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quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

"Esta é a minha Terra" de Frank McCourt

Saber que existia uma continuação de As Cinzas De Ângela foi, de facto, uma boa surpresa. Já tenho dito que há vidas que são histórias fabulosas e a de Frank McCourt é de prender a atenção de qualquer leitor!

O primeiro livro centrava-se na sua infância na Irlanda nos anos quarenta. A pobreza, a fome, o frio, as doenças mas também o carinho e o amor. Ficamos presos à sua narrativa tal é a intensidade com que ela nos é contada.

Nesta obra retomamos a vida de Frank, dos seus irmãos e pais. Agora em Nova Iorque, terra onde espera encontrar, finalmente, o seu lugar no mundo. A sua persistência e vontade de vencer estão lado a lado com a sua vontade de gozar os prazeres que a vida lhe pode dar (expondo-se perigosamente ao alcoolismo) o que lhe traz alguns dissabores e situações que para o leitor se tornam hilariantes. Sem grandes estudos mas gostando de devorar livros, mesmo não compreendendo muitas vezes a totalidade do seu conteúdo, Frank (depois de muitos empregos) decide continuar os seus estudos e tornar-se professor. Mas como concretizar isso com a insuficiente educação académica que possui, tendo de trabalhar para se sustentar?

Com uma escrita muito peculiar, quase oral, cheia de frases longas, o autor faz-nos sorrir narrando com mestria a ingenuidade própria de quem chega a uma enorme cidade vindo de outro país, do campo, sobretudo. As peripécias não acabam nunca e, infelizmente, das páginas não posso afirmar o mesmo... Mesmo com um tipo de letra muito pequeno, este livro chega rapidamente ao fim. Espero ler em breve o outro livro deste autor que tem como título O Professor.

Terminado em 24 de Agosto de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Depois de retratadas as gloriosas memórias que preencheram a sua infância na auto-biografia As Cinzas de Ângela, Frank McCourt apresenta-nos agora a história da sua vida por terras americanas desde a chegada como depauperado, mas sonhador, emigrante até à realização pessoal como brilhante professor e escritor. Frank chega a Nova Iorque com 19 anos, na companhia de um padre que conheceu a bordo do navio. Começa a trabalhar no Biltmore Hotel, e apercebe-se ironicamente da nítida hierarquização social que se vive num suposto país sem distinção de classes. Quase em seguida é mobilizado pelo exército americano e enviado para a Alemanha, com o íntuito de escrever relatórios militares e treinar cães. Quando Frank regressa aos Estados Unidos em 1953, emprega-se nas docas de Nova Iorque, embora sempre relutantemente contra os preconceitos que tentaram impor-lhe: a prerrogativa de que todos os emigrantes que chegam com sonhos e ambições devem manter-se junto dos seus e não se misturarem. Frank acaba tambem por descobrir que tem direito à escolaridade, e, apesar de ter abandonado a escola aos catorze anos, consegue ser admitido na Universidade de Nova Iorque. Durante a sua permanência na faculdade, apaixona-se e tenta viver o seu sonho. Mas Frank apenas encontra o seu lugar no mundo quando começa a escrever e a leccionar.

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

A Convidada Escolhe: O Lago Perdido

Sarah Addison Allen é uma contadora de histórias que tocam fortemente o irreal e quando leio os seus livros recuo no tempo e entro na magia das histórias infantis. Não que os seus livros sejam livros para serem lidos por crianças, mas por recriarem as atmosferas desses contos.
Em "Lago Perdido" vemos "renascer das cinzas" uma mulher que quase se perdeu no luto e quase perdeu a sua filha, Devin. Devin é a verdadeira personagem encantada deste livro. É a sua força que "acorda" a mãe da sua dormência e a autora cria-a quase como se se tratasse de uma pequena fada. As combinações surreais de roupas que chegam a incluir o uso de asas de anjo e o facto de ver e falar com amigos imaginários que nos são credíveis são o seu elemento mágico e encantatório.
E é encantados pelas personagens que Sarah Addison Allen nos faz flutuar entre magia e realidade, passado e presente, sentimentos de culpa e ganância, ambição política, cinismo e ingenuidade, num romance leve mas também algo lúgubre como as águas do lago perdido de Suley.
Uma escritora que acompanho desde o primeiro romance, o meu preferido até hoje, e que continuarei a acompanhar pelos momentos de magia e de evasão que consegue trazer colados às suas histórias.

Excertos
"(...) – Ensinei literatura durante quase quarenta anos. Os livros que li quando tinha vinte anos mudaram por completo quando os li aos sessenta. Sabem porquê? Porque os finais mudaram. Depois de acabarmos de ler um livro, a história ainda continua na nossa cabeça. Nunca se pode alterar o início. Mas pode sempre alterar-se o fim. É o que está aqui a acontecer." (p.145)
"(...) Eby sabia muito bem que existia uma linha ténue quando se tratava da dor. Se a ignoramos, ela vai-se embora, mas depois volta sempre quando menos se espera. Se a deixamos ficar, se lhe arranjamos um lugar na nossa vida, ela fica demasiado confortável e nunca mais se vai embora. Era melhor tratar a dor como se fosse um hóspede. Aceitamo-la, servimo-la e depois mandamo-la seguir o seu caminho. " (p.148)
Fernanda Palmeira

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

"A Vida Privada de Maxwell Sim" de Jonathan Coe

Deste autor jå tinha lido A Casa do Sono que achei espectacular. Depois de terminar esta obra fiquei muito curiosa e intrigada com "A Chuva Antes de Cair". A escrita de Coe é de tal forma cheia de imaginação que me perguntei como poderia uma outra leitura surpreender-me tanto quanto esta!

Maxwell, o peraonagem principal, é um ser depremido, carente, sozinho. Aos olhos dos outros, um falhado. Pior, ignorante. Assistimos com pesar aos seus conflitos interiores que se expressam exteriormente também. Um passado com pontas perdidas que interfere no seu presente: um quase nenhum relacionamento com a sua (ex)mulher, uma ligação cada vez mais diminuta com a sua filha adolescente, uma tensão permanente com seu pai, amigos inexistentes. Embarcamos na viagem que Maxwell enceta, tanto fisicamente como psicologicamente, e prevemos facilmente um fim desastroso. Nada na escrita de Coe nos prepara para o final!

Confesso que as obsessões de Maxwell, os seus desastrosos relacionamentos irritaram-me um pouco e apeteceu-me abaná-lo algumas vezes. Sobretudo quando começa a dialogar (monólogos deveras significativos do seu estado de quase demência) com Emma, o guia por voz do GPS. E eis que, quando ele próprio resolve abanar a sua vida e seguir com ela para a frente, prevendo-se um final feliz, Jonathan Coe faz a diferença. Afinal escrever (bem) é isso mesmo: surpreender o leitor nas últimas páginas. A reviravolta é surpreendente e não, não conseguimos adivinhar o final por mais que a nossa imaginação funcionasse de forma igual à do autor. Numa palavra: final irrepreensível e que nos deixa estupefactos!

Uma forte crítica implicita às redes sociais que nos mantêm em contacto com todos, sempre, mas sempre verdadeiramente sozinhos.

Recomendo!

Terminado em 20 de Agosto de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Maxwell Sim bateu no fundo. A sua vida pessoal é um vazio. Ele tem 70 amigos no Facebook mas ninguém com quem falar. Mas tudo muda graças a uma disparatada proposta de trabalho: conduzir um carro carregado de escovas de dentes de Londres até às remotas ilhas Shetland. Um percurso longo que Maxwell decide preencher com uma série de visitas surpreendentes a figuras do seu passado. Acompanhado por "Emma", a voz feminina do seu GPS, com quem estabelece uma peculiar relação, ele não imagina que está a iniciar uma viagem íntima que o mudará para sempre.

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

"Sou o Último Judeu" de Chil Rajchman

Treblinka 1942-1943

Por haver tanto para dizer sobre este livro, faltam-me as palavras. Aconselho vivamente a sua leitura mesmo para aqueles que não apreciam relatos verídicos sobre acontecimentos que ficaram conhecidos pela sua violência e pelo horror. Porque mesmo lendo se torna difícil imaginar, tão pouco vivenciar o que se passou nos campos de concentração, neste caso deTreblinka.

Chil, um jovem judeu, sobreviveu a 10 meses em Treblinka até conseguir fugir. Passou por vários trabalhos, desde cabeleireiro a dentista, sempre a toque de vergastadas e maustratos, sujeito a levar um tiro na cabeça a todo o momento. A diferença era que cortava os cabelos das mulheres que, nuas, iam para as câmaras de gás e tirava os dentes a quem já tinha por lá passado. Dentes de ouro.

As folhas onde relata o que viveu, escreveu-as depois da sua fuga. Para recordar e nunca esquecer os pormenores. Foram publicadas depois da sua morte para que outros não esquecessem. Durante muito tempo ficaram guardadas. Acabam quando queremos saber mais sobre ele. Como conseguiu viver depois? Gostava de ter sabido sobre como foi a sua vida depois do campo, talvez para ter a certeza que, mesmo depois de tantos horrores vividos, se pode esperar uma vida com paz.

