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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A Escolha do Jorge: Cláudio e Constantino

"Cláudio e Constantino" é o mais recente livro de Luísa Costa Gomes (n. 1954) após a edição de "Ilusão (ou o que quiserem)" de 2009 que lhe valeu no ano seguinte a atribuição do Prémio Literário Fernando Namora/Estoril Sol.
"Cláudio e Constantino" é um livro singular na medida em que ao iniciarmos a leitura rapidamente nos apercebemos que o espaço, o tempo e o próprio modo como decorre a narrativa (se é que podemos falar efetivamente nesses termos) são diferentes daquilo que estamos habituados num romance.
Passado numa área rural, numa propriedade de uma família tradicional e com posses, os irmãos Cláudio e Constantino deparam-se no dia-a-dia com questões que remetem para alguns dos paradoxos clássicos da história da filosofia, brincando, desse modo, com as palavras.
Nós próprios, não poucas vezes, não nos damos da forma como construímos as frases, não dando importância ao efetivo significado das palavras. A partir do momento em que as conversas são direcionadas no sentido de alcançar alguma verdade absoluta, é precisamente aí que somos confrontados com essa (quase) impossibilidade dada a equivocidade da linguagem.
Não podemos ler esta obra com a ideia de se tratar de uma obra mais ou menos verosímil dado que rapidamente percebemos que "Cláudio e Constantino" nunca existiriam nos termos aqui apresentados, mas, neste contexto, é a premissa necessária utilizada pela autora para, de forma mais ingénua, fazer uma tentativa de apropriação do real e da própria linguagem de modo que dá a sensação que nos apresenta crianças com uma forma de pensar adulta e adultos um tanto infantis. Aqui a ideia é levar os adultos a pensar sobre que domínio têm da linguagem, assim como o modo como comunicam com as crianças e jovens e vice-versa.
Mesmo para quem diga que não aprecia a Filosofia ou que não tem muita paciência para abordar certos assuntos, "Cláudio e Constantino" delicia(m)-nos logo nas primeiras páginas quando entramos no jogo das palavras e somos levados a reler um ou outro parágrafo na sequência de termos ficado confundidos.
Ainda assim, "Cláudio e Constantino" não é um livro de filosofia, mas com ele certamente ficamos a compreender algumas das bases e pertinência da Filosofia e da importância da própria linguagem que nos aproxima ou afasta de certas ideias em concreto ou que simplesmente nos baralha para mais tarde concluirmos que nem sempre as ideias se apresentam de modo claro, ou apresentando-se claras, distintas, sem margem para dúvida (segundo Descartes), o espírito humano pode ainda somente encontrar-se a caminho dessas mesmas (in)certezas.
Este é sem dúvida um livro indicado para ser trabalhado nas aulas de Filosofia do ensino secundário,
nem que seja somente alguns excertos dado que o modo como está escrito num tom humorístico tem o estilo adequado para os jovens terem vontade de se aventurarem no mundo dos paradoxos apresentados.
Em jeito de conclusão, não é de estranhar que a sinopse se refira a "Cláudio e Constantino" como se tratando de "uma novela rústica em paradoxos".

Excertos:
"- Como é que ela se convence de uma coisa de que não está convencida? – perguntou Flora. – E logo ela, que é o cúmulo da teimosia! Se já é extremamente difícil a outrem convencê-la do que quer que seja, imagine o que será ela convencer-se a si própria!
- Se a senhora não conseguir convencer-se de que nesta altura da sua vida não sofre de doença nenhuma, então podemos usar uma droga para a ajudar a convencer-se. São algumas gotas de cheiro nauseabundo, amaríssimas, com efeitos secundários desagradáveis que, se tomadas de hora a hora, são remédio extremamente eficaz. Curial é seguir à risca as instruções da toma para fazerem o seu

efeito.
Celina, deitada no sofá, respirava com dificuldade. Ergueu a mão débil para chamar Flora. Gemeu um gemido longo, remoto, cavernoso. A irmã aproximou-se e disse-lhe ao ouvido:
- Consegues convencer-te de que não tens nada? – perguntou Flora.
- Estou a tentar – arfou Celina.
- Se a senhora conseguiu convencer-se em dez minutos de que estava doente, também consegue convencer-se do contrário – filosofou o médico.
- Se não fosse a dor no peito… - aventou Celina.
- É uma decisão muito difícil – comentou Flora.
- Olhe, de momento, Dr. Jerónimo, prefiro o remédio.
(…)
- E os efeitos secundários? – perguntou Celina, preocupada.
- Obstipação nervosa, irritação e extrema sonolência ocorrem uma vez em cada dez casos.
(…)
A verdade é que Celina tomou as gotas uma vez e decidiu que nunca mais as tomaria. Detestava tomar remédios. Ainda por cima um que a convencesse de que não estava doente! Não, não queria ficar irritadiça e sonolenta. Fingia que tomava as gotas e fingia que estava curada de não ter nada. Assim o remédio, embora por uma linha torta, fez o que devia fazer. Como não queria continuar a viver na despensa – que se revelou húmida e bolorenta – Celina deixou de se queixar. Flora via-a a remoçar com novos passeios até ao bosque e dias inteiros de banhos de mar. E cantava homenagens ao Dr. Jerónimo, o melhor médico que alguma vez pisou o chão desta terra e às suas mezinhas milagrosas que salvaram a irmã de uma doença que ela nunca teve." (pp. 149-150)


Texto da autoria de Jorge Navarro

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Resultado do Passatempo: O Caminho do Amor

O Tempo Entre Os Meus Livros agradece a gentil oferta dos autores do livro O Caminho do Amor, Anabela e Alexandre Narciso!
Dos 50 participantes foram sorteados, através do Random.Org, cinco vencedores que irão receber os códigos da iBookstore para fazerem o download deste livro.
Atenção:
O Código expira em Wed Dec 17 12:54:44 PST 2014
e apenas pode ser convertido na Loja iTunes ("iTunes Store") para Portugal. Requer uma conta iTunes, sujeita a prévia aceitação de termos de licenciamento e utilização. Para abrir uma conta deve ter mais de 13 anos de idade e estar em Portugal. O eBook apenas pode ser visualizado num dispositivo iOS com software compatível. É necessário software e hardware compatível, e acesso à internet (poderão ser aplicáveis taxas). Não é para revenda. Os termos completos são aplicáveis; veja www.apple.com/legal/itunes/ww/ . Para mais informação, veja www.apple.com/support/. Este eBook é disponibilizado por Draft2Digital, LLC
E os vencedores são:
- Tiago Manuel Silva Moreira
- Carina Isabel Cardoso Pereira
- Carla Margarida Santos Monteiro
- Sara Filipa Neves Alves
- Celina Rodrigues

Parabéns! Espero que apreciem o livro e que façam uma boa viagem!

