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terça-feira, 21 de agosto de 2018

"Nada é por Acaso" de Maria Roma

Romance lido para o projecto de leitura #bookbingoleiturasaosol2 na categoria "livro cuja história se passe no Verão".  Ler este livro não foi difícil, embora, no início, fizesse alguma confusão com as personagens e os seus nomes, visto serem bastantes e não estar ainda habituada às suas especificidades. Nada que não se resolvesse com um papel e lápis...
É um romance leve (categoria "chick lit"), bom para quem se quer envolver num enredo amoroso, com traições à mistura, gente fútil de um lado, embora ligadas a profissões de topo, e personagens com mais conteúdo de outro lado. 
Adivinha-se o final a meio do livro mas creio que, para o público a que se dirige, cumpre o seu objectivo: entreter e distrair. É um livro para quem gosta de romances de amor fortes e, às vezes algo impossíveis, e que faz sonhar com dias de verão e amores tórridos. Sempre com consequências...
Não é um tipo de livro que leio habitualmente mas não custou nada a ler. Se o que vos disse suscitou o vosso interesse, experimentem! 
Terminado em 15 Agosto de 2018
Estrelas: 4* -
Sinopse
Nada É Por Acaso é um romance sobre o amor, a paixão, o desamor ou os encontros fortuitos, intensos e arrebatadores. Tal como o belo lago de Sirmione - em Itália, onde decorre a ação - que que muda bruscamente de uma calma plácida e de um calor intenso para uma tempestade arrasadora, também as personagens ganham força e solidez: numas prevalece a amizade, o amor intenso e a compaixão e noutras, o ciúme, a raiva, a inveja e até a vontade de prejudicar os outros de forma premeditada são tão naturais como respirar.

Mas Nada É Por Acaso é sobretudo uma história envolvente sobre a felicidade - perdida ou conquistada - em que o passado e o presente se entrelaçam num objectivo que todos, de formas diversas, anseiam alcançar.
Cris

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Para os Mais Pequeninos: Maria e Danilo e o Mágico Perdido

Já algum tempo que este livro vive na minha estante. Sabem que gosto de livros infantis, não é? Mas confesso que fui atraída para esta leitura porque adoro a escrita de Richard Zimler e fiquei curiosa. Como será a sua escrita quando dirigida a um público infantil?
Não fiquei espantada por gostar desta história nem, tampouco, pela mensagem nela contida! Vindo de Zimler não podia esperar outra coisa. 
É um livro que pode ser dirigido a um publico infantil que ainda precise que alguém leia para ele mas, também, para aqueles pequenitos que começam a desembaraçar-se sozinhos na leitura. 
E a história é tão bonita! E tão sabedora das pequeninas coisas que podem incomodar as crianças que possuem alguns defeitos físicos e que se achem inferiores por causa disso... Como ultrapassar esses problemas que podem constituir um handicap para o desenvolvimento harmonioso de uma criança? E como fazê-las acreditar que o mais importante não é o especto físico nem o que algumas pessoas (maldosas!) as fazem sentir?
Uma história maravilhosa que vão querer ler aos vossos amigos mais pequenitos! Podem acreditar!
Vejam algumas imagens:





Cris

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

"Os Loucos da Rua Mazur" de João Pinto Coelho

Escrevo esta review ainda a quente! Prefiro fazê-lo para que o que senti ao ler este livro não seja mascarado por um pensamento mais seletivo, para que o que escrevo seja mais genuíno.
As primeiras páginas desta leitura foram algo custosas. Não consegui deixar de comparar constantemente com o livro anterior do autor, que amei, e em cujo enredo "entrei" com uma rapidez incrível. Foi mais difícil esta história fazer parte de mim e, mesmo achando que depois todo o restante livro compensou esse facto, não quero deixar de vos falar disso... Assim, nas primeiras 100 páginas e sobretudo nalguns momentos em que o autor descreve o passado (nordeste da Polónia, antes da Segunda Guerra) a minha cabeça vagueou um pouco. 
Após essa dificuldade inicial, compreendi o que tinha em mãos. Um romance soberbo, espectacular, baseado num facto verídico mas pensado exaustivamente, com cabeca, tronco e membros. Adorei a dureza das descrições, a subtileza e sensibilidade do amor entre Shionka e Yankel, a narrativa contada num livro que é escrito durante este romance, o escritor / personagem Eryk com o seu ciúme e mágoas acumulados, o despeito, o ódio e a raiva conjunta de um povo face a outro. O inacreditável e o impensável. 
Um livro que me fez pensar nas "segundas guerras" a que assistimos nos nossos dias e que nos passam indiferentes pelos nossos olhos. Tantas! Que participação temos nelas? Com que indiferença e egoismo assistimos às "guerras" de hoje contra o Homem e contra o Planeta, ficando indiferentes?
Um livro que mereceu o prémio que teve. Amei.
Terminado em 12 de Agosto de 2018
Estrelas: 6*
Sinopse
Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.
Paris, 2001. Yankel - um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama - recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram - e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk - hoje um escritor famoso - está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira.

Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne - a editora que não diz tudo o que sabe -, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Na senda do extraordinário Perguntem a Sarah Gross, aplaudido pelo público e pela crítica, o novo romance de João Pinto Coelho regressa à Polónia da Segunda Guerra Mundial para nos dar a conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis, mostrando-nos também como a escrita de um romance pode tornar-se um ajuste de contas com o passado.

