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quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

A Escolha do Jorge: Primeiro os Idiotas

Bernard Malamud (1914-1986) foi publicado pela primeira vez no nosso país no final de 2013 com a edição de "O Barril Mágico", um dos livros de contos mais emblemáticos do autor tão apreciado por autores norte-americanos, nomeadamente por Flannery O´Connor. A obra obteve um bom acolhimento por parte da crítica, assim como do público em geral.

"Primeiro os Idiotas" é a mais recente aposta da Cavalo de Ferro continuando, deste modo, a publicação das obras de Bernard Malamud que é reconhecido como um dos nomes mais representativos da literatura norte-americana do século passado.

Ao longo dos doze contos desta nova obra, uma vez mais o autor traz para a escrita personagens, na sua maioria judeus, que procuram encontrar o seu lugar no mundo, tentando, de alguma forma, contrariar as vicissitudes inerentes à ideia de que o povo judeu é um povo sofredor. O mais pequeno vislumbre de alegria ou o almejar de um pequeno rasgo de felicidade é transversal ao longo de toda a obra através de personagens que na sua singularidade refletem o destino do povo judeu. A melancolia, tristeza, angústia, desespero e até loucura caracterizam de um modo ou de outro os personagens levando o leitor a refletir sobre a dureza das condições de vida das pessoas e, em especial, para os judeus, durante o período entre as duas guerras mundiais.

A escrita dócil e terna alternada com momentos de ironia e humor (por vezes negro) conquista o leitor nas primeiras páginas, envolvendo-o nas histórias de um modo intenso devido ao facto de a escrita de Bernard Malamud ser bastante visual e emotiva.

São muitas as situações que retratam o quotidiano de certos bairros de Nova Iorque presentes na obra, reflexo de os pais do autor serem proprietários de uma pequena mercearia num bairro de Brooklyn, demonstrando que o autor é conhecedor do dia-a-dia das várias comunidades daquela parte da cidade sendo tal visível através do conto "Negro é a Minha Cor Preferida".

O desespero de um pai que mendiga alguns dólares para comprar o bilhete de comboio para o filho deficiente de trinta e nove anos; o indivíduo branco que durante toda a vida se sente atraído pela comunidade negra sem conseguir fazer amigos; os problemas de consciência de um professor de literatura que se apaixona por uma ex-prostituta; uma viúva devota que vive num permanente purgatório; o pássaro-judeu cuja vida é fugir dos anti-semitas; o pequeno comerciante que vê abalada a sua esperança numa vida melhor ou o refugiado alemão que vive em profunda agonia por não se conformar com a subida de Hitler ao poder, são alguns dos heróis de causas perdidas que integram este volume de contos "Primeiro os Idiotas".

Para quem já conhece "O Barril Mágico", vai certamente querer conhecer este novo título de Bernard Malamud. Para quem se vai estrear com esta obra, fica a certeza de mais um belíssimo livro sendo garantidamente um dos que figurará entre os melhores livros publicados em 2014.

Excertos:

"- O que é que vamos fazer agora? – sussurrou Angelo, preocupado. – E se chamássemos uma vidente? Ou isso, ou então enterramo-lo.
- É preferível a astrologia – aconselhou Scarpio. – Vou ver a posição dos planetas dele. Se isso não resultar, tentamos a psicologia.
(…)
- Em que dia nasceste, Arturo? – perguntou calmamente, observando a reacção de Fidelman.
Além do dia, Fidelman disse-lhe também a hora e o local em que tinha nascido: Bronx, Nova Iorque.
Consultando as tabelas do Zodíaco, Scarpio desenhou num papel o mapa astral de Fidelman e estudou-o atentamente com o olho com que via bem. Ao fim de alguns minutos, abanou a cabeça e disse:
- Não admira.
- Qual é o problema? – perguntou Fidelman, sentando-se a custo.
- O teu Urano e Vénus estão em má posição.
- O meu Vénus?
- É ele que determina o teu destino. – Estudou melhor o mapa. – Com o ascendente de Touro, Vénus está em sofrimento. É por isso que estás bloqueado.
- Em sofrimento porquê?
- Psiu! – proferiu Scarpio. – Estou a ver o teu Mercúrio.
- Concentra-te em Vénus. Quando é que ela vai melhorar?
Scarpio consultou o mapa, anotou alguns números e símbolos e foi empalidecendo. Pesquisou mais algumas páginas do mapa, depois levantou-se e aproximou-se da janela suja.
- É difícil dizer. Acreditas na psicanálise?
- Mais ou menos.
- Se calhar, é melhor experimentarmos isso. Não te levantes.
(…)
- Tens algumas recordações da tua mãe? – perguntou Scarpio. – Por exemplo, alguma vez a viste nua?
- Ela morreu durante o parto – respondeu Fidelman, à beira das lágrimas. – Fui criado pela minha irmã Bessie.
- Continua, estou a ouvir – disse Scarpio.
- Não consigo. Tenho a cabeça vazia.
(…)
- Pode ser um problema médico. Toma qualquer coisa hoje à noite.
- Já tomei.
- Avida é complicada. De qualquer forma, anota os teus sonhos. Escreve-os assim que sonhares." (pp. 119-120)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 29 de Outubro de 2014

Passatempo "2500 a Bombar"

Tendo já ultrapassado os 2500 seguidores no blogger, "O tempo entre os meus livros" vem com este passatempo festejar e agradecer a vossa presença.
Temos muitos e bons livros para vos oferecer num passatempo muito simples. As editoras e a escritora participantes, agradecem o vosso 



TOMEM ATENÇÃO
Para concorrerem só têm de ser seguidores do blogue e enviarem um email, com o nick do seguidor, para:

otempoentreosmeuslivros@gmail.com , indicando no Assunto "Passatempo 2500 a bombar"

Só é permitido uma participação por pessoa/residência.

