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quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

A Escolha do Jorge: A Imensa Boca dessa Angústia e outras Histórias

"A Imensa Boca Dessa Angústia e outras histórias" foi o último livro publicado por Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013) antes do seu falecimento.
Dividido em duas partes, uma primeira com alguns contos na verdadeira aceção da palavra e uma segunda parte composta por pequenas histórias relativamente curtas, chegando a ocupar em várias situações menos de uma página ou mesmo algumas linhas.
Em todo o caso, o tema central destas histórias é a angústia, algo que de algum modo é algo presente na sociedade ocidental anos ante a indefinição do futuro fruto de profundas transformações económicas verificadas nos últimos anos. Nalgumas histórias, a angústia tem claramente um fundamento objetivo, noutras situações é quase como um "modus vivendi" e que é condição de vida de cada um.
A maior parte dos contos ou das histórias ainda mais curtas não têm uma geografia própria à exceção de pelo menos dois contos em oposição à indefinição de espaço, podendo ser qualquer local de Portugal ou mesmo da Europa.
A insatisfação perante algo objetivo ou não é algo que marca profundamente estas histórias que com uma pitada de humor, Urbano Tavares Rodrigues não deixa de mexer na ferida de alguns dos problemas do mundo contemporâneo, criticando, desse modo, a forma de organização política, social e económica atual tentando, para o efeito, elevar o homem no que diz respeito à sua humanidade que tantas vezes é esquecida.
Assim, o autor se por um lado tece críticas à sociedade contemporânea, por outro amacia também a humanidade com pinceladas de esperança na tentativa de uma possível redenção que se poderá traduzir na obtenção da paz consigo mesma.
"A Imensa Boca Dessa Angústia" é um livro terno que nos adoça o espírito tornando um dia de trabalho mais feliz.
Excertos:
PEZINHOS DE LÃ
"Pezinhos de Lã era um menino muito louro e rosado, aparentemente doce mas que na verdade partia toda a louça da casa por espírito de destruição.
Uma menina sua vizinha, de grandes olhos verde-mar, é que se deu conta da sua malvadez e resolveu brindá-lo com uma chuva de pedra tão rude que o amansasse de vez.
Pezinhos de Lã aguentou, ficou ferido sem gravidade e percebeu que destruir era um caminho sem sentido.
Vou fazer o contrário: construir.
E assim Pezinhos de Lã, no seu modo quase silencioso de andar, construiu a cidade dos sonhos, onde todos comiam, bebiam e folgavam e se pareciam uns com os outros, irmãos da luz e da alegria." (p. 163)

OS COMANDANTES DO LUAR
"Surgiram apenas, como os vampiros, em noites de lua cheia, mas era bem diferente a sua atividade. Os comandantes do luar misturavam-se com os mais pobres dos pobres, levando-lhes sacos de pão mole, queijos e chouriços e garrafas de coca-cola. Abraçados a eles, secavam-lhes as lágrimas, faziam-nos por duas horas mágicos e príncipes da ilusão. Desistiram de lhes arranjar trabalho. Estavam já muito alquebrados e alheios à vida da utilidade. Então criaram com eles um coro que andava pelas ruas da amargura pregando a subversão total dos não-valores instituídos pelos grão-mestres do dinheiro, ou, mais explicitamente, dos malditos mercados, bancos, tiranos e companhia e a negregada hegemonia do euro.
Pum! Estoirou tudo." (p. 175)

Texto elaborado por Jorge Navarro

quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

"Terra de Milagres" de João Felgar

Mal acabei de ler este livro tive a exacta noção que por mais que eu escrevesse não conseguiria descrever completamente o quanto eu gostei dele! Aliás, gostar é pouco! Confesso que fui apanhada de surpresa! Não esperava apaixonar-me tão rapidamente pela história nem pela escrita do autor.

Começa assim: "A fertilidade das mulheres é um caminho de sangue e dor. - disse Júlia, com uma fileira de alfinetes na boca.- Enquanto os rapazes jogam futebol e andam aos nínhos, estamos nós tolhidas com as dores da história sem sabermos bem para que serve aquilo. A perda da virgindade é a paga com as dores de uma punição, de preferência no dia mais bonito da nossa vida! E, por fim, a maternidade, em que damos uivos de lobas, com dores de se ver lume. Tudo isto sempre com sangue pelo meio."

Não costumo colocar aqui exertos dos livros que leio porque, para ser sincera, sou um pouco preguiçosa, mas não consegui deixar transcrever este primeiro pagrágrafo de Júlia, de tal forma ele me cativou à primeira! Júlia é uma das personagens principais deste livro e uma das mais bem conseguidas. Costureira sem estudos, que devora as Selecções do Reders Digest, para daí assimilar e decorar vários ensinamentos, é uma mulher sábia nos conselhos que transmite às suas filhas e a todas as aprendizas do ofício que lhe passam pelas mãos. Sem escolha nem poder de decisão, num Portugal de há nem tantos anos assim, Júlia viu-se a braços com um casamento com o cunhado, depois da morte da sua irmã, e com uma sobrinha de poucos meses. Aprendeu a tirar o melhor partido que a vida lhe deu mas... A vida dela foi um rol de surpresas tanto como as páginas desta obra! Tornei-me instantaneamente "amiga" de Júlia, tal as gargalhadas interiores que dei com ela e por causa dela.

Para além desta personagem muito sui generis, cheia de uma ironia que adorei, existem outras que foram tão bem aprofundadas como Júlia, a saber: Leta e Laidinha, suas filhas; Luzia, sua neta e futura santinha da aldeia; Agripina, dona de uma pensão e dada a intimidades frequentes e passageiras com os seus hóspedes; Gualter, com a sua figura delicada, caracter extravagante e ...e tantos outras que povoaram este meu fim de semana e o encheram de surpresas, suspense, risos mas também murros no estõmago. Sim, porque a meio do livro, quando pensava que tudo fluiria calmamente, há uma reviravolta que me virou por completo por dentro e que vem dar um novo rumo à história. Para não desvendar o mistério, porque não é isso o pretendido, digo só que há "luas-de-mel" diferentes das sonhadas!

Caracterizando espectacularmente o ambiente de uma pequena aldeia perdida e fechada em si mesmo quer em termos de mentalidades quer geograficamente, João Felgar espantou-me com a sua escrita cuidada, irreprensível, mas ao mesmo tempo fácil de ler, irónica q.b. Escolhida a dedo mas fluída. Um retrato muito bem conseguido de uma época não tão longe assim e uma crítica implicita ao tema que o título deixa transparecer, os milagres. Com saltos no tempo que servem para melhor nos situarmos e caracterizar as personagens, sem que com eles nos percamos ou diminuamos o interesse pela história tão peculiar.

Acredito ter lido o meu romance de 2014. Nota máxima. Espero que não tarde muito a conhecer uma nova obra deste autor. Quantos livros estarão na gaveta do escritor? Sim, porque não acredito que haja alguém que, logo numa primeira vez, consiga sentar-se na secretária e escrever algo assim... Este é um livro que recomento a todos: aos que gostam de romances mais leves e divertidos mas também aos que exigem um pouco mais. Creio que todos ficarão muito satisfeitos e agradados. Como eu. Espero sinceramente que este livro não passe despercebido!

