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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A convidada escolhe: O Homem Ausente

Em resposta à pergunta que coloquei a mim mesma, sobre porque sigo esta saga, concluí que...

Gosto de reencontrar Sebastian Bergman, bem como a Brigada de Homicidios sueca, conhecida como Riskmord. Gosto de seguir a linha de racíocionio de cada um das personagens condicionadas pelas suas fragilidades, em que paralelamente ao decorrer da investigação corre a vida dos investigadores. Gosto da estrutura narrativa em que cada capítulo dá protagnismo a uma das várias personagens e me deixa em suspense. E quando termina, fica sempre a faltar o próximo para continuar a acompanhar aquelas personagens complexas e bem desenvolvidas, particularmente Sebastian Bergman num novo papel de pai não assumido, que procura um modo de se tornar relevante na vida da filha.

Neste, Sebastian não me pareceu ter tanto protagonismo como nos anteriores. A sua personalidade, o seu passado  e a sua participação como psicólogo criminal ficaram em segundo plano, para sobressair um crime com seis vitimas nove anos antes e o desaparecimento de dois afegãos no mesmo período, que parece relacionado sem se perceber como. As suas ligações com o sexo feminino que manipula e seduz não agradam mas a sua necessidade de afeto quase que o desculpabilizam, até desprezar Ellinor Bergkvist.

Em suma, continua a ser uma saga a seguir (mal posso esperar pelo próximo com o desfecho em que ficou), numa leitura assaz interessante e atual. As intrigas internacionais e a xenofobia com os muçulmanos que integram as sociedades ocidentais desde o 11 de setembro foi a mensagem subliminar neste livro que importa repensar.

Vera Sopa

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Resultado do passatempo Presença "A Imperatriz da Lua Brilhante"

Embora, ligeiramente atrasado aqui vai o resultado do passatempo Presença.
Dos 278 participantes foi selecionado o número 145 que pertence a:

Jorge Manuel Sá Martins

Muitos parabéns! Espero que aprecies tanto ou mais do que eu esta leitura!

Para mais informações sobre este livro, clique aqui.

Cris

Resultado do Passatempo Marcador Dia dos Namorados


Com a simpática colaboraçāo da Editora Marcador, sorteámos o livro "Amor em Minúsculas".
E a quadra, simples e bonita, que cativou a minha atençāo foi a de Maria José Quintas de Esmoriz:

O teu amor em minúsculas
Enche o meu coração de alegria
Sem pontos, reticências ou vírgulas
Pontuas de certezas cada dia!

Muitos parabéns! Espero que gostes desta leitura, Maria José!

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Ao Domingo com... Perpétua Aço

... a propósito da obra Fez no Sábado Quinta-feira

Nasci em Benavila, concelho de Avis, junto à albufeira da Barragem do Maranhão. Foi aí, no coração do Alto Alentejo, que cresci e estudei até ao 12.º ano de escolaridade, tendo terminado o ensino secundário no Liceu de Portalegre. Em 1981 ingressei na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, cidade para onde então migrei e onde continuo a trabalhar e a viver até hoje, sem nunca ter descurado a sua paixão pelo Alentejo. Costumo dizer que sou um pássaro que voou para a cidade. Não me esqueço, porém, que foram as minhas raízes – a minha família, a minha terra e a boa gente de lá - que me forneceram o alimento necessário para que as asas me crescessem.

Sempre gostei de escrever. Em pequena já eu rabiscava coisas em papéis, blocos, cadernos, agendas, mesas, paredes, enfim, em tudo o que apanhava, até a parte de baixo da mesa de corte do meu pai eu risquei toda com giz de alfaiate. Amante das letras e da leitura, sobretudo de autores portugueses, ao longo da vida fui aguçando o gosto de escrever sobre o que via, o que sentia ou mesmo o que inventava. Em verso ou em prosa, conforme a maré ou o estado de alma, mantive secreto durante muitos anos o sonho de um dia me tornar escritora.

Curiosamente, a minha vida profissional resume-se a escrever: contratos, atas, pareceres. E nos meus tempos livres, para não variar, escrevo. Em verso ou em prosa, crónicas, contos, o que a inspiração dita e a caneta ou o teclado materializam. Continuo a escrever em tudo o que apanho tal como quando era miúda. Felizmente, a evolução tecnológica permite deixar a salvo mesas e paredes, pois há sempre à mão um computador, um tablet ou um smartphone, e é aí que vou armazenando os escritos, uma pequena parte dos quais vou divulgando nas redes sociais, até para que não se percam se todos os aparelhos se avariarem.

Nem sempre fui muito organizada com os meus escritos (hoje em dia com os computadores torna-se um pouco mais fácil), mas em 2014, com o incentivo de alguns amigos, consegui recuperar e arrumar alguns poemas numa coletânea que publiquei em 2015, a Primavera Prometida. A Primavera Prometida é uma obra mais ou menos autobiográfica para toda a gente que sente e que passa, como eu passei, pelas diversas estações da vida entre amores e desamores, paixões e desilusões, fantasias escangalhadas e esperanças renovadas.

Logo depois do lançamento da Primavera Prometida, e porque não escrevo só sobre coisas tristes e sérias e dramáticas, e porque acho que o melhor sentido da vida é mesmo o sentido de humor que há em tudo e em todos, comecei nos meus tempos livres a organizar uma nova coletânea, com poemas mais leves, que brincam com as pequenas comédias que há em nós e no nosso dia-a-dia. Foi assim que surgiu e foi ganhando forma a ideia do Fez no Sábado Quinta-Feira, cujo lançamento acabou por ocorrer em 26 de novembro de 2016 na minha aldeia. Os poemas que dele constam foram selecionados de entre as centenas de quadras mais ou menos satíricas que escrevi recentemente, quase todas de 2012 para cá, algumas mais publicáveis que outras, com o relato de viagens, passeios, jantares e aventuras com vários grupos de amigos. Por isso é que em quase todos, qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. Há uma ou outra história fictícia, que recontei em verso, mas a grande maioria dos poemas foram inspirados em situações, muitas vezes anedóticas é certo, mas reais. Foi verdade, por exemplo, que comprei dois perus enormes no Natal de 2015 e que à conta disso um deles esteve quase para servir de borrego na Páscoa, tal foi a quantidade de carne com que forneci o frigorífico lá de casa; foi também verdade que corri Lisboa inteira à procura de meias brancas para o meu filho João usar no primeiro estágio de enfermagem e que só encontrava meias com raquetes de ténis; foi verdade que certo serão de férias no Algarve, a meio de um jantar exótico com amigos de Bigas, terra também muito profícua em nomes engraçados e a que os locais chamam de «Las Bigas» (freguesia de Lordosa – Viseu) se nos juntou, vindo do nada e saltando o muro da varanda, um criador de bacorinhos e encantador de galinhas, o Luix dos Leitões, que nos contou histórias fantásticas, tais como o transporte de ovelhas num Seat Ibiza; tal como foi verdade que em Santa Maria - Cabo Verde, quando um amigo meu pediu a conta de umas cervejas num bar local a avantajada empregada, vestida de cor-de-rosa e já com uns copinhos a mais, lhe perguntou se ele não queria – imaginem! - um dedo no «cu»; tal como são verdadeiros os relatos sobre a partilha dos peixes Ernesto e Zé Maria por um casal divorciado, o nascimento do Pedro Bill em Cabo Verde, a Próstata Minguante de um amigo meu e a Saga dos Primos, entre muitas outras histórias. Destaco também aqui o carinho especial que tenho por certas utilidades que mereceram assento neste livro, tais como napperons, electroválvulas, ‘varomas’ que ‘varomeiam’, balanços que não balanceiam, secadores de cabelo e sistemas de rega caseiros com tubos e pauzinhos ligados à eletricidade.

