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sexta-feira, 13 de março de 2020

Para os Mais Pequeninos: "O Avô Tem Uma Borracha na Cabeça"


Este deve ter sido o livro infantil mais tocante que li. Talvez porque também eu, à semelhança do autor, senti proximo de mim o terror que é a demência, ou mais concretamente o Alzhaimer, num familiar mais próximo.

Foi com uma grande sensibilidade que Rui Zink tocou neste tema que atinge maioritariamente os mais idosos, os "avós"... As ilustrações, também elas, são muito cuidadas, revelando uma delicadeza que surpreende.

Pouco mais há a referir. Precisam de lê-lo para verem a que me refiro. O título está maravilhosamente atribuído: porque é que o avô tem uma borracha na cabeça e o que podemos fazer para minimizar isso, já que a cura não é possível?

Finamente elaborado, o livro explica a demência aos mais pequeninos. E bem!

Recomendo vivamente.


 




Cris

quinta-feira, 12 de março de 2020

"Uma Família Quase Normal" de Mattias Edvardsson

Um thriller bem estruturado com cabeça, tronco e membros que nos deixa presos aos pormenores para tentarmos descortinar o que está escondido. Dividido em três partes, são descritas as opiniões e modos de pensar dos três protagonistas principais: o pai, a filha e a mãe, repectivamenfe, Stella, Adam e Ulrika. Constituem uma família normal. Ou quase.

Um assassínio, as desconfianças que recaem sobre Stella e a vida desta família entra numa espiral de segredos, revelações e supostas pistas (verdadeiras? falsas?) que levam o leitor a desconfiar se  Stella seria capaz de tal acto.

De leitura que se faz rápida, este é um livro cativante. O leitor é impelido a pensar, constantemente, e uma pergunta paira no ar: E se fosse connosco? O que faríamos se a nossa família estivesse em perigo? Até onde iríamos para a proteger? A resposta, não creio, que divergisse muito de uns para outros... e isso deixa o leitor inquieto. Não vos parece?

O assassinado, apresentado ao leitor sob os pontos de vista dos elementos da família e amigos,  é um homem de carácter dúbio, egocêntrico e controlador. Stella, suspeita principal de ter cometido o crime, também possui um carácter insatisfeito, irascível e é dada a crises de violência.  Quem é o verdadeiro culpado? E mais: merece castigo?

Um livro que recomendo!

Terminado em 4 de Março de 2020

Estrelas: 5*

Sinopse
A perturbadora acusação de assassinato que põe à prova uma família quase normal. Neste emocionante thriller, o magistral contador de histórias Mattias Edvardsson arquitecta uma teia na qual todos se envolvem e nada é o que parece. A história de um crime e a destruição de uma família é contada através de uma estrutura incomum de três partes que mantém o leitor a questionar tudo e todos. Tudo é virado do avesso à medida que a perspectiva muda, uma nova voz assume o controlo e novas sombras são lançadas na luz.

Cris

quarta-feira, 11 de março de 2020

Experiências na Cozinha: "É Vegan, é Fácil"

Não são precisos mais de 10 minutos para fazer a receita destas barritas que vos trazemos hoje, "Barras de pequeno-almoço de tâmaras, aveia e cajus". Já tinhamos os ingredientes em casa mas alterámos alguns, como é já nosso hábito!

Em vez das tâmaras utilizámos pasta de tâmaras e em vez das amêndoas, usámos cajus.

De resto é só juntar num processador os ingredientes, colocar numa folha de papel vegetal e calcar. Colocar no frio durante umas horas. 

Podem embrulhá-las e papel vegetal para poderem levar com vocês para um snack a meio da manhã ou da tarde.

Mas atenção! Elas são perigosas!!! É difícil comer só uma...








Palmira e Cris

terça-feira, 10 de março de 2020

"Águas de Tempestade" de Danielle Steel

Não é o primeiro livro que leio de Danielle Steel e embora não seja um tipo de leitura que faça frequentemente, aceitei o convite do Círculo de Leitores...  É  um livro com uma escrita fluida e que se lê bem. Creio que é destinado a um leitor que goste de romances cujo final se encaixa na perfeição. Eu prefiro aqueles que nos deixam a pensar e onde as portas ficam, se não abertas de par em par, pelo menos não totalmente fechadas.

