde partiu para viver plenamente a sua homossexualidade e a Sorbonne onde encontrou excelentes professores em contraponto ao “marasmo desmobilizador e desmoralizador”(pág. 173) existente em Reims, foi, no entanto, Reims a cidade onde se “construiu como gay” (pág. 195).

O orgulho de se assumir é político, “visto que desafia os mecanismos mais profundos da normalidade e da normatividade” (…) “Estamos sempre em equilíbrio instável entre o significado ofensivo da palavra injuriosa e a sua reapropriação orgulhosa. Nunca se é totalmente livre, nunca se está libertado” (pág. 211). “a “subversão” absoluta não existe, tal como não existe a absoluta “emancipação”. E quase a terminar, cita Sartre: “O importante não é o que fazem de nós, mas o que nós próprios fazemos daquilo que fizeram de nós”. (pág. 212). E conclui: “No fundo, estava marcado por dois vereditos sociais: um veredito de classe e um veredito sexual. Nunca é possível escapar às sentenças assim proferidas. E eu trago em mim as marcas desses dois vereditos. Mas uma vez que eles entraram em conflito um com o outro em dado momento da minha vida, tive de me moldar a mim próprio voltando-os um contra o outro.” (pág. 213).

Um livro actualíssimo. Indispensável.

25 de Novembro de 2025 

Almerinda Bento 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Notas sobre um Naufrágio

 Notas sobre um Naufrágio” – Davide Enia, 2017

Em nota na badana deste livro traduzido por Tânia Ganho, ela refere que este livro lhe foi sugerido por uma amiga italiana, depois de Tânia Ganho lhe ter recomendado “Um Muro no Meio do Caminho de Julieta Monginho. (https://almerindaagridoce.blogs.sapo.pt/um-muro-no-meio-do-caminho-julieta-16794) Enquanto Julieta Monginho ficciona a partir da sua experiência como voluntária durante um mês, no Verão de 2016, num campo de refugiados numa ilha grega, Davide Enia em “Notas sobre um Naufrágio” traz-nos relatos e vozes de pessoas que conheceu em Lampedusa, em vários momentos, ao longo de três anos.

Mediterrâneo, o mar sonhado como meio de chegar à Europa para milhares de homens e mulheres fugidos da fome, da guerra, da violência, e que para muitos acaba por ser o seu cemitério. Lampedusa, a ilha mais próxima de África, um “contentor de opostos” onde “… convivem emergência e hipocrisia, burocracia e solidariedade” (pág. 16). Ao longo de três anos e em várias ocasiões, o autor, dramaturgo e actor Davide Enia assistiu a desembarques de náufragos, ouviu socorristas, mergulhadores, médicos, psicólogos, ilhéus, sobreviventes de naufrágios e também Paola e Melo donos de um B&B onde Davide fica, sempre que permanece na ilha.

Todas as vozes, todos os testemunhos são únicos e reflectem episódios, cenas, momentos inesquecíveis e marcantes para cada um dos protagonistas. “De todas as vezes, absolutamente todas, tenho a nítida sensação de me encontrar diante de seres humanos que carregam dentro de si um cemitério inteiro.” (pág. 12). Há uma enorme honestidade e ausência de sensacionalismo na escrita poética, muito sensível e até contida de Davide Enia nos relatos dramáticos que acompanhamos ao longo das duas centenas de páginas deste romance. O medo de Paola e Melo quando um dia vêem através da janela da sala, uma multidão de náufragos a aproximar-se da casa – “Trancamo-nos aqui dentro.” (pág. 31) – logo seguida de vergonha por essa reacção instintiva. “Nunca me esquecerei disso. Pregava uma coisa e na hora H, fazia outra. Já antes, tinha as minhas ideias de intelectual de esquerda: é preciso acolher, não se deve ter medo. Pois, no momento em que me vi metida naquela situação, porra…” (pág. 31). Há um registo que se repete – “O primeiro desembarque nunca se esquece” (pág. 34) – por parte de pessoas que tinham assistido a vários desembarques de refugiados. Para o ginecologista Pietro Bartolo, o primeiro a ser entrevistado sobre o naufrágio de 3 de Outubro de 2013, aquele foi “o evento divisor de águas” (pág. 53). Se há um mergulhador experiente que se recusa a falar sobre aquele dia trágico, dos vários testemunhos das pessoas cuja vida é a realidade dos desembarques e dos naufrágios, há um antes e um depois do 3 de Outubro. Num barco com 523 pessoas, conseguiram-se resgatar 155 sobreviventes e os restantes 368 foram cadáveres posteriormente recolhidos. “Fala-se demasiadas vezes dos seres humanos como números ou estatísticas, mas as pessoas são muito mais do que isso, acalentam esperanças e preces, inquietudes e tormentos.” (pág. 109). “Assistimos impotentes ao naufrágio e é como se a água entrasse dentro de nós” (pág. 91).

