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sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

A Escolha Do Jorge:" As Ilhas Desconhecidas"

Aproveitando o recente périplo ao arquipélago dos Açores, muni-me de algumas obras cujas narrativas tinham como pano de fundo aquelas ilhas atlânticas de modo a melhor compreender e a sentir a força e a intenção das palavras. Um dos livros selecionados é o clássico "As Ilhas Desconhecidas" de Raul Brandão escrito em 1924 aquando da visita do escritor aos Açores e à Madeira.

A experiência do escritor nas ilhas foi de tal modo intensa que ia tomando notas, redigindo experiências vividas e sobretudo aquilo que sentia enquanto explorava cada ilha, mas também durante cada viagem de barco entre as ilhas permitindo ter uma nova imagem dessas mesmas ilhas.

Raul Brandão pouco alterou do manuscrito inicial querendo transmitir ao leitor as suas primeiras sensações sobre cada ilha visitada tal como afirma na introdução da obra ao mencionar "Este livro é feito com notas de viagem, quase sem retoques. Apenas ampliei um ou outro quadro, procurando sempre não tirar a frescura às primeiras impressões. Tinha ouvido a um oficial de marinha que a paisagem do arquipélago valia a do Japão. E talvez valha… Não poder eu pintar com palavras alguns dos sítios mais pitorescos das ilhas, despertando nos leitores o desejo de os verem com os seus próprios olhos." (p. 9)

Tal foi o encantamento de Raul Brandão em relação às ilhas, bem como às suas gentes e costumes! Ilhas pejadas de lendas, cachalotes e baleias, vinho e tantas outras iguarias que embalam todos quantos aqueles que visitam a região como se tratasse de um conto de fadas à semelhança da ilha do Pico que tanto aparece descoberta em todo o seu esplendor, como permanece encoberta em nuvens durante dias seguidos como se fosse algo intencional ou como se as nuvens tivessem vida própria como várias vezes refere o autor.

O autor alude a todas as ilhas, porém é no Pico onde mais tempo se detém, sendo, pois, absorvido pela grande montanha venerando-a até entre os Canais Faial-Pico e S. Jorge-Pico obtendo uma visão completamente diferente da ilha em si mesma.

"As Ilhas Desconhecidas" é assim um dos primeiros livros de viagens da literatura portuguesa, pelo menos é o mais conhecido tendo sido escrito há precisamente 90 anos. Ainda hoje, passado quase um século após a sua publicação, o leitor pode encontrar alguns dos locais das ilhas ainda intactos ou pelo menos apresentando-se de uma forma ainda muito virgem. De qualquer modo, não importa a época quando se visita cada um dos arquipélagos atlânticos, o deslumbramento do visitante pode ser quase esmagador face às belezas naturais que as ilhas encerram em si mesmas mexendo tantas vezes com o imaginário e intelecto de cada um.

Termino o artigo com um dos excertos mais tocantes de "As Ilhas Desconhecidas" alusivo à caça à baleia que tanto marcou a cultura e a economia dos Açores durante o século XX até à sua proibição em 1984.

"Lá de cima do poleiro o vigia ergueu-se de salto, deu sinal de baleia à vista com o búzio e todos os homens desataram a correr para as canoas. Nas Lajes, noutro dia, saía um enterro dum baleeiro morto no mar, quando do Alto da Forca anunciaram o bicho. Ia tudo compungido – ia a mulher compungida e os pescadores compungidos, o padre, o sacristão, a cruz e a caldeira – iam aqueles homens rudes e tisnados em passo de caso grave e fatos de ver a Deus – e logo a marcha compassada parou instantaneamente e mudaram instantaneamente de atitude: ficou só o padre com o latim engasgado e o caixão no meio da rua, e os outros, enrodilhados, levaram o sacristão, de abalada, até à praia. Baleia! Baleia!... Deixam um casamento ou um enterro em meio, um contrato ou uma penhora, as testemunhas e a justiça, e correm desesperados a arrear à baleia. No Cais do Pico e nas Lajes ninguém se afasta da praia. Estão sempre à espera do sinal e com o ouvido à escuta, os homens nos campos, as mulheres nos casebres. E enquanto falam, comem ou trabalham, lá no fundo remói sempre a mesma preocupação. São tão apaixonados que até este cheiro horrível, que faz náuseas e que se entranha na comida e no fato, lhes cheira sempre bem.
- Baleia! Baleia!
E toda a população acode aos barcos. Vejo daqui a fiada de casas à beira da estrada, o cais de embarque com o gorduroso barracão de madeira, tudo negro, enfumado e fétido, e por toda a parte, nas pedras escorregadias e na água azul, vértebras, carcaças boiando e restos ensanguentados que cheiram a podre que tresandam.
- Nosso Senhor vá com eles!
- Nosso Senhor lha dê sem perigo! – dizem as mulheres.
- O pão do meu José vai na canoa – grita outra, debruçada para os homens que empurram o barco a toda a pressa." (pp. 111-112)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

"Aço" de Silvia Avallone

Muito se tem falado nas viagens que os livros proporcionam. Belas, não há dúvida! Longas e repletas de emoção, também. Mas há viagens inesperadas. Viagens que nos fazem viver outras vidas e conhecer outras realidades. Serão as mais belas? Não sei responder mas são, certamente, as que nos permitem crescer um pouco mais. Saboreando melhor os prazeres que a vida nos dá. Apreciando o nosso cotidiano porque tão diferente.

Com este livro fiz uma viagem particularmente gratificante! Entrei num mundo desconhecido de uma cidade do litoral italiano que gira à volta de fábricas de aço, apreciei a sua rudeza, a beleza uma escrita sem travos na língua que, no início, custa a ouvir (leia-se ler). Duas amigas. Uma amizade de infância onde as promessas estão por realizar mas que fazem parte de sonhos que se sentem reais. Quem não teve amizades assim? E, no entanto, o ambiente que as cerca é de violência, de maus tratos, de perversão até.