E o melhor de tudo é que todas as personagens descritas no Capítulo IV correspondem a pessoas reais. É real a existência de um conterrâneo que leva gatos a casa e se autointitula «Pai dos Gatos» e a quem estou muito agradecida pois muitas vezes foi entregar o meu saudoso Lumi a casa dos meus pais. Tal como é verdadeiro o elenco de anexins bem-dispostos e engraçados existentes em Benavila, um património que merece ser preservado e que me inspirou um poema específico bastante exaustivo e que teve um enorme sucesso na minha aldeia. Pois que em termos de alcunhas existe lá de um tudo, tal como refiro numa das quadras: «Dos que matam aos que cagam / Dos tachos às peças de roupa / Até àqueles que balham / Nenhuma figura se poupa».

É também verdade que o meu avô Tonh’Aço via televisão com uns óculos pretos sem lentes, que não dispensava, e que, já lá vão uns aninhos, basicamente «fez no sábado quinta-feira», me contava, a mim e ao meu irmão, histórias e lengalengas non-sense e cheias de humor, com as quais me despertou para estas andanças de fazer paródias com as pequenas coisas do quotidiano.

Rezava assim a lengalenga que ele me dizia e que deu nome a esta obra:

«Fez no sábado quinta-feira 
Para lá d’Elvas três semanas 
Andei dez anos no verão 
Lá nas Américas romanas 
Embarquei em dois calheis 
Na Baía de Lisboa 
Fui dirigido à proa 
Desembarquei em Alenqueres 
Casei com sete mulheres 
Falta-me uma para a primeira 
Passei à Ilha Terceira 
Andei três dias numa hora 
Abalei e vim agora 
Fez no sábado quinta-feira 
Agarrei num alforginho 
Num pau com quatro engatas 
Uma cadela e duas vacas 
Uma borracha com toucinho 
E um cesto cheio de vinho 
Trinta metros de banana 
Dei passos à “amaricana” 
E já estive em Aiamonte 
Abalei hoje e vim “onte” 
Para lá D’Elvas 3 semanas…»

Conforme escreve a minha querida amiga Teresa Pais no Pref’Aço da obra, «As oito (VIII) partes que compõem a obra (I – Anedotas e Situações; II – História e Filosofia das Emoções; III – Locais e Ocasiões; IV – Pessoas e Emoções; V – Santos e Tradições; VI – Sonhos e Alucinações; VII – Utilidades e Funções e VIII – Fez no Sábado Quinta-feira), podem ser lidas aleatoriamente que o leitor continuará fascinado pela sensibilidade, pela agudeza e graça de espírito da Autora “…Sou singular e plural, Sou estas letras que pinto, E Poeta…talvez um dia!”, in Autorretrato.»

Dediquei este livro em primeira mão ao meu Avô Tonh'Aço, que se fosse vivo teria feito 109 anos por ocasião do lançamento desta obra, mas ele também é dedicado a todos os que me inspiraram e que sei que continuarão a inspirar, motivando-me todos os dias a escrever mais e melhor.

Este livro é para que todos se revejam, se divirtam com isso e riam muito porque, como disse Charles Chaplin, «um dia sem rir é um dia desperdiçado!»

Muito obrigada!

Perpétua Maria Coelho Aço (Peta Maria)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Na minha caixa de correio

 

Oferta do Dia dos Namorados, Paraíso e Inferno. Só faltam mais dois para acbar a trilogia...
Nem Tudo Será Esquecido, oferta da Presença. O livro que está nas minhas māos presentemente.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A Rainha Santa de Isabel Machado

Gostei verdadeiramente desta leitura! Isabel Machado soube dar veracidade à narrativa, ao mesclar uma escrita na primeira pessoa - nas mãos da Rainha Isabel, casada com o rei D. Dinis - com uma escrita na terceira pessoa - contada pelo narrador. Esse facto conduz o leitor para o meio da acção sem que disso tenha noção, pois embrenha-se intensamente nos acontecimentos que uma imaginação soberba e um estudo aprofundado souberam dar vida.
Sempre que leio romances históricos não deixo de me espantar com as alianças que se fizeram através de casamentos combinados e, sobretudo, horrorizar com a crueldade com que o destino das crianças, meros peões nesses jogos de poder, era decidido. Afastar uma filha do seio familiar para ser criada em casa do futuro marido, com apenas alguns anos de idade, era habitual e traduzia-se, frequentemente, em dor tanto para as mães como para as filhas. Isto se pensarmos que atravessavam países e que, em muitos casos, não se tornavam a ver, faz-me tremer de horror.
A vida, tantas vezes errante, da gente daquela época não era fácil. O rei, ao mudar de cidade, fazia-se transportar de bagagem que incluia móveis e objectos de todo o estílo. Imaginar essas viagens, tão bem descritas pela autora, é recuar no tempo. Soube bem mas nunca perdi a noção que, felizmente, não pertenci a essa época.
Tempo de guerras e alianças onde o amigo de hoje pode ser o inimigo de amanhã. Jogos de poder onde a morte poderia ser o destino final. Lutas entre irmãos e meio-irmãos para conseguirem a coroa e todo o poder que reinar traria.
Esta foi uma leitura densa sem, no entanto, ser penosa. Pelo contrário. É muito aprasível, cheia de pormenores que queremos reter. Momentos da história que temos prazer em relembrar ou conhecer. A personalidade de Isabel de Aragão, Rainha de Portugal, foi muito bem conseguida, captado que foi o seu profundo sentido religioso, o seu amor pelos mais necessitados e o seu sentido de dever.

Um livro que me deu muito prazer ler. Recomendo!
   
Terminado em 14 de Fevereiro
   
Estrelas: 5*

Sinopse
Em finais do século XIII, Aragão é um reino poderoso e rival de Castela, o gigante que acaba de se unir a Leão. Isabel, a filha mais velha do rei aragonês, exibe desde cedo uma personalidade rara. É bela, inteligente, devota, caridosa - e, por isso, naturalmente cobiçada por várias cortes europeias para uma aliança de casamento. Isabel tem outros sonhos, que não passam por ocupar um trono nem exercer o poder, mas interesses políticos acabam por ditar a sua união com D. Dinis, o brilhante e ambicioso rei de Portugal, no ano de 1282. O jovem soberano português sabe que, para pôr em prática os seus grandes planos de desenvolvimento do reino, deve manter-se afastado das guerras que grassam pela Península Ibérica.