A Escolha do Jorge: Acabar com Eddy Bellegueule

A novíssima Fumo Editora apresenta-se no mercado editorial português com o romance autobiográfico "Acabar com Eddy Bellegueule" do francês Édouard Louis (n. 1992).
Escrito com apenas 19 anos, Édouard Louis traz a escrito o relato sentido da sua vida desde criança até ao momento em que, já adolescente, ingressa numa escola para estudar teatro numa cidade francesa.
Filho de pai operário e de mãe que cuida de idosos, Édouard Louis cresceu numa aldeia do Norte da França marcada pela pobreza do ponto de vista económico, social e cultural, quase abandonada ou mesmo desenraizada face ao resto do país.
A pobreza que se perpetua de geração em geração condiciona os mais jovens a perspetivarem o seu futuro na medida em que as próprias famílias têm uma baixa escolaridade vendo-se na eminência de ter começar a trabalhar ainda em tenra idade ou para ajudar a família ou na sequência de uma gravidez indesejada durante a adolescência.
Sem grandes perspetivas de futuro, os habitantes da aldeia com menos de mil habitantes perpetuam o quotidiano das suas atividades como o único possível dado tratar-se da única realidade que conhecem num raio de muitos quilómetros, daí que a televisão e a taberna (aqui, o álcool representa um sério problema tanto entre jovens como nos adultos) constituam as principais distrações.
A escola em termos gerais cumpre função genericamente para aprender a ler e a escrever e pouco mais e nunca como uma forma de perspetivar e orientar o futuro com outras possibilidades. A fábrica com o seu trabalho duro é a alternativa ao trabalho no campo ou à pesca, profissões que marcam gerações a fio, tornando-se rudes e tendencialmente violentas no pensar, falar e agir num quadro sociológico fechado como se tratasse de uma"comunidade-bolha" à espera de rebentar a qualquer momento.
Estas pequenas comunidades fechadas sobre si mesmas desenvolvem um quadro de valores que lhe é totalmente inerente, reflexo do duro viver, de uma pobreza (muitas vezes de espírito) que se respira a todos os níveis e tantas vezes se confunde com miséria. Esta cultura própria da aldeia é igualmente comandada pela forma de estar eminentemente masculina, sendo, pois, os homens que determinam as regras sociais, refletindo-se até no próprio modo de estar e de sentir das mulheres que, se por um lado vivem submissas em relação aos homens, por outro lado, ao exercerem o papel de mães, transmitem aos filhos esse mesmo quadro de valores assente na importância de ser homem e no papel que desempenha. Até a linguagem rude dos homens é copiado pelas mulheres como forma de transmissão dessas referências culturais! Exemplo disso são as seguintes passagens: "(…) Até a minha mãe dizia de si própria ‘Eu cá tenho colhões, ninguém faz de mim o que quer’" (p. 30) e "‘Oh caralho nesse dia ficaste caladinho, o teu pai fodeu-te com uma sova das boas" (p. 191) aquando da primeira tentativa de fuga por parte de Eddy já em adolescente.
É neste ambiente que Édouard Louis cresceu acrescentando o facto de ser homossexual, o que por si só, numa comunidade com estas características é sobejamente sufocante. Édouard Louis é desde tenra idade visto como uma criança diferente das demais do seu meio sofrendo com as agressões físicas e verbais de modo continuado por parte dos seus pares, na escola. O ter sido alvo de bullying durante parte da infância e adolescência gera em Édouard Louis uma tristeza e angústia sem precedentes ao ponto de escrever essa mesma ideia nas primeiras linhas da obra: "Da minha infância, não tenho nenhuma recordação feliz. Não quero dizer que, durante esses anos, não experimentei nenhum sentimento de felicidade ou de alegria. Simplesmente, o sofrimento é totalitário (…)". (p. 13)
O auto-reconhecimento da sua identidade sexual ou simplesmente orientação sexual, assim como todas as tentativas de negação da mesma por parte de Édouard Louis constitui de facto um papel central em "Acabar com Eddy Bellegueule", porém, desengane-se o leitor se julga que vai encontrar páginas inteiras com descrições (explícitas) alusivas às experiências de natureza sexual do jovem, uma vez que o livro, apesar de também aludir a um único episódio em particular, trata-se de uma situação determinante não só na vida do jovem como também no decurso da narrativa.
Édouard Louis surpreende-nos com a forma como nos apresenta a narrativa na medida em que o próprio livro é em si mesmo um livro de tomada de consciência de que a partir do momento em que consegue ingressar num curso de teatro numa cidade, é levado a desconstruir os preconceitos com os quais viveu toda a vida, na medida em que foi confrontado com situações em concreto para as quais não estava preparado ou por e simplesmente tinha uma ideia errada das coisas, das pessoas, no fundo, da realidade em termos gerais.
"Acabar com Eddy Bellegueule" é, pois um livro escrito não só tendo como base a tristeza e a angústia do autor conforme descritas acima, mas também com a força, a garra de um jovem que se traduz na vontade de expelir todo o sofrimento acumulado face a todos aqueles que de alguma forma o esmagaram. Não se trata de um livro em que o autor se tenta de alguma forma vingar destilando, desse modo, ódio e raiva face àqueles que o magoavam física e/ou psicologicamente. Até nesse sentido, trata-se de um livro que nos apresenta um jovem capaz de suportar essas aflições acabando por reconhecer, mais tarde, na cidade, que mesmo no caso concreto da sua família, se trata de pessoas que com uma baixa escolaridade e com poucos meios de sobrevivência, dificilmente conseguirão olhar quem supostamente sai daquilo que possa ser considerado como "a norma", como um alvo a abater, custe o que custar, e de modo deliberado, fazendo então todo o sentido o título do livro, "Acabar com Eddy Bellegueule".