O passatempo termina em 12 de Novembro.


Os livros serão sorteados pela ordem em que aparecem aqui:


Presença


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Clube do Autor

  

 

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Planeta


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Quinta Essência

 

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Marcador


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TopSeller


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Alfarroba

  

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e, com uma participação especial da escritora
Cristina Torrão

 

 

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terça-feira, 28 de Outubro de 2014

"Estou Nua E Agora?" de Francisco Salgueiro

Francisco Salgueiro não me é desconhecido. A sua escrita, claro! Li O fim da Inocência I e II e O Anjo que Queria Pecar. Lembro-me bem dos dois primeiros. Isso deverá querer dizer alguma coisa, tanto mais que me esqueço com relativa facilidade das histórias que vou lendo, para pena minha! Talvez por serem histórias verídicas, por abrangerem temas que chocam, por falar de "alguns" filhos nossos.

Este Estou Nua e Agora? li num ápice. Creio que em dois dias. A história prende muito rapidamente, viajamos para os mesmos sítios para onde vai Alex, a personagem principal e passeamos pelos 7 continentes. Isso agradou-me muitíssimo. O livro possui uma vertente que me apaixona, a literatura de viagens. Mas não se retém apenas
aqui...

A vida de Alex é intensa, numa descoberta permanente. De si e do mundo. Descobre o Couchsurfing e enquando não se descobre a ela própria não pára. Num ano percorre países como:Tailandia, Camboja, Zimbabué e Botswana, África do Sul, Marrocos, Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha, Austrália, Brasil e regressa aos Estados Unidos.

Afastando-se de uma vida certa e segura, com emprego garantido depois da sua licenciatura, viaja pelo mundo ficando nos sofás/casas que lhe emprestam através do Couchsurfing. Na sua passagem por Portugal fica em casa do escritor. A comprovar estas experiências estão as inúmeras fotos que o livro traz.

Recomendo esta leitura, sobretudo para quem gosta de ficar a conhecer lugares e costumes diferentes! Um último reparo para a capa: não gostei! Sugere algo diferente, que o interior do livro não possui... Se não tivesse lido outras obras do autor, provavelmente este livro ter-me-ia passado ao lado. Com pena.

Terminado em de 20 de Outubro de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Alex, uma nova-iorquina, vive uma vida perfeita: acabou o curso e tem um emprego garantido. Está prestes a cumprir os sonhos que desenharam para ela. Mas um desgosto de amor leva-a a viajar pelo mundo. Precisa de se conhecer melhor e ultrapassar os seus medos. Da Tailândia ao Brasil, da Austrália a Marrocos, faz Couchsurfing dormindo em colchões, beliches, camas limpas, camas sujas, parques públicos - até em minha casa, em Lisboa. Nudismo, algum sexo, ilhas paradisíacas, jantares românticos, protestos de rua, festivais no deserto, um encontro com Nelson Mandela, mulheres que disparam bolas de ping pong das suas zonas íntimas - tudo isto faz parte desta história real passada nos sete continentes, ao longo de um ano, que representa tudo aquilo que gostaríamos de fazer.
Há pessoas que cometem erros por se acomodarem e outras que cometem erros por tentarem. A Alex preferiu errar tentando. E vocês?

segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

"O Grande Rebanho" de Jean Giono

A capa deste livro atraiu-me. Se é sobre as "Guerras", quer se trate da Primeira ou da Segunda vou gostar, pensei! Gostei, é certo. Não foi, porém, uma paixão à primeira vista, ou melhor, às primeiras páginas.

A leitura surgiu-me em flashes, localizados em dois espaços diferentes, unidos pelo mesmo ambiente, a guerra: de um lado, uma aldeia que se vê despida de homens novos onde restam apenas os velhos, as mulheres e as crianças e, no outro, as trincheiras com todos os gritos, os medos, o horror!

Depois começa-se a distinguir a história de alguns personagens, a forma como as suas vidas estão ligadas e de que maneira a guerra veio cortar os seus sonhos e os seus planos. Saber que o autor esteve presente nesse horror que foi a Primeira Guerra, torna as cenas ainda mais verdadeiras e algumas vezes aparentemente surreais, tal é o realismo apresentado.

Não me apaixonei à primeira, é certo, mas a meio do livro estava rendida! Recomendo!

Para mais informações sobre o livro veja Editorial Presença aqui!

