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terça-feira, 19 de setembro de 2017

"Um Mais Um" de Jojo Moyes

Que dizer de um livro que nos comove ao ponto de nos fazer correr algumas lágrimas? 
      Nāo me interessa muito que algumas pessoas possam achar que este livro é mais um romance de cordel... Eu adorei estar um dia inteiro dentro das suas páginas, dentro da história narrada, dentro das personagens principais sentindo como elas todos os altos e baixos das suas vidas surpreendentemente complicadas e onde uma coisa pior sucede depois de uma coisa má! Adorei sentir que as coisas boas viriam a seguir e que Jess e Ed iriam ficar juntos. Desejei que isso acontecesse depressa e li num ápice as últimas páginas. Aliás, devorei-as. Fiquei apaixonada pela Tanzie e pelo Nicky, filhos de Jess, pelos seus problemas vários que passavam sobretudo por serem diferentes, mas também pela forma como eram educados por Jess, pelos valores que esta lhes transmitia principalmente pela sua postura de vida e pelo seu desempenho diário.
      Jojo, acho que este se nāo é o teu melhor livro é pelo menos um que mereceu as minhas lágrimas o que, de facto, nāo é algo habitual em mim. Parabéns! Quem me dera saber escrever romances de "cordel" como este e chegar ao coraçāo de quem lê!
      Recomendo mesmo muito! Saber envolver o leitor nas peripécias que vāo acontecendo a um ritmo alucinente, descrever na perfeiçāo os quatro personagens envolvidos, e conferir um cunho pessoal que nos toca e comove nāo é, certamente, para qualquer escritor. De novo os meus parabéns!

Terminado a 17 de Setembro de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
Uma mãe por conta própria Jess Thomas faz o seu melhor, dia após dia. É difícil lutar sozinha. E, por vezes, assume riscos que não devia. Apenas porque tem de ser… Uma família caótica Tanzie, a filha de Jess, é uma criança dotada e brilhante a lidar com números, mas sem apoio nunca terá oportunidade de se revelar. Nicky, enteado de Jess, é um adolescente reservado, que não consegue sozinho fazer frente às perseguições de que é alvo na escola. Por vezes, Jess sente que os filhos se estão a afundar… Um desconhecido atraente Ed Nicholls entra nas suas vidas. Ele é um homem com um passado complicado que foge desesperado de um futuro incerto. Ed sabe o que é a solidão. E quer ajudá-los… Uma história de amor inesperada "Um Mais Um – A Fórmula da Felicidade" é um romance cativante e original sobre duas pessoas que se encontram em circunstâncias difíceis.

Cris

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

"O Efeito Rosie" de Graeme Simsion

Quem leu o Projecto Rosie (ver comentário aqui!) sente-se automaticamente atraído por esta leitura. Embora contenha muitos factos verídicos no que se refere à patologia que o protagonista desta história é detentor (Asperger) eles sāo-nos descritos, pelo próprio, de uma forma hilariante mas que, ao mesmo tempo, nos faz pensar.
     
 Se nāo leram O Projecto Rosie faz todo o sentido lê-lo primeiro. O Efeito Rosie é a continuaçāo de todas as peripécias e mais algumas que Don nos habituou. Depois do seu casamento com Rosie, quando ela lhe dá uma notícia para a qual nāo se sente preparado (vāo ser pais!), Don começa quase instantaneamente a criar situaçōes que colocam o seu casamento em perigo. O seu desejo de querer adquirir aptidōes sociais para o seu papel de pai levam-no a uma série de peripécias que, se nāo nos fazem gargalhar, pelo menos nos fazem sorrir... E os problemas sāo como uma bolinha de neve!

Muito divertido, este livro é um bom pretexto para passarem algumas horas agradáveis. Vale a pena ler!

Terminado em 14 de Setembro de 2017

Estrelas: 5*

Sinopse
Dez meses e dez dias após o seu casamento, encontramo-nos de novo com Don e Rosie, agora a viverem felizes em Nova Iorque. Mas Rosie está grávida e Don tem de se preparar para ser pai - o maior desafio da sua vida, anteriormente tão organizada. Para Don, cujo equilíbrio mental se baseia na planificação, a chegada de um filho é assustadora. Por outro lado, na sua atividade profissional, as surpresas multiplicam-se...
      Será Don, com o seu espírito científico, capaz de preservar a felicidade? Ou regressará ao seu anterior estilo de vida, arriscando-se a perder Rosie para sempre? O Efeito Rosie é a sequela do inesquecível bestseller internacional O Projeto Rosie.

Para mais informações sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.

Cris

sábado, 16 de setembro de 2017

Na minha caixa de correio

  

  

  


Oferta da Planeta: o exemplar de avanço do livro As Mulheres no Castelo, A Mulher do Meu Marido e A Céu Aberto.
Os Herdeiros da Terra chegou-me enviado pela Suma de Letras.
Da Persença recebi Uma Coluna de Fogo de um autor que adoro.
Slow Living Yoga chegou pelas māos da Arena.
Você Pode Falar com Deus. meet & Greet com o autor dia 19 na Bertrand das Amoreias às 18:30.
Tudo de Bom para o meu Intestino foi uma oferta da Jacarandå.
E da Bertrand recebi um livrinho para a rubrica Para os Mais Pequeninos, As Formas.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Novidades Porto Editora

Uma Mulher Desnecessária
de Rabih Alameddine
Aaliya Saleh vive sozinha no seu apartamento em Beirute, rodeada por pilhas e pilhas de livros. Sem Deus, sem pai, sem filhos e divorciada, Aaliya é o «apêndice desnecessário» da sua família.
      Todos os anos, ela traduz um novo livro para árabe, e depois guarda-o. Os trinta e sete livros que Aaliya já traduziu nunca foram lidos por ninguém. Depois de ouvir as vizinhas, as três «bruxas», a criticar a extrema brancura do seu cabelo, Aaliya tinge-o… de azul.
      Neste assombroso retrato da crise de idade de uma mulher solitária, os leitores seguem a mente errante de Aaliya, à medida que ela vagueia pelas visões do passado e do presente da capital do Líbano: reflexões coloridas sobre literatura, filosofia e arte são invadidas por memórias da guerra civil libanesa e do próprio passado volátil de Aaliya. Ao tentar superar o envelhecimento do corpo e as
inoportunas explosões emocionais que o acompanham, Aaliya é confrontada com um desastre impensável que ameaça estilhaçar a quietude da vida que ela escolheu para si mesma.