Contudo, o tema que serviu como pano de fundo - um furacão em N.Y. - é bastante verosímil e foi tratado de uma forma que me agradou bastante. A partir daí a acção entra numa espiral de acontecimentos que prende a nossa atenção. Todas as personagens são atingidas, de uma forma ou de outra, pelo furação que se abate sobre N.Y. e do qual os habitantes não esperam  que se manifeste em grande força, como muitos outros que são anunciados mas que nos últimos minutos se desviam e não caem sobre a cidade.

O enredo vai centrar-se nalgumas histórias que giram à volta deste acontecimento e cujas vidas ficam irremediavelmente marcadas por ele. Mas nem tudo é mau e a vida recompõe-se depois da tempestade.

Estou curiosa com as opiniões que surgirão no clube de leitura que o Círculo de Leitores vai promover nesta sexta feira, dia 13, no Palácio Baldaya, em Benfica, às 19h. Podem-se inscrever através do email comunicacao@circuloleitores.pt.

Apareçam, mesmo que não o tenham lido! 

Terminado em 9 de Março de 2020

Estrelas: 4* +

Sinopse
À medida que o furacão Ofélia se abate sobre Nova Iorque, milhões de pessoas são apanhadas pelas terríveis inundações que a tempestade desencadeia. Ellen Wharton, uma designer de interiores de sucesso, apanha um avião de Londres para Nova Iorque, decidida a visitar a mãe; Charles Williams, britânico e banqueiro de investimento, está ansioso por ver as filhas, que vivem com a sua ex-mulher em Nova Iorque; Juliette Dubois, médica do serviço de urgência, luta para salvar vidas; e Peter Holbrook e Ben Weiss, estudantes universitários curiosos com o desastre natural que se aproxima, recusam-se a abandonar o edifício onde vivem. Seis pessoas, seis destinos que se vão cruzar num dia marcado por uma catástrofe de proporções épicas que revelará quem são os verdadeiros heróis.

Cris

segunda-feira, 9 de março de 2020

A Escolha do Jorge: "O Tradutor Cleptomaníaco"


O Tradutor Cleptomaníaco
Dezső Kosztolányi 
(Editora 34)

“Um departamento de psiquiatria é igual em todo o mundo, como um parlamento. Parece que a natureza, com a equação das doenças psiquiátricas, quer demonstrar o mesmo em todos os pontos cardeais.” (p. 78)

Tradutor, jornalista, poeta e romancista, Dezső Kosztolányi (1885-1936) é um dos nomes incontornáveis da literatura húngara do século XX. Em Portugal conhecemos o escritor através do romance “Cotovia” (Dom Quixote, 2006), além de contos dispersos integrados nas antologias de contos húngaros publicados na década de 40.

Dezső Kosztolányi deu um contributo enorme no que concerne ao romance tradicional, graças à linguagem refrescante que introduz, recorrendo a situações do quotidiano que constituem o pano de fundo das suas narrativas, podendo os leitores reverem-se nas histórias.

Maioritariamente de cariz urbano, as histórias de Dezső Kosztolányi reflectem o dia-a-dia de Budapeste, num período entre guerras, tendo os jardins, cafés, quartos de escritores, salões de conferências e outros locais de convívio, os espaços onde a sociedade deambula e procura ser feliz.

Dezső Kosztolányi acompanhou o desenvolvimento das teorias psicanalistas procurando estudar a complexidade do ser humano, um dos traços mais presentes na obra do autor, subvertendo muitas vezes a realidade, percebendo quais são os obstáculos da humanidade no trilho da felicidade, tentando demonstrar que o caminho a seguir e o sentido da vivência do ser humano reside nas coisas mais simples.

Irónico, mordaz, algumas vezes corrosivo, sarcástico e muitas vezes divertido, Dezső Kosztolányi presenteia-nos com histórias que resistem à passagem do tempo. Graças à sua simplicidade articulada com as preocupações da existência humana, o escritor húngaro mostra ao leitor que a alegria e a felicidade encontram-se nas pequenas coisas, nos gestos simples.

