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quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

A Escolha do Jorge: A Filha do Leste

"A Filha do Leste" é o mais recente livro da espanhola Clara Usón (n. 1961) que lhe valeu em 2012 o Prémio Nacional da Crítica no seu país. O livro foi publicado no primeiro semestre em Portugal tendo sido bem acolhido no seio da crítica literária desde então.
Mais do que uma obra que tem como pano de fundo a guerra da Sérvia contra a Bósnia durante os primeiros anos da década de 90 do século passado, "A Filha do Leste" vai a fundo na questão complexa dos Balcãs procurando as raízes do "servianismo" que remonta à batalha do Kosovo que opôs sérvios e turcos, em 1389. Se por um lado esta célebre batalha, tantas vezes endeusada mediante a tendência política da Sérvia ao longo dos séculos, é apontada como o ponto de sustentação daquilo que mais tarde será apontado como as marcas culturais de identidade da Sérvia, por outro lado, essas mesmas marcas nada mais são do que uma forma velada de nacionalismo que ao longo da História contribuiu para opor diferentes etnias gerando conflitos sangrentos que tantas vidas ceifou sem que se tenha propriamente resolvido o problema da coexistência pacífica entre comunidades cultural e religiosamente diferentes.

"A Filha do Leste" inicia com a viagem de finalistas de Ana Mladić (filha de Ratko Mladić, conhecido pelo "carniceiro da Bósnia") a Moscovo com alguns colegas e amigos cujo périplo é descrito transversalmente ao longo de toda a obra à medida que vai sendo apresentada uma "galeria de heróis" sérvios que tiveram um papel importante e decisivo na guerra com a Bósnia levando à morte milhares de pessoas por razões meramente religiosas. Este desfile de "heróis" como Slobodan
Milošević, Radovan Karadžić, Ratko Mladić, entre outros, coincide precisamente com a identificação de indivíduos loucos, pérfidos, cruéis e assassinos que feriram de morte o coração da Europa no final
do século XX na sequência do desmoronamento da Jugoslávia.

Quando a Europa e o Mundo julgavam que não voltariam a repetir-se atos bárbaros e verdadeiramente inumanos à semelhança do que teve lugar durante a 2ª Guerra Mundial, eis que a "bomba" estala nos Balcãs meio século depois quando a Sérvia e a Croácia disputam entre si o território ocupado pela Bósnia-Herzegovina na tentativa de "limpar" o sangue turco (considerados pelos sérvios como sangue sérvio impuro) do território, levando a cabo o extermínio de vilas e aldeias bósnias através de uma chacina que só pode mesmo ser comparado ao genocídio de judeus por parte dos nazis (ou se recuarmos mais na História, à semelhança dos progroms realizados pela Inquisição em Portugal e Espanha), embora aqui fossem realizados em nome do "servianismo", vulgo nacionalismo ao extremo.

Ana Mladić é, pois, herdeira e crente numa tradição assente nos valores acima descritos para os quais o seu pai, Ratko Mladić era o seu expoente máximo, sendo um bom pai e um bom marido, um
exemplo a seguir para toda a Jugoslávia que então se desmoronava. "Ana sentia uma íntima alegria à ideia de que, ao cumprir as tradições, ao observar os rituais, estava a fazer a ponte com os seus antepassados, que pertencia a algo maior do que à sua pequena individualidade, à sua reduzida família: era uma gota de água no mar infinito da nação sérvia, uma gota indispensável, no entanto. A Ana Mladić morreria um dia: o servianismo não, e enquanto a nação sérvia subsistisse, alguma coisa de si sobreviveria." (p. 37)

A viagem de finalistas de Ana Mladić a Moscovo não corre conforme o esperado. Os dias em que era suposto divertir-se e conhecer a capital daquela que foi a URSS que também se desmoronara pouco tempo antes, em 1990, acabou por tornar-se um pesadelo na medida em que alguns dos seus colegas a confrontaram com aquilo que seria a verdadeira "face da guerra" que deflagrava há já tempo demasiado nos Balcãs e sem fim à vista, além de que de forma inusitada conheceu alguém que sem saber a verdadeira identidade de Ana Mladić a levou a confrontar-se com aquela que seria a outra face do seu pai e que não era propriamente a de uma pessoa dócil e terna como a que conhecia em
casa, em Belgrado.
Este confronto com a realidade levará Ana Mladić ao regressar a Belgrado a questionar toda a sua herança cultural, a sua própria identidade, suscitando dúvidas em relação ao futuro do seu país sobretudo numa altura em que a Bósnia estava na mira da Sérvia no intuito de "libertar" o solo sérvio, as aldeias sérvias das mãos dos bósnios (muçulmanos, turcos) nem que para isso se procedesse à prática dos genocídio. E neste contexto, há um excerto deveras interessante alusivo à natureza dúbia de Ratko Mladić, "O general bom vivia fascinado pelas abelhas e dedicava-se à apicultura nos (raros) momentos livres. O general mau estava mais interessado na antropologia, relacionada com a zoologia; concretamente, fascinava-o o curioso paralelismo que se manifesta entre o comportamento animal e o humano em determinadas circunstâncias. Do alto de uma colina sobranceira a Sarajevo, espiava através dos binóculos a multidão de habitantes que se moviam e se apressavam pelas ruas da cidade, nas rotinas diárias, aproveitando um cessar-fogo. «Correm como formigas!», observou, mas, talvez por falta de tempo (havia que aproveitar o factor surpresa da trégua), não se deteve a analisar com mais profundidade o fenómeno, antes deu imediatamente a ordem: «É a vez dos franco-
atiradores. Vão-se a eles! Disparem sobre as pessoas. Directamente sobre as pessoas!»" (p. 154)

Ana Mladić suicida-se então a 24 de Março de 1994, marcando para sempre a sua família, embora a (in)compreensível dor sentida por Ratko Mladić não o tenha demovido de estar por detrás do genocídio perpetrado a mais de 8000 civis, em Srebrenica, na Bósnia, em 1995, cujas descrições do acontecimento parecem ter sido tiradas de um filme de terror em que os homens perderam por completo a noção de humanidade. "As equipas de execução andavam acompanhadas por bulldozers que cavavam para onde se atiravam os cadáveres. Em três dias, as forças sérvias executaram oito mil bósnios, na sua maioria do sexo masculino, entre os quais crianças e adolescentes. Os executados no primeiro dia foram os que tiveram mais sorte; os outros ficaram encerrados, sem comida nem bebida, até chegar a vez deles. Nem todos morreram de um tiro na nuca. Houve uns tantos degolados, outros torturados antes de serem mortos e, por fim, outros, inevitavelmente, antes de morrer, obrigados a cavar as próprias sepulturas. Enterraram-nos em valas comuns que, meses mais tarde, exumariam,
trasladando os restos para uma segunda fossa, onde se misturariam com outros corpos, para dificultar uma possível investigação futura." (pp. 298-299)

Concluindo, Clara Usón traz para a literatura um tema da História Contemporânea que nos inquieta e do qual não saímos ilesos. "A Filha do Leste" é um romance que ao longo de toda a obra nos faz questionar como foi possível a concretização de tais atos ignominiosos depois de tudo o que aconteceu durante a 2ª Guerra Mundial? Creio que é essa efetivamente a questão que fica no ar na medida em que nós, como cidadãos, devemos estar permanentemente atentos aos atos dos políticos porque nunca sabemos se perante uma conjuntura de depressão económico-social de modo continuado não constituirá terreno fértil para o aparecimento de lobos disfarçados de cordeiros que tentarão sem olhar a meios retirar os direitos dos cidadãos despojando-os da sua identidade se for caso disso.

