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quinta-feira, 12 de março de 2015

A Escolha do Jorge: O Livro de Jón

"O Livro de Jón" do islandês Ófeigur Sigurðsson (n. 1975) é a mais recente aposta da Cavalo de Ferro no que respeita à literatura daquele país no seguimento de outros autores que publicou anteriormente, nomeadamente Hálldor Laxness, Sjón, Thor Vilhjálmsson e mais recentemente Jón Kalman Stefánsson. "O Livro de Jón" valeu a Ófeigur Sigurðsson a atribuição do Prémio da União Europeia para a Literatura.
Baseado nas crónicas de Jón Steingrímsson (1728-1791) que ficou conhecido por «reverendo do fogo» por ter permanecido na região de Síða, no Sul da Islândia, aquando da erupção vulcânica do Katla, em 1755, recolhendo informação sobre o acontecimento, por um lado, e ajudando a população a enfrentar a calamidade, por outro.
"Todos os autores de relatórios concordam que a caldeira do Katla no glaciar de Mýrdalur começou a vomitar a 17 de Outubro de 1755, antes do meio-dia, mais concretamente às dez horas, no seguimento de um grande terramoto. Anteriormente, no dia 11 de Setembro, terramotos tinham abalado a região norte, tendo sido originados na ravina do Katla (…) Ninguém o põe em causa. Eu também gostaria de culpar o Katla pela severidade gelada na Primavera e no Verão no Norte do país, pelo mau clima, pela debilidade, pela proliferação de insectos, pelos danos sobre o feno e, consequentemente, pelas mortes e fome…" (p. 103)
Numa época em que a Islândia enfrentava a necessidade de aumentar a sua população, o país-ilha depara-se com algumas erupções vulcânicas que vitimam mortalmente muitas pessoas e animais, diminuindo drasticamente a área dedicada à prática da agricultura que dependia da Dinamarca no que
 respeita a meios técnicos para o efeito.
Apresentando uma população entregue a si própria e totalmente dependente da Dinamarca em termos políticos à qual paga pesados tributos, a Islândia sente a necessidade de reverter a situação apostando fortemente na educação, dotando a população de conhecimentos científicos capazes de desenvolver o país, libertando-se do jugo do país dominador.
Neste sentido, "O Livro de Jón" incide inúmeras vezes na necessidade de valorizar o ensino tirando a população da ignorância, tornando-a capaz de encarar o país como um projeto comum. São várias as passagens da obra que fazem alusão, primeiro à constatação da ignorância em que vive a população e a necessidade de alterar essa situação. A ausência de estudos e de conhecimentos produz reações características quando em confronto com situações de calamidade como é o caso da erupção vulcânica evidenciada na seguinte passagem: "As pessoas acreditam na aproximação do Dia do Juízo Final e entram em pânico com todos os seus pecados e assuntos mal resolvidos ao longo da vida, ou simplesmente não sabem o que se passa."(p. 102)
Em resposta à constatação evidenciada acima, "O bispo ficou chocado com a situação porque faz um grande esforço para aumentar a educação no país e elevar os padrões. Ele teve de ver com desgosto todos aqueles labregos nos cargos, fossem eles pastores, meirinhos ou outros, porque eles não faziam nada pela educação, nem por si mesmos, nem pela comunidade." (pp. 137-138)
É precisamente esta ignorância que é necessário combater de modo a libertar todo um povo da sua condição de subserviência. Como refere Ófeigur Sigurðsson na décima primeira carta desta obra, "(…) A ignorância é o pior crime, e o mais prolongado… criado com a ignorância… tão, tão
prolongado…" (p. 69).
Nesta linha de pensamento, também Thor Vilhjálmssom, outro autor islandês, na sua obra "Arde o Musgo Cinzento" (Cavalo de Ferro) faz igualmente alusão à ignorância como um dos principais inimigos da humanidade quando refere "No conhecimento é que está o poder. Que vos tornará livres. A ignorância é o pior tirano da humanidade, um demónio." (p. 78)
É neste sentido que Jón Steingrímsson, o personagem principal da obra, toma consciência da importância do seu papel no contexto da crise vulcânica não só como contributo para as gerações futuras no tocante à História da Islândia enquanto testemunha ocular dos acontecimentos, mas
também de que forma as suas observações podem dar o seu contributo para a ciência. Do mesmo modo, também foram recolhidos outros testemunhos junto da população que têm como objetivo a compreensão mais abrangente da erupção vulcânica enquanto fenómeno da natureza.
"As pessoas disseram que, pouco antes do aparecimento do fogo, tinham ficado com os ouvidos entupidos, sentiram um fedor frio a enxofre e que os rios inicialmente secaram e depois voltaram a correr. Isto foi sempre um sinal de actividade vulcânica. A seguir, o fogo abre um buraco no gelo, por entre o qual cai a água, provocando terramotos.
(…)
Eu, como estudioso autodidacta da passagem do tempo e da História, tenho a obrigação de descrever a erupção num relatório pormenorizado, de acordo com a verdade, sem exageros, uma vez que sou testemunha e porque vejo com os meus próprios olhos e ouço com os meus ouvidos, cheiro com o meu nariz, (…), de modo que a minha boca, a minha mente e a minha mão deixem apenas o justo testemunho, em interesse da ciência, de toda a realidade vista para completar a história de Hellar."
(pp. 83-84)
É esta recolha de informação, este olhar atento que conduz ao desenvolvimento científico, transformando gradualmente a ciência naquilo que conhecemos nos nossos dias.
"E. & B. trabalham arduamente para terminarem o relatório sobre a erupção do Katla, embora esta continue sem cessar, e apressam-se a terminar as medições e os registos para os enviarem à Sociedade Científica em Copenhaga, onde será impresso, enquanto ainda prevalece a sede de conhecimento pelo desastre natural. Os antecedentes, sob a forma de terramotos, são já conhecidos, além de trabalharem em descrições quotidianas. Assim, são exploradas as consequências que o fogo e a cheia glacial têm sobre as terras, as quintas e as pessoas." (p. 101)
"O Livro de Jón" é igualmente um livro importante na medida em que é um reflexo da cultura e mentalidade não só da Islândia, mas também dos países nórdicos em geral, na medida em que há inúmeros pontos em comum entre os vários países setentrionais, nomeadamente a melancolia (ou a "angst nórdica") a que tantas vezes aqueles países estão associados.

