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segunda-feira, 29 de Setembro de 2014

"A Caminho de Casa" de Fabio Volo

Não sou estreante na escrita de Fabio Volo. Para mim os seus livros são um valor seguro. É uma escrita simples, terra-a-terra, que nos direcciona para assuntos do dia-a-dia, quase comuns, mas consegue, ao mesmo tempo, abordá-los com profundidade. Os personagens abrem-se-nos por dentro, permitindo-nos olhar para as suas dúvidas, incertezas, medos e conflitos.

Assim acontece com esta obra. Dois irmãos afastados por rivalidades que se foram gerando no seio de segredos de família mantidos pelos progenitores. Até onde as diferenças de comportamento e atitude podem condicionar e manter uma separação de dois irmãos criados e educados de forma diferente? 

Marcados pela doença e morte da mãe, Andrea e Marco seguem caminhos diferentes e é de novo na doença, desta vez de seu pai, que se voltam a juntar estabelecendo laços de amizade e amor. Há que repensar atitudes e caminhos tomados. Não é, no entanto, um caminho fácil. A comprová-lo estão todas estas páginas que nos envolvem e permitem conhecer melhor toda a fragilidade do ser humano. As escolhas tomadas e as suas repercussões, a vida, a doença e a aceitação da morte, o amor entre irmãos, os compromissos, as cumplicidades e as brigas familiares. Questões abordadas pelo autor com simplicidade mas também com mestria.

A verosimilhança do enredo torna este livro muito credível. Fabio Volo conta-nos uma história que pode, muito bem, estar mais perto de nós do que julgamos. Gostei desta leitura que se faz num ápice!

Terminado em 21 de Setembro de 2014

Estrelas: 4*+

Sinopse

A Caminho de Casa é um romance que confirma a maturidade de Fabio Volo como escritor e destaca as qualidades que o tornaram tão apreciado por milhões de leitores.
A Caminho de Casa conta a história de dois irmãos que são o oposto um do outro. Andrea é engenheiro, responsável, tem um casamento perfeito e o dom de fazer sempre as escolhas certas. Marco, três anos mais novo, é dono de um restaurante em Londres, rebelde, instável e um mulherengo inveterado. Nunca se sentiram íntimos na sua relação, mas a súbita doença do pai irá aproximá-los e fazê-los compreender muita coisa sobre si próprios e sobre a família.
Um romance que atesta a maturidade de Fabio Volo como escritor e que nos fala de temas universais como: o amor, a paixão, o casamento, a amizade, as escolhas que se fazem e as que ficam por fazer, e a extrema importância dos afetos na passagem para a vida adulta.

domingo, 28 de Setembro de 2014

Um Livro Numa Frase



"Diz-se que ninguém é pai só porque tem filhos, tornamo-nos pais aprendendo dia após dia, tendo filhos e educando-os."

In A Caminho de Casa de Fábio Volo, pág. 59

sábado, 27 de Setembro de 2014

Na minha caixa de correio

  

 

Comprado no Continente com 40% de desconto, Anatomia dos Mártires.
Da Quinta Essência vieram Cozinhar com Nutela e Haatchi e Litle B.
Da Asa, Alexander e À Beira do Lago Encantado.

sexta-feira, 26 de Setembro de 2014

Novidade TopSeller


Novidade Chiado Editora

A Segunda Pele da Acácia Mimosa
de Ana Gil Campos
Sara, uma mulher determinada e ambiciosa, no pico da sua carreira como arquitecta sente um grande vazio interior, uma frustração que a consome apesar de ter uma vida aparentemente perfeita. Assim, desloca-se perturbada a Vieira do Minho, a sua terra natal no norte de Portugal, para procurar ajuda da única pessoa que a pode ajudar, a sua alma gémea. A Sara quer desaparecer da sua vida sem que ninguém perceba! De regresso a Lisboa, vê-se nos meandros da maçonaria feminina onde ser apercebe, em pânico, estar envolvida num caso de corrupção com uma ministra do governo português. O seu casamento também se encontra em crise pois vive de aparências. O casal vive como dois estranhos dentro de casa, completamente desligados um do outro, onde a tensão é constante. O pedro, o seu marido que também é arquitecto, aceita o compromisso de trabalhar em São Paulo e faz-lhe um ultimato: ou vai viver com ele para o Brasil ou o casamento está definitivamente terminado. Desesperada e sem saber o que fazer relativamente à maçonaria, ao seu envolvimento no caso de corrupção e ao próprio casamento, resolve fugir para Barcelona, onde se refugia na casa do seu amigo Barden, alto membro da maçonaria espanhola. Durante estas semanas em Barcelona vai descobrir o verdadeiro segredo maçónico e tomar as decisões mais importantes e determinantes da sua vida. 

Novidade Vogais


Novidades Planeta

A Casa Azul
de Claudia Clemente
A moradia de uma família arruinada, no Porto, que é demolida para dar lugar a um condomínio. 
Uma mulher que desistiu de tudo desde que teve de vender a casa azul e despedir-se das suas magníficas árvores. 
Um agente da PIDE que segue, nos anos 60, os movimentos dos habitantes da casa azul. 
Duas irmãs gémeas que desconhecem a existência uma da outra: uma parisiense, outra portuense. 
Um homem num hospital em Paris, gravemente queimado, que todos os dias é visitado por uma jovem. 
Uma história de amor e paixão que nasceu em Paris, no único mês de Maio em que tudo foi possível.


O Vestido Cor de Pêssego
de Rosania Stival
O General Amadeus Barnard, da Cavalaria Ligeira da Grande Armée de Napoleão tinha um título de nascimento. Propriedades. Uma biblioteca preciosa. Era um herói nacional. Bonito como o diabo... 
Adeline Boissinot só tinha dois vestidos. 
Não: apenas um vestido: o que trouxera no corpo quando rumara até Paris, atrás de um sonho que nunca se realizaria... 
O outro, o vestido castanho que ela usava durante o dia e fora adaptado para o seu corpo delicado, era o vestido da criadagem. 
E ele era o seu patrão.



