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terça-feira, 3 de maio de 2016

"Pura Coincidência" de Renée Knight

Depois de ouvir uma amiga elogiar este livro mais do que uma vez, peguei nele num impulso. Ela tinha-me dito que se lia num ápice e quis confirmar...

Com um enredo que no início pede atenção, ao ponto de escrever num post-it quem era quem, vamos saltitando entre duas vidas distintas e dois espaços de tempo separados entre si por um par de anos. Duas famílias unidas por acontecimentos que vamos descobrindo devagar e que vai sempre mantendo o leitor interessado.

Narrado a duas vozes, a de Catherine e a de Stephen, perfeitos desconhecidos entre si, vamos percebendo o quanto as suas vidas estão inter-ligadas por um acontecimento do passado que Catherine tentou esquecer a vida toda e que Stephen não pode deixar esquecido e quer revelar a todo custo para vingar a sua mulher e filho, ambos já falecidos. A sua sede de vingança cerca Catherine e ela vê a sua vida familiar e profissional desfeitas.

As consequências desse acontecimento, as reacções que as personagens têm, fazem com que a intensidade narrativa aumente a cada página virada, o que prende o leitor completamente. Quando pensamos estar na posse de todos os elementos, surge algo que dá uma reviravolta à história, levando a um volte face na nossa forma de encarar os personagens envolvidos.

Tudo começa quando Catherine recebe em sua casa, misteriosamente, um livro em cuja personagem principal se reconhece. O seu segredo, que ela quis desesperadamente esconder, até de si própria, está ali! O nome da protagonista é diferente mas as situações são idênticas. O "Perfeito Desconhecido", o livro, chegou para infernizar a sua vida, veio para ficar. Por este motivo não posso deixar de elogiar a capa que para além de estar bem conseguida, tem tudo a ver com o enredo desta obra.

Um thriller psicológico intenso, umas personagens bem construídas psicologicamente, várias tentativas (bem conseguidas, aliás!) de dirigir a atenção do leitor para desfechos da história plausíveis mas enganadores, fazem deste livro uma leitura muito excitante e viciante.
Recomento vivamente!

Terminado em 28 de Abril de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

E se de repente se apercebesse de que é o protagonista do aterrador romance que está a ler? Catherine tem uma boa vida: goza de grande sucesso na profissão, é casada e tem um filho. Certa noite, encontra na sua mesa-de-cabeceira um livro de título O perfeito desconhecido.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

"Rio do Esquecimento" de Isabel Rio Novo

Já tinha lido algumas páginas quando, de repente, voltei a trás. Reli tudo de novo, como se não o tivesse feito antes. Às vezes não estou preparada para determinada escrita e chego ao fim da página com a sensação que perdi algo da leitura acabada de fazer. E então, ou largo o livro, irritada, ou volto ao princípio. Neste caso voltei e ainda bem.

E por falar de "princípio" uma das coisas que gostei neste livro foi a alternãncia que a autora usou para nos fazer saltar nos anos, nos acontecimentos, tornando a história (e seus pormenores) mais cativante. Assim, o princípio e o final entrecruzam-se, sempre com a autora a introduzir pequenas/grandes surpresas. O fio condutor mantém-se sempre o que fez com que isso não prejudicasse em nada a minha leitura.

O narrador omnisciente vai, de quando em vez, deitando uns pózinhos contendo a sua opinião e isso é feito com uma mestria que me encantou. A escrita não é escorreita nem ligeira mas apreciei muitíssimo esse facto. Palavras "novas", desconhecidas para mim, enriqueceram o meu vocabulário e, contudo, não me fizeram andar perdida na leitura, facto que me fez acreditar que Isabel Rio Novo tem uma escrita especial. Encantadora. Estranhei no início mas entranhei-a depressa após algumas páginas!

Mas, voltando à minha linha de pensamento, e como estava eu a dizer, a dada altura voltei à primeira página. Muitas personagens femininas, muitas "Marias", fizeram-me tomar nota mentalmente de quem era quem para que a confusão não se instalasse de novo. E aí sim, a história "pegou-me".

Porto, século XIX. Um português regressa do Brasil com uma fortuna considerável. Está doente, vem morrer onde nasceu. Cá tinha deixado uma filha bastarda que, de um momento para o outro, se vê a braços com novas condutas de vida, novos saberes que teimam em ensinar-lhe. Um marido, por qual ela se apaixona perdidamente, vem completar as suas novas incumbências de "menina rica". E a história estaria encaminhada para um final feliz, se a paixão por ela sentida fosse correspondida... Está lançado o mote para uma história onde aspectos macabros apimentam sabiamente este romance.

Digo-vos: ultrapassem as dificuldades que possam vir a ter com as frases e descrições longas e peguem neste livro. Uma leitura que deve ser atenta aos pormenores. Parabéns Isabel!

Terminado em 23 de Abril de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

Inverno de 1864. Sentindo a morte a aproximar-se, Miguel Augusto regressa do Brasil, onde enriqueceu, e instala-se no velho burgo nortenho, no palacete conhecido como Casa das Camélias, com a intenção de perfilhar Teresa Baldaia e torná-la sua herdeira. No mesmo ano, Nicolau Sommersen pensa em fazer um bom casamento, não só para recuperar o património familiar que o tempo foi esfarelando, mas sobretudo para fugir à paixão que sente por Maria Adelaide Clarange, senhora casada e mãe de três filhos. Maria Ema Antunes, prima de Nicolau e governanta da Casa das Camélias, hábil e amargurada com a sua vida, urdirá entre todos uma teia de crimes, segredos e vinganças.
Subvertendo as estratégias da narrativa histórica, com saltos cronológicos que deixam o leitor em suspenso mesmo até ao final, Rio do Esquecimento descreve com saboroso detalhe a sociedade portuense de Oitocentos e assinala o regresso à ficção portuguesa de uma escrita elegante que consegue tornar transparente a sua insuspeitada espessura.


domingo, 1 de maio de 2016

Ao Domingo com... Diogo Lopes

Foto de Tiago Figueiredo

Não consigo abrir um livro sem procurar algo que me arrebata. Almejo que me desfaçam em sentimento e suas sequelas sísmicas, num tremelicar e arrepiar da pele, no arrebitar do pelo que me cobre. Procuro um conjunto de emoção, experiência e reflexão, embutidas a toque certeiro por mãos de quem já maneja a arte conforme sua vontade. Procuro um todo: uma unidade que me trespasse e eleve a visões mais profundas sobre a vida.