Terminado em 14 de Setembro de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse


Júlia é costureira numa aldeia do interior português. Na mesma terra, vivem as suas filhas Leta Mirita e Adelaide. A primeira vive um casamento infeliz, depois de se ter entregado a um homem que lhe prometeu «uma vida bonita». Quanto a Adelaide, só ela sabe o que se passa entre as paredes do quarto que partilha com Antero, seu marido.
Numa noite de temporal o rio invade a aldeia, destrói a ponte que a liga ao resto do mundo, e leva consigo os seis filhos varões de Adelaide. Quando as águas do rio se acalmam, Luzia de Siracusa, filha de Adelaide, vive os seus primeiros arrebatamentos místicos.
A fama de santa e milagreira corre veloz, e dá origem a um culto popular que atrai à aldeia multidões de peregrinos e devotos, indiferentes à hostilidade que o fenómeno inspira às autoridades eclesiásticas.
Ódios e cumplicidades entrelaçam-se com os comportamentos e hábitos do nosso tempo e da nossa terra. Uma terra onde por trás de um segredo se esconde sempre outro, e onde nem os milagres são o que parecem.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

"Viagem ao Fim do Coração" de Ana Casaca

Não conhecia esta autora nem tão pouco a sua escrita. Gostei do que li. Uma história de amor, de um amor quase à primeira vista, um amor de juventude que marcou toda uma vida. É é, de igual modo, uma história de dois irmãos que sobrevivem à dor porque se têm um ao outro. Uma história de uma vida sofrida, onde os maus-tratos têm um lugar predominante e marcam o comportamento de quem é vítima.

As várias personagens falam-nos e apelam-nos ao coração. Com o tom intimista que imprime à narrativa, senti que a autora conseguiu captar em pleno as angústias da protagonista principal. Sabendo-se doente de cancro quando por fim encontra o amor, Luísa divide-se entre a esperança num futuro a dois e o desânimo de saber que os exames pioram a cada dia.

Com uma escrita fluida e simples, Ana Casaca transmite-nos uma mensagem. Como se lida com a doença de quem nos é próximo? Sem qualquer artifício mostra-nos, também, a dor e a esperança, o desespero e a alegria, um mundo de altos e baixos que sente aquele que é vítima de cancro. Uma escrita sem subterfúgios, que consegue colocar-nos na pele da personagem principal e que por isso, a dada altura, se torna impossível não nos comovermos.

Alguns aspectos da história foram inspirados em facots reais, pequenos nadas que fizeram um tudo na vida de alguém. Saber isso, no final da leitura do livro, trouxe um peso maior aos meus olhos.

Terminado em 13 de Setembro de 2014

Estrelas:4*+

Sinopse

Num romance toda a nossa vida: como a queremos, como às vezes não a queremos.
Luísa ainda era uma adolescente. Tiago já era um jovem adulto. Conheceram-se na solidão de uma pequena praia, na margem de um rio. Tinham em comum uma relação familiar traumática. Num caso, o trauma do amor dos pais. No outro, o trauma do ódio dos pais. Conheceram-se num dia que pareceu conter uma vida inteira. Mas teriam ficado separados para sempre, se a invisível linha de uma doença que rói o corpo e anuncia a morte não os tivesse voltado a ligar, dezasseis anos depois. Luísa e Tiago podem até redescobrir o amor, mas apenas se a silenciosa presença das metástases não se alastrar aos seus corações.
Viagem ao Fim do Coração é mais do que uma comovente história de amor. É a recriação de um admirável mundo de pais e mães, filhos e irmãos, ódios e amores. Revela os pesadelos de um cancro injusto, mas não abdica do que é humano e essencial, o sonho.

domingo, 14 de Setembro de 2014

Um Livro Numa Frase


" As lágrimas são uma excreção da alma, tão pouco dignas como o mijo - leccionava ela, com a tesoura rasgando os panos. - Não vejo porque havemos de nos esconder, num caso, e fazê-lo à vista descoberta, no outro."


In Terra de Milagres de João Felgar, pãg. 209

sábado, 13 de Setembro de 2014

Na minha caixa de correio

 

Emprestado do Segredo dos Livros recebi Madre Paula e Montedor, de Rentes de Carvalho (ops! Não coloquei a capa).
Oferta da Planeta, os dois livros de Emma Wildes.
Oferta do Clube do Autor, um livro que de imediato atraiu a minha atenção e que já estou a ler, de um autor português que se estreia nestas "coisas", Terra de Milagres! Ainda vou no início mas a história parece-me muito interessante e a escrita, peculiar e cativante.
Do Liga e Ganha, O Espetacular Momento Presente.

quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

A Escolha do Jorge: Arde o Musgo Cinzento

Arde o Musgo Cinzento (1986) é a única obra de Thor Vilhjálmsson editada em Portugal e tal aconteceu somente em 2012.
O escritor parte de um caso verídico de incesto entre dois meios-irmãos que aconteceu numa pequena região da Islândia no final do século XIX e que chegou ao tribunal após ser do conhecimento da população em geral, dando-nos a conhecer simultaneamente um país pobre, mas em fase de transição que sente necessidade em romper com a Dinamarca enquanto país colonizador. A população ganha a consciência de que só será verdadeiramente livre e rica quando investir na educação, a verdadeira riqueza de um país, desenvolvendo, dessa forma, a ciência e tecnologia que ajudará a Islândia a tornar-se não só independente, como também podendo rivalizar economicamente com outros países, deixando para trás as tradições assentes em mitos e sagas que tinham a natureza como principal papel em detrimento do homem.
Arde o Musgo Cinzento faz-nos refletir sobre o percurso de cada um enquanto indivíduos inseridos numa dada sociedade, assim como qual o percurso que cada país deverá tomar em busca do desenvolvimento e da riqueza, melhorando, dessa forma, as condições de vida dos seus cidadãos.
Em conclusão, esta é uma obra completa abrangendo esferas tão diversas como a política, a justiça, a religião e a poesia, sendo, pois, uma referência incontornável na literatura contemporânea ocidental.

Excertos:

"No conhecimento é que está o poder. Que vos tornará livres. A ignorância é o pior tirano da humanidade, um demónio." (p. 78)
"Ali não havia ninguém que se escandalizasse porque agarrava num livro para nele mergulhar. E naquela quinta da charneca não se limitavam a ler livros, rompiam o isolamento com os livros. Ali discutiam-nos e analisavam-nos em profundidade. Ali não ficava cada um encolhido no seu canto como mensageiro de alguma desgraça, os pobres não eram hóspedes indesejados, ali reinava a concórdia entre as pessoas, e o homem era a alegria do homem." (p. 106)
"Todas as nações estão a levantar-se por todo o mundo; as massas rompem as cadeias e reclamam os seus direitos, nada poderá detê-las. As formas de vida do passado caem em fanicos, as correntes são quebradas uma após outra e atiradas para um monte para que se erga uma montanha de correntes destruídas como um monumento que recorde os tempos negros do passado." (p. 232)

Jorge Navarro

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

"Morte nas Trevas" de Pedro Garcia Rosado

Este é, sem dúvida, o melhor livro desta série de Pedro Rosado. Supera os anteriores em acção, suspense e cenas violentas, que são muito explicitamente descritas pelo autor, como acontece nos dois livros anteriores onde Gabriel Ponte é o protagonista.

Mas, embora melhor, há que começar a leitura pelo Morte con Vista para o Mar seguido de Morte na Arena pois há toda uma história pessoal de Gabrial Ponte que necessita ser conhecida e aprofundada pelo leitor para que pequenos pormenores sejam degustados com um maior prazer. No entanto, o autor vai fazendo pequenas referências, durante a obra, ao passado do ex-inspector que servem para um leitor que não leu a obra anterior se situar.