Cris

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

"Um Cântico de Natal" de Charles Dickens

Peguei neste livro porque um desafio de leitura "obrigou-me" a tal... Encontrar um escritor que tivesse as mesmas iniciais que eu e ainda por cima possuir um livro dele nas minhas estantes não me pareceu tarefa fácil. Contudo, ao vasculhar com atenção vi este livro reeditado pelo Clube do Autor e Charles Dickens (C.D.) surgiu-me como um anjo nas minhas prateleiras! Tenho tambéns deste autor "Grandes Esperanças" mas sendo uma edição mais velhota, este "Um Cântico de Natal" pareceu-me mais apelativo.
Que vos posso dizer de um livro cujo filme me lembro de ter visto em criança? E que voltei a ver, repetidamente, na TV, nalguns Natais após isso? Soube-me bem visualizar as imagens que retive desses tempos e voltar a ver Mr. Scrooge e os "seus" fantasmas... 
Terminado em 17 de Agosto de 2018
Estrelas: 4*+
Sinopse
"Um Cântico de Natal" é uma das histórias mais famosas da literatura e, sem dúvida, o conto de Natal por excelência. «Um daqueles raros livros que deu expressão a algo enorme. Acredito que a própria vivência do Natal foi tocada por estas páginas.(…) Uma obra que nos faz pensar e que nos faz sentir. É por isso que continuará a ser lida, não importa quantos séculos passem. As questões que levanta nunca perderão atualidade (…).» José Luís Peixoto in Prefácio «A arte de Dickens deu origem a algumas das obras mais marcantes de sempre.» The New York Times
 
Cris

A Convidada Escolhe: "Jogos de Raiva"

Retomar o labor habitual após as férias custa e com este livro é garantido que logo na primeira página levamos um abanão, ou melhor, um estalo bem dado para acordar. Depois é perceber como e porquê ao longo de uma narrativa, que sem peias nem meias palavras, explode à frente dos nossos olhos para nos recordar o que queremos esquecer ou ignorar. Assuntos tabu como o suicidio, a depressão, o racismo, são abordados de um modo que, os mais distraidos ou pouco exigentes não podem deixar de reparar, mesmo que não percebam o quanto custou a aguçar. Leitura exigente, durissima em algumas partes, abraça causas que não procuramos num romance e extrema-as até ao limite, sem com isso nos impedir de ler compulsivamente até ao fim.  De assinalar, a escrita apurada, assertiva e tão lúcida de Rodrigo Guedes de Carvalho que nos obriga a ler e a reler. Importa refletir sobre o jornalismo de hoje e o impacto das redes sociais na vida quotidiana. 

A história gira em torno de uma familia do Porto. Riquissimas personagens. De conteúdo. Tanto de nós existe em cada uma delas. Os mais atentos, sensiveis e inteligentes vão perceber o quanto a vilania, ira, vaidade e inveja se manifesta e como combatê-la. A familia na dor da perda e na dor de não entender, subsiste e supera, com o amor que os une apesar das diferenças. 

Como Bernard Shaw tinha aconselhado numa lição para alunos de escrita criativa: "Se não consegues livrar-te dos esqueletos da tua familia, ao menos fá-los dançar".  (pag. 182)

Rodrigo, obrigada por esta dança.


Vera Sopa

sábado, 11 de agosto de 2018

Na minha caixa de correio

  

  

 Todos os livros recebidos esta semana foram adquiridos por mim na Feira da Ladra e nos saldos da Bertrand Online, excepto A Biblioteca dos Livros Proibidos, ofertado pela editora Alma dos Livros.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A Escolha do Jorge: "Campo de Sangue"


“(…) A felicidade é pouco mais do que alguém a cantar por cima de uma música (…).”

“Campo de Sangue” – Dulce Maria Cardoso 
(Tinta da China)

Quase duas décadas após a publicação de “Campo de Sangue”, o primeiro romance de Dulce Maria Cardoso (n. 1964) regressa às livrarias sob a chancela da Tinta da China que tem apostado na edição das obras da escritora desde o aclamado romance “O Retorno” (2011).
“Campo de Sangue” é um romance tenso e violento, evoluindo num crescendo de asfixia até o leitor ser esmagado perante a evidência da tragédia anunciada na abertura.