Mas nem a paz perdura, nem Isabel se torna uma jovem submissa e alheada dos problemas políticos e sociais. Pelo contrário. Revela-se firme na defesa dos pobres, dos doentes e dos excluídos, em nome dos quais move montanhas, desafia convenções e se entrega aos maiores sacrifícios. E nos conflitos que vão abalar o reinado de D. Dinis, opondo pais e filhos ou lançando a discórdia entre irmãos, mostra-se corajosa e decidida, capaz de desafiar a autoridade do próprio marido e de influenciar o curso dos acontecimentos com a sua sensibilidade, poder de antevisão e amor à paz. Baseado numa pesquisa exaustiva, eis um romance que revela finalmente, em toda a sua plenitude e complexidade, a rainha de Portugal que sempre foi santa na memória do povo - mas que era, antes de mais, uma mulher invulgar e à frente do seu tempo. «Na vossa mansidão, Senhora, nunca deixou de haver rebeldia...», D. Dinis, rei de Portugal, sobre Isabel de Aragão

Cris

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Passatempo Marcador Dia dos Namorados


Um passatempo para um dia especial!
Envia uma frase original ou uma pequena quadra onde entre o nome do livro que o blogue e a Marcador têm para oferecer, subordinada ao tema AMOR, para o mail:
otempoentreosmeuslivros@gmail.com
Não te esqueças de indicar os teus dados, o teu nome de seguidor do blogue e a tua morada!
O passatempo decorre até dia 18 deste mes.
Pega na imaginação e boa sorte!

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A escolha do Jorge: A Avó e a Neve Russa


“A minha avozinha será sempre a minha avozinha.” (p. 94)

Associamos com mais frequência o nome de João Reis às traduções de obras de autores da Europa do Norte, como Knut Hamsun, Jón Kalman Stefánsson, Alexander Kielland, Erling Jepsen, entre outros, do que como escritor propriamente dito.
Em 2015, foi publicado o seu primeiro livro, a novela “A Noiva do Tradutor”, publicado pela Companhia das Ilhas, em que entramos num registo alucinante, cujas influências de autores como Hamsun, Kafka e até Süskind são notórias. Entramos nessa narrativa e somos bafejados pelo prazer de estarmos perante um livro que nos agarra não somente pela história em si mesma, mas pelos recursos estilísticos que o autor domina com relativa facilidade. “A Noiva do Tradutor” constitui uma das grandes surpresas em matéria de obras publicadas nos últimos anos no que concerne a jovens escritores portugueses, apresentando-se como uma obra que, graças à sua intemporalidade, poderia ser traduzida e publicada noutras latitudes, tendo em consideração a sua qualidade literária.
João Reis regressa neste início de ano com o romance “A Avó e a Neve Russa”, publicado pela Elsinore, apresentando um registo muito diferente da obra anterior sem, contudo, perder a qualidade narrativa e literária, na medida em que as influências do autor continuam a reflectir-se na sua escrita.
“A Avó e a Neve Russa” apresenta-se como uma ode às avós e ao seu amor incondicional na relação com os netos. Quantos de nós não temos as mais ternas recordações das brincadeiras e momentos
carinhosos, cujas recordações constituem das mais doces memórias que guardamos da nossa infância e juventude! Aquele amor incondicional no qual, mesmo na repreensão, o amor está presente!
Contado a partir da experiência de um rapaz de dez anos, “A Avó e a Neve Russa” leva-nos até Montreal, no Canadá, onde ficamos a conhecer a história desta família de emigrantes russos que se cruza com alguns dos momentos cruciais da História contemporânea.
O núcleo familiar é constituído por esta criança, pelo irmão mais velho Andrei e pela avó, a querida Babushka, que está muito doente. A avó sofre ainda as consequências da radiação da explosão da central nuclear de Chernobyl, os “ares atómicos” como lhe chama o herói da narrativa. O avô Anatoli há muito que faleceu, na sequência da excessiva exposição à radiação. A mãe faleceu no decurso de um acidente rodoviário e o pai, esse há muito que abandonou a família.
“É difícil manter a família unida” (p. 132) diz esta criança de dez anos que tudo faz para trazer de volta a saúde da avó, porque tem consciência que, sendo menor, poderá acabar num orfanato ficando separado do seu irmão que não terá condições para o manter consigo.
O humor e a ironia são uma constante nesta obra, constituindo a forma para quebrar um momento mais solene ou a tensão da cena descrita.
“A Avó e a Neve Russa” faz-nos sorrir inúmeras vezes, podendo também levar-nos às lágrimas face a momentos tão enternecedores ao percebermos o amor incondicional desta criança pela sua avó. Apesar de bom aluno e de demonstrar interesse pelas coisas da vida e do mundo que o rodeia, não consegue, porém, vislumbrar o fim da vida da sua Babushka. O amor incondicional sobrepõe-se ao ciclo da vida, mesmo perante a inusitada evidência da aproximação da morte.
Este nosso herói embarca então numa aventura perante a sua determinação em salvar a Babushka, custe o que custar, mesmo que, para isso, tenha de viajar para o México na tentativa de encontrar um cacto milagroso que retirará as dores à avó.
Nesta luta entre a vida e a morte, a religião exerce igualmente um papel importante na vida e nos actos do nosso herói. A existir Deus, será preferível não excluir qualquer possibilidade religiosa, mostrando-se, assim, receptivo a todas as manifestações de fé. Deste modo, seja a Igreja Ortodoxa, a Igreja Católica ou até o Islão, tudo vale, porque se acredita nessa dimensão como uma das possibilidades para ajudar a Babushka a recuperar a sua saúde. “Agora, a Babushka já tem o seu altar com oferendas a todos os deuses das medicinas médicas e não médicas, e fiz até questão de virar um pouco a mesinha para leste, de maneira a estar de frente para Meca e assim agradar ao Deus-Alá.” (p. 89)
De referir ainda que este romance revisita os campos de concentração nazi e os gulags soviéticos como tentativa de compreensão do movimento migratório de alguns dos personagens da obra, inserindo-os no contexto da História do século XX. O sofrimento das pessoas e o medo em ser perseguido e morto aprisionou para sempre os sobreviventes destes campos à ideia de terror face a um poder superior, incompreensível, em detrimento daqueles que não têm um domínio sobre as suas vidas. Até nesta temática, como forma de aligeirar os temas, o jovem de dez anos refere-se várias vezes aos “acampamentos de concentração dos Nazis do Senhor Hitler” e aos “campos de gulasch”…
Humano, dócil, terno e sem deixar de ser sério, “A Avó e a Neve Russa” apresenta-se como uma obra em que João Reis, uma vez mais, dá cartas, na qualidade de escritor, dando-nos a conhecer um registo um pouco diferente daquele introduzido em “A Noiva do Tradutor”, mas com os ingredientes necessários da boa literatura que vale a pena ler na língua portuguesa.

