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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A Escolha do Jorge: David Golder

A escritora ucraniana Irène Némirovsky (1903-1942) tem marcado presença constante nesta rubrica à conta de obras já abordadas anteriormente, a saber, "Os Cães e os Lobos" e "O Baile".
Oriunda de uma família judia, Iréne Némirovsky trouxe para a literatura e de forma bastante escorreita, a forma de estar dos judeus, sobretudo aqueles que enriqueceram e que souberam aproveitar o dinheiro para consolidar uma posição social, mas também a escritora traspôs de forma objetiva e bastante marcante, todos os tiques dos novos ricos burgueses que os judeus utilizaram para afirmar-se perante a sociedade graças ao dinheiro que lhes garante a posição social, mas também a mentalidade fútil sobretudo daqueles que beneficiam desses mesmos sinais de riqueza exterior.
De um modo geral, e tendo em consideração as várias obras já lidas da escritora em apreço, existe sempre algo de biográfico nas suas narrativas. Os ambientes em que decorrem as histórias, os cenários, os personagens, de certa forma, parecem todos eles reminiscências uns dos outros como se tratasse de alguns dos elementos da sua família que atravessam as várias obras da autora.
Em "David Golder", um judeu idoso, não são exceção os aspetos acima descritos. Oriundo da Ucrânia, David Golder correu o mundo em busca de fortuna. Herdeiro da mentalidade judaica, não para efeitos da prática da religião em si mesma, mas com vista à construção de um império, David Golder tornou-se aquilo que no século XIX tanto em voga se apelidou àqueles indivíduos que vindo do nada construíram uma riqueza imensa, o chamado "self made man".
Partindo deste conceito, Irène Némirovsky apresenta-nos em "David Golder" (1929) uma narrativa com características muito próximas de "O Grande Gatsby" (1925) de F. Scott Fitzgerald, sendo que o pano de fundo deixa de ser Nova Iorque que é trocada por Paris.
David Golder construiu e derrubou o seu império à conta dos altos e baixos da Bolsa capaz de gerar fortunas num abrir e fechar de olhos, assim como derrubar o império menos incauto do dia para noite.
Já com sessenta e oito anos e com muita ganância à sua volta, David Golder toma consciência de que a doença de coração que agora começa a dar sérios sinais de arrelias constitui o mote para fazer o balanço da sua vida. Agarrado ao dinheiro e à vida, ou melhor, os prazeres que essas avultadas somas de dinheiro lhe proporcionam, está longe de querer contar os dias que tem acima dos sete palmos de terra. É também no meio deste balanço da sua vida que toma consciência de que durante toda a vida trabalhou exclusivamente para os outros, para a esposa gastadora, fútil e amante de vários homens que ao longo da vida tem alimentado com essa mesma riqueza que não lhe custou a ganhar, mas que sabe tão bem gastar; e uma filha, Joyce, (ou carinhosamente Joy) que consegue ser ainda mais gastadora e mais fútil e inconsciente que a própria mãe.
"- Joyce… minha doida… uma noite destas ainda vais matar-te na estrada… - gritou Golder um tanto pálido.
- Sentiste medo, velho Dad?
- Vais matar-te – repetiu ele.
- Pff, e que importância isso tem? É uma bela morte… Devagar, com brandura, passou os lábios por uma esfoladela na mão que sangrava e murmurou:
- Numa noite bonita… com um vestido de baile… anda-se um bocado… e é o fim…" (pp. 77-78)
"Gostava de dormir toda a noite cá fora… Gostava de ficar aqui toda a vida… Gostava de fazer amor durante toda a vida… E tu?" (p. 142)
Mas David Golder entre uma reprimenda e outra e uma tirada negativa face aos caprichos de Joy, acaba por ceder invariavelmente a alguns desses pedidos, porque, mesmo confrontado com a verdade, a dura verdade da sua família, e da inevitabilidade da morte cada vez mais à espreita, procura levar para a sepultura os seus melhores sentimentos ainda que a filha só se lembre do pai quando está aflita com falta de dinheiro para os seus gastos absurdos tanto quanto desnecessários.
Irène Némirovsky retrata-nos uma Paris em grande pujança, em 1926, em plenos "anos loucos" com aquele ritmo alucinante da vida como só o dinheiro é capaz de fazer a quem o tem a rodos, sem olhar o dia seguinte; dá-nos uma ideia de uma Paris repleta de movimento e animação como se tratasse de Nova Iorque, no mesmo período, com fortes ligações às principais cidades europeias onde circulam avultadas somas de dinheiro provenientes de mercados como Londres, Moscovo ou Constantinopla.
Mas para além dos aspetos acima descritos, Irène Némirovsky retrata com mestria em "David Golder" a avareza pela qual os judeus são tão conhecidos. Aquando do período de convalescença, David Golder é visitado de vez em quando por um amigo importuno, Sofier, que à semelhança de David Golder edificou uma riqueza considerável através de sucessivas apostas nos mercados, mas também graças à sua sovinice que chega a chocar qualquer pessoa de bom senso.
"Era (…) de uma avareza que raiava a loucura. Habitava uma sórdida casa mobilada numa rua escura de Passy. Nunca tinha entrado num táxi, mesmo quando um amigo se oferecia para o pagar. «Não desejo ganhar hábitos de luxo que me não posso permitir», dizia ele. No Inverno esperava horas inteiras à chuva pelo autocarro; e se a segunda classe estivesse cheia deixava-os passar, uns atrás dos outros. Toda a vida tinha andado na ponta dos pés para os sapatos durarem mais. Desde há anos só comia papas, legumes esmagados, por ter perdido todos os dentes e não querer gastar dinheiro numa dentadura.
(…)
- Meu caro, aqui ao lado, na rua Des Rosiers há um pequeno restaurante judaico, o único em Paris onde sabem preparar como deve ser uma solha recheada. Venha jantar comigo.
- Não pense que vou comer solha recheada – resmungou Golder – se desde há seis meses não toco em peixe nem carne.
- Ninguém lhe pede que a coma. Limite-se a vir e a pagar. Está resolvido!
- Vá para o diabo.
(…)
- Para onde está a olhar? – perguntou Soifer. Afastou para o lado o prato que continuava a ter restos de peixe e batatas esmagadas. – Ah! Ora aqui tem o que é envelhecer… Antigamente eu teria comido três doses como esta… Ah! Os meus pobres dentes!... Engulo sem mastigar… o que me faz aqui uma queimadura… - disse a mostrar o peito. (…) Mas precisará um judeu de ter assim tantas coisas?... A miséria conserva o judeu como a salmoura o arenque…" (pp. 151, 155-158)
Mais tarde, a partir de 1933, com a subida de Hitler ao poder, são estas comunidades judaicas espalhadas por toda a Europa que vão ser perseguidas e que em número absurdamente inacreditável, mais de seis milhões, serão mortos, não sem antes serem despojados de todos os seus bens e dinheiro em detrimento de uma máquina de guerra e de morte fruto da loucura de um louco com inúmeros seguidores.
Parafraseando o próprio David Golder pouco antes de morrer, "Depois morremos (…) sozinhos como um cão, como já tínhamos vivido…" (p. 193)
À semelhança de milhares de judeus, também Irène Némirovsky foi deportada para Auschwitz, morrendo de febre tifóide, em 1942.

Texto da autoria de Jorge Navarro

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