Gosta deste blog? Então siga-me...

Também estamos no Facebook e Twitter

quarta-feira, 2 de abril de 2025

“Como o Ar” de Ada D’Adamo

Que livro este! Antes de mais, quero dizer-vos que adorei a capa (sim, os meus olhos são os primeiros a avisar-me que “preciso” de um determinado livro!). O abraço que se sente ao olhá-la fez-me bem.

Depois, quero referir que é impossível ficar indiferente a esta leitura. Já não é o primeiro livro que leio sobre acontecimentos pessoais de um autor falecido pouco tempo após a sua publicação. Como este. E isso pesa muito. É um relato fortíssimo contado por Ada sobre períodos da sua vida, sobretudo o nascimento de sua filha Daria, portadora de uma incapacidade muito grande, "holoprosencefalia", e a sua luta com um cancro aos cinquenta anos. Passado e presente mesclados criam momentos de muita empatia com esta mulher lutadora, que tudo fez para que a filha tivesse o melhor do mundo (terapia e amor) e que sabe escrever muito bem, com sentimento mas com uma clareza impressionantes. 

As suas palavras tiveram tal peso na minha leitura que, mesmo agora, pouco posso falar sobre esses momentos lidos sem vivenciar de novo o que senti na altura. É um retrato visceral que tem um enorme impacto para quem o lê. Estejam preparados para uma leitura forte, impactante, dura, sobre momentos de dor que ninguém devia viver. Considero-o, no entanto, um hino à vida, ao amor.

Uma reflexão profunda sobre a doença, o aborto, a deficiência por parte de quem já cá não está. Este livro recebeu o Prémio Strega 2023. Esta autora italiana não o pode receber em mãos.

Para reler. Recomendadíssimo.

Terminado em 25 de Fevereiro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse
O destino de Daria, a filha, começa a escrever-se quando um diagnóstico inesperado vem ensombrar o seu nascimento. A vida de Ada, a mãe, sofre um enorme sobressalto quando, quase aos cinquenta anos, descobre que uma doença grave lhe consome o corpo e encurta os dias. Mais do que sentença de morte, o cancro que lhe vai roubando as forças torna-se uma oportunidade para se dirigir à filha e contar-lhe a sua história.
Tudo passa pelos corpos de Ada e Daria: as lutas quotidianas, a raiva, os segredos, mas também as alegrias inesperadas e os momentos de uma ternura infinita. Dilacerantes, as palavras que a mãe oferece à filha atravessam o tempo – passado e presente entrelaçam-se numa dança que parece eterna.
Vencedor do prestigiado Prémio Strega 2023, Como o Ar é um romance de extraordinária força. Relato do inabalável amor entre mãe e filha, é também uma história de coragem em que cada momento é oferecido ao leitor como uma dádiva.

Cris


terça-feira, 1 de abril de 2025

A Convidada escolhe: El-Rei, Nosso Senhor, Sebastião José

El-Rei, Nosso Senhor, Sebastião José, Ana Cristina Silva, 2024

Neste romance biográfico sobre a vida e obra de Sebastião José de Carvalho e Melo, Ana Cristina Silva ajuda-nos e recordar a segunda metade do século XVIII em Portugal, sobretudo o período de vigência do rei D. José I, altura em que Sebastião José conseguiu alcançar a notoriedade que o levou a ficar na História.

O romance está organizado em dezoito capítulos encimados por um sumário que acompanha a vida do Marquês de Pombal que nem sempre segue uma ordem cronológica.

Nascido no último ano do século XVII e falecido em 1782, foi ao longo de vinte anos do reinado de D. José I que paulatinamente ganhou uma relevância e um poder tal, passando de “fidalgote” à segunda figura do reino. Ainda no tempo de D. João V tinha sido enviado para Londres como embaixador e para Viena como emissário para mediar o conflito entre o papado e Maria Teresa de Áustria, mas só em 1750, ao ser nomeado secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, o rei D. José I lhe atribui um cargo de peso no reino. No entanto, são o terramoto de Lisboa em 1755 e a tentativa de regicídio em 1758, as peças fundamentais para a ascensão de Sebastião José na vida política portuguesa da altura. Homem ambicioso, com uma energia imensa e grande capacidade de trabalho, para além da visão do mundo e da realidade do país e da cidade de Lisboa após o terramoto, Sebastião José aproveitou o seu lugar de privilégio como secretário do reino para se vingar das humilhações, invejas e intrigas de quem o via como “fidalgote” e passar a figura temível da corte a quem todos faziam vénias. Com uma visão moderna para a cidade arrasada, rodeou-se de grandes nomes para construir uma Lisboa nova, de modo a que “nunca mais ninguém apelidaria Lisboa de «a famosa estrebaria»” (pág. 33). Tendo como principais alvos a abater o duque de Aveiro, os Távora e os jesuítas da Companhia de Jesus, conseguiu insinuar-se junto ao rei e encontrar culpados para o atentado ao rei, sendo implacável e sem remorsos nas punições que decretou. “Quantas vezes se tem a oportunidade de mudar um país e ao mesmo tempo derrubar os inimigos?” (p. 148). No entanto e desde sempre, Sebastião José se apercebeu que sendo a segunda pessoa mais importante do reino, a sua dependência do rei era absoluta. Em 1759, quando o rei lhe conferiu o título de conde de Oeiras, ele que nunca antes tinha tido um título nobiliárquico, “o seu sangue passou a ser o sangue da alta nobreza” (p. 195).