Excertos:
"A morte anda por aí a ceifar as vidas e, muitas vezes, nem sequer avisa, como à minha mãe, que não sabia estar próxima da ceifa quando atravessou a estrada e foi atropelada. Por vezes, dá-nos alguns avisos, como no caso da Babushka, que cospe sangue e tosse muitíssimo há algum tempo - é a morte a mostrar-nos que pretende colhê-la. Por esse motivo, não sei se devemos desejar tanto mal à morte; mostra-se atenciosa, só que nem sempre o é, e é fácil de perceber que assim seja – há muitas pessoas para levar, isto sem falar dos animais. Não sei se a morte que apanha as pessoas é a mesma que persegue animais. Eu tenho cá para mim que sim, e acho que o coração a ajuda: diz-lhe que está cansado, que não está mais para isto e quer sair do corpo.” (pp. 17-18)

"A Babushka tem medo de muitas coisas. Não sei se terá sido dos nevoeiros atómicos ou dos medos que existiam na velha Ucrânia. A Babushka diz que, naqueles tempos, os russos antigos-soviéticos levavam as pessoas para uns campos bem longe, na Sibéria, a que chamavam gulasch, e onde as pessoas passavam fome e muito frio. As pessoas, muitas vezes, nunca mais apareciam, ou regressavam sem dedos ou sem mãos ou sem pés. O frio queimava-os – ou tinham tanta fome, que se comiam aos bocados para não morrer com tuberculose ou pneumonia.” (pp. 30-31)

"Também eu sonhei esta noite, custou-me acordar. Na verdade, não foi mesmo um sonho, pois nesses nunca me lembro mesmo bem do que vi, exceto nos pesadelos que tenho quando sonho que vou de chinelos para a escola... São sonhos horríveis... Eu de chinelos, na escola, e ninguém diz nada, e eu sei que tenho os chinelos calçados... Uma e outra vez, o pesadelo regressa. Este não foi assim, foi antes um sonho meio adormecido: estava eu com a Babushka, o Andrei, a minha mãe morta, o meu pai ausente e o avô Anatoli numa praia da Ucrânia, que já não era Antiga-Soviética, só Ucrânia ou um sítio no mundo, sem nome ou bandeira. Podíamos nadar e tomar banho. A Babushka gritava muito alto que aquele era o Mar Negro, apesar de me parecer bem azul. Eu ficava, porém, contente, porque ela gritava e notava-se de modo claro que não tinha os pulmões esvaziados nem rasgados com porcarias enfiadas naqueles sacos às farripas. O avô Anatoli também estava curado, sem a doença fulminante dos ares atómicos, e ria-se a preto e branco, como na foto do Senhor Valentino.” (pp. 74-75)

Texto da autoria de Jorge Navarro

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Na minha caixa de correio

   
  


Oferta da Editorial Presença, A Imperatriz da Lua Brilhante. Passatempo ainda a decorrer no Blogue. Aproveitem! O livro chegou-me sábado passado já o post desse dia tinha saído. A minha opiniāo aqui!
Oferta do autor Samuel Pimenta, Iluminaçōes de Uma Mulher Livre. Curiosa, muito, com o livro deste amigo.
Oferta da Porto Editora, Céus Negros.
Da Quinta Essência recebi Máscaras ao Luar.
Da Esfera dos Livros, Era Uma Vez Lisboa. histórias sobre esta cidade.
Sem Esperar, da Chiado Editora chegou-me Poemas para o Meu Amor de Marcelina Bittencourt.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

"A Imperatriz da Lua Brilhante" de Weina Dai Randel

Este livro foi amor à primeira vista! Como sabia eu que ia ser uma leitura fluída, rápida e ao mesmo tempo apaixonante? Pois, não sei explicar! Soube-o logo, mal lhe coloquei a vista em cima. A capa é atraente, de cores quentes, a sinopse prometia. Recebi-o só no sábado porque uma vizinha tinha-mo guardado e só entāo mo fora levar e, por nāo contar receber mais nada a semana passada, foi uma surpresa e tanto! 

A primeira frase cativou-me de imediato. O tom intimista que a escrita na primeira pessoa confere ao livro, fez com que ficasse fortemente presa ao enredo e me mantivesse assim até ao final. O tema e todo o ambiente de uma China imperial, profundamente descrita em todas as suas tradiçōes, ajudaram a manter a minha atençāo e deleite. E começa assim: "No dia em que o meu futuro foi previsto tinha apenas cinco anos." É a própria Mei que nos relata como começou toda esta aventura que foi a sua vida, desde os seus cinco anos até se tornar imperatriz.

Baseado nalguns factos verídicos e noutros provenientes da imaginaçāo da autora, somos catapultados para sítios e costumes tāo diferentes dos nossos que ficamos literalmente pregados às letras e à acçāo. Cada palavra, cada frase aumenta o desejo de avançar na leitura. Brilhante. A autora dá-nos a conhecer, através da vida de uma concubina, os meandros da corte chinesa aquando da época de um imperador. A traiçāo, a vingança, a morte, a obediência cega, o medo, mas também o amor mostram-se aqui nas formas mais duras e aviltantes. Das complicadas relaçōes da corte imperial sobressaiam os jogos de poder, as uniōes e amizades interesseiras que, a maior parte das vezes, acabavam em descrédito e em morte.

Adorei! Recomendo sem reservas!

Terminado 7 de Fevereiro de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
No palácio da China imperial, uma concubina aprende rapidamente as várias técnicas para conquistar o coração do imperador, o Único acima de Todos. Mei é convocada aos 13 anos para a corte do palácio na China imperial, uma honra que resgatará a sua família, outrora nobre e influente, da miséria. Porém, ela rapidamente descobre que para se aproximar do imperador e conquistar o seu coração terá de ultrapassar obstáculos perigosos. Como desconhece a arte da sedução, no dia do aniversário do imperador, Mei oferece-lhe um presente singular: uma adivinha.
Porém, quando lhe parecia que estava em posição de seduzir o homem mais poderoso da China, Mei apaixona-se por Faisão, o filho mais novo do imperador. Contudo, uma tentativa de assassinato ao imperador provoca uma luta terrível pelo poder na corte imperial. E Mei terá de se servir das suas excelentes capacidades de inteligência, sabedoria e engenho para escapar e salvar o amor da sua vida.
Nomeado para Melhor Romance Histórico pelo Goodreads Choice Awards 2016, A Imperatriz da Lua Brilhante é um romance baseado na história da Imperatriz Wu Mei, a primeira mulher a governar a China. Weina Dai Randel pinta de forma notável o quadro da China antiga e da corte imperial, em que o amor, a ambição, a intriga e os jogos de poder podem determinar a vida ou a morte.

