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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A escolha do Jorge: A Gorda

“A Gorda” é o primeiro romance de Isabela Figueiredo, a autora de “Conto É Como Quem Diz” (1988) e “Caderno de Memórias Coloniais” (2009).
Mais do que uma história sobre uma rapariga que se fez mulher, que com o passar dos anos viu o seu corpo a aumentar, ganhando muito peso e adquirindo formas e um tamanho que se torna incontrolável, “A Gorda” é também a história sobre a angústia e a dor de se olhar ao espelho e não se reconhecer, os olhares e críticas preconceituosos face ao seu corpo desmesurado, a dificuldade em encontrar roupa para vestir que, de estação para estação, deixa de servir.
Mas importa dar nome a esta mulher. Chama-se Maria Luísa e no decurso da leitura não há quem não simpatize com esta gorda simpática e bem-disposta e não deixamos de sentir carinho, apreço e ternura pela pessoa que ela é. Maria Luísa vinda do mundo da ficção é a encarnação de tantas outras Marias Luísas que padecem dos mesmos problemas ao longo da vida – o aumento de peso e a discriminação social – afagando a dor e a tristeza na solidão. "A vitória dos solitários não tem testemunhas e torna a solidão mais só. Ninguém nos olha com orgulho. Ninguém nos dirige uma palavra de apreço. Estamos sempre iguais na solidão, sempre os mesmos (…)”
Entre médicos, nutricionistas e psicólogos, Maria Luísa não consegue ver resultados a não ser o aumento de peso assim como a intensidade das críticas da sua mãe. A decisão de Maria Luísa em realizar uma gastrectomia foi radical numa tentativa de cortar também com o passado e toda uma história de dor, desamores, mas também da consciência de que a sua mobilidade estava cada vez mais condicionada até nas tarefas mais simples. Era preciso cortar o mal pela raiz ainda que a decisão numa operação tão delicada lhe traria um pós-operatório deveras doloroso, além de que a sua alimentação e a sua vida não voltariam a ser as mesmas doravante.
A decisão de Maria Luísa em realizar a gastrectomia coincide com um dos melhores excertos da obra. A ironia, as metáforas, o realismo, a tomada de consciência de Maria Luísa face à sua vontade de comer com prazer leva o leitor quase a sentir o cheiro do pão quente acabado de fazer de acordo com as descrições. “Todos me mandam fechar a boca. Todos me dizem que é fácil. Não é. Não consigo. Tenho fome de pão. Preciso de atestar o estômago para sossegar, dormir e trabalhar sem cessar. Preciso de saborear os meus pãezinhos com manteiga, de os sentir na língua, contra o céu-da-boca, degluti-los, fazê-los transpor a garganta, senti-los chegar ao estômago, sossegando o bicho escuro da fome que aí mora. O odor dos pãezinhos do dia, o miolo mole, a côdea seca, a forma como racham, quando os abro com a mão, que delícia, doutor! Pão é carne e arte. Farinha, fermento, sal, água e cozimento. Sem pão, o meu bicho negro morde-me, doutor, e dói-me o espaço vazio. Como não consigo eliminar o pão, pensei que o doutor poderia ajudar-me a amputar o bicho.”
Mas “A Gorda” não é apenas a história de Maria Luísa que ganhou peso e que decidiu realizar a gastrectomia sendo que estes aspectos vão ganhando expressão ao longo da narrativa. “A Gorda” é também a história de uma família que regressa de Moçambique no decurso da descolonização nos anos 70 com a particularidade de Maria Luísa ter vindo para Portugal dez anos antes dos seus pais.
A década que separou Maria Luísa dos seus pais tornou-a numa mulher independente, senhora de si. O não ter quem olhe por si tornou Maria Luísa uma mulher determinada. As descrições relativas à sua sexualidade são o mais claro e objectivo que podemos ler. A autora não poupa nas palavras nem nos sentimentos. O pensamento transforma-se em escrita sem pudor transpondo a barreira e em certa medida o tabu de que são somente os homens que pensam em sexo e que o concretizam. Maria Luísa diz exactamente o que pensa, o que quer e o que gosta de fazer com David, o amor da sua vida, na intimidade, seja em casa ou ao ar livre. Maria Luísa assume quase sempre um registo confessional sobre a sua vida e mesmo no que concerne às questões de natureza mais íntima.
O amor que uniu David e Maria Luísa marcou a ambos para sempre. Ainda que tenham seguido rumos diferentes, esse amor nunca se apagou. E quando menos se espera, e quando se julga que o passado é passado, eis que as chamas do amor voltam novamente a incendiar os corações e a reavivar um amor que afinal nunca deixou de ser presente.
Para além dos amores e desamores de Maria Luísa, o aumento de peso e a operação, “A Gorda” retrata também com seriedade a complexa relação familiar existente entre Maria Luísa e os pais. A casa da família assume um papel de extrema importância, as suas descrições constituem a abertura de cada capítulo. As personalidades dos pais estão bem vincadas ao longo da obra. A difícil relação com a sua mãe, o seu criticismo latente e tantas vezes visceral marca a vida de Maria Luísa, mas ainda assim, é à mãe a quem recorre tantas vezes em oração depois desta ter falecido. Afinal mãe é mãe e só temos uma.
“A Gorda” é também um romance contemporâneo na medida em que os últimos anos da narrativa abrangem o período da troika. Os cortes nos salários, as dificuldades em sobreviver contando o pouco que sobra, a angústia de ter de pedir ajuda reflectem a ilusão de uma classe média que vive do trabalho e para o trabalho e, contudo, afogada em despesas que a impedem de respirar.
Isabel Figueiredo apresenta-nos um romance notável, sério, com personagens que poderíamos ser nós próprios ou qualquer outra pessoa que conhecemos de perto. Tudo é real em “A Gorda”. As descrições dos lugares, as questões ligadas à descolonização, mas também as dificuldades com que lidam as pessoas de carne e osso como as descritas sobre Maria Luísa, os desafios que a vida nos impõe, e também a alegria e o amor pela vida que Maria Luísa sente, porque afinal é esta a vida que temos e é esta vida que se impõe ser vivida.