Parafraseando Danilo Kiš «O nacionalismo é, na sua essência, uma paranóia, uma paranóia individual e colectiva. Como paranóia colectiva, é fruto da inveja e do medo, e sobretudo o resultado da perda da consciência individual levadas ao paroxismo.» (p. 262)

Texto elaborado por Jorge Navarro

quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

"A Casa Azul" de Cláudia Clemente

Sou uma leitora algo distraída. Sabendo disso, é frequente ter perto de mim papel e lápis para ir anotando o nome dos personagens e as suas relações parentais. Tal não aconteceu com este livro, muito embora, em certas partes da leitura, sentisse necessidade de o fazer. Isso deveu-se, sobretudo, à escrita forte da autora, belíssima, que mexeu com as minhas emoções muito profundamente. E esqueci-me de tirar as pequenas notas que gosto tanto e que me vão orientando.

É um verdadeiro puzzle este livro! São várias as entradas, todas elas poderosíssimas, que me deixaram com uma inquietação permanente, querendo captar a história de fundo e ligar as personagens. Sem grande sucesso, aliás! Nas últimas 50 páginas talvez, pequeninos pormenores despontam deste texto mágico e criam uma história que nos apetece ler de novo, tal é a sensação de perda que nos assola quando terminamos o livro.

Findo o livro dá vontade de fazer uma pausa. Escutar pormenores que fazem agora todo o sentido. Apetece, como disse, ler de novo. Será que deixei escapar algo que uma re-leitura ajudaria a saborear?

O prazer de descobrir a história suplanta a história em si. A forma como ela nos é contada demonstra todo o à vontade que a autora possui com as palavras. Encantou-me, de facto.

Mas não vos vou contar nada! Não o saberia fazer, nem tão pouco poderia. Desvendar este livro é uma aventura que cabe a cada um. Mas preparem-se! Vão ficar rendidos. E não façam como eu... Peguem logo num papelito e num lápis e escrevam: água, ar, terra e fogo. Vai ajudar, vão ver! E depois irão perceber porquê... Ah! E tenham atenção que a cada um desses elementos corresponde um personagem diferente.

Recomendo. Muito!

Terminado em 23 de Novembro de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Um condomínio, no Porto, que deveria guardar nas suas raízes a memória de uma casa e os fantasmas dos habitantes e das grandes árvores que daí foram arrancados.
Uma mulher que se foi tornando um fantasma de si mesma desde que as últimas árvores desse jardim tombaram. Duas irmãs gémeas que não sabem da existência uma da outra: uma parisiense, outra portuense. Um português, dono de um cinema de bairro em Paris, amigo de Laura, que vê o seu cinema arder e vai parar ao hospital, gravemente queimado. Um agente da PIDE que segue, nos anos 60, os movimentos dos habitantes e frequentadores da Casa Azul, produzindo relatórios sobre eles para as chefias. Um dossier que escapa às chamas e uma herança de cartas nunca lidas. A mãe da irmã que vive em Portugal, Rita, internada num lar, após uma tentativa de suicídio: uma tristeza profunda desde que teve de vender a casa de família, no Porto - a Casa Azul - e o seu magnífico jardim. Uma história de amor e paixão que não pode morrer, porque nasceu em Paris, no único mês de Maio em que tudo foi possível. Quatro personagens que precisam de encontrar-se para formarem um universo com sentido.

segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

"O Brilho das Estrelas" de Debbie Macomber

Li os livros anteriores desta autora e gostei muito da sua escrita simples, despretensiosa mas cativante. Este é um livro que vai encher os corações das meninas românticas! É uma história simples, um romance com muitos laivos cor-de-rosa, que sabemos que vai acabar bem mas que, porque escrito desta forma, toma dentro de nós caminhos que nos fazem empolgar com o amor entre Carrie e Finn. Mesmo presentindo um final feliz, tememos e receamos pelos dois personagens e, quando finalmente chega, respiramos fundo.

Uma história de Natal. Leve, que se lê rapidamente e com agrado. Debbie Macomber é uma contadora de histórias, sem dúvida alguma!

Terminado em 18 de Novembro de 2014

Estrelas: 4*

Sinopse

O Brilho das Estrelas é uma história sobre o encontro entre uma jornalista ambiciosa e um escritor demasiado solitário, ambientada no extremo Norte dos Estados Unidos e iluminada pelo esplendor dos céus do Ártico. Duas personagens implausíveis envolvidas em sentimentos demasiado intensos para se adequarem ao quadro de vida de cada um, narrada com frescura e leveza e que arrebata o leitor num mar de emoções até ao final do livro.

Para mais informações ver Editorial Presença aqui!

sábado, 22 de Novembro de 2014

Na minha caixa de correio

   
     
  



Os quatro primeiros foram comprados na promoção da Leya Online "Leve dois, pague um".
Oferta gentil da Planeta: Nove mil Passos, a Casa Azul, Vila Algarve A Princesa Branca.
Também gentilmente oferecido pela Presença, chegou o último de Debbie Macomber, O Brilho das Estrelas.
Um Homem Escandaloso e Sapatinhos de Chocolate foi oferta da Leya.
Os Últimos Dias de Nossos Pais de Joel Dicker veio da Alfaguara.
E finalmente, fui buscar ao JN o Recomeçar de Maria Duenas.
Difícil, difícil é decidir por qual começar!!!! O meus agradecimentos às editoras mencionadas!

sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

Novidades Esfera dos Livros


Convite Bizâncio


Novidade ASA

Um Homem Escandaloso
de Tiago Rebelo
Em plena crise económica, um pintor com uma vida catastrófica, persiste em boicotar a própria carreira. Mas quando o seu casamento termina e tudo parece perdido, eis que a sorte muda: de um dia para o outro, torna-se a figura do momento e o artista português de maior projecção internacional. Uma brusca mudança da percepção da realidade fará com que este homem, que se esconde do mundo com uma tenacidade doentia, passe a ser um alegre provocador de escândalos públicos – e, também, o conquistador da deslumbrante Cristiane. Um Homem Escandaloso é um romance sobre a sociedade moderna, onde o sucesso se conquista com ostentação e fingimento. Divertido e certeiro, o livro é um retrato de uma época onde a imagem é tudo e o abstracto se sobrepõe ao concreto. 

Novidade Oficina do Livro

28 MINUTOS & 7 SEGUNDOS DE VIDA
de Manuel Forjaz e José Aberto Carvalho
Em Janeiro de 2014, dois homens tiveram uma ideia: um programa de televisão. Nascia o «28 Minutos e 7 Segundos de Vida». Uma conversa entre Manuel Forjaz e José Alberto Carvalho sobre a vida. A nossa. A dos outros. A do nosso país. Ao longo de dez semanas ouvimos falar de assuntos tão diversos como economia, religião, prazer, morte. Não foram os temas escolhidos que convenceram quem assistiu aos programas, mas a sim a forma inquietante como os dois homens discutiam as temáticas e a mensagem que sempre conseguiam transmitir: obrigar-nos e ensinar-nos a pensar. De uma ideia de dois amigos criou-se um espaço de discussão, e por isso logo luminoso, na televisão nacional e na memória de quem acompanhou estes dois homens da comunicação. 28 Minutos e 7 Segundos de Vida é um livro que faz perdurar a memória de Manuel Forjaz, cumpre um desejo e deixa-nos uma mensagem a que devemos, muitas vezes, voltar.

quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

A Escolha Do Jorge: Bach

O primeiro contacto que tive com as obras de Pedro Eiras foi "A Cura" (Quid Novi, 2013), o romance com uma forte componente de natureza psiquiátrica que alia as sessões de terapia com a literatura cativando logo nas primeiras páginas o leitor para o centro da narrativa. (Artigo sobre "A Cura" aqui).
No seguimento dessa obra e após alguma pesquisa sobre o autor, rapidamente nos apercebemos que as publicações abrangem vários territórios das letras e para além do romance, destaca-se ainda o teatro, a poesia e o ensaio, demonstrando a versatilidade do escritor.
"Bach" é o mais recente livro de Pedro Eiras, editado recentemente pela Assírio & Alvim e cuja apresentação em Lisboa teve lugar no início deste mês de novembro.
Ao contrário dos géneros indicados anteriormente, "Bach" não se inscreve em nenhuma das categorias podendo ser um misto de contos, romance, ensaio, algo inclassificável atendendo tantas vezes à necessidade de querermos segmentar, compartimentar tudo o que nos passa pelas mãos, talvez como forma de controlarmos a realidade à nossa volta, compreendendo, talvez, um pouco melhor essa mesma realidade da qual fazemos parte.
É talvez pelo facto de este "Bach" não ter rótulos que nos atrai tanto e ao não ser propriamente um livro imediato com uma estrutura linear como a dos romances que lemos habitualmente que por vezes sentimos receio de escrever sobre o que pensamos dele.
É precisamente ao evitar este "Bach" que acabamos por regressar a ele! As suas histórias, independentes entre si, conduzem-nos a personagens reais, de carne e osso, que existiram desde o início do século XVIII até ao início do novo século ainda que se quisermos ser mais precisos, é necessário não esquecer Jeshua Ben-Josef, ou simplesmente Jesus, a quem é reservado um capítulo (ou conto).
Este "Bach" não é um livro que fale ou explique sobre Bach, o compositor que marcou o século XVIII. Este "Bach" tem Bach como pano de fundo nalguns capítulos, ao passo que noutros é a música que também ocupa o seu lugar de relevo ou então a sua busca incessante como no próprio capítulo Jeshua Ben-Josef.
"Bach" abre novos trilhos do pensamento e da literatura dado que são lançadas as sementes para uma pesquisa sobre outros caminhos a percorrer. Questionamos muito com este "Bach", duvidamos se conseguiremos chegar ao sentido de alguns dos textos apresentados por Pedro Eiras, mas é nesse não saber feito que recebemos as ferramentas para ir mais além e trilhar o ainda não trilhado caminho do conhecimento.
Ler este "Bach" é falhar constantemente. Falhamos ainda mais ao tentarmos escrever sobre o livro, sobre "Bach" que tanto se nos mostra como se esconde, dificultando-nos a vida, naquele momento. É nesses momentos de dúvida e de incerteza que nos tornamos humildes ao sentirmo-nos esmagados com a beleza da obra, pois é nesses momentos que vislumbramos o entendimento de qualquer coisa, de diferente, inclassificável, tornando-se, pois, uma experiência estética e intelectual deveras estimulante.
Sobre este ponto, citamos o autor no capítulo (conto ou…) subordinado ao tema Gottfried Wilhelm Leibniz: "Sim – e que nesse mundo determinado, harmónico, o melhor de todos os mundos possíveis, exista uma razão para a própria dor, um fim último desejado, uma razão para a dissonância tal como se apresenta aos nossos ouvidos, parte de uma harmonia maior que só o concerto das mónadas poderia ouvir, a unidade de todos os entendimentos em Deus. Assim, uma razão para a neve, para Hanôver, as tulipas no vaso e as dores nas articulações do meu corpo. Uma razão para escrever e para não escrever, para a música e o silêncio, uma razão, por todas as coisas distribuída, uma pequena razão." (pp. 80-81).
Pedro Eiras conseguiu provocar danos (no bom sentido) ao transformar "Bach" numa obra inigualável sendo, pois, uma das obras mais criativas publicadas ao longo deste ano, o que reserva ao autor o desafio de se superar no seu próximo livro. Uma coisa é certa: Bach será sempre uma fonte inesgotável de inspiração!
Excerto:
"Nunca regressei a este texto sem medo.
Regressei tantas vezes. Regresso ainda. Sei as frases de cor: sublinhei-as nos livros tão gastos, copiei-as em cadernos, ficheiros no computador. Li cada frase, palavra a palavra, vezes sem conta, ao longo de tantos anos. Eram, continuam a ser densos mistérios, palavras com uma estranha luz dentro. Releio-as como se nunca as tivesse lido.
De certo modo, é verdade: já não são as mesmas frases, agora trazem-me o sabor das leituras e a memória dos anos. Recordo os instantes – o fragmento do tempo? – em que as li, de cada vez; debruçado sobre as folhas de um livro. Como se os dias passados se inscrevessem no papel, e os anos ficassem impregnados na tinta, apontamentos e sublinhados, tempo preso na mina do lápis. Leio, releio, reencontro quem fui, lendo, outrora. Comentários breves, tentativas sobrepostas, leituras sobre leituras: as notas à margem parecem-me agora omissas, insuficientes; e já nem a minha caligrafia é assim.
Quando li pela primeira vez este texto, li-o imediatamente com medo, e nunca regressei a ele sem medo. Nunca sem fascínio e a certeza de um mistério. Texto difícil, que iluminava como nenhum outro, com a sua noite densa escrita no meio do dia." (p. 85)

Pedro Eiras partilhou o último capítulo de "Bach" com os seus leitores:
https://www.youtube.com/watch?v=07kCK1LpVaM

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 18 de Novembro de 2014

Resultado do Passatempo: 2500 a Bombar

E eis que finalmente publico a lista dos vencedores do passatempo "2500 a Bombar"!
Parabéns aos vencedores! Aos que não ganharam, aviso que hoje já saiu um novo passatempo com uma novidade fresquinha, fresquinha... Estejam atentos!
Dos 387 participantes foram sorteados os seguintes vencedores que irão receber os livros pela ordem que foram apresentados no passatempo.
IMPORTANTE: Os vencedores serão contactados via email.

São eles:

Presença
O pior dia da minha vida - Sónia Dias

Clube do Autor
Francisco, os Jesuítas e os Pecados da Igreja - Patrícia Lima
Equador - Marco Almeida
A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário - Jorge Galvão
O Manuscrito nos Confins do Mundo - Manuel Domingos
Educar para o Futuro - Margarida Costa

Planeta
O Vestido Cor de Pêssego - Brito Vaz

Quinta Essência
Sapatinhos de Chocolate - Ana Barbosa
Sedução Irresistível - Sara Berbigão

Marcador
A Bíblia - Miguel Jerónimo

TopSeller
O Golpe - Cátia Filipa

Alfarroba
As Gotas de um Beijo - Bárbara Castro
Amor-Ódio - Íris Lima
Lar, Doce Lar - Carla Sousa

Chiado Editora
O Retorno da Serpente - Pedro Oliveira

Participação especial da escritora Cristina Torrão
Afonso Henriques, o Homem - Inês Gomes
D.Dinis, a quem chamaram o Lavrador - Arménio Luiz
A Cruz de Esmeraldas - Ana Faro
Os Segredos de Jacinta - Maria Ondina Matos

Passatempo: O Brilho das Estrelas


Hoje temos mais um passatempo especial aqui n'O Tempo Entre os Meus Livros! Com a gentileza da Editorial Presença temos para oferecer, aos seguidores do blogue, um exemplar de "O Brilho das Estrelas", de Debbie Macomber, uma autora que muito aprecio devido à forma simples como consegue cativar a nossa atenção.
O passatempo decorre até ao dia 28 de Novembro.
Basta responderem às questões colocadas e seguirem as regras para se habilitarem ao sorteio.
Espero que a sorte esteja com vocës!
Para mais informações sobre este livro, clique aqui.