Falo-vos agora de um tipo de literatura que muito acarinho dentro do tutano do osso, sítio onde guardo os meus mais profundos tesouros: poesia, pois então.

Encontra-se na poesia uma grande característica, que talvez seja menosprezada entre tantas outras, pela narrativa: a fonética; a preocupação pelo som, pela música da palavra, e não só pelo seu conteúdo. É verdade sim, e defendo-o de peito bravio, o conteúdo prevalece, claramente. Mas sendo que isto não é discutível, também não será a importância do som. Será enfim, uma diferenciação entre o claramente bom e o claramente estupendo. São mesquinhices, confesso. Mas ainda assim, insisto nelas. O som produz efeito no corpo humano. Existem palavras doces, palavras grotescas. Porque não usar também esse detalhe para enfeitiçar a nossa frase? Expandir os efeitos da escrita, torna-la polivalente, e extraviá-la para arte sonora.

O grafismo é algo que também me preocupa. Julgam-me tinhoso. Lá vou eu implicar com um pormenor outra vez. O que interessa é o que se diz Diogo. É sim, pois claramente que sim. E no entanto, não apenas. A obra deve ser todo um conjunto. Afinal, para quê o papel se não o fazemos bonito? É necessário o espaço, a clareza. O jogo do preto e do branco, conjugados num. Afinal não serão estas também as marcas de um escritor? O seu cuidado e brio que a nós nos deleitam de modo profuso. As maravilhas da literatura, este mundo interminável.

Procurei um pouco disto no meu livro. Motivar o ácido e o doce, aquando respectivas necessidades. Ao retratar algo de vil natureza, despojar-me de fatídicas junções fonéticas e exponenciar sua crueldade. Processo semelhante para o lado sorridente da plateia. Um insuflar e elevar da palavra, que temos nós para nossa glória, ser portuguesa.

Num contínuo de confissões e partilhas desdobro o meu “Baluartes”. Um livro que mistura o género de autobiografia com a ficção, mas nunca permitindo o desaparecimento da poesia. Uma história que ilustra o olhar de um jovem. Eu. Uma história de uma doença, de várias alegrias e tristezas. Uma história de amigos, família e amores. Um livro que pessoalmente me deu um enorme gozo em arquitectar e fazer sagrar. Uma leitura que vos entrego em mãos – por um preço, pois claro.

sábado, 30 de abril de 2016

Na Minha Caixa do Correio


Esta foi uma semana sossegada no que respeita às vindas dos CTT cá a casa!
Chegou-me este livro, oferta da Presença, que despertou a minha curiosidade ao ponto de o começar a ler imediatamente. Conto acabar ainda hoje.
Não posso deixar passar a oportunidade sem vos mostrar a capa e a badana que, completando-se, fizeram as delícias dos meus olhos...


Parabéns a Vera Espinha por esta capa original.

Notícia Boa!

E quando nos telefonam para olharmos melhor para a revista Sábado, acabada de sair? E quando deparamos com uma frase que reconhecemos como nossa na contracapa da revista GPS? E quando o nosso blogue vem lá mencionado?

Pequeninas coisas que sabem tão bem!

Obrigado Clube do Autor por esta surpresa!



quinta-feira, 28 de abril de 2016

A Escolha do Jorge: Chernobyl - A Zona

Assinalaram-se esta semana, no dia 26 de abril, os trinta anos após o acidente nuclear de Chernobyl que ficou conhecido no mundo como o maior desastre nuclear de sempre.
Como forma de não esquecer a data, foi publicado ainda este mês, a novela gráfica subordinada ao tema "Chernobyl – A Zona" dos espanhóis Francisco Sánchez (texto) e Natacha Bustos (grafismo), numa edição da Levoir.
Os personagens criados por Francisco Sánchez são ficcionais, mas cujas histórias poderiam representar as experiências e vidas de pessoas reais que viviam em Pripyat, nos arredores da central nuclear de Chernobyl. Na presente novela gráfica estão representadas três gerações de uma família, os avós que acabaram por permanecer na aldeia, a mãe e os filhos que foram evacuados de Pripyat. O pai foi um dos liquidadores (nome atribuído aos bombeiros, militares e voluntários que de forma heroica apagaram o incêndio que deflagrou no reator número quatro durante nove dias consecutivos) que acabou por vir a falecer dias mais tarde, num hospital em Moscovo.
Anos mais tarde, os filhos decidem regressar a Chernobyl como forma de (re)conhecer Prypiat, a cidade que ficou abandonada na sequência da evacuação quase dois dias após o acidente. O regresso a Pripyat marca de alguma forma o (re)encontro com o passado, através do reconhecimento de vários locais, edifícios, espaços da cidade, fazendo, em certa medida, "a ponte" com a história da sua família.
A presente novela gráfica não apresenta histórias que caem no sentimento fácil. Apresenta, sim, de forma clara e objetiva, através de diálogos muito simples, poucos até, e acompanhados de muitos, muitos desenhos, os dilemas, as preocupações dos habitantes de Pripyat aquando do acidente nuclear (embora não tivessem uma real dimensão dos factos porque a informação não era passada por indicações governamentais), assim como as suas consequências.
Ainda que os personagens apresentados na novela gráfica "Chernobyl – A Zona" sejam fruto da ficção, todo o cenário e circunstâncias seguem em linha, por exemplo, com os testemunhos apresentados no livro, também publicado recentemente, "Vozes de Chernobyl" de Svetlana Alexievich (Prémio Nobel de Literatura de 2015).
Não será de todo impertinente referir que a presente novela gráfica ilustra muitos dos episódios retratados nas "Vozes de Chernobyl" de Svetlana Alexievich!
Em todo o caso, em ambas as obras, fica o alerta para a humanidade. É preciso não esquecer que o acidente de Chernobyl surge na sequência da grande ambição da URSS em produzir energia nuclear no intuito de fabricar a mais poderosa bomba atómica, ainda num contexto da "guerra fria", na sua relação com os EUA. A central nuclear de Chernobyl recebeu claras instruções diretamente do Comité do Partido Comunista para que se aumentasse ainda mais a produção de energia nuclear ainda que o reator número 4 não estivesse totalmente operacional.
As consequências do desastre nuclear ocorrido há precisamente trinta anos são incalculáveis, tanto na perda de vidas humanas, animais, e toda uma área geográfica significativa (conhecida por "A Zona") tenha ainda níveis de radioatividade elevados, o que acontecerá ainda por mais alguns séculos.
O problema Chernobyl está longe de ser considerado um assunto do passado na medida em que o "sarcófago" que cobre o reator número quatro está a sofrer danos devido à chuva e à erosão. A situação é de tal forma grave que no interior do "sarcófago" existe combustível nuclear que se estima continuar ativo durante os próximos 100 000 anos. Parafraseando Francisco Sánchez, o autor de "Chernobyl – A Zona", "Chernobyl ainda agora começou." (p. 173)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 27 de abril de 2016