Terminado em 18 de Outubro de 2014

Estrelas: 4*

Sinopse

No ano em que se assinala o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, a Presença publica aquele que é um dos grandes romances europeus sobre o tema e um clássico da literatura do século XX, O Grande Rebanho.
O autor, tendo ele próprio participado no conflito, denuncia os horrores e o absurdo da guerra, descrevendo-os com um realismo chocante em algumas das cenas bélicas mais cruas alguma vez recriadas em termos literários. Temos a perceção da vulnerabilidade da vida humana diante da violência numa visão que é profundamente humanista e que contrapõe sempre a essa violência uma forte presença da natureza e do ser humano.

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Novidade Vogais


Convite Casa das Letras


Novidades Planeta

Ethel - Amanhã em Lisboa
de Cesário Borga 
Uma história de paixão, amor e vingança, com uma heroína poderosa: uma mulher que se reinventa e enfrenta o perigo para vir ajustar contas com o  passado. 
Um retrato da Lisboa dos primeiros anos da década de 1940, um ninho de espiões e de cruzamentos de interesses dos poderosos do regime ditatorial. 
Uma leitura de grande rigor histórico, que muitos leitores reconhecerão. 
Em plena guerra, uma jovem foge de Lisboa em 1941, a bordo de um navio que não chegará ao destino, afundado por submarinos alemães. 
Vinte anos depois, em 1961, uma bela mulher chega a Lisboa em 1961, decidida a acertar contas com o seu passado e com a perda irreparável de um amor. 
No tempo marcado por esta fuga e esta chegada, Ethel, Amanhã em Lisboa é uma história de amor entre uma judia e um traficante de volfrâmio que começa em Canfranc, a famosa estação ferroviária nos Pirenéus, posto de fronteira franco-espanhola, controlado pelos alemães durante a II Guerra Mundial, mas por onde refugiados judeus, espiões, intelectuais, artistas e escritores banidos tentam, apesar de tudo, a fuga para território livre. 
Tomar o comboio para Lisboa é visto por Ethel, 18 anos, holandesa, judia de ascendência portuguesa em fuga desde Paris, como um perigoso e arriscado passo para um amanhã cintilante de liberdade e para uma existência feliz ao lado da paixão de uma vida: Edgar. 
Mas em Lisboa, os alemães e os negociantes de volfrâmio adstritos às forças do regime fazem-nos regressar à condição de fugitivos.


Confissões de Maria Antonieta
de Juliet Grey 
Versalhes, 1789. 
A rebelião crescente chega às portas do palácio, e Maria Antonieta vê a sua vida privilegiada e pacífica rapidamente substituída pela violência. 
Uma vez que seus leais súbditos, o povo de França, procuram derrubar a coroa, colocando os herdeiros da dinastia Bourbon em perigo mortal. 
Levados para o Palácio das Tulherias, em Paris, a família real é posta no coração da Revolução. Apesar de alguns aliados fiéis, são cercados por espiões astutos e inimigos ferozes. 
No entanto, apesar das ameaças políticas e pessoais contra si, Maria Antonieta permanece, acima de tudo, uma esposa dedicada e mãe, ao lado do marido, Luís XVI, e ao tentar proteger os filhos. E, embora a rainha secretamente tente organizar o resgate da família das garras dos revolucionários, acaba por descobrir que não podem fugir nem dos perigos que os cercam, nem escapar de seu destino chocante.


Novidade Presença

O Pior Dia da Minha Vida
de Alice Kiupers
Tudo o que Sophie mais deseja é esquecer o que aconteceu... Mas as marcas que aquele dia fatídico deixou são demasiado profundas e, perdida nas suas memórias, a jovem refugia-se dentro de si mesma, num isolamento crescente, à medida que a sua relação com o mundo e com os que a rodeiam se vai deteriorando. As recordações de Emily, a irmã três anos mais velha e sua confidente, vão-se impondo, quase obsessivas, e Sophie terá de ser capaz de enfrentar a tragédia ocorrida no seu passado e de se libertar da culpa que sente se quiser recuperar o equilíbrio da sua vida. Uma obra inspiradora sobre as consequências trágicas dos atos terroristas, sobre o estado disfuncional em que um grande sofrimento nos pode mergulhar e, acima de tudo, sobre a capacidade de nos perdoarmos e reconstruirmos o nosso futuro.
Para mais informações, consulte o site da Editorial Presença aqui!

Novidade Booksmile


Novidade TopSeller


Novidades Marcador

A Seleção
de Kiera Cass
Para trinta e cinco raparigas a seleção é a oportunidade de uma vida. É a possibilidade de escaparem de um destino que lhes está traçado desde o  nascimento, de se perderem num  mundo de vestidos cintilantes e joias de valor inestimável, de viverem num palácio e competirem pelo coração do belo Príncipe Maxon.
No entanto, para America Singer, ser selecionada é um pesadelo. Terá de virar as costas ao seu amor secreto por Aspen, que pertence a uma casta abaixo da sua, deixar a sua família para entrar numa competição feroz por uma coroa que não deseja, e viver num palácio constantemente ameaçado pelos ataques violentos dos rebeldes.
Mas é então que America conhece o Príncipe Maxon. Pouco a pouco, começa a questionar todos os planos que definiu para si mesma e percebe que a vida com que sempre sonhou pode não ter comparação com o futuro que nunca imaginou.