A narrativa alude recordar, em certa medida, aos romances de H. G. Cancela no que respeita aos poucos personagens existentes, o ambiente tenso em que se movem e o culminar de um crime.
A narrativa desenrola-se a partir de uma sala de interrogatório onde quatro mulheres que, aparentemente, nada têm em comum entre si a não ser o facto de terem ou terem tido uma relação com o responsável do crime.
A mãe, a ex-mulher, a senhoria e a rapariga grávida são as mulheres que aguardam de forma impaciente a sua vez para serem ouvidas na tentativa de poderem dar luz, alguma explicação ao acto hediodo que fora cometido pelo homem. Não falam entre si, mas cada uma culpa as demais presentes, em pensamento.
“Mas cada uma das três mulheres culpa as outras e é isso que as desune, atiram para as outras o dever de o salvar, é acima de tudo a culpa que as desune.”
“Campo de Sangue” é passado numa cidade nos dias que correm e reflecte, na sua essência, a complexidade das relações humanas no contexto de uma sociedade que tende a isolar-se, fragmentar-se, a perder-se, talvez, e onde todos, com as suas vicissitudes nos tornamos culpados dado o nosso contributo, mas também inocentes porque não soubemos fazer melhor.
À medida que a narrativa evolui, o leitor vai ficando cada vez mais inquieto, por vezes até dilacerado, porque há palavras, pensamentos, histórias que magoam e que também não temos para onde fugir ou onde nos podemos esconder. A culpa…
A mãe disse que “um filho pode ser um azar muito grande que ninguém consegue explicar.” Palavras que ferem, palavras que nunca deveriam ou poderiam ser ditas porque são contra a natureza de ser mãe. “(…) A única coisa que se tem é tanta vergonha que os olhos dos outros nos queimam”, continua.
Eva, a ex-mulher, é também um reflexo da complexidade das relações amorosas na medida em que, separa-se para poder levar a vida de mulher rica, sem preocupações, mas nunca deixou de amar o ex-marido, pagando-lhe o alojamento e alimentação com o dinheiro do marido que nunca amou. “Não consegues amar-me, não consigo deixar de te amar, somos dois casos perdidos”, disse Eva ao ex-marido. “Tens muito tempo e o tempo por gastar é perigoso. O tempo é uma coisa que só existe para se gastar, para se gastar rapidamente”, disse-lhe Eva noutra altura.
Eva acusa a ex-sogra de toda a situação, do crime que veio a perpetrar. “Se o amasse como devia nunca teria deixado de acreditar que o filho podia ser alguém na vida, nunca o teria deixado dormir em restos de lençóis por bordar, os que sobravam e que lhe davam azar aos sonhos. Se a mãe o amasse como devia, teria acreditado que eles podiam ser felizes e a mãe nunca acreditou.”
A rapariga grávida, igualmente presente na sala, desejava que passassem depressa os quatro últimos meses da gravidez para que o seu tormento acabasse e se visse livre da criança não desejada e de toda aquela história não calculada. Um envolvimento fugaz com o potencial assassino que se viu seduzida pelas promessas (com o dinheiro da ex-mulher) e deslumbramento daquele homem mais velho em relação a si enquanto jovem. A rapariga grávida foi assim seduzida passando a fazer parte de uma história pérfida com um mau fim, sem dar importância ao dia de amanhã que tanto poderia ser na cama com esse indivíduo ou outro, tanto poderia abandoná-lo quando se entediasse ou ser abandonada, tanto fazia, estava por tudo, tudo valia e assim era porque já tinha passado por tudo isso outras vezes no seu passado recente.
“Já te dei o meu coração, já não o posso dar a ninguém, mas estava farta de tanto amor, disse-lhe muito séria, se queres viver comigo tens que confiar em mim porque não gosto que me prendam, um pardal também morre se o aprisionam, sobrevive apenas na rua.”
A senhoria, uma senhora de idade, proprietária de uma pensão decadente, com ordem camarária de despejo devido ao perigo que derrocada iminente do prédio. É a quarta mulher à espera de ser interrogada em virtude de ter sido o local onde foi cometido o crime. A senhoria é uma das figuras centrais da narrativa. Se nos diverte por um lado, pela sua forma de falar, pelos estratagemas que utiliza na tentativa de manter em pé o prédio e a pensão, o seu ganha-pão, é também a personagem que reflecte aquela forma comezinha e tacanha da mentalidade bem portuguesa, uma herança tenebrosa, horrenda, uma sombra salazarenta ainda tão bem vincada e demarcada na mentalidade e forma de estar do nosso país. A senhoria é o oxigénio envenenado que nos mortifica o corpo e a alma, é a pobreza de espírito e a miséria latente e que se lamenta em cada intervenção que faz. Se nos diverte por um lado, até porque é das personagens bem definidas e conseguidas, por outro lado também nos magoa e envergonha porque é um espelho fidedigno de uma parte do país, triste, cinzento.
Mas é preciso procurar nos interrogatórios a origem do mal. Qualquer uma das mulheres que conviveu de perto com aquele que veio a ser criminoso, quando é que terá percebido do traço agressivo da sua personalidade, nas palavras e nos actos? Desconfiariam alguma vez que semelhante indivíduo, pacato, quase invisível perante todos, fosse capaz de cometer semelhante acto terrível, um verdadeiro campo de sangue?
Poderemos até questionar se no que concerne a comportamentos obsessivos, o que é que define, o que é que é preciso dizer ou fazer antes de alguém perder por completo o controlo das suas emoções ao ponto de ser capaz de matar de uma forma selvática? Qual é a linha que separa a razão da loucura? Quem são os loucos que estão ao nosso lado sem que se dê por isso? Não estaremos nós próprios loucos e não damos por isso? Será o mal a origem da loucura ou a loucura a origem do mal? “Comiam e dormiam juntos e no entanto não sabiam quase nada um do outro, ilhas, uma ausência de amor rodeada de amor.”
A narrativa avança, procura responsáveis ou pelo menos os co-responsáveis face ao assassinato cometido, mais não seja como forma de lavar as mãos e a consciência também perante algo que não se fez, não se conseguiu prever a tempo.
Falamos em sociedade porque é sempre mais fácil de falar em alguém ou naqueles que não têm rosto, é o monstro dos nossos dias que adquire proporções inimagináveis, capaz de cometer tudo o que, em consciência, e dotados de razão não imaginamos, mas que, em conjunto, todos fazemos parte do mesmo processo, da mesma massa, dos mesmos órgãos, cérebro, sangue. E culpa…
“Quando espetei a faca à procura do coração que sempre pensei estar a meio do peito, verifiquei que a carne ainda é mais mole do que parece. A faca entrou com tamanha facilidade que me pareceu estar a espetar um pedaço maior de pão. Claro que foi só até apanhar os ossos. Os ossos são muito difíceis ou talvez a faca não estivesse suficientemente afiada ou não fosse adequada. Mas abrir o peito a alguém não é difícil.
Difícil é tirar o coração a alguém.”

Texto da autoria de Jorge Navarro







quinta-feira, 9 de agosto de 2018

"Ala Feminina" de Vanessa Ribeiro Rodrigues

Este é um livro de não ficção. Escrito por uma mulher que sabe pegar na "pena" e escrever com uma rara sensibilidade e beleza. A sua escrita é, pois, de uma beleza profunda muito embora o assunto de que fale seja de difícil entendimento. Isto porque, por mais que digam, "elas estão lá dentro e nós estamos cá fora". E isso faz toda a diferença. Por mais que digamos que somos iguais, esse muro invísivel é forte e está presente quando pensamos que por detrás dos muros, pessoas de verdade estão confinadas num espaço muita vezes superlotado.

E são mulheres (como nós) que nos contam como foram parar por detrás das grades, como é estar limitada na sua liberdade, quem deixaram cá fora, o que lhes pesa na alma e como sonham com o mundo que vão encontrar quando saírem. Mas também nos falam do que aprenderam com tudo o que lhes aconteceu e como sentem a falta da palavra liberdade. Dos filhos e da saudade que doi, do trabalho na prisão para passar o tempo e de como e porque foram ali parar.