A Mulher Louca
de Juan José MIllás

À volta deste novo romance convivem três Millás: o Millás autor, o Millás narrador e o Millás personagem, o que torna este livro numa mistura entre reportagem e romance, a que se junta um ingrediente autobiográfico. 
O autor transforma-se no protagonista do seu próprio relato, quando ao conhecer duas mulheres que vivem na mesma casa percebe que tem ali material para escrever uma reportagem e um romance. 
«Havia apenas um problema: através de que tipo de personagem iria fazer a narração? E dei-me conta de que o único personagem possível era eu», refere Millás em entrevista ao jornal El País. 
A protagonista de A Mulher Louca, Júlia, trabalha numa peixaria e à noite estuda gramática, porque está apaixonada pelo chefe, que na verdade é filólogo. 
Nos tempos livres, a jovem ajuda a cuidar de uma doente terminal, Emérita, e encontra-se com Millás, que está a fazer uma reportagem sobre a eutanásia. 
Durante as visitas, o escritor sente-se atraído pela ideia de romancear a vida de Júlia, embora para o fazer enfrente o seu bloqueio criativo com a ajuda da psicoterapeuta. 
A realidade transtorna os planos do escritor, quando Emérita revela um segredo que guardou zelosamente toda a vida. O que começara como uma crónica para o jornal converte-se então numa 
espécie de novela, onde se verá apanhado como personagem.

Confissão
de Jodi Ellen Malpas
Neste último livro da trilogia, o leitor vai conhecer o final empolgante da história entre o aristocrata Jesse Ward e a jovem designer de interiores Ava O’Shea. 
The Manor, o local onde começou a sua história de amor apaixonada, enche-se de convidados para o que deverá ser o dia mais feliz das vidas de Ava e Jesse. 
Ela aceitou que nunca conseguirá domar o lado selvagem de Jesse, e também não o deseja fazer. O seu amor é profundo, sua ligação poderosa, mas quando pensa que por fim tudo está bem, de súbito 
surgem mais dúvidas e perguntas, levando Ava a suspeitar que Jesse Ward poderá não ser o homem que pensa que é. 
Ele sabe como levá-la para um lugar além do êxtase... mas também a conduzirá ao desespero? É chegada a hora de este homem se confessar.

Novidades Bizâncio

Na Montanha de Hitler
Superar a herança de uma infância nazi
de Irmgard A. Hunt
Tendo crescido nas imponentes montanhas de Berchtesgaden, a poucos passos de distância do retiro alpino de Hitler, Irmgard Hunt teve uma infância aparentemente feliz e simples. Nas suas memórias poderosas, esclarecedoras e por vezes assustadoras, relata uma infância vivida sob um dirigente diabólico mas persuasivo.
Este não é um livro apenas de memórias, é o retrato de uma nação que perdeu a sua bússola moral. É a história perturbadora de uma família e de uma comunidade num período histórico e numa localização que, embora se estejam a tornar rapidamente remotos para nós, assumem, mais do que nunca, uma enorme relevância para a nossa época.

O Meu Nome É…
Uma viagem impressionante ao mundo do alcoolismo
de Alastair Campbell
Hannah tem 17 anos e bebe para se sentir melhor. Por um momento. Depois, a dor de alma regressa, mais intensa. Esta é a história da adição de Hannah contada pelos que a rodeiam: os pais, a irmã, os tios, os amigos. As suas vozes trazem-nos um relato por vezes chocante, por vezes terno, de uma vida à beira da destruição.



Teremos Sempre Paris
de Ray Bradbury
Em Teremos Sempre Paris – uma selecção de contos inéditos – o inimitável Ray Bradbury encanta-nos de novo com a sua prosa fluente e cantante. Imagina coisas extraordinárias e observa com especial acutilância as fraquezas humanas, as pequenas falhas de carácter. Os seus contos são eternos. Teremos Sempre Ray Bradbury.

Novidades Assírio e Alvim

Bach
de Pedro Eiras
Este é um livro que gravita em torno do genial compositor, assente em catorze tentativas de aproximação à sua música. 
Tentativas: uma carta de Anna Magdalena, uma cena de montagem de um filme, as conversas de técnicos de som em Nova Iorque, os pensamentos de Etty a caminho do campo de concentração, até ao silêncio. Intérpretes, biógrafos, romancistas, ouvintes – regra geral, nunca se encontraram e apenas a presença da música, em séculos diferentes, os aproxima, e a eles de nós. Mas qual música, qual linguagem, beleza, angústia e desespero – se ela é a pesquisa para o intérprete, pretexto para o guerreiro, última companhia para aqueles que vão morrer?
«Os apartamentos parecem maiores, agora. Os cravos, a espineta, o alaúde já não estão connosco, nem os violinos e as violas da gamba: o meu falecidoesposo ofereceu três instrumentos de tecla a Johann Christian, que os levou; quanto aos restantes instrumentos, foram partilhados pelos irmãos, logo depois de se lavrar o inventário. Um dia vieram dois homens buscar a espineta, e na parede onde ela esteve encostada tantos anos ficou uma sombra mais clara, por o sol nunca bater ali, e um risco de tinta vermelha, raspada na parede. Sigo o risco vermelho com os dedos, esforço-me por me lembrar do som.»