Excertos:
"Efetuava cada um dos gestos matinais (arranjar-me, preparar um chocolate quente – com água quando faltava o leite -, escovar os dentes – nem sempre -, lavar-me, não tomar duche, a minha mãe advertia-me. Repetia-me ‘Não nos podemos lavar todos os dias, tomar duche, não temos água suficiente. Só temos uma pequena caldeira de água quente e uma família de sete pessoas, é muito, demasiado para uma caldeira tão pequenina e baratucha. E não tentes abrir o bico, seu desbocado, para dizer qualquer coisa, para me responder. Não se responde à mãe, faz-se o que ela diz. Ponto final. Não me respondas que basta ligar a caldeira depois do teu banho, já te estou a ver abrir a boca para dizeres isso e armares-te em esperto. Já te conheço. Sabes bem quanto custa a água, a electricidade, não temos maneira de a pagar’ – e esta graça que a minha mãe nunca consegue deixar de fazer: ‘tenho contas para pagar, não tenho nenhum amante na companhia de electricidade’. Nos dias de banho, a minha mãe exigia que não esvaziássemos a água da banheira depois de termos saído, para que as cinco crianças da família pudessem tomar banho uma a seguir à outra sem consumir mais água e electricidade. O último – eu fazia tudo o que estava ao meu alcance para evitar sê-lo – herdava então uma água castanha e imunda)." (pp. 62-63)

"Não me escarrou na cara. Naquela manhã escarrou na manga do meu blusão, um escarro esverdeado, rígido de tão espesso. O pequeno de costas arqueadas fez a mesma coisa, na mesma manga (um fino blusão de jogging azul com riscas que usava no Inverno; tinha perdido o meu casaco e os meus pais não tinham podido comprar-me outro ‘Desenrasca-te, tens de deixar de perder as tuas coisas’). Riam. Eu olhava para os escarros colados ao blusão, pensando que assim me tinham poupado um escarro na cara. E depois o matulão de cabelos ruivos disse-me ‘Engole os escarros paneleiro’. Eu sorri, mais uma vez, como sempre. Não que pensasse que estavam a gozar, mas esperava, ao sorrir, inverter a situação e torna-la numa brincadeira. Ele repetiu ‘Engole os escarros paneleiro’, despacha-te. Recusei – habitualmente não o fazia, quase nunca o tinha feito, mas não queria engolir os escarros, iria vomitar. Disse que não queria. Uma agarrou-me pelo braço, o outro pela cabeça. Colaram a minha cara nos escarros, exigiram ‘Lambe, paneleiro, lambe’. Deitei lentamente a língua de fora e lambi os escarros cujo cheiro colonizava a minha boca. Em cada lambidela encorajavam-me com uma voz doce, paternal (as mãos a segurarem com força a minha cabeça) ‘Muito bem, continua, força’. Continuei a lamber o blusão enquanto eles me davam ordens, até os escarros desaparecerem. Foram-se embora." (pp. 149-150)

Texto da autoria de Jorge Navarro

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

"Um Presente Muito Especial" de Joanne Huist Smith

Confesso que tenho todos os anos uma certa resistência em tirar a árvore de Natal da arrecadação e todos os enfeites a ela ligados. Creio que é mesmo preguiça. Saber que passados poucos dias tenho de voltar a arrumar tudo de novo, faz com que vá adiando essa tarefa de dia para dia.

E que tem a ver esta conversa com o livro que acabei de ler? TUDO!

A acção deste livro decorre na época natalícia, mais precisamente nos 12 dias que antecedem o Natal. Ver como algumas famílias vivem tão intensamente esta época fez-me reviver um pouco a minha infância e lembrar-me das surpresas abertas na manhã do dia 25, que faziam o regalo da criançada (e o meu, claro!).

Em cada dia, a família de Joanne recebe um presente singelo no valor mas grande na intenção. Junto dos presentes, um cartão assinado "Os vossos verdadeirs amigos". Não sabem quem o dá, nem porque o fazem. Certo é que, aos poucos, os seus membros vão-se unindo em torno desses presentes e começam a fazer pequenas/grandes coisas juntos. A família, que tinha perdido um membro recentemente e que sofre separadamente, começa a reagir à dor e a unir-se de novo.

É uma história que não pretende ser lamechas (nem o é, tão-pouco). Baseada numa situação verídica, a autora conta-nos, num discurso familiar e íntimo, como lhes foi possível recomeçar a viver o Natal, logo começar a viver a vida após uma morte.

Embora falando de um tema pesado, este livro é cheio de surpresas, de brilho e de esperança, próprio desta época do ano! Leiam!

Terminado em 5 de Dezembro de 2014

Estrelas: 4*+

Sinopse

Depois da morte inesperada do marido, Joanne sente-se incapaz de retomar a sua vida e de ser o exemplo de força que os seus filhos, Ben, Nick e Megan, precisam mais do que nunca. Com a aproximação da quadra natalícia, tudo parece ainda mais duro de suportar.
Mas, 12 dias antes do Natal, um presente é deixado misteriosamente à porta de casa, acompanhado de um cartão com a assinatura «Os vossos verdadeiros amigos». No dia a seguir, um novo presente, no dia seguinte mais um presente, e assim acontece, até à véspera de Natal.
Estes 12 presentes irão tornar-se uma dádiva de grandeza incomparável e acabam por dar origem a um milagre: a reaproximação entre mãe e filhos e o fortalecimento dos seus laços de amor.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A convidada Escolhe: "Crónica do Pássaro de Corda"

"Crónica do Pássaro de Corda", Haruki Murakami, 1997
Este foi, talvez, dos livros ultimamente lidos, aquele que demorei mais tempo a ler e a digerir.

No entanto, a parte final foi lida vorazmente como se quisesse chegar ao fundo do poço!

Aliás, o tema do poço, a necessidade de a personagem principal se recolher, se afastar, se abstrair de tudo e de todos para melhor se conhecer, é recorrente neste livro. E o fundo de um poço é para ele o melhor sítio.

Este livro, o primeiro que li deste autor japonês foi-me emprestado e vivamente aconselhado por uma amiga. Começa-se a ler e uma história banal de Toru Okada – o senhor Pássaro de Corda – um jovem habitante da cidade de Tóquio, recém-desempregado cujo gato desaparece e que mais tarde é abandonado pela mulher sem que se perceba o motivo, transforma-se numa história labiríntica com a introdução de diversas personagens invulgares. Aparentemente sem vontade própria, Toru entrega-se-lhes e é comandado por elas, mas há um momento em que ele toma as rédeas da sua vida e decide procurar a sua mulher Kumiko, de lutar por ela e pelo seu amor.