É complexo e é-me difícil num pequeno texto, destacar alguns casos, porque todos são importantes. As mulheres e meninas que chegam grávidas em resultado de violações contínuas e repetidas, individuais ou em grupo. “Para uma mulher é sempre pior.” (pág. 52). (…) “Há mulheres transformadas em brinquedos, usadas até se partirem.” (pág. 53). As crianças que sobrevivem. O rapaz de doze anos que se recusava a comer, a dormir, a falar até que finalmente um mediador conseguiu que ele dissesse que o que desejava era falar com a mãe para lhe dizer que estava vivo. Há 8 meses que partira da sua terra. Ou Bemnet, um rapaz de 17 anos, da Eritreia, sobrevivente de um naufrágio em que morreram 75 pessoas sendo ele um dos cinco sobreviventes: “Lampedusa é a minha casa, o lugar onde renasci”. “Pus o pé em terra no dia 20 de Agosto. Esse dia tornou-se o meu segundo aniversário. Aqui, nasci pela segunda vez. (…) “Os meus amigos estão todos ali” (pág. 128) disse Bemnet apontando para o mar.

Os relatos são entrecortados com reflexões do autor em que surgem o pai, cardiologista reformado, amante da fotografia e o tio Beppe por quem o autor tem um amor muito especial e que está, ele também a lutar contra um linfoma. A doença, uma outra forma de naufrágio. É esse entrelaçar dos testemunhos de sobreviventes, de profissionais e de voluntários na tarefa do resgaste e da cura dos náufragos, com as histórias e personalidades do pai e do tio de Davide que torna este romance uma leitura memorável e de grande sensibilidade. Num tempo de ódios como aquele que vivemos, é um privilégio este livro ter-me chegado às mãos. Aconselho que o leiam.

Termino, escolhendo dois parágrafos do testemunho de Bartolo, o médico ginecologista:

Toda a gente sabe o que está a acontecer e finge não saber. É por isso que estou a falar convosco, porque cada voz individual pode ajudar a sensibilizar as pessoas. Somos gotas individualmente, mas muitas gotas podem fazer um oceano.”

Escrevam, contem ao mundo inteiro o que viram, porque é preciso: no continente não têm noção do que está realmente a acontecer. Mas não me refiro só ao que se passa aqui em Lampedusa, esta ilha é apenas um ponto de passagem, a etapa de uma odisseia; refiro-me ao que acontece realmente a estes pobres coitados que aqui chegam, as atrocidades que são obrigados a sofrer, a humilhação da sua própria existência, o aviltamento dos seus sonhos e esperanças.” (pág. 52)

1 de Novembro de 2025

Almerinda Bento



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: O Quinto Filho

“O Quinto Filho” – Doris Lessing, 1988

Este é um livro perturbador, muito duro, que li de forma compulsiva. Já antes havia tido contacto com a escrita peculiar de Doris Lessing, da qual já lera três outros livros, mas este é, sem dúvida, o mais poderoso e mesmo inesquecível. O facto de deixar o final em aberto torna esta obra ainda mais interessante.