O crescimento traz o desejo de união, de amor, da parte de uma delas que não é correspondido. E a separação torna-se uma realidade. Francesca e Anna. A elas juntam-se as histórias de Mattia, Alessio e Cristiano. Sandra e Rosa. Sente-se o peso que as unidades fabris impõem às vidas das personagens, e seus condicionamentos. O desejo de fuga está presente em todos os futuros sonhados. O ideal é sair para bem longe, o real é a permanência em Piombino, a cidade siderúrgica, que no verão se transforma por estar junto ao mar.

Um romance que apreciei muito ler, sobretudo pela rudeza do ambiente e pela forma como a autora o soube descrever tão bem!

Terminado em 29 de Julho de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Não é fácil crescer na rua Stalingrado, na cidade siderúrgica de Piombino, no litoral da Toscana, por debaixo da sombra da imponente fábrica de aço. Ter 14 anos num ambiente social degradado, demasiado duro, junto a realidades incómodas como a violência, a droga, a delinquência… e, principalmente, a total ausência de ilusões, complica ainda mais a adolescência de Francesca e Anna. Mas estas duas jovens não estão dispostas a baixar os braços e a dar-se por vencidas. Têm como arma a sua beleza exuberante, a sua sexualidade, e a vitalidade que a juventude lhes confere, e estão prontas a ultrapassar todos os obstáculos, para lutar pelos seus sonhos.
Silvia Avallone, que surpreendeu Itália e comoveu a Europa com esta obra aclamada pela crítica, transporta-nos até a uma Itália industrial e periférica, para retratar a história de uma amizade intensa entre duas jovens que procuram desesperadamente a sua identidade. Com mestria e sinceridade, a autora capta as contradições da nossa época e da nossa economia, onde reina a falta de esperança e de perspetivas e os dramas dos jovens actuais.
Um livro actual, polémico, arrojado e duro como o Aço. Contudo, absolutamente comovente. Aço ensina aos jovens o valor da amizade e do amor e aos adultos, quem são e o que pensam, verdadeiramente os seus filhos.

terça-feira, 29 de Julho de 2014

A Convidada Escolhe: O sorriso de Mandela

O Sorriso de Mandela – Um Retrato Íntimo, do jornalista britânico John Carlin, que na qualidade de correspondente, na África do Sul, do jornal britânico The Independent se encontrava na África do Sul no período entre 1889 e 1995. Dada a sua situação privilegiada acompanhou todo o processo que antecedeu a libertação de Nelson Mandela, foi dos poucos jornalistas estrangeiros a testemunhar a sua libertação em 11 de fevereiro de 1990 e ainda teve ocasião de acompanhar a ascensão ao poder do carismático líder e tomar conhecimento de muitos dos factos, dificuldades ou vitórias, que ocorreram durante a governação do líder histórico sul-africano.

Todo o livro resulta não só de pesquisas, estudos e reflexões sobre a personalidade de Nelson Mandela, como de entrevistas ao próprio ou a pessoas que com ele privaram de perto. Nelson Mandela, figura grande, visionário mas pragmático, que surpreendentemente não se amargurou no cárcere, referência política e moral a nível mundial, que entendeu que era a política e não a vingança a melhor arma para alcançar os seus objetivos, é neste livro abordado com imensos detalhes, quer da sua vida íntima e privada quer da sua postura política, não sendo esquecidos os grandes obstáculos que foram surgindo e a forma sempre diplomática como os foi conseguindo ultrapassar. É uma obra interessante sobre o líder político que dada a filosofia de vida que adotou após tantos anos em que se encontrou privado de liberdade, conseguiu os maiores triunfos pessoais e para o seu país.

Citando o autor:

"A minha esperança é que os leitores, depois de concluída a leitura deste livro, fiquem com uma compreensão mais profunda de Mandela como indivíduo e do porquê de ter sido a figura moral e política cimeira da nossa época."
"No entanto, Mandela tinha os seus defeitos e trazia na pele as marcas de uma grande angústia pessoal. Os seus triunfos no palco político foram conquistados a expensas de infelicidade, solidão e desilusão. Não foi nem um super-homem nem um santo."
"Nelson Mandela, que continuou a ser tão generoso quanto astuto, apesar de ter passado vinte e sete anos na prisão, impõe-se como um símbolo oportuno e uma inspiração intemporal. A humanidade é, e sempre foi, capaz de grandes feitos, e há sempre espaço e razões para fazermos melhor."

Maria Fernanda Pinto

A Convidada Escolhe: Molinos

Depois de várias opiniões favoráveis sobre "Os demónios de Álvaro Cobra" e "Mal Nascer" entre os amigos da Roda dos Livros e na sequência da conversa com o autor num dos encontros do grupo decidi, também eu, iniciar a minha leitura da sua obra.
Estruturo as minhas leituras, habitualmente, quando se trata de um autor que quero acompanhar, pela sua ordem cronológica. Gosto de acompanhar o crescimento da escrita, a sua evolução e apreciar a sua diversidade.
Não sem dificuldade consegui comprar o primeiro romance de Carlos Campaniço.
"Molinos" é um livro muito real, com passagens que nos transportam para as histórias da oralidade rural. Mais do que escrito, imagino-o como uma tela, de fios entretecidos. No coração do Alentejo profundo dos anos 40 desfilam personagens reais e histórias diversas que nos retratam com verosimilhança a sociedade da época.
O relato crú, e por vezes revoltante, é, contudo, como que "adoçado" pelas palavras com que é transmitido, numa riqueza de escrita que por vezes se torna poética.
Com pinceladas de realismo mágico e um toque de neo-realismo, este não é um romance "cor-de-rosa", nem quando aborda os amores de Alfredo Mendonça de Oliveira. É um romance duro sobre a dura realidade da aldeia fronteiriça de Molinos, vizinha de ficção da real Safara, de onde o autor é natural. Um livro sem fim doce, mas real, muito real pois na vida há casos nunca resolvidos, injustiça e mal entendidos que permanencem.
História de contrastes entre rico e pobre, bem e mal, viajei no tempo durante a sua leitura. De tal forma me senti parte da história que nem me incomodou uma característica que habitualmente me desagrada. Carlos Campaniço teçe com mestria vidas, tempos e espaços num mesmo capítulo, com transições que se fazem de parágrafo para parágrafo sem aviso prévio e leva-nos a acompanhá-lo sem questionar.
Um primeiro romance de eleição, para mim, que faz juz aos rasgados elogios que têm recebido da parte dos amigos da Roda dos Livros as obras mais recentes deste autor, e minhas próximas leituras.
Um romance que merece, certamente, ser reeditado.