Longe de Veracruz
de Enrique Vila-Matas
Romance de uma viagem imóvel numa geografia de sonho, tão verdadeira como fantasmagórica, Longe de Veracruz é um texto inebriante e insone que Enrique Vila-Matas domina com brio e fantasia. Aqui, alguns seres inesperados — uma bela cantora de bolero assassina, um dentista alcoólico, um chulo, um cabeleireiro fascista, o escritor mexicano Sergio Pitol — gravitam à volta de três irmãos rivais no amor, na arte e na vida e que, como Don Juan, ostentam o nome Tenorio. Neste livro, o autor demonstra-nos, mais uma vez, que só transmutado pelas armadilhas da literatura o real se torna suportável.
«Encontram-se aqui muitos dos subtemas preferidos de Enrique Vila-Matas, o contexto familiar, a obsessão pelas viagens, os constantes brindes e alusões ao mundo da literatura contemporânea, os jogos eróticos e sexuais que banalizam as maiores tragédias, o contínuo apelo ao humor, a um sarcasmo que nega a gravidade do que se está a narrar.» ABC Literario

Novidade Esfera dos Livros

Educar com Amor
de Mário Cordeiro
«Educar exige amor, respeito, tolerância, exige (uff, tanta coisa!) saber quem são os nossos filhos, o que esperam de nós e nós deles, quais os comportamentos esperados e esperáveis, mas principalmente um fio condutor lógico, sensível, repleto de amor.» In Introdução

Educar é um ato de amor e uma das tarefas mais exigentes com que os pais se deparam. Devo castigar? Estou a mimar demais o meu filho? As regras em excesso são positivas? Como devo impor limites à minha filha? Que valores devo transmitir aos meus filhos? Que tipo de ser humano estou a criar? Somos assaltados diariamente por dúvidas sobre como devemos agir no nosso papel de pais. Mário Cordeiro, o pediatra mais lido em Portugal, recorrendo a casos práticos e à sua longa experiência profissional, explica-nos que educar é a maior prova de amor que os pais podem dar a um filho. Educar implica impor regras, pautas definidas, objectivos claros, deixando sempre espaço para o carinho, o afeto, os sentimentos, mas também para a imaginação e a fantasia, o génio humano, as especificidades de cada um dos nossos filhos. Porque os filhos não são o nosso livro, são o livro deles, escrito por eles com crescente liberdade criativa. Para este pediatra, pai de 5 filhos, os pais são o melhor exemplo para os filhos e é para eles que as crianças olharão sempre que quiserem aprender. Educar é por isso uma construção conjunta, feita lado a lado, partilhada todos os dias, de mãos dadas. Uma criança que se sente amada é uma criança que se sente segura e com coragem para enfrentar o mundo.

quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

A Escolha do Jorge: A Invenção de Morel

"Discuti com o seu autor os pormenores do enredo, reli-o; não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole classificá-lo como perfeito."
Jorge Luis Borges

O que acontece a cada momento que vivemos? Para onde vai? Perde-se na dimensão do espaço e do tempo? É certo que a recordação dessas vivências funcionam como garantia de um passado vivido. Mas serão as recordações objetivas de momentos idos e consequentemente fiáveis? E se aquilo a que comummente designamos por recordações nada mais é do que fruto da nossa imaginação? E se estivermos alucinados? Qual é a nossa verdadeira noção de realidade de estivermos num manicómio? Conseguiremos distinguir com clarividência o que real e o que é fruto da nossa imaginação? E nesse caso, em que lugar ficam as nossas recordações?
E se nos for dada a possibilidade de imortalizar as nossas vivências imortalizando-nos a nós mesmos? Tentando ser mais objetivo: e se fosse possível reproduzir o nosso dia-a-dia graças a cópias de momentos anteriormente vivenciados por nós? Havendo máquinas próprias para o efeito, será que embarcaríamos num tal processo com vista à imortalidade do ser humano? A ser possível tamanha façanha, impunha-se um outra maquinaria especializada em dar consciência à reprodução das vivências anteriormente conseguidas.
Conseguiremos alcançar pequenos Édens?

Estas são algumas das questões levantadas por Adolfo Bioy Casares no seu primeiro romance A Invenção de Morel (1940) que colocam o autor num dos lugares de destaque da literatura da América Latina contemporânea tendo almejado um enorme reconhecimento um pouco por todo o mundo.
As obras de Adolfo Bioy Casares são habitualmente associadas ao fantástico, misturando com frequência o sonho e a realidade levantando frequentes vezes questões de índole ético-moral como no caso específico da obra em apreço.
A Invenção de Morel é uma obra singular que remete o leitor para o mundo da ciência em articulação com a tecnologia no intuito de alcançar a imortalidade e consequentemente o amor eterno independentemente das questões éticas que subjazem às ideias apresentadas.
Em traços gerais, A Invenção de Morel retrata com amor, tecnicidade e fantasia os grandes temas-preocupação da Humanidade ao longo da História: a imortalidade.
A Invenção de Morel constituiu certamente o ensaio prévio para a publicação de Plano de Evasão (1945), outra obra notável de Adolfo Bioy Casares que nos apresenta um thriller de cariz filosófico sem igual.

"Ao homem que (…) invente uma máquina capaz de reunir as presenças desconjuntadas, farei uma súplica: procure-nos a Faustine e a mim, faça-me entrar no céu da consciência de Faustine. Será um ato piedoso."(p. 123)