São muitas as histórias que nos são contadas. Outras, demasiadas, ficam por contar. Agostinha, Mónica, Nádia, Soraia, Margarida... A ala feminina em muitas prisões de Portugal e do Brasil. Um retrato das desigualdades sociais, da reclusão mas também de como o dinheiro fácil ainda (ingenuamente?) é o motor de muita gente que procura a "felicidade".

Terminado em 7 de Julho de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Pode a reclusão revelar mistérios da condição da mulher?
O que têm em comum uma colombiana, uma romena, uma angolana, uma venezuelana, uma uruguaia, três brasileiras e nove portuguesas? Para elas, a liberdade é um desejo que carregam na mente, livre para sonhar, com o corpo preso num cárcere, labirinto entre o Rio de Janeiro, o Porto e Lisboa.
São mães, vaidosas, filhas, amantes, sonhadoras, escrevem cartas, leem livros, amam. São barqueiras invisíveis entre dois mundos: o mundo cá de fora e um céu gradeado. Este é mais do que um livro-reportagem, é a intuição subjetiva a partir de conversas com mulheres privadas de liberdade: os medos, os desafios, as conquistas, os desabafos, a ânsia de ser livre.

Cris

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Para os Mais Pequeninos: Vamos Ajudar a Terra


O título parece dizer quase tudo, não é? E sim, é uma forma, bonita e agradável, de falarmos com as crianças de um tema que deveria preocupar TODOS os adultos. É de pequenino que devemos sensibilizar as crianças para os problemas envolventes com esta nossa casa grande que é a Terra e que tem sido tão maltratada pelo Homem. 

A falta de água nalguns países, o lixo que invade os oceanos e que faz perigar a vida no seu interior, a agua potável e quais os meios existentes para podermos aproveitá-la e purificá-la são alguns dos temas que são abordados neste livro e que podem constituir um bom alerta para os mais pequenos. Estar atento e pensar sempre que todos devemos e podemos participar com a pequena/grande contribuição que nos é possível.

Uma viagem no pequeno avião da Pena Branca que as crianças vão adorar pois as ilustrações são giríssimas e muito atraentes. Querem espreitar?







Cris

domingo, 5 de agosto de 2018

Ao Domingo com... Gabriela Oliveira

Publiquei recentemente “Cozinha Vegetariana à Portuguesa”, o quinto título da coleção Cozinha Vegetariana. Quando idealizei estes projetos de livros, tinha como objectivo tornar a alimentação 100% vegetariana acessível e atrativa, chegando a todos os que quisessem mudar ou simplesmente diversificar e melhorar os seus hábitos alimentares. Sendo jornalista de formação e profissão, a culinária vegetariana foi encarada como um desafio criativo. Para mim, não era suficiente a explicação teórica, não bastava detalhar as vantagens de uma alimentação de base vegetal, era preciso mostrar na prática quão fácil e saborosa poderia ser! A pesquisa constante, a experimentação culinária e a produção fotográfica passaram a fazer parte do meu quotidiano e surgiram os livros “para quem quer poupar”, “para quem quer ser saudável”, “para bebés e crianças” e “à portuguesa”, sempre com o mote da “Cozinha 100% Vegetariana”.

A gastronomia portuguesa é riquíssima e, com este livro mais recente, tive a oportunidade de recuperar alguns pratos tradicionais originalmente vegetarianos (como sopas e açordas), bem como converter outros em versões 100% vegetarianas, portanto, sem recorrer à carne, peixe, ovos, leite ou queijo. Nos livros anteriores evitava fazer uma “colagem” aos nomes dos pratos tradicionais mas percebi que as pessoas gostam efetivamente dessa ideia, e tentam reproduzir pratos da culinária portuguesa, por revivalismo ou saudade. Procurei pratos tradicionais, por regiões do país, tendo em conta o tipo de confecção, os ingredientes usados e o seu equilíbrio nutricional. O livro tem receitas como francesinha, pão com chouriço, caldeirada, rancho, migas, feijoada, alheira, pastéis de feijão, queijadinhas, bolos de arroz, borlas de Berlim, entre outras iguarias do receituário tradicional adaptadas à culinária vegan.

Tornei-me vegetariana há mais de vinte anos e encaro o vegetarianismo como algo natural e benéfico, por proteger a vida (a nossa e a dos animais), promover a saúde e o equilíbrio do planeta.
Desejo boas leituras e bons cozinhados!

Gabriela Oliveira


sábado, 4 de agosto de 2018

Na minha caixa de correio

  

  



Esta semana chegaram cá a casa seis livros que tenciono levar comigo nas férias. Foram oferta das editoras:
- Nix, Fantasmas do Passado e Mindhunter - Editorial Presença
- Procura-me Quando a Guerra Acabar e Nome de Código Verity - Topseller
- Fahrenheit 451 e O Mapa de Sal e Estrelas - Saída de Emergência
- Monteperdido - Suma de Letras

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

A Escolha do Jorge: "O Dia de Amanhã"