O declínio físico do rei assolado por várias doenças ditou o fim do conde de Oeiras, que entretanto, aos 70 anos, tinha também recebido o título de Marquês de Pombal. Afinal, a vassalagem, a preferência por “ser temido a amado” (pág. 288) ocultava a hipocrisia dos vassalos do rei, os ódios contra o secretário de D. José I, a sua fragilidade e o ódio do povo que se manifestava n’”as piadas e versos que pretendiam evidenciar a familiaridade reiterada do secretário do Reino com o crime e a malvadez.” (pág. 330). A morte do rei e a subida ao trono de D. Maria conduzem à exoneração e exílio de Sebastião José para a vila de Pombal, longe da corte e sem acesso ao conforto do seu magnífico palácio de Oeiras que a sua mulher Eleonor Ernestina tão dedicadamente tinha providenciado. O processo dos marqueses de Távora é aberto, os quais são ilibados, ao passo que o Marquês de Pombal é considerado culpado, sendo poupado à morte devido ao seu estado de saúde extremamente débil.

Muitíssimo inteligente, toda a sua vida foi pautada pelo tacticismo e a ambição de que o seu nome perdurasse para a história como um grande político com uma obra vastíssima em vários campos, no sentido de engrandecer o país, retirando-o do obscurantismo e fanatismo e dos abusos da velha aliança com a Inglaterra. Por isso, na fase final da sua vida, quando o brilho do poder já não incidia sobre ele, dedica-se a escrever tentando deixar as memórias da sua acção de modo a que a sua reputação não fique manchada para o futuro.

Como é timbre da escrita de Ana Cristina Silva, neste romance histórico a autora é exímia em analisar os estados de alma de um homem com uma personalidade complexa, ambicioso, implacável com os seus adversários, apaixonado, sensível, brutal, manipulador e que apesar do seu poder absoluto, tinha momentos de absoluta solidão e fragilidade. Só alguém como Ana Cristina Silva para mostrar uma época importantíssima da nossa história, a partir duma personagem que, passados quase três séculos, continua a ser controversa.

26 de Março de 2025

Almerinda Bento

Palavras-chave: Marquês de Pombal, D. José I, ambição, poder,

Manuel da Maia, Carlos Mardel, Eugénio dos Santos


sexta-feira, 28 de março de 2025

"O Infinito Num Junco" de Tyto Alba e Irene Vallejo (Graphic Novel)

Este livro encerra um mundo dentro de si, como todos os outros, aliás. Podemos até não gostarmos desse mundo que um livro nos apresenta mas haverá sempre alguém para quem esse livro representa um mundo novo de oportunidades.

Esta obra fala-nos de livros, de como surgiram, onde e os motivos que levaram os
homens a desenvolvê-los, do surgimento das primeiras bibliotecas, de como eles podem representar um perigo e um obstáculo para os ditadores. A palavra oral e escrita como forma de combater as desigualdades. O livro tem infinitas possibilidades e traz-nos tudo o que o mundo contém: liberdade e amor, mas denuncia também a opressão, a dor, o ódio. “Quando vendes um livro a alguém, não lhes estás a vender doze onças de papel, tinta e cola. Estás a vender-lhe uma vida totalmente nova, amor, amizade e humor e barcos que navegam na noite. Num livro cabe tudo.” Pág 79

Há sempre umas partes ou outras que achamos mais ou menos interessantes consoante a nossa disponibilidade em apreciá-las. Aconteceu comigo nesta leitura mas o computo geral é positivo. Li-o devagar ao longo de dois ou três meses, porque a temática assim o permitiu sem perder o norte nem o ritmo de leitura. A autora intercala no decorrer das suas pesquisas, memórias da sua infância e algumas reflexões dando um toque mais intimista à narrativa.

Foca muitos temas, autores, livros e histórias sobre eles. Esta obra contém muita informação e, para mim, foi difícil absorvê-la na sua totalidade, com muita pena minha. Mas alguns pontos interessantes ficaram gravados na minha memória. “Na realidade, os livros podem ser botes salva-vidas. Chegam a qualquer lugar do mundo, inclusive aos sítios mais sinistros.” Pág 126

Uma leitura muito interessante!

Terminado em 22 de Fevereiro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse

O Infinito Num Junco, de Irene Vallejo, é um hino extraordinário ao amor pelos livros que seduziu milhões de pessoas em todo o mundo.

Este livro sobre livros ganha uma nova vida sob a forma de uma adaptação gráfica do desenhador Tyto Alba, cujas excecionais ilustrações nos transportam até aos campos de batalha de Alexandre, o Grande, aos palácios de Cleópatra, às primeiras livrarias e às oficinas de cópias manuscritas, mas também às fogueiras onde se queimavam códices proibidos, à biblioteca bombardeada de Sarajevo e ao labirinto subterrâneo de Oxford no ano 2000.

Estes desenhos e aguarelas, que contam a história de um artefacto incomparável nascido há cinco milénios, quando os egípcios descobriram o potencial da cana de junco, a que chamaram papiro, tornam-nos participantes na aventura coletiva de quem foi salvaguardando os livros desde aqueles tempos.