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 23 de Setembro de 2014

A Convidada Escolhe: Memorial do Convento

Escrever, fazer uma apreciação sobre uma obra de Saramago é uma imensa responsabilidade e desafio. Não por ele ser o Nobel português (mais que merecido), mas porque Saramago escreve incrivelmente bem, nos surpreende pela forma como escreve e pela forma como nos convoca a olhar para a vida, para as coisas do quotidiano, para o comezinho, transformando-o. Acho que essa é uma das dimensões e papel da Literatura. E Saramago é Mestre.
É impossível ficar-se indiferente com Saramago. "Memorial do Convento" é um livro que mete respeito pela subtileza e pela densidade, pela mestria no jogo das palavras e das ideias, pela profundidade do pensamento e da escrita. A pretexto da construção de uma obra monumental que o rei D. João V (O Magnânimo) – o rei-sol português – quis deixar como marca do seu reinado, Saramago faz um retrato da Lisboa caótica do século XVIII; do poder do rei enebriado pelas riquezas do Brasil, da Índia e de África; do clima de suspeição e medo que a Igreja e o Santo Ofício lançam sobre todos e todas que saem dos limites impostos, colocando-lhes o ferrete de heresia ou bruxaria; do povo cuja vida é sofrimento, trabalho, doença e morte, mas que também sabe usar da astúcia e das festas para sobreviver. O grande protagonista deste romance é de facto o Povo. É ele que vai à guerra e fica mutilado, é ele que prepara o palanque e todas as condições para que o rei lance a primeira pedra, é ele que carrega as pedras que hão-de fazer o convento, é ele que, ao lado das juntas de bois, "faz ombros" com eles para carregar os blocos maiores que hão-de ser a glória do rei, é ele que se junta para ver a comitiva real passar. O rei é uma figura menor, está ausente e aparece episodicamente ou para garantir a descendência real ou para satisfazer os seus desejos carnais ou para cumprir as obrigações da sua condição de rei como, por exemplo, os casamentos reais que mais não são que negócios entre as famílias nobres da Europa.
As grandes personagens, e sobre eles/as há tanto a dizer, são Baltazar Sete-Sóis, Blimunda Sete-Luas, o padre Bartolomeu de Gusmão (o Voador), Scarlati (o senhor Escarlate) e todos aqueles milhares de operários anónimos que acreditaram que a construção da grande obra em Mafra, que iria durar muitos anos, lhes iria permitir deixar a sua vida de miséria e fome! Só a descrição do que foi ir a Pêro Pinheiro buscar a pedra para a varanda sobre o pórtico da igreja nos dá a dimensão do esforço humano supremo das grandes obras faraónicas construídas a poder de braços e de vidas de muitos milhares de pessoas.
Blimunda e Baltazar elevam-se acima do comum dos mortais; eles encerram em si o amor, a comunhão e o respeito entre duas pessoas que não se anulam antes vivem a sua individualidade e se reforçam. Sendo que Blimunda tem todas as características para ser presa da Inquisição, dados os seus poderes especiais, ela é afinal quem resiste no trio que ousou acreditar que as vontades recolhidas conseguiriam fazer elevar a passarola no ar. Ao espírito inventivo do padre Bartolomeu de Gusmão juntou-se a força da música do cravo de Scarlatti.
Concluindo, ao longo da leitura de "Memorial do Convento" estas foram as palavras que frequentemente me ocorreram: amor, sonho, vontades, superação.

Almerinda Bento

segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

"Montedor" de J. Rentes de Carvalho

Uma amiga minha prefere ler os livros de cada autor pela ordem em que foram escritos. Atē agora, isso não tem sido relevante para mim. Confesso que cheguei a achar uma obsessão de quem é leitor compulsivo... Mais uma a juntar a tantas outras que, quem sofre deste "mal", conhece muito bem!

Porém, sendo "Montedor" o primeiro livro de Rentes de Carvalho, faz todo o sentido lê-lo antes dos outros. Foi isto que senti depois de acabar este livro. Já tinha lido "Mentiras e Diamantes" e gostei muito da sua escrita deliciosa. O enredo prende completamente o leitor. Para ler a seguir tenho "Os lindos braços de Júlia da Farmácia", de quem li comentários muito bons.

Confesso que, talvez por distracção minha, este livro não me prendeu tanto como o anterior. O personagem principal, embora caracterizado de forma soberba, irritou-me um pouco com todo o seu descontentamento, quase desprendimento, perante a vida! Buscando um futuro e, no entanto, sem futuro algum!

Escrito em 1968, adivinha-se na escrita desta obra-estreia de Rentes de Carvalho uma inquietação que leva o ser humano a querer ir mais longe! A comprová-lo estão os muitos livros publicados em Portugal e que pretendo ler num futuro próximo.

Terminado em 19 de Setembro de 2014
U
Estrelas: 4*

Sinopse

Ao longo das gerações, são sem conta as famílias portuguesas em que há alguém como o triste protagonista de Montedor: rapaz sem futuro, com um passado apenas de sonhos, arrastando-se num presente que é uma verdadeira morte lenta.
Mau grado a simplicidade das personagens e das cenas, há no romance uma tensão permanente, e pode-se com verdade dizer que quase cada página encerra um momento dramático ou antecipa uma tragédia, a qual, talvez porque raro chega a acontecer, cria um desespero cinzento, retratando bem, e cruamente, os medos e o sofrimento da sociedade portuguesa, passada e presente.
Publicado pela primeira vez em 1968, Montedor é o romance de estreia de J. Rentes de Carvalho, sobre o qual escreveu José Saramago: «O autor dá-nos o quase esquecido prazer de uma linguagem em que a simplicidade vai de par com a riqueza (...), uma linguagem que decide sugerir e propor, em vez de explicar e impor.»