Para obter mais informações sobre este livro, aceda ao site da Presença aqui.

Cris

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

"Quem me dera ser onda" de Manuel Rui

Novela simpática, divertida e que se lê num ápice! A acçāo passa-se em Luanda, na época da revoluçāo/ pós independência com a escassês de alimentos que se verificou entāo. Uma família decide colocar um porco na varanda do seu sétimo andar e engordá-lo para mais tarde poder usufruir da sua suculenta carne. No entanto, os dois filhos do casal é que nāo estāo pelos ajustes... A isto juntam-se os vizinhos, nomeadamente o administrador, que teimam em proibir a existência de certos animais no prédio e, que por isso, nāo vêem com bons olhos a existência de um porco dentro de casa.

As peripécias sāo muitas e fazem-nos sorrir amiúde. A linguagem é típica do país em questāo e se a leitura for lida em voz alta, estas páginas ainda se mostram mais divertidas! Os termos sui generis, os nomes dados aos objectos e o humor refinado que aqui se encontra, fazem deste pequeno livro uma pequena maravilha!

Um texto que, se transformado em peça de teatro, daria pano para mangas e que é bastante visual pois as cenas parecem tomar forma quando lidas.

Uma delīcia que recomendo para uma hora de leitura divertida!

Terminado em 4 de Fevereiro de 2017

Estrelas: 4*+

Sinopse
Um romance delirantemente divertido e luminosamente redentor. Angola, poucos anos depois da independência. Estamos mais precisamente em Luanda, em anos de esquemas de sobrevivência. Um pai de família desencanta um porco e leva-o para o seu apartamento, no sétimo andar de um prédio. Os filhos, Zeca e Ruca, apaixonam-se perdidamente pelo porquinho.

Cris

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

"Confissōes de Inverno" de Brendan Kiely

Algo na sinopse atraiu a minha atençāo e mal pude peguei nesta leitura. Terá sido, um pouco, o facto do protagonista ser um rapaz de 16 anos e desejar saber o que vai no interior da mente de um jovem dessa idade? Confesso que o facto de ter um filho nessa faixa etária pesou um pouco. Mas conforme as páginas iam passando pelos meus dedos suspirei, agradecida, pelo facto de a história ser ficçāo. Pelo menos para o "meu mundo", aquele em que me cruzo todos os dias. Porque a realidade, sei-o bem, é semelhante em muitos aspectos e, exemplo disso, sāo as notícias que passam nos média. Devem estar a perguntar-se do que falo eu...

Passo a explicar: Aidan, o adolescente que referi anteriormente, é um rapaz perturbado, carente e quase sem amigos. Faz um esforço para se integrar mas, frequentemente, as palavras faltam-lhe e as conversas nāo fluem. Tenta construir uma imagem de si que lhe garanta um lugar entre os jovens seus colegas mas afastar os fantasmas que teimam em regressar à sua mente nāo é tarefa fácil. Aidan sofreu abusos sexuais por parte de alguém mais velho, alguém que lhe incutiu uma forma distorcida de amar.

Retrato psicológico intenso e complexo, bem delineado, que permite ao leitor entrar na cabeça deste jovem e  sentir com ele todas as angústias com que se debate. Perfeito. Achei magnífico a forma como o autor, para uma primeira obra, conseguiu analisar profundamente os sentimentos de alguém confuso e magoado, que quer apenas ser igual aos outros. Colocando de lado algumas vivências, fazendo de conta que elas nāo existiram, Aidan, vai certamente superar os seus traumas. Ou nāo? 

Recomendo esta leitura! O autor soube manter, com mestria, a intensidade da narração e, com isso, agarrar o leitor em todas estas páginas!

Terminado em 1 de Fevereiro de 2017

Estrelas: 5*+ 

Sinopse
Um romance que aborda um tema difícil com muita sensibilidade. Quando a vida de Aidan Donovan, de 16 anos, se começa a desmoronar à sua volta, ele procura refúgio no bar do pai e nas atenções do padre Greg, o único adulto que o escuta. Chegado ao Natal, Aidan entra numa crise profunda ao compreender a natureza obscura do afeto do padre. Vira-se então para um novo grupo de amigos: Josie, a rapariga por quem talvez esteja apaixonado, Sophie, a amiga um pouco rebelde, e Mark, o carismático capitão da equipa de natação, cuja sensação de angústia rivaliza com a de Aidan. Um romance ousado e corajoso que olha de forma intensa e sensível para os desafios do crescimento e do amor

Cris

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Passatempo Presença: A Imperatriz da Lua Brilhante

Um passatempo especial começa hoje e estou certa que vai ser do vosso agrado! Com a colaboraçāo da Editorial Presença, O Tempo Entre os Meus Livros tem para oferecer aos seus seguidores um exemplar do livro A Imperatriz da Lua Brilhante, de Weina Dai Randel.

O passatempo decorre até dia 12 de Fevereiro.

Basta que enviem um mail para otempoentreosmeuslivros@gmail.com com o vosso nome, morada e nome do seguidor do blogue. Devem, também, responder corretamente à pergunta: O que oferece Mai ao Imperador no dia do seu aniversårio?

A partilha do passatempo no FB é contabilizada com mais uma participaçāo.

Nota importante: só é permitida uma participaçāo por pessoa pelo que serāo anuladas as participaçōes que nāo obedecerem a este requisito.

Para mais informações sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.

Cris

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Na minha caixa de correio

  

 


Ofertados pelas editoras Arena e Suma de Letras, Hygge e Anna e o Homem Andorinha.
Prenda de anos para o mais que tudo, Teoria Geral do Esquecimento,
Ganhos nos passatempos do Clube dos Passatempos, As Viúvas de Dom Rufia e Comer para Controlar a Diabetes


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Novidade Presença

A IMPERATRIZ DA LUA BRILHANTE
de Weina Dai Randel
No palácio da China imperial, uma concubina aprende rapidamente as várias técnicas para conquistar o coração do imperador, o Único acima de Todos: pintar a cara de branco, desenhar um sinal de beleza, fazer penteados elaborados...
Mei é convocada aos 13 anos para a corte do palácio na China imperial, uma honra que resgatará a sua família, outrora nobre e influente, da miséria. Porém, ela rapidamente descobre que para se aproximar do imperador e conquistar o seu coração terá de ultrapassar obstáculos perigosos. Como desconhece a arte da sedução, no dia do aniversário do imperador, Mei oferece-lhe um presente singular: uma adivinha. Porém, quando lhe parecia que estava em posição de seduzir o homem mais poderoso da China, Mei apaixona -se por Faisão, o filho mais novo do imperador. Contudo, uma tentativa de assassinato ao imperador provoca uma luta terrível pelo poder na corte imperial. E Mei terá de se servir das suas excelentes capacidades de inteligência, sabedoria e engenho para escapar e salvar o amor da sua vida.
Baseando-se em factos reais, Weina Dei Randel pinta de forma notável o quadro da China antiga, em particular da corte imperial, em que o amor, a ambição, a intriga e os jogos de poder podem determinar a vida ou a morte.