A Bíblia
A História de Deus e de todos nós
de Roma Downey e Mark Burnett
Habituámo-nos, desde a infância, a ouvir as histórias da Bíblia. Mesmo que nunca tenhamos parado para ler o livro sagrado, a saga de homens como Noé, Sansão, Moisés e Jesus sempre povoou o nosso imaginário. 
São relatos incríveis, repletos de guerras, traições, dramas e romance.
Eletrizante como um livro de suspense, comovente como o mais belo romance, este livro vai conquistar até mesmo aqueles que nunca imaginaram entusiasmar-se com as histórias da Bíblia.
Com uma narrativa ágil e emocionante, «A Bíblia» levará o leitor a olhar para o livro sagrado com outros olhos – não apenas como o relato da criação da humanidade, mas como uma história que não vai conseguir parar de ler.


Mãos à obra
de Constança Cabral

Percorrendo a sazonalidade das estações do ano, utilizando os produtos da época e aproveitando a beleza das várias fases da vida, Constança Cabral aborda vários assuntos domésticos, da costura à culinária, passando pela jardinagem e a decoração.

ESTE LIVRO É SOBRE CRIATIVIDADE, GRATIFICAÇÃO E INDEPENDÊNCIA. SOBRE SABERES ANTIGOS ADAPTADOS À VIDA PRESENTE. SOBRE DESCOBERTA E IMAGINAÇÃO. ESTE LIVRO É SOBRE COISAS FEITAS À MÃO.

Mas a autora não pretende que as leitoras se tornem «meninas prendadas», floristas ou cozinheiras profissionais! Apenas que apreciem as coisas simples da vida, entrando em contacto com a natureza, experimentando coisas novas, sem ter medo de falhar,

Novidade Sextante Editora

Educação europeia
de Romain Gary
Educação europeia narra a história de um jovem adolescente lituano polaco de 14 anos, Janek Twardowski, que vive refugiado na floresta e se junta a um grupo partisan para sobreviver e lutar contra a ocupação nazi.
Neste conto moral, cruel e otimista, Janek conhecerá o frio, a fome, a traição e a morte, mas também o amor, junto da sua jovem amiga Zosia. Como diz o chefe partisan Dobranski, «a Europa teve sempre as melhores e mais belas universidades (…), elas foram o berço da civilização (…), mas há também uma outra educação europeia, a que recebemos hoje: os pelotões de execução, a escravatura, a tortura, a violação – a destruição de tudo o que torna a vida bela. É a hora das trevas». Com os seus camaradas de infortúnio, a sua simplicidade e generosidade, Janek aprenderá o valor da amizade e a crença no Homem.

quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

A Escolha do Jorge: Trans Iberic Love

Raquel Freire apresenta-nos um Trans Iberic Love repleto de energia, amor e ideais face a uma revolução iminente que tem como objetivo redefinir a visão de a sociedade encarar o homem/mulher para lá da sua redução binária de géneros centralizando a sua atenção naquilo que é a essência de cada um enquanto pessoa dotada de liberdade para ser feliz na sua relação com quem quer que se sinta feliz.
Trans Iberic Love conta-nos a viagem alucinante de duas pessoas que se conhecem e que vivem à margem dos conceitos estabelecidos como regras de relacionamento afetivo. Maria é portuguesa e nunca aceitou as regras normativas daquilo que habitualmente se designa como mulher. Com o coração cheio de amor para dar, Maria não sente quaisquer pruridos nem confusões quando conhece o espanhol José que nasceu Eva e que desde tenra idade sempre se sentiu homem, muito embora nunca tenha sentido necessidade em mudar de sexo.
Aquilo que para a grande maioria das pessoas poderia constituir um problema de relacionamento físico e emocional, para Maria e José passou a funcionar como uma relação em pleno sem que se verificassem quaisquer obstáculos na medida em que se sentiam protegidos pelo amor que os unia.
É neste cenário que Maria defende as novas tendências do feminismo e da pansexualidade ao passo que José defende a criação de uma identidade trans sem que tenha de obedecer estritamente aos conceitos de homem e de mulher.
Trans Iberic Love parte do amor entre as pessoas como fonte de criação de uma sociedade mais justa para lá dos aguilhões do capitalismo financeiro que transformou os indivíduos em escravos de um sistema cruel e maquiavélico. Trans Iberic Love promove as pessoas a cidadãos de pleno direito repletos de dignidade e liberdade.
Com Trans Iberic Love, Raquel Freire abana as consciências, choca os falsos moralistas, reposicionando de igual modo a política ao serviço dos cidadãos numa escala universal em que cada um tem a plena consciência dos seus direitos e deveres contribuindo para uma sociedade mais perfeita em que os mais desprotegidos não são esquecidos, relegando-os ao seu devido lugar na sociedade.
Trans Iberic Love é pois um romance inspirador e verdadeiramente revolucionário na medida em que está repleto de muitas ideias que ficarão certamente a martelar nas nossas consciências atendendo a preconceitos que nos moldam ao longo de toda a vida.
Trans Iberic Love é um romance que apenas poderia ter sido escrito por uma mulher que nos dirige a consciência no sentido do amor e da tolerância tal como a personagem Maria que se apaixona por José (nascido Eva) e que não descarta a possibilidade de vir a engravidar estando, pois dotado dos órgãos sexuais femininos e assim, Maria e Eva poderão cumprir a sua missão na concretização do amor para lá dos géneros.
Trans Iberic Love será adaptado ao grande ecrã, mas enquanto isso não acontece, é sem dúvida um livro a descobrir!