“Kornél Esti” (1933) é a penúltima obra de Dezső Kosztolányi, cuja edição brasileira recebeu o título de “O Tradutor Cleptomaníaco e outras histórias de Kornél Esti” (Editora 34, 1996). Este volume de contos apresenta Kornél Esti como personagem transversal nos treze contos à semelhança da sua última obra “O Olho do Mar” (1936). Kornél Esti apresenta-se como uma espécie de alter ego de Dezső Kosztolányi, em que numas histórias é narrador, noutras é o personagem principal, mas em todas elas, ajudam o leitor a compreender a vida cosmopolita de Budapeste durante os anos 20 do século passado.

Dezső Kosztolányi explora nalguns pontos a linha da literatura fantástica, como por exemplo, no conto inicial, “O Tradutor Cleptomaníaco”, em que o personagem principal rouba os personagens da obra que traduz. A relação da ciência com a literatura é desenvolvida no conto mais extenso, em “O presidente” que nos relata a história de um indivíduo que adormece sempre no início dos discursos das conferências, acordando momentos antes de os mesmos terminarem. Constituindo um objecto de estudo, Dezső Kosztolányi tece fortes críticas aos políticos e à sociedade em geral, aludindo às questões relacionadas com os casos psiquiátricos versus conceito de normalidade, aproveitando o momento para criticar todos aqueles que têm a pretensão de virem a ser escritores quando, na verdade, aquilo que de melhor fazem é provocar sonolência nos leitores, seguindo em linha com o conteúdo da narrativa.

“O fim do mundo” é outra das melhores histórias presentes neste volume em que um dos personagens, seduzido e angustiado pelo fim do mundo nos seus sonhos, vê-se incapaz de compreender o sentido da vida até decidir começar a vivê-la. “(…) Só aquele que está totalmente preparado para a morte é que pode viver, e nós tolos, morremos, porque só nos preparamos para a vida, e queremos viver a todo o custo. A ordem que você vê ao seu redor, na verdade, é desordem, e a desordem é a verdadeira ordem. E o fim do mundo, no fundo, é o começo do mundo.” (p. 124)
Do mesmo modo que Dezső Kosztolányi projectou em Kornél Esti o seu alter ego, dando-lhe liberdade de pensar e agir, contar histórias, as suas histórias, interagir com os demais personagens, discutindo até um com o outro, Dezső Kosztolányi teve de pôr cobro a algo que se tornava insustentável no decurso dos episódios.

Neste sentido, após este conjunto de histórias extraordinárias em que o absurdo se cruza com o inesperado, Dezső Kosztolányi  vaticina algo, não necessariamente insólito, em “A Derradeira Conferência” acontecendo algo de inesperado a Kórnel Esti ou nem tanto assim…, mostrando uma vez mais a sua mestria enquanto contista.

Excerto:
"No meu transtorno, enfiei as mãos no bolso. Encontrei aquele livro que Zwetschke embrulhara, e o abri. Era o Messias de Klopstock, aquela poesia épica em hexâmetros, que – segundo a opinião unânime de gerações – é o livro mais chato do mundo, tão chato que ninguém ainda o leu, nem aqueles que o enaltecem, nem aqueles que o achincalham. Dizem que o próprio Klopstock não conseguiu lê-lo, apenas o escreveu. Abri-o, e comecei a folheá-lo meditativo. Que trecho deveria ler? Tanto fazia. Como sabia que o que o falecido mais prezava na vida era o sossego, e o seu desejo, como o de todos nós, deveria ser o de dormir tranquilamente no caixão, devagar, monotonamente comecei a ler o primeiro canto. O efeito foi espantoso. Uma flor da trepadeira fechou o seu cálice assombrada, como se a noite já tivesse descido. Um besouro caiu de costas na poeira e assim ficou, como que hipnotizado. Uma borboleta, que em círculos sobrevoava o túmulo, caiu do ar sobre a lápide e dormiu de asas fechadas. Senti que os hexâmetros penetravam pelo granito da tumba, até os restos mortais do falecido e que seu sono mortal – o sono eterno – ficava mais profundo com eles.” (p. 81)