Um livro inquietante. Cru. As palavras, as descrições, os sentimentos estão lá. A nossa mente visualiza o que é narrado. Difícil é fechar as páginas para tanto horror. Recomendo!

Terminado em 17 de Agosto de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Chil Rajchman tinha 28 anos quando foi deportado para Treblinka, em Outubro de 1942. Separado dos seus companheiros à saída do comboio, escapou às câmaras de gás tornando-se sucessivamente funcionário na triagem de vestuário, cabeleireiro, transportador de cadáveres ou «dentista». Em 2 de Agosto de 1943, participou no levantamento do campo e evadiu-se.
Após várias semanas de errância, Chil Rajchman escondeu-se em casa de um amigo perto de Varsóvia. A guerra ainda não acabou. Num caderno, contou os seus dez meses no inferno.
Na Libertação, ele foi um dos 57 sobreviventes entre os 750.000 judeus enviados para Treblinka para aí serem gaseados. Nenhum outro campo foi tão longe na racionalização do extermínio em massa.
Este texto, publicado pela primeira vez, é único. Escrito sob o signo da urgência, ainda antes da vitória sobre os nazis, inscreve-se entre os maiores dedicados ao holocausto.

quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

A convidada Escolhe: A Tia Júlia e o Escrevedor

É um dos livros mais bem dispostos que li nos últimos tempos e mais um a acrescentar aos diversos que li deste extraordinário escritor peruano que foi Nobel da Literatura em 2010.
A Tia Julia é uma jovem boliviana na casa dos trinta, acabada de se divorciar, que vem viver para Lima para casa de uma irmã e do cunhado. Mario, o jovem estudante de direito a viver em casa dos avós, responsável pelos noticiários da Rádio Pan-Americana e com sonhos de vir um dia a ser escritor a viver numa mansarda em Paris, é ainda tratado por Marito pela numerosa família de tios e tias, dada a sua tenra idade.
Imaginem-se pois as peripécias de uma relação que se vai desenvolvendo entre uma mulher recém-divorciada e um jovem com quase metade da sua idade e com quem ainda por cima tem relações de parentesco! Só o amigo Javier, a prima Nancy e dois colegas da redacção da Pan-Americana estão a par do romance que, a certa altura, se descobre que afinal é já motivo de falatório entre os familiares de Marito.
Escrito quando Mario Vargas Llosa tinha quarenta anos, com o filtro que os anos passados sobre esse acontecimento da sua vida desdramatizam e até desvalorizam situações menos comuns e socialmente mais difíceis de gerir, este romance roda também em torno de um outro personagem invulgar: Pedro Camacho. Contratado para produzir guiões para rádio novelas, muito populares nos anos 50 numa altura em qua a televisão ainda não tinha chegado ao Peru, este boliviano profissional da escrita e da locução de novelas, rapidamente conseguiu que a Rádio Central de Lima subisse espectacularmente nas audiências, através da produção de dez diferentes novelas ouvidas religiosamente pelos rádio ouvintes limenhos ao longo do dia. Totalmente absorvido no seu trabalho, obsessivo, impermeável a quaisquer críticas ou sugestões, construía diferentes contextos, personagens, tramas mais ou menos rebuscadas e escabrosas, embrulhadas num vocabulário adjectivado até ao limite, onde nunca deixava de encontrar ocasião para mostrar a sua antipatia visceral em relação aos argentinos. Médicos ginecologistas, sargentos, Testemunhas de Jeová, exterminadores de roedores, delegados de propaganda médica, juízes, árbitros, bardos, reverendos eram alguns dos personagens principais das suas diferentes novelas, todos invariavelmente caracterizados da mesma forma: "Estava na flor da idade, nos cinquenta e os seus sinais particulares – fronte larga, nariz aquilino, olhar penetrante, rectidão e bondade de espírito". São hilariantes e rocambolescas as histórias que aquele homem arquitectava ao longo do dia, sentado em frente à Remington, mas com o passar do tempo, a exaustão, o pouco tempo para dormir e até para comer e o alheamento do mundo exterior começaram a fazer efeito e os argumentos começaram a embrulhar-se, as personagens a migrar entre novelas e aquilo que, a princípio, para alguns mais devotos ouvintes, em vez de incoerência foi considerado um artifício de estilo ou mesmo um truque usado pelo escrevedor Camacho para verificar se a audiência estava atenta, foi o princípio do fim do artista. O próprio Camacho se apercebeu que não estava a ser capaz de controlar as diferentes personagens que tinha criado e como quis tentar corrigir a tragédia em que tinha envolvido as suas novelas e a Rádio Central de Lima, ao seu estilo muito próprio, acabou com as novelas e com as suas personagens, criando todo o tipo de desastres: terramotos, incêndios, naufrágios, invasões de campos de futebol que a certa altura se transformam em praça de touros! Escusado será dizer que foi o fim da carreira do escrevedor Camacho que acabou no manicómio!
O romance estrutura-se em capítulos que alternam a saga de Varguitas e da Tia Julia com os episódios e as personagens rocambolescas criados por Pedro Camacho. No final, surge-nos o narrador/autor já com um percurso de escritor (o sonho tinha-se cumprido) por várias capitais europeias e o regresso todos os anos para um mês de férias ao Peru natal que não era senão ocasião e motivo para absorver o ambiente, as características e a alma do seu povo, alimento vital para os romances do grande escritor Mario Vargas Llosa.
Almerinda Bento

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

"As Estrelas Brilham na Cidade" de Laura Moriarty

Quando não possuimos quaisquer expectativas sobre um livro e a sua leitura excede tudo o que esperávamos, isso revela-se-nos uma dádiva, tornando-se algo difícil de explicar. A sinopse de  As Estrelas Brilham na Cidade  é parca em pormenores e, por essa razão, nada nos faz prever o real conteúdo desta obra nem a forma como a trama descrita nos enrreda nas suas malhas.

Trata-se de um romance que através da descricão da vida Cora X nos relata muitos acontecimentos que marcaram a História. Fala-nos da mudança de mentalidades que foi acontecendo durante o sec XX, do papel da mulher e da sua intervenção crecente na sociedade. 

A acção decorre entre Wichita, uma localidade no Kansas, e Nova Iorque num espaço temporal que começa por volta de 1920 e se prolonga até depois de 1965. Gira em torno da vida de Cora X, da sua busca do passado que desconhece por completo visto ter sido criada num orfanato, da sua descoberta do segredo mantido pelo seu marido que vai alterar por completo a sua realidade e da sua ida a Nova Iorque como "chaperon" de uma filha de uma conhecida que vai para uma escola de dança.

Essa desconhecida não é mais que Louise Brooks, uma actriz do cinema mudo, bailarina e modelo que através da sua conduta, personalidade e beleza ficou conhecida nos anais do cinema (espreitem naWikipédia, colocando no motor de busca o nome dela).

O facto deste livro misturar ficção e realidade com uma mestria muito própria tornou esta leitura um prazer muito grande. Temas relacionados com a emancipação da Mulher, a luta pelo planeamento familiar, a Segunda Guerra e as suas consequências, o ku klux klan, Lei Seca, a homoxesualidade tida como um desvio e outras condutas tidas como imorais, que levariam inclusive à prisão, tornam esta obra um relado muito autêntico de uma época e faz deste livro um dos melhores que li este ano!

Para mais informações sobre este livro da Editorial Presença, clique aqui.

Terminado em 15 de Agosto de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Em 1922, Louise Brooks tem apenas 15 anos e vive em Wichita, no Kansas, quando parte para Nova Iorque a fim de frequentar um curso de dança. Com ela vai também Cora, uma mulher mais velha e já casada, para lhe servir de acompanhante. Contudo, apesar de Louise Brooks se ter tornado mais tarde um dos grandes ícones do cinema mudo, é a vida de Cora que Laura Moriarty recria neste romance. Cora Carlisle é uma sufragista bastante convencional, que oculta os seus segredos e tem motivos próprios relacionados com as suas origens para aceitar fazer aquela viagem. Por outro lado, a diferença de idades e de atitudes entre as duas mulheres permite à autora tirar partido do que distingue as duas gerações explorando engenhosamente as múltiplas facetas das mudanças que vão ocorrendo na sociedade.