Todos, todos os amigos e conhecidos daqueles anos ficavam sob suspeita, e esta parecia contaminar tudo: as pessoas, o sítio, a própria época.” (p. 82)
Ler “O Dia de Amanhã” é mergulhar a ferro e fogo nas décadas de 60 e 70, numa época em que o regime franquista continuava a marcar o país vizinho do ponto de vista político ainda que desse já alguns sinais de enfraquecimento. Passada maioritariamente em Barcelona, esta narrativa retrata-nos uma sociedade que faz o que pode para sobreviver face às agruras da ditadura, assim como de todos aqueles que beneficiam do exercício de funções num estado ditatorial, fazendo-se notar o grande desejo de uma qualquer revolução iminente que nunca aconteceu ou o desejo da morte do ditador que só acontece em 1975, altura em que a Espanha instaura o regime democrático, à semelhança do que tinha acontecido no ano anterior, em Portugal.
Ignacio Martínez de Pisón (n. 1960) consegue de forma magistral fazer a fusão entre literatura e historiografia, uma vez que perdemos a noção onde começa uma e a outra. Com uma escrita elegante tanto quanto apaixonante, e com o suporte de uma tradução rigorosíssima, o leitor ao longo de quase trezentas páginas mergulha num período conturbado da vizinha Espanha que, em variadíssimos aspectos, tem muito em comum com a História recente do nosso país.
Personagens bem fundamentadas, com personalidade forte, com a descrição do seu dia-a-dia, dão, no seu conjunto, a ideia de como se teria vivido nos anos 60 e 70 na cosmopolita Barcelona. Ao longo da narrativa vão desfilando um leque variado de personagens que se vão intercalando e que nos contam não só o seu cadinho de história que, no fundo, vão construindo aquele retrato da Espanha franquista, mas também são esses mesmos personagens que nos vão dando a conhecer quem foi Justo Gil.
Justo Gil é um emigrante que chega a Barcelona com o desejo de uma vida que nunca teria na sua longínqua aldeia e que, graças à sua esperteza e todo um conjunto de artimanhas, consegue tudo por tudo para também sobreviver no seio do regime.
Justo Gil é seguramente um dos personagens mais incríveis tanto quanto horríveis que a literatura pode alguma vez conseguir. Poucos são aqueles que conseguem fugir ao poder sedutor de Justo Gil, ainda que se trate de uma das figuras mais hediondas que podem alguma vez existir.
Se “O Dia de Amanhã” é um livro electrizante, deve-o em grande parte à figura de Justo Gil de quem alguns dos personagens, e até o leitor, acabam por ter pena (?), pois, nalguns casos chegaram mesmo a nutrir amizade e afecto por ele.
Justo Gil é um indivíduo camaleónico que se adapta a todas as dificuldades e circunstâncias no intuito de sobreviver num regime asfixiante, tendo mesmo acabado por se tornar num eficiente informador, o Ratazana, a alcunha com que ficou conhecido, da Brigada Social, a polícia política do regime franquista.
Tudo vale para Justo Gil! De boa aparência e com falinhas mansas, é difícil não cair no conto do vigário. Tanto no que concerne à forma com que se aproxima das mulheres no intuito de lhes extorquir dinheiro e também por puro prazer físico, Justo Gil não sente qualquer pudor em abandonar as mulheres que lhe demonstraram afecto.
Quanto às amizades, não deixa de ser curiosa a forma como se aproxima das pessoas com a finalidade de as denunciar ou de denunciar terceiros à Brigada Social.
Justo Gil é um verdadeiro crápula, um facínora social que partilha da desgraça alheia para a aniquilar, unicamente com a intenção de ganhar reconhecimento e dinheiro a partir de um sistema decrépito.
Tal como acontece com a queda das ditaduras, a sociedade procura equilibrar-se e reajustar-se na nova conjuntura política, com a instauração da democracia e, nos sectores mais conservadores, o recurso ao silêncio e às aparências da defesa do liberalismo são uma constante em oposição à vergonha que sentiriam ao serem apontadas como defensoras dos valores franquistas.
Neste aspecto, Justo Gil também se soube adaptar às novas circunstâncias políticas. De informador e delator no regime franquista, passa a ser um dos infiltrados num dos movimentos de extrema-direita na Catalunha, durante os primeiros anos da democracia.
Mais uma razão pela qual “O Dia de Amanhã” é uma obra tão significativa, grandiosa até. Ajuda-nos a compreender as manifestações e rebelião que têm decorrido na Catalunha ao longo do último ano na tentativa de esta província alcançar a independência.
Não aludirei ao fim de Justo Gil ainda que se possa apresentar mais ou menos previsível, justo, quiçá, como que de alguma forma o seu nome assim o exigisse.
“O Dia de Amanhã” é, pois, uma obra marcante e inesquecível e que ao mesmo tempo nos transporta para um passado recente e que tanto tem condicionado as décadas da democracia em Espanha.

Excertos:
"Como é que não havíamos de ser franquistas se foi Franco quem nos tirou da rua e nos deu cama, comida, educação, trabalho...?, diz Mateo Moreno. Para os meninos-bem, os que tinham pai e mãe e casa própria, era muito fácil ser antifranquista. A nós, aos que crescemos nos Hogares Mundet, isso nem sequer nos passava pela cabeça. Possuíamos poucas coisas, mas as que tínhamos devíamo-las ao regime, e quem não é agradecido não é bem-nascido." (p. 85)
"O pouco que sabia do Justo estava de acordo com a ideia que se tinha dum informador da polícia: a presença em Montserrat, o hábito de apontar tudo o que se dizia, a atitude esquiva, própria de quem tem muito a esconder... Lembrei-me dos livros que o vira comprar, mas onde é que está escrito que um bufo não pode ter um fraquinho por Santa Teresa e São João da Cruz? Lembrei-me também da frase dele sobre a purificação através da palavra: uma afirmação significativa vinda de alguém como ele, que usava o poder da palavra para sujar e não para limpar, para fazer mal e não para curar." (pp. 201-202)
"O liberalismo desprezado pelos franquistas, imaculado, oferecia-se agora como uma árvore boa para se encostar, e muitos conservadores limitavam-se a trocar um abrigo por outro: a sombra protectora do franquismo pela sombra protectora do liberalismo. A minha aproximação à extrema-direita não era, pois, uma coisa de que pudessem sentir-se orgulhosos lá em casa, porque lhes recordava a sua própria deslealdade. Lá no fundo, talvez me tivesse ligado a essa gente só para atirar à cara dos meus pais a cobardia e a mediocridade deles. Nessa altura, não gostava nada dos meus pais: ele tão submisso, tão cumpridor, a tratar das contabilidades dos vizinhos nas tardes livres, a fingir um interesse excessivo pela saúde dos clientes, e ela tão arranjadinha e tão poupadinha, tão própria com aqueles seus casaquinhos de malha que já ninguém usava, sempre tão preocupada com a opinião dos outros.” (p. 243)