«Um testemunho precioso de amor pelos clássicos, pelos livros, pelas bibliotecas e pela leitura.» Nuccio Ordine 

Cris


segunda-feira, 24 de março de 2025

"Quando os Violinos se Calaram" de Alexander Ramati

Uma amiga ofereceu-me um exemplar antigo de um livro das Selecções do Reader’s
Digest, uma colecção Livros Condensados, de que faz parte esta história. Ela sabe que o Holocausto é um tema a que recorro muitas vezes. Confesso que nem olhei para as outras histórias… Não conheço a versão completa e não a descobri nas minhas pesquisas. Mas ainda são 130 páginas com uma letra muito miudinha pelo que, creio, o sumo da história estará cá todo.

Não me lembro de ter lido nada especificamente sobre o Holocausto cigano. Claro que o número de mortos (500 mil) não se compara ao dos judeus assassinados mas considero importante este tipo de documentos para que nada seja esquecido. O autor conta-nos que foi contactado num congresso por um homem de etnia cigana, Roman Mirga, dos seus cinquenta e tal anos, que lhe entregou um manuscrito, por ele escrito. Depois de ter conseguido fugir de Auschwitz, Roman manteve-se escondido numa cave de alguém que o ajudou, escrevendo, no final de 1944, tudo o que tinha acontecido à sua família. O seu pedido foi dirigido ao autor para que o livro fosse publicado na América e não apenas na Polónia.

Que dizer sobre mais esta história real, uma das muitas atrocidades que vieram ao mundo muitos anos depois?

Há um sentimento que, verifico nas minhas leituras, imperava na altura e que fez com que estes povos brutalmente assassinados, não reagissem atempadamente: o horror era tão grande que, na maior parte das vezes, duvidavam que os “boatos” que circulavam fossem realmente verdade. E depois, no caso da etnia cigana, eles não eram judeus. Logo, não tinham com que se preocupar, certo? Quando verificavam que corriam perigo o cerco já se tinha fechado.

Se conseguirem encontrar este livro (quem sabe numa estante de um familiar?), leiam esta história. Vale a pena!

Terminado em 21 de Fevereiro de 2025

Estrelas: 5*

Cris


segunda-feira, 10 de março de 2025

“Despedidas Impossíveis” de Han Kang

Foi a minha estreia com esta autora, prémio Nobel 2024, mas não fiquei encantada. Iniciei bem esta obra mas a meio comecei a achar a narrativa dispersa, com muitas situações onde me perdi no tempo pois a narradora alternava entre passado e presente, entre realidade e sonho com demasiada frequência.

Sinto que perdi qualquer coisa de realmente importante, sobretudo a crítica, o apontar do dedo a actos praticados na Coreia do Sul, desconhecidos para mim, e se calhar, para a maioria das pessoas. Estamos habituados a ouvir falar da Coreia do Norte por vários motivos que não os melhores, mas da Coreia do Sul nem por isso. Este alerta não poderia ter passado despercebido nestas páginas pelo que para ele vão as minha 4 estrelas. Os massacres, relatados aqui, fizeram-me ir pesquisar sobre. 

Os massacres das Liga Bodo tiveram lugar durante a Guerra da Coreia no verão de 1950 contra suspeitos de serem comunistas. Os suspeitos eram alistados à força nas “Ligas Bodo” que mais não eram que campos de reeducação ideológica. O número de mortos ronda mais de 60 mil. Vários massacres tiveram lugar. As execuções eram feitas sem qualquer julgamento. Não se sabe ao certo quantas pessoas foram executadas pelas milícias anti-comunistas por suspeitas de serem simpatizantes do regime norte-coreano. As fotografias existentes das valas com os corpos são impressionantes.

Esta história debruça-se sobre duas amigas (uma delas a narradora) que mesmo separadas fisicamente encontram forma de manter e alimentar essa amizade. Quando uma necessita de apoio, a outra move montanhas para o fazer. O passado familiar de uma delas vem ao de cima, trazendo um passado doloroso.

No entanto, embora não tenha acolhido com simpatia a forma como Han Kang narra esta obra e por ter ouvido falar tão bem de Atos Humanos, quero ler esse livro em breve. A autora é multi premiada e quero conhecê-la melhor através dos seus outros livros que esperam vez na minha estante.

Terminado em 17 de Fevereiro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse
Numa manhã gelada de dezembro, Kyungha recebe uma mensagem da sua amiga Inseon –internada num hospital de Seul na sequência de um ferimento grave a cortar madeira – pedindo-lhe que a visite urgentemente.

Quando Kyungha chega à enfermaria, Inseon conta-lhe que veio de avião da ilha de Jeju para ser tratada urgentemente e implora-lhe que vá a sua casa dar de comer e beber ao seu periquito, que de contrário morrerá.

Uma tempestade de neve fustiga a ilha à chegada de Kyungha e muitos dos autocarros foram cancelados ou sofreram atrasos.

As rajadas de vento e o nevão constante não a deixam avançar e de repente a escuridão invade tudo.

Kyungha não sabe se chegará a tempo de salvar a ave – nem mesmo se sobreviverá ao frio tremendo daquela noite; e não sabe também a vertigem que a aguarda em casa da amiga, onde a história há muito sepultada da família de Inseon acaba por revelar-se, em sonhos e memórias transmitidas de mãe para filha e num arquivo diligentemente organizado que documenta um terrível massacre ocorrido em Jeju.