Excertos
"Demorou muito tempo até se deixar vencer pelos seus apelos rurais e tentou levar a vida pacífica dos seus primeiros anos de sacerdócio, mas os anos julgaram-no e cada dia passado flagelava-se-lhe a alma, vencia-o uma voz atormentadora que só ele escutava e o acusava de trocar a defesa dos miseráveis pelo seu comodismo estatutário. Quando entrou na casa dos sessenta anos era um clérigo gasto pelas emoções, calvo como nunca se imaginou e devastado pelo seu conflito interno. Durante anos tentou harmonizar gentes, amparar os frágeis de espírito e de boca, reuniu com uma dezena de bispos que governaram a Igreja durante todos aqueles anos , mas não reconheceu uma só melhoria ou progresso na qualidade de vida das gentes, desde os seus passos de menino até ao átrio da sua velhice. Assistiu à exploração dos homens, vendo-os receber por uma jorna diária o equivalente ao preço de um pão e um quarto de litro de azeite, à elevação dos latifundiários a caudilhos feudalistas que dispunham das autoridades locais para satisfazer as suas quimeras de justiça. Viu as crianças, que havia baptizado, usadas no cativeiro dos campos, quando ainda lhes tremia a mão para assinarem o nome. E tomou uma consciência dorida da sua inutilidade, porquanto nem as suas rezas haviam mudado o mundo nem as suas palavras retraídas, errantes de pacificação, acrescentaram harmonia social à aldeia." (p. 16)
"(...)
Quando o velho Diogo Mendonça de Oliveira foi encontrado morto, sentado numa cadeira, junta à
mesa de dominó, ainda lhe corriam as lágrimas pelo rosto. Foi um assombro sem precedentes, porque passadas vinte e quatro horas, após a sua morte, ainda as lágrimas lhe corriam pelo rosto abaixo e foi
necessário que uma empregada estivesse junto dele para lhe limpar, amiúde, o rosto molhado. O padre Lourenço mandou um telegrama ao bispo, para lhe pedir indicações sobre os procedimentos a tomar neste caso, pois havia quem julgasse tratar-se de um milagre (...) Havia mais que atribuiam o fluxo das lágrimas a uma outra vertente divina, que estava relavionada com o alcance de Deus em pôr em evidência aqueles que não morrem em arrependimento pela crueldade dos seus actos em vida. Estava pagando pela ruindade com que tratara os empregados e os desfavorecidos. (...)" (p. 111)

Fernanda Palmeira

"Sonhos de Papel" de Ruta Sepetys

Como gostei deste livro!

Esta foi uma leitura de fortes contrastes que gostei muito de ler. O mundo de Josie é, realmente, diferente daquele onde me movo com à vontade e, talvez por isso mesmo, tivesse gostado tanto!
Ela cresceu e viveu nos subúrbios de New Orlens entre "bandidos" e "cavaleiros". Gostei da diversidade de personagens com personalidades e vivências tão opostas!

Diz-se que ninguém pode dar o que não recebe… por vezes, quanto menos se recebe no que concerne ao amor e cuidados por parte daqueles que, sendo família, deveriam ser os primeiros, encontramos nos amigos que nos rodeiam uma rede de apoio que nos sustenta e nos equilibra. "Os amigos são a família que escolhemos", li por aí. Josie é criada pela mãe, prostituta de luxo, sem carinhos, sem afectos e sem valores. No entanto, no meio decadente onde habita encontra amigos que a apoiam e lhe dào a mão sempre que precisa: Willie, a dona de um bordel; Cokie, o choffeur de Willie; Jesse, o amigo motoqueiro, Charlotte, a amiga rica e de boas famílias; e Patrick, o filho do bibliotecário!

Josie encontra, também, nos livros um apoio: ela é uma leitora ávida e compulsiva! (Como sabe bem encontrar alguém, ainda que pertença ao mundo do imaginário, que nos perceba...LOL)

Com uma escrita muito apelativa e com diálogos empolgantes, a autora transporta-nos para situações quase do faroeste que, se não estivéssemos tão envolvidas no livro, seriam consideradas hilariantes. E é precisamente esse contraste de vivências de um mundo que não é de todo o meu, com o facto de elas parecerem-me verosímeis, que me encantou nesta obra.

Recomendo esta leitura!

Terminado em 21 de Julho de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse
Josie Moraine vive mais do que uma vida.
Ela é filha de uma das prostitutas de luxo mais cobiçadas de Nova Orleães, um estigma que a arrasta para o submundo decadente da cidade. Vítima da negligência da mãe, tem nos moradores do extravagante Bairro Francês os seus maiores aliados. De Cokie, humilde e fiel; a Willie, a dona de um bordel cuja frieza esconde um coração de ouro; e a Jesse, tímido, atraente e eternamente apaixonado, todos a protegem e velam por ela.
Mas Josie sonha mais alto e move-se com igual à-vontade nos corredores da livraria onde, graças à bondade de um desconhecido, trabalha e habita. Este é o seu porto seguro. Aqui, entre as estantes repletas de livros, no pequeno escritório que agora lhe serve de quarto, não tem de se defender da sua própria mãe nem fingir ser a durona solitária que domina as ruas. Ao anoitecer, quando a porta se fecha e as luzes se apagam, ela descobre nas páginas que folheia a imensidão do mundo e anseia por uma vida melhor. Uma vida como a de Charlotte, a filha de uma família da alta sociedade, cuja amizade a inquieta a ponto de arriscar tudo, mesmo a promessa de um amor verdadeiro. E quando os seus sonhos estão prestes a realizar-se, um crime muda tudo… para sempre.