O facto de existirem duas investigações paralelas, que confluem no final, traz ao enredo uma vivacidade muito própria que me encantou e me prendeu: o desaparecimento de uma jovem, investigado pelo inspector reformado e a morte de um relojoeiro, investigado por Joel Branco, ainda no activo. Gabriel investiga um pouco à margem da lei, vendo-se confontado com situações e atitudes que o podem colocar como "fora-da-lei". As suas dúvidas são, a dado momento do livro, também as nossas: "Qual a melhor forma de agir? Será o assassinato de um criminoso um mal menor, ao qual se deve fechar os olhos?"

Já no final somos confontados com a morte do ex-inspector, facto que nos atinge com a mesma violência com que são descritas algumas cenas do texto, povoadas de horror e muito arrepiantes. Será mesmo possível ter terminado assim? Dei comigo a devorar as páginas finais com o intuito de satisfazer essa pergunta! Morreu mesmo?!!!

Espero com ansiedade um novo livro! Quero acreditar que o autor está a dedicar o seu tempo a esta série e que em breve tenhamos entre nós outro livro com Gabriel Ponte como protagonista!

Terminado em 7 de Setembro de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Gabriel Ponte está finalmente decidido a dedicar-se à investigação privada, pondo fim à inatividade a que uma reforma antecipada da Polícia Judiciária o condenou.
O seu primeiro trabalho como detetive particular consiste em encontrar duas mulheres desaparecidas em Portugal, a pedido de um homem e de uma mulher de origem romena, antigos agentes da Securitate, a polícia política do ditador Ceausescu.
A sua investigação vai conduzi-lo a um confronto com um industrial romeno que cria porcos numa zona rural do concelho de Caldas da Rainha, e que esconde, afinal, segredos hediondos. À medida que avança neste caso, que vai pôr em risco a vida da sua própria família, Gabriel Ponte recebe a ajuda inesperada de um ex--oficial do KGB e das forças especiais russas, ao mesmo tempo que se torna o alvo da atenção de um inspetor da PJ, obcecado pela justiça.

terça-feira, 9 de Setembro de 2014

A Convidada Escolhe: Agosto

"Agosto" de Ruben da Fonseca, notável autor brasileiro com vários prémios entre eles o consagrado Prémio Camões, é considerado o seu livro mais famoso. Num estilo muito direto e servindo-se de uma pesquisa minuciosa, o escritor constrói uma narrativa ficcionada tendo como fundo os acontecimentos históricos que rodearam os últimos tempos de governo de Getúlio Vargas até ao seu suicídio. O assassinato de um empresário e tentativa de assassinato do jornalista Carlos Lacerda e consequentes investigações são os factos que têm grande relevância no livro já que desde logo existem indícios de que neles estarão implicadas pessoas fortemente ligadas ao governo, ao presidente ou a instituições governamentais, o que vem agravar mais a crise política do país. O livro retrata a luxúria, a violência, um mundo de marginais e de assassinos de aluguer, onde o jogo clandestino do bicho compra tudo e todos e onde a corrupção política impera. Os que não alinham são considerados loucos como é o caso do comissário Mattos, figura de ficção e elo de ligação com a narrativa histórica, incorruptível, que sendo muito crítico da falta de condições nas prisões e contra a opinião de seu colega Pádua, figura sem escrúpulos, tem por hábito não reter os presos de delitos que ele considera irrelevantes, a fim de não encher mais as celas. Este investigador é um depressivo, sofre de úlcera gástrica, não tem tempo para cuidar dos seus casos amorosos e não agradando nem a gregos nem a troianos acaba por ser assassinado por Chicão. Pádua desconhecendo que Mattos descobrira que fora Chicão o assassino do empresário acaba por erradamente acusar e matar um «bicheiro» pela morte do comissário, pois apesar das suas grandes diferenças com o colega respeitava-o pela sua honestidade.
São várias as personagens históricas mencionadas no livro para além do presidente Getúlio Vargas, família e ministros, entre elas o chefe da guarda pessoal do presidente, Gregório Fortunato, mandante da tentativa de assassinato do jornalista Carlos Lacerda já que está consciente de que o jornalista constitui uma ameaça. Outros membros dessa guarda estão também envolvidos.
Getúlio, já não o ditador do Estado Novo, mas agora velho e cansado numa chamada democracia, é acusado de tudo de mal que vai acontecendo no país, bem como sua família.
Carlos Lacerda, jornalista e grande orador, porta voz de uma forte oposição ao governo utiliza o atentado de que foi vítima e a morte de seu guarda-costas, o major da aeronáutica, Rubens Vaz, que tem uma percussão muito grande, como triunfo político, conseguindo assim a união das forças armadas contra o presidente Vargas.
No entanto, quando pressionado para se demitir Getúlio Vargas resolve suicidar-se há grandes tumultos e o povo revolta-se indignado com a sua morte.
A relação das personagens históricas com as de ficção tem como resultado uma trama bem conseguida plena de conspirações, suspense, acordos, negociatas, subornos e corrupção que prende ao longo dos seus 26 capítulos, e que decorre no Rio de Janeiro durante o mês de Agosto de 1954. Apesar de complexa realidade que foi a década de 50, Agosto é uma obra de fácil compreensão e que se lê como se de um romance policial se tratasse.

Maria Fernanda Pinto

segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

"Um Amor Perdido" de Anna McPartlin

O primeiro livro que li desta escritora, "Estarás Sempre Comigo", constituiu uma surpresa muito agradável e teve em mim um forte impacto. Li, por essa razão, os outros livros publicados cá e todos me marcaram positivamente como podem ver aqui! Talvez por isso tivesse pegado logo nesta leitura e esperasse dela ainda mais e mais... As minhas expectativas eram, de certo modo, muito elevadas. Creio que faltou um pequeno clic para que esta obra superasse as outras anteriores da autora.

Ainda que ela nos conte (e bem!) histórias onde há predominãncia de alguns temas muito pesados (como a perda e o desaparecimento de alguém, amores não correspondidos, alcoolismo, doenças terminais e com forte herança hereditária, gravidez na adolescência), consegue no entanto, transmitir-nos uma mensagem de esperança, onde o humor tem um lugar muito próprio e é característico desta autora. Um humor subtil que nos faz sorrir mesmo em situações onde a dor está fortemente presente.

A sinopse induz-nos para um caminho que não é seguido pela autora. O desaparecimento de Alexandra poder-nos-ia levar ao cerne de uma investigaçao policial. No entando, Anna McPartlin não vai por aí. Centra-se nos que ficam, nos que sofrem a perda, na família da vítima e, mais propriamente, no seu marido. Como aceitar a perda, como aprender a viver de novo?

Leitura que gostei e recomendo!