Despedidas Impossíveis é um hino à amizade, uma elegia à imaginação e, acima de tudo, um poderoso manifesto contra o esquecimento.

Como um longo sonho de inverno, estas páginas belíssimas formam muito mais do que um romance – iluminam uma memória traumática, enterrada ao longo de décadas, que ainda hoje ecoa no peito de muitas famílias.

Cris


sexta-feira, 7 de março de 2025

A Convidada escolhe: "Do Outro Lado do Sonho"

Do Outro Lado do Sonho, Ursula K. Le Guin, 1971

Leitura terminada. Confesso que tenho dificuldade em escrever sobre este livro, mas como vai ser objecto da próxima conversa no Leia Mulheres Lisboa, será certamente um debate vivo e com diferentes opiniões.

Eu não sou apreciadora de ficção científica. Acho que ao longo das cerca de duzentas páginas do livro, há muitas voltas e atalhos que me fizeram sentir perdida e confusa. O tema tem a ver com o sonho e a realidade. Afinal o que é sonho, o que é realidade?

O livro foi escrito em 1971. Passa-se nos Estados Unidos da América, no final dos anos 80. “Nova Iorque estava em vias de se tornar uma das maiores vítimas do efeito de estufa, enquanto o gelo polar continuava a fundir-se e o mar continuava a subir; na verdade, toda a costa de Boston estava ameaçada.” “A subnutrição, a superpopulação e a intensa poluição do ambiente eram normais” (pág. 34). George Orr vive em Portland e nas suas deslocações diárias para o trabalho, no comboio, “entre milhares de pessoas. Sentia aquele peso esmagador que se abatia interminavelmente sobre si. Pensou que estava a viver um pesadelo, daqueles que levam uma pessoa a acordar quando está a a dormir.” (pág. 42). “Poderia alguém, mesmo são, viver neste mundo sem dar em doido?” (pág. 48) É neste ambiente que George Orr, alguém que se privava de sonhar, que tinha medo de sonhar porque os seus sonhos alteravam os acontecimentos e que queria curar-se para aprender a não sonhar com efeito, acabou nas mãos de um psiquiatra que o utilizou como instrumento para as suas experiências. Mas Orr queria ser curado e não usado.

A partir do momento em que entra no esquema das sessões com o psiquiatra que o hipnotiza e lhe controla os sonhos, Orr sente-se usado, quer desistir, mas é impotente e não consegue libertar-se. Ele está “apanhado, como um rato numa ratoeira” (pág. 75). Afinal as mudanças operadas pelo dr. Haber só vieram piorar a situação. Na nova realidade tudo estava padronizado, todos se vestiam da mesma maneira, todos tinham a pele cinzenta e os problemas raciais deixaram de existir, mas embora fossem tolerados os doentes mentais, era considerado crime ter-se uma doença incurável, contagiosa ou hereditária. Não havia espaço para se “perder tempo com sofrimentos desnecessários” (pág. 131). A nova realidade era outro pesadelo.

Nesta história estranha em que há máquinas que condicionam sonhos, em que há extraterrestres pacíficos que se integram na sociedade como empresários, em que há vírus cancerígenos que dizimam populações, também há lugar ao amor que consegue sobrepor-se ao caos que o homem criou. Onde acaba a realidade e começa o pesadelo?

Em minha opinião, o título original deste livro de ficção científica “The Lathe of Heaven”, que pode ser traduzido por O Torno do Céu, aponta para a figura do psiquiatra Dr. Haber, qual deus com a ambição de moldar a mente do seu paciente, levando-o a imaginar viver uma realidade que de facto não existe. Uma coisa é certa: o problema das alterações climáticas não é ficção, a poluição é o ar que respiramos, o degelo polar e o risco de as regiões costeiras ficarem submersas são a realidade. A realidade como pesadelo é o triste legado que a humanidade está a deixar para os vindouros.

16 de Fevereiro de 2025

Almerinda Bento



quarta-feira, 5 de março de 2025

“A Ilha Onde as Mulheres Voam” de Marta Lamalfa

Lido com um pequeno grupo de amantes de livros, esta obra requer uma leitura mais atenta porque se trata de uma narrativa lenta. 

Sabia, porque li na sinopse, que na pequena ilha de 5 km de Alicudi, na Itália, nos anos de 1903 a 1905, o centeio estava contaminado por fungos o que fazia com que os habitantes fossem involuntariamente submetidos a visões alucinogénias. Tal facto foi comprovado por vários estudos dado o universo colectivo a que se referia. Com uma população maioritariamente muito pobre, de trabalhadores rurais, o pão de centeio era a base da alimentação. Sabendo disso (ora aqui está uma sinopse que faz todo o sentido existir!), a minha leitura teve outro significado porque quando, por exemplo, a personagem principal, Caterina, se referia a curandeiras que voavam, o meu olhar para esses relatos foi totalmente diferente do que seria se não tivesse conhecimento deles.

Gostei bastante desta obra e, mesmo sentindo que a narrativa decorria lentamente, fiquei presa à pequena Caterina, sua irmã falecida recentemente e seus outros dois irmãos. Com referência a muitos nomes de outros personagens, o princípio pode ser desafiador mas nada que uma papel e caneta não resolvam… No decorrer da leitura, selecionei naturalmente os nomes que fazem mais sentido fixar.