terça-feira, 19 de Agosto de 2014

A Convidada Escolhe: Ínclita Geração

Romance histórico que empolga o leitor do princípio ao fim, numa escrita fluida e agradável, tem como figura principal Isabel de Avis única filha de D. João I e de D. Filipa de Lencastre. Após a morte de sua mãe acompanhou seu pai no governo da nação ocupando durante anos o lugar de rainha de Portugal. Ao casar com o poderoso Duque de Borgonha, uma importante aliança para Portugal, levou para a corte de Filipe III, "O Bom", todo o saber adquirido como governante o que representou uma mais valia que o duque sempre soube utilizar a favor do ducado.
Isabel de Avis levou o mundo a conhecer Portugal e, embora longe, sempre acompanhou os acontecimentos do seu país, intercedendo junto do duque seu marido, para que apoiasse os projetos da expansão que então dava os seus primeiros passos. Os financiamentos a Portugal e as rotas de comércio foram implementados consideravelmente. Seus irmãos, figuras marcantes da história de Portugal, nem sempre se entendiam e a duquesa que mantinha grande influência junto deles apressava-se a interceder. Recebeu sempre com determinação todos os seus sobrinhos quando perseguidos em Portugal em época de tumultos e divisões. Isabel de Borgonha mulher forte e muito inteligente, que se destacou na Europa do século XV, que vivenciou tempos de guerra e grandes conflitos, que teve papel preponderante em alianças quer com a França quer com a Inglaterra, que intercedeu junto do Papa a favor de Joana D’Arc, não foi completamente feliz no casamento já que o duque lhe era constantemente infiel e tinha um número elevado de filhos naturais. Das três crianças que teve só uma sobreviveu tendo sucedido a seu pai como duque da Borgonha. Não tendo sido amada como durante muito tempo esperou, foi admirada e soube tornar-se indispensável junto do duque e sobretudo nunca esqueceu sua família nem que era uma princesa de Avis. Sofreu imenso com o cativeiro de seu irmão D. Fernando e todas as diligências que providenciou para o salvar não obtiveram êxito.
Esta obra que apreciei bastante dado o seu grande equilíbrio entre o histórico e a face humana das personagens, acompanha a história de Portugal e da Europa durante o século XV, está baseada numa riquíssima bibliografia e inclui 12 extratextos muito interessantes e sobretudo debruça-se sobre uma mulher muito interessante tanto do ponto de vista pessoal como político.
Maria Fernanda Pinto

domingo, 17 de Agosto de 2014

Ao Domingo Com: Miguel Castro

O meu nome é Miguel Lino de Castro e tenho 55 anos. Nasci na cidade da Beira, em Moçambique e vim para Portugal Continental com dois anos e meio. Frequentei o Liceu Pedro Nunes. Fiz o Curso de Turismo do ISLA para técnico de agências de viagens e a meio do curso entrei para a TAP AIR PORTUGAL, em 1983 onde fiquei 25 anos, até à altura em que tive que me reformar por incapacidade física. Desde a Reforma em 2007 para me sentir útil e vivo, tenho feito Voluntariado, facto que me preenche a Vida em todos os sentidos. Nunca publiquei nenhum Texto a não ser documentos profissionais Internos, para os Cursos de Formação e de Refrescamento do Pessoal de Cabine da TAP. Há coisas que acontecem na Vida, que nos fazem sair de nós próprios e, por causa disso, conhecemos um outro lado de nós que desconhecíamos completamente existir e começamos a fazer coisas que nunca na vida pensaríamos fazer. No meu caso, foi escrever este Texto, por achar importante falar de um assunto TABU, o Erro Médico, com a naturalidade que ele merece, uma vez que o Erro Médico, mata mais pessoas do que o Cancro e muitas pessoas desconhecem este facto.

Sinopse

Roleta Russa é a obra que retrata vários assuntos que dizem respeito à vida de todos os Portugueses.
Fala do caso do Erro de Diagnóstico que aconteceu ao autor, da Ordem dos Médicos e do seu Regulamento Disciplinar Perigoso que pode pôr em risco a população Portuguesa.
Fala de toda uma luta travada contra o Médico e o Hospital para repor várias situações para restabelecer a Segurança no "Falso Serviço de Urgências Anunciado", uma luta muito pouco ética por parte do Médico e do Hospital, onde as Decisões dos Tribunais não foram Justas e Conscienciosas, como poderão ler neste livro.
Miguel Castro o autor, fala do lhe aconteceu quando se dirigiu ao Hospital Cuf-Infante Santo com todos os sintomas de um enfarte. Fala das 7 horas e 10 minutos que esteve no HCIS debaixo da alçada de um médico que não lhe fez os exames correctos e mandou-o para casa com um diagnóstico de "Pedras nos Rins, Pré-Diabético e uma Virose no Coração. Depois de 8 dias em casa a tomar um Antibiótico para uma Virose no Coração, os sintomas de enfarte voltaram e, de facto, foi confirmado que estava a ter outro enfarte, assim como ficou aprovado que as dores e os sintomas que sentiu quando foi a 8 dias atrás também tinha sido de um enfarte.



sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

A Convidada Escolhe: Comédias para se Ler na Escola


Não conheço leitor que não tenha os seus pequenos "ódios de estimação" e os seus "amores de perdição" reflectidos em pelo menos um, ou vários autores. Luís Fernando Veríssimo está, sem sombra de dúvida, entre os meus amores de perdição.
Desde que li um primeiro livro de Luís Fernando Veríssimo que mantenho sob radar as suas obras em cada livraria em que entro. Autor brasileiro não muito divulgado, diria até, algo proscrito, é difícil encontar os seus livros, embora mantenha ou tenha mantido colaborações com jornais portugueses como o Expresso e o Público.
"Comédias para se Ler na Escola", a minha mais recente aquisição, corresponde ao género literário mais utilizado pelo autor, um livro de crónicas gostosas.
Centrado em questões de linguagem e de crescimento, este livro, traz-nos verdadeiras micro delícias que, não raras vezes, é uma pena que sejam apenas crónicas pois mereceriam desenvolvimento e ficamos com pena que tenham terminado.
Com Luís Fernando Veríssmo temos que estar prontos para uma boa gargalhada, um sorriso rasgado perante a ironia e a crítica constante de que são alvo os mais diversos visados, incluindo ele próprio, verdadeiro sinal de inteligência. E pensar... pois é isso que o autor nos desafia a fazer sob a capa da ligeireza e sempre, mas sempre, com uma riqueza gramatical e de vocabulário que o eleva e distingue. Não há lugar a comparações com o pai, e isso é algo que Luís Fernando gere de forma excepcional.
Um livro que se lê de um fôlego e que nos deixa bem disposto. Mais do que um livro, um autor que recomendo e que nos traz assuntos sérios de uma forma bem disposta.

Excertos
"Sexa
- Pai...
- Humm?
- Como é o feminino de sexo?
- O quê
- O feminino de sexo.
- Não tem.
- Sexo não tem feminino
- Não.
- Só tem sexo masculino?
- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.
- E como é o feminino de sexo?
- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.
- Mas tu mesmo me disse que tem sexo masculino e femino.
- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra «sexo» é masculina. O sexo masculino, o sexo feminino
- Não devia ser «a sexa»?
(...)
- A palavra é masculina.
- Não. «A palavra» é feminino. Se fosse masculina seria «o pal...»
- Chega! Vai brincar, vai.
O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:
- Temos que ficar de olho nesse guri...
- Por quê?
- Ele só pensa em gramática." (p. 41)
"O Jargão
Sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos, onde a única linguagem técnica que você precisa saber é «a que horas servem o bufê?». Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjôo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes da equipagem.
Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:
- Recolher a traquineta!
- Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.
(...)
- Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua.
- Cuidado com a sanfona de Abelardo!
(...)
Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando um jargão falso assim, com pseudônimo. Não sei quanto tempo duraria até au ser descoberto e desmascarado, mas acho que não seria pouco. Não estou dizendo que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se aproveita da ignorância generalizada oara enganar. Estou dizendo que a análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo. (...)" (p.55)
"Fobias
(...)
Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (...), agorafobia (...), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) (...), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas maiores neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham «Frio» e «Quente» escritos por extenso, para saciar a minha sede de letras (...)" (p.88)

Fernanda Palmeira

quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

A escolha do Jorge:"Teoria dos Limites"