A Convidada Escolhe: Caligula

"Calígula" de Douglas Jackson é um romance que combina pesquisa e detalhes históricos com uma história emocionante passada no tempo do Imperador Calígula famoso pela sua crueldade e que faz parte de uma trilogia sobre Roma. Rufus, a personagem principal é um jovem escravo vendido pelo seu próprio pai a um padeiro romano que lhe ensinou o ofício. Um dia salva uma rapariga de um animal que tinha fugido de uma jaula de uma das arenas. A sua coragem e os seus dons não passaram despercebidos a Fronto um treinador de animais para combates em arenas que se ofereceu para o ensinar nas suas artes. O padeiro vendeu Rufus a Fronto e a sua carreira como treinador começou. Os seus dons para lidar com os animais não passaram despercebidos a Calígula e Fronto mesmo contra a sua vontade foi obrigado a vendê-lo ao Imperador que fez dele um escravo imperial e guarda do elefante imperial . Rufus que tinha crescido longe dos excessos da corte imperial de Calígula, das grandes batalhas de gladiadores em que centenas de animais e homens eram mortos, das conspirações, dos atentados de assassinato e escândalos de toda a ordem, percebe que agora a sua vida depende do imperador e dos seus inconstantes humores megalomaníacos, que além de pensar ser um Deus vivo, vivia constantemente receoso das intrigas que pudessem intentar contra a sua própria vida. Rufus e o seu grande amigo o famoso gladiador Cupido tinham que envidar grandes esforços para se manterem vivos, não conseguindo, contudo, evitar de se ver envolvidos numa conspiração para assassinar o imperador.
Rufus, então, compreende como todos podem ser jogadores no grande jogo da conquista do poder.
E um bom retrato de Roma, da vida aí vivida, da insignificante vida dos escravos e principalmente de Calígula e suas paranoias.
Texto da autoria de Maria Fernanda Pinto

"Os Sonhos Que Tecemos" de Kate Alcott

Que bom que foi abrir estas páginas e sentir-me de imediato dentro desta história! Adoro quando isso me acontece!

Fui para um ambiente que senti real e ao terminar verifiquei que a autora pegou em acontecimentos verídicos sobre um assassínio em 1832, em Nova Inglaterra, de Sarah Cornell, uma operária textil e mesclou-os (muito bem, devo dizer-vos) com a sua imaginação. O resultado foi um romance que se lê compulsivamente, de uma escrita clara e concisa que nos transporta para um mundo desconhecido por muitos, o das operárias texteis e as suas parcas condições de trabalho, com 13 horas diárias de trabalho, a inalar o ar cheio de particulas de algodão, funcionando com máquinas perigosas e sem segurança que colocavam muitas vezes as suas vidas em risco.

A contrapartida? Uma ilusória liberdade e auto-suficiência.
Seguem-se tentativas de greve, a morte devido à inalação sistemática de algodão, a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho e um romance (claro está!) entre uma menina da fiação e o filho do patrão. Gostei muito e li num ápice este livro!

A capa não atrai, embora o título e a sinopse sejam adequados. Recomendo!

Terminado em 16 de Novembro de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Alice Barrow desafia todas as convenções ao abandonar o mundo rural e tacanho onde nasceu. Numa época em que as mulheres são cidadãs de segunda categoria, o seu emprego na fiação da família Fiske é um passo importante rumo à emancipação. As "meninas da fiação" trabalham longas horas em condições precárias mas a alegria que as une é completamente nova para ela. Um dia, até dá por si a cometer a "extravagância" de celebrar o seu primeiro salário com a compra de um chapéu. É apenas um objeto mas vai ganhar a força de um talismã.
Inadvertidamente, Alice capta a atenção de Samuel Fiske, filho do dono da fábrica. Samuel é um enigma. Frio e impenetrável, tem o condão de contrariar frequentemente a própria família. O seu fascínio por Alice é a derradeira afronta aos pais e à ordem social. Será amor ou mero capricho?
O teste aos seus sentimentos será abrupto. Quando uma jovem muito especial aparece morta, toda a hierarquia de poder é posta em causa. O que se segue é um eco da luta ancestral entre ricos e pobres, poderosos e oprimidos. Apenas os mais determinados conseguirão vingar. Apenas um amor verdadeiro poderá sobreviver.

segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

"Na Montanha de Hitler" de Irmgard A. Hunt

Numa guerra há sempre dois lados. Ē preciso ouvir/ler sobre os dois para se saber mais. Foi isso que me aconteceu nesta leitura. O tema é recorrente, para quem me conhece: a Segunda Guerra Mundial. Nunca é demais, nunca é suficiente. Tratando-se de um relato verídico, ainda melhor.

Desta vez, é pela voz desta autora que somos confrontados com "o outro lado". Não há relatos de atrocidades como a que estamos habituados a ler nos livros que nos falam sobre o holocausto mas há miséria, fome e imposições permanentes, tanto a nível ideológico como físico. Irmgard nasceu numa família humilde que se fixou uma zona montanhosa alemã, perto do retiro de Hitler.
A sua família era formada por membros que aderiram à causa hitleriana e por outros que lutaram contra ele. Heroicamente, aliás! Irmgard cresceu e viveu tentando "escolher" entre os pais e os avós que amava. Mas, como sabemos, a elite nazi não partilhava das mesmas dificuldades que o povo alemão e, somos confrontados, aqui nesta leitura, com toda a propaganda nazi impingida por Hitler e pelas dificuldades reais passadas pelo povo que, ocultado da verdade, tentava sobreviver.

O secretismo que envolvia as acções de Hitler e a opressão em que vivia a maior parte do povo alemão, levava a que qualquer suspeita não fosse abertamente formulada, muitas vezes por medo de um castigo ou por desejo que fossem deixados em paz. A vida dura, difícil, repleta de carências contribuia para que o medo se instalasse e as notícias não se espalhassem.

Ficamos presos ao relato desta menina/mulher que, através de diários e conversas com familiares, tentou contar a história da sua família. Sem desculpas. Com toda a culpa que uma criança pode transportar por erros praticados por indivíduos sem qualquer humanidade. Quando a guerra termina, a autora tem 11 anos. O pós-guerra, vivido com muita dificuldade e ansiedade, é um mundo novo que se lhe abre. A ocupação americana foi uma porta de saída de um país fechado em si mesmo para um mundo onde a palavra liberdade possuia outro sentido.

Recomendo muitíssimo esta leitura.

Terminado em 11 de Novembro de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Tendo crescido nas imponentes montanhas de Berchtesgaden, a poucos passos de distância do retiro alpino de Hitler, Irmgard Hunt teve uma infância aparentemente feliz e simples. Nas suas memórias poderosas, esclarecedoras e por vezes assustadoras, relata uma infância vivida sob um dirigente diabólico mas persuasivo. Este não é um livro apenas de memórias, é o retrato de uma nação que perdeu a sua bússola moral.

sábado, 15 de Novembro de 2014

Na minha caixa de correio

 


Oferta gentil da Topseller, Quando a Neve Cai.
As Raparigas Cintilantes é emprestado do Segredo dos Livros.

sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

Novidade TopSeller


Novidades Planeta

A PRINCESA BRANCA
Guerra dos Primos - Livro V
de Philippa Gregory
Quando Henrique Tudor conquista a coroa de Inglaterra após a batalha de Bosworth sabe que tem de se casar com a princesa da casa inimiga, Isabel de York, para unificar um país dividido pela guerra há duas décadas. 
Mas a noiva ainda está apaixonada pelo seu inimigo morto, Ricardo III. A mãe de Isabel e metade de Inglaterra sonham com o herdeiro ausente, que a Rainha Branca enviou para o desconhecido. 
Embora a nova monarquia tome o poder, não consegue ganhar o coração de uma Inglaterra que espera o regresso triunfante da Casa de York. 
O maior receio de Henrique é que um príncipe esteja escondido à espreita para reclamar o trono. Quando um jovem que quer ser rei conduz o seu exército e invade Inglaterra, Isabel tem de escolher entre o novo marido, por quem se começa a apaixonar, e o rapaz que afirma ser o seu amado e perdido irmão: a Rosa de York volta para casa finalmente.