Gente de uma pobreza extrema, sem literacia, cujo futuro pouco auspicioso fazia prever uma vida de sacrifícios e fome, este livro fala-nos do quão difícil a vida pode ser para quem depende da terra dos outros para sobreviver. E quão importante é sonhar, mesmo quando o sonho advém de propriedades alucinogénias de um alimento contaminado.

A Caterina resta o sonho de, tal como as curandeiras, poder voar para longe dali!

Terminado em 19 Fevereiro de 1925

Estrelas: 4*

Sinopse

ALICUDI, UMA ILHA REMOTA E SELVAGEM, HABITADA POR AGRICULTORES E PESCADORES, GUARDA SEGREDOS QUE REMONTAM A TEMPOS ANCESTRAIS.

Entre 1903 e 1905, o centeio da ilha de Alicudi foi contaminado por fungos e adquiriu propriedades alucinogénias.

Esse centeio foi abundantemente utilizado para fazer pão, a base da alimentação na época.

Por causa disso, os habitantes da ilha acabaram por ser involuntariamente submetidos a uma experiência psicadélica coletiva, comprovada por vários estudos.

Ainda hoje se contam histórias lendárias em torno da Ilha onde as Mulheres Voam.

«Uma história mágica e delicada, que aborda temas diversos como a pobreza, a ignorância, a fome e a luta de classes, mas sobretudo a descoberta do corpo feminino, o papel da mulher e os seus limites numa sociedade fortemente patriarcal.» - Goodreads 

Caterina olha para o corpo inerte e duro de Maria, a sua irmã gémea, e sabe que a sua vida vai mudar para sempre.

Embora tenha ficado com mais espaço no quarto, a mãe dá-lhe agora mais trabalho nos campos, a entregar anchovas e nas tarefas domésticas, enquanto espera pelo seu dia preferido: quando todos se reúnem para amassar o pão.

Aquele pão, agora negro e amargo, é tudo o que lhes resta.

Nesses pedaços de alimento está a chave para Caterina escapar a um presente cada vez mais solitário e penoso, vislumbrando mulheres mágicas que pairam no céu soturno da ilha e logo se desvanecem na bruma.

O que ela não sabe é que os cenários dessas visões extraordinárias são comuns a todos os outros habitantes.

E que, para ela, e para todos, chegará o momento de escolher entre a realidade e o sonho.

COM UMA NARRATIVA NO LIMIAR DO ETÉREO, MARTA LAMALFA TRAZ À LUZ FACTOS ESQUECIDOS E TRANSPORTA-NOS POR UMA ESCRITA RADIANTE E ONÍRICA, ENTRE A REALIDADE E O SONHO.

«Neste romance, as relações de poder entre mulheres são muito importantes, mas também o são as relações entre homens e mulheres. Espero — e é uma esperança para a literatura escrita por mulheres em geral — que consiga ser apreciado por todos, transpondo distinções que deveriam estar ultrapassadas num mundo onde a fluidez começa finalmente a ser aceite.» - Marta Lamalfa 

Cris



segunda-feira, 3 de março de 2025

“Olhos D´Água” de Conceição Evaristo

Escrita de apurada beleza, com sentidos profundos, onde permanecemos encantados com o seu som, a sua música. Contos maioritariamente sobre mulheres negras, vidas pautadas de dor e sofrimento. A pobreza e a morte ligadas como almas gémeas. Mulheres com filhos, muitos, capazes de tanto dar.

Mulheres capazes de amar tanto. Algumas fazem-se mulheres ainda meninas: “Um dia, aos treze anos, a cama do gozo foi arrumada em pleno terreno baldio” (pág.60).

É uma escrita feita de coisas que se dizem de forma bonita, fazendo o leitor permanecer nessas palavras, relendo.

Não sou leitora de contos, não me preenchem tanto quanto histórias longas. E, no entanto, por vezes, veem-me parar às mãos alguns livros bonitos, cheios de sentido. Profundos como este.

Terminado em 4 de Fevereiro de 2025

Estrelas: 4*

Sinopse

Em "Olhos D'Água" Conceição Evaristo Ajusta O Foco De Seu Interesse Na População Afro-Brasileira Abordando, Sem Meias Palavras, A Pobreza E A Violência Urbana Que A Acometem. Sem Sentimentalismos, Mas Sempre Incorporando A Tessitura Poética À Ficção, Seus Contos Apresentam Uma Significativa Galeria De Mulheres: Ana Davenga, A Mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, A Menina Zaíta. Ou Serão Todas A Mesma Mulher, Captada E Recriada No Caleidoscópio Da Literatura Em Variados Instantâneos Da Vida? Elas Diferem Em Idade E Em Conjunturas De Experiências, Mas Compartilham Da Mesma Vida De Ferro, Equilibrando-Se Na ""Frágil Vara"" Que, Lemos No Conto ""O Cooper De Cida"", É A ""Corda Bamba Do Tempo"". Sem Quaisquer Idealizações, São Aqui Recriadas Com Firmeza E Talento As Duras Condições Enfrentadas Pela Comunidade Afro-Brasileira.  

Cris


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

“Oração Para Desaparecer” de Socorro Acioli

Sou uma leitora que gosta, maioritariamente, de livros que tenham “o pé no chão”, que nos contem histórias reais ou, se não reais pelo menos verosímeis. Então o que me faz gostar de um livro com uma premissa tão fora do comum? Tão irreal?