Pelo meio, surgem relatos por vezes assustadores de histórias da guerra e das atrocidades a ela associadas. Houve momentos em que tive de parar na leitura, tal a crueza ou a falta de ar que a descrição transmitia. É, de facto, um livro muito visual, muito à flor da pele, perturbador e invulgar.
Muitas vezes ao ler me questionei se tudo aquilo não seria um sonho, ou um pesadelo, ou uma sequência de sonhos com personagens que surgem e desaparecem sem deixar rasto e que aparecem muitas folhas mais tarde, quando pensávamos que já tinham desaparecido de vez.

Por isso houve um momento em que tive a necessidade de desvendar aquele enredo de personagens que entram e saem na vida do jovem Toru, de chegar ao fim do livro. De chegar ao fundo do poço. É uma história surreal, perturbadora e em minha opinião demasiado longa. Gosto pouco de fazer um julgamento definitivo sobre um/a autor/a, a partir apenas de um livro, daí que sinta necessidade de ler mais obras deste autor japonês muito apreciado e com milhares de leitores em todo o mundo.

Almerinda Bento

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Passatempo: Pack de Natal Planeta

 

E hoje temos mais uma boa surpresa para todos os seguidores do blogue: um pack de Natal para mais um leitor sortudo! Desta vez, com o patrocínio da Planeta Manuscrito, temos para oferecer "A Casa Azul" de Cláudia Clemente e " A Princesa Branca" de Philippa Gregory.
O passatempo decorre até dia 21 de Dezembro.
Boa sorte a todos os participantes! 

Passatempo: Pack de Natal Quinta Essência

 
O tempo entre os meus livros tem para oferecer aos seus seguidores mais um passatempo de Natal, gentilmente patrocinado pela editora Quinta Essência: Sedução Irresistível de Elizabeth Hoyt e Uma Casa No Campo de Elizabeth Adler.

Um pack de dois livros que vão fazer as delícias de um leitor romântico!
O passatempo decorre até dia 21 deste mês.
Boa sorte!

domingo, 7 de dezembro de 2014

Ao Domingo com... Alexandre e Anabela Narciso

Escrever é uma aventura. 
Não temos memória da primeira palavra aprendida, tampouco do momento em que ela passou a fazer sentido e a significar algo ao sair-nos da boca. Quando a memória passou a ser
consciente, já havia um pequenino dicionário dentro das nossas mentes de criança, elásticas e ávidas.
Mas sabemos quando as palavras passaram a ter um peso recrudescente na vida de cada um: quando lemos o primeiro livro. Não falamos do livro do bê-á-bá através do qual a senhora professora nos ia ensinando as letras, as palavras e as frases. Falamos daquele primeiro livro que lemos sozinhos, porque a curiosidade nos fez abrir a primeira página e as palavras nos sugaram para um mundo incrível onde vivemos uma aventura até à última folha. A partir desse momento, as palavras passaram a ter fascínio, a ser mágicas: os mundos imaginários que criávamos, as histórias fantásticas de heróis e heroínas que protagonizávamos nas nossas mentes, podiam ganhar vida e expressão para além das fronteiras da nossa fantasia. Descobrimos, por isso, que gostávamos de brincar com as palavras. Tal como um puzzle com inúmeras pequenas peças, desaprumadas num monte caótico, à espera que alguém lhes encontre o devido lugar num quadro com sentido e mensagem. 

A semente da escrita foi lançada quando, ainda adolescentes, a vontade arraigada de contar histórias instigou-nos a criar o pasquim lá da rua que os pais patrocinavam e os vizinhos compravam por graça. Seguiram-se as histórias fantásticas, fruto duma imaginação sem rédeas, envergonhadamente partilhadas apenas com aqueles que cumprissem criteriosamente uma premissa: serem piedosos no juízo da obra. Daqui a sonhar com escrever um dia um livro que ganhasse asas e voasse além do universo que nos cingia, foi um passo tão curto como a distância que separa o coração da mente. 

Encontrámo-nos por causa desta paixão pelas palavras. Quando os blogs em Portugal ainda davam os primeiros passos, aventurámo-nos a sair da concha e fazer parte desse universo de gente, mais ou menos anónima, que sabe a força das palavras e que tinha finalmente à disposição um veículo de expressão, opinião e partilha. Somos dois seres movidos pela paixão e temos três paixões que definem muito do que que somos: a escrita, as viagens e a fotografia. Desde 2004 que a paixão pelas viagens começou a ser partilhada com um grupo 
pequeno e fiel de leitores através de crónicas que juntavam os três elementos. Era o germe das Crónicas de “Um” VagaMundo que ganhou verdadeira expressão em 2009 com a criação do blog. 

O passo definitivo para a realização do sonho que pauta o nosso percurso foi tomado em 2013 quando nos aventurámos no Caminho de Santiago, uma odisseia de 800km a pé. Sem o sabermos ainda, escrever um livro passaria de um sonho para se tornar realidade. Essa experiência marcante de vida materializou-se no livro “Caminho do Amor: Diário de um Caminho a dois rumo a Santiago” onde o Amor, nas suas mais diversas facetas, tem o papel de protagonista. Na sinopse do livro lê-se: “O Caminho é composto por uma infinidade de minúsculos mosaicos feitos de encontros e desencontros, rascunhados de estórias de vida, pincelados de sorrisos e lágrimas, esboçados de sonhos e medos, moldados por conquistas e derrotas, adornados por sinais, abrilhantados de Amor. Foram dias únicos, irrepetíveis, incomparáveis.” São as poucas palavras que encontrámos para sumarizar os milhares que encontraram registo no livro. Contudo, muitas mais pululam ainda nas nossas mentes. 

