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quarta-feira, 3 de junho de 2026

"Tudo na Natureza Apenas Continua" de Yiyun Li

Que livro este! Só a premissa, caso fosse ficção, é terrivel e afastaria muitos leitores! Sendo não-ficção, quem se atreve a lê-lo começa as primeiras páginas com uma sensação de desconforto e com a pergunta "como é que ela sobreviveu e sobrevive a esta situação toda?"

A autora perdeu os seus dois filhos num intervalo de sete anos, o Vincent com 16 anos em 2017 e o James com 19 em 2024. Suicidaram-se ambos.

E no entanto este livro não é nada lamechas (teria todo o direito de o ser!) e é aparentemente escrito de uma forma fria, analítica. Mesmo assim senti-me mais confortável em meter outras leituras pelo meio. Posso afirmar, sem receio de estar a enganar-me, que este foi o livro que mais sublinhei. Neste caso, lido em ebook, as frases sublinhadas e guardadas ajudaram-me nesta partilha que aqui faço. Deixo aqui apenas algumas.

Quero referir também que a vida desta autora premiada, que ela tembém aborda aqui no livro, é por si só um filme de violência, de dor.

"O meu coração já começava a ter uma sensação para a qual não há nome. Podemos chamar-lhe dor, tormento, suplício, mas nenhuma destas palavras serve tão usadas são, que se tornam inuteis" pág 8

"Mesmo fazendo tudo o que é humanamente possível e sensato por um filho, uma mãe não consegue obrigá-lo a viver - com este facto teria eu própria de viver, refleti, todos os dias, sem exceção, até ao fim da minha vida". pag 55

"Muito raramento contamos a passagem do tempo tão atentamente como no início da vida de um recém nascido; um dia, três dias, sete dias, duas semanans, três semanas de idade. Pela minha experiência, só voltamos a contar com tanto cuidado e atenção depois da morte de um filho; passou um dia, passaram três, uma semana, três meses." pag 73

"Imagino que, perante a minha vida, muitas pessoas façam esta pergunta, ou uma variação dela, em voz alta ou de si para consigo: Como pôde isto acontecer? Todos os dias, sem exceção, quando páro de escrever no computador, ou enquanto cozinho, leio, toco piano, ou faço uma pausa nas escadas, ao subir ou descer, ouço-me perguntar: Como pôde isto acontecer? Como é possível? Como acabei nesta situação-limite a que chamo a minha vida?" pag 127

"Como se vive no fundo do abismo? Marcando passo. De que outro modo se pode viver?" pag 128

"Não sou uma mãe em luto. Sou uma mãe que viverá, todos os dias sem exceção, até ao fim da vida, com a mágoa de ter perdido o Vincent e o James, e com a memória de os ter criado." pag159

E muitas mais citações ficaram anotadas. Um livro a ler. Mesmo assim, essa dor é, para a grande maioria, inimaginável!

Terminado em 4 de Maio de 2026

Estrelas: 5

Sinopse
«Escrever, ensinar, jardinar, ir ao supermercado, cozinhar, tratar da roupa — são atividades que, situando-se no tempo, não rivalizam com os meus filhos, porque eles se tornaram intemporais.»

Vincent morreu com 16 anos. James morreu com 19 anos. Num intervalo de sete anos, os dois filhos de Yiyun Li escolheram o suicídio, a meio caminho entre a escola e a casa de família. Tudo na natureza apenas continua é um testemunho delicado, revolucionário, que tem origem no «abismo», o novo habitat de uma escritora que escolhe professar a «aceitação radical» destas mortes trágicas.

Indefetível na eterna condição de mãe, eternamente ligada aos seus filhos, Yiyun Li faz germinar neste livro uma gramática só sua: austera, íntima, capaz de descrever uma das mais extremas experiências humanas, no ponto exato em que a linguagem costuma falhar.

Num exercício literário inigualável, Yiyun Li fixa para sempre o lugar dos seus filhos no mundo, porque «não há agora e outrora, agora e mais tarde; só agora e agora e agora e agora», mas somente agora e agora e agora e agora», como um tempo que nunca termina, apesar da tragédia.

Cris


segunda-feira, 1 de junho de 2026

"Quem Diz e Quem Cala" de Chiara Valerio

Após o término deste livro fiquei com uma sensação mista de prazer e confusão. Explico porquê.

A acção passa-se numa pequena vila italiana ("Uma vila é um lugar onde todos sabem tudo sobre todos", pag 54) e a narradora é uma jovem advogada, Lea  Russo. É através dela que entramos nessa pequena vila onde os segredos, aparentemente, são do conhecimento geral de todos os habitantes...

No entanto, a morte de Vittoria, uma senhora já com alguma idade e que todos achavam de convivência agradável vem mostrar que nada é o que parecia ser. A morte, aparentemente :) foi acidental mas Lea, um pouco com o conhecimento que tem de Vittoria e com alguma investigação, vai pondo isso em causa. Quem é afinal, Vittoria? 

Até aqui o livro foi despertando em mim um interesse crescente tanto mais que somos levados pela autora a duvidar e a querer saber mais sobre os segredos que fizeram parte da vida de Vittoria. A análise psicológica das personagens está muito bem conseguida e fiquei presa rapidamente a esta leitura.

Aquilo que as pessoas revelam de si e aquilo que elas preferem calar aos outros, eis-nos chegado ao título do livro. Até que ponto conhecemos verdadeiramente alguém? Conhecemos apenas fragmentos da vida das pessoas.

Referi anteriormente que tinha ficado confusa também e esse sentimento está relacionado com o final do livro que achei abrupto e não conpreendi. Percebi que a intenção do livro está precisamente no título do livro e a explicação da causa da morte não é o objectivo final (este livro não é um policial ou thriller!) mas achei o final demasiado rápido.

Terminado em 25 de Abril de 2026

Estrelas: 4*

Sinopse
Quando a morte de alguém numa aldeia pacata traz consigo a revelação de um passado silencioso, começa a revelar-se quem diz e quem cala segredos alheios…
Scauri, no mar Tirreno, a menos de duas horas de Nápoles e de Roma, é o destino habitual de mais de cem mil veraneantes; mas no inverno é uma aldeia pacata, nem bonita nem feia, onde vive a jovem advogada Lea Russo que, apesar de tudo, talvez preferisse morar num lugar mais sofisticado. Mesmo assim, a chegada de Vittoria, uma mulher citadina de meia-idade que veio acompanhada de Mara – uma rapariga que não se sabe se é sua filha adotiva, protegida ou amante –, acabou por animar as hostes daquele lugar, sobretudo porque Vittoria é muitíssimo interessante e comunicativa (embora nunca deixe saber mais de si própria do que realmente quer) e por ali prometeu ficar, dado que comprou casa em Scauri. Como seria de esperar, Lea e Vittoria tornam-se, com o tempo, grandes amigas.
Depois de um fim de semana fora, em casa de amigos, a notícia que Lea e o marido recebem no regresso é terrível: Vittoria foi vítima de um estúpido acidente na banheira e morreu.
Lea fica incrédula e, quando fala com Mara sobre o assunto, não se convence do que esta lhe conta; e menos convencida fica de que se tratou de um mero acidente quando aparece na aldeia para tratar de testamentos e heranças o distinto marido de Vittoria… Este é um romance extremamente original entre o policial, a história do meio pequeno e a narrativa psicológica, em que a revelação de um passado silencioso se opõe diante de um presente estridente. Em Quem Diz e Quem Cala, cada página é uma surpresa, tudo pode sempre mudar.

Cris