“Uma mulher é puxada da terra, viva, num jardim da localidade de Almofala, na fronteira entre Portugal e Espanha. Os únicos traços da sua origem são o sotaque brasileiro e um colar de búzios, mas quem a recebe parece aguardar-lhe há muito a chegada.” Aparecida, nome que lhe é atribuído, surge do nada. Nada se lembra, tudo tem de aprender. É recolhida por um casal e começa a viver uma vida nova sem passado. As marcas que traz no corpo denunciam uma morte violenta. O nada saber angustia-a.

Respondendo à pergunta que fiz no início: A escrita.  Uma escrita que envolve, que encanta, que nos conduz por vias desconhecidas e que faz amar uma história onde uma mulher é desenterrada viva, vinda de, supostamente, terras brasileiras. Uma ressurecta. Uma imaginação prodigiosa, pontas que se vão colando, um puzzle que se vai construindo. 

E, volto à escrita - Tão bonita! Frases em que apetece permanecer. ”Joana gostava de anoitecer na praia.” Pág 156.

Terminado em 31 de Janeiro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse
Na fronteira entre Portugal e Espanha, ela é desenterrada vida.

Tem sotaque brasileiro e um colar de búzios.

Só o tempo e o amor explicarão quem ela é.

Uma mulher é puxada da terra, viva, num jardim da localidade de Almofala, na fronteira entre Portugal e Espanha.

Os únicos traços da sua origem são o sotaque brasileiro e um colar de búzios, mas quem a recebe parece aguardar-lhe há muito a chegada.

Essa mulher sem identidade ou memória irá reconstruir a vida num lugar desconhecido, e Jorge será o homem que vai encontrar nela uma inesperada paixão.

Do outro lado do Atlântico, está Joana, o fantasma de um amor há muitos anos perdido por Miguel.

Quando estas quatro personagens se entrecruzam no tempo em busca de respostas às próprias angústias, revela-se uma trama fantástica de magia, ancestralidade e pertença. 

Cris


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

“Toda a Vida Que Resta” de Roberta Recchia

Há livros que nos fazem bem, cuja leitura é muito prazerosa, despertando logo nas primeiras páginas o nosso interesse. Foi o caso deste. 

Embora pensasse que seria uma leitura leve, isso não aconteceu. Ou melhor, sabia que ia tratar de um tema pesado porque li a sinopse em que é referido que a morte de um filho seria o pano de fundo desta trama, mas não ia preparada para que tratasse de temas pesados de uma forma tão profunda e real. Mas essa percepção boa só aconteceu a meio do livro.

Acompanhamos duas gerações de uma família italiana desde os anos 50. No princípio, os acontecimentos pareceram-me algo estereotipados: uma menina inocente engravida e o namorado não assume o filho. Mas o tom muda rapidamente e o enredo progride com um aprofundamento das características das personagens que me agradou.

E, como em muitas coisas na vida, há um antes e um depois. A morte de um filho muda radicalmente a vida de algumas personagens. Quando essa morte surge subitamente, trazendo uma onda de violência onde o futuro parecia muito promissor, a dor não tem limite. A intensidade do sofrimento está aqui extremamente bem retratada e é impossível o leitor não sentir que essa é a realidade que enfrentam muitas pessoas. 

Para além disso, há romance, segredos que escondem dores profundas, crimes que ficam no esquecimento, a vergonha, o luto, a violência e o sofrimento que ela traz, mas também a esperança. Personagens secundários muito bem caracterizados. Um “bolo” muito bem elaborado e que recomendo!

Terminado em 26 de Janeiro de 2025

Estrelas: 5*+

Sinopse

Toda a vida que resta é um romance precioso e íntimo, que explora os mecanismos da vergonha e do luto, mas sobretudo do carinho e do cuidado, trazendo-os à tona com uma delicadeza surpreendente.

No encantador cenário de Roma dos anos 50, Marisa e Stelvio apaixonam-se e constroem uma família com muito amor, a lembrar os clássicos do cinema a preto e branco.

Mas o seu mundo é arrasado por uma tragédia: a sua amada filha Betta, de 16 anos, é assassinada.

Todos perdem o chão.

O carinho e a cumplicidade desaparecem e fica apenas a dor e a mágoa por uma filha que se perdeu para sempre.

Miriam, a prima tímida e introvertida de Betta, não só presenciou a sua morte, como também ela foi, nesse dia, vítima de uma violência indescritível.

Mas carregou sozinha o fardo desse terrível segredo.

Quando julgava ser incapaz de continuar, encontra Leo, um jovem dos subúrbios, que traz uma nova luz à sua vida: o início de um amor que irrompe onde ninguém ousara olhar.

Cris



terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Janeiro

Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Janeiro.

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org, de todos os comentários efectuados nesse mês, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Alexandra Guimarães


Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 5, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:

Cris

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

“O Papel de Parede Amarelo” de Charlotte Perkins Gilman

Fiz a releitura deste conto para uma conversa informal com a escritora e tradutora Tânia Ganho na Livraria Buchholz. E há tanto para esmiuçar nas poucas páginas! 

O meu exemplar foi emprestado pela rede de bibliotecas aqui da zona e trata-se de uma edição bem velhinha da editora Húmus, com um posfácio de Rita Santana dos Santos e um texto da autora explicando porque escreveu este livro, o que a motivou a fazê-lo.