"Teoria dos Limites" é o mais recente romance de Maria Manuel Viana (n. 1955) publicado em março último pela Teodolito.
A obra original desenvolve-se em dois planos como se tratassem de duas faces da mesma moeda, de um lado a narrativa e do outro a estrutura em que se desenrola articulando de modo primoroso a doutrina de Leibniz (1846-1716), filósofo alemão, assente na monadologia com a ideia que a literatura se rege pela demanda da obra "luminosa" que qualquer escritor, grande escritor, deseja escrever como se tratasse da demanda do Santo Graal.
Assim, o início da obra é marcado pelo funeral daquele que é reconhecido como o grande escritor nacional tantas vezes indicado para Nobel da Literatura, juntando-se milhares de anónimos em jeito de homenagem em dia de luto nacional.
É no cemitério que ficamos a conhecer as várias perspetivas da história, do escritor e da relação que se mantém com ele sempre que na mudança de capítulo a narrativa é contada por um personagem diferente, um narrador diferente. É ao longo da apresentação das várias perspetivas que o leitor vai visualizando lentamente cada passo dado no cemitério, cada momento importante do ritual até ao derradeiro momento em que o grande escritor é sepultado.
Mas terá o grande escritor concluído o projeto sobre o seu romance "Teoria dos Limites" ainda antes de falecer? E qual era a temática central da obra? É precisamente aqui que o grande escritor tendo partido da monadologia de Leibniz em que "a mónada era uma substância que unia o corpo e a alma, apresentando uma perspetiva, um ponto de vista próprios sobre o mundo, coexistindo todas numa harmonia perfeita" (p. 41) que percebemos gradualmente ao longo da narrativa as implicações que esta teoria tem na literatura na medida em que "abre-se uma infinidade de possibilidades literárias de que ainda só tenho a ideia geral, a de um grupo de pessoas, com alguma ligação, ainda que superficial, entre si, num espaço concreto, a viver um mesmo acontecimento mas a percebê-lo sob uma perspetiva individual, por vezes contraditória ou até duplicando-o entre o que aconteceu e o que poderia ter acontecido." (p. 41)
Assim, o projeto "Teoria dos Limites" joga com a delimitação do campo da literatura na medida em que a mesma ganha quantas mais forem as perspetivas e narradores ao longo da obra testando assim os limites da própria literatura.
À medida que a narrativa se vai estruturando, o leitor vai compreendendo os vários pontos de vista, situando-se ele próprio também dentro desta estrutura literária que lhe permite olhar para a obra como um todo alcançando o sentido e a importância de cada uma das partes envolvidas sem que para isso se perca ou distraia da história propriamente dita.
Mas não pense o leitor que "Teoria dos Limites" é uma obra que contempla essencialmente questões técnicas na medida em que a história em si mesma tem espaço e tempo para se desenrolar indo de encontro aos grandes temas trazidos pela literatura desde que há registo, a saber, o amor, a morte, a traição, no fundo os vários dilemas e preocupações dos homens e mulheres que tanto no passado como nos dias de hoje interessam à humanidade.
Não sendo propriamente um livro de difícil compreensão, "Teoria dos Limites" exige do leitor muita atenção e reflexão obrigando diversas vezes a reler certas passagens ou incitando o leitor à pesquisa deste ou daquele assunto no intuito de obter mais informação. "Teoria dos Limites" é um livro que testa em si mesmo o leitor face ao domínio e limites da literatura promovendo em certa medida um novo espaço de reflexão face aos vários assuntos levantados.
Outro dos aspetos a tomar em consideração é não só a linguagem utilizada, mas o tempo, a cadência dos acontecimentos num dado espaço que enriquecem a narrativa. O sentido de humor levado muitas vezes pelo sabor da ironia, umas vezes mais velada, outras de modo tão caricato conduz, em situações pontuais, à gargalhada como se tratasse de uma anedota.
Mais outro ponto a considerar em "Teoria dos Limites" é a crítica à sociedade em geral, tanto nos estratos sociais mais elevados (maioritariamente onde a narrativa se desenrola) sendo dada clara importância aos nomes das famílias com estatuto e relevância, não ficando de fora os costumes, e também o contraste/choque que nos dias que correm é cada vez mais notório em profissões que se parte do princípio que deveriam ter mais conhecimentos face aos estudos que detêm e que afinal são tantas vezes esmagados pela ignorância e mediocridade que tanto assolam a sociedade em geral.
"Teoria dos Limites" é um daqueles livros que nos marca de um modo diferente quando o comparamos aos grandes romances literários. Marca-nos não só por se tratar de um livro completamente diferente daquilo que estamos habituados e que nos ajuda a olhar para a literatura (que aqui é enriquecida pela via da filosofia) procurando novos sentidos e limites da nossa relação com os livros em geral.
"Teoria dos Limites" é um livro que oferece milhares de leituras diferentes nunca se esgotando em si mesmo sendo, pois, um livro que subsistirá ao tempo e a quaisquer tendências literárias de uma dada época, tornando-se assim numa obra intemporal.

Excerto:
"O que eu gostava, o que todo o escritor gostava, é de escrever o livro final, definitivo. Por isso digo: estou a pensar um livro e não a escrever um livro. Um livro que seja a possibilidade da sua própria possibilidade. Uma espécie de antologia em que reuniria textos, poemas, ensaios, versos, frases, palavras, sons, notas musicais, cores, sinais gráficos que um dia me tocaram. Um livro em que a última palavra, luminosa, seria sempre a palavra em falta." (p. 87)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

A Convidada Escolhe: O Intrínseco Manolo

Cada um de nós chama à leitura o seu proprio intrínseco. A sua vivência, as suas memórias e a sua forma de olhar o mundo. Todos o sabemos.
Várias foram as opiniões que escutei e li sobre este livro, diferentes visões sobre o mesmo. E, pese embora me reveja em alguns dos aspectos nelas referidos, também a minha leitura é diferente.
O intrínseco de manolo é, para mim, um livro sobre a perda e a vida, a força que Manolo encontra dentro de si para sobreviver ao mundo de aparências que o rodeia, à dureza da morte, tornando-se num hino à vida. Vida feita de passado e memórias que sustêm o presente, sem as quais o hoje e o amanhã não fazem sentido.
Uma história sobre a resposta à mesquinhez alheia, ao lodo onde outros se afundam, sobre nobreza de carácter e a estranheza que causa. Uma lição sobre a relativização da opinião dos outros e a sua real importância, à qual poderia aplicar uma das minhas frases preferidas – a ignorância é a mãe de todos os males.
Mas também, uma história que, centrando-se na raia alentejana, inesperadamente, nos faz olhar Lisboa, a sua beleza, a sua história e as suas gentes, como olhos novos, sacudindo-nos e despertando o nosso olhar e atenção para a cidade que nos envolve e que já não vemos.
E, ainda, uma história sobre os livros e o seu encantamento e a forma como vivemos através deles e como eles nos ensinam a viver.
Gostei deste livro onde a beleza e sonoridade das palavras consegue suplantar a forma desabrida com que algumas descrições e situações são narradas. Não totalmente do meu agrado, porém, é o papel interventivo, activo, do narrador e a forma como se imiscui na história. Um narrador que nos interrompe e interpela, chamando-nos, até, enquanto leitores, guiando a nossa leitura.
Um livro de um autor a acompanhar, cujo Sebastião lerei em breve, inserido numa nova corrente de escrita portuguesa que tem sido muito bom descobrir. Escrita lusa com futuro!

Excertos
"Ali sentada, ao cimo da Avenida da Liberdade, entregue à brisa que atenuava o cair da noite, Maria percorria sem descanso as almas e vidas que adivinhava no rosto de todos os que subiam e desciam a avenida. Sempre tivera qualquer coisa que a ajudara a entender o intrínseco do mundo das coisas e das coisas do mundo, fossem gente ou animais, fossem do género terreno ou divino. (...)" (p.54)
"(...) Do pouco ou nada que se conversava por ali, a coisa funcionava mais em monólogos trocados sem lógica ou razão, o mistério sobre a viagem de Manolo trazia preocupada aquela gente, agastava-se em dobro, tão pouco tempo era decorrido desde a partida da sua mulher. Não que alguma vez lhe tivessem tribuído particular importância, não que se esquecessem de o brindar com eternas certezas e teorias acerca da sua honra, e no entanto a verdade era que as suas ausências recentes começavam a ganhar contornos de assunto da terra, pois não se lhe punha a vista em cima, e coisa assim tinha de ser sabida e falada. Além de que, por muito que escondessem, todos a ele sabiam recorrer em momentos de maiores complicações. (...)
Isto para falar dos mais chegados, dos mais fingidos, que não deixavam passar dia na tasca ou na rua, em casa ou no jardim, sem comentar o destino de Manolo, traçando-lhe invariavelmente um triste fim." (p.155/156)
"E compreendeu Manolo de vez as histórias mágicas e de fantasia que aprendera nos livros de crianças, onde as cercas eram puladas e as corridas não tinham fim, entendeu porque aprendera a nadar, porque para sempre se lembraria das mãos do avô, decifrou os sermões do seu pai que o puxavam para dentro da estrada da vida. Lembrou todas as mulheres que eram suas e que não deixara no passado, que dormiam dentro de si. Lhe ajeitavam o sorriso e aparavam as lágrimas.
E sorriu com vontade pela primeira vez em tanto tempo, deixou entrar o ar por todas as portas, gritou de alívio e felicidade." (p.163)