Para mais informações sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.

Novidade Porto Editora

Céus Negros
de Ignacio del Valle
Espanha, 1950. Num país que ainda procura recuperar dos traumas da guerra, Arturo Andrade é chamado a investigar o misterioso assassinato de uma criança em Pueblo Adentro, uma aldeia a poucos quilómetros de Badajoz, a sua cidade natal, e centro da resistência anarquista da Extremadura.
Arturo cedo se dá conta de que este crime é apenas a ponta do icebergue de uma bem montada rede de tráfico infantil que fez desaparecer mais de 30 mil crianças. Um elemento fundamental deste sórdido esquema é o Auxílio Social, instituição encarregada de «reeducar» os filhos dos prisioneiros republicanos, derrotados na Guerra Civil. Por detrás, uma teia de interesses que envolve as mais altas esferas do regime.
Com este notável romance, Ignacio del Valle põe a nu a grande mentira de uma certa Espanha franquista, que sob a enganosa aparência de fomentar o progresso do país leva a cabo uma série de crimes atrozes, muitos dos quais passaram incólumes pelo crivo da História.

Novidade Esfera dos Livros

Era uma Vez Lisboa
de Luís Ribeiro
A História de Lisboa é feita de vidas, lugares, paixões, tragédias, confrontos, conspirações. Conhecer Lisboa é também recuar no tempo e descobrir a cidade que passou pelas piores calamidades desde o terramoto de 1755, passando pela Peste Negra, até ao dilúvio que matou centenas de lisboetas - mas que sempre se ergueu.
Uns, como Calouste Gulbenkian, vieram de fora e apaixonaram-se perdidamente, outros, como o Marquês de Pombal, fizeram-na renascer das cinzas. Mas Lisboa é feita também de vilões e de heróis. Dos primeiros reza a história que matavam em série e, como Diogo Alves, que, em 1841, foi acusado de assassinar 70 pessoas, ou que burlavam os mais incautos. Já os heróis ficarão para sempre na memória dos lisboetas e Martim Moniz ou os Mártires da Pátria não são apenas topónimos desta cidade, mas, acima de tudo, heróis que deram a vida por aquilo em que acreditavam.
O amor também corre pelas ruas e vielas da capital: o conde de Vimioso perdeu-se de amores pela fadista Severa, e Sá-Carneiro apaixonou-se na amena Lisboa por uma «princesa nórdica num esquife de gelo». As «estórias» lisboetas são tantas que muitas se perderam no tempo, mas nada como recuperá-las: a tentativa do rei D. Manuel I para realizar um combate entre um rinoceronte e um elefante, ou o facto de o embaixador francês em Lisboa Jean Nicot ter sido responsável por pôr o resto do mundo a fumar, ao tornar-se o primeiro importador de tabaco no século XVI.
Estas são algumas das histórias que o jornalista Luís Ribeiro nos apresenta num livro que nos revela uma cidade única e singular que tantas vezes calcorreamos, mas da qual, por vezes, tão pouco sabemos.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A escolha do Jorge: Um estranho lugar para morrer


“Um estranho lugar para morrer” é um dos policiais mais aclamados dos últimos anos tendo tornado
o norte-americano Derek B. Miller como um nome a seguir. O escritor vive actualmente em Oslo onde decorre a parte fulcral da narrativa e, tendo em consideração a sua experiência profissional, assim como o seu olhar como estrangeiro, devolve ao leitor uma perspectiva interessante, talvez mais isenta, no que concerne à forma de vida dos noruegueses, o seu quotidiano, os principais problemas que identifica na sociedade, tanto entre pares, como na relação com os imigrantes, que nos últimos anos se tem assistido ao seu aumento.

Este romance em particular, ao contrário de outros romances policiais, não apresenta uma narrativa vertiginosa, apresentada num ritmo alucinante, com crimes hediondos, tanto quanto a mente humana é capaz de imaginar. Em “Um estranho lugar para morrer”, a narrativa decorre segundo a cadência normal dos dias em que os personagens se movem nos seus afazeres, entre o trabalho e o ócio e as suas preocupações.

A obra tem como ponto nevrálgico a vida do judeu octogenário Sheldon que deixou Nova Iorque para viver com a sua neta Rhea e o seu marido Lars, em Oslo, pelo facto de viver sozinho e de lhe terem sido diagnosticados os primeiros sintomas de demência.

Numa narrativa circular, ficamos a saber que Sheldon participou na Guerra da Coreia, do mesmo modo que incentivou o seu filho Saul a participar na Guerra do Vietname, onde acabou por perder a vida. Vivendo com um sentimento de culpa na medida em que sentiu que a causa nacional foi colocada à frente de qualquer outra razão, Sheldon nunca conseguiu expiar essa culpa que surge sempre espelhada ao longo desta narrativa.

Surge, entretanto, um crime envolvendo um grupo de libertação do Kosovo com ramificação em Oslo. Um grupo que inicialmente era reconhecido por várias instituições internacionais como uma organização válida e credível, mas que, com o passar dos anos, rapidamente se transformou num grupo terrorista que não olha a meios para atingir os seus objectivos que se afastaram da ideia da criação de um estado independente da Sérvia.

Sheldon protege uma criança na sequência de a sua mãe ter sido brutalmente assassinada, decidindo assim, resgatar a criança das mãos do grupo terrorista. Proteger e libertar a criança constitui, para Sheldon, uma forma de expiação face à perda do seu próprio filho. Se as guerras da Coreia e do Vietname nada diziam aos americanos e muito menos aos judeus, também a guerra nos Balcãs pouco lhe dizia, porém é o princípio que agora é importante: resgatar uma vida, salvar uma criança, reconciliando-se consigo próprio.

Se por um lado a narrativa decorre com relativo interesse ainda que não se trate de uma obra que agarre por completo o leitor e, ainda menos, quem seja ávido deste género de romances, por outro lado, parece-me totalmente exagerada toda a parte da narrativa em que Sheldon decide proteger a criança do grupo terrorista. Temos afinal um octogenário com problemas de demência que acabou de chegar a um país estrangeiro e que agarra literalmente numa criança que também fala outra língua, conseguindo ludibriar as pessoas nas ruas e as autoridades, escondendo-se por assim dizer das garras dos inimigos…

A questão central do livro constitui em si mesma a grande falha da narrativa. Se por um lado, o autor consegue dotar o leitor com informação interessante sobre a Noruega, vista por alguém de fora que vive no país, mencionando situações que noutras obras de autores de policiais nórdicos não acontece, a questão da inverosimilhança acabou, por outro lado, por destoar e corroer o romance.