Diz a autora que durante muitos anos passou por uma depressão muito grave em que o estado de melancolia era uma constante. A receita do médico era muito descanso sem nada fazer, tendo uma vida “o mais doméstica possível”, sem leituras ou escritas. Melhorou quando deixou de fazer o que o médico dizia!

Então, o intuito deste conto seria alertar mulheres que se encontrassem em situações semelhantes.

O texto é riquíssimo em pormenores, mas é necessário estar atento porque algumas coisas estão subentendidas. Uma mulher escreve na primeira pessoa e logo nas primeiras linhas refere: “O John é médico e talvez – (não me atreveria a dizê-lo a ninguém, claro, mas isto fica na gaveta e é um grande alívio para o meu espirito), talvez essa seja a razão por que eu não melhore mais depressa.” pág. 8. Fica o aviso ao leitor que passa a olhar para estes rabiscos da narradora com outros olhos.

Onde se encontra ela? Que casa/mansão é essa onde se encontra que mais parece uma prisão e onde nada pode fazer? Como é o estado de espírito desta mulher que parece desequilibrada? Que esconde ela do marido? Sabe-se que teve uma criança há pouco, a parte psicológica parece desestabilizada o que faz o leitor pensar de imediato em depressão pós-parto…

E esse marido quem é e o que pretende dela? Com palavras amistosas impede-a de escrever, que é algo que lhe dá prazer. "Ele detesta que eu escreva uma palavra sequer". pág 12

Páginas intensas, com alguns momentos que parecem de loucura, muitas interrogações se colocam. Gostei muito e aconselho! 

Terminado em 25 de Janeiro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse

Conto publicado no final do século XIX, O Papel de Parede Amarelo retrata a história semiautobiográfica de uma jovem mulher deprimida, recentemente mãe.

O marido, John, por sinal médico, demonstra grande incapacidade para entender o que se passa com ela, em larga medida ele próprio preso nos perímetros culturais da época.

Na esperança de poder ajudá-la, John muda-se temporariamente com a mulher para uma outra casa, bonita, campestre, onde tentará recuperar a paciente com ar puro e repouso de qualquer tipo de trabalho.

A mulher, sentindo-se presa, sem opções para a sua imaginação e criatividade — ademais num quarto com uma decoração que a incomoda — vai ficando cada vez mais longe da cura, cada vez mais perto da loucura.

Narrado na primeira pessoa, O Papel de Parede Amarelo é um dos mais importantes textos da literatura feminista americana, e global, entrando aprofundadamente nos sinuosos caminhos das perturbações mentais provocadas a mulheres que, afinal, são apenas impedidas de ser o que são.

Cris



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

“A Noite é Um Jogo” de Camilla Lackberg

Livro pequeno, de leitura rápida que se lê em pouco tempo. Sinceramente não achei nada de extraordinário. Passa-se numa noite de fim de ano, em Estocolmo, Suécia, em que quatro amigos de longa data se juntam para festejar. 

Vão sendo revelado algumas disfuncionalidades familiares, traições e uma vingança será servida à meia noite. Vingança algo espectável pelo que não me trouxe nada de novo, nem sequer um friozinho no estômago. 

A execução de um plano, arquitectado à pressa e que funcionou. Pouco verosímil.

Terminado em 21 de Janeiro de 2025

Estrelas: 3*

Sinopse
Quatro amigos
Liv, Martina, Max e Anton são melhores amigos há anos. Na véspera de Ano Novo, estão mais do que felizes por passar a noite juntos – a beber, a namoriscar e a jogar.
Quatro segredos aterrorizantes
Mas cada um deles guarda um terrível segredo. E, quando um jogo de verdade ou consequência toma um rumo sombrio, não demora muito a emergir uma verdade chocante.
Uma noite que terminará em assassinato.
Agora, os segredos já não o são. Nada mais será o mesmo. E nem todos viverão para ver chegar o novo ano…

Cris


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

“Meus Desacontecimentos” de Eliane Brum

Há momentos bons dentro das páginas deste livro, pedaços de escrita com que nos revemos, nós os apaixonados pela leitura! Começo logo com este excerto lido nas primeiras páginas: “Pressenti algo que só racionalizaria muitos anos depois: o poder da história contada” Pág. 27

Da história contada e da leitura à escrita foi uma descoberta que a autora brasileira, jornalista e repórter premiada, nos revela neste relato íntimo, introspetivo. A história da sua vida com as palavras. Não-ficção, portanto.

“Hoje, ao lançar meus anzóis no lago nebuloso do passado, em busca de um mapa cujo único destino sou eu, percebo que escrever me salvou de tantas maneiras e também desta. Desde pequena eu tenho muita raiva – e quase nenhuma resignação. A reportagem me deu a chance de causar incêndios sem fogo e espernear contra as injustiças do mundo sem ir para a cadeia. Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar.” Pág. 61

E esta pequena maravilha? Referindo-se à pessoa que a fez descobrir os livros: “Só Lili sabia que os livros não eram objetos, eram portais.” Pág91

Para além deste aspecto que me encantou, embrenhamo-nos numa narrativa algo dispersa pelo seu passado mas que nos agarra. Não achei uma leitura corrida, tampouco devia ser esse o objetivo da autora, pelo que nos traz um texto que impõe reflexão ao leitor. A dor e a perda de voltar atrás e relembrar. Mas também um sentimento bom ao fazê-lo.