Fernanda Palmeira

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

A convidada Escolhe: O Jardim Sem Limites


Desde “Contrato Sentimental” (2009) que não lia nada de Lídia Jorge e decidi-me por “O Jardim sem Limites”, um livro herdado da minha irmã Isabel.
Trata-se de uma 1ª edição que tem a vantagem de ter uma capa desenhada por Gracinda Candeias que se percebe perfeita à medida que se vai entrando na narrativa. A cidade de Lisboa, num quente verão de 1988 e a Casa da Arara, casa de hóspedes de Julieta Lanuit são os cenários em que se mexem as personagens. Todas se mexem, excepto Leonardo – o Static Man – em processo de autosuperação, de modo a conseguir atingir o máximo de imobilidade voluntária.
A Remington no quarto da cama gigante é a observadora privilegiada, a ouvinte e aquela que transporta para o papel os factos e as interacções que se desenrolam de forma ruidosa entre os transumantes que se hospedam naquela casa inundada por uma enxurrada. Ouve, observa, capta, mas não intervem. Limita-se a estar. Há um esquema, como se fosse uma árvore que se espraia pela parede com datas, personagens, siglas, factos que se vão desenrolando ou que param de forma abrupta. Tal como o reporter Falcão, Gamito ou Paulina vão criando um enredo – um story board – imaginário a partir de imagens reais que montam, cortam e colam de acordo com um esquema que vão construindo, também aqui eles são muitas vezes surpreendidos por uma realidade que é bem mais forte e decisiva do que todos os esquemas que tinham anteriormente arquitectado.
A Remington capta os quotidianos de diversos jovens que decidiram em determinado período das suas vidas abandonar o percurso que a sociedade e os familiares tinham pensado para eles/as e que acabam por se encontrar naquele primeiro piso da Casa da Arara. O que os liga é esse desapego à vida que corre lá fora, na corrida diária para os empregos ou na rotina dos dias da grande cidade. Percebe-se que o “normal” daqueles/as filhos de família teria sido não aquela marginalidade voluntária mas sim seguirem um caminho dito sem problemas nem dificuldades. Mas eles/as quiseram ser diferentes, únicos, independentes, fizeram escolhas e assumiram o risco de ultrapassar os limites. Mesmo quando tanto aspiram a ser únicos e diferentes, os ícones e artistas consagrados da música e do cinema moldam-nos/as e “colam-se” a estes/as jovens.
Este é também um livro sobre a solidão das pessoas, a luta pela sobrevivência, as marcas para a vida deixadas pela luta de resistência ao salazarismo, o mundo subterrâneo do crime e da charlatanice. Lídia Jorge leva-nos com este livro a recordar o grande incêndio do Chiado, a lembrar os artistas que encontramos nas ruas da Baixa, os turistas que enxameiam a cidade e os homens da esquadra americana que aportam a Lisboa em exercícios militares junto à costa.
Um livro muito interessante, em que frequentemente nos pomos a imaginar e a construir mentalmente a sequência daquelas vidas, como se também nós fôssemos a Remington; nos emocionamos com os seus fracassos e tragédias, nos rimos com algumas cenas caricatas e bem humoradas ou ficamos perplexos com desenvolvimentos inesperados . Um livro que sendo datado é intemporal e retrata a condição humana naquilo que ela é de tão diversa, insatisfeita, contraditória e surpreendente.
Almerinda Bento

segunda-feira, 11 de Agosto de 2014

"Morte Numa Noite de Verão" de K. O. Dahl

A leitura é algo que fazemos com prazer! Mesmo quando o tema é assustador e macabro, mesmo quando nas primeiras páginas somos levados a acreditar que a personagem principal vai ter um percurso positivo e somos confrontados com a sua morte súbita... Mesmo assim, se a escrita do autor é apaixonante, a leitura é algo que fazemos com um cada vez maior prazer!

Foi o que me aconteceu com este livro. Policial "à maneira" com um intrincado leque de personagens suspeitas de um assassinato horrível de uma jovem com um pesado passado de prostituição e de drogas, mas de uma inteligência impar. Pese embora os nomes das personagens tivessem sido muito difíceis de assimilar e por isso mesmo tivesse de anotar "quem era quem" num papel à parte, o que é certo é que me apaixonei pelos argumentos e deduções dos investigadores.

Avançando devagar no que concerne à revelação dos indícios do crime, somos levados, aos poucos, a penetrar nas possíveis motivações de cada um dos suspeitos o que nos baralha e confunde a ponto de não suspeitarmos do verdadeiro criminoso. Um aspecto que me agradou deveras!

Terminado em 6 de Agosto de 2014

Estrelas: 4*+

Sinopse

De tronco nu e cabelo ao vento, Katrine Bratterud está eufórica: celebra a conquista de uma nova liberdade, agora que está prestes a terminar com sucesso um programa de reabilitação para toxicodependentes. Mas é no culminar dessa noite de furor e romance que Katrine se afasta para se refrescar num lago e morre brutalmente às mãos de um estranho, desaparecendo com ela os segredos que lhe trouxeram aquela felicidade recente.
Os inspetores Frølich e Gunnarstranda não acreditam em coincidências e, por isso, também não veem a morte de Katrine como uma mera questão de azar. Rapidamente mergulham numa série de investigações, cada vez mais profundas, que não descuram nem a vida de drogas e de prostituição de Katrine, nem tão-pouco as intervenções de médicos e funcionários na sua reabilitação.
A fúria do assassino oculto é desmedida e parece preparar-se para consumar novas mortes, num caso onde Katrine é a peça principal de um puzzle mais vasto e que remonta às suas origens.
Todos os homens que conheceu e amou são imediatamente suspeitos e só de uma certeza os inspetores podem estar seguros: uma mulher cativante e vulnerável como Katrine transforma até o mais reto dos seres em pecador.

sábado, 9 de Agosto de 2014

Na minha caixa de correio

  
  
  

  

  



Comprado na Feira da Ladra, O Comboio dos Órfãos, A Cortesã, O Sonho de Uma Outra Vida.
O Estilete Assassino e o Bairro comprados no Continente com 50% de desconto.
Também me salvaste foi uma cortesia da Editora Sinais de Fogo.
O Nadador foi oferta da Suma de Letras.
O Projecto Rosie veio emprestado de um amigo, o Jorge Navarro (A Escolha do Jorge).
Da Marcador vieram Detox e Delicioso Piquenique.
Do JN (Liga e Ganha) ganhei A Marca de todas as Coisas e A Rapariga Inglesa
Comprei também os dois livros que jå saíram com a Revista Sábado.
Dos saldos da Presença chegaram O Beijo do Ladrão e Antes de Vos Deixar

quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

A Escolha do Jorge: "O Sino da Islândia"

Ler Halldór Laxness (Nobel de Literatura em 1955) é entrar no mundo das palavras mágicas capazes de nos enfeitiçar com trolls e elfos que nos remetem para histórias que remontam ao início da colonização da Islândia há mais de mil anos.
"O Sino da Islândia" elenca o conjunto de obras magistrais de Halldór Laxness das quais podemos referir "Gente Independente" e "Os Peixes Também Sabem Cantar". "O Sino da Islândia" começa com o desmantelamento do sino daquela ilha por ordem do rei dinamarquês servindo de pretexto para desfiar um rol infindável de histórias que se articulam com as antigas sagas daquela ilha.
A história vai-se desmontando em dois temas fulcrais: a necessidade de alterar a situação de miséria profunda em que a ilha vivia estando sob o domínio da Dinamarca e a busca do sentido de justiça que era aplicada na Islândia. Estes dois temas fundem-se ainda num outro tema ainda mais abrangente que é a busca da identidade da Islândia que remonta a um período anterior ao século X da era cristã sendo essa identidade a única que conduzirá à libertação da ilha face ao jugo dinamarquês e a sua consequente afirmação e projeção perante a Europa e o Mundo.
Em "O Sino da Islândia" está presente de uma forma indelével a necessidade do conhecimento assim como o respeito pela História, motores fulcrais para o desenvolvimento de um país capaz de se afirmar perante os outros. Neste sentido, a presente obra ajuda-nos a compreender como é que a Islândia deixou de ser o país mais pobre da Europa no início do século XX tornando-se num dos países mais desenvolvidos do continente nos dias de hoje.
Uma vez mais, Halldór Laxness enobrece o seu país natal dando-nos grandes exemplos de dedicação e sacrifício da população ao longo dos séculos transformando a Islândia num país desenvolvido e com uma sociedade justa que contribui para o bem comum.





Excertos:
"O oficial de ordenança, sem se mexer um milímetro, dirigiu-se a Jón num dinamarquês macarrónico:
– Sua senhoria leu em livros de renome que os islandeses emitem um fedor tão nauseabundo que as pessoas precisam de se colocar a favor do vento para com eles falarem.
Jón Hreggviðsson não disse nada.
– Sua senhoria leu em livros de renome que os malditos e os demónios moram na Islândia, no interior da montanha chamada Hekkenfeld. É verdade? – disse o oficial.
Jón Hreggviðsson disse que não o podia negar.
Em seguida:
– Sua senhoria leu também o seguinte em livros de renome: primeiro, que na Islândia há mais fantasmas, monstros e demónios do que pessoas; segundo, que os islandeses enterram carne de tubarão nos montes de estrume junto às vacarias e depois a comem; terceiro, que os islandeses famintos cortam os seus sapatos em bocados e os levam à boca como se fossem panquecas; quarto, que os islandeses vivem em montes de terra; quinto, que os islandeses não sabem trabalhar; sexto, que os islandeses emprestam as suas filhas a estrangeiros com o intuito de procriar; sétimo, que uma rapariga islandesa é considerada uma virgem imaculada até ter parido o seu sétimo filho ilegítimo. É verdade?" (pp. 120-121)
"Somos a populaça, os seres mais insignificantes do mundo. Rezemos pela saúde de toda e qualquer autoridade que ajude os indefesos. Mas nunca haverá justiça até nós próprios nos tornarmos homens. Passar-se-ão séculos. As emendas da lei que nos foram concedidas pelo último rei ser-nos-ão
retiradas pelo próximo. Mas o nosso dia chegará. E, nesse dia, em que nos tornaremos homens, Deus
virá até nós e lutará ao nosso lado." (p. 303)