Texto da autoria de Jorge Navarro

sábado, 7 de março de 2020

Na Minha Caixa de Correio

  

  

  

  

"As Provadoras de Hitler" foi oferta de uma amiga livrólica.
Os restantes foram ofertas das editoras parceiras.
Uma semana em cheio.

quarta-feira, 4 de março de 2020

"A Rede de Alice" de Kate Quinn

Este é um romance que se lê num ápice, uma trama que decorre em duas épocas temporais diferentes. A primeira passada em 1915, durante a I Guerra e a segunda, em 1947, já após o términus da II Guerra. O fio condutor da narrativa destas duas histórias é Eve, que em 1915 é uma jovem espia, infiltrada como empregada num restaurante, propriedade de um francês colaboracionista, e muito frequentado pela elite alemã.

Em 1947 Eve tem apenas 54 anos mas é descrita como alguém que física e psicologicamente é um destroço da rapariga que foi. É Charlie, uma jovem americana de 19 anos, que vai revolucionar a sua vida de desânimo e álcool. Charlie, a narradora desta segunda parte, está metida em sarilhos mas está fortemente determinada em encontrar o rasto de sua prima francesa que não vê desde o início da guerra.
Que vai unir estas duas mulheres tão diferentes uma da outra e com experiências de vida tão díspares? Que laços as vão unir?

Com uma escrita fluída e atrativa, as páginas desta obra correm entre os nossos dedos e ficamos presas nesta trama intensa e forte. A passagem de uma época a outra é feita sem diminuir a intensidade e sem que o leitor saiba mais que os próprios personagens, mantendo assim, o interesse e a atenção.
Romance, drama, histórias ficcionadas, mas verosímeis, mescladas com factos reais, onde a coragem e a cobardia dos Homens são expostas, revelando situações em que eles se tornam dignos de mérito ou de vergonha.

Sempre ritmado com acontecimentos que nos levam a interrogações constantes e entrelaçando muito bem as duas épocas retratadas, este livro é uma aposta segura para quem quer passar bons momentos de leitura. Recomendo.

Terminado: 28 de Fevereiro de 2020

Estrelas: 5*

Sinopse
Duas mulheres invulgares numa jornada épica de coragem e libertação em tempos de guerra.
Trinta anos depois, atormentada pela traição que acabaria por ditar o fim da Rede de Alice, Eve passa os dias embriagada e isolada do mundo na sua decadente casa, em Londres. Até ao dia em que uma jovem americana lhe bate à porta e a recorda de um nome que Eve tudo tem feito para esquecer.
1947
No caótico pós-Segunda Guerra Mundial, a jovem americana Charlie St. Clair está grávida, solteira e a um passo de ser expulsa do seio da sua conservadora família. Mas Charlie está mais preocupada com o que terá acontecido à sua querida prima Rose, desaparecida em França durante a ocupação nazi. Por isso, quando os pais a mandam para a Europa para resolver o seu «Pequeno Problema», Charlie troca todas as voltas do previamente combinado e desembarca em Londres, determinada a descobrir a prima que adora como a uma irmã.
1915
Um ano depois do início da Primeira Guerra Mundial, Eve Gardiner deseja com todas as suas forças lutar contra os alemães, o que, inesperadamente, acabará por acontecer quando é recrutada para servir os interesses Aliados como espia. Enviada para uma zona ocupada de França, é treinada pela fascinante Lili, nome de código Alice, a rainha das espias, que lidera uma vasta rede de agentes secretas a operar mesmo debaixo do nariz do inimigo.

Cris

terça-feira, 3 de março de 2020

Resultado do Passatempo "Toca a comentar!" - Mês de Fevereiro

Anunciamos o vencedor deste passatempo referente ao mês de Fevereiro.

Este é o link para o post onde se encontra anunciado o passatempo.

Assim, através do Random.Org de todos os comentários efetuados no mês passado, foi seleccionada uma vencedora! Foi ela:

Alexandra Guimarães

Parabéns! Terás que comentar este post e enviar um email para otempoentreosmeuslivros@gmail.com até ao próximo dia 15, com os teus dados e escolher um de entre estes dois livros:

 

Cris

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Para os Mais Pequeninos: "A Quinta: Porque é que as Vacas dão Leite?"