"Vamos Comprar Um Poeta" de Afonso Cruz

Só Afonso Cruz me poria a ler contos ou, caso isto não seja um conto, livros de tão poucas páginas e pequeninos. Não que tenha nada contra os contos, simplesmente acabam depressa e isso enerva-me, chateia-me começar de novo outro livro num espaço de tempo tão curto! Manias, eu sei! Depois de ter lido Para onde foram os guarda-chuvas fiquei fã da sua escrita, tão original.

Fiquei curiosa, fui à apresentação no passado dia 19 na livraria Buchholz e trouxe comigo o livro que uma amiga tinha acabado de comprar. No dia seguinte, pela manhã, antes de entrar no trabalho li-o. Devorei-o com o pequeno almoço parado à minha frente, aliás.

 Afonso Cruz escreve prosa como se fosse poesia. Todo o livro é de uma delicadeza, de uma imaginação extrema que, quem já leu alguma coisa deste autor, reconhece bem. Escrito por quem tem a poesia dentro de si, esta história é-nos narrada por uma menina que, num mundo diferente do nosso, deseja comprar um poeta. Poderia ser um artista ou outra coisa qualquer mas ela prefere um poeta. Não que a menina perceba muito de poesia mas, depois de o ter comprado e instalado num espaço exíguo em sua casa, a poesia entra subtilmente na sua vida. E são todos apanhados por essa coisa estranha, a menina, o irmão, a mãe e até o pai! Com a poesia conseguem ver para além das coisas físicas! Deixam de quantificar, passam a ver, olhar e amar.

Um livro que se lê num ápice mas fica-se com vontade de ler de novo. Reler é obrigatório! Tantas coisas ainda por descobrir!

Terminado em 20 de Abril de 2016

Estrelas: 5*


Sinopse

Numa sociedade imaginada, o materialismo controla todos os aspetos das vidas dos seus habitantes. Todas as pessoas têm números em vez de nomes, todos os alimentos são medidos com total exatidão e até os afetos são contabilizados ao grama. E, nesta sociedade, as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. A protagonista desta história escolheu ter um poeta e um poeta não sai caro nem suja muito – como acontece com os pintores ou os escultores – mas pode transformar muita coisa. A vida desta menina nunca mais será igual… Uma história sobre a importância da Poesia, da Criatividade e da Cultura nas nossas vidas, celebrando a beleza das ideias e das ações desinteressadas.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Experiências na Cozinha: "Coma Bem, Sinta-se Bem"

Ontem mostrei-vos fotos da Massala de Grão. Hoje traga-vos do mesmo livro as fotos das bolachas de aveia. Receitas rápidas e simples de fazer. Como gosto. 

Para quem não leu o post de ontem, deixem-me que vos diga que fiquei fã das pequenas dicas que este livro nos indica e que podem ser introduzidas no nosso dia-a-dia, fazendo a diferença, entre ter mais ou menos saúde. Deliciem-se com as fotos mas podem acreditar que provando elas são realmente melhores do que parecem. Doces q.b. mas com ingredientes saudáveis. A aveia foi outro alimento que introduzi aos poucos. Se fores celíaco ou intolerante ao gluten deves procurar a que indica "sem glúten" porque as outras podem estar contaminadas visto passarem nas mesmas máquinas que o trigo.

Bolachas de Aveia, Banana,Tâmaras (neste caso uvas passas) e Coco.

Aprendi a adoçar os doces que faço com tamaras (há uma pasta de tâmaras concentrada que utilizo também) mas devem ser daquelas "feias" sem brilho (que só faz subir o IG -índice glicémico- no nosso organismo). Mas desta vez não tinha cá. Usei uvas passas (usei 1/3 da quantidade da indicada para as tâmaras) e não foi preciso mais porque levam também três bananas esmagadas. Substituí também o óleo de colza (ando há muito para o comprar!) por óleo de coco.

Antes do forno...


Depois de 20m no forno... Rápidas e muito boas! A receita rendeu 23 bolachas. Um snack fabuloso para quando nos dá a fome.



segunda-feira, 25 de abril de 2016

Experiências na Cozinha: "Coma Bem, Sinta-se Bem"

Este livro tem estado na minha mesinha de cabeceira já há algum tempo. Possui tanta informação, tantas dicas sobre assuntos relacionados com a alimentação/saúde que, volta e meia, lá o abro de novo.

Já ouviram falar de super-alimentos? Tenho feito alguns workshops relacionados com alimentação vegetariana/macrobiótica e as propriedades de certos alimentos aqui falados já me foram apresentadas há muito, tendo já introduzido-os na minha alimentação. Aos poucos, que eu não sou de mudanças rápidas embora conheça e admire quem o tenha feito da noite para o dia.

Mas voltando ao livro, a autora aborda 20 alimentos que considera detentores de propriedades benéficas para o nosso organismo e fala um pouco deles. Como disse muitos já fazem parte da minha alimentação mas a tomada de consciência sobre algumas das suas propriedades faz com que reforce a sua ingestão.

Seguidamente, e aqui a leitura pode ser aleatória, apresenta-nos algumas/muitas doenças mais comuns fornecendo dicas para as combater, as suas causas, que alimentos devemos preferenciar e porquê, quais os mais prejudiciais. E tem receitas também. Não é um livro vegetariano/macrobiótico pelo que as receitas refletem isso mas cada leitor pode dar preferência a certos alimentos em detrimento de outros.