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

A Convidada Escolhe: Regresso a Itália

Elizabeth Adler é detentora de uma escrita cinematográfica. Descreve locais como poucos autores que conheço. Mas na sua escrita existe um equilíbrio entre os locais, os personagens e seus traços psicológicos e sempre, ou quase sempre, uma atmosfera de thriller que nos deixa em suspenso até ao final, a par do puro romance. Estas são as características que me fazem ler os seus livros.
Viajar através dos livros é uma expressão que se aplica na perfeição a esta história. A descrição do ambiente e paisagens da costa de Amalfi transportam-nos para o local, onde vivemos durante a narrativa, viajando e sentindo. E ficamos, de facto, cheios de vontacde de lá ir.
Mas é o thriller que me prende às páginas, que passam rapidamente. E no final, quando passei todo o romance a pensar que dois personagens eram irmãos e afinal são outros os que se revelam, que há um lado negro mesmo no cenário mais cor-de-rosa, que se nos apresentam personagens com um lado macabro sob uma capa de insuspeição, que a morte mais violenta vive paredes meias com do idílio, sinto que a autora não me desiludiu uma vez mais, e cumpre o que dela espero. Umas horas de evasão bem passadas.
Regresso a Itália é um romance, daqueles que nos remete para os dias quentes de Verão independentemente da estação do ano em que o lemos... mas até no Verão surgem tempestades...

Excertos
"- A idade pertence aos sentidos – respondeu Mifune – Os anos não nos constrangem; ganhamos com eles. Os nossos corpos cedem por fim ao tempo; alguns de nós morrem jovens, outros velhos. O que possuimos é tempo, não idade. (...)" (p.252)
"- A vida não é concedida a título permanente – declarou – É um privilégio e temos de utilizar o nosso tempo de forma judiciosa. Cabe-nos a todos fazer dela o que pudermos. Rocorda-te disto, piccolina – acrescentou, tratando-me pelo diminutivo afetuoso que usara quando eu era pequena. – A alma é como um pássaro em voo. Escapa-nos e voa livre de novo, sem constrangimentos. Há muito mais formas de recordar Jon-Boy do que através do seu fim. Abre o teu coração a essas recordações, piccolina, e deixa-o voar livre outra vez." (p.323)
Fernanda Palmeira

domingo, 3 de Agosto de 2014

Ao Domingo com... Ana Marecos

Desde criança que tropeço nas leituras, nos rascunhos, na necessidade de desabafar com o além, através de um pequeno Diário, na fantasia de me rever em personagens, em gestos, em frases.
Ai nasceu também um secreto desejo de representar, subir ao palco, perante uma plateia imensa, devastadora, capaz de multiplicar infinitamente as emoções vividas na pequena peça, capaz de transformar uma simples história de vida, num turbilhão de sentimentos cúmplices de uma felicidade inimitável.
O rasgo de um aplauso, entre gargalhadas e soluços, em que cada um se encontra com a sua próxima essência, dentro das palavras soltas que proferi; em que cada um possa construir as suas frases de vida e reerguer-se.
Nasci num dia de sol, a caminho do Outono, 26 de Setembro de 1967, às 12 badaladas, na cidade das sete colinas, num país à beira mar plantado.
Fruta e chocolate são os meus pecados, animais os meus companheiros de sempre.
Da escola o que melhor recordo são os recreios, os intervalos das aulas, os trabalhos de grupo e os professores que nos deixavam expressar a nossa opinião em voz alta.
Da vida o que mais reconheço é o apoio infinitamente generoso dos meus pais. 
Tenho dois filhos, tão diferentes na aparência, quanto iguais na essência, o melhor que a vida me deu.
Sou assistente de bordo desde os 18 anos de idade, adoro viajar, conversar, servir; partilhar esta experiência através do Diário de Bordo foi a realização de um sonho que me faz acreditar sempre no regresso a casa.

SINOPSE:
Uma história de Amor e de viagens, salpicada de bom humor.
Um relato de uma Assistente de Bordo, testemunho de uma vida apaixonante.
O outro lado de uma vida de sonho, como viver o dia seguinte à reforma de uma profissão repleta de ausências.
Será que estamos programados para o não - programado?
Será que podemos chamar a esta profissão: um modo de vida!?



Ana Marecos

sábado, 2 de Agosto de 2014

Na minha caixa de correio

  
  
  

Moçambique, Vingança de Sangue e A Rapariga Corvo comprei na wook, aproveitando um vale de 10€ da FLL.
Meu Único Amor e Um Amor Perdido foram oferta da Quinta Essência.
Gourmet em Casa foi oferta da Chiado.
A Neblina Do Passado comprei por 4,90 na Livraria Barata.
Invisível e Até que Sejas Minha foram oferta da Topseller.



sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

A Escolha Do Jorge:" As Ilhas Desconhecidas"

Aproveitando o recente périplo ao arquipélago dos Açores, muni-me de algumas obras cujas narrativas tinham como pano de fundo aquelas ilhas atlânticas de modo a melhor compreender e a sentir a força e a intenção das palavras. Um dos livros selecionados é o clássico "As Ilhas Desconhecidas" de Raul Brandão escrito em 1924 aquando da visita do escritor aos Açores e à Madeira.

A experiência do escritor nas ilhas foi de tal modo intensa que ia tomando notas, redigindo experiências vividas e sobretudo aquilo que sentia enquanto explorava cada ilha, mas também durante cada viagem de barco entre as ilhas permitindo ter uma nova imagem dessas mesmas ilhas.

Raul Brandão pouco alterou do manuscrito inicial querendo transmitir ao leitor as suas primeiras sensações sobre cada ilha visitada tal como afirma na introdução da obra ao mencionar "Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões. Tinha ouvido a um oficial de marinha que a paisagem do arquipélago valia a do Japão. E talvez valha… Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nos leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos." (p. 9)

Tal foi o encantamento de Raul Brandão em relação às ilhas, bem como às suas gentes e costumes! Ilhas pejadas de lendas, cachalotes e baleias, vinho e tantas outras iguarias que embalam todos quantos aqueles que visitam a região como se tratasse de um conto de fadas à semelhança da ilha do Pico que tanto aparece descoberta em todo o seu esplendor, como permanece encoberta em nuvens durante dias seguidos como se fosse algo intencional ou como se as nuvens tivessem vida própria como várias vezes refere o autor.

O autor alude a todas as ilhas, porém é no Pico onde mais tempo se detém, sendo, pois, absorvido pela grande montanha venerando-a até entre os Canais Faial-Pico e S. Jorge-Pico obtendo uma visão completamente diferente da ilha em si mesma.

"As Ilhas Desconhecidas" é assim um dos primeiros livros de viagens da literatura portuguesa, pelo menos é o mais conhecido tendo sido escrito há precisamente 90 anos. Ainda hoje, passado quase um século após a sua publicação, o leitor pode encontrar alguns dos locais das ilhas ainda intactos ou pelo menos apresentando-se de uma forma ainda muito virgem. De qualquer modo, não importa a época quando se visita cada um dos arquipélagos atlânticos, o deslumbramento do visitante pode ser quase esmagador face às belezas naturais que as ilhas encerram em si mesmas mexendo tantas vezes com o imaginário e intelecto de cada um.

Termino o artigo com um dos excertos mais tocantes de "As Ilhas Desconhecidas" alusivo à caça à baleia que tanto marcou a cultura e a economia dos Açores durante o século XX até à sua proibição em 1984.

"Lá de cima do poleiro o vigia ergueu-se de salto, deu sinal de baleia à vista com o búzio e todos os homens desataram a correr para as canoas. Nas Lajes, noutro dia, saía um enterro dum baleeiro morto no mar, quando do Alto da Forca anunciaram o bicho. Ia tudo compungido – ia a mulher compungida e os pescadores compungidos, o padre, o sacristão, a cruz e a caldeira – iam aqueles homens rudes e tisnados em passo de caso grave e fatos de ver a Deus – e logo a marcha compassada parou instantaneamente e mudaram instantaneamente de atitude: ficou só o padre com o latim engasgado e o caixão no meio da rua, e os outros, enrodilhados, levaram o sacristão, de abalada, até à praia. Baleia! Baleia!... Deixam um casamento ou um enterro em meio, um contrato ou uma penhora, as testemunhas e a justiça, e correm desesperados a arrear à baleia. No Cais do Pico e nas Lajes ninguém se afasta da praia. Estão sempre à espera do sinal e com o ouvido à escuta, os homens nos campos, as mulheres nos casebres. E enquanto falam, comem ou trabalham, lá no fundo remói sempre a mesma preocupação. São tão apaixonados que até este cheiro horrível, que faz náuseas e que se entranha na comida e no fato, lhes cheira sempre bem.
- Baleia! Baleia!
E toda a população acode aos barcos. Vejo daqui a fiada de casas à beira da estrada, o cais de embarque com o gorduroso barracão de madeira, tudo negro, enfumado e fétido, e por toda a parte, nas pedras escorregadias e na água azul, vértebras, carcaças boiando e restos ensanguentados que cheiram a podre que tresandam.
- Nosso Senhor vá com eles!
- Nosso Senhor lha dê sem perigo! – dizem as mulheres.
- O pão do meu José vai na canoa – grita outra, debruçada para os homens que empurram o barco a toda a pressa." (pp. 111-112)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

"Aço" de Silvia Avallone

Muito se tem falado nas viagens que os livros proporcionam. Belas, não há dúvida! Longas e repletas de emoção, também. Mas há viagens inesperadas. Viagens que nos fazem viver outras vidas e conhecer outras realidades. Serão as mais belas? Não sei responder mas são, certamente, as que nos permitem crescer um pouco mais. Saboreando melhor os prazeres que a vida nos dá. Apreciando o nosso cotidiano porque tão diferente.