NOVE MIL PASSOS
de Pedro Almeida Vieira
Um livro narrado por Francisco d’Ollanda, ou melhor pelo seu espírito, já que o narrador está morto, num tom cheio de humor, que nos relata as peripécias que o seu ser imaterial vai acompanhando. 
Francisco d’Ollanda foi o primeiro arquitecto e visionário a quem D. João III pediu estudos para a construção de um aqueduto que abastecesse de água a cidade de Lisboa e aqui conta, quase dois séculos depois, como se processou todo o estudo, adjudicação e construção do 
Aqueduto das Águas Livres, já no reinado de D. João V. 
Ficamos a saber tudo sobre os seus construtores e as tramóias, as intrigas, as traições, os golpes de génio que vão fazendo andar de um para outro dos arquitectos e engenheiros que ficaram com o seu nome ligado ao fabuloso monumento. 
Entre a Inquisição e a Maçonaria, as forças vão-se digladiando, fazendo andar e desandar as obras – e os gastos – até finalmente, poucos dias após a morte do próprio monarca, a água chegar finalmente a Lisboa.

quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

AEscolha do Jorge: A Lenda da Carruagem

Há livros que nos chegam às mãos de modo inesperado e que se tornam verdadeiras surpresas! É o caso de "A Lenda da Carruagem" (1975) do norueguês Sigbjørn Hølmebakk (1922-1981) cuja obra foi publicada pela extinta Editorial Notícias (atual Casa das Letras, Grupo LeYa), em 2001, na Coleção Prosas de Fora.
A narrativa tem como epicentro o encontro inusitado entre Olav Klungland, um escritor norueguês com algum renome no seu país, e Eilif Grøtteland, antigo pastor luterano.
Olav Klungland além de se dedicar à escrita a tempo inteiro, sendo, pois, o seu ganha-pão, é simultaneamente um destacado militante do Partido Comunista do seu país, colaborando em muitas das suas atividades, campanhas e conferências defendendo ao máximo os seus ideais sobretudo numa época de forte tensão política como a da Guerra Fria, nomeadamente com os olhos postos na Guerra do Vietname.
Obcecado pelo tema da morte, Olav Klungland defende que "pensamos na morte desde a nossa infância até ao nosso momento final. Não só quando estamos em perigo mortal, mas durante todas as nossas vidas tememos aquilo que se aproxima." (p. 24), daí que para alguém defensor acérrimo das ideias comunistas, tenha em mente a implementação de medidas que visam a melhoria das condições de vida das pessoas em vida em oposição à ideia de vida eterna no paraíso defendida no Cristianismo. "Nós comunistas não nos interessamos pela vida após a morte. A nossa tarefa é melhorar a vida para as pessoas aqui na terra. (…) Em toda a parte do mundo as pessoas lutam contra a humilhação, a exploração e o desespero. As pessoas sairão vitoriosas e a sua vitória é a esperança do mundo." (pp. 152, 154).
Olav Klungland vai-nos dando conta das suas dificuldades perante a escrita, os momentos de desalento entre alguns desafios que sente no meio de tantas angústias tão comuns na sua atividade enquanto escritor ao ponto de se sentir envergonhado de nem sempre se recordar sobre o que escreveu nalguns dos seus romances, tomando consciência que a realidade fora dos romances é bem mais inspiradora e verosímil do que aquilo que escreve, daí a explicação da angústia permanente que vai partilhando com o leitor.
É neste deambular de ideias sobre um romance que tenta concluir a custo que Olav Klungland conhece por mero acaso o antigo pastor luterano Eilif Grøtteland que está a acompanhar a sua esposa Elna que se encontra internada no hospital em Oslo com um doença oncológica já em fase terminal.
A breve conversa inicial de ambos gera alguns encontros a posteriori a convite de Eilif Grøtteland que de modo intenso, emocional e emocionante conta a Olav Klungland a história da sua vida desde quando era criança até ao presente momento.
Esta história dentro da história assume um caráter confessional com características muito próximas da escrita de Sándor Márai arrastando completamente o leitor para o seu âmago deixando-lhe sequelas difíceis de esquecer.
Eilif Grøtteland relata as dificuldades económicas pelas quais a sua família passou necessitando de recorrer à caridade alheia tanto para a alimentação como para os estudos, a doença do pai, a difícil relação com o irmão Lars (que se juntou aos alemães durante a 2ª Guerra Mundial) com quem disputava a namorada Elna, a dualidade de sentimentos de Elna em relação aos dois irmãos (mesmo depois de ter casado com Eilif), as dúvidas que para sempre ficaram relativamente à sua filha Lillian, à sua decisão de se tornar pastor e posteriormente o que o terá levado a perder essa mesma fé e esperança ao ponto de resignar o seu cargo/profissão de modo consciente. E será esse ponto irreversível? Haverá retorno? Depois de tantas dificuldades, dilemas, dúvidas e com a tragédia sempre presente ao longo de toda a vida, como é possível que a morte em si mesma se transforme na força motriz para reavivar essa mesma fé e esperança e encontrar verdadeiramente a felicidade?
Assim, o autor consegue a partir da ideia da morte ligar dois personagens com formas de pensamento total e diametralmente opostas como catapulta para a felicidade em si mesma.
"A Lenda da Carruagem" é, pois uma obra literária conseguida com bastante mestria que nos empurra ou arrasta para o seu seio tendo como ideia central a obtenção da felicidade. Ainda que o caminho seja duro e pejado de espinhos, a vida é o tempo que cada um tem como cheque/garantia na obtenção desse fim último constituindo o caminho que a humanidade desbrava insistentemente e de modo consciente ou inconsciente.
Dolorosamente belo, Sigbjørn Hølmebakk consegue esmagar-nos com as inúmeras questões que levanta que nada mais são dos que as vicissitudes de se ser humano com todas as suas potencialidades e fragilidades, concluindo com a frase "Não me tirem esta inquietação" (p. 173) como motor/garantia na obtenção da felicidade.
Um livro obrigatório!

Excerto:

"- Vai trabalhar como pastor de novo? Perguntou ele por fim.
- Pastor? Que bem é que isso faria? Para começar de novo com os sermões, lutar com palavras e frases? Nem sei sequer o que iria dizer. – Grøtteland parecia perdido em pensamentos. – Não sou pastor. Não posso ensinar aos outros o que eu próprio não aprendi. Quando olho para trás para a minha vida e me pergunto o que aprendi, a resposta é sempre a mesma. Não aprendi nada… excepto uma coisa: que não sei nada, não compreendo nada, que tudo o que recebi foi imerecido, uma oferta de graça. Não, não sei o que farei. É possível que continue a ensinar na escola. Talvez possa ser de algum uso. Talvez possa finalmente representar algo para os outros." (p. 171)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 12 de Novembro de 2014

"A Incrível Viagem do Faquir..". de Romain Puértolas

Que livro divertido e mirabolante este! Já tenho aqui referido que, as minhas leituras, para não me entediarem têm necessariamente de ser um pouco ecléticas. Entre policiais, romancess históricos, livros com um cariz mais verídico e romances de amor, de vez em quando gosto de ler algo mais divertido! O título prometia algo nesse sentido, a capa e a sinopse também! Estava na altura certa...

Ajatashatru Alarash Patel, ē faquir. Trapaceiro bem engendrado, mas faquir de profissão. Decide ir a França comprar uma cama de pregos no Ikea... É a partir desta sua viagem que as peripécias não têm fim: a acção desenrola-se numa constante de acontecimentos super divertidos, quase irreais, em que Aja se vê não sabe como metido em alhadas cada uma maior que a outra!

Devagar e pelo meio destes hilariantes acontecimentos, o faquir trapaceiro e burlão é contagiado pelos valores de algumas pessoas que lhe surgem no caminho e vai alterando o seu comportamento e a sua forma de pensar.

Com capítulos curtos que ajudam a que este ritmo alucinante não tenha fim e que nos vão divertindo num crescendo de boa disposição, o autor não deixou de lado uma forte crítica aos países "mais ricos" em relação ao problema da imigração ilegal e à forma como ela é tratada, ou seja, despachada para outros países.