Desta vez trago-vos um livro para os mais, mais pequeninos. Sobre animais da quinta e tudo o  
que lá se passa. Muitas perguntas e muitas respostas sobre os animais e os seus hábitos.

Desenhos coloridos e papel brilhante e grosso para mãozinhas mais desastradas, este livro vai fazer as delícias dos pequenotes. Está pronto para lhes satisfazer a curiosidade, ensinando-os e abrindo-lhes algumas portas sobre como é viver numa quinta.

Ficam as imagens:









Cris

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A Escolha do Jorge: "Chuva Miúda"

“Chuva Miúda”
Luis Landero (Porto Editora)

"«Ei, oiça! Se for aqui, vou bem para o futuro?»” (p. 238)
Considerado o melhor livro de 2019 pelo El País, Chuva Miúda de Luis Landero (n. 1948) chega agora às livrarias portuguesas, com uma excelente tradução de Miguel Filipe Mochila, constituindo uma grande surpresa no mercado editorial neste início de ano.
A narrativa de Chuva Miúda decorre em Madrid, abrangendo um arco cronológico que abarca desde o final do franquismo até aos nossos dias. O leitor vai percebendo as alterações na sociedade, fruto da consolidação da liberdade, trazendo à luz muitos recalcamentos e situações ainda por resolver no seio da família retratada na obra.
De modo sintético, a narrativa tem como pano de fundo a organização da festa do octogésimo aniversário da mãe de Sonia, Andrea e Gabriel, tendo sido este quem tomou a iniciativa do evento.
Nunca chegaremos a saber se se chegará a concretizar tal festa na medida em que os sucessivos contactos telefónicos entre os irmãos vão despertar antigos ódios e rancores, além de inúmeras histórias mal resolvidas do passado familiar.
Aurora, a esposa de Gabriel, é a personagem central de Chuva Miúda que foi sempre considerada por todos os elementos da família como a mais assertiva, bondosa, boa ouvinte e incapaz de fazer um juízo sobre os seus interlocutores. “E Aurora ouve, cala e compreende, e, com aquela sua maneira tão doce de ouvir, parece que alivia os pesares de todos e pacifica as discórdias.” (p. 80)
Chuva Miúda é também um romance sobre memória e verdade. Cada família tem os seus mistérios, os seus segredos, as suas loucuras e o relato das experiências pessoais por parte de cada um dos irmãos é sempre exponenciado face à tentativa de, cada um, à sua maneira, fazer levar a água ao seu moinho, em detrimento dos irmãos e até da mãe. Cada um dos interlocutores faz junto de Aurora a apologia da vitimização no contexto de uma família pejada de contradições e absurdos, marcada pelas dificuldades económicas do período franquista e com sérias consequências nas décadas seguintes, pelo menos ao nível psicológico face às experiências de vida dos vários personagens, a que foram sujeitos por parte da mãe.
É na conversa com os demais interlocutores que Aurora, esposa de Gabriel e cunhada de Sonia e Andrea, procura um equilíbrio entre o relato e a verdade da família. No meio de tanta loucura, mágoas e até alguma esquizofrenia, Aurora vai urdindo a verdadeira história de cada um e, no seu conjunto, a verdade desta família.
É nas conversas tidas com as cunhadas que Aurora é levada a confrontar-se com as desconfianças em relação a Gabriel, acabando por perceber de facto com quem está casada e que a ideia que as cunhadas fazem do irmão não corresponde de todo à verdade.
Ao fim de cerca de uma semana, período em que decorrem os sucessivos contactos telefónicos, Aurora sente-se esgotada com o peso das histórias de cada elemento da família, tentando, ela própria, reconstituir aquilo que será a história da família, partindo de memórias que, mesmo apresentando-se turvas, aparentemente são projectadas de modo muito intenso como se os acontecimentos tivessem tido agora lugar. “Não estaria também ela a reinventar o passado e a construir uma história à sua medida, baseada em suspeitas, minúcias e imaginações, como Sonia e Andrea? E pensou novamente se não estaria já a germinar a semente da loucura que se abrigava no seu interior.” (p. 202)
Luis Landero neste magistral romance sobre a família contemporânea e os costumes agarra o leitor nas primeiras páginas graças à sua escrita apelativa e enredo intenso. A narrativa vai evoluindo entre o humor negro e a tragédia, atirando-nos para o fundo do poço sem direito à corda de salvação. Há momentos tensos e de uma crueldade sem precedentes, a violência doméstica que tem empurrado tantas mulheres para o silêncio em detrimento dos filhos, optando, tantas vezes pela paz pobre, ainda que sofrendo no corpo e na alma.
Chuva Miúda desperta os rancores e ódios do passado que ao longo de uma semana de contactos telefónicos, perceberá o leitor que se transformarão finalmente em gritos, sendo então lícito questionar “«Ei, oiça! Se for por aqui, vou bem para o futuro?»” (p. 238)
Excerto:
“Hoje é quinta-feira. Há seis dias que Gabriel se lembrou de organizar uma festa para a mãe. Uma festa onde todos pudessem perdoar e expiar as culpas e os erros, e onde as ofensas e os equívocos do passado fossem enfim redimidos. (…) São histórias, impressões, conjeturas e sonhos, que, uma vez encarnados e materializados em palavras, passam a ser reais e, com o tempo, invulneráveis a qualquer discussão. Um dia, não se lembra a propósito de quê, [Aurora] disse a Andrea «Esta é que é a verdade», e Andrea replicou: «Pois então a verdade é mentira.» E talvez não lhe falte razão. E é curioso, pensa Aurora, porque às vezes a memória vai reconstituindo e ampliando com notícias fornecidas pela imaginação e pela nostalgia o que o esquecimento destrói, de modo que se dá então o paradoxo: quanto maior é o esquecimento, mais rica e detalhada é também a lembrança.” (pp. 233-234)
Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