Excertos:

"É necessário mudar as leis de registo civil, retirar as menções de sexo e identidade de género dos documentos oficiais porque na prática causam mais discriminações. Ser catalogado de homem ou ser mulher serve para aumentar as discriminações e para que persistam os jogos de poder, as hierarquias. Nós somos pessoas, temos muitas mais características iguais do que diferentes." (p. 60)

"Sozinho não vou a lado nenhum. A revolução faz-se com xs outrxs. «A união faz a força.» As mudanças começam por baixo. Pelas pessoas. Pelo mexilhão. Por quem é discriminado todos os dias. Por quem é excluído da sociedade, porque tem uma diferença qualquer. Que o sistema vê como um defeito. Como eu. Porque tem uma cor de pele diferente. Porque nasceu num continente pobre. Emigrou. Nasceu biologicamente do «sexo mais fraco». Tem comportamentos que não são socialmente aceites pelo poder religioso. Tem uma orientação sexual minoritária. Não ouve. Não obedece. Não tem um corpo anatomicamente igual aos outros. Pertence a uma tribo em extinção. Tem outro credo. É pobre.
(…)
A cooperação entre os estados e as grandes corporações para manter o capitalismo a funcionar tem que ser derrotada pela união e cooperação de todas as pessoas exploradas e oprimidas do mundo. A mudança não vem de cima. É organizada de baixo. Nesta guerra somos todxs soldadxs.
As mais belas flores nascem do lixo." (pp. 66-67)
"Que médicx vai salvar estas crianças do desespero? Da frustração de viverem em ficções identitárias que lhes são vendidas o tempo todo em todas as publicidades e propagandas em todos os ecrãs? Que médicx vai salvá-las desta queda atroz no vazio? De serem as cobaias da globalização do consumismo do ‘american dream’? Da castração e do suicídio quotidiano que lhes está destinado? (p. 181)
"Todos estes conceitos binários não me ofendem quando são ditos assim com este sorriso e esta inocência. Eu estou para lá da feminilidade e da masculinidade. A sexualidade e a identidade são espaços plásticos, não são espaços naturais. São tudo construções sociais e políticas. São conceitos que foram inventados pela medicina no final do século XIX: criaram o conceito de heterossexualidade para normalizá-lo e o de homossexualidade para patologizá-lo. O capitalismo criou-os para regular o sexo e a reprodução, os comportamentos sociais. Eu dou aulas disto na Universidade, chamam-lhe: Estudos Queer." (pp. 273-274)
"Os governos deixaram de nos representar há muito, muito tempo. Por isso precarizaram as nossas vidas, o acesso ao trabalho, à habitação, à saúde, à educação. Por isso somos escutadxs pelas polícias. Por isso somos espancadxs nas manifestações. Por isso nos tentam calar sempre que fazemos ouvir a nossa voz, cada vez mais, cada vez mais.
Para onde vai este mundo? Para onde vai esta Europa cada vez mais anti-democrática? Como vamos lutar contra estes criminosos super milionários banqueiros, políticos, que executam cuidadosamente esta ditadura dos mercados?" (pp. 283-284)
Booktrailer de Trans Iberic Love de Raquel Freire:
http://www.youtube.com/watch?v=F8bQ0kVdsm8

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 21 de Outubro de 2014

A Convidada Escolhe: A Obra ao Negro

Era um livro que tinha na minha estante há já muitos anos, mas cuja leitura fui sempre adiando, até que finalmente me decidi, tanto mais que a personalidade da autora me fascinava, desde que há alguns anos havia lido um livro de George Rousseau sobre a sua vida, editado pelas edições ASA, para além de apreciações muito favoráveis de amigos/as sobre a obra de Marguerite Yourcenar.
A elaboração de "A Obra ao Negro" que partiu de um escrito da juventude da autora, como ela própria explica numa nota no final do livro, foi sujeita a um longo período de maturação, com pausas prolongadas, até que finalmente a autora pegou nas páginas iniciais do seu escrito de 1925 e fez uma obra marcante, publicada em 1968, a qual é considerada uma obra-prima do romance contemporâneo.

A autora criou uma personagem fictícia – Zenão – e com ele construiu um romance histórico que decorre durante o século XVI, ou seja, entre o fim da Idade Média e o início do Renascimento, um período de grandes convulsões e transformações que decorrem da reforma protestante e das suas consequências. Na primeira parte da obra – A Vida Errante – Zenão é um jovem de 20 anos natural de Bruges, onde nasceu e estudou para a vida eclesiástica, mas de onde parte, movido pela vontade de conhecer novos mundos, mas também de se conhecer e superar "A questão, para mim, é ser mais do que um homem." À semelhança de muitos homens da Renascença, Zenão percorreu o mundo, pôde conhecer outras realidades, aprofundou conhecimentos e alargou os seus campos de interesse e com eles as suas inquietações e sede de saber. Zenão tem várias profissões e afasta-se do clericato que lhe teria proporcionado uma vida segura: é alquimista, filósofo e médico. Escolhe o caminho mais difícil, o caminho da descoberta, da experimentação, do risco. Aqueles eram tempos negros dominados pelo terror da peste negra e também pela arbitrariedade dos detentores do poder – a Igreja e o poder temporal – em que a justiça era exercida pelo Santo Ofício em autos de fé, execuções sumárias, enforcamentos, fogueiras! Era o tempo em que todo o descontente era rotulado de protestante. O Concílio de Trento ditava as normas da contra-reforma, "O que não é como eles, é contra eles." considerava Zenão amargamente, ou "Os ventos eram cada vez menos favoráveis à liberdade de opinião".