Escrever é uma aventura. Quando pensamos em aventura, associamos imediatamente a empreender uma ação arriscada e até mesmo perigosa. É o que nos diz o dicionário. Consequentemente, dizemos dos aventureiros que tomam riscos e incorrem em perigos fora do comum, muitas vezes por impulso insensato. Desse mesmo dicionário consta que aventura é também um acontecimento extraordinário ou imprevisto. Metade da nossa vida a dois pode ser traçada nos moldes desta definição. No entanto há um significado escondido que só na etimologia da palavra encontra explicação: do Latim “ad venture”, aquilo que que está por vir. E este é um significado que nos faz todo o sentido, pois “por vir” estão ainda muitas aventuras com o mundo fascinante das palavras. 

sábado, 6 de dezembro de 2014

Na minha caixa de correio

 

Oferta da Topseller, Um, Dó, Li, Tá. O meu obrigada!
Comprado por menos de €5, numa loja Cash Converter, A Ternura dos Lobos.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Vício dos Livros - nova colecção Civilização



Convite Oficina do Livro


Novidade Marcador

O Cavalheiro Inglês
de Carla M.Soares

PORTUGAL. 1892. Na sequência do Ultimato inglês e da crise económica na Europa e em Portugal, os governos sucedem-se, os grupos republicanos e anarquistas crescem em número e importância e em Portugal já se vislumbra a decadência da nobreza e o fim da monarquia.
Os ingleses que ainda permanecem em Portugal não são amados. O visconde Silva Andrade está falido, em resultado de maus investimentos em África e no Brasil, e necessita com urgência de casar a sua filha, para garantir o investimento na sua fábrica.
Uma história empolgante que nos transporta para Portugal na transição do século XIX para o século XX numa narrativa recheada de momentos históricos e encadeada com as emoções e a vida de uma família portuguesa.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A Escolha do Jorge: O Meu Irmão

Afonso Reis Cabral (n. 1990) foi o vencedor do Prémio LeYa 2014 tendo o livro sido publicado no final de novembro. O mais jovem vencedor deste prémio trouxe a escrito uma história centrada nas vivências de uma família em que um dos seus elementos é portador de trissomia 21.

A história começa com a viagem dos dois irmãos, o narrador e o irmão Miguel, o personagem principal da obra, que se dirigem para o Tojal, uma aldeia praticamente desertificada do concelho de Arouca, onde ainda mantêm uma casa que os pais tinham adquirido para passar uns dias fora do Porto.

É ao longo das duas semanas de permanência dos dois irmãos na aldeia que o leitor fica a perceber o que motivou a viagem e o afastamento da cidade, do mesmo modo que nos é relatada a história da vida de Miguel desde criança até ao momento com 40 anos, idade somente cronológica dado que Miguel continua a ser uma criança.

Desde o relacionamento dos dois irmãos em criança, ao dia-a-dia de Miguel na APPACDM durante uma boa parte da sua vida, a relação com os pais, a dura decisão de o narrador ficar com a guarda do irmão após o falecimento quase repentino dos pais.

O tema da trissomia 21 não é de facto um tema de fácil abordagem e o leitor fica cativado pela escrita de Afonso Reis Cabral pela forma como expõe as ideias de forma clara e objetiva criando situações de humor, mas também de alguma dureza face à realidade dos factos e das situações expostas tanto em relação a Miguel, como por exemplo em relação aos colegas de Miguel na APPACDM.

Um dos pontos que abarca uma parte significativa de "O Meu Irmão" é o relacionamento entre Miguel e Luciana que frequenta a mesma instituição. No entendimento destes dois personagens, agem como se fossem casados imitando, deste modo, as pessoas fora da instituição, na sequência daquilo que sentem um pelo outro.

Esta questão do amor entre pessoas portadoras de deficiência mental é sem dúvida um tema difícil de abordar como se fosse em certa medida um assunto tabu dado que até na linguagem utilizada se verifica um certo cuidado dado haver o perigo de Miguel e Luciana "chegarem a vias de facto".

O certo é que o irmão de Miguel chega a refletir sobre a dificuldade que ele próprio teve em construir e manter um relacionamento em comparação com o irmão que ama indubitavelmente Luciana há já alguns anos sendo esse amor, como mais tarde constatou, o motor da vida de Miguel.

Há momentos de Afonso Reis Cabral que nos encostam à parede sobretudo para quem não conhece de perto o dia-a-dia das pessoas com trissomia 21 e são essas passagens que nos fazem querer mais do livro dado traduzirem simultaneamente realismo e reflexão, no entanto, esses momentos acontecem pouco mais que pontualmente ao longo de mais de 350 páginas, havendo partes que poderiam ter sido eliminadas cujas descrições serem verdadeiramente supérfluas.

Se por um lado o livro tem um bom tema de fundo ou temas para desenvolver, "O Meu Irmão" é um livro com estrutura, mas falta-lhe alma, falta-lhe aquela energia que nos faz manter a vibração ao longo de todo o livro, de querermos continuar e não parar por muito dura que seja a leitura. É precisamente isso que acontece sobretudo numa fase da narrativa mais próxima do final em que o autor se terá perdido um pouco tornando a história menos verosímil perdendo até o sentido a tomar
em certos momentos.

Desconheço se a versão final do livro terá correspondido à obra entregue antes da atribuição do prémio, no entanto, caso se tenha mantido é pena porque com alguns cortes e alguns ajustamentos na narrativa, "O Meu Irmão" teria ganho um novo fôlego, tal como os leitores e o autor, compreensivelmente.

Não deixa de ser interessante que para um país pequeno como o nosso e com um volume de vendas de livros relativamente baixo em comparação com outros países, atribua tantos prémios literários, com maior ou menor projeção, como se trata do caso específico do Prémio LeYa que ganha impacto não só pelo valor do prémio atribuído, mas também por congregar uma série de editoras do mercado editorial português. Assiste-se cada vez mais à crescente banalização da literatura neste país em que por este andar não se tardará a atribuir prémios literários ao virar de cada esquina, julgando-se com isso que todos os livros são bons em matéria de literatura propriamente dita ou que acrescentem algo ao que já existe.

Concluindo, "O Meu Irmão" de Afonso Reis Cabral é um livro mediano, significativo para quem, agora, iniciou a vida como escritor, servindo-lhe a atribuição do maior prémio literário português como motivação para continuar a melhorar num futuro próximo.