Devo dizer que saltei logo as páginas à procura de algumas que o PDI me presenteou, LOL... aproveitando para fazer algumas receitas e marcando outras para fazer proximamente. Nada maçudo, com muita cor e graficamente muito apelativo, este livro vai permanecer por muito tempo na minha mesa de cabeceira, local por agora seguro e perto da minha mão, dada a inundação de livros que frequentemente invade a mina casa.

Ficam as fotos e breves comentários da receita que experimentei. Caso vos interesse colocarei a receita e as alterações que nela fiz (uma verdadeira "chef" quando não tem um ingrediente, substitui-o por outro, não?). Amanhã mostro-vos fotos das bolachas que fiz...

Masala de Grão.

Fácil de fazer e muito saboroso. Necessitam de um ingrediente específico da comida indiana, o Garam Masala, uma especiaria em pó que devem encontrar ou em lojas indianas (foi onde encontrei o meu já há muito tempo) ou em grandes superfícies. Faço uma receita parecida mas em vez dos espinafres coloco couve-flor. Garanto que quem não gosta deste legume o passará a comer assim... Uma das mudanças que fiz foi privilegiar as leguminosas (adoro lentilhas e quase não as comia) e, quando não as cozo em casa utilizo sempre as de frasco. Mas vamos às fotos porque senão não me "calo" nunca...







sábado, 23 de abril de 2016

Na minha caixa de correio

  


  




O Livro da Pão foi oferta da Editora Manuscrito. Será desta que vou começar a fazer o meu pão?
Do Clube do Autor chegaram quatro livros: A Memória, O Mundo É Fácil, Nos Teus Olhos Vejo o Mundo e Planisfério Pessoal.
Comprei A Hora Mágica e Até Ao Fim da Terra.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Escolha do Jorge: Cartas Reencontradas

São várias as obras que já tive oportunidade de ler do multifacetado Pedro Eiras que se tem aventurado no mundo das letras através da publicação na área da ficção, teatro e ensaio. Das várias obras que li do autor, talvez seja correto afirmar que há um Pedro Eiras antes e depois da edição de "Bach" (2014). Esta obra constituiu um ponto decisivo na carreira do autor, não só demarcando-se das demais obras publicadas (ainda que estejam no rumo para chegar a "Bach"), mas também pelo estilo que incutiu desde então, conferindo um discurso bastante intimista capaz de interagir com o leitor tanto do ponto de vista espiritual, como ao nível intelectual, na medida em que o leitor ganha espaço para questionar, sentir, procurar sentidos, rumos a seguir, encontrando-se consigo próprio para novamente se voltar a perder.
Aproveito, deste modo, a oportunidade para recuperar uma passagem do texto que tive oportunidade de publicar neste mesmo blog aquando da edição de "Bach", em 2014: Ler este "Bach" é falhar constantemente. "Falhamos ainda mais ao tentarmos escrever sobre o livro, sobre "Bach" que tanto se nos mostra como se esconde, dificultando-nos a vida, naquele momento. É nesses momentos de dúvida e de incerteza que nos tornamos humildes ao sentirmo-nos esmagados com a beleza da obra, pois é nesses momentos que vislumbramos o entendimento de qualquer coisa, de diferente, inclassificável, tornando-se, pois, uma experiência estética e intelectual deveras estimulante."
É esta experiência estética e intelectual presente em "Bach" que Pedro Eiras conseguiu transferir para o seu mais recente livro "Cartas Reencontradas de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro", confirmando, assim, o ponto de viragem no estilo e na linguagem intimista capaz de determinar as duas fases do seu percurso enquanto escritor.
Estas "Cartas Reencontradas" correspondem às cartas de Fernando Pessoa dirigidas a Mário de Sá-Carneiro, entre julho de 1915 e abril de 1916, encontradas nas águas-furtadas do Hôtel des Artistes, em Paris, cidade onde faleceu Mário de Sá-Carneiro. Ficção? Ou Realidade? É certo e legítimo que o leitor questione a situação em si e a veracidade das cartas antes mesmo de iniciar a leitura das mesmas. Parafraseando Fernando Pessoa numa das "Cartas Reencontradas", "Escrever é, pois, corrigir e esquecer, por um fingimento verdadeiro, a verdade falsa." (p. 107) Porém, à medida que o leitor vai lendo a compilação das cartas, as questões, as dúvidas, vão-se esfumando caindo mesmo no esquecimento, sendo então levado pelo caráter intimista que assumem, trazendo luz sobre a Lisboa de há um século tendo como pano de fundo a instabilidade política da 1ª República, o início da 1ª Guerra Mundial e ainda os dilemas e divergências de opinião entre os vários elementos que fizeram parte da "Geração d’Orpheu", nomeadamente o próprio Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e Santa-Rita Pintor.
Estes nomes fervilhavam em ideias que se contagiavam entre si graças à influência das correntes vanguardistas europeias surgindo, deste modo, a necessidade de publicar como forma de transmissão de um quadro de valores sob a égide da revista trimestral de literatura "Orpheu" que se pretendia trimestral, mas que conheceu apenas a publicação de dois números correspondentes aos dois primeiros trimestres de 1915.
Segundo Fernando Pessoa, a revista ""Orpheu" (…) pertence a outra ordem da existência, que nos impõe a sua vontade por símbolos que não podemos decifrar." (p. 55) Mais adiante, o poeta refere "(…) Creio deveras que haver "Orpheu" é um mistério que transtorna e desloca, espiritualmente, o centro do universo, e que as almas são outras, por nascerem sob o selo oculto da nossa revista." (p. 119)
O que esta "Geração d’Orpheu" se distingue de qualquer outro movimento ou corrente contemporânea à época, é o facto de ser constituída de "espíritos tão contrários" e "inconciliáveis" capaz de provocar a "violência" graças à força e impacto das ideias que partilham, edificando, assim, uma nova forma de arte ou uma nova forma de encarar a arte.
Para Fernando Pessoa, a publicação da revista "Orpheu" foi um marco decisivo e um ponto de viragem na cultura portuguesa do início do século XX considerando que a revista deu mesmo um passo à frente em comparação com os movimentos que marcavam a Europa sentindo, pois, a necessidade de traduzir a revista noutras línguas. "Urge muito exportar os nossos movimentos para a Europa, mostrar como o que se tem feito em Paris e noutros sítios é amplamente ultrapassado pelos autores órphicos. Reivindicação de elementar justiça, pois. Veja como Portugal, politicamente suspenso, inexiste no estrangeiro. Que recepção não teria "Orpheu", se fosse publicado em Londres ou Paris!" (p. 79)
A par do reconhecimento e deste passo em frente com a publicação da revista "Orpheu", é bem visível nas cartas a forma como Fernando Pessoa em articulação com Mário de Sá-Carneiro se demarcam da posição de Santa-Rita Pintor. Esta divergência que várias vezes assume os contornos de quezília cultural (ou filosófica?) chega a ser divertida ao longo das "Cartas Reencontradas". Neste sentido, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro reconhecem o valor das obras de Santa-Rita Pintor, daí a importância em publicar alguns dos seus ‘hors-textes’ na revista "Orpheu", representando assim o que de melhor se faz em matéria de cubo-futurismo em Portugal e na Europa, seguindo em linha com Marinetti, o mentor do movimento futurista. Porém, os dois poetas demarcam-se de Santa-Rita Pintor por assentarem o seu pensamento no sensacionismo, sendo, pois, os precursores deste movimento segundo o qual "a única realidade da vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação."
Em todo o caso, Fernando Pessoa assume uma posição sensata face a Santa-Rita Pintor sem que este levante grandes questões na sequência da divergência de opinião, reconhecendo-lhe o mérito enquanto artista, afirmando numa das cartas dirigidas a Mário de Sá-Carneiro: "(…) Se não convém hostilizar a criatura, também não podemos perdê-la: o Santa Rita é útil para manter aceso o rastilho cubo-futurista, e dinamitar esta Lisboa-biombo-postiço-da-banalidade." (p. 49)
É esta Lisboa que várias vezes é retratada ao longo das cartas que vamos percebendo que se trata de uma cidade demasiado pequena para dois espíritos inquietos, dois indivíduos-mundo-sem-mundo, totalmente ‘unfit’ numa Lisboa provinciana que lhe falta alma, vigor. "Lisboa vai-se volvendo uma cidade cosmopolita, onde fundeiam navios e explodem bombas republicanas, mas sem nela acordar uma alma à medida do seu corpo físico. Como o ‘golem’ judaico, Lisboa tem a força de muitos homens, e ninguém lhe soprou o espírito com que a cumpra." (p. 128)
Ao longo das cartas enviadas a Mário de Sá-Carneiro vamos percebendo algum desapontamento, tristeza até pela dificuldade em concretizar a edição do 3º número da revista "Orpheu", no terceiro trimestre de 1915, primeiro por questões relacionadas com ‘timings’ e participantes, mas sobretudo pelas dificuldades de financiamento. Esses estados de espírito contribuem para agudizar, em certa medida, o refúgio de Fernando Pessoa em si próprio, ocultando-se no desdobramento de si mesmo, sendo, pois, várias vidas em simultâneo e todas elas verdadeiras e contrárias. Assim, a verdade revela-se, ocultando-se, deixando a realidade numa linha muito ténue entre o verdadeiro e o falso.
"Sinceridade? Antes estilo, retórica, mentira fingida, e eu a saber que são falsas as frases em que juro ser sincero, e estou descrendo agora mesmo desta frase que escrevo.
Você vê bem o tormento de eu me erguer múltiplo. (…) Com a alma embrulhada para dentro, mal consigo sair da prisão de mim. Não são as suas cartas que se perdem (…), sou eu que me descubro, de mim próprio, perdido." (p. 108)
À medida que os meses vão passando e entrando já em 1916, Fernando Pessoa aflige-se perante o desespero de Mário de Sá-Carneiro que culmina na decisão de morrer "mesmo não morrendo deveras" (p. 151). Aquilo que era interpretado como fazendo parte do movimento intelectual, concretizou-se efetivamente no dia 26 de abril de 1916.
Ficção? Ou realidade? Tendo chegado o leitor ao final das "Cartas Reencontradas", estará já completamente arrebatado com a obra direcionando a sua atenção para dois dos grandes génios da literatura portuguesa contemporânea muito para além de categorias como ficção e realidade. "Os loucos inventam o mundo que não há." (p. 50)
A publicação das "Cartas Reencontradas" de Pedro Eiras coincide com a comemoração do centenário da morte de Mário de Sá-Carneiro, constituindo, desta forma, um acontecimento editorial a ter em consideração.