A Última Viúva de África
de Carlos Vale Ferraz
Alice Oliveira, nascida e criada no Minho, num meio pobre e sem outros horizontes
a não ser o casamento com algum camponês borrachão e a criação de uma enorme e desgraçada prole, ou o trabalho duro nas fábricas locais, cedo tomou as rédeas do seu destino.
      Nos anos cinquenta do século passado terá emigrado para o continente africano, pertencendo ao reduzido número de portugueses que permaneceu na antiga colónia belga do Congo após a independência.
      Conhecida nesses tempos por Madame X pelas autoridades portuguesas, para quem trabalhava como informadora, e por Kisimbi, a «mãe», pelos mercenários que combatiam em prol da secessão do Catanga, ela permanece uma figura misteriosa, que ganha contornos bem definidos neste romance, A Última Viúva de África, onde se recria o percurso de vida, os motivos, os encontros e desencontros e a rede de contactos que fizeram dela a amante frustrada do continente africano, a viúva branca de um paraíso perdido com a descolonização.

Novidade Bertrand

O Apelo Selvagem
de Jack London
Após a descoberta de ouro no norte do Canadá e no Alasca, Buck, um cão nascido numa grande e tranquila quinta no sul da Califórnia, é levado para o gelado e perigoso Norte. O protagonista canino vê-se encurralado num mundo de maus tratos e riscos constantes, e é através do seu ponto de vista que surge um retrato histórico e humano deste período conturbado do final do século XIX.
      Um romance marcado pela dor da perda, mas também pela coragem, redenção e lealdade, onde Jack London apresenta uma inspiradora defesa dos direitos e da dignidade dos animais.

Novidade Clube do Autor

Conjura ou os Mistérios do Reinado de D. João II

de Cristina Vale
Ao exaustivo trabalho de pesquisa e documentação, Cristina Vale adicionou toda a sua mestria de contadora de histórias. Conjura é o resultado de vários anos de investigação e de escrita que convidam o leitor a recuar vários séculos na nossa História e a entrar na corte de D. João II.
      Revelando a cada capítulo uma profunda preocupação com os factos históricos e com o rigor da narrativa, o primeiro romance de Cristina Vale distingue-se sobretudo pela riqueza de pormenores e ambientes sabiamente recriados.
      Ao mesmo tempo que interferem nas decisões políticas de D. João II, privam de perto com D. Leonor de Lencastre ou acompanham as conspirações reais, os leitores passeiam pelas ruas da Lisboa de então, sentam-se à mesa com os personagens do livro, sentem os cheiros, ouvem os sons.
      Conjura vai além da História e faz o leitor viajar no tempo e no espaço. É um romance que narra uma época gloriosa para Portugal mas também por isso dominada pela ambição e pelo medo, onde a conjura está sempre à espreita.


Novidade Presença

UMA COLUNA DE FOGO
de Ken Follett
Natal de 1558. O jovem Ned Willard regressa a Kingsbridge, e descobre que o seu mundo mudou.
      As velhas pedras da catedral de Kingsbridge contemplam uma cidade dividida pelo ódio de cariz religioso. A Europa vive tempos tumultuosos, em que os princípios fundamentais colidem de forma sangrenta com a amizade, a lealdade e o amor. Ned em breve dá consigo do lado oposto ao da rapariga com quem deseja casar, Margery Fitzgerald.
      Isabel Tudor sobe ao trono, e toda a Europa se vira contra a Inglaterra. A jovem rainha, perspicaz e determinada, cria desde logo o primeiro serviço secreto do reino, cuja missão é avisá-la de imediato de qualquer tentativa quer de conspiração para a assassinar, quer de revoltas e planos de invasão.
      Isabel sabe que a encantadora e voluntariosa Maria, rainha da Escócia, aguarda pela sua oportunidade em Paris. Maria foi proclamada herdeira legítima do trono de Inglaterra, e os seus apoiantes conspiram para se livrarem de Isabel.
      Tendo como pano de fundo este período turbulento, o amor entre Ned e Margery parece condenado, à medida que o extremismo ateia a violência através da Europa. Enquanto Isabel se esforça por se manter no trono e fazer prevalecer os seus princípios, protegida por um pequeno mas dedicado grupo de hábeis espiões e de corajosos agentes secretos, vai-se tornando claro que os verdadeiros inimigos - então como hoje - não são as religiões rivais. A batalha propriamente dita trava-se entre aqueles que defendem a tolerância e a concórdia e os tiranos que querem impor as suas ideias a todos, a qualquer custo.

A saga que encantou os milhares de leitores de Os Pilares da Terra e Um Mundo Sem Fim continua agora com Uma Coluna de Fogo.

Para mais informações sobre este livro, consulte o site da Editorial Presença aqui.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A Escolha do Jorge: "Quinzinzinzili"


"Se a razão é o auge da loucura, hoje quero ser eminentemente racional." (p. 15)