Terminado em 30 de Agosto de 2014

Estrelas: 4*

Sinopse

A 21 de junho de 2007 Alexandra Kavanagh saiu de casa, falou com a vizinha, meteu-se no comboio, chegou à estação de Dalkey e desapareceu... Tom está destroçado. Não encontra a mulher, o seu mundo desmoronou e o seu único objetivo é localizá-la. Durante dezassete anos, Jane cuidou do filho Kurt, da excêntrica irmã Elle, e da rabugenta mãe Rose. A única pessoa de que não cuida é dela própria. Elle é artista e considerada um génio. Como tal, o seu comportamento um tanto errático é tolerado. Embora a sua vida pareça perfeita, a tristeza de Elle é por vezes profunda. Leslie perdeu toda a família para o cancro. Passou vinte anos à espera de morrer, mas após uma operação radical está determinada a viver de novo. Quatro meses depois do desaparecimento de Alexandra. Tom entra num elevador com Jane, Elle e Leslie para um concerto de Jack Lukeman. Uma hora mais tarde, os quatro desconhecidos saem de lá com as suas vidas entrelaçadas para sempre.
Um Amor Perdido aborda o alcoolismo, a depressão, a negação e a dor e ainda assim irá dar por si a sorrir e até a rir.

sábado, 6 de Setembro de 2014

Na minha caixa de correio






Começando de baixo para cima:
Da Porto Editora recebi O Grande Jacques Couer e A Incrível Viagem do Faquir que ficou fechado num Armário Ikea.
Da Quinta Essência, Herdeiros do Ódio.
Da editorial Presença, A Caminho de Casa.
Da Topseller, Não Digas Nada.
Da Editora Guerra E Paz, Viagem ao Fundo do Coração.
Na Livraria Fiodor Books (livros em segunda mão) comprei: Lubango, Paris, Mavinga; Jardins Secretos de Lisboa, Cidade Inquieta e Sem Motivo Aparente a 2,50 € cada.
Dos passatempos do JN: Diário de um Quiosque, Se Eu Ficar e A Casa da Malveira.
Da Livraria Buccholz comprei, por 4,50 €, O Circulo Fechado.

sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

Novidade Guerra e Paz

Viagem ao Fim do Coração
de Ana Casaca

Luísa ainda era uma adolescente. Tiago já era um jovem adulto. Conheceram-se na solidão de uma pequena praia, na margem de um rio. Tinham em comum uma relação familiar traumática. Num caso, o trauma do amor dos pais. No outro, o trauma do ódio dos pais.
Conheceram-se num dia que pareceu conter uma vida inteira. Mas teriam ficado separados para sempre, se a invisível linha de uma doença que rói o corpo e anuncia a morte não os tivesse voltado a ligar, dezasseis anos depois.
Luísa e Tiago podem até redescobrir o amor, mas apenas se a silenciosa presença das metástases não se alastrar aos seus corações.
Viagem ao Fim do Coração é mais do que uma comovente história de amor. É a recriação de um admirável mundo de pais e mães, filhos e irmãos, ódios e amores. Revela os pesadelos de um cancro injusto, mas não abdica do que é humano e essencial, o sonho.

Novidade BOOKSMILE


Novidade Esfera dos Livros

Educar com Amor
de Mário Cordeiro

«Educar exige amor, respeito, tolerância, exige (uff, tanta coisa!) saber quem são os nossos filhos, o que esperam de nós e nós deles, quais os comportamentos esperados e esperáveis, mas principalmente um fio condutor lógico, sensível, repleto de amor.» In Introdução

Educar é um ato de amor e uma das tarefas mais exigentes com que os pais se deparam. Devo castigar? Estou a mimar demais o meu filho? As regras em excesso são positivas? Como devo impor limites à minha filha? Que valores devo transmitir aos meus filhos? Que tipo de ser humano estou a criar? Somos assaltados diariamente por dúvidas sobre como devemos agir no nosso papel de pais. Mário Cordeiro, o pediatra mais lido em Portugal, recorrendo a casos práticos e à sua longa experiência profissional, explica-nos que educar é a maior prova de amor que os pais podem dar a um filho. Educar implica impor regras, pautas definidas, objectivos claros, deixando sempre espaço para o carinho, o afeto, os sentimentos, mas também para a imaginação e a fantasia, o génio humano, as especificidades de cada um dos nossos filhos. Porque os filhos não são o nosso livro, são o livro deles, escrito por eles com crescente liberdade criativa. Para este pediatra, pai de 5 filhos, os pais são o melhor exemplo para os filhos e é para eles que as crianças olharão sempre que quiserem aprender. Educar é por isso uma construção conjunta, feita lado a lado, partilhada todos os dias, de mãos dadas. Uma criança que se sente amada é uma criança que se sente segura e com coragem para enfrentar o mundo.

Novidades Planeta

A Mulher Louca
de Juan José Millás

O reconhecido escritor espanhol, autor de livros como O Mundo ou O que sei dos Homenzinhos, regressa com um romance surpreendente. Uma história em que o leitor decidirá o que é verdadeiro e o que é falso. Uma investigação sobre os limites da realidade e da ficção numa obra que condensa a essência de Millás: humor inteligente, diálogos excepcionais e uma escrita provocatória.

A Casa Azul
de Cláudia Clemente

A estreia no romance de uma contista e dramaturga reconhecida e premiada, autora entre outros de O Caderno Negro e A Fábrica da Noite. Uma história de amor improvável que se desenrola na última metade do século XX que mergulha na alma humana e na nossa história recente, quer de Portugal, quer da Europa.

O Mundo nas tuas Mãos
de Elsa Punset

Depois do êxito do livro Uma Mochila para o Universo, a conhecida especialista em educação emocional, regressa com um livro que promete
ajudar a melhorar a nossa forma de nos relacionarmos com os outros.

Novidade Presença

As Estrelas Brilham na Cidade
de Laura Moriarty

Em 1922, Louise Brooks tem apenas 15 anos e vive em Wichita, no Kansas, quando parte para Nova Iorque a fim de frequentar um curso de dança. Com ela vai também Cora, uma mulher mais velha e já casada, para lhe servir de acompanhante. Contudo, apesar de Louise Brooks se ter tornado mais tarde um dos grandes ícones do cinema mudo, é a vida de Cora que Laura Moriarty recria neste romance. Cora Carlisle é uma sufragista bastante convencional, que oculta os seus segredos e tem motivos próprios relacionados com as suas origens para aceitar fazer aquela viagem. Por outro lado, a diferença de idades e de atitudes entre as duas mulheres permite à autora tirar partido do que distingue as duas gerações explorando engenhosamente as múltiplas facetas das mudanças que vão ocorrendo na sociedade. As Estrelas Brilham na Cidade é uma narrativa fascinante e muito bem documentada sobre a história e a mudança de mentalidades durante o século XX.


Para mais informações sobre este livro da Editorial Presença, clique aqui!

Novidades Porto Editora

O Grande Jacques Coeur
de Jean-Cristophe Rufin

Sob o calor de uma ilha grega, um homem esconde-se para escapar aos perseguidores e recorda a sua vida desenrolando o novelo do seu extraordinário destino. O seu nome é Jacques Coeur.
Filho de um modesto negociante de peles, tornou-se o homem mais rico de França. Financiou Carlos VII ajudando-o a acabar com a Guerra dos Cem Anos. Mudou o olhar sobre o Oriente e viajou através de todo o mundo então conhecido. Com ele, a Europa passou do tempo das Cruzadas ao tempo do Comércio. Tal como o seu palácio de Bourges, metade castelo medieval e metade palácio renascentista, ele é uma figura de duas faces: tão familiar dos reis e do papa como das casas modestas.
Ao cume da glória sucedeu a queda, a miséria e a tortura, antes de encontrar de novo a liberdade e a fortuna.
Entre as paixões da sua vida, a mais perturbadora foi a que o ligou a Agnès Sorel, a beleza suprema da sua época, modelo dos famosos quadros de Jean Fouquet, primeira favorita real, desaparecida aos vinte e oito anos.
É preciso esquecer tudo o que sabemos sobre a Idade Média e mergulhar na frescura deste livro. Ele possui simultaneamente a força de um romance picaresco, a precisão de uma biografia e o charme melancólico de uma confissão.
 