Texto da autoria de Jorge Navarro

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O Último Paraíso de António Garrido

Os livros deste autor terāo sempre um lugar na minha estante. Tenho A Escriba, ainda por ler, e O Leitor de Cadáveres que já li e adorei. A sua escrita é simples mas desperta a nossa curiosidade. Os temas escolhidos primam pela variedade e denota-se uma pesquisa intensa pois a ficçāo casa-se na perfeiçāo com aspectos da História, o que leva o leitor a confundi-los e dá credibilidade aos personagens de tal modo os julgamos reais! 

É difīcil, creio, António Garrido escrever algo melhor que O Leitor de Cadáveres. Confesso que esse livro apanhou-me de surpresa e ainda hoje, já muito tempo volvido, me lembro de algumas sensaçōes que ele me despertou. Talvez o factor surpresa tenha feito com que ficasse essa sensaçāo tāo boa, que dura até hoje. Na leitura de O Último Paraíso as expectativas eram muito elevadas... Epá! Acabei de ler o que escrevi e quase que aposto que dá a ideia que vou dizer que nāo gostei tanto desta leitura! Pois nāo, nāo vou dizer nada disso!

Gostei sim. Como nāo gostar? Romance, intriga e aspectos históricos que conferem veracidade à narrativa. Tudo aqui se encontra, tal como esperava. A viagem, desta feita, foi para a Uniāo Soviética, por volta do ano de 1930, quando muitos americanos, desesperados por uma vida melhor e para fugir à depressāo que assolava a América, partem para esse país buscando melhores condiçōes de vida. O último paraíso ou um paraíso sonhado, irreal?

Foi importante, no final destas páginas, tomar consciência do contexto socio-económico da época através de algumas palavas do autor bem como da história que está por detrás da fiçāo. Por tudo isto recomendo esta leitura. As páginas voam rapidamente. Gostei muito do final que faço questāo de nāo revelar, pois claro!

Terminado em 28 de Janeiro de 2017

Estrelas: 5*

Sinopse
Em 1929, o jovem e experiente Jack Beilis tinha o seu próprio carro, usava fatos feitos à medida e frequentava os melhores clubes de Detroit. Mas a crise brutal que nesse ano atingiu a América atirou-o, como a milhares de compatriotas, para os braços da fome e do desespero. Forçado a sair do país após cometer um crime, foge para a União Soviética, o império idílico onde a todos era igualmente garantido o direito à felicidade, sem suspeitar dos insólitos incidentes que o destino ainda lhe reserva. Inspirado em acontecimentos reais, este thriller combina magistralmente factos históricos, suspense e romance, resultando numa extraordinária reinvenção do mito do sonho americano.

Cris

sábado, 28 de janeiro de 2017

Na minha caixa de correio

   

  

  



Comprados na Feira da Ladra: Confia em Mim e Vegetariano Todos s Dias,
Da editora Chá da Cinco chegou 365 Dias com Saúde,
Oferta da Bertrand, Confissōes de Inverno,
Do Clube do Autor chegaram Quando o Amor Acontece, Passagem Para o Horizonte, Na Senda de Fernāo Mendes Pinto, Um Lugar Perto de Nós e No Princípio Estava o Mundo.




quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A escolha do Jorge: O Direito à Preguiça


Paul Lafargue (1842-1911) é um dos intelectuais revolucionários mais conhecidos ligados ao socialismo francês e na sua experiência no exílio, em Londres, dinamizou a Primeira Internacional. Genro de Karl Marx (1818-1883), é difícil dissociar a obra de um e de outro, na medida em que ambos foram acérrimos defensores do proletariado face ao crescente avanço do mundo industrializado numa lógica de associação com o capitalismo em geral.
Publicado em 1880, O Direito à Preguiça é um conjunto de quatro textos que reflecte sobre as consequências do desenvolvimento da agricultura e da indústria, no século XIX, conhecido na História como a 2ª Revolução Industrial.
Com o aumento da população que teve lugar a partir do século XVIII, verificou-se um aumento de mão-de-obra que ficou disponível para trabalhar nas minas e nas fábricas, não só pela pressão demográfica que conduzia a necessidades para provir, do mesmo modo que, devido à crescente
mecanização da agricultura, as pessoas viram-se na iminência de sair dos campos para as cidades e arredores, na tentativa de alcançarem melhores condições de vida.
Paul Lafargue refere que o aumento da população veio a embaratecer a mão-de-obra que, tendo aumentado, e estando tão disponível, o preço a pagar pela força do trabalho diminuiu para cerca de metade face ao valor que os trabalhadores auferiam antes de terem saído dos campos, no século anterior.
Mais, a pressão do lucro numa lógica capitalista, vai obrigar a que os patrões olhem para o proletariado como o outro lado da mercadoria, um meio para atingir o fim, neste caso, o aumento da produção que entrará nos circuitos económicos nacionais e internacionais. Por outro lado, a necessidade de trabalho para satisfazer as necessidades da prole, vai obrigar o proletariado a jornadas de trabalho que chegam às 14 horas diárias. É precisamente este aspecto que é criticado por Paul Lafargue e desenvolvido ao longo do ensaio, a submissão do proletariado por necessidade e por falta de conhecimentos constitui, em si mesmo, o motor para a exploração da classe desprotegida em detrimento daqueles que detêm os meios de produção e, consequentemente, o lucro.
“Uma estranha loucura domina as classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Essa loucura arrasta atrás de si misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Essa loucura é o amor pelo trabalho, a paixão moribunda pelo trabalho, levada até à exaustão das forças vitais do indivíduo e da sua prole.” (p. 11)
É o trabalho exercido até ao limite das forças que impede o proletariado para o tempo livre, que não tem, para o ócio, tema igualmente desenvolvido por Robert Louis Stevenson (1850-1894), contemporâneo de Paul Lafargue, em “Apologia do Ócio”. Somente a possibilidade do ócio permitirá às classes trabalhadoras o acesso à escolaridade e, com o passar dos anos e das gerações, à tomada de consciência de classe e a necessidade de luta face aos seus direitos, subindo grau a degrau na busca da felicidade. “Não há dever tão subestimado como o dever de ser feliz.” (Robert Louis Stevenson, “A Apologia do Ócio”, p. 26, Antígona)
Com o aumento dos movimentos sindicalistas e a sua actividade, assiste-se a um efectivo decréscimo do número de horas da jornada diária, porém, não deixa de ser irónico, que além das inúmeras lutas travadas entre o proletariado e os senhores do capital, o certo é que a industrialização e mecanização da agricultura contribuíram também, a longo prazo, para a libertação do homem no que concerne aos trabalhos que exigem um esforço físico maior e, noutra perspectiva, à redução da jornada diária.
“O sonho de Aristóteles é a nossa realidade. As nossas máquinas, animadas pelo fogo, com membros de aço, infatigáveis, com maravilhosa fecundidade, inesgotável, cumprem docilmente por si próprias o trabalho sagrado; e, no entanto, o génio dos grandes filósofos do capitalismo continua dominado pelo preconceito do salariado, a pior das escravaturas. Ainda não compreendem que a máquina é o redentor da humanidade, o Deus que resgatará o homem das ‘sordidae artes’ e do trabalho assalariado, o Deus que lhe dará tempo livre e a liberdade.” (p. 85)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O convidado escolhe: Nos passos de Santo António - Uma viagem medieval

Confesso que não sou muito dado a "literaturas". As maratonas de 500, 400, 300 ou mesmo menos páginas intimidam-me e rapidamente perco o interesse antes de começar. Tudo isto porque não tenho a disciplina de leitura suficiente para acompanhar enredos minimamente complexos nem as características e evolução das personagens. Sinceramente  tenho pena, mas não dá... Sempre me refugiei em temas mais ou menos profissionais com algumas tímidas investidas em livros de política, ciência ou história.