Excertos:
"O Masturbador era um rapaz desproporcionado. O cabelo caía-lhe para os olhos. Vestia a roupa velha das instituições de caridade.
Certas partes do corpo sobrepunham-se às outras. Por exemplo, a mão muito maior do que o cérebro. E o pénis ainda maior do que a mão. A sua alma fora engaiolada num corpo de poder e desejo. Nada comandava a máquina, ela comandava-se autonomamente e por isso fora escravizada pelas próprias engrenagens, pela própria pulsão. Tanto em público como em privado, nada do que ele quisesse era deixado por saciar e, assim, o pistão accionado perante as mulheres imperava no sistema da máquina. Babava-se, murmurava «Anda cá, minha panelinha de água quente».
Excitado, escondia-se nos corredores mais obscuros e baixava as calças. O resto passava-se como sempre, com excepção de que aquele monte de carne se abstraía do que o rodeava e, se por acaso o apanhavam em flagrante, prosseguia no vaivém aos urros. As educadoras fugiam também aos urros a chamar o contínuo, e este sabe-se lá quem chamava. Não chamava ninguém. Corria mais perturbado do que elas, dizendo para si «Ó menino, ó menino! Valha-me Deus!»
Depois de apanhado e obrigado a parar, desistiu de ao menos se recolher nos corredores e passou a tratar da excitação em público. Tanto lhe fazia, mesmo que uma ideia de consciência atirada para o fundo do mecanismo (talvez a alma na gaiola) lhe dissesse que estava errado. Tudo desde que o deixassem fazer o que queria. E assim, apesar do «Ó menino, valha-me Deus!», baixava as calças sempre que o pistão era accionado. E era accionado nem que fosse à manivela.
Quando o impediam, arranhava a cara, atingindo os olhos. É que não haviam equipado a máquina com válvula de descompressão e a energia acumulada necessitava de dispersar. Atacava os olhos, o mesmo canal por onde entravam imagens que o excitavam. Cegou o olho direito. Uma geleia branca alojou-se na cavidade macerada.
Já que precisava de arranhar, as educadoras aconselhavam-no «Faz isso no olho mau», tentando evitar que cegasse por completo.
A máquina queria primeiro as raparigas mais pequenas. Era isto: obliterar o que as tornava femininas, o desejo que ele sentia por elas. Para tal bastava ceder. Só assim a máquina deixava de sentir desejo, porque a presença feminina desaparecia pelo menos durante algum tempo depois de a máquina ter processado a paz dos fluidos." (pp. 143-144)

"Quando se é velho e pai de um deficiente, aprende-se a lidar com o medo. Quando eu for ainda mais velho, que será feito do meu filho? E quando eu morrer? E quando ele se tornar velho e eu já não existir? Este medo será com certeza constituído por muitos outros. E também uma parte física, quer dizer, olhar para as mãos, sabê-las extintas e, tal como as mãos, o resto do corpo, apesar de dentro desse corpo permanecermos iguais, sentirmo-nos novos – sermos afinal eternos. Não sei descrever a velhice porque a velhice não existe em abstrato." (pp. 239)

Texto da autoria de Jorge Navarro

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Resultado do Passatempo O Brilho das Estrelas

E para finalizar o dia em beleza anunciamos agora a vencedora deste passatempo gentilemnte patrocinado pela Editorial Presença.
Dos 373 participantes foi seleccionado o n* 135 que corresponde a:

- Maria José Quintas de Esmoriz

Muitos parabéns! Espero que gostes deste livro e que passes uns momentos agradáveis na sua companhia!

Passatempo "Caminho do Amor"

O tempo entre os meus livros tem para oferecer cinco e-books, através da iBookstore, gentilmente cedidos pelos autores de "Caminho do Amor" - Diário de um Caminho a dois rumo a Santiago.
Aos vencedores será enviado por email o respectivo código para efectuar o download. Este passatempo é válido para qualquer país do mundo, terminando no dia 10 de Dezembro.



Para concorrer basta responder acertadamente às perguntas abaixo. Para ajudar nas respostas, vejam as primeiras 30 páginas do livro aqui.

Passatempo: Pack de Natal Presença

O blogue já entrou em modo Natal e como tal aqui vai o primeiro passatempo do mês. Trata-se de um pack para oferecer a um só vencedor/ seguidor do blogue, um livro para adultos e outro para um público mais jovem, que a Editorial Presença gentilmente patrocina
Assim, os livros que temos para oferecer são:
- O Tigre de John Vaillant
- O Rapaz Que Nadava Com As Piranhas de David Almond
O passatemp decorre nos moldes habituais e termina dia 21 de Dezembro, mesmo a tempo de colocarem debaixo da Árvore de Natal.
Para obter mais informações sobre os livros clique aqui e aqui.

 

Boa sorte!

sábado, 29 de novembro de 2014

Na minha caixa de correio

  
 
  



Oferta gentil da Alfaguara, Mar de Afonso Cruz.
Dois livros de Günter Grass, Descascando a Cebola e A Passo de Caranguejo comprei na Leya Online, promoção 50%.
Um Estranho Lugar para Morrer é emprestado do Segredo dos Livros.
Stasiland comprei numa Loja Cash Converters por 4,90€
O Demónio da Cidade Branca ganhei no Liga e Ganha.
Oferta gentil da Editorial Presença , recebi Serena e O Rapaz Que Nadava com as Piranhas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Novidade ASA

LIGEIRAMENTE ESCANDALOSA
de Mary Balogh
Entre o choque e a admiração, a alta sociedade não se cansa de especular sobre a origem de uma relação tão enigmática, excessiva, e ligeiramente escandalosa…
Crescer no seio da família Bedwyn não é tarefa fácil; que o diga a jovem Freyja Bedwyn. Tendo passado a infância rodeada por quatro rapazes, habituou-se desde cedo a igualá-los em ousadia e independência. Mas o atrevimento – tolerável numa menina - é considerado inaceitável numa mulher.
Quando, a meio de uma viagem a Bath, o quarto em que Freyja está hospedada é invadido por um atraente fugitivo, a jovem não tem meias-medidas e esmurra-o. Ele é Joshua Moore, o petulante marquês de Hallmere. Nessa noite mal adivinham que, dias depois, estarão… noivos. Para duas pessoas que anseiam por liberdade e parecem detestar-se, esta reviravolta é, no mínimo, inexplicável.