Texto elaborado por Jorge Navarro

Novidade Bertrand

Escondi a minha voz
de Parinoush Saniee
O Irão, país de nascimento da autora e onde os seus livros foram alvo de censura, volta a estar como cenário de fundo nesta comovente história sobre um menino diferente. Escrito numa narrativa fluida, em que cada personagem é, à sua própria maneira, vítima de uma vida que talvez não fosse exatamente a que esperava viver.  
Escondi a minha voz é baseado em factos verídicos. Esta é uma história que faz um retrato do Irão atual através do olhar de um menino e das suas relações familiares, no qual é realçada a dimensão humana e social daquele país do Médio Oriente. Porém, o drama das emoções vividas pelas personagens ultrapassa as barreiras geográficas.   
Uma história em que as vozes narrativas alternam entre o menino, Shahab Jun, e a sua mãe. A importância de educar, dar amor e atenção às crianças desde os seus primeiros anos de vida, de modo a minimizar as cicatrizes que estas transportarão ao longo da sua vida, a falta de compreensão de saber lidar com uma criança diferente e as expetativas depositadas pelos pais nos seus filhos são temas presentes neste livro. 

Convite Elsinore


quarta-feira, 20 de abril de 2016

"Tim" de Colleen McCullough

Sabia de antemão que este livro me traria aquele entusiasmo que me acomete após uma leitura especial e que adoro partilhar com vocês! Gosto muito desta escritora australiana que, com o seu Pássaros Feridos, me fez apaixonar pela sua escrita há tantos anos atrás. Tim foi reeditado o mês passado pela Bertrand mas foi o seu primeiro livro. 