domingo, 27 de Julho de 2014

Ao Domingo com... Carlos Ademar


Comecei a publicar há 10 anos. Fi-lo na presunção de que tinha uma profissão (inspetor da PJ) que me proporcionava acesso a histórias que, mescladas com o cimento da ficção, poderiam resultar em proveito e prazer dos leitores. Nunca quis (nem quero) seguir o modelo do policial tradicional, que vive muito do suspense que reside na descoberta do autor do crime e da forma como a ele se chega. Essa componente existe, mas está longe de ser a parte de leão dos enredos que crio. Nos meus livros procuro, essencialmente, refletir a vida portuguesa, seja na componente histórica, seja quando abordam o quotidiano. Procuro introduzir um valor acrescentado aos leitores (assim o entendo), que os leve a questionar sobre a realidade que os rodeia, no que toca, por exemplo à sociedade e à (in)justiça que nos rege. Nesta perspetiva, não me choca ser considerado um escritor de intervenção, talvez inserido naquela corrente que já alguém definiu como de Neorrealismo Revisitado – agrada-me até. 

Em termos da abordagem à contemporaneidade, refiro o meu primeiro livro, saído em 2005, O Caso da Rua Direita, que aborda o crime de morte por encomenda, as dificuldades que oferece à investigação, bem como as dinâmicas que se podem gerar numa brigada de homicídios; Estranha Forma de Vida, publicado em 2007, trata o crime organizado associado a certos estabelecimentos de diversão noturna, com os vários tráficos inerentes (pessoas, drogas, armas, etc.), a violência estratégica e as dificuldades com que o atual sistema de justiça se debate para lhe dar combate (vai na terceira edição); Memórias de um Assassino Romântico, publicado em 2008, debruça-se sobre o efeito que o sentimento de injustiça pode gerar numa mente perturbada, que, dentro da sua loucura, procura repor os níveis de justiça que não sente. 

Em 2012 saiu o meu último livro pela Oficina do Livro, O Bairro, que, centrando-se na Cova da Moura, trata a problemática que envolve os bairros degradados, as razões porque podem transformar-se em ninhos de criminosos e, na perspetiva do autor, a forma de tentar evitá-lo. 

Relativamente a romances históricos ou de época, dou conta de O Homem da Carbonária, saído em 2006 (que se encontra esgotado após a segunda edição). Nele procurei dar a conhecer a Carbonária Portuguesa, organização tão desconhecida e que tanto peso teve na implantação da República. Procurei ainda levantar algumas questões sobre as causas que levaram à queda da Primeira República e consequente instauração da ditadura que liderou os destinos de Portugal quase meio século. O Chalet das Cotovias, o meu mais recente romance, saído em 2013, aborda os anos trinta, mais precisamente a edificação do Estado Novo sob a égide de Salazar, com tudo o que representou em termos de retrocesso civilizacional e que empurrou o país para as catacumbas do subdesenvolvimento europeu; o terceiro romance histórico é A Primavera Adiada, saído em 2010, que aborda o estertor do marcelismo e as desilusões dos primórdios da vida em liberdade.

Num outro registo, saiu neste ano de 2014, No Limite da Dor (o meu único livro de não ficção), em coautoria com Ana Aranha, da Antena 1. Com a devida contextualização histórica, não é mais do que a transposição das entrevistas realizadas a antigos presos políticos e as suas experiências dolorosas com a polícia política do antigo regime, que passaram no programa de rádio com o mesmo título. Para lançamento da Parsifal, editora de Marcelo Teixeira, onde saíram os meus mais recentes livros, participei numa coletânea de contos, em que trinta autores foram convidados a escrever sobre uma capital do mundo. Escolhi Bissau e o livro tomou o título de Contos Capitais. 

Abordando o futuro próximo, encontro-me a aprofundar a minha dissertação de mestrado em História Contemporânea, defendida este ano na FCSH da Universidade Nova, tendo em vista a publicação em 2015 da biografia do capitão de Abril, Vítor Alves. Conto regressar à ficção e ao romance histórico em 2016, trabalhando sobre o princípio dos anos cinquenta do século XX, o estado do regime e as lutas, por vezes sangrentas, que ocorreram dentro da oposição clandestina que procurava combatê-lo. Muitos outros projetos fervilham, mas resisto e prossigo, como sempre, com um passo de cada vez. 

Boas leituras!          

Carlos Ademar          

sábado, 26 de Julho de 2014

Na minha caixa de correio

   
  
  

  


Comprados com desconto na Wook os três livros de Pedro Garcia Rosado.
Da Editora Guerra e Paz, A Menina de Cristal.
Da Vogais, Do Holocausto à Salvação.
Da Planeta, Vestido para a Morte e Enquanto Dormes
Os Quinhentos e Eu, Maria Pia foram ganhos no Liga e ganha.
O Voo Final foi comprado com 30% de desconto e com um vale Fnac de 10€.
La Coca e Oa Cães e os Lobos foram comprados na Bertrand Online com 50% de desconto.


sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Resultado do Passatempo: "Um Grito de Socorro"

Eis que finalmente consegui um tempinho para publicar este passatempo!

Das 374 participações foi seleccionado o n* 103 que corresponde a:
- Daniel Ferreira de Pedras Salgadas
Espero que gostes desta leitura, Daniel! Muitos parabéns!

Para mais informações sobre este livro, consultar a Editorial Presença, aqui!