"Os Três Casamentos de Camilla S." De Rosa Lobato de Faria

Quem nunca leu um livro da Rosinha não sabe mesmo o que está a perder. O seu humor fino mesclado com uma consciência da realidade retratada, a sua escrita cuidada mas fluída, os temas escolhidos cuidadosamente fazem desta autora uma das minhas preferidas. Gosto, de quando em vez, voltar a esta escrita que tanto admiro. Lembro-me bem da surpresa que foi quando peguei num livro seu pela primeira vez... tenho cá ainda uns poucos para ler. Tenho esperado e prolongado este prazer! Considero que reler um livro seu, futuramente, será uma mais valia, nunca uma perda de tempo!

Se por um lado Camilla, a narradora e personagem principal desta obra, é uma jovem bafejada pela sorte porque nasceu no seio de uma família rica num Portugal de 1900, por outro, fica sem os seus pais bem cedo, quase à nascença, vítimas de tuberculose. Para compensar e porque não se alimentava de forma alguma, os tios com quem passou a viver, arranjaram-lhe uma ama de leite, Paca.

Paca é uma personagem muito sui generis. Não se sabe muito onde nasceu nem quando e ficamos com a impressão que não é bem deste mundo... ou melhor, pertence a este mas com laivos de uma sabedoria que lhe advém de um mundo sobrenatural. Com rezas, mezinhas e conselhos certeiros, dá a Camilla uma das coisas que a vai acompanhar pela vida fora: a certeza de ser amada incondicionalmente por esta mãe substituta. O amor destas duas mulheres é recíproco, duradouro e muito forte.

Gostei muito deste romance que dispõe bem, com laivos de um humor requintado e aproveitando-o para descrever a situação sócio-política de um Portugal muito diferente do actual, onde as mulheres limitavam-se a assumir um papel secundário face aos homens. Política e demais assuntos não eram temas para conversas que se tivessem à frente das damas da época. O retrato de uma sociedade (o livro viaja pela vida de Camilla e com quem se cruza) desde 1902 (aqui Camilla tem quase doze anos) até 1985.

Camilla começa a escrever as suas memórias com 90 anos, acaba com 95. A ajudá-la na sua tarefa estão os diários que a acompanharam a sua vida toda. A sua ideia é deixar este legado tão vivido e marcado pela vida e pela morte a uma das suas netas, por coincidência escritora. Ela, depois, fará o que entender.