A incrível viagem do faquir que ficou fechado num armário Ikea
de Romain Puértolas

Ajatashatru Larash Patel, faquir de profissão, que vive de expedientes e truques de vão de escada, acorda certa manhã decidido a comprar uma nova cama de pregos. Abre o jornal e vê uma promoção aliciante: uma cama de pregos a €99,99 na loja Ikea mais próxima, em Paris. Veste-se para a ocasião - fato de seda brilhante, gravata e o seu melhor turbante - e parte da Índia com destino ao aeroporto Charles de Gaulle. Uma vez chegado ao enorme edifício azul e maravilhado com a sapiência expositiva da megastore sueca, decide passar aí a noite a explorar o espaço. No entanto, um batalhão de funcionários da loja a trabalhar fora de horas obriga-o a esconder-se dentro de um armário, prestes a ser despachado para Inglaterra. Para o faquir, é o começo de uma aventura feita de encontros surreais, perseguições, fugas e aventuras inimagináveis, que o levam numa viagem por toda a Europa e Norte de África.

quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

A Escolha do Jorge: Impunidade

A proposta de leitura desta semana remete para o mais recente romance de H. G. Cancela (n. 1967) "Impunidade" que é um dos melhores livros que tive a oportunidade de ler este ano ainda que se trate de um livro que esteja a passar bastante despercebido no tocante à crítica presente em diversas publicações semanais.
Iniciamos a leitura de "Impunidade" num misto de mistério e inquietude e sem desvendar a trama central da obra, encontramos vários personagens, adultos e crianças, com laços familiares invulgares entre si não sabendo exatamente como lidar uns com os outros na sequência da consciência de culpa para a qual forma arrastados sem se darem conta ao certo daquilo que esteve na origem da situação.
Independentemente do sentimento de culpa que é transversal aos personagens centrais da obra, não deixa de ser interessante a necessidade de cada um à sua maneira tem para proteger os demais elementos à sua volta.
Os adultos sentem que caminham para um abismo gritante, um poço sem fundo e que sendo adultos não deixam de sentir uma culpa maior não descartando o próprio conceito de crime a partir do momento em que algo até ao momento impune é reiterado deliberadamente.
É neste encadeamento de ideias e nesta narrativa-teia que o leitor mergulha sentindo a angústia dos personagens interrogando-se sempre no que possa estar na base do início da obra. À medida que a leitura avança e o leitor vai tomando consciência dos vários contornos de "Impunidade", vai também constatando os esforços de redenção de cada personagem ainda que no fundo tenha consciência que tal jamais acontecerá.
"Impunidade" é marcado por uma escrita intensa cuja cadência e frases curtas, muitas vezes com uma única palavra, obrigando o leitor a saborear cada momento tornando-o ainda mais intenso, demorado e não menos agressivo e inquietante em várias situações apresentadas.
"Impunidade" é um livro pejado de gritos silenciosos, de frases não ditas, de culpa que chega a doer.
Ainda que uma abordagem nos termos apresentados possa sugerir uma escrita dura, H. G. Cancela presenteia-nos com momentos de verdadeiro deleite para os sentidos quase como se tratasse de uma contradição em que articula de um modo bem conseguido a dureza da narrativa com a doçura das palavras permitindo ao leitor a visualização de momentos duros, mas ternos. Este é, pois, um dos bons exemplos da fusão perfeita entre a ética e a estética no que diz respeito à criação de uma obra literária com bastante significado fomentando inúmeras interpretações não se esgotando em si mesma.
Com "Impunidade" de H. G. Cancela estamos perante um dos mais importantes livros publicados este ano enriquecendo de modo determinante a literatura portuguesa.

Excertos:
"Profano, profano, profano. Profano o tempo, profana a terra, profana a língua, profana a lei. Tempo e terra, língua e lei, sem outro tamanho que não aquele que por si próprios possam produzir. Causa e consequência, circunstância, condição, isso que a si mesmo, e contra a estrita ideia de civilização, se pesa, se mede e se diz. Contra a civilização, contra a culpa, contra a língua, contra a lei. Contra a proibição inscrita na carne como coisa congénita." (p. 7)
"A falta de pudor de quem assume como própria, mas se dispensa dela no mesmo movimento, esperando que a duplicação do erro possa permitir corrigir o gesto. «Já é mais do que culpa», prosseguiu, «é crime». Nenhum de nós o pediu, mas aceitámo-lo como se não nos pertencesse e o pudéssemos esconder debaixo da cama. Empurrámo-lo para lá. Mas entre a responsabilidade e a culpa não há meio-termo. E desta vez não há mais ninguém a culpar.»" (p. 135)
"A civilização é lei, culpa e punição. A impunidade gera sempre violência." (p. 179)
"Qual a quantidade de violência necessária para transformar o tempo em história. Qual a quantidade para transformar o mundo em nome e o mendo em lei." (p. 185)

quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

"Esta é a minha Terra" de Frank McCourt

Saber que existia uma continuação de As Cinzas De Ângela foi, de facto, uma boa surpresa. Já tenho dito que há vidas que são histórias fabulosas e a de Frank McCourt é de prender a atenção de qualquer leitor!

O primeiro livro centrava-se na sua infância na Irlanda nos anos quarenta. A pobreza, a fome, o frio, as doenças mas também o carinho e o amor. Ficamos presos à sua narrativa tal é a intensidade com que ela nos é contada.

Nesta obra retomamos a vida de Frank, dos seus irmãos e pais. Agora em Nova Iorque, terra onde espera encontrar, finalmente, o seu lugar no mundo. A sua persistência e vontade de vencer estão lado a lado com a sua vontade de gozar os prazeres que a vida lhe pode dar (expondo-se perigosamente ao alcoolismo) o que lhe traz alguns dissabores e situações que para o leitor se tornam hilariantes. Sem grandes estudos mas gostando de devorar livros, mesmo não compreendendo muitas vezes a totalidade do seu conteúdo, Frank (depois de muitos empregos) decide continuar os seus estudos e tornar-se professor. Mas como concretizar isso com a insuficiente educação académica que possui, tendo de trabalhar para se sustentar?

Com uma escrita muito peculiar, quase oral, cheia de frases longas, o autor faz-nos sorrir narrando com mestria a ingenuidade própria de quem chega a uma enorme cidade vindo de outro país, do campo, sobretudo. As peripécias não acabam nunca e, infelizmente, das páginas não posso afirmar o mesmo... Mesmo com um tipo de letra muito pequeno, este livro chega rapidamente ao fim. Espero ler em breve o outro livro deste autor que tem como título O Professor.

Terminado em 24 de Agosto de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Depois de retratadas as gloriosas memórias que preencheram a sua infância na auto-biografia As Cinzas de Ângela, Frank McCourt apresenta-nos agora a história da sua vida por terras americanas desde a chegada como depauperado, mas sonhador, emigrante até à realização pessoal como brilhante professor e escritor. Frank chega a Nova Iorque com 19 anos, na companhia de um padre que conheceu a bordo do navio. Começa a trabalhar no Biltmore Hotel, e apercebe-se ironicamente da nítida hierarquização social que se vive num suposto país sem distinção de classes. Quase em seguida é mobilizado pelo exército americano e enviado para a Alemanha, com o íntuito de escrever relatórios militares e treinar cães. Quando Frank regressa aos Estados Unidos em 1953, emprega-se nas docas de Nova Iorque, embora sempre relutantemente contra os preconceitos que tentaram impor-lhe: a prerrogativa de que todos os emigrantes que chegam com sonhos e ambições devem manter-se junto dos seus e não se misturarem. Frank acaba tambem por descobrir que tem direito à escolaridade, e, apesar de ter abandonado a escola aos catorze anos, consegue ser admitido na Universidade de Nova Iorque. Durante a sua permanência na faculdade, apaixona-se e tenta viver o seu sonho. Mas Frank apenas encontra o seu lugar no mundo quando começa a escrever e a leccionar.