Apesar de em certa altura Zenão ter regressado à sua terra – A Vida Imóvel – escondendo-se sob um nome falso e exercendo a profissão de médico num hospício, ajudando e curando os mais desfavorecidos, a verdade é que essa clandestinidade foi descoberta e Zenão foi considerado culpado de vários crimes pelos seus escritos, as suas viagens, as suas amizades e companhias: espião, infiel, apóstata, ligado a práticas de magia e sodomia! Num processo cheio de falsidades e contradições, o importante para o Santo Ofício era culpabilizá-lo mesmo que não houvese provas ou elas se baseassem em falsas acusações.

Mesmo no final – A Prisão – quando lhe é proposto que rejeite todo um percurso de vida feito de escolhas e se retrate das ideias que expôs nos seus livros, de modo a protelar um fim ignominioso na fogueira, Zenão mais uma vez escolhe a forma como decide acabar, recusando ser objecto do espectáculo degradante dado ao povo faminto e oprimido mas dominado pela superstição e hipocrisia instituídas, de o ver ser consumido pelas chamas da Inquisição.

Esta obra, cuja elaboração, como antes referi, se prolongou ao longo de décadas de forma descontínua, reflecte um profundo conhecimento e paixão da autora pelo século XVI e por diversas figuras que marcaram a história dessa época, desde reis e raínhas, pintores, filósofos e pensadores, alguns dos quais considerados heréticos pelos seus escritos e obras e que Marguerite Yourcenar retratou em "A Obra ao Negro" através de Zenão e de outras personagens que interagem com o herói deste grande romance.

Não poderei deixar de referir, para terminar, a cuidada e impecável tradução da 2ª edição a que tive acesso, feita por uma equipa de luxo: António Ramos Rosa, Luísa Neto Jorge e Manuel João Gomes

Almerinda Bento

Resultado do passatempo: O Grande Rebanho

E como sei que estão na expectativa para saberem qual foi o resultado e quem foi o vencedor deste passatempo, aqui vai...
Dos 327 participantes/seguidores o Sr. Random escolheu o n* 207 que correspondeu a:

- Daniela Marques Pereira de Esmoriz

Os meus parabéns! Espero que gostes desta leitura. A editora enviar-te-á o livro muito em breve!
Para mais informações sobre o livro ver Editorial Presença aqui...

segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

"Haatchi e Litle B" de Wendy Holden

Há livros que leio e fico com uma grande dose de respeito pelas pessoas que neles venho a conhecer. Algumas pessoas conseguem, pela força e coragem demonstradas, construir uma rede de simpatia e admiração infindável. Há quem não goste de ler este tipo de livros. Eu gosto. Porque são inspiradores. Porque com a força que demostram fazem-nos sentir insignificantes mas também cheios de fé no ser humano.

Owen é um menino especial, que nasceu com Síndrome de Schwartz-Jampel, uma doença rara que lhe afeta os musculos provocando-lhe dores e impedindo o seu crescimento normal. Haatchi, é um cão que foi abandonado numa linha de caminho de ferro e que ficou sem uma pata. O amor que os une fez com que Owen, ou Litle B, como é carinhosamente conhecido, ultrapassasse os seus medos e inseguranças por ser diferente. As atenções a que sempre era alvo por ser "diferente" passaram a ser dirigidas a Haatchi, à sua história. Owen passou a comunicar sem medos.

Sem ser de uma forma lamechas, esta obra conta-nos quais as dificuldades por que ambos passaram e quão grande o amor pode ser e transformar quem ama. Haatchi marcou não só a vida do pequeno Litle B mas também a de muitas outras pessoas já que foi treinado como cão de terapia.

Uma lição de vida. Um livro que adorei ler.

Terminado em 13 de Outubro de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Numa noite gelada em janeiro de 2012, Haatchi, o cão, foi atingido na cabeça e abandonado numa linha de caminho de ferro para ser atropelado por um comboio. O maquinista viu demasiado tarde o adorável pastor-da-anatólia de cinco meses. De alguma forma, o aterrorizado cachorrinho sobreviveu à perda de sangue da pata e cauda parcialmente cortadas e conseguiu rastejar para um lugar seguro.
Felizmente, Haatchi foi resgatado, embora os veterinários não tenham conseguido salvar-lhe a pata e cauda. Um apelo no Facebook chamou a atenção de um casal de bom coração, Colleen Drummond e Will Howkins, que também são o pai e a madrasta de Owen (conhecido na família como Little B, ou seja Little Buddy, «amiguinho»). Um olhar para o focinho expressivo de Haatchi disse-lhes tudo o que precisavam de saber e o sortudo cão mudou-se para casa da família Howkins apenas seis semanas depois de quase ser morto. Owen, agora com oito anos, tem uma doença genética rara que faz com que os seus músculos estejam permanentemente tensos. Em grande parte confinado a uma cadeira de rodas, era um menino reservado e ansioso com dificuldade em fazer amigos. Mas quando Owen acordou na manhã depois de Haatchi chegar, apaixonou-se imediatamente pelo cão mutilado que, por sua vez, acabou por salvá-lo.