Novidade Nascente


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A Escolha do Jorge: A Filha do Leste

"A Filha do Leste" é o mais recente livro da espanhola Clara Usón (n. 1961) que lhe valeu em 2012 o Prémio Nacional da Crítica no seu país. O livro foi publicado no primeiro semestre em Portugal tendo sido bem acolhido no seio da crítica literária desde então.
Mais do que uma obra que tem como pano de fundo a guerra da Sérvia contra a Bósnia durante os primeiros anos da década de 90 do século passado, "A Filha do Leste" vai a fundo na questão complexa dos Balcãs procurando as raízes do "servianismo" que remonta à batalha do Kosovo que opôs sérvios e turcos, em 1389. Se por um lado esta célebre batalha, tantas vezes endeusada mediante a tendência política da Sérvia ao longo dos séculos, é apontada como o ponto de sustentação daquilo que mais tarde será apontado como as marcas culturais de identidade da Sérvia, por outro lado, essas mesmas marcas nada mais são do que uma forma velada de nacionalismo que ao longo da História contribuiu para opor diferentes etnias gerando conflitos sangrentos que tantas vidas ceifou sem que se tenha propriamente resolvido o problema da coexistência pacífica entre comunidades cultural e religiosamente diferentes.

"A Filha do Leste" inicia com a viagem de finalistas de Ana Mladić (filha de Ratko Mladić, conhecido pelo "carniceiro da Bósnia") a Moscovo com alguns colegas e amigos cujo périplo é descrito transversalmente ao longo de toda a obra à medida que vai sendo apresentada uma "galeria de heróis" sérvios que tiveram um papel importante e decisivo na guerra com a Bósnia levando à morte milhares de pessoas por razões meramente religiosas. Este desfile de "heróis" como Slobodan
Milošević, Radovan Karadžić, Ratko Mladić, entre outros, coincide precisamente com a identificação de indivíduos loucos, pérfidos, cruéis e assassinos que feriram de morte o coração da Europa no final
do século XX na sequência do desmoronamento da Jugoslávia.

Quando a Europa e o Mundo julgavam que não voltariam a repetir-se atos bárbaros e verdadeiramente inumanos à semelhança do que teve lugar durante a 2ª Guerra Mundial, eis que a "bomba" estala nos Balcãs meio século depois quando a Sérvia e a Croácia disputam entre si o território ocupado pela Bósnia-Herzegovina na tentativa de "limpar" o sangue turco (considerados pelos sérvios como sangue sérvio impuro) do território, levando a cabo o extermínio de vilas e aldeias bósnias através de uma chacina que só pode mesmo ser comparado ao genocídio de judeus por parte dos nazis (ou se recuarmos mais na História, à semelhança dos progroms realizados pela Inquisição em Portugal e Espanha), embora aqui fossem realizados em nome do "servianismo", vulgo nacionalismo ao extremo.

Ana Mladić é, pois, herdeira e crente numa tradição assente nos valores acima descritos para os quais o seu pai, Ratko Mladić era o seu expoente máximo, sendo um bom pai e um bom marido, um
exemplo a seguir para toda a Jugoslávia que então se desmoronava. "Ana sentia uma íntima alegria à ideia de que, ao cumprir as tradições, ao observar os rituais, estava a fazer a ponte com os seus antepassados, que pertencia a algo maior do que à sua pequena individualidade, à sua reduzida família: era uma gota de água no mar infinito da nação sérvia, uma gota indispensável, no entanto. A Ana Mladić morreria um dia: o servianismo não, e enquanto a nação sérvia subsistisse, alguma coisa de si sobreviveria." (p. 37)

A viagem de finalistas de Ana Mladić a Moscovo não corre conforme o esperado. Os dias em que era suposto divertir-se e conhecer a capital daquela que foi a URSS que também se desmoronara pouco tempo antes, em 1990, acabou por tornar-se um pesadelo na medida em que alguns dos seus colegas a confrontaram com aquilo que seria a verdadeira "face da guerra" que deflagrava há já tempo demasiado nos Balcãs e sem fim à vista, além de que de forma inusitada conheceu alguém que sem saber a verdadeira identidade de Ana Mladić a levou a confrontar-se com aquela que seria a outra face do seu pai e que não era propriamente a de uma pessoa dócil e terna como a que conhecia em
casa, em Belgrado.
Este confronto com a realidade levará Ana Mladić ao regressar a Belgrado a questionar toda a sua herança cultural, a sua própria identidade, suscitando dúvidas em relação ao futuro do seu país sobretudo numa altura em que a Bósnia estava na mira da Sérvia no intuito de "libertar" o solo sérvio, as aldeias sérvias das mãos dos bósnios (muçulmanos, turcos) nem que para isso se procedesse à prática dos genocídio. E neste contexto, há um excerto deveras interessante alusivo à natureza dúbia de Ratko Mladić, "O general bom vivia fascinado pelas abelhas e dedicava-se à apicultura nos (raros) momentos livres. O general mau estava mais interessado na antropologia, relacionada com a zoologia; concretamente, fascinava-o o curioso paralelismo que se manifesta entre o comportamento animal e o humano em determinadas circunstâncias. Do alto de uma colina sobranceira a Sarajevo, espiava através dos binóculos a multidão de habitantes que se moviam e se apressavam pelas ruas da cidade, nas rotinas diárias, aproveitando um cessar-fogo. «Correm como formigas!», observou, mas, talvez por falta de tempo (havia que aproveitar o factor surpresa da trégua), não se deteve a analisar com mais profundidade o fenómeno, antes deu imediatamente a ordem: «É a vez dos franco-
atiradores. Vão-se a eles! Disparem sobre as pessoas. Directamente sobre as pessoas!»" (p. 154)

Ana Mladić suicida-se então a 24 de Março de 1994, marcando para sempre a sua família, embora a (in)compreensível dor sentida por Ratko Mladić não o tenha demovido de estar por detrás do genocídio perpetrado a mais de 8000 civis, em Srebrenica, na Bósnia, em 1995, cujas descrições do acontecimento parecem ter sido tiradas de um filme de terror em que os homens perderam por completo a noção de humanidade. "As equipas de execução andavam acompanhadas por bulldozers que cavavam para onde se atiravam os cadáveres. Em três dias, as forças sérvias executaram oito mil bósnios, na sua maioria do sexo masculino, entre os quais crianças e adolescentes. Os executados no primeiro dia foram os que tiveram mais sorte; os outros ficaram encerrados, sem comida nem bebida, até chegar a vez deles. Nem todos morreram de um tiro na nuca. Houve uns tantos degolados, outros torturados antes de serem mortos e, por fim, outros, inevitavelmente, antes de morrer, obrigados a cavar as próprias sepulturas. Enterraram-nos em valas comuns que, meses mais tarde, exumariam,
trasladando os restos para uma segunda fossa, onde se misturariam com outros corpos, para dificultar uma possível investigação futura." (pp. 298-299)

Concluindo, Clara Usón traz para a literatura um tema da História Contemporânea que nos inquieta e do qual não saímos ilesos. "A Filha do Leste" é um romance que ao longo de toda a obra nos faz questionar como foi possível a concretização de tais atos ignominiosos depois de tudo o que aconteceu durante a 2ª Guerra Mundial? Creio que é essa efetivamente a questão que fica no ar na medida em que nós, como cidadãos, devemos estar permanentemente atentos aos atos dos políticos porque nunca sabemos se perante uma conjuntura de depressão económico-social de modo continuado não constituirá terreno fértil para o aparecimento de lobos disfarçados de cordeiros que tentarão sem olhar a meios retirar os direitos dos cidadãos despojando-os da sua identidade se for caso disso.