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

A Escolha do Jorge: A Imensa Boca dessa Angústia e outras Histórias

"A Imensa Boca Dessa Angústia e outras histórias" foi o último livro publicado por Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013) antes do seu falecimento.
Dividido em duas partes, uma primeira com alguns contos na verdadeira aceção da palavra e uma segunda parte composta por pequenas histórias relativamente curtas, chegando a ocupar em várias situações menos de uma página ou mesmo algumas linhas.
Em todo o caso, o tema central destas histórias é a angústia, algo que de algum modo é algo presente na sociedade ocidental anos ante a indefinição do futuro fruto de profundas transformações económicas verificadas nos últimos anos. Nalgumas histórias, a angústia tem claramente um fundamento objetivo, noutras situações é quase como um "modus vivendi" e que é condição de vida de cada um.
A maior parte dos contos ou das histórias ainda mais curtas não têm uma geografia própria à exceção de pelo menos dois contos em oposição à indefinição de espaço, podendo ser qualquer local de Portugal ou mesmo da Europa.
A insatisfação perante algo objetivo ou não é algo que marca profundamente estas histórias que com uma pitada de humor, Urbano Tavares Rodrigues não deixa de mexer na ferida de alguns dos problemas do mundo contemporâneo, criticando, desse modo, a forma de organização política, social e económica atual tentando, para o efeito, elevar o homem no que diz respeito à sua humanidade que tantas vezes é esquecida.
Assim, o autor se por um lado tece críticas à sociedade contemporânea, por outro amacia também a humanidade com pinceladas de esperança na tentativa de uma possível redenção que se poderá traduzir na obtenção da paz consigo mesma.
"A Imensa Boca Dessa Angústia" é um livro terno que nos adoça o espírito tornando um dia de trabalho mais feliz.
Excertos:
PEZINHOS DE LÃ
"Pezinhos de Lã era um menino muito louro e rosado, aparentemente doce mas que na verdade partia toda a louça da casa por espírito de destruição.
Uma menina sua vizinha, de grandes olhos verde-mar, é que se deu conta da sua malvadez e resolveu brindá-lo com uma chuva de pedra tão rude que o amansasse de vez.
Pezinhos de Lã aguentou, ficou ferido sem gravidade e percebeu que destruir era um caminho sem sentido.
Vou fazer o contrário: construir.
E assim Pezinhos de Lã, no seu modo quase silencioso de andar, construiu a cidade dos sonhos, onde todos comiam, bebiam e folgavam e se pareciam uns com os outros, irmãos da luz e da alegria." (p. 163)

OS COMANDANTES DO LUAR
"Surgiram apenas, como os vampiros, em noites de lua cheia, mas era bem diferente a sua atividade. Os comandantes do luar misturavam-se com os mais pobres dos pobres, levando-lhes sacos de pão mole, queijos e chouriços e garrafas de coca-cola. Abraçados a eles, secavam-lhes as lágrimas, faziam-nos por duas horas mágicos e príncipes da ilusão. Desistiram de lhes arranjar trabalho. Estavam já muito alquebrados e alheios à vida da utilidade. Então criaram com eles um coro que andava pelas ruas da amargura pregando a subversão total dos não-valores instituídos pelos grão-mestres do dinheiro, ou, mais explicitamente, dos malditos mercados, bancos, tiranos e companhia e a negregada hegemonia do euro.
Pum! Estoirou tudo." (p. 175)

Texto elaborado por Jorge Navarro

quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

"Terra de Milagres" de João Felgar

Mal acabei de ler este livro tive a exacta noção que por mais que eu escrevesse não conseguiria descrever completamente o quanto eu gostei dele! Aliás, gostar é pouco! Confesso que fui apanhada de surpresa! Não esperava apaixonar-me tão rapidamente pela história nem pela escrita do autor.

Começa assim: "A fertilidade das mulheres é um caminho de sangue e dor. - disse Júlia, com uma fileira de alfinetes na boca.- Enquanto os rapazes jogam futebol e andam aos nínhos, estamos nós tolhidas com as dores da história sem sabermos bem para que serve aquilo. A perda da virgindade é a paga com as dores de uma punição, de preferência no dia mais bonito da nossa vida! E, por fim, a maternidade, em que damos uivos de lobas, com dores de se ver lume. Tudo isto sempre com sangue pelo meio."

Não costumo colocar aqui exertos dos livros que leio porque, para ser sincera, sou um pouco preguiçosa, mas não consegui deixar transcrever este primeiro pagrágrafo de Júlia, de tal forma ele me cativou à primeira! Júlia é uma das personagens principais deste livro e uma das mais bem conseguidas. Costureira sem estudos, que devora as Selecções do Reders Digest, para daí assimilar e decorar vários ensinamentos, é uma mulher sábia nos conselhos que transmite às suas filhas e a todas as aprendizas do ofício que lhe passam pelas mãos. Sem escolha nem poder de decisão, num Portugal de há nem tantos anos assim, Júlia viu-se a braços com um casamento com o cunhado, depois da morte da sua irmã, e com uma sobrinha de poucos meses. Aprendeu a tirar o melhor partido que a vida lhe deu mas... A vida dela foi um rol de surpresas tanto como as páginas desta obra! Tornei-me instantaneamente "amiga" de Júlia, tal as gargalhadas interiores que dei com ela e por causa dela.

Para além desta personagem muito sui generis, cheia de uma ironia que adorei, existem outras que foram tão bem aprofundadas como Júlia, a saber: Leta e Laidinha, suas filhas; Luzia, sua neta e futura santinha da aldeia; Agripina, dona de uma pensão e dada a intimidades frequentes e passageiras com os seus hóspedes; Gualter, com a sua figura delicada, caracter extravagante e ...e tantos outras que povoaram este meu fim de semana e o encheram de surpresas, suspense, risos mas também murros no estõmago. Sim, porque a meio do livro, quando pensava que tudo fluiria calmamente, há uma reviravolta que me virou por completo por dentro e que vem dar um novo rumo à história. Para não desvendar o mistério, porque não é isso o pretendido, digo só que há "luas-de-mel" diferentes das sonhadas!

Caracterizando espectacularmente o ambiente de uma pequena aldeia perdida e fechada em si mesmo quer em termos de mentalidades quer geograficamente, João Felgar espantou-me com a sua escrita cuidada, irreprensível, mas ao mesmo tempo fácil de ler, irónica q.b. Escolhida a dedo mas fluída. Um retrato muito bem conseguido de uma época não tão longe assim e uma crítica implicita ao tema que o título deixa transparecer, os milagres. Com saltos no tempo que servem para melhor nos situarmos e caracterizar as personagens, sem que com eles nos percamos ou diminuamos o interesse pela história tão peculiar.