Eata obra conta-nos uma história verdadeiramente especial. Sem que, aparentemente, se entenda quais as razões, surge uma amizade entre Tim, um rapaz de 25 anos de uma beleza indiscritível mas "fraco" da cabeça, ou seja com um atraso intelectual que o mantém ainda em modo "criança", e Mary, uma solteirona de 43 anos, de carácter rígido, porte austero e intelectualmente muito dotada. Uma entrega de ambas as partes que quase ninguém entende e que é alvo de comentários trocistas e maledicentes. Pode o amor vingar entre dois seres tão diferentes que, no entanto, parecem completar-se? 

Uma história que prende logo nas primeiras páginas, fruto de uma escrita cativante que a autora soube melhorar ainda mais em "Pássaros Feridos", o seu segundo livro, e que me deu muito prazer ler. Um dia e mais um pouco de outro e as páginas voaram...

Um romance com um final feliz de uma autora a repetir. "Agridoce" já está na estante a aguardar vez. Recomendo a sua leitura!

Terminado em 17 de Abril de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

Uma história de amor única e inesquecível. Mary Horton tem quarenta e três anos e vive num subúrbio tranquilo, de classe média, na costa australiana. É uma mulher solteira, muito rígida e distante, que conseguiu construir uma vida às suas próprias custas, mas o seu conceito de «vida» não inclui relações pessoais. Sem um namorado nem amigos, Mary não quer deixar ninguém entrar na sua vida solitária. Tim Melville é um trabalhador manual de vinte e cinco anos, com o rosto e o corpo de um deus grego, mas a cabeça de uma criança. Num mundo cruel e inflexível, apesar da sua família maravilhosa, Tim acaba muitas vezes por se deixar levar pelos que se dizem seus amigos e que se aproveitam dele. Tim conhece Mary por acaso, numa manhã de verão, e aquilo que começa por ser um dia de trabalho para ele transforma-se numa relação que vai mudar a vida dos dois.

terça-feira, 19 de abril de 2016

"Liberte-se de Pensamentos Tóxicos" de Rute Caldeira

A convite da autora deste livro e também da editora Manuscrito fui a uma aula de yoga dada pela própria Rute, num espaço muito acolhedor em Arroios, o Yoga Live Academy. Muito simpática e com uma leveza que fez parecer todos os movimentos do yoga muito fáceis e simples, a Rute mostrou-nos como pequenos exercícios podem fazer o nosso dia funcionar melhor e/ou acabar em beleza com um sono profundo e reparador.

Pratico yoga, pilates e streching uma vez por semana, mais ou menos. Faz bem à minha coluna e a minha cabeça agradece. Adoraria fazer taichi, mas ainda não arranjei local que me agradasse.

Assim, com um tempo dos diabos, lá fui sexta feira passada fazer uma aula de yoga a fim de me libertar dos pensamentos tóxicos, era a proposta.

Gostei claro! Pequenas nuances daquilo que habitualmente faço, fizeram com que percebesse um pouco melhor como fazer os exercícios e como libertar tensões. As minhas companheiras de aula pareciam relaxadas no final dos exercícios e houve até quem viajasse para o mundo dos sonhos aquando do relachamento...









segunda-feira, 18 de abril de 2016

"Regresso a Mandalay" de Rosanna Ley

Partindo de uma história comum - uma viagem de trabalho que a personagem principal devido ao seu trabalho tem de fazer - Rosanna Ley consegue mostrar a sua mestria e os seus conhecimentos numa história que envolve o leitor numa onda de quase magia! Eva restaura antiguidades e parte de Inglaterra para a Birmânia, país onde o seu avô deixou, quando jovem, recordações muito intensas e sonhos por concretizar.

Leva duas missões: uma a nível de trabalho (contactar os fornecedores das peças compradas pela empresa onde trabalha e escolher novos e mais interessantes artefactos antigos) e outra pessoal, uma incumbência do avô: restituir um dos exemplares de um chinthe que o avô tinha trazido por lhe terem pedido para guardar. Mas o mistério que envolve essa pequena antiguidade vai levá-la a muitas descobertas inesperadas! Amor,es antigos que atravessam gerações, um mistério que envolve o roubo de antiguidades, um romance que parece impossível porque a distância é muita.

Confesso que esse país nunca esteve presente nos meus sonhos/passeios/viagens a fazer. Mas fiquei muito curiosa com todo o seu passado histórico e riqueza cultural. Só o clima me deixou exausta pois a autora descreve-o com tanta clareza e minúcia através dos personagens que quase o senti realmente!

Um país de contrastes que merece uma visita. Para quem não pode tão cedo rumar para tão longe, fica o livro e as suas preciosas informações que discretamente ensinam e nos fazem visualizar a Birmânia, hoje Myanmar. Fui pesquisar a sua localização, a sua história de país colonizado, os seus costumes, tentando conhecer um pouco mais de um país para nós situado na outra ponta do mundo.

Recomendo pela história bem conseguida, personagens cheios de carácter e moldados com imaginação e sobretudo pela lição de História que muito apreciei.

Terminado em 15 de Abril de 2016

Estrelas: 5*

Sinopse

Eva Gatsby interrogou-se inúmeras vezes sobre o passado do avô, Lawrence Fox, e o que teria exatamente acontecido na Birmânia, quando ele ainda jovem ali viveu. Eva dedica-se à restauração de antiguidades e os patrões propõem-lhe uma viagem de trabalho àquele país - sobre o qual o avô desde sempre lhe contara histórias fascinantes. É então que Lawrence decide quebrar o silêncio e finalmente falar-lhe do grande amor da sua vida, Maya, a mulher que nunca esqueceu. Numa tentativa de sarar as feridas do passado, confia a Eva uma missão que se revelará de contornos imprevisíveis.
Eva inicia, assim, uma jornada que irá reconstruir o mosaico da história da família e que em simultâneo a obrigará a confrontar-se com a sua capacidade de voltar a acreditar no amor.
Em Regresso a Mandalay, Rosanna Ley descreve-nos as paisagens, os aromas inebriantes dos mercados, das ruas e as fragâncias dos jardins, com tal mestria que nos transporta para os cenários mágicos da Terra Dourada.