“Quinzinzinzili” do francês Régis Messac (1893-1945) é a mais recente proposta da Antígona que, à semelhança de outras obras do seu catálogo, apresenta pela primeira vez em língua portuguesa uma distopia para se juntar a “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” de George Orwell ou “Kallocaína” de Karin Boye.
      Publicado em 1935, “Quinzinzinzili” apresenta-nos um planeta numa era pós-apocalíptica, atendendo à visão do autor naquilo que percebia ser a conjugação das várias forças políticas e a tendência do Mundo à época. A guerra seria algo inevitável e percebem-se as manobras políticas no início da obra. Os donos do poder, os loucos que nada perdem em levar o mundo à sua destruição, mas que também nada ganham, no fundo. As alianças, as influências, os jogos de bastidores, a guerra que teve lugar, afinal de contas. Mas Régis Messac foi mais longe! Na sua (ante)visão, o autor, em tom bastante cómico e irónico, vai simplificar a vida a toda a gente, aos ditadores, aos políticos em geral e aos habitantes do planeta. A solução será mesmo aniquilar de vez com o planeta
graças à criação de um “gás hilariante” que destruirá por completo a humanidade e de preferência que a humanidade morra a rir. Assim aconteceu nesta narrativa. Salvaram-se umas dez pessoas, um tutor e os adolescentes que faziam uma visita de estudo algures por cavernas esconsas.
      A partir daqui assistimos ao ressurgimento da humanidade que se ergue a partir dos escombros, das sobras, das memórias daquilo que se chamava outrora civilização.
      Através de descrições que variam entre a comédia, o caricato, o absurdo e até o surreal, o narrador (o tutor) vai-nos dando conta das transformações linguísticas que têm lugar, os ajustamentos que são feitos a partir da nova realidade. Como será a humanidade no futuro? Estes jovens sobreviventes que são apontados pelo tutor como perfeitos idiotas, ignorantes e tudo o mais que não abona a seu respeito, questiona o tutor várias vezes se não teria sido preferível não ter sobrevivido ninguém ao “gás hilariante” porque, tendo em consideração os valores por que estes jovens se passam a reger, é lícito questionar como serão as gerações vindouras. Mais, em tom deveras cómico, será interessante perceber que estes sobreviventes serão olhados como os pré-históricos de toda uma civilização que agora se ergue das sombras ou escombros da anterior.
      Para além da linguagem, os jogos das palavras, o simbolismo, numa era pós-apocalíptica, há que prover aspectos essenciais à manutenção de toda uma geração, tais como, o alojamento, os mantimentos e a reprodução. Num contexto de sobrevivência, não deixa de ser interessante que a conjugação destas necessidades básicas, primárias e que remontam ao homem pré-histórico, articulam-se igualmente com a afirmação de certos indivíduos que acabam por se transformar em líderes do grupo. Um líder é necessário porque vai querer sobreviver não importando os seus actos no que concerne à luta pelos alimentos e pelo acasalamento ainda que sem uma perspectiva ou noção de família e reprodução em si mesmas. Os actos de sobrevivência são muito anteriores à moral e à ética. As inimizades geradas pelas questões de sobrevivência falam sempre mais alto e em primeiro lugar, acontecendo com naturalidade porque é algo inerente ao ser humano.
      Ousado, divertido, polémico e complexo, “Quinzinzinzili” apresenta-se como uma lufada de ar fresco no contexto das edições deste ano na medida em que leva o leitor a questionar a sociedade contemporânea e o mundo em que vive. Podemos até substituir os nomes que surgem no início da obra, anteriores ao “gás hilariante” e também, nós, podemos dar uma valente gargalhada se substituirmos esses nomes pelos nomes dos actuais líderes políticos a nível mundial, tentando assim compreender para onde caminhamos neste momento. Uma nova guerra ou uma ameaça apocalíptica, está tudo em aberto. O certo é que vivemos numa permanente “guerra fria” que ora esfria, ora torna-se mais acesa e intensa. Sejam quais forem os jogos e maquinações políticas, olhamos para trás e compreendemos que as democracias ocidentais promovem e legitimam elas próprias os seus loucos governantes que arrastam atrás de si toda a humanidade.
      Seja qual for o caminho que a humanidade esteja a trilhar, é sempre esse o destino que a mesma constrói, arrastando tudo e todos para um precipício maior ou menor, de construção ou de destruição. “Quinzinzinzili” é isso mesmo, é o questionar continuamente o destino da humanidade.

Excertos:
"Mas estou enganado. Completamente enganado. Morri, e as minhas ideias, os meus gostos, o meu ideal estético também morreram. Limito-me a sobreviver a mim próprio, a sobreviver a tudo o que eu era. Sou um sobrevivente das épocas pré-históricas, literalmente um fóssil vivo." (p. 107)
"Eu também sou uma personalidade importante. Num Estado que conta, por acaso, com sete habitantes no total. Mas que é tão vasto como o planeta inteiro.
Um Estado que não é melhor do que os outros. Mas que também não é pior, no fundo. A estupidez humana nunca muda. Não foi a extrema estupidez das personalidades importantes do antigo mundo que provocou a catástrofe responsável pelo novo mundo?
Em suma, o meu título de Guardião do Isqueiro vale tanto como qualquer outro.
(…)
Quando penso no futuro, vejo um novo calvário colectivo, uma nova ascensão penosa e dolorosa em direcção a um paraíso ilusório, uma longa série de crimes, de horrores e de sofrimentos.” (pp. 136-137, 157)

Texto elaborado por Jorge Navarro

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Para os mais pequeninos: "Mog e o Bebé"

Um livro muito apelativo este, com desenhos bem simpáticos e coloridos, destacados pelo fundo branco das páginas que os faz realçar.

Com uma história simples própria para crianças pequenas, onde o movimento é criado pelos desenhos, o gato Mog é o principal protagonista. 

A imaginaçāo da criança é estimulada. Uma história para ser contada, umas páginas para serem folheadas com prazer. Por quem a lê. Por quem a ouve.





Cris

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

"A Catedral do Mar" de Ildefonso Falcones

Sabem quando acabam uma refeiçāo boa e só vos apetece fechar os olhos e saborear outra vez o que acabaram de comer embora estejam cheios, empanturrados até? Foi com essa sensaçāo que os meus olhos se mantiveram fechados, tentando absorver de novo todas as 730 páginas que acabara de ler. Para as saborear e para vos falar delas.
      Uma recriaçāo fantástica, que conseguimos visualizar perfeitamente, de uma época que acompanha a construçāo da Igreja de Santa Maria del Mar, em Barcelona, uma igreja construida pelo povo e para o povo. Desde 1320 a 1384 seguimos com paixāo a vida de Bernat Estanyol e seu filho, Arnau. E digo com paixāo porque logo nas primeiras páginas torna-se muito fácil mergulhar no livro: o direito (facto verídico) de um Senhor dormir com a noiva do seu servo transforma o casamento de Bernat num verdadeiro inferno. E prende por completo a nossa atençāo. O seu casamento, como era de prever, sofreu danos irreparáveis e seu filho, Arnau, apegou-se à imagem da Virgem Maria desde cedo, e esse amor vai acompanhá-lo toda a sua vida.
      Depois é um suceder rápido de acontecimentos, todos cinematográficos, tal é a forma como sāo descritos, que nos colocam na Barcelona de entāo. Os conflitos entre servos e senhores, as sentenças reais que confinavam as mulheres a um casebre sem poder ver a luz do dia, acusadas de adultério (ou suspeita), o facto dos autores de estupro poderem casar com as suas vítimas, a vida dura dos bastaixos, carregadores de pedra para a construçāo das igrejas, as execuçōes, as revoltas do povo de Barcelona, a vida dos cambistas, das prostitutas da época, os ataques aos judeus acusados de celebraçōes heréticas, a Inquisiçāo e os seus ardis para obterem confissōes e ficarem com a riqueza de quem era acusado e o fanatismo religioso, o poder da host de Barcelona (a populaçāo juntava-se em massa para acudir alguém que era alvo de uma injustiça), a peste e as suas terríveis consequências e tantas, mas tantas coisas mais, fazem deste romance uma obra que precisa de ser lida.
      Suficientemente envolvente para ser lido de rajada, nāo fora o seu peso que impossibilita o seu transporte, é o livro ideal para uma leitura de um fim de semana alargado. Prende, arrepia e faz-nos pensar. Nota máxima. Espero ter oportunidade de, em breve, ler a continuaçāo desta obra escrita ao fim de 10 anos, Os Herdeiros da Terra.