Com este livro fiz uma viagem particularmente gratificante! Entrei num mundo desconhecido de uma cidade do litoral italiano que gira à volta de fábricas de aço, apreciei a sua rudeza, a beleza uma escrita sem travos na língua que, no início, custa a ouvir (leia-se ler). Duas amigas. Uma amizade de infância onde as promessas estão por realizar mas que fazem parte de sonhos que se sentem reais. Quem não teve amizades assim? E, no entanto, o ambiente que as cerca é de violência, de maus tratos, de perversão até.

O crescimento traz o desejo de união, de amor, da parte de uma delas que não é correspondido. E a separação torna-se uma realidade. Francesca e Anna. A elas juntam-se as histórias de Mattia, Alessio e Cristiano. Sandra e Rosa. Sente-se o peso que as unidades fabris impõem às vidas das personagens, e seus condicionamentos. O desejo de fuga está presente em todos os futuros sonhados. O ideal é sair para bem longe, o real é a permanência em Piombino, a cidade siderúrgica, que no verão se transforma por estar junto ao mar.

Um romance que apreciei muito ler, sobretudo pela rudeza do ambiente e pela forma como a autora o soube descrever tão bem!

Terminado em 29 de Julho de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Não é fácil crescer na rua Stalingrado, na cidade siderúrgica de Piombino, no litoral da Toscana, por debaixo da sombra da imponente fábrica de aço. Ter 14 anos num ambiente social degradado, demasiado duro, junto a realidades incómodas como a violência, a droga, a delinquência… e, principalmente, a total ausência de ilusões, complica ainda mais a adolescência de Francesca e Anna. Mas estas duas jovens não estão dispostas a baixar os braços e a dar-se por vencidas. Têm como arma a sua beleza exuberante, a sua sexualidade, e a vitalidade que a juventude lhes confere, e estão prontas a ultrapassar todos os obstáculos, para lutar pelos seus sonhos.
Silvia Avallone, que surpreendeu Itália e comoveu a Europa com esta obra aclamada pela crítica, transporta-nos até a uma Itália industrial e periférica, para retratar a história de uma amizade intensa entre duas jovens que procuram desesperadamente a sua identidade. Com mestria e sinceridade, a autora capta as contradições da nossa época e da nossa economia, onde reina a falta de esperança e de perspetivas e os dramas dos jovens actuais.
Um livro actual, polémico, arrojado e duro como o Aço. Contudo, absolutamente comovente. Aço ensina aos jovens o valor da amizade e do amor e aos adultos, quem são e o que pensam, verdadeiramente os seus filhos.

terça-feira, 29 de Julho de 2014

A Convidada Escolhe: O sorriso de Mandela

O Sorriso de Mandela – Um Retrato Íntimo, do jornalista britânico John Carlin, que na qualidade de correspondente, na África do Sul, do jornal britânico The Independent se encontrava na África do Sul no período entre 1889 e 1995. Dada a sua situação privilegiada acompanhou todo o processo que antecedeu a libertação de Nelson Mandela, foi dos poucos jornalistas estrangeiros a testemunhar a sua libertação em 11 de fevereiro de 1990 e ainda teve ocasião de acompanhar a ascensão ao poder do carismático líder e tomar conhecimento de muitos dos factos, dificuldades ou vitórias, que ocorreram durante a governação do líder histórico sul-africano.

Todo o livro resulta não só de pesquisas, estudos e reflexões sobre a personalidade de Nelson Mandela, como de entrevistas ao próprio ou a pessoas que com ele privaram de perto. Nelson Mandela, figura grande, visionário mas pragmático, que surpreendentemente não se amargurou no cárcere, referência política e moral a nível mundial, que entendeu que era a política e não a vingança a melhor arma para alcançar os seus objetivos, é neste livro abordado com imensos detalhes, quer da sua vida íntima e privada quer da sua postura política, não sendo esquecidos os grandes obstáculos que foram surgindo e a forma sempre diplomática como os foi conseguindo ultrapassar. É uma obra interessante sobre o líder político que dada a filosofia de vida que adotou após tantos anos em que se encontrou privado de liberdade, conseguiu os maiores triunfos pessoais e para o seu país.

Citando o autor:

"A minha esperança é que os leitores, depois de concluída a leitura deste livro, fiquem com uma compreensão mais profunda de Mandela como indivíduo e do porquê de ter sido a figura moral e política cimeira da nossa época."
"No entanto, Mandela tinha os seus defeitos e trazia na pele as marcas de uma grande angústia pessoal. Os seus triunfos no palco político foram conquistados a expensas de infelicidade, solidão e desilusão. Não foi nem um super-homem nem um santo."
"Nelson Mandela, que continuou a ser tão generoso quanto astuto, apesar de ter passado vinte e sete anos na prisão, impõe-se como um símbolo oportuno e uma inspiração intemporal. A humanidade é, e sempre foi, capaz de grandes feitos, e há sempre espaço e razões para fazermos melhor."

Maria Fernanda Pinto

A Convidada Escolhe: Molinos

Depois de várias opiniões favoráveis sobre "Os demónios de Álvaro Cobra" e "Mal Nascer" entre os amigos da Roda dos Livros e na sequência da conversa com o autor num dos encontros do grupo decidi, também eu, iniciar a minha leitura da sua obra.
Estruturo as minhas leituras, habitualmente, quando se trata de um autor que quero acompanhar, pela sua ordem cronológica. Gosto de acompanhar o crescimento da escrita, a sua evolução e apreciar a sua diversidade.
Não sem dificuldade consegui comprar o primeiro romance de Carlos Campaniço.
"Molinos" é um livro muito real, com passagens que nos transportam para as histórias da oralidade rural. Mais do que escrito, imagino-o como uma tela, de fios entretecidos. No coração do Alentejo profundo dos anos 40 desfilam personagens reais e histórias diversas que nos retratam com verosimilhança a sociedade da época.
O relato crú, e por vezes revoltante, é, contudo, como que "adoçado" pelas palavras com que é transmitido, numa riqueza de escrita que por vezes se torna poética.
Com pinceladas de realismo mágico e um toque de neo-realismo, este não é um romance "cor-de-rosa", nem quando aborda os amores de Alfredo Mendonça de Oliveira. É um romance duro sobre a dura realidade da aldeia fronteiriça de Molinos, vizinha de ficção da real Safara, de onde o autor é natural. Um livro sem fim doce, mas real, muito real pois na vida há casos nunca resolvidos, injustiça e mal entendidos que permanencem.
História de contrastes entre rico e pobre, bem e mal, viajei no tempo durante a sua leitura. De tal forma me senti parte da história que nem me incomodou uma característica que habitualmente me desagrada. Carlos Campaniço teçe com mestria vidas, tempos e espaços num mesmo capítulo, com transições que se fazem de parágrafo para parágrafo sem aviso prévio e leva-nos a acompanhá-lo sem questionar.
Um primeiro romance de eleição, para mim, que faz juz aos rasgados elogios que têm recebido da parte dos amigos da Roda dos Livros as obras mais recentes deste autor, e minhas próximas leituras.
Um romance que merece, certamente, ser reeditado.