Um livro que me soube bem ler!

Terminado em 7 de Novembro de 2014

Estrelas: 4*+

Sinopse

Ajatashatru Larash Patel, faquir de profissão, que vive de expedientes e truques de vão de escada, acorda certa manhã decidido a comprar uma nova cama de pregos. Abre o jornal e vê uma promoção aliciante: uma cama de pregos a €99,99 na loja Ikea mais próxima, em Paris. Veste-se para a ocasião - fato de seda brilhante, gravata e o seu melhor turbante - e parte da Índia com destino ao aeroporto Charles de Gaulle. Uma vez chegado ao enorme edifício azul e maravilhado com a sapiência expositiva da megastore sueca, decide passar aí a noite a explorar o espaço. No entanto, um batalhão de funcionários da loja a trabalhar fora de horas obriga-o a esconder-se dentro de um armário, prestes a ser despachado para Inglaterra. Para o faquir, é o começo de uma aventura feita de encontros surreais, perseguições, fugas e aventuras inimagináveis, que o levam numa viagem por toda a Europa e Norte de África.
A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário IKEA é uma aventura rocambolesca e hilariante passada nos quatro cantos da Europa e na Líbia pós-Kadhafi, uma história de amor mais efervescente do que a Coca-Cola, mas também o reflexo de uma terrível realidade: o combate travado por todos os clandestinos, últimos aventureiros do nosso século.


segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

"O Pior Dia da Minha Vida" de Alice Kuipers

Escrito em forma de diário por uma jovem de quase 17 anos, Sophie, este livro é direccionado para um público mais jovem. Li-o de uma assentada, só numa manhã de domingo.

Pelas palavras de Sophie sabemos que algo se passou na sua vida que a marcou profundamente. A si e à sua mãe. Tanto que deixaram de comunicar, de ser família. Não sabemos o que foi. Claro que imaginei um pouco de tudo: maus tratos, violação, rapto... Sei lá que mais!

Sophie não quer lembrar. Vive o hoje, sem pensar no ontem nem no amanhã. Tenta desesperadamente não pensar. No entanto, pensamentos, visões e pesadelos não a largam. Ataques de pânico, súbitos e violentos que a deixam sem forças, alquebrada! Nós, enquanto leitores tentamos descordinar, sem qualquer resultado aliás, o que se terá passado na sua vida... Aos poucos Sophie vai conseguindo escrever/falar consigo própria sobre o que se passou. É aí que vamos, aos poucos, sabendo mais.

Confesso que me emocionei em certas partes desta leitura. Consegui colocar-me dentro de Sophie mas também dentro da personagem que é a sua mãe. Dois lados de uma mesma realidade, de um mesmo horror. A perda, a culpa, a solidão. A morte. O recomeço, a esperança.

Gostei muito da escrita simples que nos toca ao coração. Pareceu-me real. Uma lágrima contida. Ah, e este livro não é só para os jovens, não!

Terminado em 2 de Novembro de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Tudo o que Sophie mais deseja é esquecer o que aconteceu... Mas as marcas que aquele dia fatídico deixou são demasiado profundas e, perdida nas suas memórias, a jovem refugia-se dentro de si mesma, num isolamento crescente, à medida que a sua relação com o mundo e com os que a rodeiam se vai deteriorando. As recordações de Emily, a irmã três anos mais velha e sua confidente, vão-se impondo, quase obsessivas, e Sophie terá de ser capaz de enfrentar a tragédia ocorrida no seu passado e de se libertar da culpa que sente se quiser recuperar o equilíbrio da sua vida. Uma obra inspiradora sobre as consequências trágicas dos atos terroristas, sobre o estado disfuncional em que um grande sofrimento nos pode mergulhar e, acima de tudo, sobre a capacidade de nos perdoarmos e reconstruirmos o nosso futuro.

sábado, 8 de Novembro de 2014

Na minha caixa de correio

 


Oferta gentil da Editora Vogais: Crianças Perdidas. Adoro esta temática.
Da Bizâncio, um livro que me atraiu pelas cores da capa e pela sinopse: O País Debaixo da Minha Pele.
Obrigado a ambas por carinhosamente alegrarem a minha semana! É tão bom receber o carteiro!

sexta-feira, 7 de Novembro de 2014

"A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário" de Denis Thériault

Um Sábado passado, um livro lido. Pequeno, claro. Mas muito interessante. Com uma imaginação surpreendente. Bilodo, carteiro de profissão, tem uma vida sem cor e sem sal. Não fossem as cartas pessoais que ainda vão chegando às suas mãos para distribuir e que ele, vil ladrão de palavras, vai abrindo e lendo antes de entregar, e a sua vida seria completamente insípida!

Daí a mergulhar em vidas que não são suas é um passo. De tal forma o fez que se vê envolvido numa teia de mentiras e embaraços que só uma escrita de mestre consegue transmitir com tamanha beleza. Apaixonado por Ségolène, que nem conhece pessoalmente, Bilodo toma o lugar de Grandpré, o autor das cartas, aquando do seu súbito falecimento e substituindo-o nessa correspodência, continuando o tipo de poesia nelas escrito: o Haiku, uma forma poética de origem japonesa (vejam na Wikipédia...)

Esta correspondência pessoal, via correios, hoje quase um acontecimento inédito, toma um caminho muito peculiar que me surpreendeu, tornando o final deste livro muito especial e único. De uma imaginação prodigiosa.

Terminado em 31 de Outubro de 2014

Estrelas: 4*+

Sinopse

Esta é a história de um carteiro solitário que vive a sua vida através dos outros, lendo a correspondência alheia antes de a entregar aos destinatários. Inesperadamente, esse carteiro assume a existência de outro homem e aproxima-se da mulher por quem se apaixonara. E assim começa uma apaixonante história de amor, uma relação única, intensa e bela vivida apenas através das cartas e dos poemas que trocam entre si. Mas durante quanto tempo poderá Bilodo continuar a viver aquela mentira - e aquele amor? Num registo intimista e tocante, Thériault explora os temas do amor, da imaginação, do sonho e das dimensões inconscientes do espírito humano.


Novidade Esfera dos Livros

Os Mortos não dão Autógrafos
de Francisco Nicholson
O jornalista Rui Alvorada acorda no hospital depois do portentoso tareão com que quatro jagunços cobardolas o brindaram. Uma ideia aflora-lhe imediatamente o pensamento: «Estou a reviver a história do meu pai, vítima de uma canalhice que o atirou para uma cama como esta. A mesma história com protagonistas diferentes.» Quando, treze anos antes, entrou no velório do pai, ficou estupefacto. Estava cheio de gente que lhe dava as condolências, que lhe dizia que Jaime Risco tinha sido um grande jornalista. Mas, para além dos elogios ao jornalista, havia também os elogios ao Homem, ao combatente pela liberdade, e, em surdina, ao amante. Rui opta por seguir os passos do pai, mas cedo percebe que tem de se superar se quer deixar de ser o filho do Jaime Risco e passar a ser um jornalista reconhecido. Mas há muito mais para descobrir sobre aquele homem, que se perdia pelo belo sexo, por uma noite de copos ou por uma investigação jornalística que pusesse a nu os podres dos políticos. E nada melhor do que investigar o mundo da política e do crime organizado, com passagens pelo parlamento, por eleições cacicadas e multinacionais da droga, para ficar a conhecer o seu pai e conhecer-se a si próprio. Francisco Nicholson, num tom irónico e com um humor inteligente, apresenta-nos, no seu romance de estreia, uma história singular passada num Portugal manipulado pelos políticos e pelos grandes interesses, onde o amor, a amizade e a coragem se cruzam com jogos de poder, ganância e ambição.