Original, escrito com uma mestria muito peculiar, este é mais um livro de Rosa Lobato Faria que vale a pena ler. Um de entre os muitos que escreveu e que adorei!

Terminado em 19 Fevereiro de 2020

Estrelas: 6*

Sinopse
Aos noventa anos de vida, Camilla decide percorrer os seus diários e contar as suas memórias. A sua história é a de uma mulher que, ainda que às vezes de longe, viu o tempo e os actos mudarem o mundo. É também a história dos seus três casamentos e do seu único amor. A vida de Camilla é feita de iguais medidas de alegria e desespero. A sua memória é a de uma jornada de crescimento, desde a inocente casada demasiado cedo à mulher que amou e sofreu e viveu uma vida completa. E a voz de Camilla é fascinante, tal como o é o percurso da sua vida.

É a autobiografia de uma velha senhora que aos noventa anos decide contar a sua vida, incluindo o que ela possa ter de inconfessável. Desde os ambientes à narrativa (que atravessa quase um século de história ) estamos perante um livro adequadamente romântico.

Cris

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

"A Última Carta" de Cecelia Ahern

Li o livro mais conhecido desta autora ("P.S. Eu Amo-te") há muitos anos e a ideia principal não se desvaneceu como é habitual em mim ao fim de tanto tempo. Na altura foi um sucesso e creio que se o relesse hoje voltaria a gostar dele. São daquelas leituras que não sabemos muito bem porque gostamos tanto mas não conseguimos parar...

Confesso que esta sequela deixou-me curiosa e  tinha quase a certeza que o tipo de escrita da autora se iria manter e que a leitura seria compulsiva. Foi-o de facto. Não esperava emocionar-me tanto porque, pensava eu, o assunto iria centrar-se no mesmo tema e eu estaria preparada...

E o tema é nada mais nada menos que a morte. Que dizer desta obra?  É de facto impressionante como um romance supostamente "leve" pode ser tão "pesado" nos assuntos que trata e aprofunda. Não vos quero falar muito do primeiro livro porque, se calhar, vocês ainda não o leram mas a ideia principal e a que fica para sempre na memória é a de uma jovem que após a morte do marido vai recebendo algumas cartas do marido que lhe são entregues mensalmente.

Aqui, nesta sequela, passaram-se sete anos. Holly refez a sua vida. Mas um acaso traz de volta tudo pelo que ela passou. O tema da morte, mais uma vez, retratado aqui com coragem e determinação.  Se fosse a vocês pegava no livro sem ler a sinopse. Penso que revela um pouquito demais do que seria necessário. Às vezes ir às escuras torna-se mais emocionante e, acreditem, emoção não vos vai faltar ao lerem esta obra. Eu gostei muito!

Terminado em 17 de Fevereiro de 2020

Estrelas: 5*

Sinopse
A aguardada sequela do sucesso internacional (do fenómeno mundial) P S EU AMO-TE. Os membros do Clube P. S. Eu amo-te, inspirados nas últimas cartas do seu marido, Gerry, querem que Holly os ajude a escrever as suas próprias mensagens de despedida para os que lhes são queridos. Holly vê-se atraída, de novo, para um mundo que se esforçou tanto por deixar para trás. Relutante, começa a relacionar-se com o clube, mesmo quando a amizade deles ameaça destruir a paz que ela acredita ter alcançado.

Cris

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Para os Mais Pequeninos: "Mortina e o Primo Odioso"

Já vos falei aqui nesta menina vampiro e no seu desejo de ser parecida com os meninos que vê. Será impossível ela conseguir ter uma vida normal?

Nesta aventura (ou devo dizer neste mistério?), Mortina é visitada por um primo que não conhece e que, a convite da tia Falecida, aparece no Casarão Decadente. Dário não é simpático. É um vampirinho resmungão e descontente com o qual Mortina não simpatiza nada.

Mas quando os amigos de Mortina começam a aparecer de repente, convidados pela tia, as surpresas  os mistérios começam a surgir. Um livro divertido com imagens sugestivas, que contam histórias.

Momentos divertidos com uma história e imagens muito engraçadas! Serão horas bem passadas com os mais pequenitos, garanto-vos!







Cris