Texto da autoria de Jorge Navarro
cara dos meus pais a cobardia e a mediocridade deles. Nessa altura, não gostava dos meus pais: ele tão submisso, tão cumpridor, a tratar das contabilidades dos vizinhos nas tardes livres, a fingir um interesse excessivo pela saúde dos clientes, e ela tão arranjadinha e tão poupadinha, tão própria com aqueles seus casaquinhos de malha que já ninguém usava, sempre tão preocupada com a opinião dos outros."



quinta-feira, 2 de agosto de 2018

"Um de Nós Mente" de Karen McManus

De leitura compulsiva, este thriller! E quando um livro faz-me sentir assim, a querer virar depressinha a página, merece as minhas cinco estrelas! A escrita é fluente, com diálogos que prendem devido à sua intensidade e o ritmo acelerado e constante. Tudo perfeito para uma leitura veloz.

A trama arrebata o leitor logo no início das primeiras páginas: cinco jovens são chamados ao gabinete de um professor (sala de castigo) porque não tinham deixado os telemóveis nos seus cacifos e truxeram-nos nas mochilas para as aulas. Mas, o que primeiro pensaram ser uma partida de mau gosto, já que os telemóveis confiscados não eram deles, transformou-se num pesadelo! Um deles morre ali mesmo com um choque anafilático, resultado de ter bebido um copo de água onde foi colocado óleo de amendoim, substância a que ele era alérgico. 

Os restantes quatro colegas são, lentamente, acusados de o terem matado. Motivos? Todos tinham. Mas daí a cometer um acto tão cruel contra aquele que, através de um jornal estudantil, lhes punha a descoberto segredos que não queriam revelar, vai um passo muito grande! Quem foi afinal o assassino? 

Os personagens são-nos apresentados através de capítulos alternados e onde eles se vão expondo, cada um deles na primeira pessoa. Desde logo se cria uma empatia com todos eles o que torna difícil para o leitor discernir se algum esconde mais do que parece...

Como referi, é um livro que se lê rapidamente porque a envolvência com a história e com os personagens faz-se logo nas primeiras páginas e a trama mantém-se activa no decorrer da história. Recomendo sem reservas para todos, mesmo tratando-se, segundo creio, de um YA (young adult).

Terminado em 31 de Julho de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Simon Kelleher é o criador do Má-Língua, uma nova aplicação que está a encurralar a elite de Bayview High, revelando pormenores da vida privada dos alunos da escola.
Mas o caso torna-se mais grave quando Simon e quatro colegas ficam fechados de castigo numa sala, e ele morre diante das suas vítimas.

Os quatro que se tornam suspeitos imediatos do homicídio, são:
A melhor aluna da escola, Bronwyn que nunca viola uma regra e quer entrar em Yale.
A estrela da equipa de basebol de Bayview, Cooper.
Nate, o criminoso, que está em liberdade condicional por vender droga.
A menina bonita, Addy, que parece ter a vida perfeita ao lado do namorado perfeito.

Que segredos queriam esconder para eliminar Simon?
Quem será o culpado?

Cris

terça-feira, 31 de julho de 2018

"Submersos" de J.M. Ledgard

Esta é a história de um cativeiro e como tal não pode ser uma leitura suave nem, tão pouco, agradável às sensações. É dura, agoniante em certas descrições e que impressiona em muito o leitor caso esteja bem atento a tudo o que é narrado. Os nossos sentidos ficam em estado de alerta e mantêm-se assim mesmo quando, num salto temporal, o autor descreve o início do romance entre os dois personagens principais: Danielle e James. Ela uma bióloga e matemática que aplica a matemática ao estudo da vida no oceano e ele, um suposto "consultor hidráulico", disfarce usado para encobrir a sua verdadeira actividade, a de espião.  

Disso vamo-nos apercebendo lentamente com o decorrer da história e também é lentamente que nos vão sendo descritos os relatos do seu cativeiro na Somália, junto com descrições do ambiente social e político dos seus captores, jihadistas. Paralelamente vamos acompanhamdo Danielle no seu trabalho de pesquisa do e no oceano.

Assim, a leitura é intercalada com cenas do mais puro horror, que se não verídicas, pelo menos verosímeis, e outras mais suaves e românticas, espelho de um passado feliz entre os dois personagens. 

Uma leitura dura que adorei mas que não recomendo aos estômagos mais frágeis! Sempre aprendendo com estes meus amigos, os livros!

Terminado em 21 de Julho de 2018

Estrelas: 5*

Sinopse
Confinado a um quarto sem janelas, algures na costa oriental africana, James More é mantido em cativeiro por guerrilheiros jihadistas. Capturado enquanto espiava as operações da al-Qaeda na região, enfrenta agora privações extremas, tortura e marchas forçadas pelas terras áridas da Somália.

A milhares de quilómetros de distância, no mar da Gronelândia, Danielle Flinders, biomatemática, prepara-se para mergulhar nas águas profundas do oceano a bordo de um submarino. Apesar da distância que separa James e Danielle, as memórias de ambos fazem-nos regressar ao Natal do ano anterior, passado num hotel na costa atlântica francesa, num encontro do qual resultou um intenso romance entre os dois. E é sempre de um para o outro e para o oceano que as suas mentes os conduzem num magnetismo poderoso, ao mesmo tempo ameaçador.

Para saber mais sobre este livro, aceda ao site da Editorial Presença aqui.