Excertos:
"Continuo a gostar de lavar à mão, em tempo bom, com sabão marselha ou azul e branco. A roupa lavada à mão cheira aos dias da infância, a que não me quero poupar. Lavo, envolvida nos meus pensamentos. A água fria molha-me os braços, as mamas e a barriga. É um prazer e uma liberdade! A dose mínima que nos é facultada, como uma mercê da qual pagamos tributo, mas potencialmente absoluta a cada momento. A liberdade condicionada que nos é consentida, regime sob o qual nos habituamos a viver e a que chamamos "liberdade". Molhar-me é a liberdade admitida."

“Não se podia negar que eu tinha nascido em Moçambique, que estava impregnada desses coloridos ares do sul, mas todos os meus amigos eram portugueses, e entre nós não se falava de África, que tinha ficado para trás. Odiava os papás acabados de chegar de Moçambique. Desejava que morressem num acidente de automóvel espalhafatoso, com o Renault 9 cor de café com leite clarinho, a caminho de qualquer localidade onde fossem visitar os outros retornados, com os quais auguravam o pior dos futuros para a África negra. Parecia-me tudo gente congelada no tempo e na ideologia, incapaz de se adaptar, esquecer, permanecer e avançar. Não via futuro para mim. Ser órfã tardia constituía a única salvação ao meu alcance. Se os papás desaparecessem, o meu caminho ficaria livre, como já estava mais ou menos, desde que tinha chegado em 1975. Livre para beber e chegar tarde, para fogosas tardes e noites de restolho clandestino, com quem me apetecesse, e apetecia, embora as condições físicas se apresentassem desfavoráveis.”

"Quando os papás vieram de África deu-me jeito pensar que já não faziam aquilo que os pais nunca fazem, embora eu tivesse começado pouco tempo antes.
O sexo era uma brincadeira, mas a sério, sumarenta e líquida como descascar uma laranja e comê-la, sem palavras próprias nem regras. Era uma brincadeira de animais saciados-esfomeados, sem se perceber a diferença. Não podia ser possível nem verdade que os nossos pais se entregassem a um gosto tão bom depois de nos ensinarem a encará-lo como vergonha.
Não somos capazes de ver os pais como pessoas iguais a nós, como penso que eles não são capazes de nos ver como pessoas que também já foram, antes de se terem tornado aqueles que conhecemos. Somos continuações e prolongamentos uns dos outros, que se escondem e se temem."

“Morrer talvez não seja muito difícil, se não tivermos pena de nós e do que deixamos, mas sobreviver à morte, que testemunhamos continuando vivos, carregando-a sobre os ombros, exige sangue-frio e coragem.”

Texto da autoria de Jorge Navarro

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