sábado, 18 de Outubro de 2014

Na minha caixa de correio


 
  

  



Os Bolos Na Caneca foi aferta da Editorial Presença! Em breve vou experimentar alguns... Não se esqueçam do passatempo que ainda está a decorrer!
Estou Nua E Agora? É emprestado do Segredo dos Livros.
Todos o s outros vieram dos passatempos do JN.



sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Novidade Casa das Letras

Ideias com Amor e Lima
de Maria de Melo Santos
Com quatro ingredientes essenciais, Amor, Confiança, Inspiração e Motivação, apresentamos 89 ideias para fazer você mesma.
Ideias com Amor e Lima desperta o lado mais curioso de cada um de nós e ensina como tornar pequenas ideias em magníficos projetos, através materiais e técnicas simples. Projetos para nós, para os que nos rodeiam, para a casa, como forma de distribuir carinho e viver mais intensamente o dia a dia.
Aprenda a fazer presentes diferentes e especiais, a decorar a sua casa reutilizando materiais ou objetos antigos, a criar os seus próprios eventos sem ter de recorrer a mais ninguém. E delicie-se ainda com receitas inspiradoras e decorações florais de sonho.
Um livro apaixonado que a vai deixar viciada e adepta de trabalhos manuais.

Convite Presença


quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

A Escolha do Jorge: A Tristeza dos Anjos

Depois da publicação do aclamado "Paraíso e Inferno" do islandês Jón Kalman Stefánsson em 2013, eis que a Cavalo de Ferro Editores surpreende os seus leitores com a edição do segundo título da trilogia intitulado "A Tristeza dos Anjos" publicado recentemente.
No volume "Paraíso e Inferno", o rapaz (de quem continuamos sem saber o nome) teve como missão devolver um livro emprestado ao capitão cego Kolbein após o falecimento do seu amigo Barður. Para cumprir tal façanha foi preciso percorrer uma parte considerável da Islândia até chegar ao seu destino.
Sendo órfão, o rapaz foi acolhido e acarinhado por estranhos que não tendo qualquer ligação entre si, tinham a solidão em comum acabando por se unir como se de uma família se tratasse na verdadeira aceção da palavra.
O segundo volume da trilogia "A Tristeza dos Anjos" inicia pouco tempo depois da chegada do rapaz a este núcleo familiar surgindo rapidamente uma nova missão que tem tanto de desafiante como de perigosa que é acompanhar o carteiro Jens numa das suas três a quatro viagens anuais rumo ao norte da Islândia com o objetivo de distribuir a correspondência aos seus habitantes.
Esta viagem assumirá um papel importante da vida do rapaz acabando por funcionar como uma espécie de ritual de passagem da adolescência para a vida adulta atendendo à sua forte ligação ao mundo da literatura e da poesia impedindo-o de certa forma de encarar o mundo com objetividade e realismo.
A viagem longa pelo país-ilha é realizada em pleno inverno, estação do ano que tantas vezes é identificada como o inferno branco naquele que é considerado o fim do mundo atendendo ao vazio humano existente ao longo de muitos quilómetros sem que se aviste vivalma.
A viagem que tem várias paragens para descanso e entrega da correspondência é também um momento de grande alegria para os habitantes perdidos no meio da ilha sem verem qualquer vizinho de aldeias circundantes durante os meses da estação branca. Estas visitas ajudam a quebrar o isolamento, a solidão e a tristeza durante o inverno, além de servir como uma forma de saber as novidades do sul e das localidades circundantes.
Estas visitas que enchem a alma tanto dos viajantes como dos residentes convergem, regra geral, para a importância dos livros na vida das pessoas como forma de aprendizagem, forma de quebrar o isolamento e redenção face ao vazio imenso pelo qual são esmagados durante o longo inverno interrompido somente pelo breve e idílico verão.
A longa jornada do rapaz e de Jens parece ser engolida pela própria natureza que em diversos momentos oferece inúmeros perigos, confundindo-se com a própria vida havendo comunicação permanente entre vivos e mortos através de um véu muito ténue. A dureza extrema do inverno arrasta os humanos para esse limiar entre vivos e mortos na medida em que aqueles que já partiram ora servem de protecção aos vivos, ora tentam a todo o custo arrastá-los para o mundo solitário e eterno conquistado pela morte. São vários os momentos em que é necessário o rapaz e Jens fazer um esforço quase sobre-humano para continuarem vivos, afastando para tal a força e o domínio da morte.
Nesta viagem dura e complexa para o qual o leitor também é arrastado, somos levados a questionar o sentido da vida, bem como a eterna questão desde o início da humanidade relativamente ao nosso destino depois da morte incluindo os bons momentos por que passámos em vida.
Entre perigos vários, vivos e mortos, livros e muitas histórias com bebida à mistura, Jón Kalman Stefánsson volta a conquistar-nos com uma escrita limpa graças à sua simplicidade levantando questões com que também nós nos defrontamos ao longo da vida.
Ficamos assim a aguardar o terceiro volume da trilogia.