Cris

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A Escolha do Jorge: "A Noite do Professor Andersen"


“A Noite do Professor Andersen”
Dag Solstad 
(Cavalo de Ferro)
O que agita os corações das massas são as consequências da nossa própria inadaptabilidade.” (p. 80)
(…) Já não temos uma consciência histórica, porque isso significa que o nosso tempo desaparecerá connosco.” (p. 81)
Romancista, contista e dramaturgo, Dag Solstad (n. 1941) é um dos nomes mais importantes ligado às letras norueguesas na actualidade. Para quem leu “Pudor e Dignidade” (Ahab, 2009), rapidamente se recordará do estilo irónico, contido, reflexivo e também corrosivo na forma como expõe as suas ideias no que concerne aquilo que interpretamos por vida moderna e aquilo que nos move no sentido da felicidade.
Neste romance “A Noite do Professor Andersen” (1996) de Dag Solstad, publicado agora pela Cavalo de Ferro e com uma tradução elegantíssima tanto quanto soberba a cargo de João Reis, apresenta-nos uma obra que tem uma vez mais como figura central um professor, desta vez, um professor universitário de Literatura Norueguesa, um especialista das obras de Ibsen, o grande dramaturgo de todos os tempos da Noruega.

A narrativa parte de um episódio singular de o professor Andersen, na noite de Natal, estando sozinho em casa, assiste ao assassinato de uma mulher, a partir da janela da sua casa, no prédio em frente. Não sabendo como, nem porquê, o professor Andersen decide não comunicar o sucedido à polícia, optando por deixar o assassino em liberdade ainda que se questione sobre quem seria a mulher, entretanto assassinada, e o que acontecera com o corpo.
É este episódio de grande comoção e estremecimento que leva o professor Andersen a reflectir sobre a importância das obras de Ibsen e a sua relação com as tragédias gregas de há 2500 anos. Sob o mote de “Quando é que te comoveste pela última vez ao ver ou ler uma tragédia grega?” (p. 80), o professor Andersen reflecte sobre o estímulo que nos liga à vida e simultaneamente ao passado, não esquecendo a reflexão sobre a durabilidade de uma dada obra de arte, literatura, neste caso, por exemplo as obras de Ibsen, no contexto da cultura norueguesa, mas como participantes de todo um espírito herdado da cultura grega.
É esta ideia de emoção/comoção impulsionada pela literatura que constitui o estímulo que nos liga à vida, num ciclo que avança no tempo através das novas gerações face à inquietação que sentem ao compreenderem a obra de arte. Tal só é possível graças à consciência histórica que temos enquanto homens e mulheres, mas esta consciência é em si mesma limitada graças à batalha que travamos com o tempo, o tempo linear, onde vivemos e morremos.
O professor Andersen reflecte sobre esta temática na medida em que, de um modo geral, o ser humano apenas consegue ter recordação ou memória até duas gerações. A partir daí entramos na escuridão. Em função desta ideia, desenvolve-se precisamente a capacidade de as obras de arte sobreviverem ao tempo em que foram criadas. “A suspeita de que a consciência humana não era capaz de criar obras de arte que sobrevivessem à sua própria época. A batalha fútil da consciência contra o tempo.” (p. 84) “A corrosão do tempo destrói até os maiores feitos intelectuais, torna-os pálidos, esbatidos.” (p. 82)
Neste sentido, é, pois, necessário, ao apresentar as obras de Ibsen, proceder a uma articulação com as tragédias gregas, de forma a que se perpetue a ideia de cultura, num sentido mais abrangente. É esta percepção da humanidade no que concerne à consciência história que constitui o estímulo, a ligação passado-presente como que uma ideia ancestral que remonta aos primórdios da Civilização Ocidental, neste caso, a Grécia Antiga, o berço da Civilização Ocidental, que constitui a identidade cultural que nos permite saber quem somos e de onde viemos.
Neste sentido, a obra de arte, literária ou não, deverá resistir ao tempo em oposição à vida do Homem em geral, mas porque participa da História, porque conta, em certa medida, a História do Homem.
Assim, o estímulo constitui a força geradora que fomenta a criatividade para a “construção” de obras de arte; o estímulo é uma espécie de grito como resultado do choque em detrimento de ideias e paradigmas estabelecidos.
Sobre este ponto em particular, o professor Andersen reflecte sobre a sua atitude, enquanto jovem, no que respeita ao seu interesse pela arte, na medida em que “não procurava conforto, mas inquietação. Não procurava a ordem que fora programado para ver e compreender, mas a dissolução dessa ordem. Não se voltou para a arte para receber, mas para ver.” (p. 39)
Passados trinta anos, o professor Andersen é levado a concluir que estagnou no tempo. A sua vida, a boa vida que leva face ao estatuto social que a sua profissão lhe confere, à semelhança dos demais amigos da sua geração, igualmente bem-sucedidos, apesar do conforto e qualidade de vida adquiridos por via do dinheiro que coleccionam e esbanjam em luxos e caprichos, não é sinónimo, contudo, de continuarem a sentir a força, a energia que os move para a construção do futuro ainda que com ligação ao passado, numa perspectiva cultural.
O professor Andersen é cáustico no que respeita a esta ideia de comodismo dado que é este comodismo que é interpretado por inadaptabilidade pelas gerações mais jovens que permitem que a vida e o futuro avancem. “(…) Não somos intelectuais intemporais, somos intelectuais numa época comercial e profundamente influenciada pelo que agita os corações das massas. O que agita os corações das massas são as consequências da nossa própria inadaptabilidade.” (p. 80)
Regressando ao episódio do assassinato na noite de Natal a que o professor Andersen assistiu, talvez tenha sido a luta entre o dever moral, o de informar as autoridades face ao sucedido, e o ter o poder de decidir a liberdade ou a prisão do assassino que tenha gerado a ideia ou mesmo o sentimento de emoção/comoção que há décadas não o vivia e que, agora, com 55 anos, já um homem maduro, voltou novamente a sentir a ilusão conferida pelas tragédias gregas de há 2500 anos filtradas pela linha do tempo e assimiladas pela cultura que se construiu.
Ao mergulharmos neste romance-ensaio de Dag Solstad, somos levados a reflectir sobre nós e o mundo, assim como a arte em geral, como manifestação do espírito criativo, que tenta sobreviver ao seu tempo.
Mordaz e inteligente, “A Noite do Professor Andersen” é uma obra singular que apresenta a literatura como obra de arte nessa difícil tentativa de subsistir no tempo como as obras de Ibsen.
Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A Convidada Escolhe: "O Nervo Óptico"