Novidades Marcador

A Ilha do Medo
de Nelson DeMille
Ferido no cumprimento do dever, o detetive de homicídios  John Corey, da Polícia de Nova Iorque, está a convalescer na região leste de Long Island quando um casal jovem e atraente é encontrado assassinado a tiro no terraço da casa onde habitava. As vítimas eram biólogas na Ilha de Plum Island, um local de pesquisas que os rumores dizem ser uma incubadora de armas biológicas. Subitamente o duplo assassinato adquire terríveis implicações globais – e lança Corey e duas mulheres extraordinárias numa investigação perigosa aos segredos mais profundos da Ilha.


Os Grandes Ditadores da História
de Pedro Rabaçal
Os Grandes Ditadores da História apresenta-nos uma visão muito abrangente das ideias, das vidas, e dos atos desses homens que influenciaram enormemente os seus países e o mundo.
Os ditadores, com personalidades invulgares e especiais, mais ou menos convictos das suas 
ideias, com menor ou maior empatia com o seu povo, subiram ao poder, em geral, graças a 
enormes doses de astúcia, de força de vontade e de outros talentos formidáveis, infelizmente combinados com a falta de escrúpulos e de compaixão.

Novidades BOOKSMILE

 


Novidade Porto Editora

O Homem da Areia 
de Lars Kepler
Jurek Walter é um dos assassinos em série mais perigosos e mortais do mundo, um psicopata tão sinistro e tão inteligente como Hannibal Lecter. Embora esteja há mais de uma década encarcerado na ala psiquiátrica de um hospital de alta segurança, a Polícia jamais conseguiu desvendar os seus crimes e descobrir o paradeiro das suas inúmeras vítimas. No entanto, quando o jovem Mikael Kohler- -Frost, supostamente morto há mais de sete anos, é encontrado a vaguear numa ponte ferroviária, hipotérmico e às portas da morte, o comissário Joona Linna vê-se obrigado a reabrir o caso e a aproximar-se do homem que o privou da sua família, o homem que, mais do que tudo, o deseja morto.
À medida que as investigações avançam, o perigo adensa-se e torna- -se imperativo entrar na mente do perigoso assassino, antes que o tempo se esgote…

quinta-feira, 6 de Novembro de 2014

A Escolha do Jorge: O Leão Vermelho

Pedro Arregui (n. 1948) é a mais recente aposta da Cavalo de Ferro que nos apresenta "O Leão Vermelho – Memórias de um Combatente" num registo menos habitual sobretudo quando comparado com as obras e os autores que constam do seu catálogo.
Contado na primeira pessoa, Pedro Arregui é natural de Cuba e integrou o primeiro contingente de militares enviados por Fidel Castro para Angola, em 1975, para combater junto do MPLA liderado por Agostinho Neto ficando conhecida por «Operação Carlota».

Num contexto de guerra colonial que era o cenário de vários países africanos, Angola vivia igualmente um período de grande tensão na medida em que os vários movimentos de libertação (FNLA, UNITA e MPLA) face a Portugal mergulharam igualmente numa sangrenta guerra civil no intuito de comandarem o futuro do país após a independência. A par desta guerra encarniçada, não faltou o apoio dos EUA, União Soviética, China, África do Sul e Cuba mediante a tendência ideológica dominante de cada um dos movimentos de libertação acima indicados, integrando, pois, esta guerra num contexto mais alargado da guerra fria. A guerra civil em Angola continuou muito depois da queda do Muro de Berlim, terminando somente em 2002.
Neste sentido, Pedro Arregui ajuda-nos a compreender a guerra colonial vista de uma outra perspetiva, de alguém totalmente alheio não somente à guerra em si, mas a Angola e ao continente africano em geral.

O autor relata-nos a história desde quando foi convocado para se apresentar junto dos militares que o iriam preparar para uma missão secreta com destino a Angola até ao dia em que regressa a Cuba ao fim de mais de um ano depois.

Sem ser tendencioso ou suspeito nas suas palavras, Pedro Arregui põe a escrito as suas memórias desse tempo sem que se vejam críticas (pelo menos de modo objetivo) ao regime de Fidel Castro, à guerra em Angola, assim como aos costumes das suas gentes, e até em relação a Portugal dado existirem inúmeras opiniões em relação ao país outrora colonialista.

Pedro Arregui descreve inúmeras situações difíceis por que passou em Angola junto dos seus companheiros, nomeadamente fome, acesso à saúde, mortes, muitas mortes, o que é natural em contexto de guerra, não só para os soldados, mas também para as populações locais que se viam a braços com situações frequentes de falta de alimentos e o difícil acesso aos mesmos devido à insegurança por parte de grupos de guerrilheiros armados, além de que as vias de comunicação se apresentavam também bastante danificadas e com minas espalhadas por todo o país.

O relato de Pedro Arregui é também um manancial de referências à flora e fauna de Angola que tantas vezes deixou o autor surpreso com as diferenças em relação a Cuba.
A par destes aspetos, também as diferenças de natureza cultural marcam claramente um lugar de destaque neste livro, sendo apresentadas sempre com respeito e admiração quando comparadas com o quotidiano em Cuba. É dado como exemplo o modo como são realizados os funerais, encarados como uma festa, o espírito comunitário de entreajuda visível nas áreas rurais, o cosmopolitismo e a vida moderna nas cidades maiores do país que tentam contornar e esquecer a guerra através da tendência da moda de então em contraste com as indumentárias características do país e até o espírito libertino de muitos jovens visível através da prática da prostituição que apresentava mulheres com práticas sexuais diferentes, mais ousadas, comparativamente à experiência que os militares cubanos traziam de Cuba.

"O Leão Vermelho" é um livro que tem como pano de fundo a guerra, mas também apresenta os seus personagens como pessoas de carne e de osso com todas as suas circunstâncias e desafios e instinto de sobrevivência que tratando-se de homens fortes preparados para qualquer missão, mostravam também toda a parte mais humana e sensível a cada carta recebida dos seus familiares de Cuba.
O sentido de humor é também uma constante ao longo de toda a obra ajudando o leitor sobretudo em momentos em que terá mergulhado num ambiente hostil da guerra e das suas consequências, daí que uma piada de quando em vez alivia o clima tenso das descrições.
Pedro Arregui à semelhança de tantos outros ex-combatentes nesta e noutras guerras sangrentas regressou a casa com as mazelas de cariz emocional e psicológico que o terão marcado para o resto da vida, tanto a si como à sua família
"O Leão Vermelho" é, pois, um livro notável e simultaneamente uma grande surpresa dado conquistar-nos desde as primeiras páginas, além de se tratar de uma obra que nos ajuda a compreender mais alguns aspetos sobre a história do nosso país em articulação com a história de Angola e também de que modo as más decisões políticas afetam milhões de pessoas sem que, uma vez mais, os responsáveis sejam punidos

Excertos:

"É impossível prever o nosso futuro, embora nos esforcemos por encaminhá-lo na direção de um lugar pré-estabelecido. Não podia imaginar trabalhadores de todas as idades, com as suas aspirações e as suas vidas consolidadas no trabalho e na casa familiar, convertidos em soldados, dispostos a matar para implementar e defender um determinado sistema, pese embora considerado justo, num longínquo e ignorado país." (p. 14)
"Acabava de experimentar o facto de, na guerra, ou melhor dizendo, nos momentos de vida ou morte, os humanos se comportarem de modo distinto do habitual. Mudam de atitudes e de aptidões, florescendo neles outras qualidades que eles próprios desconheciam.
No final de uma cruenta batalha, onde tudo é destruição, o «eu» de algumas pessoas agiganta-se, convertendo-as em gente mais egoísta, ruim, mesquinha, e em outras desaparece, transformando-se num «nós» com os mesmos interesses, iguais preocupações e mais solidário." (p. 56)