Tudo isto a propósito de ter "tropeçado" há dias, numa livraria, com este último livro do Gonçalo Cadilhe e, mal o folheei e li umas diagonais, disse a mim próprio: "andas sempre a olhar para as mesmas prateleiras... nunca reparaste no género?" Sabia que existia mas nunca tinha verdadeiramente experimentado. Acho que encontrei o meu estilo de leitura. 

E posso dizer que foi uma agradável revelação. O estilo de escrita do autor é realmente cativante e permite galgar páginas com prazer e sem esforço. 

Revela-nos um Santo António viajante num trajecto que ele terá feito desde Coimbra até Itália e França, passando pelo norte de África. Onde os factos não se encontram suficientemente documentados, o autor deduz, de uma forma convincente, os caminhos que terá provavelmente tomado. De qualquer forma, não senti falta de eventuais "rigores históricos estritos". No caminho da descrição dos lugares e trajectos, ficam-me deste livro, as referências que o autor nos deixa à história, cultura e costumes dos lugares e dos povos que encontra. E ainda a descrição de episódios, peripécias e contactos com pessoas reais, com nome próprio, que pontuam aqui e ali a narrativa e a enchem de vivacidade.

Fiquei fã de Gonçalo Cadilhe. Terminado este, rebobinei o seu percurso como escritor e já me atirei ao "Planisfério Pessoal". Estou quase a meio das 350 páginas. Quebrei o enguiço. Já faço maratonas...

Abílio Delgado

Sinopse
De Lisboa a Pádua, o escritor-viajante Gonçalo Cadilhe faz uma viagem com muitas paragens e revelações históricas sobre a vida de Santo António, seguindo os passos do santo em plena época medieval.Santo António nasce por volta de 1190; Portugal acabava de ser fundado e, na época, a cidade de Lisboa corria o risco permanente de voltar a cair as mãos dos mouros. Santo António não nasceu António, mas Fernando. Foi batizado de Fernando Bulhão, da família dos Bulhões, e mais tarde assumirá então o nome de Santo António. Ficou conhecido no entanto como Santo António de Pádua, porque os santos ficavam conhecidos com o nome do lugar onde faleciam. No caso de Santo António, ele falece em Pádua, é aí que começa o seu caminho celestial.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A convidada escolhe: A Gorda

Este livrinho foi perfeito nas minhas deambulações diárias, em que qualquer momento livre servia
para o abrir e ler.

Memórias de uma jovem que se tornou mulher enquanto cirandou nas várias divisões da casa (por capítulos), amou e perdeu-se no preconceito de que era gorda.

Mas não é apenas disso que se trata. Um romance que claramente tem muito de autobiográfico e fala da vida e dos pequenos nadas que a compõem com um olhar critico, objetivo e impiedoso, mas também especulativo e manipulando o real. Fala das pessoas que aparecem na nossa vida e mais tarde desaparecem por um motivo qualquer e do que nos deixam. Fala ainda da solidão e do vazio que se esconde.

Uma mulher como todas as outras. Como eu. Uma mulher com um mundo dentro de si. Uma mulher com uma identidade e tanto sentir, tantas vezes ambíguo mas verdadeiro. Uma mulher que tinha uma fome impossível de saciar que desamou o seu corpo.

Leitura crua mas que me encantou. Irrepreensível escrita e quase poética. Percebo agora o muito ruído que há em torno deste livro de que também eu faço eco.

Vera Sopa

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

"Romão e Juliana" de Mário Zambujal

Os livros que Mário Zambujal escreveu (ou vai escrever) possuem um lugar cativo nas minhas estantes! Quem já leu algum sabe do que falo. A sua escrita é única, sui generis. A ironia e o sentido de humor banham-se nestas águas como se nelas tivessem nascido, naturalmente. A escrita do autor reconhece-se facilmente, querendo com isto dizer que ela é especial, musical mesmo! 
A história é simples e uma questāo impōe-se no decorrer deste pequeno romance que se lê em poucas horas: um amor que encontra barreiras, dura, mesmo depois delas terminarem? Ou é precisamente esses impedimentos que levam a que os dois apaixonados se mantenham juntos? Romão e Juliana, sāo dois jovens cujas famílias nāo se podem ver. Qualquer analogia que o leitor faça com a história de "Romeu e Julieta" fica, a dada altura, pelo caminho visto que o desenlace é bem diferente, sendo fruto de uma imaginaçāo fértil e algo que, creio, foi bem pensado para que o leitor nāo achasse que mais uma vez se repetiria o fim trágico dos apaixonados. E, no entanto, nem tudo é um mar de rosas...
Para os fâs de Mário Zambujal nāo preciso de recomendar este livro. Para quem nunca leu nada deste autor, (eu adoro a sua escrita! Sou por isso suspeita) podem começar com este ou talvez o Serpentina. Foi dos últimos que li e gostei tanto ou mais que este. Fica a sugestāo.
Terminado em 18 de Janeiro de 2017
Estrelas: 5*
Sinopse
Com "Romão e Juliana" vamos ao reinado de D. João V, ele próprio protagonista de aventuras galantes, ficou célebre a que manteve com Soror Madre Paula Teresa de Almeida, Madre do Convento de Odivelas. De igual liberdade não gozam Romão e Juliana pelo que tentam vencer as barreiras em peripécias sucessivas. Fiel ao seu consagrado estilo narrativo, pleno de imaginação e humor, Mário Zambujal traz-nos uma nova e apaixonante história.

Cris

sábado, 21 de janeiro de 2017

Na minha caixa de correio

  


Ofertas:

- Gosto de Mim Todos os Dias ( Fiquei apaixonada por esta agenda! Se gostam de dicas e receitas e sāo fās de uma alimentaçāo mais saudável, espreitem esta agenda...É o que tenho vindo a fazer esta semana.), Editora Arena.
-10 Mudanças Essenciais Para Mais 10 Anos de Vida, Editora Arena
-A Nova Educaçāo, Editora Objectiva

Compras:

- Mangas Explosivas, comprado nos saldos da Bertrand.