domingo, 17 de abril de 2016

Ao Domingo com... João Valente

O mais certo é não saberem quem eu sou. O meu nome é João Valente e publiquei o meu primeiro romance, chamado The Empire (procurem-no numa qualquer livraria que ele aparece), há pouco tempo. Portanto, não se preocupem que não andam distraídos. Acontece que sou mesmo novo nestas coisas. 
No entanto, escrevo há muito tempo. Desde que me conheço. Talvez esteja a exagerar… Tenho memórias anteriores à escola primária e, para dizer a verdade, só aprendi a ler e escrever aos seis anos. Corrigindo, escrevo desde os seis. Na altura, não escrevia romances. Limitava-me a repetir letras ao longo de uma linha tracejada. E era bem difícil. 
A folha em branco, essa velha conhecida… O momento em que tudo é permitido. Depois, a partir da primeira palavra, as possibilidades começam a afunilar-se até que, com o derradeiro ponto final, se tornaram numa história única. Aquela que, sem eu desconfiar, vivia dentro de mim, ansiosa por saltar cá para fora. E, uma vez liberta e à solta, pode tornar-se perigosa. Tal e qual como se estivesse a bordo da Nostromo. 
Eu escrevo porque não consigo não escrever. Estou sempre distraído a imaginar histórias (o que talvez seja pouco saudável) e preciso de as verter para um papel. Quero conhecer todos os seus pormenores e, sobretudo, ficar a saber o seu fim. Eu escrevo até quando não escrevo. Escrevo quando olho para um desconhecido e lhe reconheço uma maneira de andar que se adapta a certa personagem. Escrevo quando leio uma notícia que é um ponto de partida para uma metáfora. Escrevo quando preciso de exorcizar o demónio que construiu um ninho no meu coração.
Gosto muito de escrever. No sentido mais literal. Tenho um prazer físico em sentir uma caneta de tinta permanente a desenhar um conjunto de letras num papel de 120 gramas. É um luxo. Faço-o de vez em quando porque escrever no word é melhor. Poupa tempo. Poupa espaço. E pouca a paciência porque depois perco os papéis e a ordem dos papéis e é uma chatice.
Desconfio que todos os escritores acham que podiam fazer uma melhor figura do que Deus. Se fosse eu a criar o mundo, tinha tido mais cuidado. Basta ler o que escrevo para perceber que os mundos que criei fazem muito mais sentido do que a realidade.

João Valente

sábado, 16 de abril de 2016

Na minha caixa de correio


  

Comprado na Fnac, Gamática do Medo. Que capa, heim?
Comprado nos saldos da Barata, Esta História, de um autor que me despertou a curiosidade.
A Livraria dos Finais Felizes foi uma oferta inesperada da Suma de Letras.
Dançando sobre Vidro e A Linguagem Secreta das Irmãs chegaram pelas mãos da Marcador. Num embrulho todo catita!
Liberta-te de Pensamentos Tóxicos foi oferta da autora. Entregue em mãos, com autógrafo, tive direito a uma aula de yoga... Depois conto como foi.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Novidade Clube do Autor

A Memória
de David Baldacci
Atleta dotado, Decker foi o primeiro a tornar-se profissional na sua terra natal. Mas a promissora carreira acabou antes mesmo de ter começado. Na sua primeira jogada, uma violenta colisão de capacetes arredou-o do campo, deixando-o para sempre marcado por um efeito secundário fora do vulgar. Decker não consegue esquecer-se de nada. 
Quase duas décadas depois, a sua vida muda drasticamente pela segunda vez. Agora detetive da polícia, Decker regressou a casa depois de uma operação de vigilância e encontrou à sua espera um autêntico pesadelo: a mulher, a filha pequena e o cunhado tinham sido assassinados. Com a família destruída, a identidade do assassino tão difícil de descobrir e incapaz de esquecer um único pormenor daquela noite horrível, Decker depara-se com o colapso do seu mundo. Abandona a polícia, perde a casa e chega mesmo a viver nas ruas, como um sem-abrigo, aceitando, volta e meia, trabalhos como investigador privado.
Cerca de um ano depois, um homem entrega-se à polícia e confessa os assassínios. Ao mesmo tempo, um acontecimento terrível quase destrói os alicerces da pequena cidade de Burlington e Decker é chamado para ajudar nas investigações. Decker aproveita a oportunidade para descobrir o que aconteceu, de facto, à sua família. Para desvendar a verdade, tem de usar as suas notáveis capacidades e enfrentar o fardo que elas acarretam. Tem de suportar as recordações que preferia mil vezes esquecer. E é bem possível que se veja obrigado a um derradeiro sacrifício…

Novidades TopSeller



quinta-feira, 14 de abril de 2016

A Escolha do Jorge: "A Noite Não É Eterna"