"Esperávamos ansiosos por aqueles envelopes contendo as palavras que representavam para os combatentes a tristeza, a alegria, a nostalgia, o amor, as lágrimas, os nós na garganta e mil coisas mais, palavras essas que tínhamos de ler sentados debaixo de uma árvore, num canto de uma divisão ou um veículo, mas sempre sozinhos. Depois comentávamos com os companheiros: «Está tudo bem. Não há problemas.» Os combatentes, aqueles que com coragem estiveram dispostos a matar para não morrer, reliam uma e outra vez as cartas, passando as costas da mão pelos olhos para desalojar as lágrimas que timidamente assomavam aos seus olhos. Era uma cena triste, terna e bela ao mesmo tempo. Era a cena, repetida várias vezes, em que sobressaíam à flor da pele os verdadeiros sentimentos dos soldados. Alguns recebiam fotografias de um filho ou de uma namorada. Eu também recebi uma da minha mulher e outra da minha filha, que guardei no bolso. Esta última prendi-a ao disco de plástico no centro do volante de cada vez que viajava. Tirava-a após cada viagem e guardava-a no bolso da camisa. A da minha mulher andava sempre comigo." (pp. 118-119)

"A caravana circulava pelas ruas periféricas de uma cidade que, embora exibisse algumas marcas da guerra, tinha vida. Uma jovem alta e bela e elegantemente vestida, que fazia abanar os seus seios ao ar livre e ao compasso dos passos, captou a minha atenção. Era a modernidade e a tradição. Podíamos ver, circulando pela rua, jovens com vestidos na moda e homens com fatos ou calças de ganga de marcas conhecidas, vestes misturadas com indumentárias indígenas próprias, descalços ou calçados com ténis caros. A prostituição era tanta como em qualquer cidade da metrópole e alguns cubanos da nossa unidade tiveram a coragem de ir às prostitutas e depois falavam-nos das suas tatuagens e de costumes sexuais para nós desconhecidos." (p. 136)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 5 de Novembro de 2014

"Jan Karski, o Herói que Tentou Travar o Holocausto"



Livro relativamente pequeno mas de difícil leitura devido ao seu conteúdo. Como o são todos os relacionados com o Holocausto. E, por isso mesmo, de leitura obrigatória.

Pouco tenho a dizer. Jan Karski é uma testemunha. Viu, visitou o gueto de Varsóvia, saiu e tentou convencer o mundo a parar com tal horror. Ninguém o ouviu. O extermínio dos judeus na Europa foi um crime cometido por quem infringiu o horror que nós sabemos ou ouvimos falar mas também por quem fechou os olhos e os ouvidos e não quis saber... Solução mais fácil essa o de não "saber de nada"!

Saber viver com tamanha realidade foi um percurso, a maior parte das vezes, solitário que Jan teve de aprender a lidar. Sobreviver a um campo de concentração também contribuiu para que muitas vezes se remetesse ao silêncio. Mas como testemunha, Jan tinha de contar o que viu e o que viveu.

Recomendo!

Terminado em 31 de Outubro de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Plano Nacional de Leitura
Livro recomendado para apoio a projetos relacionados com a História Universal no Ensino Secundário.
Varsóvia, 1942. A Polónia foi devastada pelos nazis e pelos soviéticos. Jan Karski é um mensageiro da Resistência polaca junto do Governo no exílio, em Londres. Encontra dois homens que o conseguem introduzir clandestinamente no gueto de Varsóvia, para que ele possa dizer aos Aliados o que viu e preveni-los de que os judeus da Europa estão a ser exterminados.

Jan Karski atravessa a Europa em guerra, alerta os ingleses, e tem um encontro com o Presidente Roosevelt na América. Trinta e cinco anos mais tarde, Karski conta a sua missão nessa época em SHOAH, o grande filme de Claude Lanzmann.
Impõe-se a terrível pergunta: Porque é que os Aliados permitiram o extermínio dos judeus da Europa?
Este livro, que combina os meios do documentário com os da ficção, conta a vida desse aventureiro que foi também um Justo.

terça-feira, 4 de Novembro de 2014

A convidada Escolhe: A Noite das Mulheres Cantoras

"a noite das mulheres cantoras" é um romance de Lídia Jorge contado em forma de monólogo 21 anos depois da narradora e personagem ter vivido os acontecimentos. O tema é o da persistência para alcançar um objetivo, um sonho, mas também a destruição do indivíduo relativamente ao coletivo, nem que para isso seja necessário não olhar a meios para atingir os fins. O livro aborda não só os sacrifícios e renúncias que são necessários para atingir a fama, como a idolatria que por vezes se constrói à volta de uma personagem mais carismática, com forte poder de persuasão e com muita ambição de sucesso. Tudo gira à volta de um grupo que se propõe transformar-se em banda musical, editar um disco e fazer por fim um grande espetáculo. A pressão é muito forte, os obstáculos são ultrapassados à custa de algumas vítimas e do desmoronamento de amizades, mas os objetivos são alcançados quase na totalidade. Havendo dinheiro e contactos tudo se consegue, parece ser o lema.

Toda a história é recordada 21 anos depois num grande espetáculo em que participou a que havia sido a principal mentora e a mais obstinada do grupo. Encontravam-se na assistência as restantes cantoras com exceção de uma, a principal vitima deste projeto que fora demasiado ambicioso para a sua condição social e as suas forças e que todos fizeram por esquecer. Do ambiente que se vivia nos anos oitenta, com convenções mas também com o rompimento brutal com as mesmas, passando por uma certa libertinagem, dá-nos Lídia Jorge uma boa perspetiva, nesta sua obra, para além de nos fazer refletir sobre as prioridades que cada um determina para a sua vida.

Texto da autoria de Maria Fernanda Pinto

segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

"Lobos na Cidade" de Carlos M. Queirós

Li o livro anterior do autor e gostei. Deixei-me enredar pela história magnífica e cheia de imaginação onde os animais (neste caso, lobos) possuem um papel preponderante. A minha opinião aqui! Soube que o autor tinha continuado a história. Fiquei curiosa mas tinha o livro na estante esperando vez... como tantos outros, aliás!

O facto de ter lido Trilho de Lobos já há algum tempo, fez com que tivesse alguma dificuldade em entrar na história, pelo menos durante as primeiras páginas. Ajudaria se tivesse um pequeno resumo no início ou até na badana do livro. Fica a sugestão, pois para quem lê bastante, as histórias ficam enterradas na memória, como que num limbo, de onde é preciso tirar quando se trata de querer revivê-las...

Mas esse facto depressa foi superado! E mais uma vez o autor soube cativar-me, apresentando uma história com mistério suficiente para me prender. Novamente o lobo ibérico num papel de destaque, relembrando-nos que os animais possuem uma fidelidade impressionante e que não esquecem quem lhes faz bem.

O enredo é cheio de movimento, sem espaços mortos nem entediantes, o que leva querer virar as páginas para sabermos qual o destino dos personagens. Entre fugas da prisão, raptos, jornalistas a fazerem trabalho de campo junto de mendigos, lobos ibéricos farejando e detectando o perigo, histórias escondidas de passados familiares terríveis, tudo nos cativa e mantém o nosso suspence.

Gostei e recomendo! Um livro que pode ser lido, também, por um público mais jovem.

Terminado em 26 de Outubro de 2014

Estrelas: 4*+

Sinopse

Quando o eremita Miguel Aprígio foge da prisão e se refugia numa montanha adjacente à Serra da Giesteira, verifica que a liberdade não consentida é penosa. Está preso naquela que deveria ser a sua zona de conforto – o coração da natureza.
Um fantasma do passado veio para o ensombrar. A vida lenta e penosa que leva transforma-se numa encarniçada luta. O corpo cansado e a mente frágil contra um inimigo implacável.
Os lobos de Miguel Aprígio sentem a dor do desaparecimento da pequena Isabel e abalam sem destino no seu encalço.
Porém, o desencontro entre Miguel Aprígio e os lobos, leva-os por caminhos diferentes.