Gostei e recomendo.

Terminado em 2 de Janeiro de 2025

Estrelas: 5*

Sinopse
«Lembro que, quando tudo começou, era escuro. E hoje, depois de todos esses anos de labirinto, todos esses anos em que avanço pela neblina empunhando a caneta adiante do meu peito, percebo que o escuro era uma ausência. Uma ausência de palavras. Essa escuridão é minha pré-história. Eu antes da história, eu antes das palavras. Eu caos.»

Era uma vez uma menina que parecia estar sempre a piscar o olho à morte. Essa menina revela, neste livro, como foi resgatada pela escrita. A cada página, desfilam, vivíssimos, lugares e personagens fantasmáticos, que pertencem ao imaginário coletivo ou a um álbum de família: a «casa-túmulo»; a praça da cidade pequena; a irmã morta, que é afinal a mais viva entre todos; a mãe, despovoada de alegria; o pai, filtrado pela sombra de peripécias domésticas e de um país amordaçado; a avó, comedida em tudo menos na imaginação; as tias, transformadas em flores para não murcharem.

Meus desacontecimentos marca a estreia em Portugal de uma escritora singular e multipremiada, que aqui regista a história da sua vida com as palavras: um relato delicado, impressivo e inquietante sobre como nos tornamos quem somos a partir da língua, da escrita, da memória. Neste itinerário de dentro para dentro, afiadíssimo e despudorado, Eliane Brum conta como se tornou uma narrativa de si, conduzindo o leitor numa viagem encantatória.

Cris


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

“As Malditas” de Camila Sosa Villada

Já tinha este livro na estante desde 2022 e na altura peguei nele para uma leitura em conjunto e não me puxou. Larguei-o, mas tive sempre em atenção os muitos comentários elogiosos de pessoas que conheço e em quem confio em relação às opiniões que emitem.

Para outra leitura conjunta peguei nele este ano e gostei muito da conversa que se teve posteriormente para o grupo. Foi uma discussão muito interessante. É certo que tenho alguma dificuldade nas denominações que me são, algo estranhas, mas creio ter conseguido acompanhar as várias opiniões e concordei com muitas delas.

Este livro é muito impactante. Duro, põe a nu uma realidade que desconhecia quase por completo. Camila retrata um grupo de travestis (mulheres trans), muito mal vistos pela sociedade argentina. O narrador, a própria Camila, dá-se a conhecer passado bastantes páginas lidas. Eu, que pouco sabia desta história, fiquei surpreendida. É muito crua a forma como se descreve a si própria, a sua infância e a sua vivência atual. O lugar obscuro onde vive com as suas companheiras, a invisibilidade a que são sujeitas versus a hipervisibilidade que obtêm quando saem à rua, o frio, a solidão e os consumos que as levam para lugares ainda mais solitários. A vida e a luta diária para sobreviverem, a violência sexual que sofrem, as ameaças de morte, a pobreza extrema. Um realismo que o leitor absorve com sofreguidão e que o leva a lugares que a sua imaginação não alcançaria não fora as palavras duras, mas tão incrivelmente reais da autora.

De quando em vez algum realismo mágico pincela a trama espelhando a mitologia da América do Sul. O leitor, por momentos, duvida do enredo, mas há partes tão sofridas que não nos fazem desconfiar da veracidade desses momentos. 

Caminhando entre o passado de Camila e o seu presente, esta leitura prende e agarra-nos fortemente. Não há adjetivação suficiente que mostre a beleza e o horror que se sente com estas páginas!

Uma leitura prazerosa, muito bem escrita, mas ao mesmo tempo dolorosa, que recomento muito.

Terminado em 19 de Janeiro de 2025

Estrelas: 6*

Sinopse

Uma primeira obra literária impressionante, sem miserabilismo, sem pena de si, «As Malditas» encontra o fulgor de uma vida sem limites através de uma linguagem de memória, inventividade, ternura e sangue. Um retrato de grupo contado através de uma releitura da mitologia, um manifesto explosivo sobre a força a dor e vontade de sobreviver de um grupo de travestis que queriam ser rainhas: «O que a natureza não dá, o inferno empresta.»

Foi essa a origem deste livro, é essa a alquimia que percorre as suas páginas: a transformação da vergonha, do medo, da intolerância, do desprezo e da incompreensão em prosa de qualidade. Porque As Malditas é um relato de infância e um ritual de iniciação, um conto de fadas e de terror, um retrato de grupo, um manifesto político, uma recordação explosiva, uma visita guiada à imaginação fulgurante da sua autora e uma crónica única que vem polinizar a literatura. No seu ADN convergem as duas facetas do mundo trans que mais repelem e assustam a boa sociedade: a fúria travesti e a festa de ser travesti. E na sua voz literária convergem as três partes da santíssima trindade de Camila: a parte Marguerite Duras, a parte Wislawa Szymborska e a parte Carson McCullers. A apropriação de Lorca e de Jean Cocteau que Camila fez no palco volta a verificar-se nestas páginas com o que soube extorquir a Duras, a Wislawa e a Carson, sem perder em nenhum momento essa toada cordobesa essencial que mantém. Para dizer francamente, As Malditas é aquele tipo de livro que queremos que o mundo inteiro leia, assim que o terminamos. (Juan Forn)
 
Cris