Acredito ter lido o meu romance de 2014. Nota máxima. Espero que não tarde muito a conhecer uma nova obra deste autor. Quantos livros estarão na gaveta do escritor? Sim, porque não acredito que haja alguém que, logo numa primeira vez, consiga sentar-se na secretária e escrever algo assim... Este é um livro que recomento a todos: aos que gostam de romances mais leves e divertidos mas também aos que exigem um pouco mais. Creio que todos ficarão muito satisfeitos e agradados. Como eu. Espero sinceramente que este livro não passe despercebido!

Terminado em 14 de Setembro de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse


Júlia é costureira numa aldeia do interior português. Na mesma terra, vivem as suas filhas Leta Mirita e Adelaide. A primeira vive um casamento infeliz, depois de se ter entregado a um homem que lhe prometeu «uma vida bonita». Quanto a Adelaide, só ela sabe o que se passa entre as paredes do quarto que partilha com Antero, seu marido.
Numa noite de temporal o rio invade a aldeia, destrói a ponte que a liga ao resto do mundo, e leva consigo os seis filhos varões de Adelaide. Quando as águas do rio se acalmam, Luzia de Siracusa, filha de Adelaide, vive os seus primeiros arrebatamentos místicos.
A fama de santa e milagreira corre veloz, e dá origem a um culto popular que atrai à aldeia multidões de peregrinos e devotos, indiferentes à hostilidade que o fenómeno inspira às autoridades eclesiásticas.
Ódios e cumplicidades entrelaçam-se com os comportamentos e hábitos do nosso tempo e da nossa terra. Uma terra onde por trás de um segredo se esconde sempre outro, e onde nem os milagres são o que parecem.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

"Viagem ao Fim do Coração" de Ana Casaca

Não conhecia esta autora nem tão pouco a sua escrita. Gostei do que li. Uma história de amor, de um amor quase à primeira vista, um amor de juventude que marcou toda uma vida. É é, de igual modo, uma história de dois irmãos que sobrevivem à dor porque se têm um ao outro. Uma história de uma vida sofrida, onde os maus-tratos têm um lugar predominante e marcam o comportamento de quem é vítima.

As várias personagens falam-nos e apelam-nos ao coração. Com o tom intimista que imprime à narrativa, senti que a autora conseguiu captar em pleno as angústias da protagonista principal. Sabendo-se doente de cancro quando por fim encontra o amor, Luísa divide-se entre a esperança num futuro a dois e o desânimo de saber que os exames pioram a cada dia.

Com uma escrita fluida e simples, Ana Casaca transmite-nos uma mensagem. Como se lida com a doença de quem nos é próximo? Sem qualquer artifício mostra-nos, também, a dor e a esperança, o desespero e a alegria, um mundo de altos e baixos que sente aquele que é vítima de cancro. Uma escrita sem subterfúgios, que consegue colocar-nos na pele da personagem principal e que por isso, a dada altura, se torna impossível não nos comovermos.

Alguns aspectos da história foram inspirados em facots reais, pequenos nadas que fizeram um tudo na vida de alguém. Saber isso, no final da leitura do livro, trouxe um peso maior aos meus olhos.

Terminado em 13 de Setembro de 2014

Estrelas:4*+

Sinopse

Num romance toda a nossa vida: como a queremos, como às vezes não a queremos.
Luísa ainda era uma adolescente. Tiago já era um jovem adulto. Conheceram-se na solidão de uma pequena praia, na margem de um rio. Tinham em comum uma relação familiar traumática. Num caso, o trauma do amor dos pais. No outro, o trauma do ódio dos pais. Conheceram-se num dia que pareceu conter uma vida inteira. Mas teriam ficado separados para sempre, se a invisível linha de uma doença que rói o corpo e anuncia a morte não os tivesse voltado a ligar, dezasseis anos depois. Luísa e Tiago podem até redescobrir o amor, mas apenas se a silenciosa presença das metástases não se alastrar aos seus corações.
Viagem ao Fim do Coração é mais do que uma comovente história de amor. É a recriação de um admirável mundo de pais e mães, filhos e irmãos, ódios e amores. Revela os pesadelos de um cancro injusto, mas não abdica do que é humano e essencial, o sonho.

domingo, 14 de Setembro de 2014

Um Livro Numa Frase


" As lágrimas são uma excreção da alma, tão pouco dignas como o mijo - leccionava ela, com a tesoura rasgando os panos. - Não vejo porque havemos de nos esconder, num caso, e fazê-lo à vista descoberta, no outro."


In Terra de Milagres de João Felgar, pãg. 209

sábado, 13 de Setembro de 2014

Na minha caixa de correio

 

Emprestado do Segredo dos Livros recebi Madre Paula e Montedor, de Rentes de Carvalho (ops! Não coloquei a capa).
Oferta da Planeta, os dois livros de Emma Wildes.
Oferta do Clube do Autor, um livro que de imediato atraiu a minha atenção e que já estou a ler, de um autor português que se estreia nestas "coisas", Terra de Milagres! Ainda vou no início mas a história parece-me muito interessante e a escrita, peculiar e cativante.
Do Liga e Ganha, O Espetacular Momento Presente.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