Parafraseando Danilo Kiš «O nacionalismo é, na sua essência, uma paranóia, uma paranóia individual e colectiva. Como paranóia colectiva, é fruto da inveja e do medo, e sobretudo o resultado da perda da consciência individual levadas ao paroxismo.» (p. 262)

Texto elaborado por Jorge Navarro

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

"A Casa Azul" de Cláudia Clemente

Sou uma leitora algo distraída. Sabendo disso, é frequente ter perto de mim papel e lápis para ir anotando o nome dos personagens e as suas relações parentais. Tal não aconteceu com este livro, muito embora, em certas partes da leitura, sentisse necessidade de o fazer. Isso deveu-se, sobretudo, à escrita forte da autora, belíssima, que mexeu com as minhas emoções muito profundamente. E esqueci-me de tirar as pequenas notas que gosto tanto e que me vão orientando.

É um verdadeiro puzzle este livro! São várias as entradas, todas elas poderosíssimas, que me deixaram com uma inquietação permanente, querendo captar a história de fundo e ligar as personagens. Sem grande sucesso, aliás! Nas últimas 50 páginas talvez, pequeninos pormenores despontam deste texto mágico e criam uma história que nos apetece ler de novo, tal é a sensação de perda que nos assola quando terminamos o livro.

Findo o livro dá vontade de fazer uma pausa. Escutar pormenores que fazem agora todo o sentido. Apetece, como disse, ler de novo. Será que deixei escapar algo que uma re-leitura ajudaria a saborear?

O prazer de descobrir a história suplanta a história em si. A forma como ela nos é contada demonstra todo o à vontade que a autora possui com as palavras. Encantou-me, de facto.

Mas não vos vou contar nada! Não o saberia fazer, nem tão pouco poderia. Desvendar este livro é uma aventura que cabe a cada um. Mas preparem-se! Vão ficar rendidos. E não façam como eu... Peguem logo num papelito e num lápis e escrevam: água, ar, terra e fogo. Vai ajudar, vão ver! E depois irão perceber porquê... Ah! E tenham atenção que a cada um desses elementos corresponde um personagem diferente.

Recomendo. Muito!

Terminado em 23 de Novembro de 2014

Estrelas: 6*

Sinopse

Um condomínio, no Porto, que deveria guardar nas suas raízes a memória de uma casa e os fantasmas dos habitantes e das grandes árvores que daí foram arrancados.
Uma mulher que se foi tornando um fantasma de si mesma desde que as últimas árvores desse jardim tombaram. Duas irmãs gémeas que não sabem da existência uma da outra: uma parisiense, outra portuense. Um português, dono de um cinema de bairro em Paris, amigo de Laura, que vê o seu cinema arder e vai parar ao hospital, gravemente queimado. Um agente da PIDE que segue, nos anos 60, os movimentos dos habitantes e frequentadores da Casa Azul, produzindo relatórios sobre eles para as chefias. Um dossier que escapa às chamas e uma herança de cartas nunca lidas. A mãe da irmã que vive em Portugal, Rita, internada num lar, após uma tentativa de suicídio: uma tristeza profunda desde que teve de vender a casa de família, no Porto - a Casa Azul - e o seu magnífico jardim. Uma história de amor e paixão que não pode morrer, porque nasceu em Paris, no único mês de Maio em que tudo foi possível. Quatro personagens que precisam de encontrar-se para formarem um universo com sentido.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

"O Brilho das Estrelas" de Debbie Macomber

Li os livros anteriores desta autora e gostei muito da sua escrita simples, despretensiosa mas cativante. Este é um livro que vai encher os corações das meninas românticas! É uma história simples, um romance com muitos laivos cor-de-rosa, que sabemos que vai acabar bem mas que, porque escrito desta forma, toma dentro de nós caminhos que nos fazem empolgar com o amor entre Carrie e Finn. Mesmo presentindo um final feliz, tememos e receamos pelos dois personagens e, quando finalmente chega, respiramos fundo.

Uma história de Natal. Leve, que se lê rapidamente e com agrado. Debbie Macomber é uma contadora de histórias, sem dúvida alguma!

Terminado em 18 de Novembro de 2014

Estrelas: 4*

Sinopse

O Brilho das Estrelas é uma história sobre o encontro entre uma jornalista ambiciosa e um escritor demasiado solitário, ambientada no extremo Norte dos Estados Unidos e iluminada pelo esplendor dos céus do Ártico. Duas personagens implausíveis envolvidas em sentimentos demasiado intensos para se adequarem ao quadro de vida de cada um, narrada com frescura e leveza e que arrebata o leitor num mar de emoções até ao final do livro.

Para mais informações ver Editorial Presença aqui!

sábado, 22 de novembro de 2014

Na minha caixa de correio

   
     
  



Os quatro primeiros foram comprados na promoção da Leya Online "Leve dois, pague um".
Oferta gentil da Planeta: Nove mil Passos, a Casa Azul, Vila Algarve A Princesa Branca.
Também gentilmente oferecido pela Presença, chegou o último de Debbie Macomber, O Brilho das Estrelas.
Um Homem Escandaloso e Sapatinhos de Chocolate foi oferta da Leya.
Os Últimos Dias de Nossos Pais de Joel Dicker veio da Alfaguara.
E finalmente, fui buscar ao JN o Recomeçar de Maria Duenas.
Difícil, difícil é decidir por qual começar!!!! O meus agradecimentos às editoras mencionadas!