Excertos
"Demorou muito tempo até se deixar vencer pelos seus apelos rurais e tentou levar a vida pacífica dos seus primeiros anos de sacerdócio, mas os anos julgaram-no e cada dia passado flagelava-se-lhe a alma, vencia-o uma voz atormentadora que só ele escutava e o acusava de trocar a defesa dos miseráveis pelo seu comodismo estatutário. Quando entrou na casa dos sessenta anos era um clérigo gasto pelas emoções, calvo como nunca se imaginou e devastado pelo seu conflito interno. Durante anos tentou harmonizar gentes, amparar os frágeis de espírito e de boca, reuniu com uma dezena de bispos que governaram a Igreja durante todos aqueles anos , mas não reconheceu uma só melhoria ou progresso na qualidade de vida das gentes, desde os seus passos de menino até ao átrio da sua velhice. Assistiu à exploração dos homens, vendo-os receber por uma jorna diária o equivalente ao preço de um pão e um quarto de litro de azeite, à elevação dos latifundiários a caudilhos feudalistas que dispunham das autoridades locais para satisfazer as suas quimeras de justiça. Viu as crianças, que havia baptizado, usadas no cativeiro dos campos, quando ainda lhes tremia a mão para assinarem o nome. E tomou uma consciência dorida da sua inutilidade, porquanto nem as suas rezas haviam mudado o mundo nem as suas palavras retraídas, errantes de pacificação, acrescentaram harmonia social à aldeia." (p. 16)
"(...)
Quando o velho Diogo Mendonça de Oliveira foi encontrado morto, sentado numa cadeira, junta à
mesa de dominó, ainda lhe corriam as lágrimas pelo rosto. Foi um assombro sem precedentes, porque passadas vinte e quatro horas, após a sua morte, ainda as lágrimas lhe corriam pelo rosto abaixo e foi
necessário que uma empregada estivesse junto dele para lhe limpar, amiúde, o rosto molhado. O padre Lourenço mandou um telegrama ao bispo, para lhe pedir indicações sobre os procedimentos a tomar neste caso, pois havia quem julgasse tratar-se de um milagre (...) Havia mais que atribuiam o fluxo das lágrimas a uma outra vertente divina, que estava relavionada com o alcance de Deus em pôr em evidência aqueles que não morrem em arrependimento pela crueldade dos seus actos em vida. Estava pagando pela ruindade com que tratara os empregados e os desfavorecidos. (...)" (p. 111)

Fernanda Palmeira

"Sonhos de Papel" de Ruta Sepetys

Como gostei deste livro!

Esta foi uma leitura de fortes contrastes que gostei muito de ler. O mundo de Josie é, realmente, diferente daquele onde me movo com à vontade e, talvez por isso mesmo, tivesse gostado tanto!
Ela cresceu e viveu nos subúrbios de New Orlens entre "bandidos" e "cavaleiros". Gostei da diversidade de personagens com personalidades e vivências tão opostas!

Diz-se que ninguém pode dar o que não recebe… por vezes, quanto menos se recebe no que concerne ao amor e cuidados por parte daqueles que, sendo família, deveriam ser os primeiros, encontramos nos amigos que nos rodeiam uma rede de apoio que nos sustenta e nos equilibra. "Os amigos são a família que escolhemos", li por aí. Josie é criada pela mãe, prostituta de luxo, sem carinhos, sem afectos e sem valores. No entanto, no meio decadente onde habita encontra amigos que a apoiam e lhe dào a mão sempre que precisa: Willie, a dona de um bordel; Cokie, o choffeur de Willie; Jesse, o amigo motoqueiro, Charlotte, a amiga rica e de boas famílias; e Patrick, o filho do bibliotecário!

Josie encontra, também, nos livros um apoio: ela é uma leitora ávida e compulsiva! (Como sabe bem encontrar alguém, ainda que pertença ao mundo do imaginário, que nos perceba...LOL)

Com uma escrita muito apelativa e com diálogos empolgantes, a autora transporta-nos para situações quase do faroeste que, se não estivéssemos tão envolvidas no livro, seriam consideradas hilariantes. E é precisamente esse contraste de vivências de um mundo que não é de todo o meu, com o facto de elas parecerem-me verosímeis, que me encantou nesta obra.

Recomendo esta leitura!

Terminado em 21 de Julho de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse
Josie Moraine vive mais do que uma vida.
Ela é filha de uma das prostitutas de luxo mais cobiçadas de Nova Orleães, um estigma que a arrasta para o submundo decadente da cidade. Vítima da negligência da mãe, tem nos moradores do extravagante Bairro Francês os seus maiores aliados. De Cokie, humilde e fiel; a Willie, a dona de um bordel cuja frieza esconde um coração de ouro; e a Jesse, tímido, atraente e eternamente apaixonado, todos a protegem e velam por ela.
Mas Josie sonha mais alto e move-se com igual à-vontade nos corredores da livraria onde, graças à bondade de um desconhecido, trabalha e habita. Este é o seu porto seguro. Aqui, entre as estantes repletas de livros, no pequeno escritório que agora lhe serve de quarto, não tem de se defender da sua própria mãe nem fingir ser a durona solitária que domina as ruas. Ao anoitecer, quando a porta se fecha e as luzes se apagam, ela descobre nas páginas que folheia a imensidão do mundo e anseia por uma vida melhor. Uma vida como a de Charlotte, a filha de uma família da alta sociedade, cuja amizade a inquieta a ponto de arriscar tudo, mesmo a promessa de um amor verdadeiro. E quando os seus sonhos estão prestes a realizar-se, um crime muda tudo… para sempre.

domingo, 27 de Julho de 2014

Ao Domingo com... Carlos Ademar


Comecei a publicar há 10 anos. Fi-lo na presunção de que tinha uma profissão (inspetor da PJ) que me proporcionava acesso a histórias que, mescladas com o cimento da ficção, poderiam resultar em proveito e prazer dos leitores. Nunca quis (nem quero) seguir o modelo do policial tradicional, que vive muito do suspense que reside na descoberta do autor do crime e da forma como a ele se chega. Essa componente existe, mas está longe de ser a parte de leão dos enredos que crio. Nos meus livros procuro, essencialmente, refletir a vida portuguesa, seja na componente histórica, seja quando abordam o quotidiano. Procuro introduzir um valor acrescentado aos leitores (assim o entendo), que os leve a questionar sobre a realidade que os rodeia, no que toca, por exemplo à sociedade e à (in)justiça que nos rege. Nesta perspetiva, não me choca ser considerado um escritor de intervenção, talvez inserido naquela corrente que já alguém definiu como de Neorrealismo Revisitado – agrada-me até. 

Em termos da abordagem à contemporaneidade, refiro o meu primeiro livro, saído em 2005, O Caso da Rua Direita, que aborda o crime de morte por encomenda, as dificuldades que oferece à investigação, bem como as dinâmicas que se podem gerar numa brigada de homicídios; Estranha Forma de Vida, publicado em 2007, trata o crime organizado associado a certos estabelecimentos de diversão noturna, com os vários tráficos inerentes (pessoas, drogas, armas, etc.), a violência estratégica e as dificuldades com que o atual sistema de justiça se debate para lhe dar combate (vai na terceira edição); Memórias de um Assassino Romântico, publicado em 2008, debruça-se sobre o efeito que o sentimento de injustiça pode gerar numa mente perturbada, que, dentro da sua loucura, procura repor os níveis de justiça que não sente. 

Em 2012 saiu o meu último livro pela Oficina do Livro, O Bairro, que, centrando-se na Cova da Moura, trata a problemática que envolve os bairros degradados, as razões porque podem transformar-se em ninhos de criminosos e, na perspetiva do autor, a forma de tentar evitá-lo. 

Relativamente a romances históricos ou de época, dou conta de O Homem da Carbonária, saído em 2006 (que se encontra esgotado após a segunda edição). Nele procurei dar a conhecer a Carbonária Portuguesa, organização tão desconhecida e que tanto peso teve na implantação da República. Procurei ainda levantar algumas questões sobre as causas que levaram à queda da Primeira República e consequente instauração da ditadura que liderou os destinos de Portugal quase meio século. O Chalet das Cotovias, o meu mais recente romance, saído em 2013, aborda os anos trinta, mais precisamente a edificação do Estado Novo sob a égide de Salazar, com tudo o que representou em termos de retrocesso civilizacional e que empurrou o país para as catacumbas do subdesenvolvimento europeu; o terceiro romance histórico é A Primavera Adiada, saído em 2010, que aborda o estertor do marcelismo e as desilusões dos primórdios da vida em liberdade.

Num outro registo, saiu neste ano de 2014, No Limite da Dor (o meu único livro de não ficção), em coautoria com Ana Aranha, da Antena 1. Com a devida contextualização histórica, não é mais do que a transposição das entrevistas realizadas a antigos presos políticos e as suas experiências dolorosas com a polícia política do antigo regime, que passaram no programa de rádio com o mesmo título. Para lançamento da Parsifal, editora de Marcelo Teixeira, onde saíram os meus mais recentes livros, participei numa coletânea de contos, em que trinta autores foram convidados a escrever sobre uma capital do mundo. Escolhi Bissau e o livro tomou o título de Contos Capitais. 

Abordando o futuro próximo, encontro-me a aprofundar a minha dissertação de mestrado em História Contemporânea, defendida este ano na FCSH da Universidade Nova, tendo em vista a publicação em 2015 da biografia do capitão de Abril, Vítor Alves. Conto regressar à ficção e ao romance histórico em 2016, trabalhando sobre o princípio dos anos cinquenta do século XX, o estado do regime e as lutas, por vezes sangrentas, que ocorreram dentro da oposição clandestina que procurava combatê-lo. Muitos outros projetos fervilham, mas resisto e prossigo, como sempre, com um passo de cada vez. 

Boas leituras!          

Carlos Ademar