A Escolha do Jorge: Arde o Musgo Cinzento

Arde o Musgo Cinzento (1986) é a única obra de Thor Vilhjálmsson editada em Portugal e tal aconteceu somente em 2012.
O escritor parte de um caso verídico de incesto entre dois meios-irmãos que aconteceu numa pequena região da Islândia no final do século XIX e que chegou ao tribunal após ser do conhecimento da população em geral, dando-nos a conhecer simultaneamente um país pobre, mas em fase de transição que sente necessidade em romper com a Dinamarca enquanto país colonizador. A população ganha a consciência de que só será verdadeiramente livre e rica quando investir na educação, a verdadeira riqueza de um país, desenvolvendo, dessa forma, a ciência e tecnologia que ajudará a Islândia a tornar-se não só independente, como também podendo rivalizar economicamente com outros países, deixando para trás as tradições assentes em mitos e sagas que tinham a natureza como principal papel em detrimento do homem.
Arde o Musgo Cinzento faz-nos refletir sobre o percurso de cada um enquanto indivíduos inseridos numa dada sociedade, assim como qual o percurso que cada país deverá tomar em busca do desenvolvimento e da riqueza, melhorando, dessa forma, as condições de vida dos seus cidadãos.
Em conclusão, esta é uma obra completa abrangendo esferas tão diversas como a política, a justiça, a religião e a poesia, sendo, pois, uma referência incontornável na literatura contemporânea ocidental.

Excertos:

"No conhecimento é que está o poder. Que vos tornará livres. A ignorância é o pior tirano da humanidade, um demónio." (p. 78)
"Ali não havia ninguém que se escandalizasse porque agarrava num livro para nele mergulhar. E naquela quinta da charneca não se limitavam a ler livros, rompiam o isolamento com os livros. Ali discutiam-nos e analisavam-nos em profundidade. Ali não ficava cada um encolhido no seu canto como mensageiro de alguma desgraça, os pobres não eram hóspedes indesejados, ali reinava a concórdia entre as pessoas, e o homem era a alegria do homem." (p. 106)
"Todas as nações estão a levantar-se por todo o mundo; as massas rompem as cadeias e reclamam os seus direitos, nada poderá detê-las. As formas de vida do passado caem em fanicos, as correntes são quebradas uma após outra e atiradas para um monte para que se erga uma montanha de correntes destruídas como um monumento que recorde os tempos negros do passado." (p. 232)

Jorge Navarro

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

"Morte nas Trevas" de Pedro Garcia Rosado

Este é, sem dúvida, o melhor livro desta série de Pedro Rosado. Supera os anteriores em acção, suspense e cenas violentas, que são muito explicitamente descritas pelo autor, como acontece nos dois livros anteriores onde Gabriel Ponte é o protagonista.

Mas, embora melhor, há que começar a leitura pelo Morte con Vista para o Mar seguido de Morte na Arena pois há toda uma história pessoal de Gabrial Ponte que necessita ser conhecida e aprofundada pelo leitor para que pequenos pormenores sejam degustados com um maior prazer. No entanto, o autor vai fazendo pequenas referências, durante a obra, ao passado do ex-inspector que servem para um leitor que não leu a obra anterior se situar.

O facto de existirem duas investigações paralelas, que confluem no final, traz ao enredo uma vivacidade muito própria que me encantou e me prendeu: o desaparecimento de uma jovem, investigado pelo inspector reformado e a morte de um relojoeiro, investigado por Joel Branco, ainda no activo. Gabriel investiga um pouco à margem da lei, vendo-se confontado com situações e atitudes que o podem colocar como "fora-da-lei". As suas dúvidas são, a dado momento do livro, também as nossas: "Qual a melhor forma de agir? Será o assassinato de um criminoso um mal menor, ao qual se deve fechar os olhos?"

Já no final somos confontados com a morte do ex-inspector, facto que nos atinge com a mesma violência com que são descritas algumas cenas do texto, povoadas de horror e muito arrepiantes. Será mesmo possível ter terminado assim? Dei comigo a devorar as páginas finais com o intuito de satisfazer essa pergunta! Morreu mesmo?!!!

Espero com ansiedade um novo livro! Quero acreditar que o autor está a dedicar o seu tempo a esta série e que em breve tenhamos entre nós outro livro com Gabriel Ponte como protagonista!

Terminado em 7 de Setembro de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Gabriel Ponte está finalmente decidido a dedicar-se à investigação privada, pondo fim à inatividade a que uma reforma antecipada da Polícia Judiciária o condenou.
O seu primeiro trabalho como detetive particular consiste em encontrar duas mulheres desaparecidas em Portugal, a pedido de um homem e de uma mulher de origem romena, antigos agentes da Securitate, a polícia política do ditador Ceausescu.
A sua investigação vai conduzi-lo a um confronto com um industrial romeno que cria porcos numa zona rural do concelho de Caldas da Rainha, e que esconde, afinal, segredos hediondos. À medida que avança neste caso, que vai pôr em risco a vida da sua própria família, Gabriel Ponte recebe a ajuda inesperada de um ex--oficial do KGB e das forças especiais russas, ao mesmo tempo que se torna o alvo da atenção de um inspetor da PJ, obcecado pela justiça.