Novidade ASA

Pecadora
de Madeline Hunter
Habituada a uma existência pacata, Celia Pennifold vê a sua vida virada do avesso após a morte da mãe, Alessandra Northrope, uma cortesã afamada. Para além de uma pequena casa, a mãe deixou-lhe de herança apenas dívidas e uma reputação manchada. O destino de Celia já está traçado há muito. Ela foi educada para seguir as pisadas da mãe. Mas Celia é determinada e tem os seus próprios planos… que não incluem, evidentemente, o misterioso inquilino com que se depara ao instalar-se no seu novo lar.
    Jonathan Albrighton encontra-se numa missão a mando do tio, pois há suspeitas de que Alessandra possuía informações delicadas sobre alguns dos homens mais influentes da sociedade londrina. Jonathan pensava estar perante uma tarefa simples, não contava encontrar em Celia uma adversária à sua altura…

Novidade Esfera dos Livros

As Três Chaves da Felicidade
de Maria Jesús Álava Reyes 
«Se nos perguntassem se queremos ser felizes, salvo casos extremos, a maioria de nós responderia afirmativamente, mas, se nos pedissem que identificássemos as três chaves da felicidade, muitos de nós teriam dificuldades para encontrá-las. A experiência como psicóloga demonstrou-me que é impossível alcançar a felicidade se, previamente, não aprendemos a perdoarmo-nos bem» In introdução

- Perdoar-nos a nós próprios pelo que fizemos no passado ou por aquilo que deixámos de fazer;
- Aprender a gostar e a sermos amigos de nós próprios;
- Agarrar as rédeas da nossa vida.

Estas são as três chaves para a felicidade, que a psicóloga bestseller María Jesús Álava Reyes, autora de A Inutilidade do Sofrimento com mais de 70 mil exemplares vendidos, nos revela ao longo das páginas deste livro transformador.

Um livro que nos inspira a olhar a vida de frente, com determinação, sem os medos habituais que nos impedem de desfrutar e aprender com cada experiência, com cada vivência, com cada oportunidade que nos surge. Perdoarmo-nos não significa esquecer, mas sim ganharmos alguma paz interior. Aprendermos com os erros do passado, o que fizemos ou deixamos de fazer, e com as experiências mais difíceis, sem perdermos a nossa autoestima. Ao perdoar-nos, reconciliamo-nos connosco e com os outros. Aprendemos a gostar mais de quem somos. A sermos os nossos melhores amigos. Recorrendo a casos reais, a exemplos e exercícios práticos, esta psicóloga espanhola com longa experiência profissional, convida-nos a fazer uma viagem estimulante, onde a primeira e fundamental etapa para atingir a felicidade é esta possibilidade de nos perdoarmos a nós próprios. O perdão permite-nos sermos donos das nossas emoções e perceber que a felicidade não existe sem sensibilidade, sabedoria ou flexibilidade. E, ao sermos donos das nossas emoções saberemos assumir com tranquilidade o comando da nossa vida.

Novidade Alfaguara

Quatro Amigos
de David Trueba
Quatro amigos, decididos a queimar os últimos cartuchos de uma juventude que terminou, deixam para trás os seus trabalhos, famílias e problemas e improvisam uma viagem de férias por Espanha, sem destino. Em Madrid, deixam frustrações e amarguras e partem juntos rumo a uma liberdade e a uma juventude perdidas, aos excessos adolescentes de álcool e mulheres.
     E é assim que Solo, Blas, Raúl e Claudio vão descobrir que tudo tem um fim, que o passado passa sempre factura e que as gargalhadas desbragadas escondem, por vezes, tristezas profundas. Entre confissões, acusações e traições, os quatro amigos vão descobrindo a verdade sobre cada um, e é uma história de amor mal resolvida que dá o mote para uma outra viagem, interior, de encontro a uma lição de vida que a todos servirá: o importante é viver da melhor maneira possível. Quatro Amigos é o relato agridoce do final de uma era, de uma idade. David Trueba recupera, neste segundo romance, os temas e o tom que o caracterizam: as frustrações de uma geração e as amarguras do crescimento num tom contrastante entre a comédia e o romantismo, a ternura e o rancor. Um talento narrativo sem rival na nova literatura espanhola.

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

A Escolha do Jorge: "Quatro Amigos"

"Quatro Amigos" é o terceiro romance do madrileno David Trueba a ser publicado em Portugal através da Alfaguara/Objectiva.
Para quem já conhece as obras anteriores do escritor, certamente irá encontrar alguns dos ingredientes que são já território seguro de David Trueba, como por exemplo a ironia, a crítica, a boa disposição, o sentido de humor sem cair naquele tipo de romances mais leves que nos fazem somente passar algum tempo bem-dispostos. Se por um lado o leitor é levado a esboçar sorrisos ou até mesmo rir com vontade perante as cenas criadas, o leitor é também levado a refletir sobre diversos temas que certamente também lhe dirão respeito sendo, pois, conduzido a fazer algum balanço sobre este ou aquele ponto específico da sua vida.
Se em "Aberto Toda a Noite" o tema central é a família, no novo romance "Quatro Amigos" publicado recentemente, a tónica assenta na amizade e no amor.
David Trueba faz jus ao título da obra na medida em que reúne quatro amigos, agora adultos, que estando já na casa dos trinta anos decidem passar as férias juntos como nos bons velhos tempos de adolescentes tentando, de alguma forma, contrariar a ideia de que em adultos dificilmente conseguem sair do seio das suas famílias e dos seus compromissos para passar alguns dias com os amigos da velha guarda fugindo assim das responsabilidades do dia-a-dia acrescidas com o peso da idade.
É precisamente neste ponto que estes quatro amigos tão diferentes entre si, com mais ou menos reflexão, tentam travar o avanço da idade e dos compromissos inerentes à própria vida, vida esta que de certo modo, já nos trinta anos, pretendem viver em plenitude refletindo de alguma forma a ideia de uma juventude tardia tão característica na forma de pensar do jovens atualmente. "Invejo-vos porque agora a juventude dura muito mais do que antes. (…) Na vossa idade já não éramos jovens. Agora prolonga-se, vivem num perpétuo estado de infantilismo. Foram libertados de responsabilidades." (p. 213)
Este tipo de pensamento ou simplesmente esta forma de estar ou atitude perante a vida gera/condiciona relações afetivas fortemente debilitadas tendendo a centrar-se tendencialmente em cada uma das partes da relação e não nas duas partes vistas como um todo.
É precisamente esta a segunda ideia forte do livro na medida em que estes jovens não conseguem assumir uma relação dado que a encaram como um fardo na sequência das regras impostas pela sociedade, ou seja, se por um lado há a evidência de sentimentos em torno de outra pessoa, por outro são esses mesmos sentimentos, geradores de algo maior que é o amor que vai acabar por condicionar a relação das partes envolvidas. Assim, a ideia de "casal" gera pruridos na cabeça de Solo, o narrador da obra, que tenta ao máximo dissecar a ideia acabando mesmo com a relação em si mesma. Se por um lado se sente bem com o fim da "prisão" como várias vezes refere ao longo da obra relativamente ao fim da relação que mantinha, por outro lado reconhece que entre ter e não ter alguém para amar e ser amado é sempre preferível optar pela primeira na medida em que a "liberdade" novamente recebida também não lhe traz propriamente uma satisfação e felicidade plenas.
Com estes "Quatro Amigos", David Trueba não nos apresenta soluções para a obtenção da felicidade, no entanto, chama-nos a atenção de que por vezes desperdiçamos energia e oportunidades que nalgumas situações contribuiriam certamente para a nossa felicidade.

