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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

A Escolha do Jorge: Cláudio e Constantino

"Cláudio e Constantino" é o mais recente livro de Luísa Costa Gomes (n. 1954) após a edição de "Ilusão (ou o que quiserem)" de 2009 que lhe valeu no ano seguinte a atribuição do Prémio Literário Fernando Namora/Estoril Sol.
"Cláudio e Constantino" é um livro singular na medida em que ao iniciarmos a leitura rapidamente nos apercebemos que o espaço, o tempo e o próprio modo como decorre a narrativa (se é que podemos falar efetivamente nesses termos) são diferentes daquilo que estamos habituados num romance.
Passado numa área rural, numa propriedade de uma família tradicional e com posses, os irmãos Cláudio e Constantino deparam-se no dia-a-dia com questões que remetem para alguns dos paradoxos clássicos da história da filosofia, brincando, desse modo, com as palavras.
Nós próprios, não poucas vezes, não nos damos da forma como construímos as frases, não dando importância ao efetivo significado das palavras. A partir do momento em que as conversas são direcionadas no sentido de alcançar alguma verdade absoluta, é precisamente aí que somos confrontados com essa (quase) impossibilidade dada a equivocidade da linguagem.
Não podemos ler esta obra com a ideia de se tratar de uma obra mais ou menos verosímil dado que rapidamente percebemos que "Cláudio e Constantino" nunca existiriam nos termos aqui apresentados, mas, neste contexto, é a premissa necessária utilizada pela autora para, de forma mais ingénua, fazer uma tentativa de apropriação do real e da própria linguagem de modo que dá a sensação que nos apresenta crianças com uma forma de pensar adulta e adultos um tanto infantis. Aqui a ideia é levar os adultos a pensar sobre que domínio têm da linguagem, assim como o modo como comunicam com as crianças e jovens e vice-versa.
Mesmo para quem diga que não aprecia a Filosofia ou que não tem muita paciência para abordar certos assuntos, "Cláudio e Constantino" delicia(m)-nos logo nas primeiras páginas quando entramos no jogo das palavras e somos levados a reler um ou outro parágrafo na sequência de termos ficado confundidos.
Ainda assim, "Cláudio e Constantino" não é um livro de filosofia, mas com ele certamente ficamos a compreender algumas das bases e pertinência da Filosofia e da importância da própria linguagem que nos aproxima ou afasta de certas ideias em concreto ou que simplesmente nos baralha para mais tarde concluirmos que nem sempre as ideias se apresentam de modo claro, ou apresentando-se claras, distintas, sem margem para dúvida (segundo Descartes), o espírito humano pode ainda somente encontrar-se a caminho dessas mesmas (in)certezas.
Este é sem dúvida um livro indicado para ser trabalhado nas aulas de Filosofia do ensino secundário,
nem que seja somente alguns excertos dado que o modo como está escrito num tom humorístico tem o estilo adequado para os jovens terem vontade de se aventurarem no mundo dos paradoxos apresentados.
Em jeito de conclusão, não é de estranhar que a sinopse se refira a "Cláudio e Constantino" como se tratando de "uma novela rústica em paradoxos".

Excertos:
"- Como é que ela se convence de uma coisa de que não está convencida? – perguntou Flora. – E logo ela, que é o cúmulo da teimosia! Se já é extremamente difícil a outrem convencê-la do que quer que seja, imagine o que será ela convencer-se a si própria!
- Se a senhora não conseguir convencer-se de que nesta altura da sua vida não sofre de doença nenhuma, então podemos usar uma droga para a ajudar a convencer-se. São algumas gotas de cheiro nauseabundo, amaríssimas, com efeitos secundários desagradáveis que, se tomadas de hora a hora, são remédio extremamente eficaz. Curial é seguir à risca as instruções da toma para fazerem o seu

efeito.
Celina, deitada no sofá, respirava com dificuldade. Ergueu a mão débil para chamar Flora. Gemeu um gemido longo, remoto, cavernoso. A irmã aproximou-se e disse-lhe ao ouvido:
- Consegues convencer-te de que não tens nada? – perguntou Flora.
- Estou a tentar – arfou Celina.
- Se a senhora conseguiu convencer-se em dez minutos de que estava doente, também consegue convencer-se do contrário – filosofou o médico.
- Se não fosse a dor no peito… - aventou Celina.
- É uma decisão muito difícil – comentou Flora.
- Olhe, de momento, Dr. Jerónimo, prefiro o remédio.
(…)
- E os efeitos secundários? – perguntou Celina, preocupada.
- Obstipação nervosa, irritação e extrema sonolência ocorrem uma vez em cada dez casos.
(…)
A verdade é que Celina tomou as gotas uma vez e decidiu que nunca mais as tomaria. Detestava tomar remédios. Ainda por cima um que a convencesse de que não estava doente! Não, não queria ficar irritadiça e sonolenta. Fingia que tomava as gotas e fingia que estava curada de não ter nada. Assim o remédio, embora por uma linha torta, fez o que devia fazer. Como não queria continuar a viver na despensa – que se revelou húmida e bolorenta – Celina deixou de se queixar. Flora via-a a remoçar com novos passeios até ao bosque e dias inteiros de banhos de mar. E cantava homenagens ao Dr. Jerónimo, o melhor médico que alguma vez pisou o chão desta terra e às suas mezinhas milagrosas que salvaram a irmã de uma doença que ela nunca teve." (pp. 149-150)


Texto da autoria de Jorge Navarro

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