terça-feira, 9 de Setembro de 2014

A Convidada Escolhe: Agosto

"Agosto" de Ruben da Fonseca, notável autor brasileiro com vários prémios entre eles o consagrado Prémio Camões, é considerado o seu livro mais famoso. Num estilo muito direto e servindo-se de uma pesquisa minuciosa, o escritor constrói uma narrativa ficcionada tendo como fundo os acontecimentos históricos que rodearam os últimos tempos de governo de Getúlio Vargas até ao seu suicídio. O assassinato de um empresário e tentativa de assassinato do jornalista Carlos Lacerda e consequentes investigações são os factos que têm grande relevância no livro já que desde logo existem indícios de que neles estarão implicadas pessoas fortemente ligadas ao governo, ao presidente ou a instituições governamentais, o que vem agravar mais a crise política do país. O livro retrata a luxúria, a violência, um mundo de marginais e de assassinos de aluguer, onde o jogo clandestino do bicho compra tudo e todos e onde a corrupção política impera. Os que não alinham são considerados loucos como é o caso do comissário Mattos, figura de ficção e elo de ligação com a narrativa histórica, incorruptível, que sendo muito crítico da falta de condições nas prisões e contra a opinião de seu colega Pádua, figura sem escrúpulos, tem por hábito não reter os presos de delitos que ele considera irrelevantes, a fim de não encher mais as celas. Este investigador é um depressivo, sofre de úlcera gástrica, não tem tempo para cuidar dos seus casos amorosos e não agradando nem a gregos nem a troianos acaba por ser assassinado por Chicão. Pádua desconhecendo que Mattos descobrira que fora Chicão o assassino do empresário acaba por erradamente acusar e matar um «bicheiro» pela morte do comissário, pois apesar das suas grandes diferenças com o colega respeitava-o pela sua honestidade.
São várias as personagens históricas mencionadas no livro para além do presidente Getúlio Vargas, família e ministros, entre elas o chefe da guarda pessoal do presidente, Gregório Fortunato, mandante da tentativa de assassinato do jornalista Carlos Lacerda já que está consciente de que o jornalista constitui uma ameaça. Outros membros dessa guarda estão também envolvidos.
Getúlio, já não o ditador do Estado Novo, mas agora velho e cansado numa chamada democracia, é acusado de tudo de mal que vai acontecendo no país, bem como sua família.
Carlos Lacerda, jornalista e grande orador, porta voz de uma forte oposição ao governo utiliza o atentado de que foi vítima e a morte de seu guarda-costas, o major da aeronáutica, Rubens Vaz, que tem uma percussão muito grande, como triunfo político, conseguindo assim a união das forças armadas contra o presidente Vargas.
No entanto, quando pressionado para se demitir Getúlio Vargas resolve suicidar-se há grandes tumultos e o povo revolta-se indignado com a sua morte.
A relação das personagens históricas com as de ficção tem como resultado uma trama bem conseguida plena de conspirações, suspense, acordos, negociatas, subornos e corrupção que prende ao longo dos seus 26 capítulos, e que decorre no Rio de Janeiro durante o mês de Agosto de 1954. Apesar de complexa realidade que foi a década de 50, Agosto é uma obra de fácil compreensão e que se lê como se de um romance policial se tratasse.

Maria Fernanda Pinto

segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

"Um Amor Perdido" de Anna McPartlin

O primeiro livro que li desta escritora, "Estarás Sempre Comigo", constituiu uma surpresa muito agradável e teve em mim um forte impacto. Li, por essa razão, os outros livros publicados cá e todos me marcaram positivamente como podem ver aqui! Talvez por isso tivesse pegado logo nesta leitura e esperasse dela ainda mais e mais... As minhas expectativas eram, de certo modo, muito elevadas. Creio que faltou um pequeno clic para que esta obra superasse as outras anteriores da autora.

Ainda que ela nos conte (e bem!) histórias onde há predominãncia de alguns temas muito pesados (como a perda e o desaparecimento de alguém, amores não correspondidos, alcoolismo, doenças terminais e com forte herança hereditária, gravidez na adolescência), consegue no entanto, transmitir-nos uma mensagem de esperança, onde o humor tem um lugar muito próprio e é característico desta autora. Um humor subtil que nos faz sorrir mesmo em situações onde a dor está fortemente presente.

A sinopse induz-nos para um caminho que não é seguido pela autora. O desaparecimento de Alexandra poder-nos-ia levar ao cerne de uma investigaçao policial. No entando, Anna McPartlin não vai por aí. Centra-se nos que ficam, nos que sofrem a perda, na família da vítima e, mais propriamente, no seu marido. Como aceitar a perda, como aprender a viver de novo?

Leitura que gostei e recomendo!

Terminado em 30 de Agosto de 2014

Estrelas: 4*

Sinopse

A 21 de junho de 2007 Alexandra Kavanagh saiu de casa, falou com a vizinha, meteu-se no comboio, chegou à estação de Dalkey e desapareceu... Tom está destroçado. Não encontra a mulher, o seu mundo desmoronou e o seu único objetivo é localizá-la. Durante dezassete anos, Jane cuidou do filho Kurt, da excêntrica irmã Elle, e da rabugenta mãe Rose. A única pessoa de que não cuida é dela própria. Elle é artista e considerada um génio. Como tal, o seu comportamento um tanto errático é tolerado. Embora a sua vida pareça perfeita, a tristeza de Elle é por vezes profunda. Leslie perdeu toda a família para o cancro. Passou vinte anos à espera de morrer, mas após uma operação radical está determinada a viver de novo. Quatro meses depois do desaparecimento de Alexandra. Tom entra num elevador com Jane, Elle e Leslie para um concerto de Jack Lukeman. Uma hora mais tarde, os quatro desconhecidos saem de lá com as suas vidas entrelaçadas para sempre.
Um Amor Perdido aborda o alcoolismo, a depressão, a negação e a dor e ainda assim irá dar por si a sorrir e até a rir.

sábado, 6 de Setembro de 2014

Na minha caixa de correio






Começando de baixo para cima:
Da Porto Editora recebi O Grande Jacques Couer e A Incrível Viagem do Faquir que ficou fechado num Armário Ikea.
Da Quinta Essência, Herdeiros do Ódio.
Da editorial Presença, A Caminho de Casa.
Da Topseller, Não Digas Nada.
Da Editora Guerra E Paz, Viagem ao Fundo do Coração.
Na Livraria Fiodor Books (livros em segunda mão) comprei: Lubango, Paris, Mavinga; Jardins Secretos de Lisboa, Cidade Inquieta e Sem Motivo Aparente a 2,50 € cada.
Dos passatempos do JN: Diário de um Quiosque, Se Eu Ficar e A Casa da Malveira.
Da Livraria Buccholz comprei, por 4,50 €, O Circulo Fechado.