Terminado a 9 de Setembro de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
Século XIV. A cidade de Barcelona encontra-se no auge da prosperidade; cresceu até ao humilde bairro dos pescadores, cujos habitantes decidem construir, com o dinheiro de uns e o esforço de outros, o maior templo mariano conhecido: Santa Maria do Mar. Uma construção paralela à desditosa história de Arnau, um servo da terra que foge dos abusos do seu senhor feudal e que se refugia em Barcelona. Daqui se torna cidadão e, assim, num homem livre. O jovem Arnau trabalha como estivador, palafreneiro, soldado e cambista. Uma vida extenuante, sempre à sombra da Catedral do Mar, que o tirará da condição miserável de fugitivo para lhe dar nobreza e riqueza. Mas com esta posição privilegiada chega também a inveja dos seus pares, que tramam uma sórdida conspiração que põe a sua vida nas mãos da Inquisição... Lealdade e vingança, traição e amor, guerra e peste, num mundo marcado pela intolerância religiosa, a ambição material e a segregação social. Um romance absorvente, mas também uma fascinante e ambiciosa recreação das luzes e sombras do mundo feudal.

Cris

sábado, 9 de setembro de 2017

Na minha caixa de correio

  

 

 

Dos passatempos do JN chegaram: Amália e Danos Colaterais
Oferta da Porto Editora, Um Mais Um.
Oferta da Saída de Emergência, um livro maravilhoso com contos de Poe e ilustrado por artistas portugueses.
Oferta da Editorial Presença, O Efeito Rosie. A minha leitura do momento.
Oferta da Booksmile, dois livros infantis, lindos de morrer: Mog e o Bebé e Mog e a Gata Esquecida.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"Os Falsários" de Bradford Morrow

Quem gosta de livros e de ler fica facilmente encantado com a perspectiva de uma leitura em que os personagens dum livro adorem livros. Foi isso que me atraiu neste livro, pese embora o título deixasse antever uma trama onde a honestidade, ou melhor, a falta dela fosse a premissa principal.

Escrito na primeira pessoa, este livro é um narrar de acontecimentos visto pela perspectiva de Will, um colecionador de livros que, pelo seu hábil manejar da caneta, elabora algumas falsificaçōes de dedicatórias fazendo com que o valor das obras falsificadas aumente muito, lucrando bastante com isso, claro está. Isto, contado assim, a seco, nāo é revelador do quanto esta personagem se torna simpática aos olhos do leitor, o que nos leva a desculpabilizá-lo por essa actividade tāo pouco condizente com a paixāo pelos livros que todo o leitor possui...

Uma morte horrível, um assassínio, é o mote e o começo desta obra que prende de imediato o interesse do leitor. Interesse que, sabiamente, o autor soube manter até ao final. Posso afirmar que o livro possui muito do que me agrada num livro: romance e suspense.

O assassino? Ainda desconfiei dele a meio o livro mas depois fui abandonando tal ideia... O final? Muito boooom!

Uma boa aposta do Clube do Autor que recomendo sem reservas!

Terminado em 26 de Agosto de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
Na tradição dos policiais de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, um romance misterioso e profundo sobre o fascínio do colecionismo e o lado sombrio do comércio de livros raros. O que acontece quando mentimos tão bem que perdemos a noção do que é real? Numa prosa magnificamente cuidada, Bradford Morrow traça uma linha débil entre o devaneio e a intuição, a memória e a ficção autoilusória, entre o amor verdadeiro e o falso. Uma comunidade bibliófila é abalada com a notícia de que Adam, um colecionador de livros raros, foi atacado e as suas mãos decepadas. Sem suspeitos, a polícia não consegue avançar no caso, e a irmã procura desesperadamente uma pista. Ao longo das páginas repletas de mistério e simbologias, escritores famosos e citações brilhantes, Will, cunhado e colega de profissão de Adam Diehl, tenta obter uma resposta e, ao mesmo tempo, escapar às ameaças do misterioso «Henry James». Consciente do simbolismo do caso, ele sabe que um homem sem mãos se vê privado do instrumento mais precioso quando se trata de imitar a caligrafia de William Faulkner, James Joyce, Conan Doyle e outros que tais. Na verdade, Will, ele próprio genial falsário, talvez saiba demais.

Cris

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

"Mulheres Sem Nome" de Martha Hall Kelly

Este livro é brilhante! Poucas sāo as palavras necessárias para o descrever e este adjectivo "cai-lhe que nem uma luva", como se costuma dizer...

Baseando-se em factos reais mas também em pessoas que de facto existiram e com uma intensa pesquisa histórica sobre sobre a vida de Caroline Ferriday e de Herta Oberheuser, a autora construiu uma trama muito envolvente nāo só sobre uma das épocas mais terríveis da História - o Holocausto - mas também das dificuldades sentidas no pós guerra sobretudo pelos povo polaco. Como é sabido a Polónia, após a acupaçāo alemā, viu-se a braços com um sistema que nāo tinha nada de democrático. O país tornou-se no pós guerra num "estado satélite" do "império soviético", o que impediu que os prisioneiros polacos regressados ao país conseguissem retomar as suas vidas sem medo e com as ajudas necessárias e merecidas.


Um relato impressionante e muito real do que foi Ravensbrück, um campo de concentraçāo exclusivamente  para mulheres e das experiências médicas aí realizadas nas "Coelhas polacas", nome dado a setenta quatro mulheres que serviram de cobaias. 


Uma leitura forte que recomento a todos, sem qualquer reserva. 


Terminado em 23 de Agosto de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse

Bestseller do New York Times Nomeado para o Goodreads Choice Award nas categorias de Melhor Romance Histórico e Melhor Estreia de Autor Inspirado nas memórias verídicas de uma heroína da Segunda Guerra Mundial, este romance conta-nos uma história de amor, redenção e de segredos que estavam escondidos há décadas. Vivendo na alta sociedade de Nova Iorque, Caroline Ferriday não tem mãos a medir com o seu cargo no consulado francês e um novo amor no horizonte. Mas o seu mundo muda para sempre quando o exercito de Hitler invade a Polónia em setembro de 1939 – e começa a ameaçar a França. No outro lado do oceano, Kasia Kuzmerick, uma adolescente polaca envolvida no movimento clandestino da resistência, pressente que a sua vida de adolescente despreocupada está a chegar ao fim. Num ambiente tenso e alerta, com vizinhos desconfiados, um passo em falso pode ter consequências terríveis. Para a jovem médica alemã, Herta Oberheuser, um anúncio governamental parece-lhe a melhor oportunidade para construir a sua carreira e deixar a sua vida destruída para trás. No entanto, assim que é contratada dá por si emprisionada num universo de homens, dominado por segredos e pelo poder nazi. As vidas destas três mulheres entram em colisão quando o impensável acontece e Kasia é enviada para Ravensbrück, o conhecido campo de concentração nazi para mulheres. As suas histórias atravessam continentes – de Nova Iorque para Paris, Alemanha e Polónia –enquanto Caroline e Kasia lutam para trazer justiça àqueles que foram esquecidos pela História. Martha Hall Kelly nasceu em Nova Inglaterra, mas tornou-se nómada, dividindo o seu tempo entre Nova Iorque, Atlanta e Geórgia. Trabalhou em publicidade durante muitos anos e criou três crianças magníficas enquanto investigava para escrever Mulheres sem Nome, o seu primeiro livro.
Cris