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

A Convidada Escolhe: O Lago Perdido

Sarah Addison Allen é uma contadora de histórias que tocam fortemente o irreal e quando leio os seus livros recuo no tempo e entro na magia das histórias infantis. Não que os seus livros sejam livros para serem lidos por crianças, mas por recriarem as atmosferas desses contos.
Em "Lago Perdido" vemos "renascer das cinzas" uma mulher que quase se perdeu no luto e quase perdeu a sua filha, Devin. Devin é a verdadeira personagem encantada deste livro. É a sua força que "acorda" a mãe da sua dormência e a autora cria-a quase como se se tratasse de uma pequena fada. As combinações surreais de roupas que chegam a incluir o uso de asas de anjo e o facto de ver e falar com amigos imaginários que nos são credíveis são o seu elemento mágico e encantatório.
E é encantados pelas personagens que Sarah Addison Allen nos faz flutuar entre magia e realidade, passado e presente, sentimentos de culpa e ganância, ambição política, cinismo e ingenuidade, num romance leve mas também algo lúgubre como as águas do lago perdido de Suley.
Uma escritora que acompanho desde o primeiro romance, o meu preferido até hoje, e que continuarei a acompanhar pelos momentos de magia e de evasão que consegue trazer colados às suas histórias.

Excertos
"(...) – Ensinei literatura durante quase quarenta anos. Os livros que li quando tinha vinte anos mudaram por completo quando os li aos sessenta. Sabem porquê? Porque os finais mudaram. Depois de acabarmos de ler um livro, a história ainda continua na nossa cabeça. Nunca se pode alterar o início. Mas pode sempre alterar-se o fim. É o que está aqui a acontecer." (p.145)
"(...) Eby sabia muito bem que existia uma linha ténue quando se tratava da dor. Se a ignoramos, ela vai-se embora, mas depois volta sempre quando menos se espera. Se a deixamos ficar, se lhe arranjamos um lugar na nossa vida, ela fica demasiado confortável e nunca mais se vai embora. Era melhor tratar a dor como se fosse um hóspede. Aceitamo-la, servimo-la e depois mandamo-la seguir o seu caminho. " (p.148)
Fernanda Palmeira

segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

"A Vida Privada de Maxwell Sim" de Jonathan Coe

Deste autor jå tinha lido A Casa do Sono que achei espectacular. Depois de terminar esta obra fiquei muito curiosa e intrigada com "A Chuva Antes de Cair". A escrita de Coe é de tal forma cheia de imaginação que me perguntei como poderia uma outra leitura surpreender-me tanto quanto esta!

Maxwell, o peraonagem principal, é um ser depremido, carente, sozinho. Aos olhos dos outros, um falhado. Pior, ignorante. Assistimos com pesar aos seus conflitos interiores que se expressam exteriormente também. Um passado com pontas perdidas que interfere no seu presente: um quase nenhum relacionamento com a sua (ex)mulher, uma ligação cada vez mais diminuta com a sua filha adolescente, uma tensão permanente com seu pai, amigos inexistentes. Embarcamos na viagem que Maxwell enceta, tanto fisicamente como psicologicamente, e prevemos facilmente um fim desastroso. Nada na escrita de Coe nos prepara para o final!

Confesso que as obsessões de Maxwell, os seus desastrosos relacionamentos irritaram-me um pouco e apeteceu-me abaná-lo algumas vezes. Sobretudo quando começa a dialogar (monólogos deveras significativos do seu estado de quase demência) com Emma, o guia por voz do GPS. E eis que, quando ele próprio resolve abanar a sua vida e seguir com ela para a frente, prevendo-se um final feliz, Jonathan Coe faz a diferença. Afinal escrever (bem) é isso mesmo: surpreender o leitor nas últimas páginas. A reviravolta é surpreendente e não, não conseguimos adivinhar o final por mais que a nossa imaginação funcionasse de forma igual à do autor. Numa palavra: final irrepreensível e que nos deixa estupefactos!

Uma forte crítica implicita às redes sociais que nos mantêm em contacto com todos, sempre, mas sempre verdadeiramente sozinhos.

Recomendo!

Terminado em 20 de Agosto de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Maxwell Sim bateu no fundo. A sua vida pessoal é um vazio. Ele tem 70 amigos no Facebook mas ninguém com quem falar. Mas tudo muda graças a uma disparatada proposta de trabalho: conduzir um carro carregado de escovas de dentes de Londres até às remotas ilhas Shetland. Um percurso longo que Maxwell decide preencher com uma série de visitas surpreendentes a figuras do seu passado. Acompanhado por "Emma", a voz feminina do seu GPS, com quem estabelece uma peculiar relação, ele não imagina que está a iniciar uma viagem íntima que o mudará para sempre.

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

"Sou o Último Judeu" de Chil Rajchman

Treblinka 1942-1943

Por haver tanto para dizer sobre este livro, faltam-me as palavras. Aconselho vivamente a sua leitura mesmo para aqueles que não apreciam relatos verídicos sobre acontecimentos que ficaram conhecidos pela sua violência e pelo horror. Porque mesmo lendo se torna difícil imaginar, tão pouco vivenciar o que se passou nos campos de concentração, neste caso deTreblinka.

Chil, um jovem judeu, sobreviveu a 10 meses em Treblinka até conseguir fugir. Passou por vários trabalhos, desde cabeleireiro a dentista, sempre a toque de vergastadas e maustratos, sujeito a levar um tiro na cabeça a todo o momento. A diferença era que cortava os cabelos das mulheres que, nuas, iam para as câmaras de gás e tirava os dentes a quem já tinha por lá passado. Dentes de ouro.

As folhas onde relata o que viveu, escreveu-as depois da sua fuga. Para recordar e nunca esquecer os pormenores. Foram publicadas depois da sua morte para que outros não esquecessem. Durante muito tempo ficaram guardadas. Acabam quando queremos saber mais sobre ele. Como conseguiu viver depois? Gostava de ter sabido sobre como foi a sua vida depois do campo, talvez para ter a certeza que, mesmo depois de tantos horrores vividos, se pode esperar uma vida com paz.

Um livro inquietante. Cru. As palavras, as descrições, os sentimentos estão lá. A nossa mente visualiza o que é narrado. Difícil é fechar as páginas para tanto horror. Recomendo!

Terminado em 17 de Agosto de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Chil Rajchman tinha 28 anos quando foi deportado para Treblinka, em Outubro de 1942. Separado dos seus companheiros à saída do comboio, escapou às câmaras de gás tornando-se sucessivamente funcionário na triagem de vestuário, cabeleireiro, transportador de cadáveres ou «dentista». Em 2 de Agosto de 1943, participou no levantamento do campo e evadiu-se.
Após várias semanas de errância, Chil Rajchman escondeu-se em casa de um amigo perto de Varsóvia. A guerra ainda não acabou. Num caderno, contou os seus dez meses no inferno.
Na Libertação, ele foi um dos 57 sobreviventes entre os 750.000 judeus enviados para Treblinka para aí serem gaseados. Nenhum outro campo foi tão longe na racionalização do extermínio em massa.
Este texto, publicado pela primeira vez, é único. Escrito sob o signo da urgência, ainda antes da vitória sobre os nazis, inscreve-se entre os maiores dedicados ao holocausto.

quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

A convidada Escolhe: A Tia Júlia e o Escrevedor

É um dos livros mais bem dispostos que li nos últimos tempos e mais um a acrescentar aos diversos que li deste extraordinário escritor peruano que foi Nobel da Literatura em 2010.
A Tia Julia é uma jovem boliviana na casa dos trinta, acabada de se divorciar, que vem viver para Lima para casa de uma irmã e do cunhado. Mario, o jovem estudante de direito a viver em casa dos avós, responsável pelos noticiários da Rádio Pan-Americana e com sonhos de vir um dia a ser escritor a viver numa mansarda em Paris, é ainda tratado por Marito pela numerosa família de tios e tias, dada a sua tenra idade.
Imaginem-se pois as peripécias de uma relação que se vai desenvolvendo entre uma mulher recém-divorciada e um jovem com quase metade da sua idade e com quem ainda por cima tem relações de parentesco! Só o amigo Javier, a prima Nancy e dois colegas da redacção da Pan-Americana estão a par do romance que, a certa altura, se descobre que afinal é já motivo de falatório entre os familiares de Marito.
Escrito quando Mario Vargas Llosa tinha quarenta anos, com o filtro que os anos passados sobre esse acontecimento da sua vida desdramatizam e até desvalorizam situações menos comuns e socialmente mais difíceis de gerir, este romance roda também em torno de um outro personagem invulgar: Pedro Camacho. Contratado para produzir guiões para rádio novelas, muito populares nos anos 50 numa altura em qua a televisão ainda não tinha chegado ao Peru, este boliviano profissional da escrita e da locução de novelas, rapidamente conseguiu que a Rádio Central de Lima subisse espectacularmente nas audiências, através da produção de dez diferentes novelas ouvidas religiosamente pelos rádio ouvintes limenhos ao longo do dia. Totalmente absorvido no seu trabalho, obsessivo, impermeável a quaisquer críticas ou sugestões, construía diferentes contextos, personagens, tramas mais ou menos rebuscadas e escabrosas, embrulhadas num vocabulário adjectivado até ao limite, onde nunca deixava de encontrar ocasião para mostrar a sua antipatia visceral em relação aos argentinos. Médicos ginecologistas, sargentos, Testemunhas de Jeová, exterminadores de roedores, delegados de propaganda médica, juízes, árbitros, bardos, reverendos eram alguns dos personagens principais das suas diferentes novelas, todos invariavelmente caracterizados da mesma forma: "Estava na flor da idade, nos cinquenta e os seus sinais particulares – fronte larga, nariz aquilino, olhar penetrante, rectidão e bondade de espírito". São hilariantes e rocambolescas as histórias que aquele homem arquitectava ao longo do dia, sentado em frente à Remington, mas com o passar do tempo, a exaustão, o pouco tempo para dormir e até para comer e o alheamento do mundo exterior começaram a fazer efeito e os argumentos começaram a embrulhar-se, as personagens a migrar entre novelas e aquilo que, a princípio, para alguns mais devotos ouvintes, em vez de incoerência foi considerado um artifício de estilo ou mesmo um truque usado pelo escrevedor Camacho para verificar se a audiência estava atenta, foi o princípio do fim do artista. O próprio Camacho se apercebeu que não estava a ser capaz de controlar as diferentes personagens que tinha criado e como quis tentar corrigir a tragédia em que tinha envolvido as suas novelas e a Rádio Central de Lima, ao seu estilo muito próprio, acabou com as novelas e com as suas personagens, criando todo o tipo de desastres: terramotos, incêndios, naufrágios, invasões de campos de futebol que a certa altura se transformam em praça de touros! Escusado será dizer que foi o fim da carreira do escrevedor Camacho que acabou no manicómio!
O romance estrutura-se em capítulos que alternam a saga de Varguitas e da Tia Julia com os episódios e as personagens rocambolescas criados por Pedro Camacho. No final, surge-nos o narrador/autor já com um percurso de escritor (o sonho tinha-se cumprido) por várias capitais europeias e o regresso todos os anos para um mês de férias ao Peru natal que não era senão ocasião e motivo para absorver o ambiente, as características e a alma do seu povo, alimento vital para os romances do grande escritor Mario Vargas Llosa.
Almerinda Bento

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

"As Estrelas Brilham na Cidade" de Laura Moriarty

Quando não possuimos quaisquer expectativas sobre um livro e a sua leitura excede tudo o que esperávamos, isso revela-se-nos uma dádiva, tornando-se algo difícil de explicar. A sinopse de  As Estrelas Brilham na Cidade  é parca em pormenores e, por essa razão, nada nos faz prever o real conteúdo desta obra nem a forma como a trama descrita nos enrreda nas suas malhas.

Trata-se de um romance que através da descricão da vida Cora X nos relata muitos acontecimentos que marcaram a História. Fala-nos da mudança de mentalidades que foi acontecendo durante o sec XX, do papel da mulher e da sua intervenção crecente na sociedade. 

A acção decorre entre Wichita, uma localidade no Kansas, e Nova Iorque num espaço temporal que começa por volta de 1920 e se prolonga até depois de 1965. Gira em torno da vida de Cora X, da sua busca do passado que desconhece por completo visto ter sido criada num orfanato, da sua descoberta do segredo mantido pelo seu marido que vai alterar por completo a sua realidade e da sua ida a Nova Iorque como "chaperon" de uma filha de uma conhecida que vai para uma escola de dança.

Essa desconhecida não é mais que Louise Brooks, uma actriz do cinema mudo, bailarina e modelo que através da sua conduta, personalidade e beleza ficou conhecida nos anais do cinema (espreitem naWikipédia, colocando no motor de busca o nome dela).

O facto deste livro misturar ficção e realidade com uma mestria muito própria tornou esta leitura um prazer muito grande. Temas relacionados com a emancipação da Mulher, a luta pelo planeamento familiar, a Segunda Guerra e as suas consequências, o ku klux klan, Lei Seca, a homoxesualidade tida como um desvio e outras condutas tidas como imorais, que levariam inclusive à prisão, tornam esta obra um relado muito autêntico de uma época e faz deste livro um dos melhores que li este ano!

Para mais informações sobre este livro da Editorial Presença, clique aqui.

Terminado em 15 de Agosto de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Em 1922, Louise Brooks tem apenas 15 anos e vive em Wichita, no Kansas, quando parte para Nova Iorque a fim de frequentar um curso de dança. Com ela vai também Cora, uma mulher mais velha e já casada, para lhe servir de acompanhante. Contudo, apesar de Louise Brooks se ter tornado mais tarde um dos grandes ícones do cinema mudo, é a vida de Cora que Laura Moriarty recria neste romance. Cora Carlisle é uma sufragista bastante convencional, que oculta os seus segredos e tem motivos próprios relacionados com as suas origens para aceitar fazer aquela viagem. Por outro lado, a diferença de idades e de atitudes entre as duas mulheres permite à autora tirar partido do que distingue as duas gerações explorando engenhosamente as múltiplas facetas das mudanças que vão ocorrendo na sociedade.