Embora o livro parta de um casal inglês conservador com um projecto de vida em torno de constituírem uma família numerosa, em que à pergunta “Querem ter muitos filhos? Quantos?” a resposta dos dois era invariavelmente “Muitos” “Muitos”, a verdade é que vai ser Harriet Lovatt, a mãe, quem vai assumir o papel central no destino de toda a família. A enorme casa vitoriana que adquirem, nos arredores de Londres, que mais se assemelha a um hotel, é também uma personagem central neste romance de Doris Lessing. É o local de encontro de toda a família nas festas de Natal e da Páscoa e nas férias de Verão. Aparentemente, tudo flui, aquela família feliz é um ímã e mesmo quando há algum azedume nas discussões e alguma crítica velada ou quando opiniões divergentes ocorrem, as nuvens escuras são passageiras e a vida continua sem sobressaltos. Quem diria que um dia Harriet quisesse “acabar de vez com aquela casa de infelicidade e com os pensamentos que a acompanhavam.” (pág. 151)

“O Quinto Filho” narra a situação do nascimento de um filho diferente, para daí analisar os comportamentos das pessoas, da família, das instituições, da comunidade relativamente ao que sai fora do expectável. Doris Lessing trata com maestria os mais variados sentimentos vividos por aquela família feliz, quando confrontada com aquele novo ser, o quinto filho tão diferente dos que o tinham antecedido: surpresa, medo, culpabilização, crueldade, remorso, afastamento, apatia. “Condenação, crítica e incompreensão: Ben parecia causar estas emoções, fazê-las emergir nas pessoas, trazendo-as ao de cima…” (pág. 69) Focando na mulher, na mãe, não só o ónus da estranheza, como a culpa, deixando-a sozinha, completamente só. “Dirigiu-se para a porta e olhou para trás. Na cara da médica viu o que já esperava: um sombrio olhar fixo que reflectia o que a mulher estava a sentir, que era horror pelo desconhecido, rejeição normal daquilo que estava para além dos limites humanos. Horror por Harriet, que trouxera Ben ao mundo.” (pág. 126)

Em anteriores livros de Doris Lessing que li, tal como aqui, a autora é crítica relativamente ao funcionamento das instituições do estado não poucas vezes insensíveis quando deveriam responder às necessidades dos seus cidadãos: pela forma fria e desumanizada como funcionam sem atender aos indivíduos nas suas especificidades, num sistema padronizado aparentemente “profissional” e “sem falhas” que é cego e desumanizado. O mal-estar social surge logo numa fase inicial da narrativa, no início dos anos 1970: “A cidadezinha onde viviam transformara-se durante os cinco anos que lá tinham morado. Incidentes brutais e crimes que outrora chocariam toda a gente eram agora lugar-comum. Havia bandos de jovens que frequentavam certos cafés e becos e que não tinham respeito por ninguém. A casa ao lado já fora assaltada três vezes; a dos Lovatt ainda não, talvez porque estava sempre lá gente. No fim da rua havia uma cabina telefónica que fora destruída tantas vezes que as autoridades tinham desistido: ficara ali sem préstimo. (…) Esses acontecimentos representavam uma separação horrível: cada vez mais parecia que a Inglaterra era habitada por dois povos em vez de um, dois povos inimigos, que se odiavam um ao outro, que não ouviam o que cada um dizia. Os Lovatt começaram a ler os jornais e a ver os noticiários da televisão, embora não tivessem vontade de fazer nem uma coisa nem outra. Pelo menos deviam saber o que se passava fora da sua fortaleza, do seu reino, no qual três preciosas crianças eram criadas e onde tantas pessoas iam para mergulharem em segurança, conforto, amabilidade.” (pág. 27)

Este livro que pode ser lido literalmente, pode também ser encarado como uma fábula dos males da sociedade com muitas camadas e muitos pontos de análise e reflexão. Por outro lado, é muito actual e até intemporal e a sequência dos acontecimentos é vertiginosa, daí que qualquer pessoa que o comece a ler tenha muita dificuldade de o poisar e interromper a leitura.