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

"O Castelo de Vidro" de Jeannette Walls

Adorei esta leitura! Ainda estou a "quente" quando escrevo sobre ela e as palavras que me surgem sāo "que vida incrível" e "se me contassem nāo acreditaria que tudo isso realmente aconteceu"!
      Creio que posso afirmar que a família da autora foi tudo menos "normal" e, no entanto, nāo consigo explicar-vos exatamente o que de diferente ela possuia. Acho que o que a definiu foram os contrastes tāo profundos existentes nos seus dois progenitores. Se por um lado educaram os filhos na lei do desenrasca, onde nāo eram convenientemente supridas as suas necessidades básicas (estou a falar de comida e roupas mesmo!) por outro, estiveram sempre em vantagem em relaçāo aos seus amigos pois ambos os progenitores tinham um espírito de aventura, de conhecimentos e educaçāo superiores aos demais, o que lhes permitiu conversa e debates ricos, uma vida ao ar livre..... Porém, o desleixe com que sāo criados, as dificuldades económicas que rasavam a mendicidade, a mudança constante de lugar onde viviam, a vergonha que sentiram muitas vezes pelas atitudes destrutivas dos pais, os seus sonhos irreais e patéticos, fizeram-nos (à autora e seus três irmāos) desejar abandonar essa família disfuncional e cuidar da suas próprias vidas. Longe dos pais. 
      Um pai que amavam mas que era alcoólico e que nos momentos de crise os abandonava mas também, um pai que lhes dava amor e conhecimento quando sóbrio. Uma māe artista, que os ajudava a serem fortes e a vencerem as dificuldades mas também uma māe que nāo lhes sabia dar conforto nem segurança. O Amor e a Loucura. O Saber e a Pobreza. Lado a lado.
      Um relato apaixonante e corajoso, autobiográfico, que recomendo vivamente! Uma leitura que, de tāo viciante, se lê numa pernada! Nota máxima!

Terminado em 18 de Agosto de 2017

Estrelas: 6*

Sinopse
Durante duas décadas, Jeannette Walls, uma conhecida jornalista nova-iorquina, bonita, brilhante e bem sucedida, escondera as suas raízes. Crescera com pais cujos ideais e inconformismo foram ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição para eles e para os filhos. Rex e Rose Mary Walls tiveram quatro filhos. No princípio, viviam como nómadas, mudando de uma cidade para a outra, habitando velhos armazéns abandonados ou acampando nas montanhas.
Jeannette, as duas irmãs e o irmão tinham de sobreviver sozinhos, tentando arranjar comida, limpando a casa e encorajando os pais a trabalhar, enquanto se amparavam mutuamente e procuravam dar alguma normalidade à vida errática a que eram forçados.
      Mas, ao contrário do que se poderia pensar, a história narrada em O Castelo de Vidro não é uma história infeliz. Contada sem dramatismo, é uma história de triunfo sobre a adversidade, mas também uma narrativa comovente sobre o amor incondicional por uma família que, não obstante as suas profundas falhas, lhe deu a firme determinação para construir uma vida bem sucedida.

Cris

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Resultado do Passatempo 3000 Seguidores - Saída de Emergência


O vencedor escolhido pela editora foi:
Silvana Martins
de Fafe

Com:

Diário de D. Leonor
Janeiro de 1492
É difícil superar a dor de não te poder prender nos meus braços, querido filho. É ainda mais difícil quando o inverno de dor habita no meu coração e não tenho aqui o teu pai para transformar este inverno numa primavera amena onde as recordações já não doem tanto.
As dúvidas em relação à forma como Deus decidiu arrancar-te dos meus braços persistem, deixando-me o gosto amargo de não conseguir um culpado.
E se não tiver sido um acidente? Serei um eterna pecadora por guardar tanta raiva e sede de vingança dentro de mim.
Tenho saudades do cheiro de criança cheia de vida. Saudades de acariciar a tua pele suave e rosada.
Continuarei a lembrar-me de ti e guardarei sempre algumas palavras para ti neste meu diário. Sei que ao lembrar-te através das palavras continuarás a viver dentro de mim.
E assim me vou arrastando pelo palácio. Fingindo a perfeição dentro da imperfeição que vive dentro de mim, a rainha perfeitíssima.
Um dia sei que esta dor que me torna imperfeita, vazia, como se metade de mim estivesse perdida pelos vales e montanhas do reino, será mais ténue. Aí as recordações serão como os dias amenos de primavera. Porém, jamais conseguirei apagar de dentro de mim o amor que nasceu e cresceu contigo, meu filho.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"Terra de Espíritos" de Jodi Picoult

Peguem em dois ou três factos verídicos (entre os quais a doença dermatológica denominada de Xeroderma Pigmentoso e na Lei de Estirilizaçāo do Vermont de 1931); peguem na crença que sustenta a existência de fantasmas ou almas que ainda nāo partiram definitivamente deste mundo; inventem personagens que vos atraiam, de tāo bem construídos que estāo; misturem com algumas mortes e mistérios por resolver, uma pitadinha de suspense e uma boa dose de romance e... Nāo, nāo conseguiriam escrever um livro como este!

Sendo da Jodi Picoult, para mim, este livro era uma aposta ganha, mesmo tratando-se de um tema algo insólito nas minhas leituras. Confesso-vos que li as primeiras 200 páginas com a ideia de continuar até ao fim porque se tratava desta escritora. Nāo estava a captar a essência da história e o ritmo de leitura decorreu devagar, devagarinho (como nāo gosto de fazer!). Achei que algo teria de mudar ou a autora nāo se chamasse Jodi Picoult.

A leitura decorreu lenta porque sāo muitos detalhes e a nossa atençāo precisa de ser chamada a intervir frequentemente. Mas nas 300 e tal páginas que se seguem o milagre deu-se, como esperei desde sempre. A trama é sabiamente conduzida, as (muitas) personagens agem independentemente dos nossos desejos e a magia acontece. Mesmo nāo sendo fā de livros onde o sobrenatural está presente, tenho de admitir que esta leitura superou em muito as minhas expectativas. Foi concerteza um porto seguro.