Excertos:
"Soa a enciclopédia em fascículos, a livro de auto-realização. Define bem a minúscula organização legal, mas não a reunião do amor. Na minha época de pedante petulante costumava convencer Bárbara de que nunca seríamos um casal, seríamos um mais um que se desejam, que querem estar juntos. Nunca um casal e, no entanto, naquele bar estava sentado um casal típico.
(…)
- Continuo convencido de que tu e eu formamos um casal perfeito. Continuo a acreditar que nascemos um para o outro, mas creio que o erro foi que nos encontrámos demasiado cedo… Sei que um dia voltaremos a estar juntos, mas hoje não pode ser, seria uma fraqueza, não podemos enganar-nos.
Somos o casal perfeito, portanto rompamos." (p. 276)

"E de tanto evitar ser um casal acabámos por não ser nada. Bárbara e eu. Bárbara e eu percorremos para trás o nosso amor em dois meses, passámos de casal a dois seres independentes, depois a dois amantes furtivos, a seguir a dois amigos cúmplices, para voltarmos a transformar-nos em dois estranhos. Foi uma história que acabou com o regresso à origem, sem rompimentos bruscos, sem cenas, sem acidentes." (p. 278)

"O que é o amor? É a eterna pergunta. No princípio da Humanidade as pessoas f***am umas com as outras, sem distinções, li isto. Todos com todos. Mas um dia, alguém decidiu guardar o seu par, não o partilhar. «É minha», disse. – Respirei fundo, sem me atrever a olhar em volta. – Aí lixou-se tudo! Isso é o amor. E o amor trouxe o pior: o casamento." (p. 282)
Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 23 de Julho de 2014

"Os Aquários de Pyongyang" de Kang Chol-Hwan

Um amigo "destas coisas dos livros" emprestou-me este. Não conhecia, nunca tinha ouvido falar dele. "Vais gostar!", disse-me. Não podia estar mais certo.

Para quem quer aprender e conhecer um pouco mais o que se passa na Coreia do Norte este livro é o ideal. É uma leitura forte, pesada mas obrigatória.

Kang Chol-Hwan relata-nos a sua vida desde a sua infãncia e também a da sua família. Não ē fácil de ler, custa ouvir falar de tanta dor, fome, sofrimento sem razão aparente, ou melhor, perceber que a violência é uma forma de calar a liberdade, a justiça.

Kang sobrevive a dez anos num campo de concentração. A morte dorme todos os dias a seu lado. A fome, o frio, a dor, os castigos também. Quando sai, juntamente com a sua família, sente que, tal como no campo, o vigiam e o controlam. A corrupção impera grandemente. A sua fuga para a China e posteriormente para a Coreia do Sul é uma peripécia que nos parece surreal.

Um livro que quero ter na minha estante mas que não vai ser fácil encontrar! Recomendo vivamente!

Terminado a 15 de Julho de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Um dos testemunhos mais impressionantes de um prisioneiro político, Os Aquários de Pyongyang descreve o inferno na terra: um rapazinho de nove anos que, sem qualquer motivo, se vê atirado para um campo de concentração. Começa então um calvário que durará dez anos, o período da adolescência para Kang Chol-Hwan. Animado por uma indignação que jamais o abandonou, ele faz a terrível descrição do regime cruel e desumano a que crianças e adultos são submetidos: trabalhos forçados, lavagens cerebrais, humilhações sistemáticas e castigos desumanos, para além da fome, do frio e das doenças

terça-feira, 22 de Julho de 2014

A convidada Escolhe: O Rei do Monte Brasil

"O Rei do Monte Brasil" foi em 2013 o livro vencedor do Prémio Literário de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues, instituído pela FENPROF a obras literárias escritas por docentes e investigadores/as. Desta vez, foi Ana Cristina Silva, docente do ISPA e autora de diversas obras literárias a galardoada com este prémio.

A obra situa-se no final do século XIX, início do século XX e tem como figuras centrais Gungunhana e Mouzinho de Albuquerque. É uma obra com interesse histórico, pois leva-nos ao período da primeira guerra colonial, quando os portugueses quiseram impor a sua soberania e domínio sobre os povos colonizados, neste caso, do sul de Moçambique, o reino dos Vátuas governado por Gungunhana. Mouzinho de Albuquerque foi o oficial ao serviço do rei D. Carlos I que o capturou e levou prisioneiro para Lisboa e posteriormente para a ilha Terceira.

O início do romance leva-nos a Angra onde Gungunhana é surpreendido com a notícia do suicídio de Mouzinho, no início de Janeiro de 1902. O feroz e vitorioso Mouzinho de Albuquerque era afinal um ser vulnerável e frágil que não tinha tido a coragem de lidar com a sua decadência e queda após um período de ascensão e glória! Mouzinho que nutrira a convicção da superioridade dos brancos sobre os pretos que considerava inferiores, ferozes e mais próximos da condição de animais!