Um grande e poderoso livro.

25 de Outubro de 2025

Almerinda Bento

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Quem Tem Medo dos Santos da Casa" de Sara Duarte Brandão

Estava expectante quando peguei neste livro porque tinha ouvido boas opiniões e o resultado da leitura foi muito positivo. Gostei muito da construção de todo o ambiente narrado, das tricas e invejas habituais de pequenos lugarejos, neste caso uma pequena vila piscatória, e de como os personagens foram crescendo de densidade e delicadeza com o decorrer da leitura. A escrita tem uma pitada de poesia de quando em vez o que me agradou imenso, mesmo não sendo eu leitora desse género literário. 

A trama é narrada num constante vai e vem em termos de alguns espaços temporais e acompanhamos Maria Teresa quer na sua infância, quer no casamento e na velhice. Na minha opinião o leitor não se vê em nada aptrapalhado com estes saltos temporais e não se perde. Pelo contrário, isso dá uma vivacidade fantástica à narrativa pois vão sendo descobertos a pouco e pouco os segredos e os acontecimentos que fizeram de Maria Teresa uma mulher solitária e ostracizada pelos habitantes da vila. Como referi, os pormenores vão sendo desvendados com o decorrer da leitura, sendo que muitas vezes são contados nas entrelinhas, aspecto que mantém o leitor sempre cativo.

A vida de Maria Teresa vai sendo marcada pelas expectativas sociais, familiares e religiosas muito restritas que condicionam sobremaneira a sua vida futura. 

E a cereja no topo do bolo é a importância da leitura na sua vida desde criança, importância essa que transporta até à velhice. A sua amizade, aquando idosa marginalizada pela vila onde habita, com uma criança que não se importa de se aproximar da "bruxa" é um sopro de luz na sua vida. Uma vez mais o papel da leitura como aproximação ao outro. O que está por detrás dessa solidão quase que auto imposta? Como se libertou das algemas que a prendiam a uma vida sensaborona?

Abordam-se aqui temas muito interessantes como a importância da liberdade, da identidade e pertença, como a tradição e religião podem condicionar as expectativas de alguém. 

Gostei e recomendo muito esta leitura! Atirem-se de cabeça, não se vão arrepender!

Terminado em 30 de Novembro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse 
Uma estreia auspiciosa de uma jovem escritora, romance que já venceu o Prémio Literário Cidade de Almada.

Esta é a história de Maria Teresa, uma mulher que cresceu numa pequena vila piscatória entre a austeridade familiar e a liberdade que encontrava nos livros e numa paixão clandestina.

Condenada a viver à sombra do que o pai e o marido haviam sonhado para ela, resolveu pôr em causa as ordens e as tradições, tomar as rédeas do seu destino, deixar para trás uma vida de conforto e atravessar o rio em busca de emancipação.

Hoje encontramo-la a tecer tapetes numa casa escura que ninguém sabe o que esconde e é considerada uma espécie de bruxa que assusta as crianças; porém, é numa amizade improvável com Joana, uma menina que aprende com ela a amar os livros, que Maria Teresa encontrará a redenção.

Com um ritmo poético e introspetivo, a narrativa desenrola-se em pequenos fragmentos belíssimos que refletem as superstições de uma comunidade marcada por um episódio com consequências dramáticas.

Mas onde todos veem horror Maria Teresa vê beleza e possibilidade.

Terão, ela e Joana, medo dos santos da casa?
Romance inspirado na história dos santos do escultor Altino Maia, que foram retirados da Igreja de São Pedro da Afurada, é na ficção que esta obra desafia algumas verdades.

Cris 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

A Convidada escolhe: Como Animais

Como Animais” – Violaine Bérot, 2021

Um livro breve, que se lê de um fôlego, mas com um grande impacto e abordando vários temas com grande importância.