Continuo fā, Jodi! Que venha outro!

Terminado a 15 de Agosto de 2017

Estrelas: 5*

Sinopse
Numa pequena cidade do Vermont, uma parcela de terra é posta à venda levantando uma onda de protestos. Segundo os índios Abenaki, naquele terreno situa-se um ancestral cemitério índio. Para os acalmar, o investidor que ali pretende fazer um centro comercial contrata Ross Wakeman, um investigador do paranormal. Ross tentou o suicídio por diversas vezes, na esperança de se ir juntar a Aimee, a noiva que morrera oito anos antes. Mas após diversas noites a investigar, tudo o que Ross encontra é Lia Beaumont, uma mulher misteriosa que, tal como Ross, pretende desafiar as fronteiras que separam a vida da morte.
      Assim tem início uma extraordinária história de amor e de destino, marcada por um crime passional. Jodi Picoult centra-se numa parte obscura e pouco conhecida da história norte-americana, o projeto eugénico dos anos 30, para neste contexto explorar a maneira como as coisas voltam para nos assombrar - tanto literal como figurativamente.

Cris

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A Convidada escolhe: "Uma Esperança mais Forte do que o Mar"

      Este não é um romance. É um relato de vida. Um relato de uma sobrevivente e um grito de esperança. Um relato duro cuja leitura, por vezes, temos de parar para respirar…
      Quando, sobretudo desde 2014 se começa a falar da crise dos refugiados e somos diariamente confrontados com imagens de milhares de homens, mulheres e crianças que chegam exaustos à Europa, movidos pela esperança de abrigo e de um recomeço, depois de terem sido obrigados a fugir da guerra, da violência e da fome, como reagimos? Que sentimentos aquelas multidões nos provocam? O que vemos: uma multidão indistinta ou pessoas concretas com nome, com uma história de vida, com família, com um passado, com sentimentos? Até que ponto a repetição das mesmas imagens, por muito pavorosas que sejam, não está a criar em nós tão longe dessa guerra, um sentimento de impotência, de indiferença, de desumanização? Cidades em escombros irreconhecíveis, barcos apinhados de gente à mercê de máfias de traficantes, corpos inchados a boiar num mar que se transformou num cemitério, cadáveres em decomposição arremessados para as praias paradisíacas das ilhas gregas, crianças à deriva separadas dos familiares, mulheres grávidas que arriscaram tudo, gente doente, desidratada, que deixou a sua vida para trás mas que ainda acredita que há uma vida depois de atravessado aquele mar. 
      Melissa Fleming, a autora deste livro, conheceu inúmeras histórias de refugiados com que se cruzou na sua actividade. Um dia conheceu Doaa, um caso de sobrevivência e altruísmo, muito mediatizado na altura pelo facto de ser uma de onze sobreviventes em quinhentas pessoas numa viagem fatídica desde o Egipto até Itália. Acompanhada de Bassem, o noivo, o seu destino era a Suécia onde pensavam casar e constituir família. Após várias tentativas frustradas, finalmente conseguiram embarcar numa viagem dramática como são todas as viagens que diariamente são empreendidas por milhares de seres humanos provenientes da Síria, da Palestina, do Sudão, da Somália, da Eritreia. Mas o que tornou o caso de Doaa um caso para o qual os media olharam foi o facto de esta jovem franzina ter conseguido sobreviver e lutado pela sobrevivência de duas crianças cujos familiares morreram afogados. Em quinhentas pessoas, só onze sobreviveram entre as quais Doaa, Malak uma bebé palestina de 9 meses e Masa com 18 meses.
      Melissa Fleming, na sua posição privilegiada de directora de Comunicação e porta-voz do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, sentiu que tinha de dar voz a esta mulher sobrevivente. Doaa Al Zamel, 19 anos, refugiada síria, sozinha na Europa para onde tinha ido por insistência do noivo que morrera afogado, longe dos pais e irmãos e irmãs refugiados no Egipto, na Jordânia e no Líbano. Doaa podia ser qualquer um/a de nós. Também ela tinha tido uma infância feliz, no seio de uma família síria tradicional a viver na cidade de Daraa. Teimosa, sonhava ser independente e não queria estar ligada à sujeição de uma figura masculina como é tradicional na sociedade síria. Doaa tinha 16 anos quando a sua cidade foi cercada pelas forças fiéis ao presidente Assad, aquele de quem a população desejosa de liberdade esperava uma outra atitude de maior abertura e democracia, muito diferente do regime do pai Hafez al-Assad que mantinha o país em estado de emergência desde 1963. 
      A vontade de Doaa de se juntar aos manifestantes que exigiam reformas democráticas foi abruptamente barrada pela violência do cerco a Daraa. O arbítrio dos guardas fiéis ao regime de Assad, as buscas constantes às casas, as violações, os raptos e a violência dirigida sobretudo às mulheres e às meninas levam a família de Doaa, como muitos milhares de outras famílias a abandonar as suas casas e a fugir para a Jordânia, Líbano e para o Egipto. A guerra na Síria obrigou metade da população a abandonar as suas casas, mais de cinco milhões refugiaram-se no estrangeiro, sobretudo nos países vizinhos e mais de seis milhões e meio foram obrigados a deslocar-se dentro do próprio país, pelo que em 2016 a Síria era a maior população de deslocados do mundo.
      Se os países vizinhos que têm acolhido os refugiados sírios e palestinos têm sido de uma imensa generosidade e solidariedade, repartindo o pouco que têm, a primeira impressão de bom acolhimento e solidariedade dos egípcios em relação à família Al Zamel também vai alterar-se. O Egipto vive também uma situação de grande instabilidade. As mudanças prometidas por Morsi, após o derrube de Mubarak não acontecem. Morsi é deposto na sequência de violentas manifestações e a atitude dos egípcios face aos refugiados sírios altera-se. O acolhimento deu lugar à ameaça. A esperança de vida na Síria que tinha sido deixada para trás e que se afigurava cada vez mais remota, com o surgimento de forças como o Estado Islâmico, torna aquele região do mundo um verdadeiro caos. “Não há futuro para nós!” era o pensamento de Doaa. Era o pensamento de todos os refugiados sírios espalhados por aqueles países vizinhos. 
      O desespero leva a olhar para o Mediterrâneo como a única porta para a salvação. 
      O desespero, a solidariedade, a fé e a esperança são os traços fortes deste livro. 
      Doaa é um caso de sobrevivência no meio de milhões e é muito positivo que possa ser relatado e amplamente difundido como sinal da enorme capacidade de resistência do ser humano. Mas e, sobretudo, penso que neste livro falta uma abordagem sobre a origem da guerra, das guerras e do dinheiro que corre e que se alimenta delas e que faz com que as guerras não tenham fim. Porque as guerras têm donos que vivem delas. Só de forma muito leve há uma referência aos muros de arame farpado que se levantam na Europa e aos milhões com que a UE subsidia o governo da Turquia para conter os refugiados que chegam e para os recambiar aos países de origem de onde fogem da fome, da guerra e da violência. 
      Os refugiados não são refugiados por gosto. São refugiados porque foram obrigados a sê-lo. A Declaração Universal dos Direitos Humanos consagra o direito à deslocação do território de origem por motivos de direito à vida e à integridade física. 