Afinal, eram maiores as semelhanças do que as diferenças entre as duas personagens, ambas despóticas e sem hesitações quando tiveram todo o poder nas mãos.

Gungunhana é uma personagem complexa que viveu a sua condição de chefe máximo de um reino, exercendo o poder de forma ambígua nos seus relacionamentos com os portugueses emissários do rei D. Carlos e os ingleses súbditos da rainha Vitória; eloquente e ardiloso, dominando os seus súbditos pelo terror e o arbítrio; desregrado e insaciável nas suas ambições sem limites. A sua vulnerabilidade revelou-se aquando da morte de uma das mulheres e de um dos filhos. Mais tarde, já longe de África, vivendo a condição já não de rei de Gaza, mas de rei do Monte Brasil na Terceira, onde se embrenhava para caçar coelhos e fugir dum mundo que lhe era estranho. Agora, Gungunhana não passava de uma sombra ou de personagem exótica para ser observada por jornalistas, senhoras da sociedade ou pela população. Aliás, Gungunhana apercebera-se, na hora da sua captura, que era um homem só, abandonado e desprezado pelo seu povo que não lhe tinha amor, mas sim medo.
Acompanhamos neste romance as últimas horas da vida de Mouzinho de Albuquerque, que havia tido as maiores honrarias e reconhecimento até a nível internacional, pelos seus feitos e bravura em África. Mas, com a queda da sua popularidade e importância na corte, Mouzinho decidiu pôr cobro ao sofrimento, suicidando-se. Ele acha que fez o melhor pelo seu país e que Portugal lhe virou as costas, não vê préstimo em continuar a viver, mas não quer que o seu suicídio seja visto como cobardia ou acto de loucura. É firme a sua intenção de pôr termo à vida, mas ao acompanharmos as suas últimas horas de vida, como se de um filme se tratasse, vamos percorrendo as ruas da baixa lisboeta como pano de fundo e o/a leitor/a é convidado/a a acompanhar os pensamentos, os sentimentos, as dúvidas e as contradições de quem sempre teve uma imagem de firmeza e segurança e cujo acto poderá ser entendido como fraqueza e cobardia. São as figuras omnipresentes da mulher, da rainha D. Amélia por quem nutre uma paixão platónica e do rei D. Carlos que o acompanham em pensamento antes do tresloucado acto tão bem retratado nalgumas das páginas deste interessante romance que aborda estes heróis da nossa história como pessoas de carne e osso e não apenas como personagens de quem apenas conhecíamos pelo nome e pouco mais.

Almerinda Bento

A Convidada Escolhe: Pecado

Não sou de virar costas a um desafio e, não fosse a oferta deste livro, sou sincera, jamais o teria lido.
Quando o recebi pensei estar na presença de mais um da nova onda de bdsm e fiz esse comentário, tendo-me sido negado tal associação.
De facto a capa engana e a autora escreve outro género.
Pecado é um romance de época, embora com uma marcada tendência para o erotismo.
Os personagens levam-nos a conhecer um pouco da época que, pelos factos descritos se situará nos finais do séc. XIX, e a cultura da Inglaterra de então. Preconceitos sociais, violência doméstica, o papel da mulher na sociedade e até um leve aflorar da questão da escravatura são entretecidos com a aventura erótica de Jessica e Alistair.
Um livro que se lê muito rapidamente, uma publicação mesmo a tempo do Verão.

Fernanda Palmeira

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

"Um Grito de Socorro" de Casey Watson

Sei que muitos leitores não apreciam este tipo de leitura. Ou por se tratar de histórias de alguma rudeza e violência, por ter crianças envolvidas, "and so on"...

Gosto de as ler por essas razões precisamente mas, sobretudo, porque, muitas delas, possuem na sua génese uma história verídica. Mas seria um pouco mórbido se os meus gostos ficassem por aqui... Gosto verdadeiramente de as ler porque, por detrás da história, encontramos pessoas que lutam para que essas crianças tenham a vida que deveriam ter, que superem o seu passado. Muitas das vezes, como é o caso deste livro, a autora escreve o que vivenciou.

Casey Watson é uma mãe de acolhimento de crianças "em fim da linha", ou seja, de crianças que devido aos seus graves problemas estão sujeitas a ir para reformatórios e organismos afins. É um acolhimento que envolve também a sua família, seu marido, seus filhos e neto. Sem descurar esses seus amores, Casey tenta integrar Sophiauma criança de apenas 12 anos, e orientá-la. Tarefa difícil quando lida com situações difíceis provocadas pela vivência dura de Sophia e da doença que sofre, a Doença de Addison.

Independentemente da veracidade da história, que nos remete para profundos pensamentos, gostei da forma como o factor mistério nos deixa inquietos e nos faz ler o livro muito rapidamente. Como estou de férias pude devorá-lo num dia só.

Muitos factos que se nos insinuam nesta história ficam por revelar. Não achei importante, embora gostasse de os ver esclarecidos (um deles diz respeito ao acidente que vitimou a mãe de Sophia). Ás vezes a vida é mesmo assim: não há só branco e preto. O cinzento, a cor da incerteza, também lá está. Temos de saber viver com ele.

Gostei muito e recomendo.

Terminado em 16 de Julho de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Quando Casey Watson recebe Sophia no âmbito do programa de acolhimento, imediatamente se apercebe de que algo não bate certo. O comportamento de Sophia é inconstante e manipulador e a jovem está habituada a conseguir tudo o que quer, reagindo violentamente quando a contrariam. Parece só ter olhos para os homens da família de acolhimento e trata as mulheres com insolência. À medida que o tempo passa, Casey apercebe-se de que este comportamento esconde uma infância repleta de dor e abusos. Mas, quando as explosões violentas de Sophia começam a ameaçar a integridade física dos membros da família, Casey pergunta-se se será a pessoa certa para ajudar esta menina profundamente perturbada.

domingo, 20 de Julho de 2014

Resultado do Passatempo do 4º Aniversário do blogue (Presença)


Venceu(ram) este passatempo, o(s) seguinte(s) participante(s), que irá(ão) receber o(s) prémio(s) indicado(s) (serão contactados por email):



Maria Reis (de Esgueira)

  

Para mais informações sobre os livros, ver o site da Editorial Presença aqui!