Ófeigur Sigurðsson ilustra com uma passagem exemplar a questão da melancolia nórdica que passamos a citar: "A melancolia existe por si só, mas é a causa e consequência de outras emoções, como a tristeza / alegria / apatia / desinteresse / preguiça / mas também actua com fervor e excessivo consumo de aguardente. Há tristeza que anseia por tristeza. A melancolia parece-me uma tristeza nórdica, uma ternura dolorosa ou uma felicidade na mágoa." (p. 92)

A par da melancolia, Ófeigur Sigurðsson também nos oferece momentos de humor e ironia tipicamente nórdica, expressando um sentido de humor muito próprio. Uma vezes mais velada, outras mais evidente, o excerto sobre a difamação é provavelmente o momento mais hilariante de "O Livro de Jón" cujo excerto a seguir é capaz de nos fazer rir.
"A única coisa que cresce e prospera nesta altura do ano é a difamação (...) e o pior é que as calúnias não são o nome de um sumarento fruto da terra que pode ser comido. Caem mal no estômago..."
(...)
Se eu ingerisse o que os meus inimigos dizem sobre mim, ficaria com um buraco na barriga de tal modo grande que imediatamente morreria com o seu veneno; inclino-me a acreditar que algumas pessoas recebem gratificações do diabo para lesarem a minha honra, tendo em conta as muitas horas e persistência que a isso dedicam.
(…)
Sugiro que eu, o Eggert e Bjarni publiquemos uma obra literária sobre a difamação, que se poderia
chamar:
Da falta de ligação da difamação à verdade
& como ela vive do tédio & viaja entre as pessoas como vermes
& procura a saciedade nas incredulidade e estupidez,
mas como a educação limpará
os intestinos" (pp. 86-87)
No seguimento do excerto acima, "O Livro de Jón" revisita em inúmeros aspetos um outro clássico da literatura nórdica, "A Saga de Gösta Berling" da nobelizada Selma Lagerlöf (1858-1940), em que as questões relacionadas com o fantástico também estão aqui presentes nesta obra de Ófeigur Sigurðsson. Há momentos em que é difícil separar a realidade da ficção e/ou fantasia ao ponto de uma boa parte da população considerar o diabo como uma figura/personagem real que de alguma forma interage com as pessoas de modo a influenciar as suas relações do mesmo modo que o ferreiro Sintram, vestido de diabo, pretende assinar um pacto de sangue com Gösta Berling, este que se tornou uma referência não só da literatura como do imaginário nórdicos em geral.
Em jeito de conclusão, "O Livro de Jón" de Ófeigur Sigurðsson segue em linha com "Paraíso e Inferno" de um outro autor islandês, Jón Kalman Stefánsson, no que respeita à amizade e amor pelo próximo, tendo os livros como um antídoto à solidão e à redenção dos homens.

Texto da autoria de Jorge Navarro

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