Mouriscas, Agosto de 2017
Almerinda Bento

sábado, 12 de agosto de 2017

Na minha caixa de correio

  

  

Comprados em 2a māo:
- O Meu Plano do Bem, A Rapariga do Casaco Azul e Māo Morta.
Ofertados pelas editoras:
- Filosofar e Meditar com as Crianças, O Castelo de Vidro e O Jardim das Borboletas- Suma de Letras
- Os Falsários - Clube do Autor

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

"O Meu Segredo" de Kathryn Hughes

Pensei ter lido desta autora o seu livro anterior, A Carta, mas confundi com outro com o mesmo título que lera e de que gostara muito. No entanto, foi uma leitura muito agradável. Posso dizer-vos que é um romance leve, pese embora seja marcado por trágicos acontecimentos. E digo leve, porque achei desde o início que ia acabar bem. 

Sāo muitos os personagens e a rede de histórias que mais tarde se entrelaça é grande também, mas em momento algum senti que estava perdida ou que devesse ser de outra forma. Gostei desse facto e de saltitar de momento temporal com alguma frequência.

Os personagens, bem descritos, criam empatia imediata com o leitor. Os segredos mantêm-se até ao final da leitura e isso é um facto que, inegavelmente, prende e mantém a atençāo de quem lê. O mote é lançado quando se percebe que a busca de um dador de rim para o pequeno Jake vai percorrer todas as páginas do livro. Os pais procuram nos familiares mais próximos alguém que seja compatível mas nāo estavam preparados para os segredos que iriam descobrir.

Um enredo pensado ao pormenor onde nāo encontrei falhas! Recomendo!

Terminado em 7 de Agosto de 2017

Estrelas: 4*+

Sinopse
Há quarenta anos, foi guardado um segredo que alterou a vida de duas mulheres para sempre.

Todos os dias, ao olhar para o filho Jake, deitado numa cama de hospital, Beth agarra-se a uma réstia de esperança que insiste em fugir. A sua vida, ainda tão curta, depende de um transplante de rim. Nem ela, nem o marido, são compatíveis e já não têm familiares diretos.

Mary, a mãe solteira de Beth, acaba de falecer e sempre se recusou a falar sobre o pai, mesmo sabendo que a vida do neto podia depender disso. Mas tudo muda quando Beth visita a casa da mãe. Uma carta perdida no meio das coisas de Mary prova que Beth é sua filha adotiva. A possibilidade de encontrar parentes compatíveis com Jake torna-se real para Beth.

Este é o ponto de partida para a descoberta de um passado até então desconhecido. Munida apenas da sua determinação e das escassas palavras encontradas, Beth inicia uma luta contra um muro de segredos, dúvidas e silêncios.

Cris

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A convidada escolhe: A Gorda

      Um livro surpreendente, sincero, corajoso, divertido, profundamente humano. Logo após uma “epígrafe sonora” constituída por uma lista de grandes músicas e artistas desde Nina Simone (1965) a Lana del Rey (2012), passando por António Variações ou Jorge Palma, o/a leitor/a é confrontado com a seguinte advertência “Todas as personagens, geografias e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade”. O facto de a autora e a narradora serem oriundas de Moçambique, serem professoras e viverem na margem sul do Tejo fazem-nos questionar ao longo da leitura do romance, onde começa a ficção e acaba a realidade. Pouco importa. O prazer da leitura é imenso.
      O primeiro capítulo - Porta de Entrada – é a primeira das várias divisões da casa na Outra Banda que os pais da narradora – Maria Luísa – compraram quando regressaram de Moçambique. Cada capítulo uma divisão, um território, um mundo de memórias, de afectos, de marcas da personalidade dos que lá habitam. A “mamã” e o “papá”, o David, a cadela, as mobílias de Moçambique que atravancam as divisões, impossíveis de ser transpostas dum espaço amplo lá longe em África para um apartamento do subúrbio de Lisboa, já para não falar do filodendro que invade a sala de estar… todos os detalhes que nos permitem imaginar as divisões da casa, até ao hall, último capítulo e afinal o local de todas as passagens, o único espaço da casa que não pode ser evitado.
      Como é previsível pelo próprio título “A Gorda”, a questão do corpo, que tem de ser belo para ser socialmente aceitável, é o centro deste livro. Senão, o ferrete da gordura/fealdade discrimina e menoriza na escola, nas festas, nas amizades desde criança e ao longo da vida. Como se sobrevive quando se é apelidado de “baleia”, “baleia azul”, “monstro”, “orca a fúria dos mares”, “bola de Berlim”, “barril de sebo”, “boneco Michelin” ou quando os amigos do namorado o gozam por namorar aquela gorda? De que lhe valia ser a melhor aluna, se a própria colega do colégio, um ideal de beleza e também ela retornada, a tratava como criada? Feia, gorda e míope, longe dos pais, primeiro a viver com uma avó e depois com uma tia, antes de ficar interna num colégio, é na fase da adolescência que estes aspectos se tornam mais críticos. O segredo é sobreviver quando se vê como “um trambolho acima do peso. Como disfarçar a carne que sai de mim por todo o lado? Como esconder o corpo?” É uma luta contra o corpo, contra a sociedade que discrimina, persistentemente ao longo da vida, resistindo, sobrevivendo, não vergando.
      Livro corajoso, porque a narradora “despe-se”, expõe os seus sentimentos, as suas frustrações e desilusões amorosas. O grande vazio com o fim do namoro que só a escrita consegue apaziguar. “Sem escrita não podia haver vida” diz Maria Luísa a certa altura. Mas divertido, com descrições e linguagem viva, directa e extremamente divertida, em que seguimos o crescimento e a vida de Maria Luísa com referências à sociedade da altura, às telenovelas da moda, ao desastre de Camarate com a morte de Sá Carneiro e Snu Abecassis, a música e os grupos da época; a política dos anos 80 com referências a Mário Soares, Freitas do Amaral e Maria de Lurdes Pintasilgo, o desastre de Chernobyl e a queda das Torres Gémeas. E mais tarde, os anos de Sócrates em que “o ensino público é destruído a golpes de picareta”. A autora não se poupa a criticar o mal-estar que invadiu as escolas e que persiste nos dias de hoje com o excesso de burocracia e de papelada que as desumanizou e perverteu. E por fim, o ano de 2014 em que Portugal vive sufocado pela ingerência da Troika. Estas referências dão uma grande vivacidade às descrições que ficam enquadradas num pano de fundo histórico em que os/as leitores/as se identificam e revêem.
      A presença forte da “mamã” e a ambivalência dos sentimentos que a sua personalidade gera quando Maria Luísa fala dela: amor/desamor, liberdade/sujeição, tão bem expresso a certa altura neste desabafo: “Morre”! Não morras!” É essa complexidade de sentimentos que me leva a considerar este livro muito sincero e profundamente humano, surpreendente porque não permite que o/a leitor/a se acomode a clichés ou cenários pré-concebidos.
      Maria Luísa supera o preconceito social relativamente à sua condição física, assumindo-a positivamente e aceitando-a como marca própria. Não desiste dos seus sonhos e luta até ao fim para ser amada. Luta pelo direito à felicidade e essa é possivelmente uma das conclusões que “A Gorda” nos permite tirar: a busca da felicidade é algo que está em cada um de nós e que por muito difícil que seja alcançá-la, não se deve desistir nunca.