Ao Domingo com... António Martins

Nasci à beira do Dão, rio que beija o Mondego junto à Aguieira. Corria o ano de 1971 numa aldeia vinhateira e rodeada de muralhas de pinho, perfumado por rosas em maio e abundante de milho em Agosto.
Cresci ouvindo as histórias de vida dos meus avós. Os paternos contavam a sua odisseia desde os confins do distrito da Guarda, junto à raia, até ao sul do distrito de Viseu. Os maternos falavam entusiasticamente dos tempos em que moravam mesmo `abeira do rio. Também recordavam  os tempos “da velha senhora” e assustavam-me com as histórias de bruas, de lobisomens e de aparições nas encruzilhadas ao meio-dia e à meia-noite.
Depois havia a magia do trabalho do campo: a lavra, a sementeira, a rega do milho, a desfolhada, as ceifas, a vindima…  E as festas: S. Sebastião, S. Miguel, os Santos populares, a matança do porco. E havia os trabalhadores com as suas alcunhas: o “Gigante”, o “Viúvo”, o “Mudo”,  o “Ti Fonsito”, o “Sábado”, etc. Recordo o seu cheiro a suor, a tabaco e a bebida. Recordo que me chamavam “Tonito” e me contavam histórias da transumância na Serra do Montemuro, das ceifas no Alentejo, da Guerra em Angola e na Guiné e dos portugueses que tinham emigrado para a América e o Brasil.
Desde cedo estas histórias povoaram a minha imaginação, alimentada, também, pelos livros que lia enqunato guardava as ovelhas do meu avô. O meu santuário era a carinha da Biblioteca Intenerante da Fundação Gulbenkian. Requisitava em meu nome e no dos meus amigos que preferiam roubar fruta ou jogar às escondidas. 
A escola era o meu mundo. Tinha boas notas mas jogava muito mal futebol e não tinha jeito para falar com as raparigas. Escrevia histórias e lia-as às ovelhas,à galinhas, à minha cadela Lili. Todos achavam que eu era meio tolo…
Este tolo teve sempre sede de livros, de cultura e didática. 
Casei em Lamego. Fiz a viagem do Dão para o Douro, do Caramulo para as Meadas, do vinho morangueiro para o vinho cheirante de Lamego. Dos sonhos e das escritas imberbes da infância e adolescência, passei à escrita estruturada. Comecei na poesia com o livro “No meu rio - sonhos e poemas” (2001). Das minhas vivências por terras durienses e beirãs nasce a minha escrita ficcional presente em várias coletâneas de contos. Inspirei-me em Ardínia, lendária princesa moura que assombra as noites de Lamego, nos mitos da Antiga Grécia, no trabalhador da vinha do Douro, no emigrante em agonia de saudade…

Mais recentemente apaixonei-me pela Literatura do Fantástico e pelas Literaturas Africanas em Língua Portuguesa. Em 2008 publiquei um ensaio sobre as potencialidades de leitura em alunos do 2º Ciclo do Ensino Básico da produção contista de Mia Couto. Neste momento, este livro encontra-se esgotado na sua primeira edição. Espero a oportunidade de uma nova editora para o republicar.
Neste momento da minha vida intelectual tenho vários polos de ação/interesse/trabalho:

  • Literaturas Africanas em Língua Portuguesa;
  • Literatura brasileira
  • Literatura galega 
  • Literaturas do fantástico;
  • Ensino da temática do Holocausto;
  • Revisão de livros.
  • Encontros Literários.


No meu baú tenho mais de 500 poemas e algumas dezenas de contos para publicar e estou a escrever o meu primeiro… romance.

António Martins

sábado, 19 de Julho de 2014

Resultado do Passatempo do 4º Aniversário do blogue (Bizâncio)


Venceu(ram) este passatempo, o(s) seguinte(s) participante(s), que irá(ão) receber o(s) prémio(s) indicado(s) (serão contactados por email):


Paula Castro (de Braga)


Júlia Martins (de Setúbal)

Resultado do Passatempo do 4º Aniversário do blogue (Guerra e Paz)


Venceu(ram) este passatempo, o(s) seguinte(s) participante(s), que irá(ão) receber o(s) prémio(s) indicado(s) (serão contactados por email):


Fernanda Palmeira (de Lisboa)



Resultado do Passatempo do 4º Aniversário do blogue (marcadores de livros)


Marcador de Livro de Susana Machado

Ganharam este marcador de livro criado por Susana Machado,



Os concorrentes abaixo referidos, com as participações que reproduzimos:

Maria João Diogo (Massamá)



Arnaldo Santos (Sto. Tirso)

      Parabéns ao Blogue também nosso
      Pelos quatro saudáveis aninhos de Vida
      Festejar, eu também quero e posso
      Nesta grande alegria incontida.

      O Tempo Entre os Meus Livros
      Com a Cris Delgado ao seu leme
      Deixa-nos, felizmente, cativos
      E o futuro ninguém de nós teme!  

Patrícia Xará (Santiago de Riba-Ul)



Resultado do Passatempo do 4º Aniversário do blogue (Planeta)


Venceu(ram) este passatempo, o(s) seguinte(s) participante(s), que irá(ão) receber o(s) prémio(s) indicado(s) (serão contactados por email):


Sílvia Pedro (da Costa da Caparica)



Resultado do Passatempo do 4º Aniversário do blogue (Quinta Essência)


Venceu(ram) este passatempo, o(s) seguinte(s) participante(s), que irá(ão) receber o(s) prémio(s) indicado(s) (serão contactados por email):


André Silva (de Paredes)


Gizela Mota (da Moita)

Resultado do Passatempo do 4º Aniversário do blogue (Vogais)


Venceu(ram) este passatempo, o(s) seguinte(s) participante(s), que irá(ão) receber o(s) prémio(s) indicado(s) (serão contactados por email):


Elisabete Marques (de Sintra)