Excertos:

"As mulheres aqui no fim do mundo sabem como acordar o fogo do sono e fazem-no todas as manhãs há muitas centenas de anos. Lá fora, no mundo, grandes homens contemplaram o homem e o universo, descobriram planetas; foram criados versos; imperadores, reis e generais destruíram a vida à sua volta. Assim subiu e desceu a história pelo mundo fora, os anos juntam-se em séculos e, durante todo o tempo, as mulheres aqui no fim do mundo acordaram diante de Deus e dos homens para se ajoelharem à lareira e soprarem para os pedaços de feno a que tinham confiado o fogo na noite anterior. Pode demorar até uma hora a despertar o fogo de manhã; sopram até começarem a suar, sopram mas não desistem; o que é a vida sem fogo e rodeada de gelo? Sopram e cansam-se; os seus olhos brilham quando o fumo finalmente surge, ou ficam molhados quando este lhes cai sobre os rostos ao mesmo tempo. O fumo fá-las chorar. É bom chorar aqui. As crianças morrem, os sonhos morrem, o brilho desvanece e desaparece e aqueles que não choram transformam-se em pedra. Elas sopram nas fagulhas e choram porque conseguimos acordar da morte o fogo, mas não as pessoas."(pp. 124-125)

"Os mortos não deambulam pelas montanhas, nem sob o Sol de verão nem no inverno impiedoso, embora, é evidente, devesse ser agora primavera, exceptuando que aqui na Islândia nunca há primavera, para falar a verdade; não conhecemos esse prazer, é inverno e depois chega o verão relutante; não há nada no meio. Os mortos não vão a lado nenhum, simplesmente jazem parados no chão, a sua carne apodrece, os seus ossos transformam-se em pó e terra, e com o passar do tempo tornam-se fertilizante para a vegetação que absorve a luz do Sol e a chuva e anima a existência. Assim, tudo tem o seu objetivo, ou tentamos, por vezes, convencer-nos disso." (p, 218)

"Para onde foram todos os bons momentos que eles viveram; transforma-se em nada na morte? (…) O mar está cheio de vidas afogadas, mas as pessoas só apanham peixe, nunca vidas mortas; o rapaz grita porque não podemos remar para o mar da morte e ir buscar aqueles de que sentimos falta, remexendo-nos à noite numa agonia silenciosa, o que podemos fazer para ir buscar aqueles que partiram demasiado cedo?; a vida não tem qualquer capacidade e não há palavras que possam quebrar as leis, não há frases com poder suficiente para ultrapassar o impossível? (p. 271)
Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

"Não Digas Nada" de Mary Kubica

Que leitura empolgante esta! Aparentemente sabemos com o que lidamos.

Por um lado, a trama decorre com momentos de um passado não muito longínquo: Mia, filha de um juíz demasiado duro e de uma mãe submissa e pouco presente, é raptada. É o "Antes". Sentimos o seu medo ao conviver com o raptor, a sua insegurança. O desespero de sua mãe. A quase indiferença do pai. As buscas dirigidas pelo inspector Gabe.

Por outro, a autora intercala o "Depois" do rapto quando Mia já se encontra em segurança, em casa. O trauma sofrido impede-a de recordar o que lhe aconteceu, a sua mente afastou algo que a incomoda e que desconhecemos por completo. Síndrome de Estocolmo, já ouviram falar?

Varios narradores relatam-nos os acontecimentos e, sobretudo, os seus sentimentos. Mia, claro! Mas também Colin, o seu raptor, Eve, sua mãe e o Inspector Gabe. Com todos, por razões diferentes, criamos uma certa empatia. Vamos balançando os nossos sentimentos entre a repulsa e a quase empatia com o raptor. Sentimentos contraditórios, eu sei, mas que imprimem um ritmo de leitura voraz.

O mistério mantém-se sempre durante todo o livro. Mesmo quando julgamos estar na posse de todos os elementos. E digo "julgamos" porque o final sofre uma reviravolta surpreendente. Afinal, não é isso que se pretende de um bom thriller? Recomendo esta leitura, sobretudo se querem ficar presos às páginas de um livro!

Terminado em 11 de Outubro de 2014

Estrelas: 5*

Sinopse

Um thriller psicológico intenso e de leitura compulsiva, Não Digas Nada revela como, mesmo numa família perfeita, nada é o que parece.
Tenho andado a segui-la nos últimos dias. Sei onde faz as compras de supermercado, a que lavandaria vai, onde trabalha. Nunca falei com ela. Não lhe reconheceria o tom de voz. Não sei a cor dos olhos dela ou como eles ficam quando está assustada. Mas vou saber.
Filha de um juiz de sucesso e de uma figura do jet set reprimida, Mia Dennett sempre lutou contra a vida privilegiada dos pais, e tem um trabalho simples como professora de artes visuais numa escola secundária.
Certa noite, Mia decide, inadvertidamente, sair com um estranho que acabou de conhecer num bar. À primeira vista, Colin Thatcher parece ser um homem modesto e inofensivo. Mas acompanhá-lo acabará por se tornar o pior erro da vida de Mia.