terça-feira, 19 de Agosto de 2014

A Convidada Escolhe: Ínclita Geração

Romance histórico que empolga o leitor do princípio ao fim, numa escrita fluida e agradável, tem como figura principal Isabel de Avis única filha de D. João I e de D. Filipa de Lencastre. Após a morte de sua mãe acompanhou seu pai no governo da nação ocupando durante anos o lugar de rainha de Portugal. Ao casar com o poderoso Duque de Borgonha, uma importante aliança para Portugal, levou para a corte de Filipe III, "O Bom", todo o saber adquirido como governante o que representou uma mais valia que o duque sempre soube utilizar a favor do ducado.
Isabel de Avis levou o mundo a conhecer Portugal e, embora longe, sempre acompanhou os acontecimentos do seu país, intercedendo junto do duque seu marido, para que apoiasse os projetos da expansão que então dava os seus primeiros passos. Os financiamentos a Portugal e as rotas de comércio foram implementados consideravelmente. Seus irmãos, figuras marcantes da história de Portugal, nem sempre se entendiam e a duquesa que mantinha grande influência junto deles apressava-se a interceder. Recebeu sempre com determinação todos os seus sobrinhos quando perseguidos em Portugal em época de tumultos e divisões. Isabel de Borgonha mulher forte e muito inteligente, que se destacou na Europa do século XV, que vivenciou tempos de guerra e grandes conflitos, que teve papel preponderante em alianças quer com a França quer com a Inglaterra, que intercedeu junto do Papa a favor de Joana D’Arc, não foi completamente feliz no casamento já que o duque lhe era constantemente infiel e tinha um número elevado de filhos naturais. Das três crianças que teve só uma sobreviveu tendo sucedido a seu pai como duque da Borgonha. Não tendo sido amada como durante muito tempo esperou, foi admirada e soube tornar-se indispensável junto do duque e sobretudo nunca esqueceu sua família nem que era uma princesa de Avis. Sofreu imenso com o cativeiro de seu irmão D. Fernando e todas as diligências que providenciou para o salvar não obtiveram êxito.
Esta obra que apreciei bastante dado o seu grande equilíbrio entre o histórico e a face humana das personagens, acompanha a história de Portugal e da Europa durante o século XV, está baseada numa riquíssima bibliografia e inclui 12 extratextos muito interessantes e sobretudo debruça-se sobre uma mulher muito interessante tanto do ponto de vista pessoal como político.
Maria Fernanda Pinto

domingo, 17 de Agosto de 2014

Ao Domingo Com: Miguel Castro

O meu nome é Miguel Lino de Castro e tenho 55 anos. Nasci na cidade da Beira, em Moçambique e vim para Portugal Continental com dois anos e meio. Frequentei o Liceu Pedro Nunes. Fiz o Curso de Turismo do ISLA para técnico de agências de viagens e a meio do curso entrei para a TAP AIR PORTUGAL, em 1983 onde fiquei 25 anos, até à altura em que tive que me reformar por incapacidade física. Desde a Reforma em 2007 para me sentir útil e vivo, tenho feito Voluntariado, facto que me preenche a Vida em todos os sentidos. Nunca publiquei nenhum Texto a não ser documentos profissionais Internos, para os Cursos de Formação e de Refrescamento do Pessoal de Cabine da TAP. Há coisas que acontecem na Vida, que nos fazem sair de nós próprios e, por causa disso, conhecemos um outro lado de nós que desconhecíamos completamente existir e começamos a fazer coisas que nunca na vida pensaríamos fazer. No meu caso, foi escrever este Texto, por achar importante falar de um assunto TABU, o Erro Médico, com a naturalidade que ele merece, uma vez que o Erro Médico, mata mais pessoas do que o Cancro e muitas pessoas desconhecem este facto.

Sinopse

Roleta Russa é a obra que retrata vários assuntos que dizem respeito à vida de todos os Portugueses.
Fala do caso do Erro de Diagnóstico que aconteceu ao autor, da Ordem dos Médicos e do seu Regulamento Disciplinar Perigoso que pode pôr em risco a população Portuguesa.
Fala de toda uma luta travada contra o Médico e o Hospital para repor várias situações para restabelecer a Segurança no "Falso Serviço de Urgências Anunciado", uma luta muito pouco ética por parte do Médico e do Hospital, onde as Decisões dos Tribunais não foram Justas e Conscienciosas, como poderão ler neste livro.
Miguel Castro o autor, fala do lhe aconteceu quando se dirigiu ao Hospital Cuf-Infante Santo com todos os sintomas de um enfarte. Fala das 7 horas e 10 minutos que esteve no HCIS debaixo da alçada de um médico que não lhe fez os exames correctos e mandou-o para casa com um diagnóstico de "Pedras nos Rins, Pré-Diabético e uma Virose no Coração. Depois de 8 dias em casa a tomar um Antibiótico para uma Virose no Coração, os sintomas de enfarte voltaram e, de facto, foi confirmado que estava a ter outro enfarte, assim como ficou aprovado que as dores e os sintomas que sentiu quando foi a 8 dias atrás também tinha sido de um enfarte.



sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

A Convidada Escolhe: Comédias para se Ler na Escola


Não conheço leitor que não tenha os seus pequenos "ódios de estimação" e os seus "amores de perdição" reflectidos em pelo menos um, ou vários autores. Luís Fernando Veríssimo está, sem sombra de dúvida, entre os meus amores de perdição.
Desde que li um primeiro livro de Luís Fernando Veríssimo que mantenho sob radar as suas obras em cada livraria em que entro. Autor brasileiro não muito divulgado, diria até, algo proscrito, é difícil encontar os seus livros, embora mantenha ou tenha mantido colaborações com jornais portugueses como o Expresso e o Público.
"Comédias para se Ler na Escola", a minha mais recente aquisição, corresponde ao género literário mais utilizado pelo autor, um livro de crónicas gostosas.
Centrado em questões de linguagem e de crescimento, este livro, traz-nos verdadeiras micro delícias que, não raras vezes, é uma pena que sejam apenas crónicas pois mereceriam desenvolvimento e ficamos com pena que tenham terminado.
Com Luís Fernando Veríssmo temos que estar prontos para uma boa gargalhada, um sorriso rasgado perante a ironia e a crítica constante de que são alvo os mais diversos visados, incluindo ele próprio, verdadeiro sinal de inteligência. E pensar... pois é isso que o autor nos desafia a fazer sob a capa da ligeireza e sempre, mas sempre, com uma riqueza gramatical e de vocabulário que o eleva e distingue. Não há lugar a comparações com o pai, e isso é algo que Luís Fernando gere de forma excepcional.
Um livro que se lê de um fôlego e que nos deixa bem disposto. Mais do que um livro, um autor que recomendo e que nos traz assuntos sérios de uma forma bem disposta.

Excertos
"Sexa
- Pai...
- Humm?
- Como é o feminino de sexo?
- O quê
- O feminino de sexo.
- Não tem.
- Sexo não tem feminino
- Não.
- Só tem sexo masculino?
- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.
- E como é o feminino de sexo?
- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.
- Mas tu mesmo me disse que tem sexo masculino e femino.
- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra «sexo» é masculina. O sexo masculino, o sexo feminino
- Não devia ser «a sexa»?
(...)
- A palavra é masculina.
- Não. «A palavra» é feminino. Se fosse masculina seria «o pal...»
- Chega! Vai brincar, vai.
O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:
- Temos que ficar de olho nesse guri...
- Por quê?
- Ele só pensa em gramática." (p. 41)
"O Jargão
Sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos, onde a única linguagem técnica que você precisa saber é «a que horas servem o bufê?». Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjôo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes da equipagem.
Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:
- Recolher a traquineta!
- Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.
(...)
- Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua.
- Cuidado com a sanfona de Abelardo!
(...)
Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando um jargão falso assim, com pseudônimo. Não sei quanto tempo duraria até au ser descoberto e desmascarado, mas acho que não seria pouco. Não estou dizendo que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se aproveita da ignorância generalizada oara enganar. Estou dizendo que a análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo. (...)" (p.55)
"Fobias
(...)
Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (...), agorafobia (...), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) (...), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas maiores neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham «Frio» e «Quente» escritos por extenso, para saciar a minha sede de letras (...)" (p.88)

Fernanda Palmeira