O Nervo Óptico, María Gainza, 2014
Tive com este livro uma experiência que nunca tivera antes. Li-o e quando cheguei ao fim decidi voltar a lê-lo, desta vez com mais vagar, pesquisando os pintores e os quadros que são nomeados ao longo do livro, como se eu também acompanhasse a narradora/autora nas suas deambulações pelos museus, galerias e salas onde ela encontra os seus quadros favoritos ou aqueles que de alguma forma a levam “a sentir aquela agitação que alguns descrevem como borboletas no estômago…”
Também a capa me atraiu e me criou repulsa. A imagem é sugestiva e corresponde à imagem de uma mulher sozinha numa sala de um museu a observar aquele quadro especial e único. Mas o título tal como está grafado, numa subserviência ao novo acordo ortográfico é um disparate. “O Nervo Ótico” para traduzir “El Nervio Óptico”! O Dicionário da Língua Portuguesa distingue de forma clara: ótico= do ouvido; relativo ao ouvido e óptico= referente à óptica ou à vista; visual.
Costumo ignorar as sinopses na contracapa dos livros, mas esta é perfeita, sintética e muito completa, suficientemente sugestiva e não enganadora.
O livro é constituído por onze capítulos distintos em que a autora/narradora nos guia por momentos diversos da sua vida enquanto criança, jovem adolescente, adulta, desvendando-nos acontecimentos em que os pais, ou os irmãos, amigas/os, familiares, o marido ou ela própria são protagonistas. São quadros da sua vida que vai associando a quadros de pintores que ela visita em museus na Argentina ou noutras partes do mundo, alguns argentinos menos conhecidos, outros mais famosos. A sua formação em História da Arte permite-nos seguir pelo livro como se acompanhássemos uma guia em visita a um museu, enquanto nos convida a reflectir sobre temas tão diversos como os medos, a infância e a velhice, a fragilidade da vida, mas usando frequentemente um tom bem humorado.
Alguns breves traços desses capítulos:
Como para ela os museus são uma espécie de abrigo, pois “o meu instinto de sobrevivência leva-me sempre aos museus”, a recordação de um dia em que o ar da cidade de Buenos Aires ficou irrespirável devido à poluição e às cinzas de um fogo descontrolado, levou-a a tentar ver as telas de Candido López, um pintor argentino conhecido pelas cenas de guerra para quem o fogo e o fumo eram o mais difícil de pintar.
A partir da ideia presente em todo o livro de que “escrevemos uma coisa para contar outra”, a cena de caça pintada por Alfred de Dreux em que um cervo é encurralado por cães fá-la recordar a morte acidental de uma amiga apanhada por uma bala perdida.
Quando fala da amiga de infância - Alexia - a sua outra metade, uma espécie de “amiga genial”, cheia de contradições e de disfarces, associa-a à personalidade do japonês Fujita, o pintor de gatos, um verdadeiro camaleão ao longo da sua vida.
A atracção de Courbet pelo mar tempestuoso fá-la recordar uma prima invulgar também chamada María que um dia se afogou e que cobria as paredes do quarto com recortes azuis de revistas, numa colagem de mar revolto.
Os cavalos, um dos temas favoritos de Toulouse-Lautrec dão ensejo a que recorde um episódio vivido pela prima – Amalia – que conhecera duas japonesas a quem dera aulas de conversação em espanhol e que viviam numa casa encostada a um hipódromo. O traço comum entre a jovem japonesa e Toulouse-Lautrec foi o destino trágico de ambos cuja vida os marcou por uma deformidade física.
A referência a Rothko aparece em dois momentos: numa reprodução na sala de espera do consultório de um oftalmologista que a narradora consultou por causa do “olho louco” e numa imagem junto à cama do hospital onde o marido está internado. São apenas reproduções. Mas para ver Rothko, tem que se ver uma tela ao vivo, porque uma reprodução não consegue ter a força das cores vibrantes deste pintor. Artistas invulgares e que ganham notoriedade dificilmente conseguem deixar de ser alvo de críticas e de invejas, mas ao contrário de outros pintores que são engolidos pelo sistema, Rothko não se vendeu ao “dinheiro podre”.
A imagem do tio Marion fica associada à liberdade, ao desejo de romper com as prisões, com as convenções, mesmo quando nas visitas que faz aos sobrinhos lhes leva um colibri numa gaiola, sabendo que dificilmente ele irá sobreviver. Com efeito, “encerrarias num frasco os raios de sol?”
O medo de andar de avião, coisa que passou a ser persistente com a idade, leva a narradora a falar sobre a arte de Henri Rousseau e de como os balões de ar quente o fascinaram e em muitas das suas pinturas o céu é cortado por balões e outras máquinas de voar.
María Gainza fala da sensação que teve ao olhar “La Niña Sentada” uma pequena tela de Schiavoni e reconhecer-se nesse quadro quando era criança. Embora seja para ela um motivo de alegria rever-se naquele quadro, com a idade tem evitado visitar-se com frequência. O confronto com o que fomos e o que somos nem sempre é feliz!
O último capítulo, episódio, conto… é ensejo para falar da pintura de El Greco, pintor cuja obra ela viu numa visita que fez ao irmão mais velho que vive nos Estados Unidos. Um irmão com quem sempre teve uma relação difícil. Anos mais tarde, a família recebeu a notícia do seu falecimento repentino. Também um dia, a autora se vê confrontada com um tumor que a vai pôr em contacto com “um grupo de iluminados que vem diariamente fazer rádio” e parece que há em todos eles uma tranqulidade, uma capacidade de viver sem ansiedade. Cito as frases com que termina este livro diferente, especial: “Sinto uma suave felicidade no cair da neve, felicidade poética, acho que é assim que dizem. Daria um braço para me lembrar de quem lhe chamou assim.”
24 de Julho 2018
Almerinda Bento