"A Noite não é Eterna" é o mais recente romance de Ana Cristina Silva que nos apresenta uma narrativa que remonta à Roménia da década de oitenta do século passado, ainda sob o jugo de Nicolai Ceausescu.
Passada nos arredores de Bucareste, o livro centra as atenções no núcleo familiar composto por Paul, um alto quadro do Partido Comunista, a esposa Nadia, professora primária, e os filhos Inga e Drago. Excessivamente autoritário e determinado em ascender no seio do Partido, Paul não pensa duas vezes em entregar o pequeno Drago aos cuidados do Estado, seguindo escrupulosamente a ideia de Ceausescu em criar um exército único capaz de concretizar a revolução socialista.
Determinada em encontrar o filho Drago, Nadia falsifica documentos fazendo-se passar por uma inspetora estatal que supervisiona os orfanatos na região de Bucareste sem que se aperceba que, também ela, é vigiada pela Securitate, a polícia secreta do país. Após algumas tentativas falhadas na senda de Drago, Nadia é contactada pela Securitate propondo-lhe um jogo sujo, caindo desta forma nas malhas terríveis da ditadura através de alguns dos seus inúmeros peões. Em troca da informação relativa à localização do orfanato onde se encontra o seu filho, Nadia vê-se obrigada a vigiar Paul. Não tendo nada a perder, Nadia coloca o objetivo em encontrar o filho em detrimento da desgraça iminente que se abaterá sobre o marido até porque desde o momento em que Paul entregou o filho aos cuidados do Estado que Nadia vive com o sentimento de se vingar do marido desejando-lhe mesmo a morte.
Reencontrará Nadia o seu filho? Até onde pode ir o amor de mãe ferido capaz de incorrer numa pena máxima num regime inclemente?
Nadia vai conhecer a realidade dos orfanatos do seu país tomando consciência da existência de crianças seropositivas que foram infetadas na sequência de transfusões de sangue de acordo com as indicações de Elena Ceausescu. Sem se dar conta, a procura de Drago transformará Nadia num elemento contrarrevolucionário, opondo-se de forma determinada ao regime vigente, para lá do medo e do terror instalado no país, instrumentos utilizados como armas de arremesso.
Nadia integrará um movimento de resistência cuja missão é enviar crianças desprotegidas para a RDA que posteriormente seguirão para o Ocidente a fim de serem entregues aos cuidados especiais de entidades próprias.
Não me alongando em termos de sinopse de "A Noite não é Eterna", o livro ganha, à semelhança de outras obras da escritora, na dimensão psicológica dos personagens e na forma como a narrativa flui. Nadia ocupa a figura central passando de mulher submissa ao marido e ao regime comunista a mulher determinada a pôr cobro a todo um conjunto de injustiças. O seu repúdio face à situação que se abateu sobre si própria é em si mesmo a sua voz de repúdio face a um regime assassino que a todos esmaga com a sua força.
"A Noite não é Eterna" ganharia tanto mais se apresentasse mais alguns aspetos sobre Bucareste e até Timisoara, cidades onde se desenvolve a narrativa. Aspetos simples que constituiriam mais do que o eco ou o pano de fundo de cidades importantes, ainda hoje, naquele país, para além de alguns lugares-comuns que poderiam ter lugar noutras geografias europeias, como na RDA com a sombra da Stasi ou até mesmo Portugal no período salazarista com a atuação da PIDE.
Salvo uma ou outra pincelada histórica que surge no romance, é, com efeito, no final, que com a grande manifestação popular na Praça da República junto ao palácio presidencial e o julgamento sumário do casal Ceausescu ‘a posteriori’ que do ponto de vista histórico, o romance atinge a sua apoteose, com dados concretos que não só ilustram um dos marcos decisivos da história da Roménia contemporânea, mas também a esperança que fica no ar face a um amanhã melhor.
É essa encruzilhada e a esperança face à incerteza do amanhã após o derrube do regime de Ceausescu que Ana Cristina Silva tão bem reproduz. Talvez esteja aqui reproduzida a renovação sempre presente de uma contínua revolução dos cravos que tem ainda tanto abril por cumprir.
Nas ditaduras a cegueira do líder conduz à cegueira da população ao ponto de se reproduzirem atos ignominiosos em nome do líder. A ânsia em ascender dentro do Partido, como no caso específico de Paul, gera a reprodução de ideias e atos terríveis no seio doméstico ao ponto de cada lar reproduzir em certa medida a repressão do Estado sobre os cidadãos. Compreende-se assim que a violência doméstica (nem que seja somente do ponto de vista psicológico) seja um reflexo da violência que o próprio Estado exerce sobre os cidadãos em geral em nome de uma cegueira louca que é continuamente repetida em nome de um louco maior que era, no caso da Roménia, o próprio Ceausescu.
Deste modo, cada lar conseguia reproduzir a figura de Ceausescu através de cada marido e pai de família, tal como acontece com Paul na sua relação com Nadia e os seus filhos Inga e Drago.
Só uma pessoa louca consegue desvirtuar a linha que separa o bem do mal ao ponto de contagiar outros que contribuem para a manutenção do sistema que se alimenta a si próprio. Foi assim na Roménia durante mais de quatro décadas.
Ainda hoje a Roménia sofre as consequências da loucura repressiva de Ceausescu.
Outra das ideias bem conseguidas ao longo do romance é o conceito de revolução que nalgumas ditaduras constitui uma forma de iludir a população dando a ideia de se realizar algo grandioso e extraordinário, transformando o futuro do país em algo glorioso quando na verdade o que se pretende levar a cabo é aumentar o sofrimento da população na medida em que é com esse mesmo sofrimento e sacrifício coletivo que a revolução é concretizada.
"(…) Às vezes sentia-se confusa, porque via genuíno entusiasmo em muitos dos seus colegas, convencidos de que o país tinha descoberto o rumo para o paraíso." (p. 48)
Os opositores aos regimes são, pois, considerados como antirrevolucionários quando na verdade, aquilo que mais ambicionariam era efetivamente uma revolução propriamente dita que pusesse cobro ao regime comunista, ao fim da ditadura.
Gosto de pensar este livro, não na história em si, mas na ideia de ditadura e totalitarismo em si mesmos, na forma como surgem, os contextos favoráveis à sua instituição e à forma como são alimentados, levando e contagiando atrás de si milhares de pessoas que, em certa medida, contribuem para a destruição e corrosão do próprio país.
A intimidade é devastada. O sentido prático e comum da vida perde-se em detrimento de algo maior, o Estado, que tudo mina e tudo corrompe.
Nas ditaduras, a loucura instala-se transversalmente a toda a sociedade porque ninguém ligado ao Partido quer ficar para trás. Por uma questão de sobrevivência, cada elemento do Partido vê-se na iminência em ser denunciado tornando-se também delator, contribuindo para a instalação de um clima de medo, terror em tantas situações. Assim, compreende-se a loucura e o medo que se disseminam nas ditaduras como uma doença infecciosa.
"Nadia aprendera com a mãe a esconder-se atrás do vago, a dissimular o que sentia e a amordaçar o receio." (p. 47)
"Mesmo tentando desviar-se do medo, o sentimento enraizava-se no corpo, pois qualquer colega podia acusá-la de traição pelos motivos mais fúteis." (p. 48)
"Para que a desgraça não invada mais a sua vida, para não ser acusada de fraude e falsificação de documentos, e, sobretudo, se quiser saber onde está o seu filho, tem de passar a vigiar o seu marido e apresentar-me relatórios mensais.
(…)
Nadia compreendeu que aquela era a única maneira de ver Drago. Não hesitou. Disse que sim. Não havia mais nada a fazer. Para ter de volta o filho, tornar-se-ia uma delatora. Era uma escolha sem dúvida penosa, mas Paul merecia todos os castigos." (pp. 64-65)
"A Noite não é Eterna" é uma metáfora sobre as ditaduras que afinal não duram para sempre e os ditadores tão-pouco. Os seus atos, esses sim, permanecerão na memória coletiva, na História de um povo, como forma de alerta e sobreaviso das gerações futuras. Fica sempre a esperança no amanhã que o mundo acorde um pouco melhor.

Texto elaborado por Jorge Navarro.