Em jeito de polifonia, cada capítulo é uma voz, um testemunho diferente. Começando com a voz de uma professora, somos confrontados com um enigma: uma família “disfuncional” que escolheu viver fora da aldeia, constituída por uma mulher e o filho autista, para o qual a escola nunca conseguiu ter uma resposta inclusiva, antes o quis direccionar para uma instituição, o que a mãe liminarmente recusou. E uma menina sobre a qual nada se sabe. Aquilo para que Violaine Bérot nos convida, à medida que as diversas vozes surgem dando o seu testemunho às autoridades, é olharmos também para nós como espectadores/as, como membros da sociedade, porque uma daquelas vozes pode ser a nossa. Como reage a sociedade ao que não entende? Como reage a sociedade ao outro, que sai fora da norma estabelecida? A sociedade intromete-se; a sociedade julga; a sociedade reprime.

Para além da crítica à escola que não está preparada para responder à individualidade das crianças na sua diversidade e nas suas necessidades, e em especial às crianças com deficiência, as outras instituições aqui em foco são a polícia e os media mais interessados em embarcar no “circo mediático” do que informar com seriedade. O título “Como Animais”, se por um lado mostra a estranheza da população que rotula de animais quem, como é o caso, se isola e não vive segundo os padrões das sociedades de consumo, padronizadas; por outro nos leva a questionar se não serão afinal os animais aqueles que se afastaram de tal forma da natureza que já perderam a capacidade de empatia para com os humanos.

Como anteriormente referi, os diferentes testemunhos, as diferentes vozes são únicas e inconfundíveis, levando-nos a ouvi-las/vê-las pela sua singularidade e individualidade através de frases curtas que nos transportam para situações de diferentes personagens respondendo a interrogatórios. E a autora consegue fazê-lo de uma forma notável. Inesquecíveis os depoimentos da mãe – Mariette – que tenta ao limite defender o filho duma sociedade que o exclui, e o depoimento da farmacêutica – Viviane Desroches – uma longa confissão, inesquecível, de alguém que engravidou na sequência de uma violação.

À laia de separadores entre os diferentes capítulos, surgem as vozes das fadas que vivem nas grutas, observam o mundo e estão prontas para libertar as mães que não querem ser, para acolher as crianças das mães que as rejeitaram. Transcrevo um desses poemas, dum livro que dificilmente esquecerei:

Nós

as fadas

vemos

o que alguns homens

por vezes

fazem às mulheres

sem lhes perguntarem

nada.


Sem pedirem

às mulheres

o seu consentimento

sem lho pedirem

os homens

antes.


Nós

as fadas

adivinhamos

o que pode significar

no mundo de baixo

ser menina

ser rapariga

ser mulher.


Nós

nos nossos pequenos corpos

nos nossos pequenos corpos de fadas

compreendemos

o que deve ser

um homem

que se exime

antes de entrar

de pedir.”

(págs. 105 e 106)

 

20 de Setembro de 2025

Almerinda Bento



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

"O Caminho da Cidade" de Natalia Ginzburg

Uma curiosidade sobre o presente livro desta autora que muito aprecio; este foi o seu primeiro romance, publicado sob um pseudónimo devido à censura fascista e leis anti-semíticas em Itália.

O livro gira em torno de uma adolescente e é narrado na primeira pessoa, a Delia. Vive num lugarejo pobre e a cidade constitui uma promessa de sonhos a realizar. Segundo ela a sua independência encontra-se lá. Ao engravidar de um rapaz economicamente mais abastado, as suas expectativas são, dia a dia, goradas. A passagem de uma adolescência cheia de sonhos para uma vida adulta com restrições impostas, familiar e socialmente.

Crítica social intensa, a autora com uma prosa simples, nua e crua, sem julgamentos, mostra bem como as expectativas não conduzem necessariamente à realidade.

Novela que se lê num ápice e que aconselho vivamente.

Terminado em 26 de Novembro de 2025

Estrelas: 5*

Sinopse
O Caminho da Cidade foi o primeiro romance escrito por Natalia Ginzburg e tem já o tom inconfundível que vai caracterizar a sua obra posterior. Foi publicado em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, sob o pseudónimo de Alessandra Tornimparte. 

Cris