Obrigada Isabela Figueiredo!

Julho de 17

Almerinda Bento

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"O Vale dos Cinco Leões" de Ken Follett

Se nāo conhecesse já a escrita de Ken Follett e a diversidade dos temas, tratados com mestria por este autor, poderia ficar surpreendida ao terminar este livro. Tudo o que nele encontrei já o esperava ou, pelo menos, nāo constituiu uma total surpresa. Mesmo assim, conseguiu deixar-me inquieta, ofegante nalgumas partes e completamente maravilhada com os pormenores, os detalhes que nāo foram descurados, o estudo que se revela por detrás deles, as situaçōes que sabemos fictícias mas consideramos reais. 

Desta feita a acçāo passa-se maioritariamente no Afeganistāo e somos catapultados para um cenário de guerrilha onde culturas diferentes, jogos de poder e de força lutam entre si. Pelo meio, um triângulo amoroso que confere à narrativa um toque de doçura, para contrabalançar as situações de mortes e terror que sāo sabiamente descritas.

Ken Follett é um porto seguro onde voltarei certamente mais vezes. Recomendo!

Terminado em 3 de Agosto de 2017

Estrelas: 5*

Sinopse
Jane entra num perigoso triângulo amoroso, de que fazem parte dois espiões rivais, Ellis e Jean-Pierre.
Amor, ódio e traição envolvem cada um deles em conspirações terroristas desde Paris até ao Afeganistão, para onde Jane e Jean-Pierre, que, entretanto, se tornam marido e mulher, vão atuar como médicos junto dos rebeldes que lutam contra os invasores soviéticos.
Jane acaba por se ver vítima de extrema violência e tenta desesperadamente escapar da linha de fogo. A ajuda chega por fim, vinda de quem menos se esperava...
Um thriller romântico, com suspense e ação permanentes, escrito por um dos grandes mestres da ficção contemporânea.

Cris

domingo, 6 de agosto de 2017

Ao Domingo com... Ângela Roque

      A rádio sempre fez parte da minha vida. Na casa dos meus pais e avós já marcava os dias, muito mais do que a televisão. Estava eu e eles tão longe de imaginar que um dia a rádio se transformaria na minha vida!
      Em criança o sonho que tinha para mim passava pelas telas, aguarelas e pincéis. E por desenhar projectos para mobílias, casas, bairros inteiros. Felicidade parecida só a encontrava nos livros que lia, e nos que pensava um dia escrever. Um sonho deu lugar a outro, e foi nesse espaço de tempo que tropecei na rádio. No jornalismo em rádio. E apaixonei-me. Até hoje.
      Há 29 anos que sou jornalista na rádio, o meio de comunicação que considero mais próximo das pessoas. O que mais exige aos jornalistas que sejam claros, sucintos, que esclareçam e não confundam, que usem as palavras com rigor, mas também com a delicadeza e sensibilidade necessárias para que quem ouve possa ter a imagem sonora do que é relatado...
      Em quase três décadas de jornalismo fiz coisas diversas: acompanhei a área de educação e ensino superior durante uma década, também me dediquei à bioética e às ciências da vida, fui repórter parlamentar e perdi a conta às reportagens, entrevistas e noticiários que fiz, tanto na Renascença como na RFM. Em 2009 assumi a editoria de religião da RR, o que tem permitido que me dedique aos temas mais de âmbito social, de solidariedade e ligados à vida da Igreja, e me tem dado o privilégio de conhecer gente especial, que deixa marca, que faz a diferença. E não me refiro a figuras públicas. Falo sobretudo dos anónimos que nos esmagam pelo exemplo de generosidade, empenho e dedicação aos outros. E foram tantos os que ouvi ao longo dos últimos três anos em espaços informativos que permitem ouvir, conversar sem pressa!
      Este ano senti uma súbita vontade de partilhar com mais pessoas essas conversas que fui tendo na rádio com "gente feliz com fé". Foi assim que surgiu a ideia de o fazer em livro. E com esse título.
      O livro foi publicado em Junho. Reúne 35 conversas com 41 convidados. Não lhes chamo entrev istas porque algumas são conversas a dois e a três, uma delas até a quatro. Testemunhos de gente que está com a "mão na massa", no terreno, a lutar contra a pobreza e o tráfico humano, a ajudar presos, refugiados ou doentes mentais, gente que olha e pensa o mundo à luz da sua fé em Deus, gente que não se envergonha de assumir publicamente que é crente. Muitos são sacerdotes, missionários ou religiosas, sim, mas a maioria são leigos, das mais variadas áreas.
      Não tenho pretensões literárias com este livro que resulta da minha actividade diária, do meu critério jornalístico e do meu olhar cristão pela actualidade, que não quer "pintar" a realidade a cor de rosa, mas mostra que ela também não é só a preto e branco, e que há uma riqueza imensa na paleta de cores com que pode ser mostrada.
      Neste livro, que não é meu mas de todos os que nele conversam, procuro também contrariar o preconceito mostrando a diversidade e riqueza que há na Igreja, que não é uma realidade abstrata, ou um edifício, mas todas as pessoas que a compõem. Que o seu exemplo e os seus testemunhos sejam inspiradores para quem os ler.

Ângela Roque

sábado, 5 de agosto de 2017

Na minha caixa de correio

 


Ofertados pelas editoras, esta semana chegaram:

Mulheres Sem Nome,  Almedina
O Meu Segredo e Uma Perfeita Estranha, Topseller.